segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Interface Linguística Histórica e Filologia




Texto de Marilza de Oliveira 

INTRODUÇÃO 

A filologia remonta ao período alexandrino e teve como objetivo restaurar os textos deturpados em virtude das sucessivas cópias. 

Linha do tempo: grande interesse nos séculos III e II a.C. para edições críticas de Hesíodo e Homero; desinteresse no período medieval devido à doutrina cristã, que eliminava e refazia arbitrariamente várias passagens das obras clássicas; volta do interesse da investigação filológica no período humanista. No século XIX a Filologia ganha o estatuto de ciência por ter princípios científicos. Surge a Linguística Histórica. 

A FILOLOGIA PORTUGUESA 

Ao longo do tempo, os especialistas se dividiram entre os que entendiam a filologia como um estudo amplo de tudo sobre a língua e literatura, como Carolina Michaëlis, Serafim da Silva Neto e José de Vasconcelos. 

Chaves de Melo passa a diferenciar a Filologia Portuguesa da Linguística Portuguesa, sendo esta o produto histórico-social e aquela a ciência para estabelecer, explicar e comentar textos. 

Modernamente, IVO CASTRO diz que a FILOLOGIA se limita ao exercício de verificar se um texto que vai ser lido e interpretado dá garantias de estar tão próximo quanto possível daquilo que o seu autor escreveu. 

“desempenhar a sua missão, que não é estética nem semântica, mas técnica e, de certo modo, ética: a missão de interrogar os objectos escritos sobre a proveniência e a sua existência antes de os declarar aptos a serem lidos pelos outros” 

Este conceito de Ivo Castro está diretamente relacionado com a LINGUÍSTICA HISTÓRICA. 

TIPOS DE EDIÇÃO DE UM TEXTO: MODERNIZADORA E CONSERVADORA 

Uma edição modernizadora faz intervenções no texto, atualizando ou uniformizando grafias, pontuação e estruturas morfossintáticas, pode facilitar a leitura do texto para historiadores, sociólogos, economistas etc. 

Para os linguistas e estudiosos da língua é necessária a edição conservadora. 

A EDIÇÃO AUTORIZADA PARA O ESTUDO LINGUÍSTICO 

Segundo Megale é importante que a edição “ofereça lição autêntica do testemunho, com os ‘erros’ que possa ter (1988:18)” 

Spina (1994:84-88) apresenta 4 tipos de EDIÇÕES CONSERVADORAS: 

a) a reprodução fac-similar – só poderá ser compulsada por especialistas em paleografia. 

b) a reprodução diplomática – reproduz as abreviações e os erros contidos no manuscrito. 

c) a reprodução semidiplomática – desdobra as abreviações, redivide as palavras e propõe uma pontuação, avançando na interpretação do texto. 

d) a edição crítica – busca estabelecer o texto como foi escrito pela primeira vez confrontando manuscritos, anotando variantes, corrigindo os erros tipográficos e interpretando os passos obscuros. 

Michaëlis é uma das que defendem que uma edição SEMI-DIPLOMÁTICA com desdobramentos de abreviações (em itálico) e uma EDIÇÃO CRÍTICA possam ser usadas por um linguista. 

Já Cambraia (1999) sustenta que as intervenções do editor podem trazer problemas ao linguista, pois sinais de pontuação e uso de maiúsculas e minúsculas tem informações sintáticas e semânticas. 

A DATAÇÃO E A PROCEDÊNCIA DO TEXTO 

Além do rigor da reprodução do texto-fonte, a filologia objetiva levantar informações que possam caracterizar o texto-fonte em termos de datação e procedência, informações altamente relevantes para o linguista que está preocupado com a história da língua. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS DE MARILZA DE OLIVEIRA 

Ao selecionar um texto medieval para a constituição de seu corpus, o diacronista deverá estar atento e capacitado para enfrentar os problemas gerados pelo processo de transmissão manuscrita e o problema da escolha da edição, que deverá ser aquela que apresenta os critérios mais rígidos, ou conservadores, de transcrição do texto. Mas não só. O linguista deve estar atento também ao aparato das variantes, fonte inestimável de informações sobre variação linguística. 

Ao buscar a lição autêntica do testemunho, o trabalho filológico pode dar inestimável contribuição para o estudo da história da língua. De fato, o arrolamento de alguns poucos aspectos morfossintáticos feitos (nos textos da Demanda do Santo Graal e no Orto do esposo) fornecem evidências empíricas para a hipótese da deriva do Português Brasileiro. 

Bibliografia: 

LIMA-HERNANDES, Maria Célia & FROMM, Guilherme (ORG). Domínios da linguagem v. SP, Plêiade, 1ª edição, 2005.

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