segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A GALINHA DEGOLADA (La gallina degollada) - Quiroga


Quiroga: foto de 1900.

Leitura Crítica: “La gallina degollada”

Conto de Horacio Quiroga


(Atenção: o texto desvenda a estória)


Síntese da história:

A cena inicial apresenta quatro crianças com idiotismo, entre 8 e 12 anos, que passam o dia inteiro sentadas em um banco, próximo a um muro do quintal, inertes, e que só se animam ao entardecer quando o Sol se põe e o céu toma aquela coloração avermelhada característica ou quando ouvem o barulho do bonde.

Todas ficaram com idiotismo entre o primeiro e o segundo ano de vida, devido às heranças paternas.

Os pais tiveram, depois de um tempo, uma filha perfeita.

Em uma linda manhã, após uma noite de discussão (o matrimônio do casal estava bastante comprometido devido às acusações recíprocas sobre quem era o responsável pelas más crias), resolvem sair após o almoço para passear. Antes disso, por ser um dia radiante, os filhos com idiotismo, que se animaram com a bela manhã, saem de seu banco e presenciam a empregada degolando uma galinha lentamente na cozinha. São escorraçados para o quintal. Mas... aquela imagem!

Ao retornarem do passeio, a menina entra primeiro que os pais e, após subir no muro, com o pescoço apoiado no seu limiar e com as mãos penduradas, chama a atenção dos meninos que estavam imóveis em seu banco como sempre (já ao entardecer, com aquele céu...). Eles olharam para ela fascinados com aquele ser meio pendurado no muro como uma ave... De repente, a pegaram e a levaram para a cozinha como a uma galinha...


TÉCNICAS LITERÁRIAS

No conto de Horacio Quiroga – A galinha degolada – ele trabalha com sumários e cenas. Algumas vezes, sumários um pouco mais descritivos, lentos; outras vezes, mais acelerados.

O uso do tempo verbal no conto é o tradicional em narrativas com estilo indireto livre, na qual o narrador (muitas vezes demiurgo) conhece toda a estória, ou seja, usa o verbo no pretérito imperfeito do indicativo (Era uma vez...). Aqui, usa a técnica principalmente nos momentos de sumário, onde se refletem ações cotidianas das personagens. Mas também usa o pretérito perfeito, separando com bastante clareza as ações definitivas daquelas do dia a dia.

Do primeiro ao quarto parágrafos o sumário é importantíssimo, pois aqui se começa o conto de uma maneira tão envolvente que o leitor não poderá mais se desligar da curiosidade de saber o que se passará com as quatro crianças com idiotismo. Além dos verbos que demonstram como era o dia a dia dos garotos, o autor usa expressões que reforçam a ideia de cotidiano:

“todo el dia...”, “otras veces...”, “horas enteras...”, “casi siempre…”

Após uma entrada empolgante, temos então uma sequência de parágrafos que trabalha bastante com a questão da aceleração do tempo na narrativa. O autor usará nove parágrafos para nos contar sobre os infortúnios do casal com seu primogênito, do nascimento ao idiotismo.

Já para o segundo filho, usará apenas dois, mostrando uma grande aceleração do tempo para narrar a história. Maior ainda será para os gêmeos, no qual o autor, em apenas um parágrafo, nos traça a desgraça destes:

“Del nuevo desastre brotaron nuevas llamaradas de dolorido amor, un loco anhelo de redimir de una vez para siempre la santidad de su ternura. Sobrevinieron mellizos y punto por punto repitióse el proceso de los mayores.”

O leitor atento, chega então, a um trecho da trama que será fundamental para se endender o desfecho. Quiroga, ardente defensor da ideia de que todo autor já deve começar um conto sabendo meticulosamente aonde vai dar, mostra características dos idiotas importantíssimas para serem unidas às imagens construídas no cenário onde se inicia a tragédia, ou seja, a visão que os idiotas têm de sua irmã, Bertita, pendurada como uma galinha no muro com aquela cor avermelhada no céu que tanto os animavam:

“Tenían, en cambio, cierta facultad imitativa...”

Intercalado com essa desaceleração do tempo, sempre onde o autor firma características ou fatos que serão decisivos para o desfecho, vem um trecho onde novamente o autor acelera até o nascimento da filha saudável Bertita.
Ao longo de todo o conto, vamos tendo acelerada a passagem do tempo cronológico da história, onde o que se tem são as situações do dia a dia, com destaque para a crescente falta de respeito entre o casal, intercalada com os momentos onde impera a natureza humana e, por que não dizer animal, de desejos carnais que suplantavam os amargores recíprocos e então, eles se amavam:

“Pero en las inevitables reconciliaciones, sus almas se unían con doble arrebato y locura por otro hijo”

Já nos momentos onde o que mais importa para o entendimento da trama é a nuança de detalhes, o autor se demora de maneira a deixar bem marcados no leitor os porquês do final trágico:

“La luz enceguecedora llamaba su atención al principio, poco a poco sus ojos se animaban…”;

“Animábanse sólo al comer, o cuando veían colores brillantes u oían truenos”;

“Tenían, en cambio, cierta facultad imitativa…”;

“… la sirvienta degollaba en la cocina al animal (uma galinha), desangrándolo con parsimonia… los cuatro idiotas… mirando estupefactos la operación. Rojo… rojo…”;

“Los cuatro idiotas… vieron cómo su hermana… en puntas de pie apoyaba la garganta sobre la cresta del cerco, entre sus manos tirantes…”;

“… uno de ellos le apretó el cuello… la arrastraron de una sola pierna hasta la cocina…”.

O parágrafo que começa por um verbo no pretérito perfeito marca o início do desfecho da trágica estória: “Amaneció un expléndido dia...”

No início do conto, quando nos é dada a descrição dos idiotas, ficamos sabendo que quase nada lhes tirava de sua imobilidade – “... se mantenían inmóviles, fijos los ojos en los ladrillos...” – a não ser quando o sol se ocultava atrás do muro e os animava com aquela “luz enceguecedora... como si fuera comida”. Mais adiante, soubemos de sua qualidades imitativas. Temos aqui, a associação de luz avermelhada e comida. A cor vermelha se destaca no conto do início ao fim.

Nessa última parte, aparecerão todas as características daquele “fatídico e lindo dia”. É de fato uma mistura interessante, se não fosse o contexto. Veja: “um expléndido dia”, depois “El día radiante...”, mais a visão dos garotos vendo ser degolada uma galinha com parcimônia “Rojo... rojo...”.


CONCLUSÃO

A construção da estória é tão bem traçada que não podemos deixar de ver o acaso, a casualidade no desenlace. Não vemos juízo de valores. É um conto de acontecimento fantástico, porém de caráter realista.

O tempo mítico foi importante na trama também. O entardecer está diretamente ligado à imagem dos garotos com idiotismo se animando cotidianamente com o avermelhado do céu.

Horacio Quiroga de fato apresenta em seus contos um embate constante entre o homem e a natureza. Ele pertenceu ao tempo do realismo e do naturalismo. Naquela época, discutiam-se a posição do homem em seu meio. Então, era constante a fatalidade nas desgraças do homem, que sofria desventuras não por ira dos deuses e sim por estar em um meio fora de seu controle. Era a época do positivismo e do cientificismo.

Pela materialidade do conto, não podemos inferir em juízos de valores ou questões metafísicas de ira divina, pois ele é construído de forma a nos mostrar que neste embate homem versus natureza, esta venceu. O que se poderia fazer com circunstâncias tão normais como as imagens trabalhadas no conto (tardes lindas, pores-do-sol, trovões etc) e ao mesmo tempo tão fatais para o caso da família Mazzini-Ferraz?

Se pudéssemos tirar algum proveito ou lição, que penso não ser o caso, seria apenas pelas sequelas advindas dos excessos do avô das crianças, pai de Mazzini.

Fica-nos um grande conto, de um grande autor, e que tanto sentiu na pele os acasos e reveses da natureza.


Bibliografia:

QUIROGA, Horacio. A la deriva y otros cuentos. La biblioteca argentina. Serie clásicos. Editorial Losada, 2001. 

domingo, 19 de fevereiro de 2012

CONTOS HISPANO-AMERICANOS DO SÉCULO XX

FLM0275 - LITERATURA HISPANO-AMERICANA


FFLCH - USP - professora Laura Hosiasson


(fiz esta matéria em 2002)


I) OBJETIVOS GERAIS
Estimular o interesse pela literatura e pelos processos literários hispano-americanos vistos dentro do contexto mais amplo da América Latina.


II) OBJETIVOS ESPECÍFICOS
O aluno deverá se familiarizar com os problemas relativos à teoria do conto e com os procedimentos de análise e interpretação de textos literários, através do contato direto com as narrativas curtas, selecionadas dentro de um 'corpus' representativo da literatura hispano-americana deste século.


III) CONTEÚDO

1. Aspectos gerais relativos à teoria do conto como gênero literário. Teorias da composição. Unidade de efeito, a contenção, o contista-fotógrafo de Cortázar, a intensidade, a tensão. Teorias de Edgar Alan Poe, Horacio Quiroga, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e Ricardo Piglia.

2. Horacio Quiroga e o conto fantástico. LEIA "La gallina degollada".

3. Manuel Rojas. Realismo e costumbrismo. "El vaso de leche".

4. Alejo Carpentier e a questão do tempo literário. "El viaje a la semilla".

5. Jorge Luis Borges. História e universalismo. "El Sur".

6. Juan José Arreola. A questão do Absurdo. "El guardagujas".

7. María Luisa Bombal. Surrealismo e a voz feminina. "El árbol".

8. Julio Cortázar. Busca do centro e utopia político-literária. "Las babas del diablo".

9. Juan Rulfo. Neorealismo. Fragmentação dramática do real. "El hombre".

10. Ricardo Piglia. História e Literatura. "El precio del amor".

11. Augusto Monterroso. Construção de um estilo. Vários (pequenos contos).


IV) METODOLOGIA

Aulas expositivas em que será feita análise geral de cada autor e do seu contexto literário, seguido de um "close reading" de ao menos um conto, cuja leitura deverá ser feita pelo aluno com antecedência.


V) AVALIAÇÃO

Controle de leitura. Exercícios de interpretação de textos. Monografia final: análise de um conto.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

La gallina degollada - Horacio Quiroga

Quiroga em 1900.
Fonte: Wikipedia
LITERATURA HISPANO-AMERICANA (URUGUAIA)

(texto integral)


LA GALLINA DEGOLLADA – Horacio Quiroga


Todo el día, sentados en el patio, en un banco estaban los cuatro hijos idiotas del matrimonio Mazzini-Ferraz. Tenían la lengua entre los labios, los ojos estúpidos, y volvían la cabeza con la boca abierta.

El patio era de tierra, cerrado al oeste por un cerco de ladrillos. El banco quedaba paralelo a él, a cinco metros, y allí se mantenían inmóviles, fijos los ojos en los ladrillos. Como el sol se ocultaba tras el cerco, al declinar los idiotas tenían fiesta. La luz enceguecedora llamaba su atención al principio, poco a poco sus ojos se animaban; se reían al fin estrepitosamente, congestionados por la misma hilaridad ansiosa, mirando el sol con alegría bestial, como si fuera comida.

Otra veces, alineados en el banco, zumbaban horas enteras, imitando al tranvía eléctrico. Los ruidos fuertes sacudían asimismo su inercia, y corrían entonces, mordiéndose la lengua y mugiendo, alrededor del patio. Pero casi siempre estaban apagados en un sombrío letargo de idiotismo, y pasaban todo el día sentados en su banco, con las piernas colgantes y quietas, empapando de glutinosa saliva el pantalón.

El mayor tenía doce años y el menor, ocho. En todo su aspecto sucio y desvalido se notaba la falta absoluta de un poco de cuidado maternal.

Esos cuatro idiotas, sin embargo, habían sido un día el encanto de sus padres. A los tres meses de casados, Mazzini y Berta orientaron su estrecho amor de marido y mujer, y mujer y marido, hacia un porvenir mucho más vital: un hijo. ¿Qué mayor dicha para dos enamorados que esa honrada consagración de su cariño, libertado ya del vil egoísmo de un mutuo amor sin fin ninguno y, lo que es peor para el amor mismo, sin esperanzas posibles de renovación?

Así lo sintieron Mazzini y Berta, y cuando el hijo llegó, a los catorce meses de matrimonio, creyeron cumplida su felicidad. La criatura creció bella y radiante, hasta que tuvo año y medio. Pero en el vigésimo mes sacudiéronlo una noche convulsiones terribles, y a la mañana siguiente no conocía más a sus padres. El médico lo examinó con esa atención profesional que está visiblemente buscando las causas del mal en las enfermedades de los padres.

Después de algunos días los miembros paralizados recobraron el movimiento; pero la inteligencia, el alma, aun el instinto, se habían ido del todo; había quedado profundamente idiota, baboso, colgante, muerto para siempre sobre las rodillas de su madre.

—¡Hijo, mi hijo querido! —sollozaba ésta, sobre aquella espantosa ruina de su primogénito.

El padre, desolado, acompañó al médico afuera.

—A usted se le puede decir: creo que es un caso perdido. Podrá mejorar, educarse en todo lo que le permita su idiotismo, pero no más allá.

—¡Sí!... ¡Sí! —asentía Mazzini—. Pero dígame: ¿Usted cree que es herencia, que...?

—En cuanto a la herencia paterna, ya le dije lo que creía cuando vi a su hijo. Respecto a la madre, hay allí un pulmón que no sopla bien. No veo nada más, pero hay un soplo un poco rudo. Hágala examinar detenidamente.

Con el alma destrozada de remordimiento, Mazzini redobló el amor a su hijo, el pequeño idiota que pagaba los excesos del abuelo. Tuvo asimismo que consolar, sostener sin tregua a Berta, herida en lo más profundo por aquel fracaso de su joven maternidad.

Como es natural, el matrimonio puso todo su amor en la esperanza de otro hijo. Nació éste, y su salud y limpidez de risa reencendieron el porvenir extinguido. Pero a los dieciocho meses las convulsiones del primogénito se repetían, y al día siguiente el segundo hijo amanecía idiota.

Esta vez los padres cayeron en honda desesperación. ¡Luego su sangre, su amor estaban malditos! ¡Su amor, sobre todo! Veintiocho años él, veintidós ella, y toda su apasionada ternura no alcanzaba a crear un átomo de vida normal. Ya no pedían más belleza e inteligencia como en el primogénito; ¡pero un hijo, un hijo como todos!

Del nuevo desastre brotaron nuevas llamaradas del dolorido amor, un loco anhelo de redimir de una vez para siempre la santidad de su ternura. Sobrevinieron mellizos, y punto por punto repitióse el proceso de los dos mayores.

Mas por encima de su inmensa amargura quedaba a Mazzini y Berta gran compasión por sus cuatro hijos. Hubo que arrancar del limbo de la más honda animalidad, no ya sus almas, sino el instinto mismo, abolido. No sabían deglutir, cambiar de sitio, ni aun sentarse. Aprendieron al fin a caminar, pero chocaban contra todo, por no darse cuenta de los obstáculos. Cuando los lavaban mugían hasta inyectarse de sangre el rostro. Animábanse sólo al comer, o cuando veían colores brillantes u oían truenos. Se reían entonces, echando afuera lengua y ríos de baba, radiantes de frenesí bestial. Tenían, en cambio, cierta facultad imitativa; pero no se pudo obtener nada más.

Con los mellizos pareció haber concluido la aterradora descendencia. Pero pasados tres años desearon de nuevo ardientemente otro hijo, confiando en que el largo tiempo transcurrido hubiera aplacado a la fatalidad.

No satisfacían sus esperanzas. Y en ese ardiente anhelo que se exasperaba en razón de su infructuosidad, se agriaron. Hasta ese momento cada cual había tomado sobre sí la parte que le correspondía en la miseria de sus hijos; pero la desesperanza de redención ante las cuatro bestias que habían nacido de ellos echó afuera esa imperiosa necesidad de culpar a los otros, que es patrimonio específico de los corazones inferiores.

Iniciáronse con el cambio de pronombre: tus hijos. Y como a más del insulto había la insidia, la atmósfera se cargaba.

—Me parece —díjole una noche Mazzini, que acababa de entrar y se lavaba las manos—que podrías tener más limpios a los muchachos.

Berta continuó leyendo como si no hubiera oído.

—Es la primera vez —repuso al rato— que te veo inquietarte por el estado de tus hijos.

Mazzini volvió un poco la cara a ella con una sonrisa forzada:

—De nuestros hijos, ¿me parece?

—Bueno, de nuestros hijos. ¿Te gusta así? —alzó ella los ojos.

Esta vez Mazzini se expresó claramente:

—¿Creo que no vas a decir que yo tenga la culpa, no?

—¡Ah, no! —se sonrió Berta, muy pálida— ¡pero yo tampoco, supongo!... ¡No faltaba más!... —murmuró.

—¿Qué no faltaba más?

—¡Que si alguien tiene la culpa, no soy yo, entiéndelo bien! Eso es lo que te quería decir.

Su marido la miró un momento, con brutal deseo de insultarla.

—¡Dejemos! —articuló, secándose por fin las manos.

—Como quieras; pero si quieres decir...

—¡Berta!

—¡Como quieras!

Éste fue el primer choque y le sucedieron otros. Pero en las inevitables reconciliaciones, sus almas se unían con doble arrebato y locura por otro hijo.

Nació así una niña. Vivieron dos años con la angustia a flor de alma, esperando siempre otro desastre. Nada acaeció, sin embargo, y los padres pusieron en ella toda su complaciencia, que la pequeña llevaba a los más extremos límites del mimo y la mala crianza.

Si aún en los últimos tiempos Berta cuidaba siempre de sus hijos, al nacer Bertita olvidóse casi del todo de los otros. Su solo recuerdo la horrorizaba, como algo atroz que la hubieran obligado a cometer. A Mazzini, bien que en menor grado, pasábale lo mismo. No por eso la paz había llegado a sus almas. La menor indisposición de su hija echaba ahora afuera, con el terror de perderla, los rencores de su descendencia podrida. Habían acumulado hiel sobrado tiempo para que el vaso no quedara distendido, y al menor contacto el veneno se vertía afuera. Desde el primer disgusto emponzoñado habíanse perdido el respeto; y si hay algo a que el hombre se siente arrastrado con cruel fruición es, cuando ya se comenzó, a humillar del todo a una persona. Antes se contenían por la mutua falta de éxito; ahora que éste había llegado, cada cual, atribuyéndolo a sí mismo, sentía mayor la infamia de los cuatro engendros que el otro habíale forzado a crear.

Con estos sentimientos, no hubo ya para los cuatro hijos mayores afecto posible. La sirvienta los vestía, les daba de comer, los acostaba, con visible brutalidad. No los lavaban casi nunca. Pasaban todo el día sentados frente al cerco, abandonados de toda remota caricia. De este modo Bertita cumplió cuatro años, y esa noche, resultado de las golosinas que era a los padres absolutamente imposible negarle, la criatura tuvo algún escalofrío y fiebre. Y el temor a verla morir o quedar idiota, tornó a reabrir la eterna llaga.

Hacía tres horas que no hablaban, y el motivo fue, como casi siempre, los fuertes pasos de Mazzini.

—¡Mi Dios! ¿No puedes caminar más despacio? ¿Cuántas veces...?

—Bueno, es que me olvido; ¡se acabó! No lo hago a propósito.

Ella se sonrió, desdeñosa: —¡No, no te creo tanto!

—Ni yo jamás te hubiera creído tanto a ti... ¡tisiquilla!

—¡Qué! ¿Qué dijiste?...

—¡Nada!

—¡Sí, te oí algo! Mira: ¡no sé lo que dijiste; pero te juro que prefiero cualquier cosa a tener un padre como el que has tenido tú!

Mazzini se puso pálido.

—¡Al fin! —murmuró con los dientes apretados—. ¡Al fin, víbora, has dicho lo que querías!

—¡Sí, víbora, sí! Pero yo he tenido padres sanos, ¿oyes?, ¡sanos! ¡Mi padre no ha muerto de delirio! ¡Yo hubiera tenido hijos como los de todo el mundo! ¡Esos son hijos tuyos, los cuatro tuyos!

Mazzini explotó a su vez.

—¡Víbora tísica! ¡eso es lo que te dije, lo que te quiero decir! ¡Pregúntale, pregúntale al médico quién tiene la mayor culpa de la meningitis de tus hijos: mi padre o tu pulmón picado, víbora!

Continuaron cada vez con mayor violencia, hasta que un gemido de Bertita selló instantáneamente sus bocas. A la una de la mañana la ligera indigestión había desaparecido, y como pasa fatalmente con todos los matrimonios jóvenes que se han amado intensamente una vez siquiera, la reconciliación llegó, tanto más efusiva cuanto infames fueran los agravios.

Amaneció un espléndido día, y mientras Berta se levantaba escupió sangre. Las emociones y mala noche pasada tenían, sin duda, gran culpa. Mazzini la retuvo abrazada largo rato, y ella lloró desesperadamente, pero sin que ninguno se atreviera a decir una palabra.

A las diez decidieron salir, después de almorzar. Como apenas tenían tiempo, ordenaron a la sirvienta que matara una gallina.

El día radiante había arrancado a los idiotas de su banco. De modo que mientras la sirvienta degollaba en la cocina al animal, desangrándolo con parsimonia (Berta había aprendido de su madre este buen modo de conservar la frescura de la carne), creyó sentir algo como respiración tras ella. Volvióse, y vio a los cuatro idiotas, con los hombros pegados uno a otro, mirando estupefactos la operación... Rojo... rojo...

—¡Señora! Los niños están aquí, en la cocina.

Berta llegó; no quería que jamás pisaran allí. ¡Y ni aun en esas horas de pleno perdón, olvido y felicidad reconquistada, podía evitarse esa horrible visión! Porque, naturalmente, cuando más intensos eran los raptos de amor a su marido e hija, más irritado era su humor con los monstruos.

—¡Que salgan, María! ¡Échelos! ¡Échelos, le digo!

Las cuatro pobres bestias, sacudidas, brutalmente empujadas, fueron a dar a su banco.

Después de almorzar salieron todos. La sirvienta fue a Buenos Aires y el matrimonio a pasear por las quintas. Al bajar el sol volvieron; pero Berta quiso saludar un momento a sus vecinas de enfrente. Su hija escapóse enseguida a casa.

Entretanto los idiotas no se habían movido en todo el día de su banco. El sol había traspuesto ya el cerco, comenzaba a hundirse, y ellos continuaban mirando los ladrillos, más inertes que nunca.

De pronto algo se interpuso entre su mirada y el cerco. Su hermana, cansada de cinco horas paternales, quería observar por su cuenta. Detenida al pie del cerco, miraba pensativa la cresta. Quería trepar, eso no ofrecía duda. Al fin decidióse por una silla desfondada, pero aun no alcanzaba. Recurrió entonces a un cajón de kerosene, y su instinto topográfico hízole colocar vertical el mueble, con lo cual triunfó.

Los cuatro idiotas, la mirada indiferente, vieron cómo su hermana lograba pacientemente dominar el equilibrio, y cómo en puntas de pie apoyaba la garganta sobre la cresta del cerco, entre sus manos tirantes. Viéronla mirar a todos lados, y buscar apoyo con el pie para alzarse más.

Pero la mirada de los idiotas se había animado; una misma luz insistente estaba fija en sus pupilas. No apartaban los ojos de su hermana mientras creciente sensación de gula bestial iba cambiando cada línea de sus rostros. Lentamente avanzaron hacia el cerco. La pequeña, que habiendo logrado calzar el pie iba ya a montar a horcajadas y a caerse del otro lado, seguramente sintióse cogida de la pierna. Debajo de ella, los ocho ojos clavados en los suyos le dieron miedo.

—¡Soltáme! ¡Déjame! —gritó sacudiendo la pierna. Pero fue atraída.

—¡Mamá! ¡Ay, mamá! ¡Mamá, papá! —lloró imperiosamente. Trató aún de sujetarse del borde, pero sintióse arrancada y cayó.

—Mamá, ¡ay! Ma. . . —No pudo gritar más. Uno de ellos le apretó el cuello, apartando los bucles como si fueran plumas, y los otros la arrastraron de una sola pierna hasta la cocina, donde esa mañana se había desangrado a la gallina, bien sujeta, arrancándole la vida segundo por segundo.

Mazzini, en la casa de enfrente, creyó oír la voz de su hija.

—Me parece que te llama—le dijo a Berta.

Prestaron oído, inquietos, pero no oyeron más. Con todo, un momento después se despidieron, y mientras Berta iba dejar su sombrero, Mazzini avanzó en el patio.

—¡Bertita!

Nadie respondió.

—¡Bertita! —alzó más la voz, ya alterada.

Y el silencio fue tan fúnebre para su corazón siempre aterrado, que la espalda se le heló de horrible presentimiento.

—¡Mi hija, mi hija! —corrió ya desesperado hacia el fondo. Pero al pasar frente a la cocina vio en el piso un mar de sangre. Empujó violentamente la puerta entornada, y lanzó un grito de horror.

Berta, que ya se había lanzado corriendo a su vez al oír el angustioso llamado del padre, oyó el grito y respondió con otro. Pero al precipitarse en la cocina, Mazzini, lívido como la muerte, se interpuso, conteniéndola:

—¡No entres! ¡No entres!

Berta alcanzó a ver el piso inundado de sangre. Sólo pudo echar sus brazos sobre la cabeza y hundirse a lo largo de él con un ronco suspiro.



Del libro:
Cuentos de amor, de locura y de muerte (1917)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Santayana: cadeia para quem mata mendigos

Cadeia para os assassinos

Por Mauro Santayana, do Jornal do Brasil

Algumas religiões santificam a mendicância, como o ato mais expressivo da humildade. Pedir aos outros o pão, em lugar de o obter mediante o trabalho, é visto, assim, como o contraponto à vaidade e à arrogância. As sociedades, sendo profanas, não vêem com os mesmos olhos o ato de pedir. Os costumes, diferentes das razões éticas, sobretudo os construídos pela consciência burguesa, condenam a mendicância, ainda que admitam, com certo cinismo, a caridade. É interessante registrar que Sartre, senhor de grande lucidez e, em algum tempo, militante revolucionário, andava com moedas nos bolsos, que distribuía aos mendigos do Quartier Latin. Talvez se sentisse, com isso,  menos culpado dos desajustes do mundo.

Matar mendigos não é um esporte novo. A civilização cristã oscila entre o exercício da caridade (que, em alguns casos, costuma ser negócio lucrativo) e da repressão. Entre a piedade e a forca, conforme o ensaio do historiador Bronislaw Geremek sobre os miseráveis e pequenos bandidos da Idade Média.  No Brasil, a agressão e o assassinato dos diferentes estão assumindo dimensões insuportáveis. Numerosos moradores de rua em Salvador foram trucidados durante a greve dos policiais militares. Há suspeitas de que foram policiais, eles mesmos, os matadores. Coincidindo com os fatos da Bahia, um jovem universitário tentou intervir, ao assistir à agressão de um morador de rua na Ilha do Governador, no Rio, por cinco jovens. Foi quase linchado, teve seu rosto arrebentado pelas patadas, só reconstituído mediante o emprego de 63 pinos de platina.

Não é um fato isolado. Ao ser confundido como mendigo, conforme confessaram os matadores, um índio pataxó foi queimado por jovens bem situados de Brasília. No Rio de Janeiro, há décadas, os adversários de um governador da Guanabara o acusaram de mandar matar mendigos e atirá-los junto à foz do Rio da Guarda. E houve quem sugerisse o incêndio, como uma forma de resolver o problema das favelas no Rio de Janeiro. Mais cínicas, autoridades de São Paulo decidiram criar obstáculos sob as marquises e os viadutos, a fim de impedir que ali os miseráveis pudessem repousar. No Rio, outras autoridades dividiram os bancos dos jardins, para que, sobre eles, os mendigos não pudessem deitar.

Esses caçadores de mendigos naturalmente são conduzidos pelo senso estético da ordem do capitalismo totalitário. Uma cidade sem pedintes é muito mais bela. Mas é também muito mais bela, se nela não houver pessoas feias ou enfermas. Assim pensavam os nazistas, em sua cruzada de eugenia – embora não fossem belos nem fisicamente saudáveis homens como Himmler e Goebbels, entre outros. Da mesma forma que pretendiam a eliminação completa dos judeus, incomodava-os, pelo menos no discurso, a existência de homossexuais. Depois se soube que muitos deles eram homossexuais, mais dissimulados uns, menos dissimulados outros, como Ernst Röhm. Joachim Fest, o grande biógrafo de Hitler, chegou a suspeitar que houvesse uma ligação homossexual entre o líder nazista e seu arquiteto predileto e possível sucessor, Albert Speer.

E como o caminho da perfeição, de acordo com essa insanidade,  é sem fim, quiseram eliminar, além dos judeus,  outros perturbadores de sua ordem estética e “moral”, como os ciganos, os negros, os mestiços, os eslavos – e os comunistas.

O racismo e a insânia dos nazistas não desculpam – e, sim, agravam – os atos estúpidos contra os miseráveis brasileiros que, sem teto, sem famílias, sem amigos, sem destinos, são nômades nas ruas, onde alguns nascem, e muitos quase sempre morrem. Mas, dessa visão curta de humanismo,  padecem pessoas instruídas e aparentemente responsáveis, como a ministra francesa, que aconselhou os sem teto de seu país a não sair de casa, por causa do frio europeu que vem matando os desabrigados às centenas, e a juíza brasileira, que decretou a prisão domiciliar de um morador de rua.

A polícia tem o dever de identificar os matadores de mendigos e de levá-los à Justiça. E os juízes não podem se deixar engambelar pelos advogados dos assassinos. Em uma sociedade já tão injusta com os pobres, cabe ao Ministério Público e à Justiça socorrer os que, desprovidos de tudo, só têm a lei como consolo e esperança.

A sociedade se emociona com a coragem solidária do jovem Vitor. O Estado deve a ele uma manifestação oficial de reconhecimento. Seria louvável se a Assembléia Legislativa lhe concedesse a Medalha Tiradentes, a mais alta condecoração do Estado.

Fonte: http://www.rodrigovianna.com.br/


Post Scriptum no Facebook:

SANTAYANA: CADEIA PARA QUEM MATA MENDIGOS
Esses caçadores de mendigos naturalmente são conduzidos pelo senso estético da ordem do capitalismo totalitário. Uma cidade sem pedintes é muito mais bela. Mas é também muito mais bela, se nela não houver pessoas feias ou enfermas. Assim pensavam os nazistas, em sua cruzada de eugenia...

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Refeição Cultural - Sem Rumo, mas sigo na luta


Desenho 1, wmofox (sem data).

Estou tão, mas tão sem rumo, que não sei nem por onde começar essa reflexão (aliás, pouco cultural).

Começo pelo fim da minha história com o Partido dos Trabalhadores ou com o infarto de meu pai e a sobrevida dele e de minha mãe lá em Minas Gerais?


FAMÍLIA FRÁGIL

Cheguei este fim de semana de Uberlândia. Meu pai teve um infarto agudo do miocárdio no dia 1º de fevereiro. Ele demorou horas para ir ao Hospital de Medicina da UFU/SUS, onde foi muito bem atendido, salvo e recuperado. Apesar disso, parte de seu coração morreu.

Nestes oito dias em que esteve hospitalizado, fiquei ao lado dele todas as noites. Minha avó passou mal e quase morreu na mesma semana e minha mãe também foi internada uma tarde e uma noite lá no mesmo hospital, também por estar em seu limite físico e psicológico com tudo isso.

Vim embora para casa com o coração apertado. Vai ser assim daqui adiante, sempre a espera de um telefonema. Que agonia!


ORFANDADE POLÍTICA

Eu voto no Partido dos Trabalhadores desde que tirei meu título de eleitor em 1987. Comecei votando na Luíza Erundina para a Prefeitura de São Paulo e em Lula da Silva na primeira eleição presidencial em 1989, após quase três décadas sem democracia no Brasil.

Só me filiei ao partido depois que entrei para o movimento sindical há dez anos. Mas minha relação política com o PT é de toda uma vida.

O PT privatizou os aeroportos rentáveis do Brasil na semana passada. Para mim foi a gota na semelhança de gestão com os partidos socialdemocratas e liberais.

Minha história com o PT acaba justamente nos dias em que o Partido comemora seus 32 anos de existência. Uma bela história, na verdade. Mudou a história do Brasil e da classe trabalhadora e do povo mais humilde. O Brasil é hoje um dos países mais importantes do mundo e que mais tem avançado na inclusão social.

Estou triste e perdido.

Percebo que a grande maioria das pessoas do meio político em que vivo não está tão chocada e indignada com os rumos da gestão liberal do Governo Federal e do Partido.

Ou seja, o problema sou eu. Eu não caibo mais nesse meio político. Estou deslocado. Estou órfão politicamente.


SIGO NA LUTA

Não sei o que fazer nos amanhãs quando pensar em termos políticos. Apenas sei que devo seguir a vida sindical de forma combativa e engajada como sempre fiz.

Quando olho para trás e vejo minha vida e a vida de meu querido pai, compreendo muito melhor como foi o meu caminho até chegar ao movimento sindical.

Meu pai é um velho homem cheio de problemas de saúde, mas um batalhador que sempre brigou sozinho contra as injustiças e coisas erradas do mundo e do Leviatã - o Estado. É um homem com o terceiro ano primário que anda com a Constituição Federal embaixo do braço e luta por tudo que acha que tem direito como cidadão e ser humano.

Quando vejo que fui representante de salas de aula desde o ginásio, tanto em MG como em SP; que estive na organização de uma grande greve de alunos na faculdade do ITO em Osasco em 1992; que estive na organização de uma das maiores greves de alunos da história da FFLCH - USP em 2002, quando começamos uma greve na Letras e estendemos para as outras faculdades, greve por falta de professores e sucateamento total da USP e após 104 dias conseguimos a contratação de 99 professores - praticamente os novos que dão aula até hoje lá; quando vejo tudo isso, vejo que acabei seguindo meu pai.

A diferença das lutas que fiz até 2002 e após esse ano, quando virei representante dos bancários paulistas, é que antes eu não era militante orgânico de nenhum partido, corrente sindical ou coisa do gênero. Me engajava e iniciava lutas por aquilo que achava justo.

Se um dia eu deixar de pertencer a uma organização, não acredito que deixarei de seguir na luta como sempre fiz, assim como meu querido pai segue fazendo.

É isso.


William

---------------------------------------------

Post Scriptum (20/6/18):

No dia 10 de fevereiro de 2012, havia postado algumas fotos da família após o drama do infarto do meu pai e em comemoração aos 88 anos de minha avozinha. Abaixo, duas delas, com o comentário que postei:

"Se eu contar fica difícil de acreditar, mas para essas fotos do aniversário de 88 anos de minha vovó serem tiradas ontem, antes de voltar para SP, foram 8 dias de salvamento de meu pai infartado, minha mãe internada por horas também e... minha avó que precisamos correr com ela para o hospital. Tudo nesses oito dias. Mas hoje está tudo bem... CARPE DIEM!!!"


Meu primo Jorge, seu genro Marcos, minha mãe e pai
e minha sobrinha Stefani.
O primo Vinícius, minha mãe e avozinha e meu tio Léo.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Poema - O PT privatizou


Partido dos
Trabalhadores


Privatizou!
Realmente, o Capitalismo corrompe a
Ideologia de qualquer grupamento político.
Vale até desculpas de alto nível "técnico".
A história do PT está manchada.
Trinta e dois anos... e o sinal de que agora é
Igual aos seus opositores, quando está no poder.
Zeus, deus, mitos... arrota-se socialismo...
O homem cria o verbo e a retórica. Convence e se elege.
Um dia no poder... e o Capital prevalece!



William Mendes

06/02/2012

(um cidadão militante do movimento sindical, com uma tristeza profunda no dia em que o PT privatizou os aeroportos brasileiros)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

É preciso amar os idosos do mundo


Meu velho e querido pai.

SER OU NÃO SER “ÚTIL”, EIS A QUESTÃO!

É preciso amar os idosos do mundo

Estou me preparando para passar mais uma noite ao lado de meu querido pai na seção de emergência do Hospital da Faculdade de Medicina de Uberlândia. Ele sofreu um infarto há três dias e conseguiu chegar com vida e ser atendido no Sistema Único de Saúde do Brasil – SUS.

São longas essas noites de espera pela melhora do ente querido hospitalizado e pela expectativa de melhora daquela quantidade imensa de seres humanos necessitados de atendimento de saúde e de amor, amor dos familiares e amigos e amor da sociedade em relação ao próximo.

Gostaria de refletir um pouco sobre uma frase constante de meu velho pai e vincular minha resposta a ela em relação ao problema mais grave da atualidade em relação ao desemprego dos jovens do mundo capitalista em grave e eterna crise.


SER OU NÃO SER “ÚTIL”, EIS A QUESTÃO!

O modo de produção capitalista, pelo qual está organizado praticamente o mundo inteiro, tem um conceito de utilidade dos seres humanos no sentido de só se considerar útil aqueles que estão empregados ou inseridos no próprio modo de produção capitalista.

Quem não vende sua força de trabalho ou é “empreendedor” ou inútil. Ou seja, quem não está produzindo e criando Capital ou Mais Valia é considerado INÚTIL. É um ser imprestável para a sociedade. A geração de meu pai, um senhor de 69 anos, foi criada assim.

Essa geração, que nasceu no século vinte, só teria valor social se fosse ou “trabalhador” ou “capitalista”. Então somos fruto de uma sociedade com bilhões de miseráveis proletários vendendo sua força de trabalho para a simples reprodução da própria mercadoria “força de trabalho” e alguns poucos capitalistas detentores de todo o Capital e dos Meios de Produção.

Meu velho pai tem vários problemas de saúde. Pegou no pesado desde seus poucos anos de vida, ainda como uma criança, e foi envelhecendo com esse conceito capitalista de ser “útil” ou “inútil” se estivesse trabalhando até o último dia de sua vida produzindo Mais Valia ou sendo “Empreendedor”.

O resultado líquido e certo dessa máquina ideológica capitalista de manipulação das pessoas do mundo é a depressão e a baixa autoestima por se sentir “inútil” ao se tornar um idoso ou ao não conseguir “emprego” ou “trabalho”.


IDOSOS: FONTE DE SABEDORIA E LIAME DA SOCIEDADE

Meu pai dizia hoje de manhã, que deve aprender a aceitar viver como um “inútil” após sobreviver ao infarto e ainda não saber que tipo de sobrevida terá. Aliás, um dos motivos de sua depressão e sucessão de problemas de saúde é justamente tentar ser “produtivo” com uma saúde que mal lhe permite viver.

Minha querida família mineira.

Expliquei a meu velho pai que ele é muito importante simplesmente por estar vivo e ser amado e ser o Pai e o Avô de seus filhos e netos, e, sobretudo, por ser o companheiro de minha mãe.

A crise atual dessa porcaria de sistema capitalista em que vivemos, onde o que vale é consumir-se a si e ao próprio planeta até o colapso final, alijou do mercado de trabalho mais de um bilhão de seres humanos jovens e adultos após 2008 (Crash do subprime). Em alguns países, o desemprego dos jovens está na casa de 48%. O presente e o futuro já estão comprometidos.

Aos idosos, é preciso que a sociedade contemporânea dê amor e condições de vida - condições financeiras e sociais de vida -, pois eles são o nosso vínculo mais importante com a forma de organização social humana que surgiu em centenas de milhares de anos.

Os idosos são o nosso liame (link, ligação) com a sociedade humana, são a ligação com a cultura de cada povo, a ligação entre o passado e o presente público e privado de cada sociedade.

Os idosos são a experiência. A sociedade humana é diferente do restante do mundo animal porque desde o nascimento tem aculturamento, além das necessidades vitais de comida e oxigênio. Somos o fruto de nossos antepassados. Aprendemos com o ontem para criar o presente. Não deixemos de lado nossos idosos. O mundo precisa manter o ciclo de simbiose entre a experiência dos mais velhos com a energia dos mais novos.


UM MUNDO MELHOR PARA TODAS AS GERAÇÕES

Três gerações de brasileiros comuns.


Nossos idosos são fundamentais porque são Pais, Avós, Mestres, Amigos de longa data, Professores, Sábios. São nossos Caciques e Pajés. A função social deles é existir entre nós e ter todo o nosso respeito e apoio.

E deixemos para as gerações que chegam a continuidade da produção material do mundo. Mas façamos também uma distribuição melhor dessa produção material.

William Mendes

----------------------------------------------

Post Scriptum (9/08/15):

Dia dos pais: releituras de meus textos. Tenho a felicidade de ter meus pais vivos e estar com eles nesta data.


Post Scriptum II (21/6/18):

No dia 8 de fevereiro, cinco dias depois desta postagem, publiquei no Facebook um aviso que meu pai estava em casa após o infarto e agradecimentos pela solidariedade e torcida de tod@s.


"Informo aos meus familiares e amig@s que meu pai saiu do hospital hoje e que seguirá a recuperação do infarto em casa.

Obrigado pela torcida e preocupação de tod@s.

É estranho... poderei dormir à noite depois de 7 noites acordado... É impressionante o que percebi... as noites são longas, mas o amanhecer sempre chega..."

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A tecnologia da guerra trouxe a invisibilidade do massacre de quem o pratica


Little boy, bomba atômica despejada sobre Hiroshima
 pelo B-29 Enola Gay. Foto: Wikipedia

ERA DOS EXTREMOS - Eric Hobsbawm

Capítulo 1


A era da guerra total



Uma das inovações que as grandes guerras mundiais trouxeram para a modernidade foi a tecnologia para se matar em grande escala e com mais distanciamento das vítimas. Se antes, os combatentes tinham que presenciar e ser autores de grandes carnificinas nos campos de batalha, após toda a tecnologia de longo alcance e maior potência das armas foi possível se matar em escala com simples apertar de botões.


Nos trechos que cito abaixo, Hobsbawm fala da curva ascendente do barbarismo após 1914, como a volta da tortura no século XX, genocídio e matanças com objetivo de extermínio etc.



"Outro motivo, porém, era a nova impessoalidade da guerra, que tornava o matar e estropiar uma consequência remota de apertar um botão ou virar uma alavanca. A tecnologia tornava suas vítimas invisíveis, como não podiam fazer as pessoas evisceradas por baionetas ou vistas pelas miras de armas de fogo. Diante dos canhões permanentemente fixos da Frente Ocidental estavam não homens, mas estatísticas (...)"



"Rapazes delicados, que certamente não teriam desejado enfiar uma baioneta na barriga de uma jovem aldeã grávida, podiam com muito mais facilidade jogar altos explosivos sobre Londres ou Berlim, ou bombas nucleares em Nagasaki. Diligentes burocratas alemães, que certamente teriam achado repugnante tanger eles próprios judeus mortos de fome para abatedouros, podiam organizar os horários de trem para o abastecimento regular de comboios da morte para os campos de extermínio poloneses (...)"



"As maiores crueldades de nosso século foram as crueldades impessoais decididas a distância, de sistema e rotina, sobretudo quando podiam ser justificadas como lamentáveis necessidades operacionais."



A CRUELDADE AINDA PIORARIA APÓS OS ANOS NOVENTA


As notícias sobre crueldade na guerra não são boas. Após o cenário descrito por Hobsbawm no século XX, entramos no século XXI descobrindo cenas grotescas de soldados americanos e da OTAN brincando de assassinar inimigos em suas potentes máquinas como se estivessem jogando videogames.


Em geral, as cenas só chegam até nós por vazarem ou de forma clandestina. Imaginem tudo o que a maldade da guerra faz atualmente...



COMENTÁRIO FINAL

E pensar que, mais cedo ou mais tarde, uma das grandes potências acabará por atacar um dos países com as maiores reservas de tudo no planeta: Brasil!



Bibliografia:


HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos - O breve século XX, 1914-1991. Companhia das Letras. Tradução de Marcos Santarrita, 2ª edição, 33ª reimpressão.

domingo, 29 de janeiro de 2012

QUANDO PARTIMOS - DIE FREMDE

Poster de divulgação do filme alemão.
QUANDO PARTIMOS – DIE FREMDE
Filme de 2010, dirigido por Feo Aladag

Assisti ontem a este filme de co-produção da Alemanha e Turquia. É um filme duríssimo. É desses que nos dão um soco no estômago.
A história trata principalmente da questão da mulher e das dificuldades inerentes em ser mulher nas sociedades com culturas muito rígidas e tradicionais no que diz respeito aos direitos da mulher.
Não pretendo fazer críticas às sociedades orientais sobre direitos de gênero, raça, orientação sexual etc, pois só acho que vale a pena ir fundo nestes temas se tiver com disposição de descer a lenha também nas sociedades ocidentais capitalistas, pois toda crítica que cabe ao oriente, cabe também ao ocidente.
Quero somente sugerir em poucos parágrafos que vale a pena ver o filme e refletir a respeito, vinculando a história com as nossas histórias e entorno social.

AS HISTÓRIAS DE VIDA SÃO AS HISTÓRIAS DA VIDA HUMANA
Todo sofrimento passado por Umay (Sibel Kekilli), a protagonista da história, tanto é único para a jovem mulher e mãe Umay, quanto é também para as protagonistas de tantas outras histórias que lidam com o preconceito e a discriminação em relação às mulheres e aos diferentes da maioria.
Da mesma forma, todo drama vivido por Umay e seu lindo filho Cem (Nizan Schiller) é um fragmento dos milhões de dramas que compõem a vida humana de leste a oeste, de norte a sul no planeta Terra. Não consigo deixar de dizer que o mundo é um lugar hostil!
A história de nossa humanidade é toda feita de abusos aos diferentes, de não-respeito às pessoas, tanto por parte dos Estados de forma institucional, quanto por parte dos indivíduos e dos grupos e famílias, naquilo que chamamos de cultura local ou regional.
Quantas vidas sofrem diariamente o preconceito, os maus tratos, e a indiferença por que passaram Umay (e seu filhinho) simplesmente por não agüentarem mais sofrer, apanhar, ser humilhado, não poder ser feliz (ou tentar)?
Além de recomendar este belo filme, também sugiro outras histórias semelhantes que nos põem a pensar que o mundo precisa melhorar muito no que concerne à tolerância, à inclusão social, ao respeito à liberdade e à democracia.
O livro “A cidade do sol” de Khaled Hosseini, aborda também as agruras e sofrimentos de mulheres afegãs.
Para não ficar só nos problemas orientais, é bom que as pessoas vejam que maravilha é a democracia americana, terra da “liberdade” e do “respeito aos diferentes”.
O filme “Preciosa” é um soco no estômago também, é um belo exemplo de como os americanos tratam uma mulher da forma mais intolerante possível (como se gosta de acusar ao Irã, ao Islamismo etc).
Também é uma boa pedida de filme sobre preconceito e intolerância o filme “Milk” sobre a questão da orientação sexual e os direitos civis.
E para finalizar, que tal ver o quanto os judeus são bonzinhos com os árabes e assistir ao filme “Lemon tree”?

UM OUTRO MUNDO É NECESSÁRIO! UM MUNDO SOCIALISTA, DEMOCRÁTICO, LIBERTÁRIO E SUSTENTÁVEL, CUJO FOCO NÃO SEJA O CAPITAL DE UNS POUCOS, MAS AS VIDAS HUMANAS E A EXISTÊNCIA NO PLANETA TERRA.

OU NÃO É DE NOSSA CONTA O DESPEJO DAS FAMÍLIAS DO PINHEIRINHO EM S. J. DOS CAMPOS EM FAVOR DA ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA E DE CAPITALISTAS BANDIDOS?

sábado, 28 de janeiro de 2012

Releitura: A morte de Ivan Ilitch - Tolstói


Tolstói em foto de 1908.
Fonte da imagem: Wikipedia.

Refeição Cultural - A morte de Ivan Ilitch – Tolstói

CLÁSSICO RUSSO de 1886

Comprei essa edição que tenho em 2008 na feira de livros da FFLCH - USP e li imediatamente. Ela é traduzida por Boris Schnaiderman e tem apêndice de Paulo Rónai. Minha primeira leitura não foi muito boa, pois não foi uma leitura atenta.

Lembro-me de companheiros do movimento sindical falarem de forma entusiasmada sobre esse livro. Não me ficou essa impressão da leitura que havia feito.

Há poucas semanas, quando estive em Uberlândia, na casa de meus pais, também tive a oportunidade de perceber que realmente a minha primeira leitura foi pouco atenta.

Minha sobrinha, que acabava de ser aprovada nos exames para entrar na Universidade Federal de Uberlândia, mostrou-me uma questão da prova que era a respeito do livro.

Ao ler a questão, vi que não me lembrava de nada da obra para iniciar a resposta. Sequer me senti em condições de fazer um bom chute.

Era evidente que precisava ler novamente este clássico da literatura russa e de Leão Tolstói.

Comentários sobre a primeira leitura AQUI.


MINHA RELEITURA

Nesta leitura, confesso que senti uma agonia imensa ao longo da história. Que tristeza!

Várias coisas foram passando por minha cabeça.


A FRIEZA BUROCRÁTICA DO SISTEMA DE TRATAMENTO DE SAÚDE

A frieza burocrática do tratamento dado ao senhor Ivan por parte das “autoridades médicas” me lembrou uma discussão moderna da medicina, onde há uma forte crítica pelo fato dos médicos especialistas não tratarem pessoas, pacientes que são seres humanos com dor e com sofrimento pela não-saúde.

Os profissionais e especialistas da medicina moderna tratam de “órgãos” e “partes de um corpo”. Eles não tratam de uma pessoa. Se alguém está sentindo dor e sofrendo com um problema de rim operado, não é problema do médico do rim. Dor é com o anestesista. Não adianta reclamar de dor com um especialista em coração, pois ele vai lhe dizer que não é com ele, ele trata de coração.

Como a descrição do sofrimento do senhor Ivan Ilitch se passa no século XIX da Rússia Czarista, pudemos ver que a questão da frieza no tratamento com as pessoas doentes vem de muito, muito longe.


A SOLIDÃO DOS MORIBUNDOS NA DOENÇA

Outra questão muito forte no livro é a dor profunda e solitária das pessoas no leito de morte.

Essa solidão existe independente da crença ou não-crença de cada um. É uma solidão da dor. É a solidão do medo do desconhecido, do sentir o instante de não mais existir.

A dor do orgulho ferido pelo que pode acontecer fisicamente conosco no fim.

Foi uma tristeza para mim lembrar-me do fim de minha querida tia Alice, que faleceu de câncer em um espaço de tempo muito parecido com o da personagem entre o ir ao médico, perceber-se que há algo errado e o fim. Será sempre muito difícil vivenciar a perda das pessoas queridas.


A DENÚNCIA DA FRIEZA DO ENTORNO SOCIAL

É muito forte a denúncia da hipocrisia da estrutura social quando chega a hora da morte de uma pessoa com boa posição profissional e com nível de chefia no sustento do lar. Isso fica muito claro na obra, quando falamos dos estamentos sociais na burocracia do Estado, na substituição da hierarquia dos cargos, como também na “hierarquia” da família e dos agregados.

A morte de um líder ou pessoa bem posicionada passa a ser oportunidade para os outros na estrutura social e ausência de sustentação financeira na estrutura familiar.

Quantos de nós faremos falta pela ausência da companhia, do amor, do afeto e pela simples presença como seres humanos?

A pensar...

William


Bibliografia:

TOLSTÓI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Boris Schnaiderman. Editora 34. 1ª Edição 2006 (1ª reimpressão 2007)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A bomba atômica e suas in-justificáveis motivações (políticas)


Cogumelo atômico sobre Hiroshima e Nagasaki. 
Fonte: Wikipedia.

Lendo um pouco de Era dos Extremos, de Eric Hobsbawm, fiquei pensando nos riscos atuais que estamos correndo novamente. Aqui, chamo a atenção dos leitores amigos, às vezes desavisados por estarem labutando para o sustento diário da vida e da família, enfim, chamo a atenção para o que Estados Unidos e Israel estão fazendo em relação ao Irã.

Ambos estão programando justificativas para a guerra contra o Irã, contra os árabes. Acredito que as consequências dessa provável guerra podem ser mais extensas que às consequências dos massacres americanos no Iraque e no Afeganistão.

Segundo Hobsbawm, a provável justificativa americana para o lançamento das duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão, era evitar mais mortes de soldados americanos ou também não permitir o crescimento político da URSS como ocorreu ao final da 1ª Guerra Mundial.

Eu partilho da leitura feita por Hobsbawm.

"A longo prazo, os governos democráticos não resistiram à tentação de salvar as vidas de seus cidadãos, tratando as dos países inimigos como totalmente descartáveis. O lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945 não foi justificado como indispensável para a vitória, então absolutamente certa, mas como um meio de salvar vidas de soldados americanos. É possível, no entanto, que a ideia de que isso viesse a impedir a URSS, aliada dos EUA, de reivindicar uma participação preponderante na derrota do Japão tampouco estivesse ausente das cabeças do governo americano." (p. 34 e 35)

Pois é...

VALORES BÁRBAROS APÓS 2ª GUERRA MUNDIAL

"O acentuado declínio dos valores da civilização após a Segunda Guerra Mundial acabou trazendo o gás venenoso de volta. Durante a guerra Irã-Iraque, na década de 1980, o Iraque, então apoiado entusiasticamente pelos estados ocidentais, usou-o à vontade contra soldados e civis..." (p.36)


Bibliografia:


HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos - O breve século XX, 1914-1991. Companhia das Letras. Tradução de Marcos Santarrita, 2ª edição, 33ª reimpressão.



Post Scriptum no Facebook:

Sempre que lemos um pouco do grande Eric Hobsbawm, melhoramos nossa capacidade de olhar ao redor e entender um pouco como funcina a máquina Mundo...

Tento seguir a dica sábia de ler diariamente para melhorarmos o entendimento da vida e de nós mesmos. O duro é que ao longo do ano de luta o tempo é bem escasso. Mas vamos lendo ao menos 1 hora por dia...