domingo, 31 de agosto de 2008

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O gigolô das palavras - Luis Fernando Verissimo



Luis Fernando Verissimo

Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. 

Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. 

Já estava até preparando, às pressas, minha defesa ("Culpa da revisão! Culpa da revisão!"). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Verissimo errado? Não. Então vamos em frente.

Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) 

A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua, mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.

Claro que eu não disse isso tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas - isso eu disse - vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. 

Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. 

Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.

Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.

Fonte: crônica retirada do livro "Mais comédias para ler na escola", Editora Objetiva, 2008.


Post Scriptum (do blogueiro):

Dando uma de gigolô das palavras, tomei a liberdade de dividir em mais parágrafos o texto do Verissimo e grifei trechos porque acho que assim fica "mais claro, mais palatável" para leitores virtuais.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

A importância da vírgula


Flores Osasquenses. Foto: William Mendes.

Vejam que interessantes os exemplos abaixo referentes ao uso do sinal gráfico "vírgula" na língua portuguesa. A presença ou ausência da vírgula muda completamente o sentido do enunciado.


1. A Vírgula pode ser uma pausa... ou não.

"Não, espere." ou "Não espere."


2. A Virgula pode sumir com seu dinheiro.

"23,4." ou "2,34."


3. A Virgula pode ser autoritária.

"Aceito, obrigado." ou "Aceito obrigado."


4. A Virgula pode criar heróis.

"Isso só, ele resolve." ou "Isso só ele resolve."


5. A Virgula pode criar vilões.

"Esse, juiz, é corrupto." ou "Esse juiz é corrupto."


6. A Virgula pode ser a solução.

"Vamos perder, nada foi resolvido." ou "Vamos perder nada, foi resolvido."


7. A vírgula muda uma opinião.

"Não queremos saber." ou "Não, queremos saber."


8. Uma vírgula muda tudo. Vejam isso:

"Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria de quatro à sua procura."


Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de "mulher".

"Se o homem soubesse o valor que tem a mulher, andaria de quatro à sua procura."


Se você for homem, colocou a vírgula depois de "tem".

"Se o homem soubesse o valor que tem, a mulher andaria de quatro à sua procura."


Fonte: Movimento de Educadores Sociais Urbanos.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Romaria 2008 - Velha caminhada; nova experiência, sempre!


Santuário de N. Sra. da Abadia.

Refeição Cultural - Velha caminhada; nova experiência, sempre!

Mais um ano, mais uma caminhada para Romaria.
Mais velho, mais experiente, e mais preparado.

Como ocorre em certos acontecimentos, a experiência de fazer a caminhada de Uberlândia à cidade de Romaria (ou Água Suja) é sempre diferente a cada ano.

Aliás, posso dizer que, se por um lado o corpo está mais velho e isso poderia ser uma desvantagem, por outro, aprende-se a pisar melhor, economizar energia e se auto preservar.

Bom, para que se tenha uma ideia de como são as distâncias e referências que os romeiros usam quando estão caminhando, apresento abaixo os trechos percorridos para aqueles que saem da cidade de Uberlândia. O que se chama aqui "Rio das Velhas" na verdade é o Rio Araguari.


Da casa de meus pais até o trevo para Araxá....................12,0 Km
Do trevo para Araxá a Olhos D'Água...................................6,7 Km
De Olhos D'Água até a Ponte do Rio das Velhas...................8,1 Km
Da Ponte do Rio das Velhas até o Trevo de Miranda.............3,7 Km
Do Trevo de Miranda até o Posto Triângulo.........................7,8 Km
Do Posto Triângulo até o Trevo para Araguari.....................3,7 Km
Do Trevo para Araguari até a Aliança Agro-Florestal............3,2 Km
Da Aliança Agro-Florestal até o Posto N. Sra. da Guia..........2,8 Km
Do Posto N. Sra. Da Guia até a Antena...............................11,0 Km
Da Antena até o Posto Santa Fé.........................................12,5 Km
Do Posto Santa Fé até o Desvio (Atalho).............................6,0 Km
Do Atalho até o Mata Burro (Córrego).................................3,0 Km
Do Mata Burro até o Pé da Escadaria (Igreja).....................5,0 Km

Total da minha caminhada: 85,5 Km


Este ano fui muito bem novamente, pois fiz o percurso em 21 horas e meia. Saí da casa de meus pais às 11:15h de sexta e cheguei a Igreja às 8:45h de sábado.

Pela primeira vez em todos esses anos, cheguei sem estar com os pés arrebentados. Não tive nenhuma bolha que me trouxesse sofrimento.

Foto de William Mendes com sua querida
mamãe Dirce Mendes.

A SAÍDA

Saí às 11h com Sol forte. Ter usado camisa de manga e calça longa não foi uma boa escolha, pois passei muito calor até o fim da tarde.

Cheguei ao bairro Alvorada às 13:30h. Segui caminhando e fazendo pequenas paradas - mais para trocar meias. Parei um pouco antes dos Olhos D'Água para comer um lanche, ovo e maçã. Eram 15h.

Dessa vez passei direto pelo Rio das Velhas - cerca de 17h - e peguei a grande subida direto.

Escureceu às 18h. Parei no meio da subida. Resolvi esticar até o Posto Triângulo. Não tinha bolhas nos pés e estava bem.

CAMINHANDO AO LUAR 

A primeira parte da noite de lua crescente é clara. Apesar de não se comparar à lua cheia, dá para ver até nossa sombra no chão.

Cheguei ao Posto Triângulo às 20h (ele não funciona mais - antes era um lugar com água, banheiro e comércio).

Saí para andar até o Posto N. Sra. da Guia, uns 10 Km. 


Outra novidade ruim: não estava lá a barraca de ajuda aos romeiros pra tomar aquela sopa maravilhosa. Ainda bem que, antes, tomei um caldo de feijão de uma barraquinha no acostamento. Além de ganhar laranja e banana.

ESTICADA ATÉ A ANTENA 

Cheguei ao Posto às 22:30h. Já havia andado 48 Km e estava muito bem fisicamente. Saí para dar aquela conhecida esticada que nunca chega: a Antena.

São 11 Km e o difícil é que quando você avista aquela luzinha vermelha no meio do nada, acha que está chegando, mas ainda faltam quilômetros e você anda mais de uma hora mirando a tal Antena e ela não chega.

Bom, como faço tradicionalmente, já vinha marcando meu ritmo pelo som de minhas fitas cassete. Apesar de ser antiquado usar aikman ao invés de MP3, o fato de ter que virar a fita a cada 30 minutos me ajuda a espantar o sono (que na madrugada seria terrível!).

Cheguei à Antena às 2h da manhã. Cansado, mas sem bolhas e melhor que usualmente. Finalmente, tomei a reconfortante sopa e comi outro ovo cozido que levei.

Foto de William Mendes, após andar
uns 60 Km direto.

Saí para caminhar mais 12,5 Km até o Posto Santa Fé. Calculei que chegaria às 5h da manhã e cheguei. Outra surpresa ruim: o posto fechou também. Tive que me deitar no chão mesmo pra relaxar uns 20 minutos. 


Passei muito sono nessa caminhada. Dei umas deliradas de sono andando meio dormindo. A madrugada já estava um breu total desde a meia-noite, quando a lua foi embora.

Estava com fome, mas não conseguia comer nada, pois estava com o estômago meio enjoado.


Foto de William Mendes,
na chegada da romaria
e ao lado da igreja local.

EM BUSCA DO ATALHO E DA CIDADE 

Saí para caminhar até o Atalho. Cheguei às 7h da manhã.

Comi umas frutas que estavam distribuindo na estrada e decidi só parar na escadaria da igreja - 8 Km à frente, após passar pelo eucaliptal, descida de pó e cascalho e subida animal rumo à entrada da cidade.

Cheguei às 8:45h e muito contente, apesar do cansaço, pois não cheguei estragado fisicamente.

COMENTÁRIO FINAL

Fazer essa Romaria é bem diferente de caminhar os 900 Km que farei na Espanha um dia. Mas é sempre um aprendizado. Um momento de introspecção. Um momento de humildade; de autocontrole e de renovação de você mesmo.

Voltei um pouco mais leve - em relação ao peso que carrego em meus ombros.

Agora, é pensar em minha próxima São Silvestre em dezembro.


William

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Artigo - Contribuição para a Campanha Nacional dos Bancários (2007)


Outro texto bastante atualizado, mesmo após a Conferência Nacional dos Bancários 2008.


Contribuição para a Campanha Nacional dos Bancários

William Mendes (*)


Já estamos nos preparatórios da Campanha Nacional dos Bancários de 2007. Como todos os anos, alguns temas serão de grande importância para maior ou menor sucesso no embate entre patrões e empregados.

Qual o modelo de Campanha que devemos adotar? Mesa única para bancos públicos federais e bancos privados? Ou cada um por si (e o diabo contra todos)?

Quais devem ser os eixos econômicos e sociais da campanha?

Deve-se exigir perdas (“percas”) de outras eras, de outros governos?

Estes são alguns dos debates que os bancários da CUT (90% da categoria) e os seus representantes sindicais já estão fazendo nos encontros e congressos estaduais e regionais para culminar na Conferência Nacional dos Bancários no final de julho.

Como penso que dirigente sindical deve apresentar sua opinião para fomentar o bom debate, direi aqui o que penso a respeito da Campanha Nacional deste ano e as possibilidades que vislumbro.


Passado recente: bancários lutaram pela unidade. Objetivos dos bancários

Em um passado recente, do ano 2000 para cá, os bancários de bancos públicos e privados tinham alguns objetivos em comum e outros em particular:

 Sair da armadilha dos banqueiros de não repor ao menos a inflação em toda campanha salarial nos privados e públicos estaduais. Sair do congelamento salarial nos públicos federais.

 Não aceitar que os eventuais abonos, oferecidos pelos banqueiros, substituíssem o reajuste, causando assim perda da massa salarial real a cada ano.

 Melhorar a distribuição da PLR – Participação nos Lucros e Resultados - nos privados e ter direito a ela nos públicos federais.

 Conseguir isonomia de direitos entre os ACT (Acordos Coletivos de Trabalho específicos por banco ou federação) e a CCT (Convenção Coletiva de Trabalho dos Bancários), assinada com a Fenaban (Federação Nacional dos Bancos) desde 1992 e maior conquista dos trabalhadores bancários, pois unificou direitos sociais e econômicos e proibiu salários menores por regiões como era nos anos 80.

 Conseguir isonomia de direitos entre os funcionários dos bancos públicos federais e estaduais admitidos antes e depois das resoluções 9 e 10 da então chamada CCE - Comissão de Controle das Estatais, de 1996 e 1997, do governo do PSDB/PFL, que criou um apartheid com funcionários admitidos com menos direitos sociais e menores salários.

 Junto a questões econômicas de todos os bancários, também haviam questões sociais fundamentais como lutar pelo fim da terceirização que já começava a ganhar fôlego, igualdade de oportunidade dentro dos bancos, luta contra o assédio moral e adoecimento no sistema financeiro (como Lesões por Esforço Repetitivo-LER e doenças psicossomáticas), dentre outras reivindicações que exigiam mais direitos e condições de trabalho para a categoria.


O presente: unidade segue em construção. Objetivos alcançados

 Os bancários passaram a conseguir a manutenção do poder de compra dos salários a partir de 2004 e obtiveram ganhos reais, ou seja, índices nas campanhas maiores que a inflação dos períodos;

 Os bancários dos bancos públicos federais passaram a ter reajustes salariais anualmente; muitos direitos da CCT dos bancários foram estendidos aos trabalhadores dos públicos como ausências legais, menor desconto do vale-transporte, cestas alimentação e refeição - que eram menores ou não existiam etc;

 Os bancários da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil passaram a receber a PLR a partir de 2003, sendo ao menos igual à da categoria ou maior; com negociações banco a banco foi possível aumentar direitos a partir da PLR da Fenaban;

 Mesmo com campanhas unificadas, muitos direitos específicos foram alcançados nas mesas permanentes nos bancos públicos e privados como, por exemplo, soluções para a Previ, negociação sobre a Cassi e conquistas de direitos como abonos e outros no BB; acordo aditivo do Santander Banespa com direitos acima da CCT; soluções para o PCR e plano de saúde no Itaú; volta e ampliação de direitos e readmissão de empregados demitidos ilegalmente pelo normativo RH 008 na Caixa Federal, dentre outros bancos;

 Contratação de cerca de 30 mil bancários a mais no BB e na Caixa Econômica Federal;

 BB e Caixa passaram a integrar a Convenção da categoria, deixando para um aditivo os direitos maiores e/ou diferentes.


E 2007? Devemos seguir na unidade da categoria

Pelo que já vivenciei como bancário do Unibanco até 1990 e como funcionário do Banco do Brasil nos últimos 15 anos, tenho a convicção de que a melhor opção para os bancários dos segmentos público e privado é continuarem unidos na luta de classe, como categoria forte e organizada e buscando suas conquistas contra um setor cada vez mais oligárquico e padronizado: os bancos.

Penso que devemos defender a todo custo a Convenção Coletiva de Trabalho com direitos econômicos e sociais para todos os bancários em nível nacional.

Não podemos cair no equívoco defendido por alguns segmentos, que querem separar os bancários por banco ou por regiões do país. A história da categoria já nos mostrou onde isso leva: enfraquecimento, perda de direitos e isolamento diante dos banqueiros e da sociedade (no caso dos bancos públicos).


Eixos comuns aos bancários

Nesse sistema financeiro cada vez mais automatizado e desregulamentado, os bancários de bancos públicos e privados devem lutar contra o assédio moral, o fim das metas abusivas, barrar a terceirização ilegal que pode, inclusive, inviabilizar a categoria bancária.

Em um regime de estabilidade econômica, é importante que os bancários consigam implantar e/ou melhorar Planos de Cargos e Salários na CCT e nos aditivos por banco, conjugados com aumento nos pisos por níveis de responsabilidade, ou seja, escriturários, caixas, primeiras comissões de assistentes, analistas, gerentes de contas, gerentes administrativos e primeiros gestores.

A estas bandeiras comuns devemos lutar por aumento real e melhor distribuição da PLR com distribuição de porcentagem linear além da regra já conquistada.


(*) William Mendes é secretário de Imprensa da Contraf-CUT

Artigo: Acerca da contratação da remuneração dos trabalhadores bancários: uma contribuição ao debate (2007)


Escrevi este artigo em 2007 e relendo ele vejo que está bem presente em nossos debates ideológicos.



Acerca da contratação da remuneração dos trabalhadores bancários: uma contribuição ao debate

(*)William Mendes


Descrição factual da remuneração

É notório o fato de que, a cada ano, aumenta a porcentagem da remuneração do trabalhador bancário que fica fora da Convenção Coletiva de Trabalho e, respectivamente, passível de negociação coletiva – sempre mais forte e abrangedora do ponto de vista do trabalhador.

Hoje, da remuneração anual dos bancários, estão no âmbito da contratação coletiva: o piso de portaria, contínuos e serventes (R$ 605,68) e o piso de escriturários, tesoureiros e caixas (R$ 869,33), sendo que um caixa ou tesoureiro não pode receber menos de R$ 1.214,84. (a gratificação mínima de caixa é de R$ 234,58)

Também existe outro balizador contratado coletivamente: a gratificação de função de que trata o parágrafo 2º do artigo 224 da CLT. (nela o mínimo é 1/3 e na CCT é 55%)

Uma parcela anual que ganhou força desde meados da década de 90 foi a PLR – Participação nos Lucros e Resultados. (conquistada no BB e Caixa Federal somente após as campanhas unificadas de 2003)

Para não deixar de considerar conquistas importantes dos bancários, devemos citar também o vale-refeição e o vale-alimentação que equivalem R$ 543,66 (semelhante à média salarial mensal do povo brasileiro).

O que o mercado financeiro busca e implementa

A disputa ideológica e sistêmica do ramo financeiro atual visa a desregulamentar cada vez mais a remuneração do trabalhador bancário de qualquer direito coletivo e padronizado.

Em vez de salário contratado, quer pagar por produção e “competência”. Em vez de jornada padronizada, a busca por metas inclui um telefone celular e disposição 24 horas por dia para se alcançar os objetivos da empresa (vendas, empréstimos, aplicações etc).

Em vez de bancários com direitos “antiquados” (segundo os banqueiros), empresas terceirizadas.

Querem o fim do salário, dos direitos e benefícios sociais.

Proposta de contratação da remuneração na CCT

Em um regime de estabilidade econômica, é importante que os bancários consigam implantar e/ou melhorar Planos de Cargos e Salários na CCT e nos aditivos por banco, conjugados com aumento nos pisos por níveis de responsabilidade, ou seja, escriturários, caixas, primeiras comissões de assistentes, analistas, gerentes de contas, gerentes administrativos e primeiros gestores.

Neste sentido, devemos ter propostas concretas para o debate na categoria.

Devemos lutar para contratar na CCT, além dos pisos citados, os pisos das funções gerais acima.

PCS (Plano de Cargos e Salários) 

É razoável para a estabilidade atual brasileira termos um plano de cargos para os bancários com promoções por tempo de serviço em 12 níveis, sendo 10 níveis de 3 anos e 2 de 2 ½ anos, perfazendo uma carreira de 35 anos de trabalho (legislação atual) com um interstício de 6%, onde o bancário começa com um piso de 100 unidades monetárias e chega ao final de sua vida laboral com 189,83 unidades monetárias (fora as ascensões e promoções naturais na carreira).

PCC (Plano de Cargos Comissionados) 

Nossa proposta inclui pisos em funções gerais de portaria, escriturário, caixas, telemarketing e teleatendimento, assistentes, analistas, gerentes de contas, gerentes de setor, gerentes administrativos e primeiros gestores.

Dentro destas funções gerais deve haver crescimento horizontal com níveis diversos, para que o bancário perceba uma remuneração melhor à medida que ganhe conhecimento e experiência na função que desempenha.

Este PCC na Convenção Coletiva seria o básico, ficando a critério de aditivos as especificidades de cada banco.

Para darmos um exemplo, esta proposta de PCS e de PCC seria muito melhor no Banco do Brasil de hoje, onde o PCS atual – alterado unilateralmente em 1996 - é de 3% entre os 12 níveis e quase não existe o PCC.

Buscar a contratação salarial sem aumentar a remuneração variável

Para finalizar, não acredito que resolveria entrarmos em um debate com os banqueiros de querer regulamentar algum tipo de comissão por vendas ou metas alcançadas como nos comerciários, pois o que os patrões querem é o fim do salário e que o bancário ache que sindicato não serve para nada, a não ser cobrar o imposto sindical e o assistencial.

Ademais, temos no país cerca de 45% da categoria bancária pertencente aos bancos públicos federais e estaduais e não tem como justificar para a sociedade brasileira que estes bancários percebam qualquer tipo de remuneração ligada a espoliação desta mesma sociedade.

(*) William Mendes
Secretário de Imprensa da Contraf-CUT

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Antes de Santiago de Compostela, caminho até a Romaria (MG)


Santuário da cidade de Romaria.

Antes de fazer minha viagem até a Espanha e caminhar cerca de 900 km, vou fazer mais uma vez o caminho de Uberlândia a Água Suja (Romaria) no Triângulo Mineiro.

Da casa de meus pais até o Santuário de N. Sra. da Abadia de Água Suja são cerca de 85 km.

Viajarei para Uberlândia na próxima semana (quarta à noite) e pretendo pegar a estrada na sexta-feira, 8 de agosto, pela manhã.

Sempre fico ansioso por começar a romaria, por mais que sofra muito para completar o caminho, andando sem parar por cerca de 20 horas.

Veja aqui o histórico do Santuário e dessa peregrinação:


Histórico do Santuário

1867 – “O descobrimento de diamantes no córrego de Água Suja deu origem ao povoado de mesmo nome.” (Pe. Primo Maria Vieira)

1870 – “Joaquim Perfeito Alves Ribeiro, em companhia do viajante Custódio da Costa Guimarães, faz a aquisição da imagem de Nossa Senhora da Abadia. Esta meiga e linda Imagem, personificando a Virgem, por todos aclamada e a todos abençoando, entra triunfalmente neste povoado.” (Pe. Primo Maria Vieira)

Daí começaram as romarias.

A pé, a cavalo, de carro de boi... de automóvel, caminhão, ônibus...

“Quem uma vez veio a este Santuário assistir aos festejos, nunca mais deixou de vir.” (Pe. Primo Maria Vieira)

1872 – 19 de julho: foi criada a Paróquia de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja. Até 1899, os padres da diocese de Goiás tomaram conta de Água Suja.

Em 1899 – Chegaram os padres agostinianos, vindos da Espanha. Ficaram até 1916.

1916 – Padre Primo Maria Vieira nascido em Portugal, foi pároco até 1922. Escreveu a “Monografia da Paróquia e Santuário Episcopal de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja”. É a nossa história do período de 1870 a 1920.

1925 – Chegaram os padres dos Sagrados Corações, vindos da Holanda, tendo à frente Padre Eustáquio. Ficaram até 31 de março de 1991.

1926 – O atual santuário, escolhido pela Mãe de Deus para nele distribuir graças e favores, foi iniciado por Padre Eustáquio. Mutirões de carros de bois e ajuda dos romeiros e devotos o deixaram pronto em maio de 1975.

1994 - Monsenhor Primo Vieira, nascido em Romaria (11/06/1919), sobrinho de Pe. Primo Maria Vieira, padre da diocese de Santos, terminou o livro “Nossa Senhora da Abadia – A História de uma devoção”. Faleceu em Portugal em 22/07/1994.

2001 – 30 de dezembro: A ACADEMIA SENHORA DA ABADIA (ASA), quer com carinho cuidar dessa nossa história.

Santuário Nossa Senhora da Abadia de Água Suja – Romaria - MG

Fonte: www.senhoradabadia.com.br

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Poema - Instantes


Onde ancorar neste mundo?

Cansaço físico... o mental é maior!

A porcaria do ardor eterno nos olhos... é a modernidade!

Ler é difícil... durmo em minutos!

Então, tomei umas brejas... amorteci!

Massagem e cafuné em meu filho... sirvo pra algo!

Bee Gees cantando... a lágrima não veio... segue o ardor...

Fazer o quê?!


Wmofox

terça-feira, 8 de julho de 2008

O Caminho de Santiago: o passo hoje foi a máquina fotográfica



As conchas do caminho.

Pois é, nunca fui de fotografar minhas caminhadas e andanças por aí.

Mas, como disse meu primo Jorge Luiz, uma viagem como essa merece registros fotográficos.

Para mim, as lembranças estarão registradas em meu ser. Mas não posso ser egoísta e não querer compartilhar com as pessoas próximas e amigos um pouquinho daquilo que vi, já que a experiência vivida é mais difícil de expressar.

Tenho tempo para aprender a mexer com a "bichinha", já que não sou muito apto a esses negócios de tecnologia.

Passo a passo, de prestação em prestação, uma hora me pego lá em Madri, iniciando minha viagem de trem rumo à saída de minha caminhada, do outro lado dos Pirineus. (daqui a meses...)


Post Scriptum (16/4/19):



Eu não pude fazer o Caminho de Santiago, mas estive em Madri no ano seguinte a esta postagem. Fui a trabalho, representando os sindicalistas brasileiros da CUT, a um curso da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Fiquei duas semanas na Itália e uma na Espanha. Estive inclusive na estação de trem de Madri, quando embarquei para Toledo, numa rápida visita de ida e volta no mesmo dia. Bati muitas fotos com minha pequena máquina Sony DSC W120.

Nunca antes na história deste país...


Presidente Lula.
Essa frase do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva é bastante simbólica. Para o bem e para o mal.

Em geral, seus adversários políticos a usam para achincalhar qualquer coisa que o governo faça.

Por outro lado, ela deve ser usada mesmo cada vez que nós, cidadãos desta ex-colônia, nos surpreendemos com coisas nunca antes vistas nem imaginadas como possíveis nestas terras.

Quem poderia imaginar o Sr. Daniel Dantas ser preso? Quem em sã consciência imaginaria liberdade de atuação da Polícia Federal para prender por aí dezenas de políticos e prefeitos de tudo quanto é partido?

Aos desavisados, eu recomendaria a leitura do livro "O mapa da corrupção no governo FHC" de Larissa Bortoni e Ronaldo de Moura, editado pela Fundação Perseu Abramo.

Ele relembra e faz um apanhado de como a corrupção era tratada no Brasil até 2002, mais notadamente no período do desmanche do Estado pela tucanagem.

O meu maior receio é todo esse nosso sonho de um país melhor ser interrompido nas eleições de 2010. A possibilidade de voltarmos a ter o país gerido pela mão da elite conservadora existe. Mas, sigamos avançando e lutando para que o povo brasileiro saiba como não cair nas armadilhas eleitoreiras dos donos do poder econômico, traduzidos nos partidos PSDB e DEM, além de muitos coronéis espalhados pelo PMDB.

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Post Scriptum (julho/2013):

Pois é, às vezes, acreditamos que mudanças no status quo são possíveis. 

No momento deste artigo, vivia a euforia do banqueiro Dantas encarcerado. O tempo nos mostrou que os amigos dos donos do poder não ficam presos... 

O tempo nos mostrou que corrupção só é apurada e julgada se for aquela que tenha relação com pessoas e partidos que não estão na seara do poder secular da casa-grande no Brasil.

O "mensalão" do PSDB mineiro ninguém sabe, ninguém viu! O propinoduto do PSDB no metrô paulista, ninguém sabe, ninguém apura, ninguém do PIG publica, ninguém viu!

O receio agora é para 2014...

Concluo quase por mudar o título deste artigo eufórico lá de 2008. Seria algo como "Quase sempre como antes na história deste país..."

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Post Scriptum (16/4/19):

OPINIÃO:

Pois é! Reler neste momento esta postagem é recordar um instante da história deste país miserável, deste povo miserável. Durante um átimo de tempo em sua existência, o Brasil experimentou com Lula e o PT o melhor momento de sua história de cinco séculos. Os avanços progressistas, a soberania, o respeito internacional, a liberdade, a distribuição de renda pelo emprego e pelo Estado, a felicidade do povo, as oportunidades para todos, a revolução democrática com o PT e o lulismo, sem guerras e violência.

Tudo isso acabou em 2016 com um golpe de Estado. 

Veio o impeachment de Dilma; o governo dos bandidos com Temer, "com o STF e tudo"; o fim dos direitos trabalhistas e sociais; a prisão política sem crime de Lula; a eleição de Bolsonaro em eleições fraudulentas sem a participação de Lula e com manobras no judiciário; veio a destruição do país em 100 dias de desgoverno do clã Bolsonaro, que governa para os Estados Unidos e Israel, para os banqueiros, para os empresários, para os ruralistas, para o 1% lesa-pátria. 

As instituições do poder de polícia e judiciário, que cito na postagem, fortalecidas por Lula e pelo PT, foram centrais na desestabilização dos governos democráticos e populares, responsáveis pela perseguição parcial ao PT e representações do campo popular. Foram responsáveis pela destruição da economia do país, através da Lava Jato, uma operação destinada a destruir o Brasil.

É isso! Que fique o registro de que fomos felizes por alguns anos de PT e Lula.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Mais uma pegada do Caminho



As conchas do caminho.

Hoje fui tirar o passaporte brasileiro para poder entrar na Espanha.

A caminhada para Santiago de Compostela anda lenta. Estou com muitas montanhas no caminho até chegar ao destino inicial da caminhada lá na Espanha. Mas vamos caminhando pela vida.

Chego lá.


Post Scriptum (12/4/19):

Olhando esta postagem, vejo o quanto a vida dá voltas. Eu fui para a Espanha em 2009, nem foi preciso tirar passaporte. Fui a trabalho, representando os trabalhadores em um curso da Organização Internacional do Trabalho. Fiquei duas semanas na Itália e uma semana na Espanha, na capital Madri.

Hoje tenho 50 anos e não fiz o caminho de Santiago de Compostela.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Artigo - Campanha salarial dos bancários 2008


Sec. de imprensa 2006/09.
Estamos começando as discussões da campanha salarial dos bancários de 2008.

Como ocorre normalmente, é provável que as questões que mais chamarão a atenção de trabalhadores e dirigentes sindicais sejam as cláusulas econômicas, como saber qual é o índice e qual é a PLR – Participação nos lucros e resultados - reivindicados.

A Contraf-CUT tem iniciado as discussões com seus parceiros – federações e sindicatos. Como nas últimas campanhas, achamos que devemos lutar por aumento real no índice, participação maior dos bancários nos lucros e resultados – PLR - com uma regra geral que valha para todos, e com a busca da contratação total daquilo que os bancários recebem ao longo do ano, ou seja, o salário fixo direto, indireto e variável.

Será importante avançarmos na discussão de reivindicar novos patamares de salário para o trabalhador bancário que deve começar por uma discussão efetiva de aumento no piso inicial, além de aumento nos pisos das principais funções. Além disso, precisamos exigir dos banqueiros a criação de planos de previdência complementar, com contribuição paritária, com base em toda a remuneração do trabalhador bancário, para garantir seu poder de compra no futuro.

A Contraf-CUT está buscando este ano, como nos anteriores, construir uma mesa única de bancários para fazer o enfrentamento aos banqueiros e governo. Isso é fundamental para não pôr em risco os direitos gerais e fortalecer a CCT – Convenção Coletiva de Trabalho dos bancários -, a melhor convenção de uma categoria no país. A tendência é que ocorram mesas específicas concomitantes para assuntos específicos dos bancos públicos.

Essa reflexão é fundamental por parte dos bancários e sindicatos, pois os banqueiros dão sinais de que não lhes interessa mais a CCT da categoria. Alguns bancos têm mostrado resistência a ela e prefeririam isolar seus trabalhadores em Acordos Coletivos – ACT.

Contextualização histórica

Até a década de 80 havia diversos ACT de bancários pelo país. Também o salário mínimo era regionalizado na época, o que ocasionava grandes disparidades e migrações rumo às capitais, principalmente para São Paulo.

Em 1992, os bancários assinaram a 1ª CCT no país. Foi e é a maior conquista de uma categoria profissional: são direitos iguais para todos os trabalhadores (de empresas e regiões). Passamos a ter pisos nacionais. 

Nos bancos públicos federais seguiram os ACT. Na época, o papel dos bancos públicos e suas fontes de recursos eram diferentes e o poder de compra dos salários era bem maior.

Durante a década de 90, com a implantação do neoliberalismo e a ideia de Estado mínimo, começou-se a política de arrocho salarial nas empresas públicas e seus sucateamentos para a privatização e doação do patrimônio público nacional.

Após 2003, com a unidade de bancários de bancos públicos e privados, houve maior correlação de forças entre bancários e banqueiros e também por novas relações de diálogo com o então recém-eleito governo Lula, foi possível trazer os direitos da categoria aos bancos públicos. Por exemplo, o fim do congelamento e reajustes nos salários e comissões, cesta de direitos, aumentos reais de salário, PLR que não havia.

Essa unidade possibilitou também a recuperação de direitos (isonomia) aos pós-98 nos bancos públicos e avanços de direitos novos para todos da categoria como, por exemplo, a 13ª cesta-alimentação.

Mesa única ou várias mesas?

Hoje existem duas mesas de bancários: Contraf-CUT e Contec.

Alguns sindicatos e forças políticas têm tentado criar novas mesas com os banqueiros. Em primeiro lugar, é necessário dizer que eles têm o direito de fazê-lo.

Em segundo lugar, é necessário também perguntar: isso é interessante para os bancários que eles representam e para a categoria em que estão inseridos? Não.

Vamos contextualizar: o que é mais forte? 6 mil bancários de determinada base enfrentando os banqueiros ou 420 mil na mesma luta?

Isolamento é derrota para os trabalhadores. Recentemente, os metalúrgicos (que não têm CCT e sim ACT), tiveram uma redução em seu piso de 1480 reais para 1207 reais. A GM ameaçava fechar a fábrica lá – São José dos Campos – e abrir em um lugar de mão de obra mais barata.

A Contraf-CUT defende que todos os bancários devem ter uma pauta comum da categoria deliberada na 10ª Conferência Nacional dos Bancários, com a participação de todos os sindicatos, federações e centrais. É natural que as representações devem corresponder ao perfil e tamanho de suas bases.

Qual o modelo de remuneração que queremos?

Quando falamos em remuneração do trabalhador bancário, não podemos isolar o tema como se não houvesse relação entre o trabalho realizado e o modo de produção capitalista onde ele se insere.

O que queremos? Maior renda variável ou mais salários?

Mais renda variável focada na “competência” individual ou remuneração baseada em salário-base por função desempenhada mais adicionais por níveis de responsabilidade?

Essa pergunta é fundamental porque os sistemas não convivem juntos.

Os bancos tiram suas diretrizes empresariais e encaminham a sua força de trabalho para seu atingimento. Resta aos trabalhadores, a verdadeira força produtiva, fazer o contraponto quando acharem necessário.

Ou seja, quem administra é o banco. Mas com organização no local de trabalho e correlação de forças, é possível reverter algumas situações e avançar em conquistas.

Remuneração variável e perdas? Variável e metas e assédio? Variável e jornada?

Adianta falar em perdas ou recomposição no índice quando o salário fixo não é mais a remuneração principal? Qual o efeito de reclamar de metas abusivas e assédio se a remuneração principal na estrutura do banco é a remuneração variável? 

Ou ainda, adianta falar em cumprimento de jornada quando a atividade principal do trabalho bancário se transformou em vender produtos? Isso tem efeito inócuo, pois os gerentes de contas começam a atender “seus clientes” às 7h da manhã e lá pelas 22h ainda o estão fazendo.

Os bancários devem lutar por maiores salários, pisos para as principais funções e valores dos adicionais de função baseados em antiguidade e mérito nas carreiras.

PCCS/PCS

Não adianta falar em Plano de Carreira, Cargos e Salários ou Plano de Cargos e Salários se tivermos em mente a imediatez da PLR e da PR (o que é bem pior).

Se os bancários dos bancos públicos acharem que não precisam atender ao povo, receber contas, abrir CPF, pagar saques de FGTS e demais funções do gênero e que devem concordar em SÓ atender cliente “bom” e encarteirado, também estarão dando anuência ao sistema da remuneração variável que pede a meta individual (mas que demite aquele que não cumpri-la).

Devemos reivindicar novos patamares de salários e não utilizar um índice de perdas, porque a produtividade do sistema financeiro dos últimos 20 anos não foi repassada para aqueles que a produziram: os bancários.

Além do piso maior, também devemos ter um PCS padrão na CCT. Os aditivos se encarregam da especificidade.

Piso inicial do Dieese

Como nosso objetivo é contratar de fato, podemos até assinar o piso do Dieese na CCT de forma a atingirmos em duas campanhas seu valor. Ou seja:

Ao piso da categoria será acrescido 50% da diferença entre o piso bancário em 2008 e o piso do Dieese de setembro/2008. Em 2009 será efetivado na data-base o piso do Dieese definitivamente.

PLR OU PR

As maiores conquistas de PLR são frutos de coletividade e generalidade.

A PLR de 1995 foi conquistada com regras claras para todos com % de salário + valor fixo. Com limites mínimos e máximos para banco e bancários (tetos estabelecidos pelos patrões).

Os bancos públicos federais desde o início (1998-2002) só tiveram programas de PR, sem acordos coletivos. Milhares de bancários ficavam sem receber nada e as diferenças entre base e topo dos valores chegavam a 100 vezes.

Em 2003, com as greves históricas nos bancos públicos federais exigindo o cumprimento da CCT da categoria, os bancários começam a trazer a PLR nos moldes da CCT da Fenaban. BB e Caixa Federal são obrigados a distribuir mais de 6,25% (limite do Dest) do lucro líquido. Bancários unidos começam a lutar por uma PLR maior para todos.

Em 2005, na conferência nacional da categoria, tiramos uma proposta de PLR mais ousada: pagar um acréscimo de valor linear, além da regra geral que já existia. Avançamos somente no BB e tivemos um modelo de valor adicional proporcional à rentabilidade nos privados.

Os bancos agora estão focando os acordos próprios e isso enfraquece os bancários. É muito importante lutarmos por uma PLR coletiva na CCT para não perdermos direitos como o fato dela ser universal.

Algumas proposições e percepções minhas para debate

Devemos caminhar para só discutirmos as cláusulas econômicas e sociais da CCT e da PLR geral durante a data-base (setembro).

Exemplos de direitos que precisam ser estendidos a todos os bancários: 5 dias de abono-assiduidade e porcentagem de pagamento linear (PLR como no BB) nos demais bancos.

Sou contrário às mesas concomitantes durante a data-base. Fortalecer a CCT deve ser a prioridade. Os direitos específicos são ADITIVOS a CCT.

Deve haver congressos dos bancos em outro período (por exemplo, março). O congresso viria seguido de todo o rito com pauta entregue, calendário de luta, mesa de negociação, assembleias, aceitação de avanços ou greve por banco.

Deve-se valorizar as mesas de negociação permanente com a estrutura que lhes acompanham, ou seja, os sindicatos (com OLT e mobilização) organizados nas federações, que indicam os membros das COE (Comissão Organizativa dos Empregados), que assessoram a Contraf-CUT nas negociações.

Direito de greve: devemos exigir e processar os bancos que não respeitarem seus funcionários colocando códigos de falta sem justificativa. É direito do bancário fazer greve e os bancos são obrigados a tipificar a falta corretamente.

William Mendes
Secretário de Imprensa da Contraf-CUT

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Livro: São Bernardo (1934) - Graciliano Ramos




Leitura do livro de Graciliano Ramos e do ensaio de Lafetá sobre o livro

Análise crítica e discussão do ensaio “O mundo à revelia”, de João Luiz Lafetá (sobre São Bernardo, de Graciliano Ramos)


Introdução

Uma das principais questões a respeito da crítica literária é definirmos qual seria sua principal função. Ao longo de sua história – do século XIX até nossos dias – ela já serviu para discutir qual o papel da literatura, serviu para debater a própria arte literária, serviu para justificar alguns autores e obras e rejeitar outros (sob a ótica do status quo), teve o importante papel de exegese, instigou grandes debates sobre a obra ser fechada em si mesma ou ter relação com o mundo exterior e seu contexto e, nos dias atuais, já é confundida como apresentadora de bons ou maus produtos para o consumidor de livros.

Acredito que um dos papéis da crítica literária seja o de facilitar a leitura de uma obra, de modo a fazer o leitor chegar o mais próximo possível daquilo que o autor procura transmitir. É evidente que a leitura, do ponto de vista de cada leitor, sempre terá algo de subjetivo. Porém, uma boa crítica literária pode ajudar sobremaneira no percurso da leitura de uma obra. Essa ajuda ao leitor pode ocorrer antes, durante ou após a leitura da obra.

Com a mercantilização capitalista da literatura contemporânea, a crítica literária ficou um pouco prejudicada, pois o que mais temos hoje são resenhas e resenhistas ao invés de críticos literários. Passou-se a confundir resenhas e indicação de livros para aquisição nas mega livrarias com análise da obra e técnicas literárias envolvidas em sua confecção.


O ensaio de Lafetá

O texto do autor é dividido em cinco partes.

1. Dois capítulos perdidos

Lafetá se desculpa da paráfrase longa (justificada pela fascinação ao estilo) e destaca a qualidade da técnica narrativa:

“o que ressalta primeiro, naturalmente, é a maneira direta de tratar o assunto. Há algo para ser dito e se vai até lá sem rodeios, há um projeto a ser cumprido e se tenta cumpri-lo de imediato” - e observa adiante:  “energia – é o que ressuma destas três primeiras páginas”.

O leitor é jogado “diretamente na ação, no meio dos fatos”.

Lafetá explica que o personagem narrador Paulo Honório surge quase por inteiro no primeiro capítulo, sem dizer explicitamente ao leitor que é “um homem empreendedor, dinâmico, dominador, obstinado, que concebe uma empresa, trata de executá-la, utiliza os outros para isso e não se desanima com os fracassos”.

Ou seja, leitor, esse é o “eu” da história: “à imagem de seu estilo, é direto e sem rodeios, concentrado sobre si mesmo e sobre seu trabalho, decidido, brusco”.

Ao contrário da opinião do narrador da história, o crítico afirma não terem sido os dois capítulos perdidos:

Sua figura dominadora e ativa está criada. Fomos já introduzidos em seu mundo... um mundo que se curva à sua vontade”.

Conclui a primeira parte do ensaio destacando a coesão da técnica narrativa “totalmente imbricados surgem, à nossa frente personagem e ação. Paulo Honório nasce de cada ato, mas cada ato nasce por sua vez de Paulo Honório... este caráter compacto e dinâmico, esta ligação íntima entre o homem e o ato (espelhada pela linguagem direta, brutal, econômica, pelo ritmo rápido dos dois capítulos), esta interação entre o ser e o fazer vão compor a construção do romance”.


2. A posse de São Bernardo

Explicando a distinção teórica entre “sumário narrativo” e “cena”, os dois modos básicos de narrar, Lafetá relaciona o uso do sumário inicial não para destacar vários eventos em um tempo vasto e sim para marcar a atitude do narrador “sem nenhuma análise psicológica, mas graças à modulação do tom narrativo, ficamos conhecendo o caráter violento e maciço do herói”.

Durante os primeiros capítulos, vemos a história do protagonista ser narrada de seu nascimento até a conquista da fazenda São Bernardo, entre os capítulos três a oito, através de maior uso de sumários, onde a velocidade do tempo narrativo é acelerada. Lafetá explica a perfeição do casamento personagem/ação:

Daí a coesão da narrativa, que une indissoluvelmente personagem e ação. Pois Paulo Honório, representante da modernidade que entra no sertão brasileiro, é o emblema complexo e contraditório do capitalismo nascente, empreendedor, cruel, que não vacila diante dos meios e se apossa do que tem pela frente, dinâmico e transformador. ‘A construção de um burguês: eis o conteúdo da primeira parte de São Bernardo’. Observou com acerto Carlos Nelson Coutinho”.

Cabe aqui uma informação importante de Antonio Candido quando diz em seu texto “Crítica e sociologia” que é preciso parcimônia para não exagerar na ideia de que a relação obra e ambiente é indispensável, como também não afirmar o contrário, de que não deve haver vínculo algum:

É o que tem ocorrido com o estudo da relação entre a obra e o seu condicionamento social, que a certa altura do século passado chegou a ser vista como chave para compreendê-la, depois foi rebaixada como falha de visão...”.

Vendo a forma como Graciliano Ramos constrói São Bernardo, é possível perceber o que explica o professor Antonio Candido, pois o contexto externo, social, se transforma em construção interna na obra, o que colabora para a economia da mesma e dá sentido na forma como o personagem-narrador apresenta a sua história:

Hoje sabemos que a integridade da obra não permite adotar nenhuma dessas visões dissociadas; e que só a podemos entender fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos, quanto o outro, norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente independente, se combinam como momentos necessários do processo interpretativo. Sabemos, ainda, que o externo (no caso, o social) importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto, interno”.

Outra técnica narrativa interessante apontada pelo crítico nesta segunda parte são as marcações temporais, como cronômetro, para gerar o efeito de crueldade e frieza com que o personagem alcança seu objetivo de tomar São Bernardo e ser seu novo dono.

Esse momento decisivo no romance é contado em cena com uma forte tensão na hora da negociação entre dívida e preço final da fazenda.

Lafetá cita V. Propp para comparar a primeira parte do romance às técnicas dos contos populares onde temos os heróis com danos a resolver ou carências a suprir. Paulo Honório irá até o capítulo oito para resolver os problemas inerentes a aquisição e estabilização da fazenda São Bernardo.


3. Madalena


Começa outro núcleo do romance. A cena passa a ser dominante. Vem agora a busca de outra posse: Madalena.

A chave do novo núcleo surge de um novo desejo do protagonista: “Amanheci um dia pensando em casar”.

A observação de Lafetá sobre a técnica de trazer o algo a mais, mesmo em uma linguagem precisa e seca, é fantástica: “A comparação entre d. Marcela e Madalena liquida, para Paulo Honório, o valor da primeira... Mas, se d. Marcela foi afastada, é a vez de Madalena penetrar nas suas preocupações; o terceiro olhar (a terceira notação) mostra não apenas a observação fria do primeiro ou a aprovação tácita do segundo, mas um certo grau de envolvimento e de fascinação: ‘A loura tinha a cabecinha inclinada e as mãozinhas cerradas, lindas mãos, linda cabeça.’ O diminutivo (mãozinhas, cabecinha) não descreve apenas, imprime à descrição um certo grau de afetividade que a repetição do adjetivo (lindas, linda) vem reforçar”.

A diferença de interesse do personagem está na linguagem para referir-se às duas raparigas.

Ao final deste objetivo, impera a mesma manipulação para apossar-se das coisas. Tudo se curva às suas vontades. O que seria um ano para o casamento se converte em uma semana.


4. Dínamo emperrado


Lafetá segue explicando a subordinação dos elementos do romance à ação e ao personagem.

Cita Antonio Candido ao lembrar a força do sentimento de propriedade que perpassa pelo enredo do romance: “De fato, o sentimento de propriedade constitui um dos elementos temáticos que unificam o livro. Paulo Honório, afirma Antonio Candido, ‘é modalidade de uma força que o transcende e em função da qual vive: o sentimento de propriedade' ”.

Aqui chegamos onde gostaríamos, que é discutir o que Candido fala a respeito da relação entre texto e contexto em seu “Crítica e Sociologia”. Lafetá observa a analogia inevitável das características internas do romance com as externas contextuais.

Se alinharmos todas as características examinadas – ação, energia, objetividade, dinamismo, capacidade transformadora e sentimento de propriedade – torna-se inevitável o surgimento de uma analogia entre o herói e a burguesia como classe”.

O crítico afirma “que Paulo Honório simboliza, no interior do romance, a força modernizadora que atualiza de forma devastante o universo de São Bernardo”.

A mesma relação de precificação das coisas, das posses de Paulo Honório – São Bernardo, Margarida, Madalena – é “Uma das mais sérias consequências da produção para o mercado (característica do capitalismo) é o afastamento e a abstração de toda qualidade sensível das coisas, que é substituída na mente humana pela noção de quantidade. O valor-de-uso que toda mercadoria possui é distanciado e tornado implícito pela produção de valores-de-troca”. (Ler AQUI sobre essa questão em Marx)

Veja aqui uma cena onde o proprietário fala da aquisição e remessa de Margarida, aquela que fez a vez de sua mãe e que estava desaparecida: “Ó Gondim, já que tomou a empreitada, peça ao vigário que escreva ao padre Soares sobre a remessa da negra... É conveniente que a mulher seja remetida com cuidado, para não se estragar na viagem”.

Lafetá fala da reificação das coisas do mundo na produção capitalista (contexto) e mostra como isso está relacionado ao modo de ver o mundo do personagem Paulo Honório (interno):

O homem reificado é este aleijão que ele (protagonista) nos descreve e vemos por toda parte: o coração miúdo e uma boca enorme, dedos enormes. O sentimento de propriedade, que unifica todo o romance do qual o ciúme é apenas uma modalidade, distorce o homem desta maneira radical. A vida agreste, que o fez agreste, é a culpada por Paulo Honório não ser capaz de enxergar Madalena. A vida agreste são as lutas pela propriedade, pelo rebanho, pelas plantações de algodão e mamona, pelo poder e pelo capital. O homem agreste é aquele ser no qual se transformou Paulo Honório”.

À medida em que o protagonista defende seus interesses econômicos, aumentam os conflitos com Madalena. Ela se espanta com as atitudes dele e ele se surpreende do espanto dela.

O crítico destaca bem as três partes da história com forte marcação temporal: a compra de São Bernardo; a conquista de Madalena; o diálogo final na capela antes da morte de Madalena.


5. Narrativa e busca

Análise esplêndida fez Lafetá neste desfecho onde a perda do controle do mundo por Paulo Honório (com a morte de Madalena e a revolução) se mostra até na forma com que narra sua história.

O protagonista, ao final de sua narrativa, não manda em mais nada. Até o rumo de seus passos é decidido por suas pernas e não por ele mesmo:

E os meus passos me levavam para os quartos como se procurassem alguém”.

Como diz o crítico: “É, enfim, o mundo à revelia, fora de seu controle”.

Lafetá explica a duplicidade temporal que marca o romance: os capítulos um, dois e trinta e seis (e também o dezenove) estão no tempo da enunciação; os demais estão no tempo do enunciado (os eventos que ocorreram).

Fica evidente a diferença de velocidade e a linguagem dos tempos distintos: linguagem seca e tempo rápido no tempo do enunciado; linguagem de lamentação elegíaca e compasso lento no tempo da enunciação.

O que seria a busca? Como diz Lukács sobre o romance “é a história da busca de valores autênticos por um personagem problemático, dentro de um universo vazio e degradado, no qual desapareceu a imanência do sentido à vida”.


Bibliografia

CANDIDO, Antonio. “Crítica e Sociologia”, in: Literatura e Sociedade. Coleção grandes nomes do pensamento brasileiro. Publifolha, 2000.

RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 74ª edição. Editora Record, RJ 2002.


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Post Scriptum (14/4/19):

No fim de semana de 13 e 14 de abril, reli esta postagem, que me levou a reler o livro pela terceira vez - li entre a manhã e a noite de sábado 13. Fiz postagem a respeito do livro (ler AQUI) e reli o texto de Lafetá, estudando com atenção; e revisei esta postagem de crítica. O processo me gerou bastante reflexão.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Lendo A Montanha Mágica - Thomas Mann



Refeição Cultural

Estou lendo este ano o grosso livro de Thomas Mann. Aliás, estou no ritmo em que ele comenta sobre narrar a história do jovem:

"Não será, portanto, num abrir e fechar de olhos que o narrador terminará a história de Hans Castorp. Não lhe bastarão para isso os sete dias de uma semana, nem tampouco sete meses. Melhor será que ele desista de computar o tempo que decorrerá sobre a Terra, enquanto esta tarefa o mantiver enredado. Decerto não chegará - Deus me livre - a sete anos."

Meu! O livro é fantástico!

Li o episódio "Pesquisas" do capítulo cinco. Fala sobre ciência, sobre a evolução. Questiona o que é a vida. Mesmo estando eu quase um século depois da reflexão e dos dados científicos de então, são fascinantes as elucubrações a respeito.

Sigo viajando nesta montanha...



Post Scriptum:

Terminei a leitura do livro em 09/1/10 (com arrepios no corpo).