quarta-feira, 14 de outubro de 2020

À la Benjamin Button... (11)


Instantes: 9/5/20.

Refeição Cultural

Olhar para trás...


Hoje é dia 14 de outubro. Ano 2020. Uma quarta-feira.

Estava mexendo em papéis velhos. Quanta história há neles. Reviro as pilhas de papéis e documentos com a intenção de jogá-los fora e na hora H não consigo. Os papéis me lembram de uma época recente em que a classe trabalhadora vivia momentos mais promissores. O Brasil parecia ter encontrado o caminho da felicidade. Eu participei da construção daquela realidade da história brasileira com democracia, liberdade, ascensão social, oportunidades para as camadas populares da sociedade. 

Pensando os tempos históricos, é algo muito recente aquele mundo melhor. Estou falando de 2006, 2008, 2010, 2012. Em 2014 o Brasil alcançava praticamente o pleno emprego e com direitos sociais (menos de 5% de desemprego), com aumentos reais do salário mínimo e dos salários das categorias profissionais fazia uma década. Direitos novos para a classe trabalhadora. Empresas públicas sem risco de extinção e doação, pelo menos as estatais federais (sob governos do PT). As pessoas tendo plena liberdade de dizer o que bem queriam, inclusive contra o governo federal. Hoje vivemos uma tragédia. A destruição de tudo contando com o apoio de parte do povo idiotizado e parte apoiando a destruição por pura canalhice egoísta e lesa-pátria. Por puro ódio incentivado e estupidificante. Que retrocesso em tão pouco tempo!

Onde erramos? Quanto da realidade é culpa nossa, individual, quanto é culpa nossa, coletiva? Será que tudo que fazemos é em vão, em relação à luta de classes? A impressão, neste momento em que avalio minhas cinco décadas de existência, é que a gente luta, avança um pouco e tudo volta ao normal; o normal sendo uns poucos com todo o poder violento e totalitário contra a imensa maioria do povo. Isso é o que conhecemos de alguns milhares de anos da existência humana, em qualquer lugar do Planeta. A violência e a força são as ferramentas que vencem na luta pela existência na natureza. E a ideologia da classe dominante também. Como indivíduo, naquilo que posso, não endosso essa questão de uns poucos desgraçarem a nossa vida. Mas que essa é a realidade, é.

É tudo tão sem sentido, nesta conjuntura social, que morro qualquer hora dessas e toda a papelada de história, que fico com dó de jogar fora, vai pro lixo. Tudo some. Tudo se apaga e é apagado. Vaporizado, como acontece no clássico distópico 1984, de George Orwell. O que era distopia na ficção, virou a realidade. Veja o Brasil após o golpe de 2016... Na ficção, tínhamos o Ministério da Verdade, baseado nas mentiras; tínhamos o Ministério do Amor, baseado no ódio. 

A ficção virou realidade. Agora temos ministério da educação, baseado na ignorância e destruição da educação; ministério do meio ambiente, baseado na extinção da fauna e flora; ministério da saúde, baseado no dane-se o povo. Aquela realidade que vi faz pouco tempo, parece agora uma ficção distópica. 

Que pena tudo isso! As coisas poderiam ser diferentes, já que não são naturais como as leis da Física, mas são naturalizadas pela ideologia da classe dominante. Que saco tudo isso! A gente não desiste, mas tudo conspira para que o mal vença. A gente ganha, porque não pactua com o mal, mas perde, porque o mal vai destruir tudo. Não tenho ilusões metafísicas e esotéricas. 

Olhando para trás, meses atrás, vi que a gente tinha sido convencido em fazer isolamento social porque a pandemia era algo sério. Os representantes do mal diziam que a Covid-19 era uma "gripezinha" e que poderia morrer umas "7 mil pessoas", mas que a vida era assim mesmo. Passados meses, vemos que a realidade é péssima. Já morreram mais de 150 mil pessoas no Brasil. 

Agora, mais que no começo da pandemia, quase não morrem ricos, classe média, gente famosa com recursos, gente branca. Morrem pobres, pretos, pardos, gente sem plano de saúde, gente sem remuneração certa. Morre gente na periferia das cidades. É como se algo viesse para diminuir as pessoas que dependem do Estado para viver: idosos, pessoas com alguma doença crônica, enfim, pobres em geral.

De novo, ao ver o cenário da sociedade humana, ele se parece muito com os cenários naturais em condição de natureza, nas savanas, nas florestas, desertos, nos habitats onde sobrevivem os mais fortes, mais adaptados e os que sobrevivem por acaso. Que merda! 

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(Olhando para trás, vejo que algumas postagens que fiz em rede social registram impressões, sentimentos e leituras de possíveis acontecimentos futuros)

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14/6/20

LITERATURA

Leitura do 3° conto do livro de Cortázar - Las armas secretas. "El perseguidor", ao som do grande músico de jazz Charlie Parker.

Post Scriptum (21h): Ufa! 80 páginas. Eu não conhecia o jazzman retratado neste conto de Cortázar, Charlie Parker (Bird). Ouvi por horas as músicas dele.

(Lá fora, seguem as coisas do mundo. Pandemia, mortes, fascismo, e alguma resistência surgindo)

17/5/20

POLÍTICA - DESUNIÃO DA ESQUERDA (II)

A "esquerda institucionalizada" e ou seus burocratas, sei lá, decidiram se extinguir... cansaram de existir. O mal que se apoderou do poder, agradece!

Post Scriptum: além da matéria estar excelente (da Revista Fórum, sobre ser necessário alianças país afora entre PT, PCdoB e PSOL), me fez lembrar das eleições Cassi 2018 e 2020... as questões de divisões no campo da esquerda e popular são de consequências óbvias! 

(Mas o óbvio vai prevalecer DE NOVO..., é o que prevejo)

16/5/20

POLÍTICA - DESUNIÃO DA ESQUERDA

Frente ampla, frente única, unidade da esquerda? Com os humanos que temos aí? Esquece! Seremos extintos antes... (sobre desistência de Freixo em ser candidato no Rio por não haver unidade da esquerda)

Triste afirmar isso, mas passei duas décadas no movimento e vi a degeneração dos princípios e práticas da esquerda... nossa essência era a solidariedade e a tolerância, o diferente importava...

Já era! As bolhas cada vez menores de gente concordante acabou com a esquerda.

15/5/20

UM "MINISTRO" SOBRE O BANCO DO BRASIL

"Vamos vender logo a porra do Banco do Brasil" teria dito o Ministro do cara eleito com 57 milhões de votos de mulheres, negros, pobres, colegas da ativa e aposentados do BB...

Depois da "porra" de nossa empresa pública ser doada, os caras vão meter a mão nos BILHÕES de nossas aposentadorias da Previ...

Tudo bem, coleguinhas de direita? Será que vai fazer falta o complemento de aposentadoria da Previ na vida de vocês? (Continuem bolsonariando)

09/5/20

JÁ FIZEMOS COISAS BOAS

Instantes (já fizemos muita coisa boa...)

Acordei e peguei o celular para ver alguma coisa do mundo em declínio. Tudo fragmentos, instantes de um mesmo mundo.

Ao ler um texto de memórias do companheiro Zé Alves, pensei no quanto nós trabalhadores já fizemos coisas boas. Zé Alves é um brasileiro.

Ontem, conversava com um grande amigo, Ricardo Linares, e ele me contou da rotina em família durante a quarentena. Comentei com minha esposa emocionado o quanto é legal ver pessoas como ele esposa e filhos estarem bem e atravessando essa pandemia unidos e crescendo juntos. Ricardo é um brasileiro.

De meu desejo de ser mais acabativo com leituras, porque a vida se tornou muito incerta e se vive hoje, se tosse, falta o ar e se morre amanhã, fui olhar as pilhas de livros iniciados e não acabados. Tem clássicos, tem lançamentos, tem romance, tem de política, tem de história...

Aí peguei agorinha o de romance do Sandro Sedrez dos Reis. Amigo de coração. A estória começava em um sábado de algum outono do século XXI (coincidência!) E acabei fazendo um cappuccino como a personagem... o livro do Sandro é um dos lançamentos que tenho iniciada a leitura. O livro já me fez pensar muito, as estórias pegam a gente de jeito. O Sandro é um brasileiro.

Nesse instante, ouvindo a trilha sonora de um filme que mexeu comigo (ver abaixo), pensando em várias vidas comuns de brasileiros como Zé Alves, Ricardo Linares, Sandro Sedrez, eu mesmo, olhando pra história de vida da classe trabalhadora, no BB onde passamos nossa vida, emocionado e com lágrimas nos olhos, tenho a certeza que fizemos coisas boas, lutas pessoais e coletivas que visavam o bem e não prejudicar ninguém.

Quando lembro de quanto busquei energia extra dentro de mim pra enfrentar patrões, assediadores, gente má (algumas pessoas são más, de verdade), e também para enfrentar adversidades normais na luta entre capital e trabalho, sei que fizemos coisas boas para as pessoas.

Minha última etapa de lutas coletivas foi à frente da diretoria de saúde da autogestão dos funcionários do BB. Apesar de todas as dificuldades antigas de falta de recursos da entidade, fizemos coisas boas na área que éramos responsáveis. Nunca vou me esquecer das carinhas dos funcionários nas reuniões presenciais que fazíamos de Norte a Sul, de Leste a Oeste, conversando com todo mundo, de igual pra igual, d@ gestor(a) ao auxiliar, ouvindo a tod@s com respeito. O mesmo se dava com os funcionários do BB que representamos. Fizemos coisas boas, sei disso, e fizemos porque tivemos muita gente boa conosco. Sou muito grato a tod@s.

A gente torce para que passe esse período de ascensão do mal e da ignorância e que as pessoas voltem a ter oportunidades de vida como nós tivemos em nossas vidas de lutas.

(ouvindo Stay Alive... Don't Let It Pass... Space Oddity... trilha sonora do filme A vida secreta de Walter Mitt)

07/5/20

SOBRE A QUESTÃO SE FALHEI (FALHAMOS) OU NÃO EM RELAÇÃO À SITUAÇÃO EM QUE CHEGAMOS

Opinião

Post Scriptum (7/5/20, às 10h20):

Após ver os comentários, boa parte deles embasados no comportamento político questionável do cidadão Lima Duarte, e eu respeito os comentários, que por sinal me fizeram pensar se eu acertei ou errei ao aproveitar o vídeo de Lima Duarte para fazer uma autocrítica sobre a situação em que nos encontramos, eu penso o seguinte:

Quem fala, fala de algum lugar. Não existe fala neutra, isenta, imparcial. O pior é quando dizem que uma fala é "técnica" como se um técnico não fosse tucano, petista, bolsonarista, agressor de mulheres, racista etc.

O Lima Duarte, na altura de seus 90 anos, pode não ser a melhor pessoa para fazer mea culpa de suas posições políticas que contribuíram para o país chegar ao ponto em que chegou com o MAL no poder e com adesão de 1/3 das pessoas comuns. Mas é importante ele pedir perdão, sim! 

Inclusive ao amigo que se suicidou por não aguentar mais!

(Hitler - e o nazismo - conquistou apoio expressivo do povo alemão também. Como teria sido possível? Todo o povo alemão era mal? Ou vários fatores contribuíram para aquela desgraça toda?)

Eu refleti sobre os comentários e sobre o que escrevi e reafirmo que FALHEI e como ex-dirigente sindical e membro de movimentos de luta da classe trabalhadora nos últimos 20 e poucos anos, penso que FRACASSAMOS sim. As coisas não acontecem sem estarem interligadas. Tudo na vida pessoal e coletiva, social, está imbricado como as peças de um telhado, tudo são tijolos da mesma parede.

Como posso achar que não falhei, se apoiaram Bolsonaro e outros seres asquerosos (e suas ideias) pessoas que amei a vida toda como tios queridos, primos com quem vivi décadas, colegas do banco com os quais sofri junto, vizinhos que me viram a vida toda saindo de casa para ir pro Sindicato, pra CUT, pra assembleias estudantis e dos trabalhadores e quando vemos, eles estão apoiando tudo aquilo que combatemos?

Nós somos os bonzinhos e eles são os mauzinhos? Nós os paladinos da ética e da moral e eles os defensores do jeitinho brasileiro de fazer tudo politicamente incorreto? Será que não temos culpa nisso?

Quando começamos a nos afastar e isolar qualquer pessoa que pensava diferente de nós pra ficarmos confortavelmente em nossas bolhas concordantes, achamos que eles sumiriam da terra? Não sumiram. Ao invés disso, se bandiaram pro outro lado, e esse lado se transformou no MAL do bolsonarismo, violento, odiento, repugnante.

Eu vi nos últimos 15 anos pessoas angelicais, moças bonequinhas, rapazes doces, gente adulta e idosa virar gente que te assusta quando abre a boca e começa a falar grosserias, a repetir ofensas e afirmar coisas sem fundamento de quem eles não conheceram como se fossem "inimigos" que eles viram fazer o mal pessoalmente por anos a fio.

As pessoas foram envolvidas em sistemas de manipulação de massas nunca criados na história da humanidade porque não havia ferramentas para isso antes. Como quase todos os seres humanos têm alguma conta em redes sociais e vê algum tipo de noticioso de informação que manipula gente, mexe com medos e ódios, esconde ou enaltece pautas programadas, as pessoas não foram capazes de resistir a essas máquinas de manipulação.

E nós da esquerda, progressistas, dos movimentos populares não erramos em nada? Não temos culpa nenhuma nisso? Então, tá! Fica assim...

Eu sinto enquanto cidadão de 51 anos, que nasceu em 1969, que foi jovem nos anos 80 e 90 e militante social com mandatos eletivos até dias atrás, eu sinto que FALHAMOS, porque estivemos em instâncias de poder e algo fizemos (ou não fizemos) que não conseguimos combater os inimigos que agora estão aí.

Repito: respeito os comentários e eles me ajudaram a refletir mais sobre pedir ou não perdão por não ter conseguido evitar que meus tios, primos, colegas do banco, amigos e vizinhos se tornassem bolsonaristas ou dê o nome que quiser para pessoas que são de direita, de extrema ou de centro, que odeiam pobre, preto, petista, comunista, direitos humanos, gay, ateu etc. E eu tenho na família tudo, preto, gay, pobre, ateu, deficiente físico, evangélico, tucano, petista, bolsonarista...

É isso! Abraços fraternos aos amig@s que comentaram na postagem sobre "perdão".

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Fim dos registros e do olhar para trás... (por enquanto).

William

terça-feira, 13 de outubro de 2020

3. Ensaio sobre a cegueira - José Saramago



"Porque os livros do mundo, todos juntos, são como dizem que é o universo, infinitos." (SARAMAGO, 2002, p. 290)


Refeição Cultural - Cem clássicos

José Saramago publicou o Ensaio sobre a cegueira em 1995. Naquele ano, eu e meus colegas de trabalho no Banco do Brasil vivíamos o terror por causa do plano de reestruturação do maior banco público do país, feita pelo governo lesa-pátria do rei dos sociólogos e a tucanagem. Dezenas de milhares de pais e mães de família perderam o emprego, ocorreram dezenas de suicídios, e tentou-se privatizar o banco.

A história da humanidade é feita de incontáveis acontecimentos em todos os lugares ao mesmo tempo e o tempo todo, como agora, quando escrevo. Neste instante, poderia quase caracterizar a realidade como uma ficção distópica, como o Ensaio de Saramago. O Brasil queima, seca, mata milhares de pessoas por dia por vírus, por violência, por fome, por miséria, por desilusão no viver. 

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"Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem." (SARAMAGO, 2002, p. 310)

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Li o Ensaio pela primeira vez em 2003. Não tenho tanta lembrança dessa leitura quanto tenho da segunda vez que o li. Foi em 2008. Eu havia mudado muito como pessoa. Havia me politizado muito ao ser dirigente da classe trabalhadora. Na segunda vez que li, o Ensaio me pegou em cheio. Só de escrever ao lembrar, eu me arrepio.

A obra havia sido adaptada para o cinema, com direção de Fernando Meirelles (aliás, o filme é muito bom!). Então, decidi reler o livro antes de ir ao cinema. Eu me lembro de estar lendo ele no trem ou no ônibus e ficar sem jeito pelo tanto que a leitura me impactava, os olhos enchiam de água, eu sentia raiva da cena que lia, nojo, revolta, dó. Foi difícil! Acho que é uma das leituras mais duras que já fiz.

Tenho muitas obras de José Saramago para ler ainda. Certa vez, disse que os livros dele são do tipo "e se acontecesse tal coisa?". São ficções distópicas, são ensaios de possibilidades do tipo: e se todo mundo ficasse cego? E se todo mundo decidisse não votar em ninguém? E se tal país se soltasse e fosse embora do continente? Ou seja, o escritor português é demais! Nos põe a pensar.

Eu estou refletindo sobre os meus clássicos. Saramago é um clássico! Após a leitura deste clássico, o Ensaio sobre a cegueira, eu pude ler outros livros dele e cada um foi mais fantástico que o outro. Vou contar mais algumas aventuras saramaicas nesta lista que estou fazendo.

Deixo aqui o link da postagem que fiz com frases selecionas do Ensaio, elas servem para a vida toda.

William


Bibliografia:

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

2. O velho e o mar - Ernest Hemingway



"Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: 'Estou relendo...' e nunca 'Estou lendo...'. " (CALVINO, 2000. p. 9)


Refeição Cultural - Cem clássicos

"Ele era um velho que pescava sozinho em seu barco, na Gulf Stream. Havia oitenta e quatro dias que não apanhava nenhum peixe. Nos primeiros quarenta, levara em sua companhia um garoto para auxiliá-lo. Depois disso, os pais do garoto, convencidos de que o velho se tornara salao, isto é, um azarento da pior espécie, puseram o filho para trabalhar noutro barco, que trouxera três bons peixes em apenas uma semana. O garoto ficava triste ao ver o velho regressar todos os dias com a embarcação vazia e ia sempre ajudá-lo a carregar os rolos de linha, ou o gancho e o arpão, ou ainda a vela que estava enrolada à volta do mastro. A vela fora remendada em vários pontos com velhos sacos de farinha e, assim enrolada, parecia a bandeira de uma derrota permanente." (HEMINGWAY, 2001, p. 13)


No texto de Italo Calvino "Por que ler os clássicos" ele começa abordando aquele constrangimento ou vergonha que muitos leitores sentem por não terem lido uma determinada obra que poderia ser considerada clássica ao serem questionados sobre ela por alguém. 

Acho que, no meu caso, a justificativa mais usada para tal questionamento sobre uma obra não lida seria dizer que comecei e não consegui acabar de ler, ou então digo que não a li ainda, se não tiver ao menos começado a leitura. Seria algo como achar que fosse viver mais uns duzentos anos para poder ler o que gostaria de ler, além das sugestões que recebemos de livros para serem lidos. Acho que já iniciei algumas dezenas de livros que não segui até o fim da leitura.

Esse não é o caso para O velho e o mar (1952), do escritor americano Ernest Hemingway. Eu já li o livro cinco vezes, desde a primeira leitura em 2002. O velho Santiago já me fez pensar muito na existência humana, na condição dos homens frente à grandeza e poder da natureza; já me fez pensar muito na capacidade e necessidade de nunca desistir quando tudo parece dar errado em nossas vidas, mas não temos outra coisa que fazer a não ser fazer o que tem que ser feito, porque estamos vivos e somos o que somos.

Ao rever minhas postagens no blog e ao rever escritos velhos, como a lista de objetivos a cumprir ou coisas a conquistar, lista que fiz há pelo menos um quarto de século, consta lá que eu estabeleci a mim mesmo que deveria ler "cem clássicos". Ao escrever isso, eu não tinha a menor noção da abrangência e dos conceitos teóricos envolvidos na definição do que seria considerado um "clássico". 

Quando entrei na Universidade de São Paulo para fazer um curso de Letras comecei a ter algumas noções sobre os clássicos e me parece que não há nada definitivo e lógico que feche o conceito no que seria ou não seria um clássico. Vários autores falam sobre clássicos e os conceitos são bem abertos. 

Vou aproveitar o momento de minha vida e tentar contar em que ponto estou do meu objetivo de ler cem clássicos. Está claro que a contagem e definição serão arbitrárias e serão os meus cem clássicos.

Ontem, comecei citando a leitura do Era dos extremos, de Hobsbawm. A meu ver, pela relevância da obra e do autor na área do conhecimento humano sobre História, considero um livro clássico. Hoje, cito O velho e o mar, de Hemingway. Ambos, autores e livros, me trouxeram reflexões, ensinamentos e exemplos que marcaram meu comportamento enquanto ser humano.

O velho e o mar tem tantos instantes de sabedoria, que o leitor não consegue ficar sem olhar para o horizonte e refletir ao ler aquele pensamento, seja do personagem, seja do narrador. Veja alguns exemplos:

"'Mas', pensou, 'eu as mantenho sempre na mesma profundidade. O que aconteceu é que acabou a minha sorte. Mas, quem sabe? Talvez hoje. Cada dia é um novo dia. É melhor ter sorte. Mas eu prefiro fazer as coisas sempre bem. Então, se a sorte me sorrir, estou preparado.'" (p. 35)

Se décadas atrás, eu já achava uma espécie de humilhação sentir cãibra naqueles momentos em que contamos com o vigor de nosso corpo, que dizer agora quando a idade avança e às vezes temos cãibras até quando estamos dormindo? A reflexão do velho Santiago é muito profunda e nos toca a todos:

"'Detesto cãibras', pensou o velho pescador. 'É uma traição do corpo. É humilhante ser atacado de diarreia devido a um envenenamento de ptomaínas ou, pela mesma causa, nos vermos obrigados a vomitar.' Mas uma cãibra, se não era humilhante ante os outros, humilhava-o diante dele mesmo, muito especialmente quando estava sozinho." (p. 65)

Finalizo esta postagem com mais dois momentos muito belos e profundos de O velho e o mar. Aliás, dia desses, assisti ao filme O regresso (2015), no qual DiCaprio ganhou o Oscar, e fiquei muito pensativo sobre o homem frente à natureza. É verdade que a tecnologia atual nos fez capaz de destruir a natureza e estamos acabando com ela para sempre. Um ou dois séculos atrás, a natureza ainda se impunha bastante sobre o animal humano.

"(...) Preciso conservar todas as forças que me restam. Meu Deus, nunca pensei que ele fosse assim tão grande.

     'Mas tenho de matá-lo', murmurou o velho. 'Em toda a sua grandeza e glória. Embora seja injusto. Mas vou mostrar-lhe o que um homem pode fazer e o que é capaz de aguentar. Eu disse ao garoto que era um velho muito estranho. Agora chegou a hora de prová-lo.'" (p. 67)

E fecho com essa:

"(...) 'Quantas pessoas ele irá alimentar? Mas serão merecedoras de um peixe assim? Não, claro que não. Ninguém merece comê-lo, tão grande a sua dignidade e tão belo o seu modo de agir.'

     'Não compreendo estas coisas', pensou ele. 'Mas é bom que não tenhamos de tentar matar a lua, o sol ou as estrelas. Já é ruim o bastante viver no mar e ter de matar os nossos verdadeiros irmãos.'" (p. 77)

Este livro vale muito a pena ler. Recomendo!

William


Post Scriptum: ao ler as duas outras postagens que fiz sobre leituras do livro, vi que elas seguem com alguma validade. A mais antiga, de 2008, porque tive o trabalho de selecionar vários momentos que geram muita reflexão (ler aqui) e a mais recente, de 2016, porque marca uma época pessoal de muita intensidade (ler aqui).


Bibliografia:

CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.

HEMINGWAY, Ernest. O velho e o mar. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001.


domingo, 11 de outubro de 2020

1. Era dos extremos - Eric Hobsbawm



"O dia de hoje pode ser banal e mortificante, mas é sempre um ponto em que nos situamos para olhar para frente ou para trás. Para poder ler os clássicos, temos de definir 'de onde' eles estão sendo lidos, caso contrário tanto o livro quanto o leitor se perdem numa nuvem atemporal. Assim, o rendimento máximo da leitura dos clássicos advém para aquele que sabe alterná-la com a leitura de atualidades numa sábia dosagem..." (CALVINO, 2000, p. 14/15)


Refeição Cultural - Cem clássicos

"Não sabemos para onde estamos indo. Só sabemos que a história nos trouxe até este ponto e - se os leitores partilham da tese deste livro - por quê. Contudo, uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança da sociedade, é a escuridão." (HOBSBAWM, 2006, p. 562)

 

Foi com lágrimas nos olhos que li na manhã deste domingo a última página do livro Era dos extremos - O breve século XX, 1914-1991, do historiador marxista britânico Eric Hobsbawm, falecido em 1º de outubro de 2012. 

Depois de mais de uma década do início da leitura do livro, comecei a parte três "Desmoronamento" em julho deste ano. A parte dois também foi lida relativamente bem, após retomar a leitura do livro no primeiro semestre. Li "A era de ouro" a partir de meados de maio. O último capítulo do livro (19) se chama "Rumo ao milênio". Hobsbawm escreveu e publicou o livro no início dos anos noventa.

O último capítulo nos faz refletir muito sobre o presente, um quarto de século depois de escrito. O historiador, sem querer fazer previsões, apontava sérios problemas que despontavam no final do século e milênio passados. Ele falou muito de demografia e ecologia. Falou da dificuldade de haver democracia nos Estados e sociedades do século XXI em face das novas formas de conglomerados capitalistas.

Abordou as dificuldades que as sociedades humanas terão de encontrar soluções políticas, econômicas e sociais para as demandas básicas das pessoas através do "mercado" e sem intervenções estatais. Vislumbrou dificuldades de permanência da vida humana no planeta se não mudarmos o sistema hegemônico capitalista.

A LEITURA

Li os primeiros capítulos do livro em 2009. Como disse Italo Calvino, temos que olhar "de onde" o clássico está sendo lido. E ao fazer isso, eu me encontro e me acalmo para lidar com o fato de só ter acabado a leitura tanto tempo depois do início dela.

Em 2009, eu já era um dirigente experiente da classe trabalhadora, mas tinha um grande desejo de conhecimento em diversas áreas, dentre elas História. Eu recém começava um mandato na área de formação na confederação nacional dos bancários e queria muito contribuir para a área sob minha responsabilidade na organização da classe trabalhadora.

Li a parte um do livro diversas vezes - "A era das catástrofes" -, e todos os capítulos duas ou três vezes. A leitura me foi muito importante. Me fez compreender melhor a história em geral e a nossa história de lutas de classe. Após dois mandatos na área de formação, me peguei dirigente de uma das maiores autogestões em saúde do país. Fiz dezenas de palestras Brasil afora e muitas vezes fiz citações de Hobsbawm para iniciar os trabalhos com o público presente. Valeu a pena!

Me lembro de um ensinamento de Hobsbawm que me marcou muito para toda a vida:

"A principal tarefa do historiador não é julgar, mas compreender, mesmo o que temos mais dificuldade para compreender. O que dificulta a compreensão, no entanto, não são apenas nossas convicções apaixonadas, mas também a experiência histórica que as formou. As primeiras são fáceis de superar, pois não há verdade no conhecido mas enganoso dito francês tout comprendre c'est tout pardonner (tudo compreender é tudo perdoar). Compreender a era nazista na história alemã e enquadrá-la em seu contexto histórico não é perdoar o genocídio. De toda forma, não é provável que uma pessoa que tenha vivido este século extraordinário se abstenha de julgar. O difícil é compreender." (HOBSBAWM, 2006, p. 15)

E aí, passadas as duas primeiras décadas do novo milênio, temos grupos e líderes de extrema direita chegando ao poder em seus países; presidentes e vice-presidentes defendendo torturadores publicamente; líderes nacionais negando a ciência e atacando educação e cultura. Vemos parte da população mundial vivendo delírios negacionistas como acreditar que o planeta Terra é plano e bobagens do tipo. E olha que o mundo chegou ao ponto de quase todo o conhecimento humano estar disponível na internet com um clique no teclado de qualquer aparelho! Como diz Hobsbawm, o difícil é compreender por que as coisas estão assim.

A leitura das partes dois e três do clássico Era dos extremos se deu num contexto que dificilmente esperava acontecer neste momento de minha vida, aos 51 anos de idade. Nas cinco décadas de vida, vi e vivi muita coisa na vida de nosso país. Fui criança durante a ditadura civil-militar; adolescente sem direitos trabalhistas no país miserável dos anos oitenta. Bancário de banco público nos anos neoliberais de Collor e FHC. Dirigente nacional dos trabalhadores durante os governos democráticos do Partido dos Trabalhadores. Como dirigente de saúde, vi acontecer o golpe de Estado e o início do desmonte do país. E agora sofremos ao vivermos o caos e a destruição sob o bolsonarismo.

É isso. Obrigado por tanto ensinamento, mestre Eric Hobsbawm! Obrigado! Aprendi muito e continuo aprendendo com referências intelectuais como o senhor.

William


Bibliografia:

CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos - O breve século XX, 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 2006.


sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Sexista? Machista?



Opinião

Soube que o Papa Francisco está sendo acusado por movimentos sociais de ser sexista por ter dado título a uma encíclica com a palavra "irmãos" sem a correspondente de gênero "irmãs". Pelo que pude apurar, o título da encíclica "Fratelli Tutti" (Todos irmãos) seria baseado numa citação de São Francisco. Não colocar a palavra "irmãs" no título o tornaria uma pessoa sexista...

Eu me lembrei de um dos primeiros congressos de bancários (e bancárias) que participei nos anos noventa. Eu era bancário de base e não entendia quase nada das temáticas do movimento sindical. O plenário não conseguia sair do primeiro item: aprovação do regimento. Longa discussão tratava da questão sobre a inclusão ou não da palavra no feminino em todas as frases onde constasse a palavra no masculino - bancários, trabalhadores, delegados etc.

Irritado com aquela situação, perguntei o porquê de tudo aquilo para a companheira Deise Lessa, que era minha referência no movimento sindical. Ela me explicou e eu compreendi a importância da questão. Depois daquele evento, fui aprendendo aos poucos as questões de pautas identitárias no movimento social. Os anos se passaram. Fui dirigente sindical e representante da classe trabalhadora por quase duas décadas. Aprendi bastante com a militância e acredito que o movimento me fez uma pessoa melhor que antes do convívio com os movimentos sociais.

Ao pesquisar a palavra "identitária" na internet para falar alguma coisa sobre minha... - estupefação, surpresa talvez - ao saber que o progressista Papa Francisco está passando por esse tipo de acusação, me deparei com um artigo muito bom de Wilson Gomes, no site da Revista Cult. O nome do artigo é "A esquerda identitária e a satanização da maioria", publicado em 9 de novembro de 2018. Gostei do artigo e ele resume um pouco do que eu gostaria de dizer sobre a questão. Não vou deixar o link porque os links mudam e dão "error" depois. Também não vou reproduzir abaixo porque não sei se poderia.

Francamente, acho um exagero por parte do movimento organizado fazer esse tipo de acusação ao Papa Francisco, principalmente neste momento da história. Mas fiquemos assim. Todos e todas têm suas razões. Enquanto isso, a esquerda segue desunida nas disputas eleitorais para prefeitos e prefeitas dos municípios brasileiros. Seguimos cada um por si nos movimentos sociais de "esquerda" e a direita segue no lugar que sempre lhe pertenceu: no poder.

Na minha opinião, e baseado na experiência que adquiri após duas décadas de participação no movimento social, principalmente o sindical, e após representar a classe trabalhadora em mandatos eletivos, não acho que o título da encíclica papal (e a questão de não incluir a palavra "irmãs") faz com que o Papa Francisco seja sexista ou machista. Não é por aí, francamente!

William

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

081020 - Diário e reflexões


Refeição Cultural

Estamos no dia 8 de outubro do ano do aparecimento da pandemia do novo coronavírus no mundo. Ao sair para a rua, temos que colocar máscaras de proteção (como as focinheiras que se põem nos cachorros-feras). Eu detesto colocar máscaras. De verdade, detesto ter que fazer isso. Mas faço! É o que se tem que fazer. Questão cívica, ética, racional, solidária... política.

Interessantes as cenas cotidianas nesta nova realidade do mundo sob pandemia. Os cachorros-feras não usam focinheiras, mas seus donos usam (há anos, eu já achava engraçado os cachorros levarem seus donos para passearem enquanto aqueles cagavam nas calçadas e os donos eram puxados por eles com suas caras nas telas de celulares). 

Ao mesmo tempo, muitas bestas-feras como as lideranças fascistas que estão no poder do mundo necrocapitalista não usam as focinheiras-máscaras. Basta vermos como exemplos dois animais humanos que ocupam a presidência dos maiores países das Américas.

Em relação à pandemia e a volta àquela normalidade anterior a ela, aquela "somente" de destruição do mundo e da exploração do necrocapitalismo, mas sem máscaras no rosto e mortes pelo vírus Sars-Cov-2 (Covid-19), não estamos perto da normalidade. De acordo com a entrevista que li com o médico e cientista Miguel Nicolelis e com os especialistas ouvidos no programa "Diálogos Capitais", ambos no site da revista Carta Capital, são quase nulas as chances de termos uma vacina antes de meados do ano de 2021. É muito duro isso!

No momento, o mundo contabiliza 36 milhões de infectados, sendo 2 milhões de novos casos só na última semana. Já morreram oficialmente de Covid-19 mais de um milhão de pessoas. No Brasil destruído e entregue ao caos após o golpe de Estado de 2016, temos 5 milhões de infectados pelo vírus e 148.228 mortos oficialmente. Como o país testa pouco e existe um mascaramento da doença, alguns especialistas dizem que o número de mortos pode ser de mais de 200 mil pessoas.

Fica aqui o registro neste blog de um cidadão brasileiro. A pandemia do bolsonarismo segue sendo de consequências muito piores que a de Covid-19. Qualquer dia desses, daqui um ou dois anos, haverá uma vacina para a pandemia virótica, mas as consequências da pandemia de demência e mau-caratismo que infectou boa parcela dos animais humanos que vivem nesta terra serão para sempre. A destruição do meio ambiente, dos direitos do povo e das coisas públicas não terá volta. Acabamos.

William

Tempo


Refeição Cultural

O tempo é uma variável que me intriga desde que me entendo por gente. Para os seres vivos, a passagem do tempo cessa com a morte. Em algum momento, meu tempo de existência vai chegar ao fim. Isso é natural e todo ser humano vai lidar com a questão do fim das coisas vivas. Inclusive, os seres vivos têm que lidar com o fim das coisas não vivas, pois o tempo passa para tudo e uma das poucas coisas que sabemos é que tudo muda o tempo todo. Hoje tem uma floresta ali, amanhã tem um deserto. Hoje é terra, amanhã é mar. A montanha que existia sumiu. O planeta que existia explodiu...

Estou cursando uma disciplina na Faculdade de Letras que aborda esse tema, o tempo: "Configurações do tempo em diversas formas de narrativa e poesia", com a professora Viviana Bosi, na disciplina de Literatura Comparada II. Os textos do programa estão me fazendo pensar muito a respeito da questão. Algumas coisas me ligam mais ainda à temática da matéria: estou me despedindo da Universidade e do curso de Letras depois de duas décadas do início da graduação. Retornei ao curso o ano passado para completar os créditos e colar grau nas habilitações que fiz na década passada.

O primeiro texto que lemos foi um texto de um livro da década de cinquenta - Mito do eterno retorno -, de Mircea Eliade, e fiquei muito pensativo após a leitura. O autor afirma na introdução que o livro poderia ter como subtítulo "Introdução à Filosofia da História" porque ele vai tratar disso, olhar as sociedades arcaicas, que fazem um esforço tremendo para desprezarem a "história" por causa de uma característica delas: "trata-se de sua revolta contra o tempo concreto e histórico, sua nostalgia por uma volta periódica aos tempos míticos do começo das coisas, à 'Grande Era'." (ELIADE, 1992, p. 5)

Tempo, história, passado, presente, futuro. Como não refletir sobre essas variáveis em tempos de pandemia mundial? Como não pensar nessas questões neste momento da história humana sob a hegemonia do modo de produção capitalista, que acelerou como nunca a destruição do planeta Terra e, consequentemente, reduziu as possibilidades de existência dos seres vivos? Como não pensar no tempo e na história estando com mais de cinquenta anos de idade num mundo e numa sociedade nos quais a vida humana tem cada vez menos valor?

Ainda na introdução, gostei bastante do conceito de "homem cultivado" que o autor utiliza em relação a certa categoria de pessoas não-especialistas: "nossa preocupação foi no sentido de chamar a atenção do filósofo, do homem cultivado em geral". (p.6)

Do livro de Eliade, lemos o capítulo dois - "A regeneração do tempo".

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REFLEXÕES QUE TENHO FEITO

Quando olho para trás em minha vida, acho que sempre quis ser um "homem cultivado", mas o esgotamento físico e mental por ter que trabalhar desde muito cedo deve ter pesado um pouco no não atingimento deste objetivo de vida. Eu queria ser uma espécie de intelectual. Queria ser professor ou diplomata ou coisa do gênero. Não fui. A vida me levou por outros caminhos.

Além da questão da passagem do tempo, tenho pensado em outra coisa com muita frequência: a ideia de que a vida é uma jornada e não um destino. Os textos que estamos lendo na disciplina da professora Viviana Bosi também já me fizeram pensar nisso, pois não consigo concordar com a questão de um futuro determinista, já dado, ou de uma eterna recorrência e retorno das coisas. No entanto, essa forma de olhar para a vida e o tempo já foi bem diferente em minha vida. E como foi! 

Por enquanto, fico por aqui. Ando sem vontade de escrever. 

William


Bibliografia:

ELIADE, M. Mito do eterno retorno. Trad. José Antonio Ceschin. São Paulo: Mercuryo, 1992.


sábado, 3 de outubro de 2020

A USP fez parte da minha vida

 

Entrada da Faculdade de Letras da USP.

Ontem, fui até o campus da Universidade de São Paulo. Andei por mais de uma hora pelas ruas e alamedas daquele lugar magnífico que faz parte da minha vida. Foram tantos sentimentos e sensações que dificilmente poderia descrever. Foi como se eu estivesse me despedindo da USP. Ao ver tudo deserto, tudo fechado, as alamedas tomadas pelas folhas secas, o clima era de fim de uma época, talvez da própria educação.

De certa forma, estou me despedindo mesmo. Entrei no último semestre do prazo que me foi dado para completar os créditos necessários para colar grau nas duas habilitações que fiz quando entrei na Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) no vestibular de 2.000. Meu reingresso em 2019 se deu porque houve alguma discrepância na contagem de créditos quando terminei as disciplinas do programa de Português e Espanhol da época. Ao voltar, tive que cumprir uma nova grade de matérias obrigatórias, eletivas e optativas. As coisas correram bem em 2019. Quem diria que neste ano viria a pandemia e as aulas presenciais seriam suspensas em março. Tudo ficou mais difícil. Agora faltam exatamente os 2 créditos que faltaram da primeira vez que quis colar grau e não deu certo.

A história da educação pública é uma história de lutas pelo acesso à educação, pelo financiamento da educação, pela construção de oportunidades mais equânimes para estudantes das diversas classes sociais do país. A história da educação pública é uma história de luta do povo brasileiro.

Vejam que triste: estamos hoje lutando para salvar a educação como estávamos há 20 anos: 

Dias atrás, participei de uma plenária virtual com quase cem pessoas, professores e alunos da FFLCH, para que se pensasse coletivamente as melhores formas para lidar com a situação de manutenção das aulas em tempos de pandemia de Covid-19, os problemas das aulas virtuais em substituição às aulas presenciais etc. Também há uma luta coletiva neste momento para que o governo tucano não consiga aprovar um projeto (PL 529) que retira mais de um bilhão das 3 universidades paulistas e acabe de vez com a autonomia das universidades e com o financiamento das pesquisas e bolsas de graduação.

Pois é, quando entrei na FFLCH/USP em 2001, cheio de sonhos e acreditando que me tornaria professor, comecei a me envolver nas lutas em defesa da educação pública e a tomada de consciência se deu rapidamente através da realidade que enfrentávamos: as condições dos departamentos e dos cursos eram impossíveis de seguir daquela forma. Não havia professores para as disciplinas, o governo tucano havia depauperado a faculdade. Alunos se espremiam e desmaiavam tentando assistir às aulas dos poucos professores disponíveis para as disciplinas obrigatórias. Tivemos que organizar a maior greve da história da FFLCH no ano seguinte, em 2002. Foram 104 dias de greve para conseguir que o governo se comprometesse a contratar uma centena de professores e melhorar as condições físicas da estrutura na Letras, na História, na Geografia, nas Ciências Sociais e na Filosofia. Vinte anos depois, seguimos na mesma luta pela sobrevivência da educação...

Quando olho para trás, vejo que minha relação com a FFLCH/USP é mais antiga que minha relação com o movimento sindical, pelo menos formalmente. Quando eu era militante de base do Sindicato, nos anos noventa, minha relação era esporádica. Quase entrei para a diretoria do Sindicato nas eleições de 2.000. Eu precisava de um novo desafio na minha vida, porque estava muito difícil seguir trabalhando no banco público na era tucana. Eu havia começado um curso de graduação em Educação Física numa faculdade privada e tive que desistir no meio do curso por falta de dinheiro. Foi terrível! Acabei entrando na USP no vestibular de 2.000 e iniciei o curso de Letras em 2001. Como a vida é uma jornada, e não um destino, ou ainda, a vida é a escolha das veredas que trilhamos diariamente, mal comecei meu curso de Letras, acabei virando diretor do Sindicato em 2002, e com isso, meu compromisso com os trabalhadores fez com que a faculdade ficasse em segundo plano. Foi-se o sonho de ser professor e só completei as últimas disciplinas em 2011. Ou seja, fui dirigente sindical e representante da classe trabalhadora com mandatos eletivos entre 2002 e 2018, e minha relação com a USP é de 2001 até este momento em 2020.


Corredores desertos do Crusp.

Ontem, foi a primeira vez que andei de trem e ônibus desde março, quando a pandemia de Covid-19 interrompeu nossas atividades normais de circulação. Entrei na Universidade pelo portão de pedestres da estação de trem e caminhei, caminhei, caminhei. Passei pela Educação Física, depois pelo Crusp e restaurante do Bandejão. Passei na frente do DCE Livre da USP, fui para a Praça do Relógio e para a FFLCH. Adoro esse lugar. São vinte anos de amor a nossa Universidade de São Paulo. Sempre tive o hábito de atravessar a pé o Instituto Butantan para ir embora: estava fechado o acesso ao público. Após sair da Av. Prof. Luciano Gualberto, caminhei pela Avenida Prof. Lineu Prestes. Passei pelo Instituto de Química, depois, lá em cima, passei pela rotatória ao lado do final da Rua do Matão, e fui para o Portão 3, após passar pelo Hospital Veterinário da USP.

Essa pandemia foi uma merda para o mundo, principalmente para a educação pública e para os direitos sociais do povo. Se já era difícil lutar contra o sistema de poder das elites que dominam as máquinas públicas, ficou tudo muito pior com a pandemia, ela facilitou os ataques aos direitos sociais como a educação pública como nada antes havia conseguido. Tudo muito triste. Como disse, tive uma sensação de fim de uma época ao caminhar pelas ruas e alamedas desertas de nossa querida Universidade de São Paulo.

William

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Sofro porque tenho consciência política



Por que estou sofrendo se não me falta o alimento? Aliás, tenho muito mais comida do que precisaria para sobreviver. No mundo capitalista uns comem demais e jogam muitas sobras no lixo; outros comem de menos, mesmo procurando sobras no lixo.

Por que estou sofrendo se não me falta a moradia? Aliás, estou em uma condição de moradia melhor do que imaginei para mim quando iniciei a jornada da vida. Após morar muito tempo de aluguel em pequenas casas de quarto e cozinha em fundos de quintais, temos moradia para a família toda.

Por que estou sofrendo se não me falta o recurso da venda de minha força de trabalho? Aliás, estou numa condição melhor que a de meus pares da classe trabalhadora, porque tive a oportunidade de participar de um fundo privado de pensão durante décadas de trabalho e hoje recebo o meu benefício de acordo com as regras estabelecidas.

Por que estou sofrendo se aparentemente não estou doente e sofrendo dores? Aliás, estou entre os brasileiros privilegiados que têm planos privados de saúde, menos de vinte e cinco por cento da população. E o Sistema Público de Saúde agoniza sendo destruído pelos políticos e donos do poder.

Por que estou sofrendo se pessoalmente (até agora) não perdi os familiares mais próximos para o vírus que apareceu no mundo desde o início do ano e já matou mais de um milhão de pessoas, sendo que as mortes no Brasil destruído pelo golpe de Estado em 2016 chegam a 14% das mortes no mundo causadas pelo Covid-19? Estamos chegando a 150 mil mortos.

Estou sofrendo porque tenho consciência política.

Meu coração aperta e sinto um completo desarranjo no corpo com a destruição de nossa maior empresa nacional, a Petrobras. As poucas pessoas com inteligência e consciência política nesta terra de exploração estrangeira sabiam que o golpe de Estado para interromper os avanços populares ocorridos durante os governos do Partido dos Trabalhadores envolvia todas as instituições da república.

Meu coração aperta, minha pressão sobe e devo estar sendo comido por dentro, rins, fígado, artérias, sistemas nervoso e endócrino, ao ver a destruição para sempre de nosso meio ambiente, causada por meia dúzia de latifundiários da mesma laia dos bandidos que ascenderam ao poder por golpe e por manipulação do brasileiro ignorante e miserável.

Meu corpo está se corroendo ao ver a destruição da educação pública em todos os níveis. E os algozes do país são descarados e debocham das nossas caras 24 horas por dia porque sabem ser inalcançáveis pela justiça, já que todos os órgãos do Estado estão tomados por seus pares.

Vou acabar morrendo de tristeza. Não bastou ter comida, abrigo, recurso de sustento da família e não estar doente para usufruir da única existência que temos.

Após adquirir consciência política e noções de mundo através dos estudos e de uma vida de lutas através da representação de classe, não é possível voltar a ser um bárbaro ignorante, um egoísta centrado em si mesmo.

Não acredito mais na democracia. A sociedade humana é o império da força dos mais espertos e adaptados sobre os mais frágeis e mais fracos. Por décadas, séculos talvez, ouvimos frases e palavras de ordem do tipo "força do povo" ou coisa do gênero. Autoengano!

Como estou sofrendo ao ver a destruição do Brasil! Estou muito infeliz! Meu corpo não vai longe, infelizmente. Sei que algumas pessoas dependem de mim. Mas somos o que somos. E sabemos o que somos. Não existe a menor chance de ser feliz individualmente e barrar o autoconsumo corporal por tristeza perante o estado de injustiças e destruição de tudo ao nosso redor. Sinto a corrosão de meu corpo.

Sobre a esquerda e os movimentos que usam ser chamados de "progressistas" e as eleições ilusórias para prefeitos e vereança, eu não tenho saco de dizer o que penso. Acho burrice e egoísmo mortais ver os candidatos e partidos de "esquerda" todos divididos disputando votos com os partidos de direita e das elites. Ver PSOL, PT e PCdoB disputando o mesmo voto paulistano é um claro sinal de que não há esperanças para nós na sociedade humana.

Que merda! Viva os mais fortes, mais ricos e mais adaptados à existência! Viva a destruição da vida! Viva!

William


quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Livro: O peso do pássaro morto, de Aline Bei



Refeição Cultural

A leitura do livro de Aline Bei, O peso do pássaro morto (2017), se deu de forma casual. Minha esposa viu uma postagem da Manuela d'Ávila (PCdoB), que comentou nas redes sociais que adorou o livro. Ela o comprou e, como acontece algumas vezes, peguei o livro e li antes dela, assim que chegou em casa.

Como leitor, dou meus parabéns para a autora, uma jovem escritora brasileira. A leitura me fez pensar muito. Me fez chorar. Me fez sentir raiva do que nós homens fazemos com as mulheres no mundo. O mundo é um lugar duro e ao prevalecer os piores instintos do animal humano homem, poucas são as chances do mundo ser um lugar mais justo e solidário, acolhedor e que dê esperanças e oportunidades à continuidade da vida.

A personagem sem nome nos conta em primeira pessoa momentos marcantes em sua vida, momentos de perdas, que vão dos oito aos cinquenta e dois anos. A narrativa é sensível e ao mesmo tempo duríssima. A ficção nos atinge em cheio porque os fatos que se passam com a personagem acontecem o tempo todo na vida real, ao nosso redor, ontem, hoje, sempre. 

O matar passarinho na pura expressão de maldade e violência gratuita. A violência contra as mulheres. A indiferença. Os medos. A complexa relação entre pais e filhos. A morte de pessoas conhecidas. As injustiças.

Existe cura para as perdas? Ou a gente simplesmente segue a vida porque é o que se tem a fazer?

Bom livro, boa estória. Desejo sucesso para Aline Bei.

William

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

À la Benjamin Button... (10)


O cidadão de Osasco no dia 23/5/20.

Refeição Cultural

Olhar para trás...

Estamos na madrugada de um novo dia, uma segunda-feira, 28 de setembro do ano da desgraça do Covid-19.


Olhando para trás, em minhas postagens em redes sociais, vejo que sobrevivi às pandemias de Covid-19 e a pior de todas, a do mal bolsonarista. Na época, meses atrás, eu pedia aos deuses para sobreviver para ler até o fim o romance de Boccaccio: Decamerão (1353). Sobrevivi até agora. O amanhã continua incerto como o instante da morte...

Nas postagens, lamentava a morte de cerca de mil brasileiros por dia. Estávamos chegando perto do terrível número de 25 mil mortos pela Covid-19. Que horror seria tal número!

Pois é! Neste momento em que escrevo, a pandemia do novo coronavírus já contaminou 33 milhões de pessoas no mundo, sendo 4,7 milhões no Brasil. Já morreram 996.682 pessoas, sendo 141.741 brasileiras e brasileiros (informações do site Johns Hopkins University)

Li dias atrás que o Brasil tem cerca de 3% da população mundial e já morreram aqui cerca de 14% de todas as vítimas da Covid-19. A imensa maioria das vítimas é de gente pobre, preta, idosa, mora nas periferias miseráveis do país e precisaria do Estado para exercer a sua cidadania.

Devo registrar que, hoje, cerca de um terço da população apoia o mal implantado no país: o governo colocado no poder por golpe de Estado e fraudes diversas no processo eleitoral, a começar por impedirem que o candidato do campo popular e de esquerda que venceria em 1º turno participasse das eleições: o ex-presidente Lula.

É isso! Vamos olhar para trás, e retroceder no tempo. Quem sabe um dia a gente compreenda melhor porque tanta desgraça é tolerada e até comemorada pelo povo deste país miserável.

Por fim, li dois artigos muito interessantes de Roberto Moraes - "Commoditificação de dados, concentração econômica e controle político como elementos da autofagia do capitalismo de plataforma" e "Nossos dados precisam deixar de ser a commodity mais valiosa do mundo". Nós nos tornamos commodities das grandes empresas do mundo da tecnologia. Nós somos dados e eles são commodities como petróleo, grãos etc.

William

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(havia registrado os comentários abaixo na rede social onde tenho um "perfil", ou seja, onde sou commodity para ser negociado e exposto pelos donos da empresa que detém meus dados)

07/6/20

DECAMERON (67 dias, 67 novelas...)


Sem dúvidas, as estórias da 7a jornada têm sido as melhores até agora. As mulheres demonstram grandes artimanhas para derrotarem os homens nos jogos do amor. E Boccaccio escreveu o livro no século XIV.

Será que temos novos boccaccios escrevendo sobre e sob essas pandemias desgraçadas que enfrentamos no século XXI (Covid-19, bolsonarismo e necrocapitalismo)?

01/6/20

DECAMERON

A morte espreita por aí... pestes, pandemias, ódio, fascismo, preconceito, bolsonarismo, violência do Estado contra o povo...

60 dias, 60 novelas... que a Fortuna (Sorte) me permita seguir os próximos 40 dias lendo... vivendo...

30/5/20

LEMBRANÇAS (MANDATO NA CASSI)


Neste fim de semana se completam 2 anos que deixei Brasília, que saí da gestão da autogestão em saúde Cassi, onde dediquei o melhor de mim para fortalecer aquele sistema cooperativo e solidário construído pelos trabalhadores do Banco do Brasil.

Na postagem (daquele dia no Facebook), eu refletia sobre o 1° ano de trabalho (completados em 30/5/15). Avaliava se estava seguindo o caminho correto como um representante de classe.

Até o último dia de mandato em 31 de maio de 2018, procuramos nos manter nas concepções e práticas da política da esquerda democrática e humanista.

Hoje vejo um mundo muito pior em relação aos valores que defendemos. Neste momento, o mal vai vencendo e a humanidade se aproxima do estado de natureza animal, onde tudo vale pela sobrevivência individual de cada ser, onde força, adaptação e acaso pesam para a sobrevivência diária. 

Poderíamos ser diferentes como seres humanos...

28/5/20

GUERRA CIVIL? NÃO, MASSACRE MESMO!

Não será uma guerra civil o golpe no Brasil incitado pelo bando de neonazistas fascistas milicianos et caterva porque só eles estão armados contra nós, os babacas pacifistas: uns 70% do povo.

(nosso amanhã tá mais parecido para o banho de sangue promovido pelos hutus contra os tutsis em Ruanda em 1994. As pessoas eram caçadas e mortas até em casa, na bala, no facão, na marretada... e pensar que esse destino nos foi imposto pelos nossos tios primos vizinhos e colegas de trabalho... envenenados pelos meios de comunicação, jornalistas e articulistas daquela revista canalha da editora que faliu e deu calote nos funcionários e naqueles jornais e emissoras de TV de meia dúzia de famílias de barões da casa grande e seus párias)

26/5/20

A PREVISÃO É DE MUITAS MORTES NOS PRÓXIMOS DIAS, MESES E ANOS...

Meus sentimentos pelas 1039 mortes de brasileiras e brasileiros nas últimas 24h, vítimas da pandemia de Covid-19. O país se aproxima rápido do número de mortos que o genocida no poder falou que a ditadura deveria ter matado no Brasil. (a matéria que li naquele dia anunciava 24.512 mortes por Covid-19 no Brasil)

O pior são as perspectivas do amanhã. São nefastas. O bando suspeito de diversos tipos de crimes - inclusive bárbaros - suspeitos colocados no poder pelos próprios brasileiros, estão organizando uma guerra civil. Estão armando a parte da população que pensa em armas para usá-las, para ampliarem sua capacidade de violência contra nós, que não nos armamos, que somos de paz. 

A parte pacifista não vai se armar, vai ser vítima da parte armada e violenta. O banho de sangue que se aproxima com mais golpe pela frente e com a imposição do autoritarismo ditatorial de um regime fascista vai causar um banho de sangue para aqueles que não são a favor desses bárbaros que tomaram o poder e as instituições do Estado. 

Tudo caminha rapidamente para a tragédia e ocorre embaixo de nossos narizes e nada acontece para interferir na ditadura de trogloditas que avança contra o povo brasileiro. Dificilmente as coisas se darão de outra forma. Não vejo a queda do grupo armado e violento que colocaram no poder. É muito difícil lutar contra toda a estrutura do Estado colocada contra os cidadãos que não compactuam com as quadrilhas que tomaram o poder, mas que não reagem ao avanço do terror. 

Meus sentimentos às vítimas da pandemia. Muito mais pessoas vão morrer pela pandemia, e não era pra ser assim, se o governo central fosse outro a vida dos brasileiros estaria no centro das atenções. Mas o foco é armar os apoiadores do nazifascismo e a parte menor da sociedade vai dominar tudo pela violência. Muitas mortes veremos nos próximos meses e anos pelas pandemias em que nos meteram...

Ainda 25/5/20

PANDEMIA DO NOVO CORONAVÍRUS

807 pessoas morreram de ontem pra hoje. São brasileiras e brasileiros de todas as idades, cores, visões de mundo. Brasil registra quase 375 mil pessoas testadas e identificadas com o vírus da morte. Estudos apontam que os números da tragédia podem ser 7 vezes maiores por causa das subnotificações. Que tragédia! Os médicos e cientistas estão estudando os efeitos da Covid-19 na saúde dos sobreviventes. Rins, fígado, coração, cérebro, veias e artérias, pulmões, sistema muscular... efeitos são severos... (NÃO, efetivamente, NÃO É uma gripezinha, como afirma o clã Bolsonaro).

Meus sentimentos sinceros aos familiares das vítimas, já que o governo fascista não se importa com as 23.473 pessoas falecidas. Ele diz que não é coveiro. Diz, "e daí?".

Tristeza! As mortes e o sofrimento das centenas de milhares de contagiados poderiam ser bem menores.

25/5/20

PÊSAMES E SENTIMENTOS AOS ENTES QUERIDOS DOS MILHARES DE MORTOS

22.666 mortos pela Covid-19 no Brasil. 345.060 pessoas no mundo até este momento em que escrevo. Me manifesto porque é o que posso fazer, pois sinto uma impotência que nunca senti em meus 51 anos de existência de luta.

No país em que nasci, colocaram um monstro genocida no poder e junto com o clã de monstros um bando de gente má e vil. O MAL foi colocado no poder pelos meus irmãos brasileiros. (não tenho como me afastar dessa realidade: meus conhecidos e conterrâneos colocaram o MAL no poder)

Lamento as mortes e as mortes que virão nas próximas horas, dias, semanas, meses. Lamento.

Estou de saco cheio de tanta impotência minha e sua, que juntos não revertemos essa tragédia. Saco cheio de falar, de escrever, de ler, de rede social. De praticamente tudo. A vida está muito ruim. Não vejo perspectivas. O mal avança sem reação à altura.

Não desisto de minha vida. Mas confesso que ela está sem sentido. Minha vida está melhor do que a da maioria de meus irmãos brasileiros, inclusive aqueles que são responsáveis diretos por essa desgraça toda. Sou um privilegiado, tenho casa comida e uma renda certa, mas sou humano e por isso estou tão triste diante de minha impotência no enfrentamento a isso tudo e seguirei vendo as mortes ocorrerem com muita tristeza porque as coisas poderiam ser diferentes.

Que podemos fazer para libertar o Brasil e o povo dessa desgraça toda causada pela imprensa golpista e pela casa grande, desgraças feitas através dos partidos que os representam e ao grande capital no país?

24/5/20

DOR E LAMENTO pela morte de mais 965 vítimas na pandemia da Covid-19. São mais de 3 mil brasileir@s mortos em 3 dias. 

Boa parte dessas mortes poderia ter sido evitada, caso o governo central estivesse apoiando a luta contra o vírus ao invés de só pensar naquilo que a reunião de 22 de abril mostrou ao mundo. 

Mas a morte e o ódio são as fixações do bolsonarismo. Aquela reunião é pior que a do filme Rei Leão, entre as hienas e Mufasa. Como um ser humano decente tem coragem de apoiar um bando desse?

Meus pêsames aos familiares das mais de 22 mil pessoas que perderam suas vidas.

Não há sabão ou álcool gel que desinfete as mãos e a história daqueles que votaram e ainda apoiam esses inumanos genocidas no poder. Não há.

23/5/20

LUTO E LAMENTOS

1001 pessoas morreram nas últimas 24h, vítimas do vírus Covid-19. O Brasil passou a ser o 2º país com maior número de pessoas acometidas pelo novo coronavírus, quase 331 mil pessoas. São 21.048 mortes de pessoas como cada um de nós mesmos. Ninguém está seguro. Pode ser eu ou você que me lê a próxima vítima fatal. Não temos um governo central que coordene o combate à pandemia. Nem que se solidarize com as vítimas, marias e joões, por morrerem pela doença. Meus sinceros sentimentos pelas mortes e minha solidariedade com familiares e amigos das vítimas.

Enquanto vivemos essa tragédia, o mundo tem acesso ao nível de banditismo presente na cúpula do poder central deste país jabuticaba... é estarrecedor! Aquilo não é uma reunião de governo... Que país e que povo miserável são esses que colocaram no poder aqueles seres inumanos e abjetos... (lamento dizer que diversas pessoas que conheço contribuíram para essa desgraça destruidora que estamos passando. Lamento com o coração dilacerado).

Haverá um amanhã melhor para nós, povo brasileiro não infectado pelo vírus do bolsonarismo, que ataca o cérebro das vítimas e transforma os seres infectados em zumbis bolsonaristas? Estou sem esperança.

22/5/20

COVID-19 NO BRASIL

Luto pelas vítimas fatais da Covid-19 

Minha solidariedade e meus sentimentos pelo falecimento de cada pessoa no mundo devido a essa pandemia e pela morte de 1.188 brasileir@s nas últimas 24h e pela morte de 20.047 pessoas em nosso país. São dias de muita dor e tristeza. Cada ser humano é único. Meus sentimentos aos familiares e amigos de cada vítima dessa pandemia.

21/5/20

DECAMERON

Decameron... e lá se vão 50 dias e 50 novelas... que a Fortuna me permita ler as próximas 50 estórias nos próximos 50 dias... (uma eternidade ao se considerar as incertezas do momento, pandemias de Covid-19, do apocalipse do bolsonarismo... etc).

Mais um dia se foi...

21/5/20

LEMBRANÇAS (MANDATO NA CASSI)

Mandato de diretor de saúde da Cassi 2014/18 e os Conselhos de Usuários 

Cumprimos o que era esperado pelo coordenador do Conselho de Usuários da Cassi SP (fala abaixo). Nos aproximamos dos conselhos como nunca fora feito. Foram 65 participações presenciais do diretor de saúde William entre 2014 e 2018.

As lideranças passaram a conhecer melhor o modelo assistencial APS/ESF e o papel das CliniCassi.

Cumprimos nosso papel na história do modelo assistencial da Cassi.


(fala do coordenador do Conselho de Usuários da Cassi SP em 21/5/14)

"Reunião do Conselho de Usuários SP, o companheiro William Mendes eleito para o cargo de Diretor de Saúde, atendendo a um convite do Conselho participou da reunião e conversou com os Conselheiros presentes sobre os seus pensamentos e futura linha de trabalho na CASSI, vários pontos foram debatidos e agora vamos aguardar seu trabalho e de sua futura equipe.

Agradecemos a presença do William Mendes e esperamos que os eleitos se aproximem cada vez mais dos Usuários da CASSI, para construirmos uma CASSI melhor e solidária para todos os Usuários."


(como o Facebook é público, acho que posso reproduzir aqui os comentários de duas lideranças dos conselhos de usuários no dia em que postei esta lembrança acima:

Adelmo Vianna: "Como Coordenador naquele momento tenho que elogiar sua postura e trabalho junto aos Conselhos e Associados. Você criou um paradigma que foi quebrado e abandonado e sem perspectivas de retorno.
Obrigado e parabéns."

Ricardo Maeda: "Assino embaixo, em a Pré-Conferência na cidade de Santa Maria (RS), distante 300 Km de Porto Alegre, o então Diretor da Cassi William Mendes, saiu de madrugada de Brasília, chegando a Porto Alegre, montamos uma logística para que chegasse a tempo de abrir a Pré-Conferência, voltou de ônibus a Porto Alegre, ficou no aeroporto até de madrugada para retornar a Brasília, às 11:00 horas me ligou dizendo que já estava na Cassi Sede. Vamos em frente!!"

19/5/20

LEMBRANÇAS (MANDATO NA CASSI)

53 conferências de saúde, milhares de Kms percorridos para RESGATAR a ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA (ESF) na CASSI. 

Durante nosso mandato A SOLIDARIEDADE resistiu na CASSI. 

Fizemos a nossa parte na história dos direitos sociais na Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil.


(O comentário acima foi sobre uma postagem do dia 19/5/15, transcrita abaixo)

"INSTANTES

Embarcando para Natal RN onde teremos Conferência de Saúde da Cassi RN. Na quinta estaremos em Recife PE também para a Conferência de Saúde da Cassi PE...

Seguimos na luta e no contato com as bases sociais para falar da Cassi, do modelo de saúde da Cassi e das questões envolvidas no debate sobre a sustentabilidade e os interesses de cada lado no embate - Banco e Corpo Social. Eu sigo defendendo os interesses do Corpo Social da Caixa de Assistência. E o programa que foi eleito com suas premissas e princípios.

Abraços, William Mendes"


Ainda 17/5/20

DECAMERON

46a decamerada

Dois jovens apaixonados escapam da morte na fogueira no último instante.

A Fortuna (ou Sorte) tem grande papel no destino das personagens do clássico de Boccaccio.

O próprio fato de os personagens estarem vivos em meio à pandemia da Peste é uma interferência da Fortuna. 

E nós neste mundo do século 21 com o bolsonarismo e a demência canalha nos ameaçando mais que a própria pandemia da Covid-19? A Fortuna nos abandonou?

17/5/20

COVID-19 E FUTEBOL (!?)

Cara, fico pensando na contradição humana... o futebol alemão está de volta, mesmo com a pandemia. 

Portões fechados, sem torcida, sem cumprimento de mãos e abraços dos jogadores...

É tudo muito ridículo e um contrassenso.

PENSA um escanteio ou uma falta perto da área, onde 21 caras vão se aglomerar pra disputar uma bola alçada... pensa!

Os 21 humanos vão respeitar a distância mínima recomendada pelas autoridades sanitárias? E a barreira?

Realmente... se é assim, coloca os 50 mil torcedores no estádio!

Ainda 16/5/20

DECAMERON E PANDEMIA DE COVID-19

Decameron - 45 dias, 45 novelas (que os deuses me afastem das pestes para ler mais 55 dias...)

16/5/20

LEITURA DE "ERA DOS EXTREMOS"

Instantes... (Hobsbawm)

A antiga retórica contra "comunistas"... Kennedy, Trump, e os cretinos do país jabuticaba... (estava na página 234)

15/5/20

LEITURA DE "ERA DOS EXTREMOS"

Instantes de leitura... (ao ler a página 208)

Firme até chegar no ponto que defini pra hoje do Hobsbawm. Faltam 10 páginas. E ainda tenho que ler a novela do dia do Decameron...

Leitura é um ato de resistência! E uma busca por sentidos...

Fiquem em casa! Já perdemos 14.817 vidas pelo vírus Covid-19 (oficialmente).

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quarta-feira, 23 de setembro de 2020

23/9/15 - Instantes (DF)



INSTANTES... (2h)

Madrugada.
Estava na janela da sala.
O dia foi muito estressante.

Ouvindo o silêncio da madrugada candanga.
Sentindo o cheiro característico da relva seca de 
                   [Brasília.
Aqui, agora, aprendi a olhar mais o céu. Árvores. Sair 
                   [do automático.

Respiração profunda. Sinal de atenção.
Cismando, pensando nos meus, nos propósitos.

Olhando tudo do ponto de vista do agora,
posso ir dormir o sono pesado do cansaço físico.
Posso ir dormir o sono leve da consciência do ser.

Sobrinha, parabéns nesta terça.
Mãe, boa sorte nesta quarta.
Irmã, boa sorte nesta quinta.
Pai, estamos fazendo o possível.
Vocês aí. Eu aqui. Filho e esposa aqui.
Estamos fazendo o possível
por todos os entes queridos.

Madrugada.
Silêncio. Sentido. Relva seca.
Vamos dormir.
O sono leve e pesado
da consciência
do possível
do ser.

William Mendes