terça-feira, 13 de junho de 2023

Os miseráveis - Victor Hugo (3)



Refeição Cultural

Osasco, 13 de junho de 2023. Terça-feira fria e nublada.


"Guiados por uma espécie de afetuoso instinto, entre os nomes e apelidos do bispo que, como era costume, apareciam no princípio das pastorais e circulares, os pobres da terra escolheram aquele que lhes oferecia um sentido. Assim, só o chamavam de Monsenhor Bienvenu..." (p. 48)


PRIMEIRA PARTE - FANTINE

LIVRO I: UM JUSTO

II. O senhor Myriel torna-se Monsenhor Bienvenu

Ao chegar a sua paróquia, o senhor Myriel viu que a igreja onde estaria com sua irmã e criada era muito maior que o hospital local, ao lado da igreja, e decidiu mudar-se para o lugar menor, mandando deslocar os doentes para a igreja secular com grandes salões.

Ao lermos as anotações das despesas de Myriel, cujo salário de bispo de 15 mil francos é pago pelo Estado, vemos que ele é todo distribuído em benefício de pobres, presos por dívidas, apoios caridosos diversos etc. Somente mil francos é destinado a despesas pessoais.

O senhor Myriel estabeleceu em sua rotina arrecadar ofertas de dinheiro e distribuir tudo que arrecadava entre os mais necessitados da paróquia. 

"(...) Como, de ordinário, há sempre mais miséria entre as camadas inferiores do que fraternidade entre as superiores, tudo era doado, por assim dizer, antes de ser recebido; era como água sobre uma terra seca; por mais que recebesse, o bispo nunca tinha dinheiro, e então despojava-se." (p. 48)

Vemos de início a descrição de um homem justo, é como Victor Hugo nos apresenta o personagem Myriel.

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COMENTÁRIO

Neste capítulo, vimos que o senhor Myriel é uma espécie de padre Júlio Lancellotti da atualidade, padre brasileiro pedagogo e presbítero da igreja católica, da paróquia de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, São Paulo. Uma pessoa de práticas caridosas e solidárias em relação aos pobres e necessitados.

O cenário de Os miseráveis é o cenário de uma sociedade do século 19 surgida após a implantação do regime capitalista, ambiente social resultante da Revolução Francesa, uma revolução burguesa. Os burgueses ascenderam ao poder do Estado, contudo, o povo em geral ficou na miséria na qual já vivia antes.

A São Paulo do padre Júlio Lancellotti tem 53 mil pessoas em situação de rua, sem um lar e sem a certeza de um prato de comida para matar a fome por algumas horas do dia. E as temperaturas nesta semana chegarão a 10º durante as noites de junho... e esses milhares de seres humanos estão nas ruas e praças e a todo momento a prefeitura manda retirar as barracas que eles ganham para se protegerem das intempéries.

RELIGIÃO E PODER

Os miseráveis... Por mais que tenhamos figuras louváveis e abnegadas como Lancellotti hoje e Myriel na França burguesa do século 19, é da natureza do capitalismo gerar milhões de miseráveis, miseráveis e miseráveis. Não temos lancellottis e myriels que deem conta... 

E sempre tem a religião misturada com o poder do capitalismo e do Estado burguês... sempre. E naturalmente sempre tem muitos miseráveis... os exércitos de mão de obra disponíveis... coisa boa pra economia, segundo alguns economistas canalhas ou cretinos.

E meus pares da classe trabalhadora talvez nem parem pra pensar a respeito da forma como o nosso país está organizado pelo capitalismo. E pelo poder das religiões mescladas ao capitalismo. Registro que não tenho nada contra a fé legítima das pessoas. Tenho bronca da manipulação da fé, isso tenho!

Vocês notaram que o salário do bispo de Digne, de 15 mil francos, é pago pelo Estado? Aqui no Brasil também temos a política e a religião imbricadas uma na outra. É uma mentira cabeluda dizerem que o Brasil é um país laico... fake news!

A Constituição Federal cidadã de 1988, com avanços importantes após as duas décadas de ditadura civil burguesa militar, registrou que o Brasil não seria um país laico, de cara, no preâmbulo, citando uma divindade de uma das religiões. País laico... piada, né!

A CF fala "promulgamos sob a proteção de Deus"... Imaginem se escolhessem outra divindade... sob a proteção de Alá, sob a proteção de Xangô, de Buda etc...

E as igrejas diversas recebem milhões de dinheiros do Estado brasileiro para fazer o que quiserem com essa riqueza do Brasil e dos brasileiros... na forma de isenções absurdas. 

O que sabemos de fato por ser público é que a riqueza acumulada pelas autoridades constitutivas dos templos da fé está toda na forma de propriedades, dinheiro na conta de bancos e muito dinheiro na conta de alguns humanos, isso sabemos.

Então, menos né! Menos! Não me falem em país laico.

SEM EMPREGOS PARA OS HUMANOS: SÓ O SOCIALISMO E OU COMUNISMO FARÃO DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA PRODUZIDA PELA HUMANIDADE

Os miseráveis seguirão existindo e aumentando porque a tendência de fim do emprego e dos trabalhos e serviços feitos por seres humanos é real, está aí.

E a tendência é da maioria das formas de trabalho ser feita por máquinas e isso vai gerar uma população cada dia mais miserável. Alguns estudos falam em desemprego da ordem de mais de 50% das pessoas.

Os humanos continuarão a produzir coisas que geram valor de uso e valor de venda (mercadorias), riquezas. Precisamos pôr fim ao modo de produção e apropriação capitalista. Distribuir a riqueza gerada pela produção humana a todas as pessoas é a solução para nossa continuidade na terra.

Temos que falar, refletir e atuar para criarmos uma população mundial educada e politizada, com consciência ambiental e social, e sedenta por salvar-se e ciente de que temos que pôr fim a essa merda do capitalismo e sua lógica individualista.

Os miseráveis de Victor Hugo, uma ficção pensada a partir de uma realidade social real de 160 anos atrás, me faz pensar muita coisa de nosso momento e realidade. É isso, por enquanto.

William


Post Scriptum: clique aqui para ler a postagem anterior sobre essa temática. A postagem seguinte da leitura do clássico pode ser lida aqui.


Bibliografia:

HUGO, Victor. Os miseráveis. Tradução de Regina Célia de Oliveira. Edição especial. São Paulo: Martin Claret, 2014.

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Os miseráveis - Victor Hugo (2)



Refeição Cultural

Osasco, 12 de junho de 2023. Segunda-feira. "Dia dos namorados" (para o comércio).


"Verdade ou não, o que se diz a respeito dos homens ocupa muitas vezes em sua vida, e sobretudo em seu destino, um lugar tão importante quanto aquilo que fazem." (Victor Hugo, Os miseráveis, p. 41)


PRIMEIRA PARTE - FANTINE

LIVRO I: UM JUSTO

I. O senhor Myriel

O romance começa nos apresentando o senhor Charles Myriel, um padre que se torna bispo de Digne por ter caído nas graças do imperador Napoleão por um simples elogio de passagem num encontro fortuito. Myriel foi tratado como um "simplório" e disse que o imperador era "um grande homem".

O senhor Myriel é bispo há 9 anos em Digne, o ano é 1815. Ele é viúvo e tem 75 anos de idade. Quase nada se sabe a respeito da vida anterior dele. Myriel vive com a irmã mais nova Baptistine e com a criada Magloire, ambas com 65 anos.

É interessante como as descrições físicas e subjetivas das personagens por parte do narrador e ou autor são marcantes em romances bem construídos. É interessante notar que algum tipo de marca social fica em qualquer produto feito pela mão humana, aqui, no caso, um texto de romance do século XIX.

Vejamos a descrição das três personagens apresentadas no início do romance: o senhor Myriel, a irmã Baptistine e depois a criada Magloire. Primeiro a irmã do bispo:

"Alta, magra, pálida, delicada e afável, a senhorita Baptistine era a mais completa expressão da palavra 'respeitável', posto que, para ser considerada venerável, parece necessário que uma mulher seja mãe. Nunca foi bonita; toda a sua vida, uma ininterrupta série de boas obras, acabou por inundá-la de uma espécie de alvura luminosa que lhe dava, ao envelhecer, aquilo que poderíamos chamar de beleza da bondade. O que na juventude fora magreza tornou-se na maturidade, uma transparência diáfana, que deixava entrever um anjo. Era mais uma alma que uma virgem. Sua pessoa parecia ser feita de sombra; corpo apenas suficiente para distinção do sexo; um pouco de matéria contendo uma chama; olhos grandes sempre baixos; um pretexto para que uma alma permaneça sobre a terra." (p. 43)

Interessante a descrição, não? E complexa na avaliação. Percebem as marcas da sociedade da época? Como são vistas as mulheres? E a classe social delas?

Vejamos a descrição da criada Magloire:

"A senhorita Magloire era uma velhinha clara, baixa e muito gorda, sempre atarefada, sempre arquejante, não só por causa de sua natural atividade, como também por causa de sua asma." (p. 43)

Ponto. É o que foi dito da senhora Magloire. As descrições feitas de irmã e criada do senhor bispo de Digne, o senhor Myriel, trazem marcas do tempo, mesmo sendo o escritor um Victor Hugo.

A caracterização do personagem central, o senhor Myriel, foi feita na descrição de sua vida pregressa, em duas páginas, ele foi filho de parlamentar antes da Revolução e fisicamente era:

"Apesar de casado, Charles Myriel, dizia-se, dera bastante o que falar. De muito boa aparência, embora de baixa estatura, era elegante, gracioso, espirituoso; toda a primeira parte de sua vida fora dedicada à sociedade e aos galanteios." (p. 41)

Nada mais se sabe dele, a não ser que quando voltou do exílio na Itália, onde ficou durante o período da Revolução, voltou como padre.

Literatura é uma delícia! Ler é algo central em nossa vida como sujeitos alfabetizados e em busca de novos saberes. Seguiremos lentamente na leitura dessa obra gigante e clássica da literatura mundial.

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COMENTÁRIO

"Verdade ou não, o que se diz a respeito dos homens ocupa muitas vezes em sua vida, e sobretudo em seu destino, um lugar tão importante quanto aquilo que fazem." (Victor Hugo, Os miseráveis, p. 41)


Ao ler essa reflexão em Os miseráveis, acabei pensando a respeito da atualidade dela nos dias que correm, a era das redes sociais que expandiram de forma inimaginável o diz que diz a respeito das pessoas e das coisas na sociedade humana. 

Antes da tecnologia das redes sociais, gastava-se um tempo no boca a boca para se divulgar uma mentira ou uma ilação sobre alguém. Vemos isso em clássicos como as peças dramáticas de Shakespeare ou nos textos claustrofóbicos de Kafka. Quem não conhece a famosa abertura de O processo

"Alguém devia ter contado mentiras a respeito de Joseph K., pois, não tendo feito nada de condenável, uma bela manhã foi preso..." (Franz Kafka, O processo, p. 5)

Hoje, em segundos, pode-se assassinar uma reputação sem que a vítima sequer saiba o que se diz sobre ela. Antes, as ferramentas tecnológicas de comunicação ao menos eram de conhecimento geral, públicas, como rádios, televisões, jornais e revistas. Agora não, as mentiras são espalhadas em milhões de disparos em redes pessoais. Só a pessoa vê.

Na campanha presidencial em 2018, o que se disse, por exemplo, sobre o Fernando Haddad, candidato do PT à Presidência, foi algo inimaginável. Até de estuprador e pedófilo ele era acusado nas redes de mentiras do submundo bolsonarista.

Enfim, a frase de Victor Hugo me deixou por alguns instantes pensando a respeito de eventual consequência sobre o que possa ter sido dito sobre alguém, algo que talvez suplante o que esse alguém fez na prática, na vida real. Se se disse algo de alguém, o alguém talvez nunca saiba...

Hoje, tem uma reunião no mundo sindical bancário sobre causas e efeitos do fechamento de unidades de atendimento à saúde - CliniCassi - da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil na região Norte do país.

Eu fui diretor eleito justamente da área responsável pelas unidades CliniCassi da autogestão em questão. Nosso mandato ficou marcado na história da Cassi como um mandato muito próximo às bases sociais, não tem como apagar ou negar isso.

Estudei profundamente a estrutura e o modelo de saúde da Cassi, as CliniCassi, a Estratégia de Saúde da Família, o modelo de custeio etc. Esclareci para a representação dos trabalhadores os motivos pelos quais as CliniCassi deveriam ser próprias, fortalecidas e ampliadas em todas as regiões do país.

Até o início de dezembro de 2021, eu era uma das pessoas mais consultadas em nossa comunidade dos bancários, principalmente do banco público BB, sobre as questões relativas à Cassi. De repente, do nada, fui cancelado. Talvez pelos motivos que Hugo ou Kafka abordam em seus universos ficcionais. Vai saber.

A Fetec-CUT CN, organizadora da reunião de hoje sobre fechamento de unidades CliniCassi no Norte, abrange bases sindicais dos Estados e capitais da região Norte e Centro-Oeste do país. Durante o nosso mandato, fiz agendas presenciais de gestão 42 vezes nesses Estados, fortalecendo a Cassi e o modelo assistencial nas bases. 

Tenho certeza de que jamais outro dirigente fará o mandato presencial nas bases como fiz. Aliás, quando passei a ser atacado pelo lado patronal, me boicotando internamente na autogestão, passei a pagar do bolso minhas idas às bases sociais para esclarecer e organizar os associados e seus representantes sobre questões técnicas de gestão de saúde e defender os direitos da comunidade.

Até hoje eu não sei se algo circulou a meu respeito ou se fiz algo que fizesse com que eu fosse cancelado por algumas representações do movimento sindical que ajudei a construir e fortalecer por um quarto de século. Sei que mantive a prática política como aprendi a fazê-la, expondo opiniões francas e honestas e construindo no debate as soluções.

Desejo boa reunião sobre a Cassi e os direitos em saúde dos bancários do BB para as entidades de representação dos trabalhadores. Fechar e terceirizar as unidades de atendimento próprio da Cassi em qualquer Estado, principalmente em Estados como os do Norte e Estados de pouca população assistida, é muito ruim para os participantes e para a autogestão em si. 

Às vezes, vemos na literatura cenas que nos fazem refletir sobre a vida real. Essa é uma das maravilhas da literatura e da leitura.

Vida que segue, como diz o jornalista e escritor Ricardo Kotscho.

Seguimos lendo Os miseráveis... esse clássico vai nos fazer lembrar de nossas misérias materiais e imateriais provavelmente todos os dias... a gente vive numa miséria danada neste mundo mundo vasto mundo.

William


Post Scriptum: a primeira postagem sobre Os miseráveis pode ser lida aqui. A postagem seguinte com comentários sobre a leitura em andamento, pode ser lida aqui.


Bibliografia:

HUGO, Victor. Os miseráveis. Tradução de Regina Célia de Oliveira. Edição especial. São Paulo: Martin Claret, 2014.

KAFKA, Franz. O processo. Tradução: Manoel Paulo Ferreira. Edição do Círculo do Livro.

domingo, 11 de junho de 2023

Leitura: A bíblia em crônicas livres - Roberto Buzzo



Refeição Cultural

Osasco, 11 de junho de 2023. Domingo.


Opinião

Ao saber da publicação do novo livro do Roberto Buzzo - A bíblia em crônicas livres (2023), soube na hora que viria coisa boa por aí. O cara é muito bom com as palavras, com os textos e com a forma de expor e narrar causos. Basta ler seus textos de olhares cotidianos - crônicas - em seu perfil de rede social para ver o quanto o escritor é bom. 

No finalzinho do livro, Buzzo nos conta que anda uns 10 Km por dia em São Paulo... demais isso! Bem característico de um andarilho e de um cronista dos bons.

O tema do livro é um tema bem delicado de se abordar - a bíblia -, por tudo que significam as religiões e as crenças ao longo da história de todas as sociedades humanas do passado e do presente. É foda falar sobre religiões e fé. E o Buzzo decidiu ler a bíblia inteira, o Antigo e o Novo Testamento, mais de 2.200 páginas, para nos contar de forma humorada passagens clássicas deste clássico dos clássicos.

Quando ele disse em sua rede social durante a pandemia que iria ler a bíblia assim como nós leitores e leitoras estávamos lendo livros e mais livros - eu li dezenas de obras durante a pandemia -, fiquei imaginando a empreitada ousada que o Buzzo iria fazer... me deu até vontade de incluir a bíblia entre os ulisses, moby dicks e os decamerãos da vida (rsrs). Mas não fui tão ousado assim.

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"Fico pensando. Como fazer esse povo incréu acreditar em Deus sem deixá-lo com medo? Aliás, isso é mais fácil do que chuchu na serra. Porque coisa mais fácil é amedrontar ignorante. E a nossa ignorância do mundo é incrível. Incrível de admirável, de notória. Assim como é notória nossa incredulidade." (from: "A BÍBLIA EM CRÔNICAS LIVRES" by: Roberto Buzzo)

Aliás, ousadia é a primeira impressão que temos ao pegar pra ler o livro do Buzzo. O cara é corajoso! Eu não sei se teria coragem de narrar com ironia e humor os textos sagrados como ele faz... não, não teria coragem. 

Se não teria coragem hoje que não acredito em religião alguma, imagina se teria coragem quando tinha muita fé e medo mortal dos pecados todos que nos freiam na religião... já estaria me persignando só de ter pensado nisso.

Neste mundo no qual vivemos hoje, em que não se sabe quase nada e não se separa mais ficção de realidade, que não se sabe mais o que é referência científica e histórica e o que não é, ficou difícil a vida de escritores em geral, já que a desinformação fez com que seja comum humanos de verdade acharem que é mentira que voamos até o espaço, que a Terra não é plana e que a gravidade nos segura nela quando estamos de "cabeça pra baixo" etc.

Eu fui muito religioso durante a metade de minha vida humana. Conhecia bastante a parte da bíblia mais usada na religião dos cristãos católicos apostólicos romanos: os Evangelhos, os Salmos, Atos dos Apóstolos, Cartas de São Paulo, e também conhecia o principal do Antigo Testamento, os livros do Pentateuco, por exemplo. 

Ainda sobre religiões e mitos da fé, li livros sobre Paulo de Tarso e Lucas - o médico, e um dos livros de ficção - que o autor jura não ser ficção - que mais me encantaram até hoje foram os livros da série Operação Cavalo de Tróia, do J. J. Benítez, li até o 4º volume. 

Enfim, chegando aos trinta anos de idade, as abstrações mentais e culturais que coordenam nossas vidas humanas foram mudando para mim. Outras referências de vida passaram a balizar minha caminhada pela existência. Cada pessoa tem seu tempo e seu percurso. Deixei de acreditar nesses mitos da religião e passei a ter outras abstrações humanas como balizadoras da vida e do mundo. 

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PASSAGENS

Exemplos de passagens de leitura que me fizeram refletir, rir, me incomodaram, me trouxeram memórias do passado etc.

"A primeira coisa que Iahweh fez foi apartar o povo para fazer seu proselitismo sossegado, levando-o para longe dos opositores, do outro lado do Mar Vermelho. Estacionou o rebanho aos pés de um vulcão, para ele ficar amedrontado e aderir com entusiasmo. Então, chamou Moisés lá em cima, só ele, que aquilo não era democracia direta, era teocracia representativa, Ele comandava Moisés, que falava para o povo." (from: "A BÍBLIA EM CRÔNICAS LIVRES", by: Roberto Buzzo)

Em várias passagens, Buzzo faz sua leitura do regime político envolvido na passagem bíblica: democracia, teocracia, ditadura, comunismo, socialismo, liberalismo etc.

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"Até que algum ou muitos gaiatos começaram a questionar: “que que adianta a gente observar direitinho todas as leis de deus se, só por causa de alguns infiéis, que ficam por aí adorando aos ídolos, todos nós nos fodemos?

Nessa passagem do capítulo "O pessimista" os judeus começam a perceber que esse negócio de socializar as consequências das merdas dos outros é uma roubada, que o melhor seria ser julgado individualmente por Iahweh...

Daí a conclusão:

"Foi, portanto, simples acabar com o pessimismo. Foi só trocar o socialismo pelo individualismo."

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"Um detalhe tardio. Gostoso. Fatal. Dalila era linda. Bem, isto não está na história, é dedução minha. É que acho que uma mulher com o nome de Dalila só pode ser linda.

Cara, ri muito nessa passagem! Fala sério!

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"Jesus, além de não ser bobo, era sagaz. Porque, às vezes, a gente não é bobo, mas também não é esperto, sabe como é? Quase todos somos assim, a gente não faz grandes besteiras, só pequenas… Jesus não fazia besteira nenhuma, aí que está a diferença. E, por isso, preencheu os 12 cargos com gente da sua laia, entenderam? (Tudo bem, Paulo tinha instrução e posição social, mas só entrou no partido depois que Jesus morreu. E, vai saber, pode ser que a Igreja resultou mais parecida com Paulo do que com Jesus).

Jesus foi o cara!

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"Acontece que Jesus, sentado à direita do Pai, lá de cima acompanhava a caravana e havia decidido levar Saulo para seu time. Ora, se tá cheio de palmeirense que, mediante um bom contrato, faz muitos gols pelo Corinthians, era possível fazer aquele craque jogar para Ele. Porque craque é craque, não importa a posição nem a agremiação.

Nos dois livros que li sobre Saulo de Tarso que se converteu em Paulo, o evangelista, pude perceber o quanto esse homem foi importante para a expansão do Cristianismo por todas as regiões da antiguidade.

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"Antioquia, então capital da Síria, província romana, às margens do rio Orontes, hoje é a moderna Antáquia, território da Turquia. Era a terceira cidade do Império Romano, depois de Roma e Alexandria. Situava-se no vértice norte do fundão do mar Mediterrâneo, enquanto Alexandria, no delta do Nilo, dominava o vértice sul.

Vejam a erudição e o cuidado com a geografia que o autor tem.

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"Tem fiel que todo domingo pinga na sacola de coleta uma reles nota de dois reais e aí, na hora da precisão, quer exigir. Dá dois reais por semana e, na hora do pedido, pensa como todo pequeno-burguês: “Tô pagando, tenho direito!” Claro que tem direito! Tem direito ao retorno equivalente a dois reais. Não, quatro reais. É que Deus sempre dá em dobro…"

Demais essa passagem! (rsrs)

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"Acontece que no território de Pedro só tinha judeu, enquanto no território de Paulo só tinha gentio. Na época, gentio era tudo que não fosse judeu. Até aí tudo bem, acho que Pedro – assim como Fidel Castro – não botava muita fé no estrangeiro, não estava muito interessado em implantar o comunismo no mundo inteiro e aquele arranjo de manter Paulo fora de Cuba foi bem providencial, aquele chato…

Olha aí a erudição do homem! Conhece a história de Fidel Castro, a Revolução Cubana etc. A todo momento no livro, Buzzo faz diversas referências sobre os mais diversos assuntos do passado e do presente. É de se admirar!

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O PRAZER DA LEITURA

Já na leitura da primeira parte - Antigo Testamento - Buzzo me fez rir várias vezes. E assim se seguiu até o fim.

Amig@s leitores, isso não é uma tarefa fácil! Sou uma pessoa pouco humorada, e tenho um coração amargurado por viver no mundo no qual vivemos. Eu não consigo ser feliz em meio à miséria social que vivemos. Sou um ranzinza.

Mesmo sendo de pouco riso, o autor nos presenteia com uma forma de contar causos de personagens bíblicos de maneira engraçada e diferente daquilo que estamos acostumados.

Outra qualidade que salta aos olhos é a erudição do autor. Mesmo imaginando o quanto deve ter sido difícil a empreitada de ler 2.200 páginas da bíblia para escrever crônicas de algumas passagens, sem dúvida, a erudição do Buzzo deve ter tornado a tarefa mais palatável. Nós que ganhamos com isso.

Fecho a leitura com essa sacada do Buzzo em relação ao Pai e ao Filho, duas figuras centrais da Bíblia, Iahweh e Jesus Cristo. Sempre achei o Deus do Antigo Testamento uma divindade tensa, vingativa, de dar medo. Já Jesus, como não simpatizar com essa figura humana, parceira, compreensível, que transmite bondade e amor?

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"Pelo que vi até agora, o Pai era partidário dos ricos e poderosos, admirava as pessoas bem-sucedidas aqui na Terra e, se preciso, fazia até guerra para conquistar um pedaço de terra. Já o Filho gostava dos pobres e humildes, compreendia os fracassados e não gostava de violência. Se alguém lhe chutava a canela, ele só ficava olhando, com aquele olhar de tristeza. Preferia morrer a fazer uma guerra. Mas mandava Simão Pedro anotar todos os desaforos num caderninho, para cobrar lá na porta do Céu." (from: "A BÍBLIA EM CRÔNICAS LIVRES" by: Roberto Buzzo)

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É isso! É um livro para se abrir e ler trechos sempre que se desejar dar uma descontraída nas tensões vividas e tentar ver a vida de forma mais leve e engraçada.

Roberto Buzzo é um refinado cronista e contador de causos, para nossa sorte.

Este foi meu 15º livro lido no ano. Ler é fundamental para a manutenção e desenvolvimento de nosso cérebro e nossas capacidades humanas.

William


Bibliografia:

BUZZO, Roberto. A bíblia em crônicas livres. 1ª edição. São Paulo, 2023. Livro digital.


sábado, 10 de junho de 2023

Os miseráveis - Victor Hugo (1)



Refeição Cultural

Osasco, 10 de junho de 2023. Sábado.


"ENQUANTO, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século - a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância - não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis." (Victor Hugo, no prefácio de Os miseráveis)


Os miseráveis... os miseráveis. Só pela expressão já sabemos o quão atual e necessária é a temática ficcional e histórica abordada pelo escritor francês Victor Hugo. Os miseráveis...

Victor Hugo foi romancista, poeta, dramaturgo, desenhista, pintor e político. Victor Hugo registrou de forma ficcional nesta obra, em 1862, fatos históricos a respeito da sociedade humana sob a égide do regime capitalista.

Os miseráveis acabaram sendo o resultado da revolução burguesa ocorrida décadas antes na França. Dito de outra forma, a miséria da maioria esmagadora da população foi o resultado da revolução burguesa. Era pra ser outro o resultado da Revolução... era. 

Liberdade, Igualdade, Fraternidade... Os burgueses deram um jeito de transformar os lemas da Revolução Francesa em um só: Liberdade. Igualdade e Fraternidade viraram peças de propaganda e manipulação das massas. Até hoje é assim!

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COMENTÁRIO

Inicio a leitura da obra monumental de Victor Hugo, Os miseráveis. Não posso adiar mais a leitura desse clássico. O prefácio já diz tudo. Vivemos numa época de plena "proscrição social". 

Um século e meio depois da denúncia de Victor Hugo sobre os efeitos do capitalismo sobre a sociedade humana, o que temos no mundo é um número inimaginável de miseráveis, e com viés de aumento na tendência a termos cada dia mais miseráveis numa sociedade global capitalista falimentar.

Os miseráveis...

Serão meses de leitura, meses. Dessa vez não vou parar a leitura. Vou ler até o fim. 

Como diz Victor Hugo "enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis".

Finalizo este primeiro comentário sobre a leitura do livro com a reflexão de Jean Pierre Chauvin, na introdução da edição que vou ler.

"Dir-se-ia que esta obra pretende demover o leitor de seu confortável espaldar, sorvendo o seu café, ao abrigo das intempéries que acontecem nas ruas. O narrador está à beira de sugerir que se tome alguma atitude, com o fito de minorar as dificuldades enfrentadas por aqueles que não frequentam os mesmos ambientes que os próprios leitores, aliás."

Pois é! Meus conhecidos são bancários da ativa e aposentados, são professores, são profissionais liberais e gente da chamada classe média urbana brasileira. Pensando na observação de Chauvin, diria que meus contatos não se veriam na condição de miseráveis...

Eu me pergunto se é suficiente termos votado em Lula em outubro de 2022 e de termos ajudado a interromper o mandato formal do miliciano genocida. Isso foi o suficiente para a gente de minha classe social? Não deveríamos estar nas ruas, todas as semanas, defendendo as pautas pelas quais votamos em outubro de 2022? O Legislativo e o Judiciário não são nossos, são dos burgueses capitalistas. 

Estamos preparados para enfrentar a ofensiva deles para retomar o poder formal do Estado, o Executivo onde está Lula? Estamos preparados para enfrentar nossos inimigos de classe ou ao menos cientes de que a reação deles está em andamento? Era pra estarmos nas ruas em milhões de pessoas, todas as semanas... qualquer dia vem o golpe e não faremos nada... já vimos isso e não aprendemos.

Vou ler Os miseráveis de Hugo e temos que refletir sobre como lidar com o contexto atual do mundo no qual os miseráveis estão aí ao nosso redor, e não estão politizados, são facilmente manipuláveis, fechemos os olhos ou não para essa realidade.

William


Post Scriptum: aos leitores do blog que tiverem interesse, será possível ler os comentários sobre a minha leitura do clássico de Victor Hugo, a partir das postagens que farei. A cada postagem de leitura, deixarei ao final o link da postagem seguinte. A próxima pode ser lida aqui.


Bibliografia:

HUGO, Victor. Os miseráveis. Tradução de Regina Célia de Oliveira. Edição especial. São Paulo: Martin Claret, 2014.


sexta-feira, 9 de junho de 2023

52. A comédia dos erros - William Shakespeare



Refeição Cultural - Cem clássicos

Osasco, 09 de junho de 2023.


Meu conhecimento de Shakespeare se resume à leitura de quatro tragédias dele que já li em algum momento da vida: Romeu e Julieta (1592), Hamlet (1599), Otelo, o mouro de Veneza (1604) e MacBeth (1606). São peças extraordinárias! Nunca li uma comédia ou outra peça do escritor inglês.

Por não ter obras de Shakespeare em casa, acabei adquirindo por R$ 1,99 uma coletânea virtual com 27 peças teatrais do dramaturgo e poeta inglês. Como ando meio parado na leitura de obras clássicas, preciso retomar esse objetivo e, de vez em quando, intercalar um clássico entre os livros que estou lendo neste ano.

Para começar a série de peças de Shakespeare, li hoje a primeira da coletânea: A comédia dos erros (1591). Pelo que pude pesquisar, a peça é uma das primeiras feitas pelo escritor. Gostei da obra! Gostei! Ler Shakespeare é realmente uma leitura diferente do que estamos acostumados a ler.

Esta foi a 14ª obra que li neste ano. Se der, quero ler 18 até o fim do mês para ficar com uma média de 3 livros por mês.

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A COMÉDIA DOS ERROS

A peça tem 5 atos e tem como cenário a cidade de Éfeso. Siracusa é a outra cidade de referência da peça. Os personagens são originários dessas duas cidades inimigas.

O núcleo da peça envolve uma família que tem irmãos gêmeos e que se separam após um naufrágio. O destino vai se encarregar de colocar irmãos e demais personagens de seus entornos no mesmo lugar e época e a partir daí se darão os acontecimentos.

Os irmãos se chamam Antífolo de Éfeso e Antífolo de Siracusa e seus criados, gêmeos também, se chamam Drômio de Éfeso e Drômio de Siracusa.

Por que o velho mercador de Siracusa, Egeu, pai dos meninos separados pelo naufrágio, foi até Éfeso, sabendo que isso poderia lhe condenar à morte por serem inimigos os Estados e seus cidadãos serem proibidos de ir até o país uns dos outros?

"EGEU - Meu caçula, o mais velho nos cuidados, aos dezoito anos revelou desejo de procurar o irmão, tendo insistido junto de mim, para que seu criado - que, como ele, privado também fora de um irmão cujo nome ele levava - nas investigações o acompanhasse. Assim, porque sofria de saudades de meu filho perdido, pus em risco vir a perder o que ainda me restava. Cinco estios passei na extrema Grécia; vasculhei os confins da Ásia distante; e, ao costear, já de volta para a pátria, a Éfeso vim ter, sem esperança nenhuma, é certo, de poder achá-los, mas porque não deixasse inexplorado nenhum lugar capaz de abrigar homens...

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COMENTÁRIOS

A tradução da edição que tenho é boa, na minha opinião. Os textos estão numa linguagem de fácil leitura, temos frases rimadas e com bom ritmo e sonoridade.

Durante a leitura me lembrei do pobre Sancho Pança, que sempre passou maus bocados ao lado de seu cavaleiro e senhor Dom Quixote de La Mancha. Os criados de seus senhores, os irmãos Drômio, são espancados sem dó alguma... que merda isso!

Aliás, eles foram comprados já no nascimento para serem criados das crianças gêmeas nascidas, os irmãos Antífolo.

"Na mesma hora, na mesma hospedaria, uma mulher do povo de igual fardo se livrou, dando à luz dois filhos gêmeos também mui parecidos, que por serem de gente muito pobre eu comprei logo, para que a servir viessem meus dois filhos..."

A MULHER E O MACHISMO: "LUCIANA - A liberdade indócil é domada pela própria desgraça. Não há nada sob a vista do céu que não se mova num limite restrito, assim na terra como no ar e no mar. Todas as fêmeas dos animais, dos pássaros, dos peixes seguem ao macho e em tudo lhe obedecem. O homem, ser mais divino, senhor deles, dono do mundo todo, do mar vasto, que a superioridade do intelecto pôs acima de pássaros e peixes, da esposa é dono e mestre. Assim, alegre, com ele em tudo concordar te cumpre."

A peça seguiu os desfechos que conheço das tragédias que já havia lido de Shakespeare, as tensões vão aumentando e se cruzando até o clímax final. Eu me surpreendi com o final da estória. Gostei! Arrepiei!

É isso. Mais um clássico da literatura mundial.

William


Bibliografia:

SHAKESPEARE. William. As grandes obras. Capa, paginação e tradução: Mimética. Imagem da capa: John Taylor: retrato de Chandos (1610). Copyright: Mimética, 2019.


terça-feira, 6 de junho de 2023

Viagem a Cuba (VI)


Estación Central Ferrocarriles, La Habana.

Refeição Cultural - Cuba (XXIII)

Osasco, 06 de junho de 2023. Terça-feira.


Estivemos em Cuba por duas semanas, entre abril e maio, e o nosso grupo de oito pessoas do Brasil pôde conhecer um pouco da realidade da Ilha socialista durante a nossa estadia. Como ficamos hospedados em casas de cidadãos cubanos e andamos à vontade por lá, pudemos conversar bastante com as pessoas.

Ficamos 6 dias em Havana, depois viajamos pelo país, conhecendo as cidades de Trinidad, Santa Clara e Varadero e retornamos a Havana de onde partimos com novas experiências e sonhos. 

Termos ficado na Casa de Isabel foi um diferencial para nós porque além do acolhimento e apoio em tudo, tivemos o senhor Luis Caballero como guia. Ele é historiador e conhece muito sobre a Revolução. Ainda tivemos o suporte e apoio da professora brasileira Maria Leite, doutora e especialista da pedagogia em Cuba.

Estou refletindo sobre a nossa viagem em postagens abordando a nossa estadia de forma cronológica. Já fiz 5 postagens sobre os primeiros dias em Havana (ver aqui a 1ª delas). Sigo lendo e estudando a respeito da República Socialista de Cuba e também acompanho o que se passa em nosso país capitalista, a República Federativa do Brasil. 

Nesta postagem vou abordar um pouco o nosso dia 1º de maio em Havana, uma segunda-feira de feriado nacional, mas sem a manifestação do Dia dos Trabalhadores, transferida para a sexta-feira 5, devido à forte tempestade ocorrida na véspera do evento.

Ao final do texto, tecerei alguns comentários políticos sobre meu olhar a respeito de Cuba e do Brasil e seus sistemas políticos: poderíamos definir um e outro como ditadura e ou democracia como costuma-se fazer na grande imprensa comercial?

"Contra viento y marea", de la artista
camagüeyana Martha Petrona Jiménez.
Obra lançada na bienal de 2019, dos 500 anos.

FERIADO DO 1º DE MAIO EM HAVANA

Na segunda-feira, um dia bem quente e ensolarado, sem as fortes chuvas que assolaram Havana no domingo, nosso grupo se dividiu para os passeios. O pessoal decidiu ir para a praia em Havana, pegando um táxi logo cedo. Meu filho e eu decidimos andar por La Habana Vieja.

Saímos da Casa de Isabel, que está ao lado do Capitólio Nacional, e fomos no sentido da Estação de Trem que fica na região portuária de Havana, na baía interna que há na Ilha.

Atravessamos a Praça da Fraternidade e pegamos a Calle Factoria até a Estación Central de Ferrocarriles. Já temos ali o início do Malecón, grande estrutura de calçadão com uns 7 Km que circunda Havana com bela vista para o mar.


ESTACIÓN FERROCARRILES E CASA NATAL DE MARTÍ

Paramos uns minutos na pracinha da Estación Ferrocarriles Habana, onde ficam em exposição carros antigos de trens e muita gente sentada na praça, curtindo o feriado. Ao lado da praça, existe uma estrutura da época das Murallas que protegiam Havana, era um posto da guarda.


Pegamos a Av. de Bélgica e fomos até o Museo Casa Natal de José Martí. Como era feriado, não pudemos entrar nos pontos turísticos e históricos porque estavam fechados.


MURALLA DE LA HABANA

Ali na região da estação de trem, vimos uma estrutura conservada da antiga muralha de Havana - a Puerta de la Tenaza - e pudemos imaginar a grandeza da obra quando estava ali no século XVIII.

Achamos bem interessante o mapa em alto relevo demonstrando como era a Muralha na época que cercava e protegia Havana de possíveis piratas e ataques de outras metrópoles colonialistas.


Das muralhas e fortificações da época, ficaram várias estruturas preservadas, testemunhas da história de Cuba e do povo cubano. A cerimônia Cañonazo de las nueve (ver uma postagem a respeito aqui) é um exemplo cultural sobre a história da Ilha.


CENTRO CULTURAL SAN JOSÉ

Ao chegar à região portuária - el Paseo Marítimo Flotante de la Bahía de La Habana - onde se localiza o Centro Cultural Antiguos Almacenes San José, ou seja, mercado de artesanatos, seguimos caminhando pelo Malecón

No feriado o mercado de artesanato estava fechado, mas voltamos a ele outro dia e pudemos comprar alguma lembrança ali.

A região do porto está toda restaurada.

O conjunto arquitetônico ali foi todo restaurado e o lugar está muito bonito e aconchegante. La Alameda de Paula, por exemplo, na Avenida del Puerto, é repleta de bancos à sombra para se avistar o visual da baía, lugar muito agradável!

Passamos pela Sacra Catedral Ortodoxa Rusa e seguimos até a Plaza de San Francisco de Asis

Vale lembrar que em Cuba existe liberdade para cada pessoa professar a fé que quiser e pelo que pudemos apurar são mais de dez matrizes religiosas no país.

Castillo de la Real Fuerza de La Habana.

CASTILLO DE LA REAL FUERZA DE LA HABANA

Terminamos nossa caminhada por Havana Velha na região onde está o forte e museu em forma de estrela do século 16. Estrutura muito bem conservada como as demais que já citamos. 


Cuba trata com muita seriedade seu patrimônio histórico, material e imaterial. O historiador Eusebio Leal Spengler tem muita relação com essa concepção de preservação da história da Ilha.

Restaurante La Flor de Loto.
Bons preços, e tem fila de espera.

BARRIO CHINO DE LA HABANA

Fechamos o feriado indo comer em um restaurante chinês. 

Andamos cerca de um quilômetro ou pouco mais adentro do bairro chinês, lugar simples, sem estrutura urbana adequada, e que pode até assustar turistas como nós que convivemos com violência urbana nas cidades do Brasil. 

Olha aí nosso grupo!

No entanto, apesar das ruas e casas nos lembrarem as comunidades e favelas brasileiras, as pessoas estão brincando e conversando pelas ruas e os turistas caminham por ali sem problema algum.

LA HABANA VIEJA É LINDA

Demos uma bela caminhada no feriado do 1º de Maio por alguns pontos históricos de Havana Velha, lembrando que essa região é uma pequena região da capital de Cuba, a que mais se fala e visita, é uma pequena área de Havana, que é enorme. 

O pessoal curtiu praia em Havana.

Nosso grupo também aproveitou o dia na praia e só nos encontramos para sairmos para jantar à noite. Sim, Havana tem praia, pessoal, não é ali na parte antiga, mas tem.

La Habana Vieja é linda demais!

A cidade de Havana é bem grande e pouco conhecida dos turistas em geral. Normalmente se fala e se mostra muito de La Habana Vieja, que é maravilhosa!

Nos dois últimos dias de viagem, de volta à Havana, pudemos andar por outras áreas e vimos o quanto a Capital é grande e moderna, não à toa temos ali cerca de dois milhões de habitantes.

Fomos à finca onde viveu Hemingway, no Memorial da Denúncia e no bairro onde fica a Fusterlandia, que comento mais adiante em outra postagem.

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As cidades devem ser da classe trabalhadora.

REFLEXÃO: DEMOCRACIA E DITADURA...

Estou na região metropolitana de São Paulo, aqui vivem mais de 12 milhões de pessoas. Vivo num país capitalista. É aqui que ficam alguns dos grandes bilionários do Brasil. É aqui a tal "Faria Lima", nome associado aos banqueiros e rentistas que desgraçam o Brasil. 

É aqui que morreram 4 pessoas nas ruas nos últimos dias, provavelmente de frio, segundo as autoridades públicas e imprensa.

Na República Federativa do Brasil, temos um senhor que determina sozinho a taxa de juros de 13,75% que baliza a economia do país (selic), que paga papéis da dívida pública. O cara não foi eleito por ninguém, é um pau-mandato da casa-grande e dos latifundiários do "agro pop". Ele foi colocado lá por um homem que perdeu as eleições em 2022 e que está às voltas com acusações diversas na justiça. 

O presidente do país, Lula, eleito por 60 milhões de votos, está sofrendo um boicote descarado por parte desse sujeito do Banco Central, boicote para que seu governo não dê certo e a economia não volte a gerar emprego e renda para o povo. É um verdadeiro bloqueo aplicado ao governo brasileiro por parte de um homem do BC, um boicote diferente daquele que Cuba sofre por parte dos Estados Unidos há 6 décadas, mas um tipo de boicote dos capitalistas. É para inviabilizar o país e causar sofrimento ao povo.

Aí dizem que o Brasil é uma democracia. A imprensa da casa-grande não considera ditadura o que vivemos com a taxa de juros determinada por um homem não eleito e que destrói a economia de um país com 210 milhões de pessoas... até gente do meu lado da classe, a dos trabalhadores, acha que aqui vivemos numa democracia. 

O PARLAMENTO BRASILEIRO - Aí temos aqui um legislativo que foi composto nas eleições de 2022 por 513 deputados (poucas mulheres) e 81 senadores, sistema de duas casas - a que representa o povo e a que representa as unidades da federação. Aqui o voto é muito mais que censitário, na prática, pois só são eleitos candidatos com muito poder econômico, é só olhar as bancadas no Congresso.

Desde a eleição de Lula e o fim do mandato daquele genocida e miliciano que ocupava de forma questionável a Presidência da República tem vindo à tona todo o alfabeto de ilegalidades e crimes cometidos pela família de milicianos durante a gestão do líder deles e fraudes, muitas fraudes, durante o processo eleitoral. Digo eleição questionável porque a eleição de 2018 não foi legítima, sofreu intervenção para tirar o candidato que seria eleito e isso interferiu no processo.

O tal orçamento secreto, por exemplo, foi uma das bases do financiamento de campanha para a eleição da imensa, imensa, maioria dos 513 sujeitos que compuseram a Câmara que representaria "o povo". Os votos foram comprados... os bilhões e bilhões foram usados em milhares de municípios de forma "secreta" e é evidente que não temos um parlamento que represente o povo, esses 99% fora do escopo dos bilionários e milionários que compõem o 1% do país.

No Brasil são eleitores habilitados 156 milhões de pessoas. Não participaram do 1º turno 32 milhões de eleitores (21% não votaram).

MARCO TEMPORAL, GENOCÍDIO E DESTRUIÇÃO DOS BIOMAS BRASILEIROS - Nestes dias, aquele Parlamento canalha, vil, que não nos representa, votou às pressas uma lei claramente inconstitucional para colocar em exposição a Corte Suprema do país - que provavelmente julgará a lei ilegal - e expõe também o governo federal eleito, Lula, para criar no povo uma ideia de que o governo eleito está fazendo o contrário do que o povo elegeu.

Para finalizar a respeito da "democracia" brasileira, o atual presidente da Câmara, talvez não devesse sequer ter um mandato, porque concorreu sob liminar após ser condenado por corrupção em seu Estado. Se as Cortes de justiça usassem contra ele as mesmas réguas que usaram contra o cidadão Lula, ele jamais teria concorrido sob liminares. 

No entanto, ele concorreu e tem mandato e após comandar o "orçamento secreto" de bilhões de reais sem clareza no uso do recurso público, o cara chantageia o governo eleito de todas as formas possíveis e tudo parece normal. Não estamos em ditadura... sei!

O PARLAMENTO CUBANO - O povo cubano elegeu em março deste ano os 470 deputados e deputadas da Assembleia Nacional do Poder Popular. Participaram do processo democrático 6,1 milhões dos 8,1 milhões de eleitores possíveis (75,2%). 

Só para dar mais um exemplo de participação popular e democrática na República Socialista de Cuba, 90,15% do eleitorado participou da consulta sobre a atual Constituição do país, de 2019. Em Cuba, o voto não é obrigatório.

Eu vi em Havana muitas pessoas abordando os turistas e oferecendo tudo quanto é tipo de serviço e mercadoria local para complementar suas rendas: corridas de táxi, charutos cubanos etc. Pessoas pedem regalos (presentes) aos turistas. Pelo que nos explicaram, é que depois as pessoas vendem os regalos.

A cidade de Havana Velha é uma cidade em construção, em reforma e em espera de recursos para refazimento da estrutura física da cidade. O bloqueo de décadas deixou a economia da Ilha depauperada. 

Só um país e povo sob embargo sabe o efeito disso. É a bomba atômica atual, efeito mais eficaz que bala de canhão e metralhadora. A ideia é causar a miséria, a fome, o desespero do povo e com isso fazer o povo se revoltar contra seu governo e instituições e causar a ruptura. Bem democrático isso de impor embargo aos outros, né!

Enfim, pelo que pude apurar, os 11 milhões de cubanos têm ao menos uma cesta básica de mantimentos para não morrerem de fome. Se não há recurso econômico do governo, a cesta básica é pior; se há recurso, melhora pra todo mundo a composição da cesta. Como faltam moradias para todo mundo, muitas famílias vivem juntas nas estruturas que existem no momento.

NÃO há em Cuba mais de 30 mil pessoas nas ruas sem casa como em São Paulo, sem comida, sem assistência formal do governo. Não tem! Só tem essa multidão de humanos com fome aqui em São Paulo, no Brasil capitalista.

O QUE É MESMO DITADURA E DEMOCRACIA?

E depois vão dizer que definir o que é democracia e o que é ditadura não é uma questão de narrativa, narrativa bem parcial por sinal, como faz a "imprensa" monopolizada pelo poder econômico do capital e dos bilionários do mundo. É a pós-verdade, o poder de impor a verdade do mais poderoso. 

Para os capitalistas e parte das pessoas de minha classe social, a classe trabalhadora, democracia é o que temos nos Estados Unidos, no Brasil, no Haiti etc. Ditadura é o que temos em Cuba e na Venezuela etc.

Francamente, eu não compartilho dessas leituras de mundo como cidadão. No entanto, respeito a opinião de quem pensa diferente.

Para a leitura do texto anterior sobre esta série da viagem a Cuba, clicar aqui. Para ler o texto seguinte, clique aqui.

William


Post Scriptum: fica para o próximo texto, um comentário que quero fazer sobre as praças e parques em Cuba e em São Paulo e Brasil, e também a questão do novo Plano Diretor da Cidade de São Paulo, cujo interesse absoluto foi favorecer os capitalistas do concreto e aço e prejudicar a população paulistana, que vai perder o resto de praças, parques e áreas públicas que tinham... essa é uma diferença central entre a Havana do historiador Eusebio Leal Spengler e a preservação do patrimônio histórico e foco nas pessoas e a capitalista São Paulo da especulação imobiliária e expulsão das pessoas das áreas nobres da cidade.

Lembremos o que é privatização, é privar, é tirar o acesso de. Privatizar as áreas públicas e as coisas públicas é privar as pessoas do direito a elas. Tão básico e, no entanto, as pessoas não se atentam sequer ao significado da palavra: privatização = privar...



segunda-feira, 5 de junho de 2023

Diário e reflexões - Linguagem


Sancho Panza, La Habana, Cuba.

Refeição Cultural

Osasco, 05 de junho de 2023. Segunda-feira.


UM MUNDO ORAL: O FIM DA LINGUAGEM ESCRITA

"- Aquí encaja bien el refrán - dijo Sancho - de 'dime con quién andas: decirte he quién eres'. Ándase vuestra merced con encantados ayunos y vigilantes: mirad si es mucho que ni coma ni duerma mientras con ellos anduviere..." (Don Quijote de la Mancha, Alfaguara, 2004, p. 730)


Os idiomas com os quais tenho mais contato cotidiano são os idiomas Português, Espanhol, Inglês e Japonês. Português é a minha língua pátria, minha língua mãe. Espanhol estudei na graduação em Letras. Inglês a gente aprende um pouco por ser a língua do imperialismo que domina o mundo, a língua se impõe nos países dos outros. Japonês inventei de estudar e ora estudo ora largo (não sei nada, só umas coisinhas). Não sei com profundidade nenhum desses idiomas, nem a minha língua materna eu sei. Os que sabem línguas estão se tornando exceção e vão desaparecer, sem reposição...

Quando decidi ser aluno na Universidade de São Paulo, no início dos anos dois mil, escolhi prestar o vestibular para o curso de Letras. Entrei na FFLCH e estando na graduação, no ciclo básico do primeiro ano, mudei a intenção de fazer habilitação em Inglês para fazer habilitação em Espanhol. Havia tido contado com disciplinas em Língua Espanhola naquele primeiro ano e fiquei encantado com o idioma.

O mundo andou. O mundo mudou. Mudança é a certeza sempre, tudo muda. Hoje tenho uma teoria, por pura observação, de que a linguagem escrita pode desaparecer ou seu conhecimento voltar a ser um conhecimento de uma pequena parcela dos humanos, como nas eras iniciais dos textos escritos, saber restrito a escribas, "sábios", copiadores etc. Caminhamos para ter um grupo que usa o texto escrito para dominar uma maioria dominada sem dominar a língua. 

Com a predominância da comunicação humana por vídeo, áudio, imagens e memes em redes sociais e meios virtuais quem aprende minimamente a escrever, usar o símbolo linguístico, desaprende em seguida, assim que passa a se comunicar pelas outras formas. O cérebro humano é plástico e se adapta a tudo. Se os humanos não leem e não escrevem, essa habilidade deixa de existir. Lembro aqui que a escrita e os signos linguísticos são uma invenção humana, a escrita não é uma habilidade inata da comunicação como a fala.

Exceção, exceder, excesso, acesso, sucesso, sessão, seção, sucessão, "há" verbo e "a" preposição ou artigo, "afim" e "a fim" etc são palavras da língua portuguesa com sentidos e usos absolutamente diferentes. Se elas não são lidas ou escritas durante um processo de comunicação é evidente que o cérebro perderá a habilidade de usá-las, inclusive no sentido semântico, não só na questão de escrevê-las. Esse exemplo é uma amostra de um problema muito maior.

Comecemos a imaginar a dimensão do problema da perda da capacidade de uso da linguagem escrita. Há um evidente empobrecimento da linguagem humana em andamento. Além da questão central da alfabetização de milhões de crianças e adolescentes, temos o fato de até os alfabetizados estarem perdendo a habilidade que antes tinham, mesmo que minimamente. O treco é complicado, o fenômeno está aí na nossa frente e não me parece que algo possa ser feito para frear essa tendência.

Além dos analfabetos funcionais e analfabetos políticos, há uma tendência a nos tornarmos analfabetos na linguagem como éramos antes de aprender a escrever nas fases iniciais da vida.

Essa é uma leitura só minha ou mais pessoas têm percebido essa tendência de morte da linguagem escrita?

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AS REFERÊNCIAS DE HOJE SÃO "INFLUENCIADORES" ANALFABETOS FUNCIONAIS E POLÍTICOS

A língua de Camões, a língua de Shakespeare, a língua de Cervantes... essas figuras históricas são consideradas referências em suas línguas maternas, pessoas que escreveram muito e cujos textos se tornaram referência de uma linguagem culta, padrão, textos com organização sintática e semântica que poderiam balizar uma comunicação perfeita nas suas respectivas línguas.

O tempo de Camões, Shakespeare e Cervantes passou... E hoje, qual a referência para milhões de pessoas? 

Às vezes, tenho a impressão de que caminhamos para a linguagem predominante ser quase um grunhido, gritos e vociferações. 

As referências não mais de milhares, mas de milhões de seguidores, são pessoas que mal falam a língua básica de seu idioma. A referência na comunicação global tem sido vociferações, grunhidos, repetições de palavrões a cada frase dita por um youtuber ou "influenciador" qualquer de alguma mídia dessas. O mundo está se tornando um mundo dominado por "criadores de conteúdo" como esses aí das redes sociais. Nem estou abordando a questão do "conteúdo" em grande parte sem base na realidade, mentiras, invenções etc.

É essa a reflexão do momento, minha (in)digestão cultural!

William


Post Scriptum: o texto seguinte desta série sobre Linguagem pode ser lido aqui.


sábado, 3 de junho de 2023

Leitura: A Quinta-Coluna - Ernest Hemingway



Refeição Cultural

Osasco, 03 de junho de 2023. Sábado.


Citações do prefácio

"Todos os dias éramos bombardeados pelos canhões postados à retaguarda de Leganés, nos contrafortes das colinas de Garabitas, e o Hotel Flórida, onde vivíamos e trabalhávamos, foi atingido por mais de trinta e oito projéteis de grande poder explosivo. Por isso mesmo, se não gostarem da peça, posso botar a culpa nesse bombardeio infernal; se a acharem boa, direi que aqueles obuses de certa maneira me inspiraram a escrevê-la."

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"O título da peça tem a ver com a afirmação das forças insurretas de que havia quatro colunas militares avançando na direção de Madri, no outono de 1936, e uma quinta, integrada por simpatizantes, que já se encontrava na capital e atacaria seus defensores pela retaguarda."

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"As forças inimigas que avançavam sobre Madri não tinham o hábito de poupar seus prisioneiros. Da mesma forma, os membros da quinta-coluna que fossem apanhados dentro da cidade nas semanas iniciais da Guerra Civil eram também eliminados sumariamente..."

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Em suma: esta peça se ocupa apenas da contraespionagem em Madri, tem os defeitos de um texto escrito durante os tempos de luta e, se é que tem alguma moral da história, comprova ser impossível para alguém que pertença a determinadas organizações a manutenção de um mínimo de vida particular..."

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INTRODUÇÃO

Não estava em meus planos atuais ler uma obra de Hemingway por estes dias. Já li cinco livros dele. Acho seus textos espetaculares. No entanto, as veredas dos sertões nos levam por vários caminhos, abertos ou a serem abertos com o andar, já que não há caminhos, mas se faz caminhos ao andar...

Visita à finca de Hemingway (Cuba).

Fui a Cuba dias atrás. Experiência que ainda estou digerindo, por isso escrevo meus textos no Refeitório Cultural. Em Havana, no último dia, a última escala de visitas foi a finca onde viveu Ernest Hemingway. Conheci a residência do grande escritor Papa Hemingway... foi emocionante para mim.

Minha esposa me sugeriu assistir ao filme Papa Hemingway in Cuba (2016), desde que soube que eu iria a Cuba e por saber o quanto gosto da obra do escritor. Na internet estava muito ruim de ver o filme, qualidade péssima. Eis que numa madrugada dessa semana ele passou nos canais que assinamos. Foi muito interessante ver o filme gravado em Cuba, na própria finca de Hemingway.

O filme tem como pano de fundo a Cuba pré-revolucionária, retrata o escritor em Cuba entre os anos de 1956 e 1959, quando os jovens liderados por Fidel Castro enfrentam e derrotam a ditadura de Batista, mantida pelos Estados Unidos. O filme é dramático, vemos os últimos anos da vida de Hemingway, com sérios problemas de depressão e alcoolismo. É tocante e o drama de tudo isso nos envolve profundamente.

Foi inevitável olhar na estante e escolher algum volume dele para reler. A Quinta-Coluna (1938) foi uma peça escrita por Hemingway durante a Guerra Civil Espanhola, o escritor e jornalista estava em Madri e viveu os ataques dos fascistas apoiados por Hitler.

Tudo isso me faz pensar em tanta coisa, tanta coisa! Um turbilhão toma conta de minha consciência, do meu ser. Afloram sentimentos que amarguram minha pessoa faz muito tempo, a questão da depressão e alcoolismo em pessoas queridas, a questão do bloqueio genocida imposto pelo império ao povo cubano e muito mais...

A questão do nosso país que amamos e que sofreu em 2016 um golpe de Estado - uma revolução reacionária organizada pela casa-grande, uma quinta-coluna lesa-pátria -, e até hoje sofremos as consequências dessa tragédia porque não vivemos numa democracia, mesmo com Lula eleito presidente somos reféns de ditadores que ocupam o poder real nos legislativos e judiciários, além do 4º poder, a imprensa golpista. Enfim, muita coisa aflora em minha mente...

MINHA LEITURA DO MOMENTO POLÍTICO

Vivemos um contexto de guerra no Brasil e no mundo. As democracias liberais e burguesas estão morrendo mundo afora. O cenário é desalentador em relação ao presente e futuro do planeta Terra e das formas de vida que existem. 

Nenhuma força popular e preservacionista parece poder parar a máquina de destruição do capitalismo. Os papéis da lei capitalista vencem qualquer movimento ou forma de vida que se interponha no caminho do lucro de algum homem do capital.

O capitalismo neoliberal se impôs no mundo e quem estuda minimamente história, política e ciências sabe que não há expectativa de vida sob a hegemonia do capitalismo. Estamos destruindo o planeta e nada vai parar isso a não ser que paremos o capitalismo e os poucos donos do mundo capitalista.

Não é possível salvar "no diálogo" as florestas, os biomas, os povos originários, os mais de 90% de humanos que passam suas vidas sendo explorados e escravizados miseravelmente pela pequena quantidade de homens que seguem destruindo o mundo e as mais diversas formas de vida no único planeta no universo conhecido com as condições de vida que tem na Terra.

Como estamos presos em estratagemas burocráticos organizados para não serem interrompidos, caminharemos para o fim, a não ser que criemos uma força de enfrentamento real aos bilionários e capitalistas do mundo. Eles vão nos eliminar. Essa força teria que impedir essa pequena porcentagem de homens de destruir tudo.

Só vamos proteger os biomas que restam, só vamos salvar uns 70% dos povos do mundo se derrotarmos alguns milhares de famílias capitalistas donas do mundo. E eles têm todas as forças de repressão e violência sob o comando deles. Teríamos (temos) que armar o nosso lado, que é muito maior que o deles.

Não será por processos de paz que vamos salvar o mundo e as pessoas. Não será com manifestações, greves, abaixo-assinados etc, coisas bonitinhas e sensíveis não sensibilizam homens do capital e seus lacaios, quinta-colunas de merda.

Se meu corpo fosse mais jovem, eu buscaria alguma organização para enfrentar esses destruidores da vida de forma real. As "democracias" morreram. Esses regimes comprados com dinheiro e poder da elite que temos no Brasil, nos Estados Unidos, nos países da Europa são qualquer coisa, menos democracia. 

Mandela e o CNA entenderam que nenhum movimento pacífico mudaria a condição desgraçada que os negros sul-africanos viviam sob o regime fascista da minoria branca. E mudaram a estratégia.

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É O OPRESSOR QUE DEFINE A NATUREZA DA LUTA

"A lição que aprendi com a campanha (contra a remoção do povo negro de Sophiatown em 1955) foi que no final nós não tínhamos alternativa alguma senão resistência armada e violenta. Repetidamente, havíamos utilizado todas as armas de não violência em nosso arsenal - discursos, delegações, ameaças, marchas, greves, ficar em casa, prisões voluntárias - tudo em vão, pois tudo o que fazíamos era respondido com mão de ferro. Um guerreiro pela liberdade aprende da maneira mais difícil que é o opressor quem define a natureza da luta, e ao oprimido frequentemente não se deixa recurso algum senão utilizar métodos que espelham aqueles do opressor. Em certo momento, só é possível lutar contra o fogo usando fogo" (pág. 206. Longa Caminhada até a Liberdade, Nelson Mandela)

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Nenhuma conversa ou boicote impediu Hitler de invadir e tomar todos os países da Europa, um atrás do outro, até que as bombas dos aliados, principalmente do exército vermelho, parassem a megalomania dos nazistas.

É o que penso olhando o mundo.

William


Post Scriptum: li esta peça pela primeira vez em 2017 (ler comentário aqui). Vivia sob fortes emoções. Ainda acreditava um pouco na democracia, mesmo abalado com o impeachment criminoso que Dilma havia sofrido por um bando de canalhas. A revolução reacionária da extrema-direita já estava em andamento no Brasil. Os quinta-colunas daqui já haviam implementado o golpe de Estado. Já haviam imposto a EC 95, fodendo os direitos sociais do povo brasileiro por 20 anos, as reformas da previdência e trabalhista já haviam sido impostas também, a Petrobras vinha sendo entregue aos imperialistas pelos quinta-colunas daqui. Vivemos 7 anos de destruição total do Estado nacional e dos direitos do povo brasileiro e nada deteve os fascistas. Nada... E o voto comprado pelo orçamento secreto e os bilhões ilegais em 2022 fez um Parlamento que não representa o povo e não é democrático. Francamente, não me venham chamar isso no Brasil de democracia. Como vamos salvar nossos biomas e nosso futuro? Com as "leis" criadas por aquela canalha colocada no Congresso em 2022? 


Bibliografia:

HEMINGWAY, Ernest. A Quinta-Coluna. Tradução de Ênio Silveira. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.