sábado, 7 de setembro de 2024

A Comédia Humana - Honoré de Balzac (2)



Refeição Cultural 

"(...) Surgiam novos poderes: o capital, a imprensa, a publicidade. Patenteava-se a ascensão prodigiosa do dinheiro, que reivindicaria um papel cada vez maior em todos os domínios. Estavam, pois, aparecendo e desenvolvendo-se as forças que passariam a moldar todo o período da história europeia até a Primeira Guerra Mundial. Esboçavam-se, desde então, os tipos humanos que as novas possibilidades não deixariam de produzir. A comédia humana de Balzac contém uma imagem fiel e pormenorizada de toda essa fermentação, de seus resultados visíveis e de suas consequências conjeturáveis; embora concluída em 1850, é um espelho de todo o século XIX. (p. 14/15)


Lendo a biografia do escritor francês Honoré de Balzac, vemos o quanto é válido o esforço e a transpiração, pois de pessoa sem grandes talentos na infância e adolescência, Balzac se tornou um grande escritor dos romances de costumes.

TRATADO DA VONTADE 

"(...) Com uma vontade de ferro realizaria de fato um milagre sem analogias na história das literaturas: de autor péssimo, abaixo de medíocre, que seria até quase os trinta anos, de repente se tornaria um escritor grandioso, criador do gênero mais importante da literatura moderna, o romance de costumes." (p. 23)

---

Paulo Rónai nos conta que cada experiência do jovem Balzac serviria anos depois de referência para os romances que desenvolveria. 

E a literatura se firmava junto ao público do século XIX com aquilo que chamaríamos de romance moderno.

"Lembremos que agora o romance não constitui para nós apenas uma diversão. É um importante instrumento de conhecimento indireto, abre ambientes e perspectivas que nunca teríamos oportunidade de conhecer, fornece uma visão prática e real do mundo..." (p. 25)

Seguimos conhecendo um pouco de Honoré de Balzac. 

William 


quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Natais - 1979



Refeição Cultural

Osasco, 5 de setembro de 2024. (60 anos depois...)


Hoje poderia ser um dia de festas, de comemorações, de confraternização. Meus pais estão vivos, fizeram aniversário nesta semana, e a vida deles é muito importante para mim. Meu pai completou 82 anos de idade. Minha mãe completou 78 anos de idade. Hoje faz 60 anos que eles se casaram em 5 de setembro de 1964.

Eu parabenizo minha mãe e meu pai pela data, por mais que não tenha surgido clima para comemorar a data, pois as relações humanas têm sido muito difíceis, e não só para eles, para todo mundo... repito: para todo mundo!

Fiquei vendo algumas fotos antigas, daquelas dos anos sessenta, setenta, oitenta. Uma família brasileira. Uma família brasileira a nossa. Uma família como milhões de famílias dessa comunidade humana tão contraditória, uma sociedade humana cuja origem é terrível, violenta, uma comunidade na qual a exploração de alguns homens sobre o conjunto das pessoas foi a marca de séculos de relações humanas. O Brasil.

Uma sociedade humana cuja história das relações entre homens e mulheres, entre pessoas de raças e origens tão diversas - brancos europeus, afrodescendentes, indígenas - nos primeiros séculos de constituição do povo brasileiro, eu sintetizaria com a leitura e reflexão de um conto do nosso maior escritor, Machado de Assis: "Pai contra Mãe", publicado pelo Bruxo do Cosme Velho já em seus últimos anos de vida. Nós somos ainda hoje, um século depois, aquilo do conto no que diz respeito às relações humanas. 

Tenho refletido sobre a minha família nos últimos anos. Tenho me esforçado para olhar de forma fraterna para as mulheres e homens que compõem dezenas de anos daquilo que chamamos de família. Faz alguns anos que tenho me esforçado para pacificar meu coração de maneira que possa fazer a minha parte na tentativa de reaproximação com as pessoas que, de uma forma ou outra, estamos unidos por laços sanguíneos e pelo passado comum. 

Eu sei que para além das futricagens seculares comuns às famílias e relações de convivência, nós todos fomos vítimas de experimentos com manipulação humana por parte dos donos dos meios produtivos, os donos do capital, as plataformas das big techs desgraçaram as relações humanas de forma proposital. Para nos dominar, nos dividiram. Eu estudo e reflito sobre isso já faz alguns anos. E como ser pensante, tento usar essa compreensão para me reaproximar das pessoas.

Já escrevi muito aqui no blog sobre essas conclusões que tenho tido após muita leitura e muita observação da realidade. As pessoas estão modificadas, estão diferentes, mas não porque ficaram mais velhas, porque a vida seguiu seu caminho, estão diferentes porque foram modificadas. Ninguém se escuta, ninguém se tolera, ninguém aguenta uma discordância. Não há família ou relação de amor e amizade que resista a esse sistema de modificação do comportamento humano. Não há!

Some-se a isso que descrevi acima, outras crises: a relação de altos e baixos entre pessoas que conviveram juntas uma vida toda, ou a metade da vida no tempo cronológico, ou ainda um pequeno tempo cronológico, mas com consequências para toda uma vida. As relações humanas nessa quadra da história da sociedade humana neste mundo em séria crise econômica, social, política, ambiental e existencial são desafios dos mais importantes para seguirmos a caminhada de nossa espécie sobre a superfície da Terra.

Enfim, com os olhos marejados, aqui em Osasco, centenas de quilômetros de distância da casa de meus pais, que completaram hoje 60 anos de convivência em comum, eu os parabenizo, eu os agradeço, pois eu só existo por causa dessa união. Eu só sobrevivi às fases mais duras da minha vida, quando nem viver queria, por causa deles também. Nosso pacto, mesmo sem ser expresso, sempre foi sobrevivermos uns pelos outros.

Parabéns e obrigado por vocês resistirem ao que o mundo vem fazendo com a gente. Somos vítimas, acreditem um pouco no que digo. Somos vítimas do sistema capitalista, dos meios concentrados na mão de poucos humanos que decidiram foder com tudo em prejuízo de nós todos e gozo de uns poucos fdp.

Como nesta série reflito sobre nossos natais, ainda não sei o que faremos no Natal deste ano. Não sei!

William, filho do casal que hoje completa "Bodas de Diamante" num mundo feito para que nada dure mais que algum tempo de meses ou poucos anos...

---

NATAL DE 1979

Como terá sido o nosso Natal desse ano? Era o meu 11º Natal como criança. 

No colégio Adolfino, eu tinha feito o 4º ano primário: tirei 3 conceitos "A" naquelas matérias que citei do ano anterior (ler texto aqui). Já sabia ler e escrever; e já tinha tido contato com Estudos Sociais e Ciências. 

Me lembro que lia muito gibi nessa época, Turma da Mônica, Tio Patinhas, Pateta, Pato Donald etc. Eu desenhava também. Tenho alguns desenhos guardados dessa época, desenhei até uns 11 ou 12 anos. 

É impressionante imaginar que eu fiz aqueles desenhos sendo tão novo! Eu fazia cópia de super-heróis e personagens apenas olhando o desenho. 

No Brasil, assumiu a "Presidência" o ditador Figueiredo, aquele que não gostava de gente e preferia seus cavalos a humanos. O ditador assina a Lei da Anistia (6.683). O Mato Grosso do Sul passa a ser Estado nesse ano também. 

No Reino Unido, a senhora "Dama de Ferro" Margaret Thatcher se torna Primeira-ministra. A mulher seria grande inimiga da classe trabalhadora inglesa. 

Saddam Hussein assume a Presidência do Iraque. 

Em minhas guerrinhas infantis, pelas ruas e campinhos do bairro Rio Pequeno, me lembro de ter levado naquele período pedrada, latada e dentada na cabeça (3 cicatrizes), brincando com os amigos e guerreando com os "inimigos" do Morro Branco, o território do outro lado do córrego do Rio Pequeno (rsrs). 

Vale registrar que a banda inglesa Pink Floyd lançou o álbum "The Wall" no ano de 1979. Um clássico para sempre!

William Mendes

Nada mais será como antes - Miguel Nicolelis (4)



Refeição Cultural 

"Como o senhor sabe, sempre procurei defender uma coexistência pacífica entre Egito e Israel. Eu não posso aceitar como razoável a manutenção deste estado permanente de beligerância entre os dois países. Não faz o menor sentido, política ou economicamente. Comuniquei este ponto de forma explícita para o governo israelense por canais indiretos. Eles conhecem a história da minha família muito bem, afinal, meu pai, Oman Cicurel, foi responsável por criar a primeira bandeira de Israel a tremular em Jerusalém em 1917..." (p. 55/56)


Interessante a organização do romance ficcional de Miguel Nicolelis. A estória é distribuída em diferentes tempos narrativos, datas no futuro, no passado e no presente. É uma técnica exigente para a atenção dos leitores.

O presente do tempo narrativo se passa em 2036. Ou seja, o tempo presente na narrativa ficcional se passa no futuro do tempo aqui fora do romance. 

No capítulo 3, que li hoje, os eventos e personagens estão no ano de 1956, no Egito de Gamal Abnel Nasser. O personagem do capítulo é Giacomo Cicurel, um egípcio de origem judaica.

Enfim, não esperaria outra coisa a respeito da técnica narrativa do professor Nicolelis, um neurocientista que escreve bem pacas!

Durante a leitura do capítulo, acabei sentindo a necessidade de ler alguma coisa sobre a vida de Gamal Nasser, presidente do Egito, que faleceu de infarto aos 52 anos em 1970.

Lembrem-se que ler é um ato revolucionário! Leiam!

William 


Post Scriptum: clique aqui para ler o comentário seguinte da leitura do livro.


Operação Cavalo de Tróia (7) - J. J. Benítez



Refeição Cultural 

Benítez está lendo o Diário do Major da aeronáutica dos Estados Unidos. São diversas explicações científicas sobre descobertas que permitiriam a "Operação Cavalo de Tróia" viajar no tempo. 

Cito abaixo as três opções de datas e locais de viagem no tempo que o projeto teria avaliado fazer no início dos anos setenta (10 de março de 1971, segundo o autor).

"Os três objetivos em questão foram os seguintes:

1° - Março-abril do ano de 30 de nossa era. Justamente os últimos dias da paixão e morte de Jesus de Nazaré. 

2° - O ano de 1478. Local: Ilha da Madeira. Objetivo: averiguar se Cristóvão Colombo pôde receber alguma informação confidencial, da parte de algum pré-descobridor da América, sobre a existência de novas terras, assim como sobre a rota a seguir para alcançá-las.

3° - Março de 1861. Local: os Estados Unidos da América do Norte, propriamente. Objetivo: conhecer com exatidão os antecedentes da Guerra de Secessão e o pensamento do recém-eleito presidente Abraham Lincoln." (p. 69)

E aí?

Pensem que legal seria qualquer das três opções de investigação histórica...

Já sabemos que escolheram a primeira opção e vamos saber de Jesus Cristo e seus últimos dias na Terra.

Ler é uma das melhores coisas do mundo, na minha opinião de leitor. 

William 


quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Mãe, parabéns pelo seu aniversário!



Quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Hoje minha mãezinha completa 78 anos de idade. Liguei para ela logo cedo. Parabéns e muitas felicidades, mamis!

Recentemente, entreguei para minha mãe o livro coletivo "Querida Mãe!, que fizemos em homenagem às mães. Tive a oportunidade de ser um dos autores do livro. Os textos dos filhos e filhas para as mães são textos muito legais. Livro lindo e cheio de amor e vida!

Parabéns à Cleusa Slaviero que organizou o livro para nós! Obrigado!

Disponibilizo nesta postagem o texto que fiz para a minha mãe.

William

---

Mãe

Ao pensar o que poderia escrever sobre a minha mãe, busquei na memória fragmentos de lembranças que significassem momentos marcantes na nossa vida, na dela e na minha, lembranças de nós dois: uma cumplicidade, uma felicidade, um segredo, uma tristeza só nossa.

As primeiras lembranças que me vieram à memória foram a da mãe que aceitou a partida do filho antes dos 18 anos e a cumplicidade ao me ouvir falar, anos depois, as coisas mais tristes que uma mãe poderia ouvir de um filho e silenciar respeitando a decisão que eu viesse a tomar naquele momento de fúria e depressão. Aquele silêncio de só ficar ao lado da pessoa querida.

É impossível saber a dor que causei à minha mãe ao dizer a ela que não queria mais viver aos vinte e poucos anos... o silêncio de minha mãe naquele momento talvez tenha sido a única coisa a fazer. E pensar que ter filhos era o sonho de meus pais. Minha mãe tinha “útero infantil” diziam a ela, e meus pais perderam alguns filhos em abortos espontâneos. Imaginem a dor. A única gravidez que “vingou” foi a que me colocou no mundo, e isso depois de adotarem a minha irmã.

As histórias das mães neste duro mundo humano hegemonizado pela força e pela violência dos homens são sempre histórias únicas. Fiquei pensando em algumas mães que conheci ao longo deste meio século de existência... São histórias incríveis. A história da mãe de meu filho é uma dessas histórias duras e de superações... Como as mães são guerreiras poderosas neste mundo! Seres de potências muito mais complexas que as do universo masculino.

Eu passei boa parte de minha vida adulta procurando respostas para perguntas que sequer conseguia formular direito. Fui caminhando entre tristezas e fúrias da adolescência até quase 30 anos de idade. Aqueles momentos de cumplicidade de minha mãe, de só ficar ao lado, aguentando as minhas dores em silêncio (imaginem as dores dela!) devem ter me tocado para sempre de alguma forma. Superei aquela fase e nunca mais pensei absurdos que magoassem as pessoas que me amavam.

Além da própria vida que ganhei mais de uma vez de minha mãe, que poderia contar sobre ela que tenha de alguma forma contribuído para eu chegar até aqui? A fé inabalável dela, a honestidade, a vontade de viver por saber que nós precisamos dela conosco neste mundo. Há décadas temos esse compromisso velado de nos mantermos vivos porque uns precisam dos outros.

Já concluí muitas vezes em meus registros de memórias que devo ter sobrevivido à adolescência em lugar miserável e violento porque a educação católica de minha mãe deve ter contribuído para eu não fazer as mesmas bobagens que as pessoas faziam ao meu redor. E a honestidade de não querer pegar uma agulha que não fosse minha também vem dela. O chocolate que peguei e saí sem pagar num supermercado quando criança nunca saiu de minha cabeça. Aquilo bastou para entender o que minha mãe nos ensinava.

Enfim, como somos natureza, estamos todos envelhecendo, ela e eu e todos nós. A gente segue com aquela natureza aguerrida de não se deixar morrer de jeito nenhum porque precisamos uns dos outros.

O que eu torço é para que ainda dure muito essa nossa possibilidade do existir, porque aprendi, ao sobreviver aos tempos de fúria, que a vida é uma oportunidade, que viver é bom, ainda mais quando se ama e quando se é amado. Eu trato sempre de estar amando para manter meu vínculo com a existência. Tenho me esforçado para ser uma pessoa melhor a cada dia e, talvez assim, ser amado também.

Te amo, mãe!

William Mendes

Do Blog Refeitório Cultural


Frei Betto: una biografía



Refeição Cultural 

A leitura sobre a história de vida do dominicano Frei Betto e sobre seus ensinamentos é uma oportunidade para qualquer pessoa que se entenda de esquerda e cristã. 

Eu tive uma formação cristã, o catolicismo foi o centro da ambiência na qual cresci e vivi por décadas. Então, diferente de muita gente de esquerda sem religião alguma, sei como funciona na psicologia das massas a questão da fé. 

Hoje não tenho religião alguma. Mas respeito as leituras de mundo de cada ser humano. A leitura sobre Frei Betto, após tê-lo conhecido em Havana, tem sido algo de grandes reflexões em minha vida.

Deixo abaixo algumas passagens da leitura de hoje.

---

A CABEÇA PENSA ONDE PISAM OS PÉS 

"En cuanto al papel de Frei Betto en su formación, Tarcísio menciona dos expresiones que el asesor de la PO (Pastoral Obrera) acostumbraba a utilizar y que hasta el día de hoy él se encarga de repetir: 'La cabeza piensa donde pisan los pies' y 'A quien no le gusta la política lo gobiernan quienes sí les gusta'..." (p. 277)

---

FREI BETTO TEVE PAPEL IMPORTANTE NO MOVIMENTO QUE DEU ORIGEM À CUT E AO PT

"Betto asesoró la PO de São Bernardo do Campo durante 22 años. Esa fue una de sus actividades pastorales más prolongadas y tal vez de mayor impacto político-social. Gracias al trabajo de las pastorales obreras de la región del ABC, de las que fue uno de los principales asesores, se formaron varias generaciones de militantes, tanto de los movimientos sociales, los sindicatos y la Central Única de los Trabajadores (CUT), creada en la estela del ascenso del movimiento sindical de inicios de la década de 1980, como del Partido de los Trabajadores (PT), expresión político-partidaria del nuevo 'sujeto político' surgido en medio de las huelgas del ABC." (p. 278/79)

---

LER PARA COMPREENDER 

Seguimos lendo, pois só o conhecimento nos liberta da ignorância e da intolerância!

William 


Lendo Born to Run - Bruce Springsteen (2)



Refeição Cultural 

Em 2018, flanando por uma livraria, acabei comprando a autobiografia do cantor Bruce Springsteen. Sempre gostei das músicas dele e da banda liderada por ele.

A música sempre fez parte da minha vida. As etapas distintas da minha existência sempre foram marcadas por trilhas sonoras que fixaram determinados momentos em minhas lembranças.

Sou uma pessoa cuja emoção aflora na pele. Basta ouvir uma ou outra música marcante que a lembrança do momento ligado a ela me vem na hora, na forma de arrepio.

Tenho muitos registros e marcas do tempo embalados ao som de Bruce Springsteen. 

Como disse em outros textos, as leituras do ano de 2018 foram quase todas imprestáveis. Eu vivia um tremendo inferno astral.

Li uma centena de páginas da autobiografia de Bruce Springsteen, mas não me lembrava de quase nada. 

Decidi, então, incluir a leitura deste livro na cesta de livros que vou ler nesta etapa atual do viver.

É isso! Hoje li o capítulo 14, "Era uma vez um garoto chamado Steven".

William 


Post Scriptum: o texto seguinte sobre o livro pode ser lido aqui.


Memorial de Aires - Machado de Assis (1)



Refeição Cultural 

"(...) Certamente ainda me lembram cousas e pessoas de longe, diversões, paisagens, costumes, mas não morro de saudades por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei."


Assim começa o diário do Conselheiro Aires, personagem com o qual Machado de Assis se despede dos romances e, pouco depois, da vida.

Li o último romance do Bruxo do Cosme Velho em janeiro de 2017. Morava em Brasília à época. 

Machado e Drummond sempre foram companheiros para mim, pois as ideias e sentimentos de seus eu-líricos e personagens me inspiravam, me punham a pensar e me fortaleciam.

O enredo de Memorial de Aires, de alguma forma, ficou registrado em meus pensamentos como referência de alguém retirado da vida que levou e se preparando para o fim ou outro tipo de vida, não melhor que aquela que tinha.

Acho que a minha identificação com esse romance machadiano se deu desde o fim de meu período em Brasília, no Banco do Brasil e no movimento político ao qual fiz parte por décadas, como Aires, retirado da diplomacia no exterior, após trinta e tantos anos...

Enfim, Machado e Drummond são minhas cachaças...

William 


terça-feira, 3 de setembro de 2024

Operação Cavalo de Tróia (6) - J. J. Benitez



Refeição Cultural 

"Por último, e seguindo um processo contrário, situar outro módulo ou laboratório no passado da Terra.

Eu fui designado para esse terceiro projeto - batizado como Cavalo de Tróia - e a ele, e a tudo quanto lhe dizia respeito até que se consumasse, em janeiro de 1973, referir-me-ei nesta primeira parte do diário." (p. 65)


Eu fico admirado com a capacidade do autor ao desenvolver explicações científicas para dar verossimilhança à história, que descreve uma viagem no tempo através de um artefato chamado pelo projeto de "berço".

Benítez descreve através do personagem "Major", autor do Diário, explicações com partículas subatômicas, Física Quântica e diversas outras teorias de Física e de Astronomia de forma tão convincente que os leitores vão se incorporando ao projeto da USAF como se fosse possível ler a respeito num jornal da época. 

É essa a beleza da arte e da cultura, aqui expressa através da literatura. 

William 


A Comédia Humana - Honoré de Balzac



Refeição Cultural 

A Comédia Humana é composta por 89 obras de Honoré de Balzac. 

A edição que vou ler é a da Editora Globo, cuja 1ª edição é de 1946-1955. Minha coleção é a 3ª edição, de 2012, organizada sob a regência de Paulo Rónai, intelectual húngaro naturalizado brasileiro. 

Tenho 9 dos 17 volumes previstos para a coleção, da Biblioteca Azul. Os livros foram um presente de minha companheira Ione.

---

A VIDA DE BALZAC, POR PAULO RÓNAI

A primeira parte do primeiro volume é uma introdução abordando a biografia do escritor Honoré de Balzac, que nasceu em 1799 e faleceu aos 51 anos, em 1850.

Ao falar sobre estudos biográficos, Rónai afirma que as gerações futuras acabam conhecendo mais os autores do que seus contemporâneos. Concordo com ele.

Cito um esboço rápido do escritor:

"(...) Jovem derrotado logo nos primeiros encontros com o destino, marcado pelo resto da vida com o estigma da incapacidade. Homem já feito, arrastando complexos de inferioridade e procurando compensar a consciência da inata vulgaridade por um esforço desesperado para atingir os cumes brilhantes da vida, a beleza, a nobreza, a fortuna. Velho antes do tempo, esgotado por milhares de noites de trabalho feroz, abatendo-se no limiar da felicidade almejada. Vemos-lhe os olhos em brasa, as faces rechonchudas, o papo do pescoço, os membros sem graça, a gesticulação exuberante, as vestes berrantes..." (p. 12)

Vejam se não é uma das imagens clássicas de Balzac.

A Comédia Humana em uma avaliação de Paulo Rónai:

-------------------------

"a maior fusão já conseguida na literatura com a vida real"

-------------------------

Interessante essa observação do crítico. Poderei concordar ou não com ele após ler algumas dezenas de obras de Balzac.

Por enquanto, só conheço o romance "A mulher de trinta anos", que gostei bastante. 

É isso. Começamos com o Balzac também. 

William 


Nada mais será como antes - Miguel Nicolelis (3)



Refeição Cultural 

"Enquanto ela ainda estava tentando compreender alguma coisa do que havia acabado de ocorrer, o seu telefone celular favorito conectou-se com a interface háptica, que ela mesma havia inventado, para entregar mensagens táteis diretamente na pele do seu antebraço. A mensagem entregue era bem simples: um novo e-mail havia chegado. Tosca adorava a forma silenciosa de receber mensagens diretamente na mais superficial camada epitelial do seu corpo, sem a produção de qualquer som que a distraísse. Ninguém em todo o mundo possuía um sistema como esse: para completar a operação do seu celular privado, Tosca rapidamente imaginou um piscar de olhos na sua mente. Mais rápido do que um piscar real, a atividade elétrica do seu cérebro, carregando consigo um desejo motor, tão ávido quanto silencioso, foi transmitida para os óculos com a missão de ativar um minúsculo monitor embutido na lente do lado direito (Tosca não aprovava os implantes retinais, a última moda tecnológica a varrer o planeta). Assim que a mensagem se espalhou para ocupar todo o seu campo visual, foram necessárias apenas algumas centenas de milissegundos para que ela se desse conta de que o e-mail continha o cartão de embarque - da primeira classe - do voo para São Paulo." (p. 39)


Li o segundo capítulo do romance de ficção de Miguel Nicolelis. Nele, nos são apresentados dois personagens: Tosca Cohen, neurocientista, e seu tio Omar Cicurel, banqueiro egípcio.

É muito legal ler textos de autores que você já conhece um pouco. Já li o livro "O verdadeiro criador de tudo", do professor Nicolelis. 

De certa forma, percebo nas características de seus personagens ficcionais a crítica que o neurocientista faz na vida real em relação a alguns temas.

Por exemplo, a personagem Tosca ser contra a moda em 2036 de implantes de retina e optar por ler as mensagens de e-mails através da lente dos óculos tem relação com o que Nicolelis defende com seu sistema de interação cérebro-máquina sem implante no cérebro. 

Nicolelis já teceu críticas ao modelo "espetaculoso" de Elon Musk de implantes de chips. 

Enfim, sigamos com a leitura. A gente aprende sempre que lê. 

Só o conhecimento liberta.

William 


Post Scriptum: o comentário seguinte pode ser lido aqui.


segunda-feira, 2 de setembro de 2024

100 dias de buscas por sentidos



Refeição Cultural - E agora, José?

100. E então passaram-se cem dias desde que defini que refletiria sobre os sentidos e motivações para o meu viver daqui adiante. É verdade que as buscas, reflexões e decisões não são de natureza dramática e definitiva como poderiam ser em outras etapas de minha existência. Sou um retirado (não um retirante).

Aos 55 anos e retirado da condição de venda da força de meu trabalho, como beneficiário de uma caixa de previdência para a qual contribuí por décadas - oportunidade que a Sorte me presenteou por ter sido trabalhador de uma empresa estatal - é mais fácil ter tempo no cotidiano para refletir sobre os sentidos da vida e pensar alternativas de mudanças para tentar encontrar alguma satisfação que me sirva de utopia ao acordar diariamente.

O que faço de minha vida? O que deixo para trás e não busco mais em minha vida? É possível ou viável esses tipos de perguntas neste momento de minha vida? Que potência ou controle tenho eu ou temos nós, reles mortais, para definir o que fazer e o que não fazer neste mundo mundo vasto mundo drummondiano, sem soluções e sequer rimas?

Fosse eu um palestino levando minha dura e escassa vida como colonizado em minha própria terra, a Palestina da Faixa de Gaza, no mês de setembro de 2023, e estivesse escrevendo este texto e definindo coisas a fazer e não fazer mais em minha vida... e dias depois meu mundo teria acabado sob bombas e escombros e fome e sede e sangue e morte... imaginem vocês como chega a ser ousado ou arrogante nos dias atuais ficar elucubrando coisas a fazer e não fazer na vida! (talvez devesse ser mais humilde e deixar essas buscas de lado)

Algumas pessoas podem pensar que coisas ruins só acontecem com os outros, com os palestinos, com os haitianos, com os russos e com os ucranianos, com os libaneses, com povos de países africanos ou asiáticos... muitas pessoas não associam causas e consequências da disputa global por hegemonia. Pouca gente acha possível os bárbaros do império do norte virarem suas máquinas de guerra e tomada de poder sobre a terra dos outros para o nosso lado. Pouca gente. 

Fosse eu outro tipo de animal mamífero, qualquer deles, quadrúpede ou bípede, com ou sem rabo, com ou sem polegar opositor, e não teria a necessidade de utopias, da criação de abstrações para dar sentidos ao viver... assim somos nós seres humanos. Chamados seres da razão, mas totalmente das paixões.

Fosse eu outro tipo de animal mamífero, desses que se podem adestrar, inclusive da espécie de humanos que não pensam, que foram completamente capturados por algum desses manipuladores dos desejos e das ações de suas marionetes, e nem estaria aqui pensando essas coisas da política de imperialismo, colonialismo, neoliberalismo etc.

Para com essa elucubração política sem rumo certo.

---

E agora, José? 

Amanhã não vou treinar para a maratona x ou y... não vai rolar mais uma maratona na minha vida. A vida me pregou uma peça...

Não vou comprar uma moto Harley-Davidson como sonhei por muito tempo na vida. Foi sonho de juventude. (tive uma sete galo... foi do caralho!)

Sinceramente, não vejo mais sentido em fazer o Caminho de Santiago de Compostela. Nem conhecer Machu Picchu vou mais. Não careço disso.

Pensei décadas atrás em ser professor, educador, coisa do tipo. Entrei numa faculdade de Educação Física e não tive dinheiro para concluir. Tentei uma universidade pública, entrei na USP... As veredas da vida conspiraram para eu ser sindicalista e não ser professor saído da FFLCH. (estudei tanto a história do movimento dos trabalhadores que poderia ter sido formador após anos de militância... deu ruim, fui cancelado pelo meu Sindicato)

(...) fôlego

Acho que não vai rolar me tornar uma pessoa mais de esquerda do que fui nesses trinta anos, não vou me tornar um revolucionário agora com esse corpo de merda que me sobrou. (aliás, sempre olho ao meu redor e tenho claro que sou um desses esquerda caviar fru fru como usa ser a matriz de onde vim)

---

Tá, mas e o que vou fazer?

Ainda tem os clássicos, a literatura que tanto quis ler e nunca dava porque estava sempre trabalhando e cansado e com sono e com outras prioridades vitais e com barulho e sem condições de concentração nas mais de quinze casas que vivi etc etc. Tem a literatura ainda...

(E eu que descobri na vida real que até para ler é preciso ter algum preparo físico, ou físico, para conseguir ler e estudar horas a fio...)

A literatura é uma coisa a se pensar... ainda tenho pilhas de livros físicos para ler.

Tenho que trabalhar o tratamento e guarda de meus mais de cinco mil textos e postagens de quase duas décadas de blogs com conteúdos culturais e políticos. A maior parte ainda está nas "nuvens" dos nossos inimigos de classe e de concepção de mundo.

E ainda tenho uma coisa meio da natureza humana de certa parte dos humanos... um desejo de escrever e refletir e registrar coisas.

E tenho que cuidar das pessoas que amamos.

Acho que é mais ou menos isso. 

(da política, quero ajudar como puder a eleger a Luna Zarattini e o Guilherme Boulos. Depois disso, preciso tirar a política de mim assim como me tiraram da política)

William


Diário e reflexões




Refeição Cultural

Osasco, 02 de setembro de 2024. Segunda-feira.


O QUE FAZER E O QUE DEIXAR DE FAZER

Tenho questões a decidir sobre e para a minha vida. Passei as últimas semanas refletindo sobre busca de sentidos e mudanças para que meu espírito encontre um pouco de paz para seguir com o cotidiano existencial.

Durante uma centena de dias, fiz registros diários de coisas que fazia e ou pensava a respeito dessa temática de achar motivações e sentidos para a etapa atual do meu viver. Pensei em organizar as coisas, organizar um centro de documentação sobre minhas mídias de cultura (cedoc), pensei sobre coisas possíveis para o presente e o futuro etc.

Durante esses dias de buscas, fiz alguns exames de saúde que precisava fazer - só sei que minha saúde e minha energia estão diferentes, bichei -, refleti sobre meus pais e minha família, sobre a desconsideração do Sindicato ao qual dediquei minha vida, sobre a situação política do Brasil e do mundo etc. Tentei me ver no meio disso tudo. Eu vivi no meio disso tudo por décadas.

Estou apreensivo quanto ao presente e futuro de todos nós. E essa cisma para alguém que conhece de política porque foi formado na política é uma cisma que aperta o peito, comprime a respiração. As coisas não andam bem e vão piorar. Um ser político sabe disso. E o que mais me desarranja o sistema digestório, por assim dizer, é a leitura do cenário que me diz claramente que não há sinais de mudança de tendência nas coisas.

Ontem, no registro 99 dos 100 dias de buscas, sintetizei duas verdades materiais que não podem ser tapadas com peneira perante a luz do sol. Não posso mais me iludir em relação ao meu lar e em relação ao Sindicato ao qual fiz parte por 35 anos. Não terei uma casa organizada e não terei apreço e consideração do Sindicato. Ponto. A vida deve seguir. Eu tenho que parar de sofrer e me corroer por causa disso. A vida deve seguir.

---

DISSIPOU-SE UMA DAS "NUVENS" COM A PRODUÇÃO CULTURAL DO BRASIL 

Uma das coisas que sempre falo e preciso acelerar minha tarefa em relação ao problema que aponto é providenciar a guarda e a impressão de toda a cultura e conhecimento que eu mesmo produzi nas duas últimas décadas como cidadão que tinha posição de liderança na luta de classes. Por 18 anos estudei, li, fiz política e produzi textos em blogs. São mais de 5 mil textos. 

O eventual fim definitivo da rede social "Twitter" no Brasil é mais um exemplo claro do que falo e escrevo sobre o risco de não fazer guarda em mídias físicas e materiais impressos do conhecimento humano produzido nas duas últimas décadas. 

Imaginem vocês quantos milhares ou milhões de produtores de cultura através da plataforma digital "Twitter" perderam no Brasil, de uma hora para outra, o acesso às suas produções que estavam só na nuvem da plataforma e não impressas ou guardadas em meios físicos próprios. Imaginem!

Confiar em guardar produção de conhecimento humano somente nas nuvens das plataformas digitais das big techs é jogar no lixo o conhecimento cultural produzido neste século. É facilitar o trabalho dos bombeiros do mundo distópico do romance Fahrenheit 451, cuja missão é apagar a produção cultural humana através do fogo.

De uma hora para outra, a rede social "Twitter" usada por milhões de pessoas no mundo foi adquirida por um merda - um humano - que decidiu utilizar a plataforma de comunicação para fazer política de manipulação criminosa sem respeitar absolutamente nada, leis, países, nada. As autoridades de nosso país decidem restabelecer a nossa soberania e a plataforma é impedida de funcionar no país. Pronto. Fim do acesso a eventual produção de conhecimento disponibilizada somente na dita plataforma.

Eu não tive perda considerável de produção no "Twitter", transformado em plataforma bandida "X". Das 9 mil postagens que fiz ao longo de anos, a maioria delas não foi de produção exclusiva naquela plataforma. Felizmente.

Mas sabemos de muitos ativistas, intelectuais, produtores culturais e outras pessoas físicas e jurídicas que produziam conteúdo quase que exclusivamente, e diariamente, na plataforma que foi impedida de funcionar no Brasil. Essas pessoas perderam o acesso ao que produziram. Entendem?

No meu caso, imaginem se amanhã as autoridades brasileiras decidem proibir o funcionamento da big tech na qual tenho mais de 5 mil textos produzidos e disponibilizados através dela! Se neste momento eu não pudesse acessar minha produção seria uma perda inestimável em minha vida de produtor de conhecimento.

Ou seja, é enorme o risco que toda a humanidade corre mantendo a produção humana só em meios virtuais, digitais, em "nuvens" de empresas que pouco se importam com o conhecimento humano, elas lidam com o fato de que tudo é "mercadoria" e "business".

---


CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO

Enfim, avalio que é necessário acelerar o trabalho de revisão e guarda física da produção cultural que eu mesmo fiz nas últimas duas décadas. 

Os bombeiros do Fahrenheit 451 já fizeram seu trabalho interno nas salas e arquivos do Sindicato por onde passei décadas de minha vida.

Tenho que apressar o resgate de minhas impressões, ideias, histórias e vivências arquivadas nas nuvens de uma gigante big tech, pois não se sabe do instante seguinte neste mundo em disputa entre o apagamento da história e da insistência em se fazer história.

William


domingo, 1 de setembro de 2024

Os miseráveis - Victor Hugo (15)



Refeição Cultural 

Osasco, 1° de setembro de 2024. Domingo.


INTRODUÇÃO 

Capítulos duríssimos os que li neste domingo! 

É a sociedade capitalista de hoje, sem tirar nem colocar algo mais além do que está descrito por Victor Hugo em 1862.

---

PRIMEIRA PARTE - FANTINE

LIVRO V - A DECADÊNCIA 

VI. O pai Fauchelevent

O senhor Madeleine é colocado à prova por Javert, ao se ver obrigado a tentar salvar um velho preso a uma carroça tombada. 

Madeleine, por ser um humanista, não suportaria ver alguém morrer sem nada fazer.

Ele salva o velho se colocando embaixo da carroça e fazendo força até puxarem a vítima. 

Javert disse antes que conhecia apenas um homem com força capaz de tal feito... um condenado da prisão de Toulon. (p. 217)

---

VII. Fauchelevent torna-se jardineiro em Paris

A bondade do senhor Madeleine é tanta que ele, além de salvar a vida do velho, dá um jeito de indenizar o coitado, comprando dele a carroça e o cavalo (morto) e arrumando-lhe um trabalho.

Neste capítulo, ficamos sabendo também, que foi nessa época que Fantine conseguiu trabalho na fábrica do senhor Madeleine, ao voltar como estranha para Montreuil-sur-Mer, após deixar a filhinha Cosette com os Thénardier.

---

VIII. A senhora Victurnien despende trinta e cinco francos com a moral

"Além disso, mais de uma pessoa invejava seus cabelos loiros e seus dentes brancos." (p. 220)

Neste capítulo, o narrador descreve de forma excepcional como se dão as intrigas e fofocas na sociedade humana. 

Fantine será vítima de uma esbusteira invejosa e a consequência da maldade dela se estenderá até a pequena Cosette.

Por insinuarem que Fantine era prostituta, ela foi demitida da fábrica do senhor Madeleine.

---

X. Continuação do sucesso

"O inverno transforma em pedra a água do céu e o coração do homem." (p. 224)

Difícil alguém não se revoltar com a situação vivida por Fantine.

A jovem é uma das vítimas do perverso modelo de "livre mercado" capitalista. 

"Costurava dezessete horas por dia, mas um fornecedor de trabalho das prisões, que fazia as prisioneiras trabalharem por muito pouco, fez de repente os preços baixarem, o que reduziu o salário das costureiras livres a nove soldos. Dezessete horas de trabalho e nove soldos por dia! Os credores estavam mais do que nunca desapiedados; o negociante de móveis, que havia retomado quase tudo, dizia-lhe sem parar:

- Quando vai me pagar, descarada?" (p. 228)

---

E AINDA HOJE, SÉCULO E MEIO DEPOIS, AINDA VENDEM A MENTIRA DE "HUMANIZAR O CAPITALISMO"

Em cada cidade do mundo capitalista existem milhares de mulheres vítimas desse sistema, mulheres como Fantine.

É como nos alerta Victor Hugo na abertura da obra: livros como este não serão inúteis enquanto houver "a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância" (p. 37)

Assino com ele!

William


Post Scriptum: comentários sobre a leitura anterior podem ser lidos aqui.


99 de 100 dias



99. Saí para uma caminhada reflexiva. Domingo de sol, calor intenso. O ipê amarelo que vi ontem (foto) estava bem mais carregado e cheio de flores. A sequidão ajuda na florada. Assim como a natureza responde ao tempo, minha natureza deve responder ao meu tempo.

Entre hoje e amanhã conclui-se uma jornada reflexiva de 100 dias buscando de uma forma ou de outra compreensões, sentidos, razões, mudanças possíveis. Que coisa complexa e difícil foi essa jornada! 

É tempo de definir algumas coisas, decidir o que não fazer mais, o que desistir de tentar alcançar, o que perseguir ao acordar diariamente. 

Meu tempo está correndo enquanto estou andando como um descadeirado. Óbvio que vai faltar tempo para as coisas que ainda gostaria de fazer. (Mesmo que eu e o mundo duremos décadas!)

Então, o que não vou mais perseguir ou sonhar em conseguir? (Tempo para responder...)

(...)

Abro mão a partir de agora de duas coisas que afetam muito minha psique: a consideração da instituição Sindicato dos Bancários de São Paulo Osasco e região e a organização daquilo que chamamos de lar, a casa onde vivemos. 

Abro mão. Não sonho mais com isso. Além de perceber que são coisas que não vão rolar, são coisas que não dependem de mim exclusivamente, é tempo de lidar com essas realidades de outra forma. Aliviar minha psique da forma que ainda for possível. Preciso acordar diariamente sem que essas insatisfações continuem me matando. Já basta a política me matar.

Definidas duas coisas que não estarão mais no meu horizonte ao amanhecer, tenho que decidir pelo que caminharei sabendo que não há caminhos, mas que os caminhos se fazem ao andar. Qual será ou serão minhas utopias ao acordar?

William (pelo que se dará o "will i am"?)