terça-feira, 19 de maio de 2020

190520 (d.C.) - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Ontem

Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.

De como este banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.

Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.

Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado

não no ar, em mim,
que por minha vez,
escrevo, dissipo." 

(A Rosa do Povo, 1945, CDA)


Hoje é dia 19 do mês de maio posterior à pandemia do novo coronavírus (ano 1?). Essa invenção de calendário é um treco interessante por parte dos homo sapiens. As definições são sempre arbitrárias. Nos dias que correm aqui no Ocidente, temos em vigor o calendário gregoriano, que substituiu o juliano. Estamos no ano de 2.020. Pelo calendário do judaísmo, estamos no ano 5.780. 

Calendário é um invento tão arbitrário que poderíamos estar no ano 5 bilhões e alguma coisa, já que o planeta Terra tem essa idade e vem fazendo seus movimentos de rotação e translação e dando voltas na órbita do Sol durante esses bilhões de anos aí. Hoje poderia ser dia 19 de maio do ano da graça do Big Bang de 5.000.000.001, o 1 ficaria por conta da nova realidade humana após a Covid-19 (arbitrário também, mas... e daí?).

Neste momento em que escrevo, estão contabilizados 321.999 mortos pelo vírus Covid-19, que já contagiou 4.876.906 humanos. De cerca de 200 países do mundo, o que eu vivo é praticamente o único no qual o governo central, presidido por um monstro inumano, atua de forma inversa no combate à pandemia mundial em relação ao que preconiza a OMS: o isolamento social e a quarentena para evitar a velocidade de contaminação das pessoas, o colapso dos sistemas de saúde e a morte de multidões de vítimas sem atendimento médico. 

Vivo num país jabuticaba, com um povo mais bárbaro que os outros. Os monstros no poder pretendem praticar uma forma de eugenia, eliminando pela pandemia multidões de pobres e idosos e parte das vítimas são tão ignorantes e bárbaras que são manipuladas pelos sistemas de ideologia vigentes na atualidade: líderes de religiões com grande facilidade de retórica e sistemas de comunicação que permitem acesso irrestrito a cada indivíduo o tempo integral de sua vida, redes sociais.

Mudando de assunto, afinal de contas, se seguir descrevendo essas desgraças, minha pressão arterial subirá mais ainda e meu corpo vai acelerar a destruição interna dos órgãos que me fazem existir...

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Abri a postagem com um poema de Drummond: "Ontem". 

Antes gostava de motos, ouvia muito mais música que hoje, queria ir a lugares e fazer um monte de coisas. Fiz a vida seguir adiante perseguindo objetivos inventados justamente para seguir caminhando, mesmo sabendo que não há caminhos e que somos nós que fazemos as trilhas, as veredas, as jornadas. O caminho é mais importante do que o fim dele, os sábios apontam isso faz tempo.

Neste momento de minha vida, tá tudo esquisito. Na minha e na de milhões de pessoas. Tá difícil definir objetivos a perseguir, definir metas que façam valer a pena o existir diário. Se o existir não for uma jornada, uma vereda que leve a pessoa a algum lugar, tudo perde o sentido, a motivação. Isso não é uma contradição com o que disse no parágrafo anterior. Se o topo do Himalaia é o sonho, fazer as montanhas brasileiras poderia ser uma realidade de caminhos felizes: Monte Roraima, Pico da Neblina, Pico da Bandeira, Pedra da Mina. 

Se eu olhar para trás, verei claramente que num momento defini que queria isso ou aquilo, que iria fazer isso ou aquilo, e tudo passou a fazer sentido, as dificuldades eram apenas etapas difíceis do caminho. Amassar barata na cara em barracos que morei, quebrar concreto e mexer com encanamento com fezes dos outros, furar latas de palmito podre, sofrer e chorar por uma humilhação ou outra, uma frustração, uma perda... enfim, quando se tem metas traçadas, e firmeza de propósito, a gente aguenta o peso do mundo duro.

Acho que está faltando algo que me faça aguentar suportar a existência do mal, suportar que parte de meus familiares e gente que eu conheço são bárbaros apoiadores do bolsonarismo, suportar as fragilidades que temos por sermos animais humanos, frágeis como uma flor que desabrocha ao Sol ou como um filhote indefeso que acaba de nascer. Somos tão frágeis que uma bosta de um vírus põe em risco nossa espécie e pode nos matar em dois ou três dias. 

Passei a vida inventando objetivos e perseguindo eles para fazer valer a pena estar vivo neste mundo duro. Durante umas duas décadas, foram objetivos pessoais que me moveram. Durante outras duas décadas, foram objetivos coletivos. Minha vida de representação da classe trabalhadora é mais conhecida de meus amigos atuais. Foram anos de dedicação, ética sindical e lutas solidárias.

Paraquedismo, me enfiar em cavernas, me pendurar em cachoeiras, ter uma Sete Galo (Honda 750 four), acampar, pegar estrada, fazer projetos de grandes viagens (que não fiz), ter uma casa própria; sonhos inventados que faziam os dias valerem a pena como uma jornada, a vida que era vida no dia a dia. Esses foram meus tempos antes do movimento sindical. 

A vida tinha uma lógica que fazia a gente suportar as coisas. Quando você conseguia uma boa moto, lá na frente você se via tendo uma Harley Davidson. Se já conhecia paisagens legais de meu mundo, algumas que fossem, ainda tinham muitas aqui e acolá para conhecer. Eu sonhava com o Himalaia, o Grand Canyon. Sonhava fazer mil quilômetros no Caminho de Santiago de Compostela. 

"Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado

não no ar, em mim,
que por minha vez,
escrevo, dissipo."


Engraçado. As coisas já haviam mudado antes da Covid-19. Eu mudei. A gente muda o tempo todo. Somos hoje o resultado de ontem, como disse o professor Antonio Candido.

Ontem, já não via mais sentido ter uma Harley Davidson. Me questionava se pegava a estrada ou não para fazer o Caminho de Santiago. O Grand Canyon se tornou algo indigesto pelo ser que sou hoje. O Himalaia, na minha condição atual aos 51, é algo tão distante... mesmo outra montanha, pois eu era apaixonado por montanhas, natureza, rios, lagos, matas.

Que temos pro momento? Minha pressão descontrolada... Sensações estranhas nas entranhas que podem ser qualquer coisa, até tristeza, chateação... Ter moto e um cretino passar por cima da gente por estar olhando celular... 

Estou nas leituras, mas às vezes sinto que é um ritual de autoengano. Não acho que vou encontrar paz em leitura alguma. Mas sigo lendo com disciplina. Vamos procurando até onde for possível.

William
Um leitor

sábado, 16 de maio de 2020

Decamerão (Boccaccio) em tempos de pandemia





Refeição Cultural

"A peste, em Florença, não teve o mesmo comportamento que no Oriente. Neste, quando o sangue saía pelo nariz, fosse de quem fosse, era sinal evidente de morte inevitável. Em Florença, apareciam no começo, tanto em homens como nas mulheres, ou na virilha ou na axila, algumas inchações. Algumas destas cresciam como maçãs; outras, como um ovo; cresciam umas mais, outras menos; chamava-as o populacho de bubões. Dessas duas referidas partes do corpo logo o tal tumor mortal passava a repontar e a surgir por toda parte. Em seguida, o aspecto da doença começou a alterar-se; começou a colocar manchas de cor negra ou lívidas nos enfermos. Tais manchas estavam nos braços, nas coxas e em outros lugares do corpo. Em algumas pessoas, as manchas apareciam grandes e esparsas; em outras, eram pequenas e abundantes. E do mesmo modo como, a princípio, o bubão fora e ainda era indício inevitável de morte futura, também as manchas passaram a ser mortais, depois, para os que as tinham instaladas." (p.16)


Hoje li a 45ª novela ou narrativa do Decamerão, de Boccaccio. Faz 45 dias que me propus a ler uma estória por dia durante a quarentena que estamos vivendo por causa da pandemia mundial do novo coronavírus (Covid-19). Essa peste está matando neste momento mais de 800 pessoas por dia no Brasil. Já são mais de 200 mil infectados e mais de 15 mil mortos. Para piorar o quadro, a subnotificação no país é tão absurda que estima-se que os números podem ser muito maiores. No mundo são mais de 4,6 milhões de infectados e 310 mil mortos.

Boccaccio escreveu este clássico entre os anos de 1348 e 1353, no auge da Peste Negra na Europa. O mundo era muito diferente daquele que conhecemos hoje. Quer dizer... naquela época, achava-se que a Terra era plana... pensava-se que as doenças eram castigo de Deus... considerava-se que as mulheres não tinham os mesmos direitos que os homens... as leis estabeleciam que a escravidão e exploração humana era algo normal e aceitável... enfim, coisas impensáveis no século 21.

Uma das características do escritor é a ironia. Boccaccio era muito irônico e essa ferramenta estilística é de difícil compreensão ainda nos dias de hoje. Ao lermos as narrativas chegamos a ficar com raiva pela forma como as mulheres são tratadas e é preciso lembrar do quanto o escritor é irônico para compreender que até a forma como ele descreve a condição feminina é uma ironia e uma crítica à sociedade em que vivia.

Enfim, se os deuses me permitirem viver os próximos 55 dias, e afastarem de mim qualquer peste que me impeça de respirar, de comer e defecar, de enxergar, dormir e acordar, terei eu completado a leitura de mais um dos grandes e volumosos clássicos da literatura mundial.

Outras postagens sobre o Decamerão no blog podem ser acessadas aqui.

William
Um leitor


Bibliografia:

BOCCACCIO, Giovanni. Decamerão. Imortais da Literatura Universal, Nova Cultural, São Paulo, 1996.


160520 (d.C.) - Diário e reflexões





Hoje é sábado, 16 de maio de 2020, pós-Covid-19. Osasco, SP.

Neste momento (14h30), o mundo registra 4,58 milhões de infectados pelo novo coronavírus, sendo 309.184 vítimas fatais. O país mais atingido é os Estados Unidos, com 1,45 milhão de infectados e 87.841 mortos. O Brasil é o sexto mais atingido, mas vai passar a Itália e a Espanha nos próximos dias. Aqui no país jabuticaba, onde o inumano no poder atua contra o combate à pandemia, e somos o país que menos testa no mundo entre os grandes, já temos 222.877 infectados e 15.046 mortos. 

Fico pensando se merecemos tudo o que acontece aqui, afinal de contas, descobrimos que somos mais bárbaros do que jamais poderíamos imaginar um dia. Parece que, a cada dia, mais humanos ao nosso redor demonstram pensarem igualzinho ao monstro que foi colocado no poder. Talvez mereçamos tudo... merecemos, sim.

Apesar de todos os cuidados que temos tomado, as recomendações de higienização, isolamento, quarentena, máscara na cara igual os tuaregues no deserto, álcool gel pra lá, álcool gel pra cá, sabão aqui, sabão acolá, esse inferno todo no qual a vida se transformou, eu sinto que algo dentro de mim está em sintonia com o mundo exterior. O mundo definha. Eu definho. Tem horas que eu penso o seguinte: que se dane!

Quando há luta, lutas, há esperança, algum tipo de esperança. Estou sem esperança. E não sou mais como fui no passado. Eu não ligava pra vida, meu egoísmo não me permitia sequer pensar no sofrimento das pessoas que nos consideravam. Sou menos egoísta hoje, diria que sou, afinal de contas, só faço o que tem que ser feito porque penso que temos alguma serventia para o mundo exterior ao animal que somos.

No entanto, apesar de me alimentar direito, de fazer um esforço grande em praticar alguma atividade física aeróbica para baixar um pouco a pressão arterial e reduzir o colesterol ruim no sangue (em tempos de pandemia que proíbe sair sem máscara na rua), apesar disso, algo me corrói por dentro. Como me conheço há cinco décadas, acredito que o principal fator gerador seja a tristeza que nos abateu após o golpe de Estado, após o mal se instalar no nosso mundo com adesão das pessoas ao nosso redor. 

Por que registro esses diários? Deve ser vaidade. O animal humano é assim. Sigo fazendo o possível, leio em busca de prazer e descoberta, atuo como provedor dos meus entes queridos, não faço nada que seja condenável. Faço meu papel de ator social que tem visão de mundo a partir do espectro da esquerda.

Seguimos. Sigamos. 

William
Um leitor

terça-feira, 12 de maio de 2020

Leitura: A carruagem dos espelhos (2019) - Sandro Sedrez dos Reis




Refeição Cultural

"- Mesmo que isso doa, ninguém deveria acusar o espelho de ingratidão. Ao contrário, é por estar muito agradecido que ele não poderia agir de outra forma, senão nos mostrando o que temos feito de nossas vidas. Até porque não é pelas coisas terem saído diferente do pretendido que elas não valem. O que não vale é querer prender o mundo e nós mesmos em uma imagem congelada. Isso cabe à fotografia. E serve para lembrar. O espelho precisa mostrar as verdades de nossa vida em movimento. E serve pra ensinar, alertar e, às vezes, fazer-nos tomar decisões." (p. 211)


A leitura do livro A carruagem dos espelhos, do amigo e colega da comunidade Banco do Brasil, é um ato de prazer. A leitura é leve, as personagens são gente como a gente, as estórias são como as nossas histórias de vida.

O início do livro traz narrativas deliciosas como a do garoto Alessandro e a professora Dona Dalva ("A queda"). Algumas nos emocionam muito como as estórias de Mayumi em "Voo cego" e de Aurora em "Quebra-cabeça". Os contos todos são muito bons. Nos envolvem bastante.

A novela, então, é uma surpresa muito agradável. Uma trama que não nos deixa parar de ler do início ao fim. Durante a leitura, pude descansar meu coração apertado e amargurado pelo contato permanente com a desgraça lá fora, num mundo com pandemias várias, a da Covid-19, a da ignorância bárbara bolsonarista que infectou o nosso país, a do necrocapitalismo que destrói vidas e o mundo.

Descansei coração e mente durante a leitura das narrativas que Sandro nos presenteou com A carruagem dos espelhos. Recomendo a leitura! É uma terapia de prazer pela leitura e uma oportunidade de algumas viagens ficcionais em tempos de quarentena e recolhimento.

William
Um leitor

REIS, Sandro Sedrez dos. A carruagem dos espelhos. São Paulo: Recanto das Letras, 2019.

domingo, 10 de maio de 2020

100520 (d.C.) - Diário e reflexões





Domingo de luar, Dia das Mães, Osasco, país jabuticaba, novo dia depois da pandemia do vírus Covid-19.

Vencemos mais um dia. Vamos para mais um amanhã. Tantas coisas que fazer ainda. Tantas coisas possíveis. Tantas coisas que eram possíveis até pouco tempo atrás. Tantas coisas que talvez não sejam mais possíveis para mim. Vai saber como será a semana neste mundo novo.

Neste momento de fim de noite de domingo das mães, o quadro estatístico sobre infectados e mortos pelo novo coronavírus aponta que estão infectados 4,1 milhões de pessoas no mundo e morreram até agora 282,7 mil seres humanos. No país jabuticaba, temos oficialmente 162,7 mil infectados e 11.123 vítimas fatais. Mas aqui é um dos países que menos realizam testes para identificar infectados, e os números podem ser muito maiores. O monstro que meus concidadãos elegeram em 2018 comemorou os números andando de Jet Ski. Aqui é assim...

Eu decidi estudar a Língua Japonesa neste ano porque gosto da cultura japonesa e porque o desafio poderia exercitar meu cérebro e auxiliá-lo a funcionar bem após meio século de vida. Estava indo muito bem através de um curso pago na internet e de uma matéria presencial em minha graduação em Letras na USP. Aí veio a quarentena, a parada do mundo. O isolamento social se somou à tristeza com a destruição do meu mundo pela ascensão do mal ao poder por golpe e por adesão de parte do povo que eu amava. Bateu um desânimo perigoso para o meu viver. O corpo por dentro está morrendo, sinto isso em meu abdômen. É triste e não é porque quero.

Como a vida seguiu nesta semana, e segue a partir de amanhã, a gente segue fazendo coisas que são possíveis. Eu sempre tive sonhos de cultura e conhecimento. Queria ser um erudito, um sábio, um intelectual. Admiro muito pessoas com grande acúmulo de conhecimento. Admiro mais ainda quando essas pessoas usam o conhecimento para o bem coletivo. 

Esse desejo de saber me fez começar projetos de leituras e nunca terminar quase nada, pois começava um livro, pegava outro, começava mais um, pegava outro e assim ia. 

Pensando em parar com isso, dei uma rápida olhada na estante e identifiquei vários livros que poderia retomar e ganhar aquela experiência de leitura. 

Tudo está estranho, sem sentido, sem razão lógica e sem prazer a esta altura de minha vida. É lógico que isso é um processo psicológico, somos humanos. Estou tentando me agarrar numa tese que ouvia de alguns professores que diziam sobre clássicos da literatura mundial que era sempre melhor lê-los que não lê-los. 

E sempre tem os livros novos também, alguns humanos continuam produzindo coisas interessantes de se ler.

Foi assim que li algumas centenas de páginas nesses dias. Terminei um livro de romance ao ler mais de cem páginas de uma vez. Agora estou terminando outro do mesmo jeito, acabo amanhã. 

Tem cada livro referencial que estou no meio... Hobsbawn, Galeano, Dostoiévisk, Hobbes, Jessé Souza, Gorbachev, Marx, Mandela, José Dirceu... (pensa dezenas e dezenas de leituras inacabadas).

Chega de registros por hoje. Vamos ver o que a vida nos reserva para a semana.

William
Um leitor

090520 (d.C.) - Diário e reflexões



(Registro no perfil do Facebook na manhã de 9 de maio)

Instantes (já fizemos muita coisa boa...)

Acordei e peguei o celular para ver alguma coisa do mundo em declínio. Tudo fragmentos, instantes de um mesmo mundo.

Ao ler um texto de memórias do companheiro Zé Alves, pensei no quanto nós trabalhadores já fizemos coisas boas. Zé Alves é um brasileiro.

Ontem conversava com um grande amigo, Ricardo Linares, e ele me contou da rotina em família durante a quarentena. Comentei com minha esposa emocionado o quanto é legal ver pessoas como ele esposa e filhos estarem bem e atravessando essa pandemia unidos e crescendo juntos. Ricardo é um brasileiro.

De meu desejo de ser mais acabativo com leituras, porque a vida se tornou muito incerta e se vive hoje, se tosse, falta o ar e se morre amanhã, fui olhar as pilhas de livros iniciados e não acabados. Tem clássicos, tem lançamentos, tem romance, tem de política, tem de história...

Aí peguei agorinha o de romance do Sandro Sedrez. Amigo de coração. A estória começava em um sábado de algum outono do século XXI (coincidência!) E acabei fazendo um cappuccino como a personagem... o livro do Sandro é um dos lançamentos que tenho iniciada a leitura. O livro já me fez pensar muito, as estórias pegam a gente de jeito. O Sandro é um brasileiro.

Nesse instante, ouvindo a trilha sonora de um filme que mexeu comigo (ver abaixo), pensando em várias vidas comuns de brasileiros como Zé Alves, Ricardo Linares, Sandro Sedrez, eu mesmo, olhando pra história de vida da classe trabalhadora, no BB onde passamos nossa vida, emocionado e com lágrimas nos olhos, tenho a certeza que fizemos coisas boas, lutas pessoais e coletivas que visavam o bem e não prejudicar ninguém.

Quando lembro de quanto busquei energia extra dentro de mim pra enfrentar patrões, assediadores, gente má (algumas pessoas são más, de verdade), e também para enfrentar adversidades normais na luta entre capital e trabalho, sei que fizemos coisas boas para as pessoas.

Minha última etapa de lutas coletivas foi à frente da diretoria de saúde da autogestão dos funcionários do BB. Apesar de todas as dificuldades antigas de falta de recursos da entidade, fizemos coisas boas na área que éramos responsáveis. Nunca vou me esquecer das carinhas dos funcionários nas reuniões presenciais que fazíamos de Norte a Sul, de Leste a Oeste, conversando com todo mundo, de igual pra igual, d@ gestor(a) ao auxiliar, ouvindo a tod@s com respeito. O mesmo se dava com os funcionários do BB que representamos. Fizemos coisas boas, sei disso, e fizemos porque tivemos muita gente boa conosco. Sou muito grato a tod@s.

A gente torce para que passe esse período de ascensão do mal e da ignorância e que as pessoas voltem a ter oportunidades de vida como nós tivemos em nossas vidas de lutas.

(Stay Alive... Don't Let It Pass... Space Oddity... trilha sonora do filme A vida secreta de Walter Mitt, de 2013)


William

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Leitura: Aventuras de Alice no País das Maravilhas (1865) - Lewis Carroll



Uma de minhas edições de Aventuras de Alice
no país das maravilhas, de Lewis Carroll.

Refeição Cultural

Tempos estranhos. Sensações estranhas. Pandemias. Covid-19. Bolsonarismo. Barbarismos. O estômago ou intestino roem com tanta coisa nauseante ao nosso redor. A vida que teria grande expectativa de vida se pegou com baixa perspectiva de vida. O jeito é ler rápido aquilo que ainda falta porque não sabemos se o amanhã virá, ao menos pra nós mesmos.

Li dias atrás o clássico de Lewis Carroll, Aventuras de Alice no país das maravilhas. Tenho uma edição muito caprichosa, feita pela Zahar. Na edição tem também a continuação da história, Através do espelho e o que Alice encontrou por lá. O leitor desta edição ganha de presente as ilustrações belíssimas de Adriana Peliano, feitas a partir dos originais de John Tenniel.


As ilustrações de Adriana Peliano são belíssimas.

Quando eu estava em um duro momento de minha vida, com vinte e poucos anos, fiz uma daquelas listas de objetivos a serem perseguidos na vida, para dar algum sentido no viver, já que estava desgostoso, provavelmente depressivo e com pouco amor à vida. Um dos itens que coloquei na lista de metas foi ler ao menos cem clássicos da literatura universal. 

De lá para cá, consegui ler alguma coisa de literatura clássica, na medida de minhas possibilidades, pois trabalhava e estudava muito e pouco tempo sobrava para o prazer. Não sei quantos clássicos já li, mas sei que a meta continua, mesmo quando estou em momentos nos quais não veja muito sentido nisso.

A grande questão em minha vida, então, era a mesma da jovem Alice: que caminho deveria tomar?


Cena clássica: que caminho devo seguir?
Quantos de nós já não viveu essa dúvida.

Um dos grandes momentos do livro, na minha opinião:

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Alice e o bichano de Cheshire: que caminho tomar?

"Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?"
"Depende bastante de para onde quer ir", respondeu o Gato.
"Não me importa muito para onde", disse Alice.
"Então não importa que caminho tome", disse o Gato.
"Contanto que eu chegue a algum lugar", Alice acrescentou à guisa de explicação.
"Oh, isso você certamente vai conseguir", afirmou o Gato, "desde que ande o bastante."
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Belíssima edição com os desenhos originais de 1865.

Deste clássico de Lewis Carrol, que na verdade é pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, tenho uma outra edição também especialíssima, da Collector's Library, editada em 2004 no Reino Unido. Alice's Adventures in Wonderland & Through the Looking-Glass. Esta edição contém os desenhos originais de John Tenniel.

A primeira edição de Aventuras de Alice no país das maravilhas foi publicada em 1865, e a sua continuação em 1871.


A mesma cena de John Tenniel que mostrei acima na
ilustração de Adriana Peliano. Ambas são demais!
 

Enfim, fiz a releitura de Alice após umas 3 semanas de primeiro contato com a obra. É interessante conhecer histórias pelas quais ouvimos dizer a vida inteira, muitas vezes sem nunca lê-las e conhecê-las de verdade, para além dos mitos e das releituras e reinvenções a respeito delas.

A pandemia segue matando gente de uma hora para outra no Brasil e no mundo. Neste momento da publicação, são 270.537 mortos no mundo (3,9 milhões de infectados). Hoje estamos vivos, amanhã temos uma febre, tosse e dificuldade de respirar e podemos ter contraído a Covid-19. 

Existências frágeis. Com os colapsos dos sistemas de saúde, podemos morrer de qualquer tipo de morte morrida ou matada, como se diz por aí. Além do risco da Covid-19, pode ser que um doença interna nos tire a vida de repente, já que sofremos tanto com a epidemia do bolsonarismo, um barbarismo que acometeu o povo brasileiro de uma forma quase irrecuperável, ao menos para os infectados.

Da leitura, fica a importância do sonhar, das crianças, dos adultos, de mundos malucos só de brincadeirinha. Fica aqui o meu registro do instante, nesta página de diário de internet, blog do fulano.

William
Um leitor

Bibliografia:

CARROL, Lewis. Aventuras de Alice no País das Maravilhas & Através do espelho e o que Alice encontrou por lá. Edição comemorativa - 150 anos. Zahar, Rio de Janeiro, 2015.

CARROL, Lewis. Alice's Adventures in Wonderland & Through the Looking-Glass. Collector's Library. CRW Publishing Limited, London, 2004.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

070520 (d.C.) - Diário e reflexões





Hoje é quinta-feira, do mundo pós-Covid-19. Do mundo pós-bolsonarismo.

Estou desmotivado para estudar. Tá muito sem sentido estudar alguma coisa. A vida está sem graça hoje, mas tá sem perspectiva pra amanhã (aí que está o problema). E se está assim pra mim que sou um agraciado pelo destino por ter casa, comida, uma renda certa e pessoas que consideram a gente, imagina para a ampla maioria que não tem alguma dessas coisas ou não tem nenhuma delas.

Eu não escolheria viver num mundo com bombas caindo sobre nossas cabeças. Não escolheria viver num mundo com epidemias. Não gostaria de viver num mundo com milícias e paramilitares e bandidos e cartéis e máfias decidindo quem vive e quem morre se não se submeter ao chefão local. Não escolheria viver num mundo com misérias aviltantes ao seu redor, com carências de tudo.

São por essas e outras que as pessoas fogem, se exilam, mudam de lugar, migram ou tentam a vida em outro lugar. E os outros lugares podem aceitar ou rejeitar os migrantes. Podem acolhê-los ou barrar todos eles e tratá-los com ódio, desprezo e violência. 

Eu não gostaria de viver em outro país, que não o que nasci. Não gostaria de ver o país em que nasci se tornar um lugar onde a vida corre risco o tempo todo se você não for da banda dos bandidos no poder. Não gostaria de viver num país onde injustiça, desigualdade, coisas impensáveis de acreditar como gente defendendo tortura, extermínio, exploração... onde essas merdas todas fossem normais, coisa normal.

Não sei se gostaria de viver num mundo no qual pra sair de casa temos que nos vestir de tuaregue, se mascarar pra ir a qualquer lugar que seja permitido. Uma coisa é suportar isso algumas semanas, outra é isso virar o normal. Como seria a vida se a gente tiver que transformar a rotina chata e quase insuportável da higienização pela pandemia do Covid-19 em normal do dia a dia?

Nossa! Não tô a fim de nada! E por dentro do corpo, sinto que algo me corrói... seria psicológico, biológico, físico, químico, metafísico, bioquímico, melancolíte, estomatite, nó nas tripas, abdomenite, ite, ite, ice, isse, chatice, putisse...

?

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Leitura: As sandálias do Pescador - Morris West



Refeição Cultural

"- Meus irmãos, meus auxiliares na causa de Cristo... - A sua voz era forte, embora carinhosa, como se lhes pedisse a fraternidade e a compreensão. - O que hoje sou, fostes vós que o fizestes. Mas, se aquilo em que eu creio é verdadeiro, então não fostes vós, mas sim Deus, quem me calçou as sandálias do Pescador..." (p. 49)


INTRODUÇÃO

Hoje é 6 de maio de 2020. Uma quarta-feira chuvosa em Osasco, São Paulo. Tempos de quarentena por causa da pandemia mundial do novo coronavírus (Covid-19). O mundo parou e mudou drasticamente nestes primeiros meses do ano após o aparecimento desta peste que se espalha com rapidez e já infectou 3,7 milhões de pessoas e matou 261 mil delas até hoje. 

O necrocapitalismo já impactava fortemente na miséria dos povos do mundo quando começou a pandemia; agora, com o isolamento social, as quarentenas forçadas ou sugeridas pelas autoridades e a paralisação das economias dos países, e ainda sem previsão de vacina e sem cura, temos um cenário de incertezas em relação à vida presente e futura.

Foi nesse contexto que decidi acelerar a leitura de um monte de livros que leio ao mesmo tempo. Depois de meses lendo aos poucos este romance, acabei lendo 100 páginas de ontem pra hoje. Havia começado a leitura de Morris West em 27 de dezembro do ano passado. 

O enredo começa com a morte do Papa e com a escolha de um novo representante de Pedro na terra. É escolhido um homem jovem, 50 anos, vindo do bloco comunista, a URSS. Ele foi um sacerdote preso e torturado pelo líder da União Soviética. Os tempos são de guerra fria e ameaça nuclear que colocaria em risco a vida no planeta. O novo Papa terá que lidar com toda a burocracia da Igreja Católica e do Vaticano para realizar sua missão ao assumir o chamado para calçar as sandálias do Pescador.

A LEITURA

Não sei por que decidi ler este livro, talvez pelo nome, pela temática, por algum saudosismo por tê-lo lido na adolescência. Talvez por não ter religião desta vez, sendo que era religioso da primeira vez que o li. Enfim, por que não ler As sandálias do Pescador, já que se trata de um romance de ficção? Só os seres humanos têm essa capacidade de inventar e isso nos fez diferentes do restante dos animais da natureza.

A leitura me gerou boas reflexões. Eu fui criado e educado através da visão católica do mundo. Fui muito religioso até vinte e poucos anos. Li muito sobre o tema também. Além da leitura do Novo Testamento e outros livros da Bíblia, li alguns romances que me trouxeram conhecimento sobre a religião católica ou que questionavam dogmas dela - Paulo, O caminho para Bitínia, As sandálias do Pescador e Operação Cavalo de Troia são alguns livros com temática religiosa que li.

Ainda no período de buscas por alguma explicação do mundo e algum sentido para a vida, li livros espíritas como, por exemplo, Violetas na janela; li vários livros sobre gnose, livros de numerologia, I Ching, ufologia e por aí vai. Hoje, não tenho mais uma concepção religiosa de mundo e de vida. No entanto, compreendo perfeitamente a importância das religiões e a fé que os seres humanos têm nas diversas formas de energias e deuses que contribuem para a criação de sentidos à vida e para melhor aceitação da morte, ou seja, dão certa conformação à vida trágica de todos os seres vivos.

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"... e ele se recordou do que escrevera ao contemplar, pela primeira vez, o Grand Canyon do Colorado... 'Contudo ficar ou completamente frio, ou profundamente perturbado pela visão grandiosa da Natureza, ou mesmo pela dos espetaculares monumentos antigos, abandonados pelos seus criadores. Logo que o homem aparece, sinto-me reconfortado, porque ele é o único elo significativo entre a ordem física e a espiritual. Sem o homem, o universo é terra inculta e ululante, contemplada por um demônio invisível...' Se o homem desertasse deste esplendor intemporal de São Pedro, sobreviria a decrepitude e ele se transformaria num terreno baldio, onde as raízes das árvores cresceriam por entre as pedras, e os animais viriam beber nos tanques das fontes." (p. 128: uma reflexão do personagem Télémond que me pôs a pensar)
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Mesmo não tendo concepção religiosa alguma, li também nesses meses um livro com ensinamentos do Dalai Lama. Os dois livros, que falam de um deus e de reencarnações e várias vidas do mesmo ser, nos colocam a refletir, nem que seja pela capacidade do ser humano em criar ficções para além da física, da química e da biologia. Culturas, culturas proporcionadas pelo animal humano.

Uma das partes mais interessantes do livro são os finais dos 10 capítulos, quando nos é apresentado um excerto das memórias do Papa - "Extrato das memórias secretas de Kiril I, Pontífice Máximo". É quase uma obra à parte, com reflexões muito interessantes do personagem, seus medos, anseios, escolhas e a denúncia da solidão, a solidão do poder. Todos nós que já estivemos em altos cargos já experimentamos essa solidão terrível.

ALGUNS MOMENTOS QUE NOS COLOCAM A PENSAR

Os efeitos duradouros da tortura:

"Fora espancado muitas vezes, mas a carne magoada logo se recompunha. Fora interrogado até a exaustão, com os nervos a vibrar, gritantes, e o espírito caindo em misericordioso aturdimento. A tudo isso escapara, mais forte na fé e na razão, mas o horror à prisão solitária ficaria nele até morrer. Kamenev cumprira a sua promessa: 'Você nunca mais me esquecerá. Onde quer que vá, eu estarei sempre a seu lado. Não importa o que possa vir a ser, ter-me-á como parte do que for'. Mesmo aqui, nos confins neutrais da Cidade do Vaticano, naquela câmara principesca, sob os afrescos de Rafael, Kamenev, o insidioso torturador, estava presente a seu lado. Só uma forma havia de lhe fugir, a que aprendera no segredo do cárcere: a entrega total do seu espírito atormentado nos braços do Todo-Poderoso." (p. 23)

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Marxistas, nacionalistas e democratas e a imortalidade:

"Por toda parte ecoa o grito da sobrevivência, mas, visto que a morte de todo homem é inevitável, a suprema ironia da Criação, os que procuram o domínio do seu espírito ou dos seus músculos têm de prometer-lhe uma extensão da sua própria vida, que se assemelha à imortalidade. Os marxistas prometem uma união completa dos trabalhadores do mundo. Os nacionalistas dão-lhe uma bandeira e uma fronteira, uma ampliação local de si próprio. Os democratas oferecem-lhe a liberdade, através de uma urna eleitoral, mas avisam-no que talvez tenha de morrer para salvaguardar essa liberdade." (p. 27)

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A necessidade do homem numa continuidade pós-morte:

"Os homens do Vaticano meditam, igualmente, sobre a imortalidade e a eternidade. Compreendem a necessidade que o homem tem de criar uma extensão de si próprio, para além do limite dos anos de vida terrena. Afirmam, como ponto de fé, a persistência da alma em união eterna com o seu Criador, ou de exílio da Sua Face. Vão ainda mais longe, prometendo ao homem a permanência da sua identidade e uma vitória final, malgrado o terror de uma morte física. Porém, o que não compreendem, muitas vezes, é que a imortalidade tem de começar a tempo; que o homem tem de gozar de recursos físicos para sobreviver antes que seu espírito seja capaz de ansiar por algo mais do que a sobrevivência física..." (p. 29)

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O trato com os mais velhos e poderosos deve ser diferente, deve ser calculado:

"Quando os homens são velhos e poderosos, têm de ser levados pela razão e pelo calculismo, porque a seiva do coração seca com a idade..." (p. 64)

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O homem não foi feito para viver só:

"Creio que deveria escrever estas coisas para os outros, porque a doença do espírito é um sintoma dos nossos tempos, e todos nós devemos tentar curar-nos uns aos outros. O homem não foi feito para viver só. O próprio Criador o afirmou. Somos todos membros de um mesmo corpo. A cura de um membro doente é função de todo o organismo..." (p. 93)

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Querer saber de tudo é um ato de orgulho... o mistério da cebola:

"... A vida é um mistério, mas a sua solução está fora de nós, não dentro. Não podemos descascar-nos como se fôssemos cebolas, esperando que, ao alcançar a última camada, descubramos como é feita uma cebola. No final, nada nos restaria. O mistério da cebola ainda não foi explicado porque, tal como o homem, é o resultado de um ato criativo eterno... Eu calço os sapatos de Deus, mas nada mais lhe posso dizer. Entende o que quero explicar? O que eu tenho de ensinar e propagar é um mistério! Quem pedir que lhe expliquemos a Criação, do começo ao fim, pede o impossível. Já alguma vez terá pensado que, ao pedir uma explicação para tudo, está cometendo um ato de orgulho? Nós somos criaturas limitadas... Como pode qualquer um de nós ter um saber infinito?..." (p. 108)

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West cita Brasil no romance como exemplo de país com ameaça comunista por causa da miséria em que o povo vive:

"... Aqui, no Brasil, deparamo-nos com uma imensa expansão industrial e, ao mesmo tempo, com uma enorme população de camponeses a viver na mais degradante pobreza. Para quem se voltam eles, em busca de um paladino para a sua causa? Para os comunistas. Não pregamos nós a justiça? Não deveríamos estar prontos a morrer por ela, tal como por qualquer outro artigo de fé? Pergunto-vos de novo: em que falhamos?" (p. 114)

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A vida cotidiana é uma rebelião contra o medo da morte:

"Contudo, a vida cotidiana de cada homem é uma série de pequenas rebeliões contra o medo da morte, ou de vitórias esporádicas na esperança do impossível." (p. 143)

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Uma dica para quem quer fazer um trabalho de base social:

"O Bom Pastor vai em busca das ovelhas perdidas e leva-as às costas para o redil. Não exige que venham de rastos, de cauda murcha e arrependida, com o cordão de penitente em torno do pescoço..." (p. 149)

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O livro tem momentos que nos fazem pensar sobre várias coisas. É um bom romance. Mais de meio século após seu lançamento, vale a pena a leitura desta ficção de Morris West.

William


Bibliografia:

WEST, Morris. As sandálias do Pescador. Círculo do Livro S.A., São Paulo.

terça-feira, 5 de maio de 2020

050520 (d.C.) - Diário e reflexões


Como se dizia nas gírias: - tá embaçado, meu!

Madrugada de terça-feira, 5 de maio de 2020, pós novo coronavírus. Osasco, São Paulo, Brasil. América do Sul, planeta Terra.

Dias atrás, assisti a um desses filmes apocalípticos por insistência de minha esposa. Ela havia visto o filme numa madrugada dessas e ficou chocada e pensativa; depois, pediu-me que o visse também. Ela ficou pensando se gostaria ou não de seguir vivendo naquela condição. Pensou no que a mulher fez no filme. 

Eu também refleti a respeito do cenário hipotético do filme e, pessoalmente, avalio que não veria muito sentido em continuar o esforço por viver naquele mundo mais um dia, mais um dia, sem perspectivas reais de algo diferente. O que me levaria a continuar lutando pela vida seria a vida de outra pessoa. No filme, o pai está com o filho garoto e isso é o que o faz seguir lutando pela vida deles. O filme se chama A estrada (2009), dirigido por John Hillcoat.

Não citei o filme para ficar filosofando sobre ele não. Me lembrei do contexto do filme, uma ficção, pela falta de perspectivas. Sei que o cenário apocalíptico do filme é muito mais dramático que a nossa realidade. Mesmo assim, a nossa realidade tem nos deprimido e nos levado a perder a esperança nos seres humanos e num futuro melhor. Tá difícil para nós brasileiros que não fomos contaminados pela pandemia do bolsonarismo ou até pela cegueira branca do morismo (Quem não se lembra de Saramago e o seu Ensaio?). Tá difícil! 

Já estava difícil respirar, viver, sobreviver, conviver coletivamente com os contaminados pelo vírus do ódio inoculado no povo do país jabuticaba para que ele passasse a ser cego e contra a política, contra a solidariedade, contra a distribuição de riquezas, contra a oportunidade para todos, contra a educação e saúde pública; estava difícil ver tanta cegueira num povo que viu a vida melhorar por mais de uma década e jogou tudo isso fora em troca da destruição do país e em benefício de meia dúzia de bilionários e seus ideólogos manipuladores.

Aí para piorar apareceu essa merda de vírus Covid-19 no início do ano. A vida que já estava ruim em termos de perspectivas de futuro (a boa e velha esperança), mesmo estando o presente comprometido com o caos e a destruição, ficou pior, bem pior. Agora, além de ter que conviver diariamente com a violência bárbara e ignóbil do bolsonarismo em todas as instâncias da vida social, ainda temos a falta de perspectiva de um viver melhor amanhã por causa das incertezas da vida pela pandemia sem data de acabar.

É um saco tudo isso! Por mais que eu não queira morrer nem me deixar matar, tá foda! A gente toma todo o cuidado que recomendam de ficar em isolamento social, quarentena, higienização de tudo, só sair o necessário para adquirir as coisas de necessidades básicas etc. Estou muito infeliz com tudo isso. Muita gente está. Muita gente já estava muito infeliz com a tomada de consciência de que as pessoas ao nosso redor são aquilo que descobrimos serem, gado fanático do sujeito demente, manipulador, machista, racista e adorador de violência e tortura.

Eu não dei certo com essa merda de ter que colocar máscara na cara para ter o direito de sair de casa para fazer as minhas necessidades básicas de comprar alimentos e materiais pra casa e para correr, porque minha pressão arterial voltou a ficar alta depois de uns 4 anos estável. E sei que é pelo estresse, pela tristeza, por toda a merda que não é possível esconder da realidade que nos cerca. Se eu não corro, vai dar merda comigo, meu corpo vai colapsar. Agora, as autoridades de meu Estado definiram mais uma medida preventiva por causa do vírus, se eu quiser sair na rua daqui a dois dias, terei que usar máscara. A gente tem que obedecer... mas a vontade de sair vai ser zero.

Eu não tenho jeito pra tuaregue. Não gostaria de ser uma mulher obrigada a usar burca em países islâmicos. Nunca pensei em ser ou participar de qualquer grupamento social que usasse máscaras... E ainda tem gente cheia de blá blá blá falando que "é legal usar máscara". Legal o c... Eu uso óculos e essas merdas de máscaras embaçam tudo. Como correr assim? Como o vírus vai apavorar por muito tempo ainda, a vida que já está chata vai ficar mais chata ainda. Eu sei que temos pessoas por quem viver, mas tá um saco!

Não levo jeito pra tuaregue, pra gente mascarada! Tô muito infeliz com tudo isso. Bolsonarismo, Covid-19, extermínio dos povos indígenas, reação pífia daquilo que achávamos que eram as esquerdas, o personalismo e estrelismo das lideranças dos movimentos sociais (que racham grupos cada vez que alguém pensa diferente), a pusilanimidade de todos nós em querer enfrentar com flores e diálogo os monstros que querem nos matar, exterminar, vaporizar... Tô infeliz, confesso. Sem perspectivas.

- Tá embaçado!

(E eu nem falei o que tenho pensado ao ler Yuval Harari e seu magnífico Sapiens, de 2014)

William

domingo, 3 de maio de 2020

Lendo Decamerão (1353), de Giovanni Boccaccio




Refeição Cultural

"Pelo que eu entendo, a gratidão deve ser incluída entre as virtudes; e lamentada a ingratidão. Para não ser ingrato, a mim mesmo propus, agora que posso considerar-me livre, o trabalho de ofertar algum consolo, na medida de minhas possibilidades, em troca do que eu recebi. Se não o presto aos que me auxiliaram e que, por sorte deles, ou por seu bom senso, ou sua boa fortuna, não necessitam dele, pelo menos presto-o àqueles aos quais possa ter valor. Não obstante seja muito ínfimo o alívio, ou o conforto, ou seja lá o que for, aos que necessitam disso, mesmo assim me parece que ele deve ser ofertado àqueles cuja necessidade é maior, ou porque mais bem lhes fará, ou porque, desse modo, mais carinhosamente será entendido." (BOCCACCIO, Decamerão, p. 12)


Uma das coisas que a leitura do Decamerão mais nos faz pensar é como deve ter sido escandaloso o impacto da obra em seu tempo, em seu contexto. As estórias são repletas de sexo, traição e críticas severas aos religiosos. 

Outra faceta do livro que nos chama a atenção é a condição das mulheres, tratadas da pior forma possível em relação aos direitos mais básicos dos seres humanos, e que poderíamos dizer que a condição de ontem segue sendo a condição de hoje, séculos depois. Os homens e as sociedades consideram as mulheres menores, inferiores, às vezes são meros objetos de posse como os demais bens materiais.

"Assim sendo, para que se corrija, para mim, o pecado da Sorte, pretendo narrar cem novelas, ou fábulas, ou parábolas, ou histórias, sejam lá o que forem. A Sorte mostrou-se menos propícia, como vemos, para as frágeis mulheres, e mais avara lhes foi de amparo..." (BOCCACCIO, Decamerão, p.13)

Também nos surpreende sempre o fato de obras da antiguidade terem chegado aos nossos tempos, de uma forma ou de outra. E sabemos que as traduções são verdadeiros problemas porque além de difíceis tarefas a qualquer época, elas podem desfigurar completamente os textos originais - não só para pior, às vezes tradutores até "melhoram" os textos (uma brincadeira que ouvia de professores ao dizerem que alguns originais são tão ruins que só eram viáveis em certas traduções).

Inventei de ler o Decamerão por estarmos vivendo em 2020 um cenário parecido com o cenário de fundo da obra: enfrentamos uma pandemia mundial (vírus Covid-19) como os europeus enfrentaram a Peste em meados do século XIV. Giovanni Boccaccio sobreviveu à pandemia e nos legou um grosso volume de estórias que nos deixam perplexos ao pensar como ele conseguiu fazê-las nas condições em que os sobreviventes se encontravam. É espantoso!

Na atualidade, o mundo parou devido à pandemia do novo coronavírus. Neste momento em que escrevo, já são mais de 3,45 milhões de pessoas infectadas pela Covid-19, sendo mais de 244 mil vítimas fatais. Alguns países vivem cenários semelhantes ao descrito por Boccaccio no início do livro: mortes rápidas e repentinas de várias pessoas, sem atendimento médico, morrem em casa, e se veem nas cidades do mundo corpos amontoados sem condições de velórios e enterros decentes.

Me propus a ler uma novela por dia. Hoje li a 32ª novela ou estória. Estou no início da 4ª jornada das narrativas. Nesta rodada de estórias, as sete moças e os três rapazes devem contar casos de amor com finais tristes, trágicos. A jornada anterior era o inverso, estórias de pessoas que conseguiam o que tanto queriam.

A leitura não é difícil, não é leitura engajada, é leitura de descontração. Algumas narrativas são fraquinhas, outras são mais elaboradas e interessantes.

Uma das coisas que mudaram em relação ao aparecimento desse vírus é que a pandemia e as suas consequências nos colocaram um pouco mais cientes de que somos mortais, somos reles mortais, somos frágeis demais. Hoje estou aqui escrevendo, amanhã tenho tosse, febre e falta de ar, daqui três ou quatro dias estou morto. Acabou! Simples assim.

Nós já éramos esses reles mortais, mas nossa empáfia, nossa arrogância de nos considerarmos os reis e rainhas da natureza animal não nos permite sequer lembrarmos que somos reles mortais. E que se não somos iguais e não estamos no mesmo barco (em relação aos direitos civis, políticos e sociais), estamos ao menos no mesmo oceano, como ouvi dizer o youtuber Henry Bugalho.

O livro é leve, apesar de gigante. Para aqueles que estiverem procurando passatempo através da cultura, vale a pena. Como li certa vez em textos teóricos no curso de Letras da USP, é melhor ler do que não ler os clássicos.

Abraços aos poucos leitores amig@s que virem esta postagem. As demais postagens neste blog sobre a obra em questão podem ser lidas aqui, em ordem cronológica inversa, da mais recente para a mais antiga.

William
Um leitor

Bibliografia:

BOCCACCIO, Giovanni. Decamerão. Imortais da Literatura Universal, Nova Cultural, São Paulo, 1996.


Post Scriptum: mais 2,5 mil mortos pela pandemia

Mortes por Covid-19: quando comecei a fazer este texto, por volta de meio-dia, o número de mortos no mundo pelo novo coronavírus era de cerca de 244 mil vítimas. Ao finalizar o texto agora (18h30), olhei novamente o site da Johns Hopkins University (ver aqui) e, acreditem, morreram mais 2,5 mil pessoas enquanto escrevi este texto. Entendem o que estamos vivendo? Não é uma "gripezinha" como disse o animal que colocaram no governo do país jabuticaba.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Lembranças - Capítulo 3



1º de Maio no Vale do Anhangabaú em 2019.

1º DE MAIO

Hoje é 1º de Maio de 2020, um dos dias mais importantes da classe trabalhadora mundial em relação ao calendário anual. Um dia de reflexões, de balanços, de lutas. Um dia de revigorar as utopias que movem os seres humanos que desejam um mundo mais justo e solidário, igualitário, sustentável, democrático e que tenha a paz mundial como um dos objetivos a serem alcançados. Não haverá evento presencial com trabalhadores e suas lideranças. Estamos enfrentando uma pandemia mundial de Covid-19 e a morte espreita por aí. A recomendação é isolamento social e quarentena.

O cenário brasileiro e mundial neste 1º de Maio é um dos mais adversos da história da classe trabalhadora em décadas de organização e lutas por um mundo com mais oportunidades para todos e com melhor distribuição da riqueza produzida pelos trabalhadores. O mundo do trabalho já enfrentava dificuldades desde a crise do subprime em 2007 quando os Estados nacionais deram trilhões de dinheiros para banqueiros e empresários e vinténs para milhões de pessoas que viviam de suas forças de trabalho. Aí veio a pandemia do novo coronavírus em 2020 e desgraçou de vez as condições de vida dos povos pelo mundo.

O Brasil e o povo brasileiro tiveram datas de 1º de Maio memoráveis durante os anos iniciais do século 21 (entre 2003 e 2015), anos em que o Partido dos Trabalhadores esteve na Presidência da República na data em questão, com Luiz Inácio Lula da Silva e com Dilma Rousseff. Só para lembrar: aumentos reais consecutivos do Salário Mínimo e dos salários das categorias profissionais, ampliação de direitos trabalhistas e de oportunidades de ascensão social através do financiamento público da educação em todos os níveis e criação de aproximadamente 15 milhões de empregos com carteira assinada. A taxa de desemprego em dezembro de 2014 foi de 4,3% (IBGE), um feito histórico.

Em 2016 veio o Golpe de Estado e a abertura da Caixa de Pandora. Sai de cena governos democráticos e populares com identificação histórica com as classes populares e ao iniciarmos um período de exceção (que gente vil e incautos seguiram chamando de "democracia") entram em cena no comando das instituições do país todas as espécies de gente que não presta - mafiosos, corruptos de colarinho branco, milicianos, estelionatários, manipuladores da fé, uma horda de gente violenta e sem cultura, bárbaros de toda espécie. Um dos organizadores do Golpe assume o governo e começam as reformas que viriam a destruir os direitos dos trabalhadores brasileiros. O coroamento da desgraça toda viria com as eleições fraudulentas de 2018, que nos colocou na situação em que estamos neste 1º de Maio.

Enfim, esses registros de lembranças que comecei a fazer após conhecer há pouco tempo um livro muito interessante de Margo Glantz - Yo también me acuerdo (2014) - não são para escrever sobre a história do Brasil nem da classe trabalhadora brasileira, eu não teria saco para isso nesta altura de minha vida, mesmo que tivesse competência para tal. São para registrar momentos que vivi enquanto cidadão ao longo das últimas décadas. Todos fazemos parte da história porque a história se desenvolve através do cotidiano das gentes. Nada nada fui dirigente eleito por 16 anos de uma das categorias profissionais mais organizadas do país, os bancários. Fiz parte da organização de greves importantes do movimento estudantil como a da FFLCH-USP em 2002. E vivi muitos 1º de Maio, inclusive os debates organizativos do mês que antecedia à organização dos eventos.

Me deu vontade de registrar algumas lembranças que vivi nesta data tão importante para a classe trabalhadora. Não tenho muito fôlego para escrever várias datas, mas algumas não custa tentar.

DIAS D@S TRABALHADORES

2006

ME LEMBRO que em 2006 eu assumi novos desafios no movimento sindical brasileiro. Os bancários decidiram ampliar o escopo de representação da estrutura sindical da categoria para fazer frente às novas formas de exploração por parte dos patrões do setor, os banqueiros. Eles já vinham se organizando em holdings e corporações e ao longo de anos foram retirando os trabalhadores da cobertura da Convenção Coletiva de Trabalho dos bancários (CCT/CUT). Criamos a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) e seu primeiro Congresso foi em abril de 2006. Tive a honra e o privilégio de fazer parte dessa história e fui eleito secretário de comunicação da entidade. A experiência seria engrandecedora para mim e por 9 anos (3 gestões) fiz parte da organização nacional dos bancários. O 1º de Maio de 2006 foi na Av. Paulista, com mais de 1 milhão de participantes. Os eixos temáticos eram: fortalecer a democracia, mais e melhores empregos, renda e ampliação de direitos.

Me LEMBRO que o desafio das comunicações me levou a pensar diversas estratégias para aprofundar meus conhecimentos na área. Eu passei a participar de diversos fóruns sobre comunicações, imprensa, jornalismo, mídia etc. Participei do Movimento dos Sem Mídia. Li livros sobre o tema e me aproximei muito do dia a dia da CUT Nacional, sem descuidar do que aprendi com meus companheiros do coletivo do Banco do Brasil no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região: nunca perder o contato com a base, tanto os locais de trabalho quanto o seu sindicato de origem. Participava de todas as reuniões da direção do Sindicato e fazia visita às agências e departamentos do BB - era bom sindicalizador, levava bancários para cursos de formação, para assembleias de base e escrevia muito, muito.

ME LEMBRO que tive o privilégio de atuar na secretaria de comunicação com profissionais da mais alta competência, grandes jornalistas e militantes das comunicações e das causas populares. Até definirmos o modelo de gestão na secretaria da Confederação, aprendi muito tanto com o pessoal da Fórum, sob a liderança do Renato Rovai, quanto sob a liderança do Coelho, amigo de décadas, em outra etapa da secretaria. No mandato seguinte, quando fui para a área de formação, teria a oportunidade de ver na comunicação o brilhantismo do companheiro Ademir. Ou seja, imaginem vocês como fui um privilegiado pela oportunidade de compartilhar os aprendizados e experiências dessas figuras e suas equipes de trabalho.

2007

ME LEMBRO que o ano de 2007 foi um ano intenso para nós do Banco do Brasil. Tivemos mobilizações do movimento e negociações com a Caixa de Assistência dos Funcionários, a Cassi. No dia 9 de abril daquele ano, a Contraf-CUT enviou ofício ao Banco questionando diversas retiradas de direitos dos associados por parte do CD da Cassi (veja reprodução do teor do ofício aqui) e a pressão do movimento sindical fez o Banco e a direção da Cassi voltarem atrás. Ainda sobre a Cassi, participei da Conferência de Saúde da Cassi SP na AABB, no sábado 14 de abril. Neste ano, eu fazia a posse de funcionário novos do BB na Gepes para apresentar o Sindicato a eles e sindicalizava muitos bancários no 1º dia de trabalho. Eu era responsável também pela confecção da revista nacional O Espelho, dedicada aos temas do funcionalismo do Banco do Brasil. Olhando o registro de prestação de contas que eu fazia no blog A Categoria Bancária (mês de abril/2007: ver aqui) percebi que passei vários dias do mês estudando a história de lutas no Banco do Brasil para escrever tese e ou projeto para o BB e os trabalhadores. Nessa época, eu já escrevia bastante para o movimento sindical. O 1º de Maio tinha como um de seus temas o veto do Presidente Lula à Emenda 3, que atacava diversos direitos trabalhistas como férias, 13º salário, FGTS etc. Eu não fui aos atos porque estava terminando os textos sobre o Banco do Brasil.

2008

ME LEMBRO que neste ano tivemos eleições no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região. Como dirigente da Executiva da Contraf-CUT e do Sindicato, eu já me dividia entre as atividades das duas entidades. Minhas jornadas eram longas, quando ia para a secretaria à tarde é porque já havia estudado a manhã toda ou participado de eventos do Sindicato. Ao rememorar o meu mês de abril de 2008, consultando o blog (mês de abril/2008: ver aqui) percebi que fiz reuniões com os trabalhadores na base ao longo do mês, além das atividades de estudos e construção de conteúdo nacional para os sindicatos filiados à Confederação. O 1º de Maio desse ano tinha como temas centrais a redução da jornada de trabalho sem redução de salários e a luta pela ratificação das Convenções 151 e 158 da OIT. Os trabalhadores brasileiros tinham uma pauta de avanços nos direitos e não de redução como passou a ser após o Golpe de 2016. 

2009

ME LEMBRO que nesse ano meus desafios no movimento sindical se ampliaram, porque tivemos o 2º Congresso da Contraf-CUT em abril e fui eleito secretário de formação. Ali se iniciava uma das etapas mais produtivas e prazerosas que vivi no movimento sindical, ao lado de valios@s companheir@s do Dieese e de sindicatos de todo o país. Olhando o mês de abril, que antecede o 1º de Maio, vi através do blog uma agenda cheia e produtiva (mês de abril/2009: ver aqui). Realizamos o 20º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil em Brasília (DF); eu fiz um artigo de contribuição aos debates naquela semana. (ler aqui). O papel do BB e as incorporações era um dos eixos temáticos. Meu artigo fala sobre remuneração e condições de trabalho e estratégias de luta. Fiz outro artigo sobre comunicação e formação (ler aqui). O 1º de Maio teve como tema "1º de Maio de luta - Pelo Desenvolvimento com Trabalho, Renda e Direitos" e os eventos foram descentralizados e sem o patrocínio de grandes empresas. O mundo vivia a crise do subprime e nós defendíamos que não eram os trabalhadores que tinham que pagar pela crise. Eu participei das atividades da CUT na Cidade Dutra, zona Sul de São Paulo. Participei também no domingo dia 3 da II Etapa do Circuito Osasco de Corrida de Rua - I Desafio dos Trabalhadores (corri 8k). O nosso Sindicato ajudou a promover a prova e incluiu centenas de bancários no evento. Eu era uma das pessoas voluntárias no Sindicato a sugerir ideias de atividades culturais, de esporte e saúde para aproximar os bancários do dia a dia do Sindicato e apostamos em algumas parcerias em corridas de ruas. Foi um sucesso a iniciativa.

APENAS LEMBRANÇAS E REGISTROS

Passei algumas horas de ontem, 30 de abril, até agora, tarde de 1º de Maio de 2020, Dia dos trabalhadores e trabalhadoras, relembrando dias de lutas, dias de vida. Mas vou parar, por enquanto. Para uma postagem, já está bom. 

Como representante eleito da classe trabalhadora, busquei ao longo de quase duas décadas criar estratégias de politização, formação e informação de meus pares. Os dois blogs que criei tinham esse objetivo. 

O auge dos blogs foi atingido durante o mandato que exerci na Cassi. Naquele momento, cada postagem tinha centenas ou milhares de acessos. Ali eu atingi o objetivo de criar leitores e manter uma relação fiel com eles. Agora isso passou.

Na atualidade, se eu mando o texto produzido por mim para dezenas de pessoas de meu contato ou compartilho em um monte de grupos de Facebook ou WhatsApp, acabo conseguindo que algumas pessoas leiam o texto, chegando a algumas dezenas de acessos. Se eu não divulgo o texto dessa forma, não tem quem os leia. Tenho pensado em não mandar mais pra ninguém. O dia que mando ainda é porque a vaidade falou mais alto.

Palavras, palavras, palavras. Na realidade o que temos aqui no blog é um amontoado de palavras, que tentam contar histórias de luta, reflexões e alguns desabafos, às vezes.

Abraços aos leitores e viva a classe trabalhadora!

William


Post Scriptum:

Para aquel@s que tiverem a curiosidade de ler os outros dois capítulos dessas lembranças, aqui estão os links. Clique aqui para o 1º texto e aqui para o 2º.

 
Fontes de informações:

Blog Categoria Bancária: http://categoriabancaria.blogspot.com/

Cedoc da CUT: http://cedoc.cut.org.br/cronologia-das-lutas

CUT: https://www.cut.org.br/noticias/rumo-ao-1-de-maio-ab21