sexta-feira, 12 de julho de 2019

Cassi - Uma questão mais política que técnica



25º CNFBB constrói consensos para a Cassi como Solidariedade,
Atenção Primária, ESF/CliniCassi, prevenção ao invés
de modelo curativo. Foto: Caetano Ribas.

Opinião

Os trabalhadores da comunidade Banco do Brasil estão participando nestas semanas de junho e julho dos processos democráticos de construção de suas pautas de reivindicações sociais, como os direitos coletivos relativos ao trabalho e emprego e à saúde, bem como as pautas que geram eixos de mobilização unitária como as questões de direitos civis e políticos: por exemplo, a liberdade de expressão e direito à vida (nos locais de trabalho, inclusive!) e direitos inerentes à participação política em suas entidades de classe, como eleger seus representantes nas caixas de saúde e previdência.

A categoria bancária construiu ao longo de décadas de organização sindical uma das mais exitosas estruturas de negociação coletiva entre entidades de trabalhadores e entidades patronais do Brasil. Dessa organização surgiram a Convenção Coletiva de Trabalho dos bancários (CCT), e aditivos de Acordos Coletivos de Trabalho por bancos ou regiões (ACT), que abrangem direitos auferidos após processos que começam com discussões nas bases de todo o país.

Quando olhamos para trás e vemos a história da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, uma associação criada pelos trabalhadores ainda nos anos quarenta, temos a opinião que a busca de soluções para qualquer crise na autogestão em saúde se dará pela construção política de consensos a partir de processos participativos e democráticos. Como disse em outros artigos, a Cassi é uma associação, associação é feita de gente, e sem a participação das pessoas fica difícil encontrar soluções satisfatórias para momentos de crise.

É sabido que boa parte da estrutura de saúde e previdência brasileira surgiu depois da Cassi já estar funcionando por décadas, estrutura do setor incluindo instituições públicas e privadas que atuam no segmento de saúde e a própria legislação da saúde suplementar. Essa antiguidade nos dá experiência vivida na solução de crises diversas, que outros atores do setor não têm, e traz também ameaças e dificuldades para nos adaptarmos a imposições tanto mercadológicas quanto legais como, por exemplo, judicializações desnecessárias, regulações inadequadas para planos de autogestão, fraudes e desperdícios na rede credenciada, prestadora de serviços de saúde etc.

A Cassi nasceu do esforço solidário dos funcionários do BB em construir uma caixa de assistência social para contribuir para o bem estar dos trabalhadores e seus familiares. Nasceu para ressarcir gastos com saúde e, em linhas gerais, foi uma pagadora de despesas de saúde no mercado privado por décadas, até mudar seus objetivos em meados dos anos noventa e passar a ter como objetivo ser gestora de saúde, e cuidar de uma população relativamente estável, por décadas, em sua "carteira" de participantes associados (e não "clientes"). Através da Atenção Integral à Saúde, por meio da Estratégia de Saúde da Família (ESF) e com estrutura vertical (própria) de atendimento primário - as CliniCassi -, e atuando na promoção, prevenção, recuperação e reabilitação de seus participantes.

Percebe-se pela síntese da história e características da Cassi que apresentamos acima, que a busca de soluções para a atual crise econômico-financeira da Caixa de Assistência terá melhor perspectiva de sucesso se for construída com participação dos associados, com diálogo respeitoso e de forma negociada entre os donos da associação, os trabalhadores da ativa e aposentados, e o patrocinador Banco do Brasil. A solução é uma questão mais política que técnica, diferentemente da forma como empresas privadas de saúde tentam se manter no mercado. Não devemos confundir algo central: a Cassi compra serviços de saúde no mercado, ou seja, lida com o mercado; mas a Cassi não deve se espelhar no mercado ou nas empresas do mercado.

E é por entender que as soluções para reequilibrar o custeio da Cassi, as regras de gestão e governança e os aperfeiçoamentos necessários no modelo assistencial, na estrutura da autogestão e na relação com a rede credenciada, que tenho a opinião que as propostas devem surgir e serem construídas nos fóruns dos trabalhadores do Banco do Brasil, pois são os associados e suas entidades representativas que sentem no dia a dia as dificuldades e as ameaças existentes quando a Caixa de Assistência não consegue atender às suas necessidades e/ou quando as expectativas na utilização da Cassi não foram atendidas ou não foram compreendidas, ou seja, a questão dos direitos e deveres dos associados em relação a sua autogestão em saúde.

Nos dias 1 e 2 de agosto, se realizará o 30º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil, o mais importante e representativo fórum de discussão das questões relativas à comunidade de trabalhadores da ativa e aposentados do BB. O espaço é ideal para se debater e construir consensos e premissas sobre saúde e previdência (e também Cassi e Previ e direitos dos trabalhadores de bancos incorporados, bem como novos bancários), sobre emprego e condições de trabalho, sobre o papel dos bancos públicos, sobre organização do movimento e sobre as estratégias de lutas da classe trabalhadora e categoria bancária para enfrentarem as ameaças e ataques atuais aos direitos sociais, civis e políticos dos cidadãos da comunidade bancária, dentre eles os do Banco do Brasil.

Entendo que o fórum é um bom espaço para se discutir e aprofundar questões relativas à saúde e Cassi como, por exemplo, definir premissas e princípios norteadores para a construção de uma proposta do movimento sindical para a Caixa de Assistência. Posso afirmar que nos ajudou muito na gestão entre 2014/18 como dirigentes eleitos o fato dos Congressos anteriores terem ratificado nos debates e resoluções políticas a Atenção Integral à Saúde, o fortalecimento da Estratégia de Saúde da Família (ESF)/CliniCassi, o princípio da Solidariedade no sistema, e a prevenção de doenças e promoção de saúde ao invés do modelo curativo praticado no mercado, onde a saúde e a doença significam lucro.

Abraços,

William Mendes


Post Scriptum I: fiz um vídeo no dia 15/07/19 falando sobre essas questões que desenvolvi no texto acima.


Post Scriptum II: outros artigos meus estão aqui, em ordem do mais recente para o mais antigo.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

100719 - Diário e reflexões - Luto



Refeição Cultural

Meus blogs já me salvaram de processos de assédio moral e lawfare durante meu mandato na Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, quando representava a classe trabalhadora como dirigente eleito. Depois de inventarem mentiras a meu respeito para me prejudicarem, foi através da transparência que mantive de meus mandatos através dos blogs que desfiz as mentiras e maledicências montadas contra mim. 

Neste espaço público - este blog de cultura e o blog que mantinha para prestar contas das lutas bancárias -, registrei ao longo de uma década uma prestação de contas dos mandatos de representação. Onde estava, o que fazia e o que defendia enquanto representante de classe. Por persistência, mantive uma disciplina absurda na confecção de textos e postagens. Para isso, abri mão inclusive de dormir o suficiente por anos de militância. Valeu a pena!

Hoje, este blog é um espaço público que ainda busca um sentido num mundo que mudou completamente. Falo para quase ninguém, mas ao menos posso expressar o que penso ou sinto. Neste sentido, registro agora meu pesar, meu luto, pelas perdas deste dia para o Brasil, para os brasileiros e para a militância social que luta para construir um mundo melhor, mais justo, igualitário, democrático e com liberdade.

A morte do jornalista Paulo Henrique Amorim é um golpe duro para o movimento que luta por liberdade de expressão e por uma regulamentação nos meios de comunicação, monopolizados por alguns barões desde sempre. PHA, será muito difícil não ter você amanhã e depois e depois. Sinto muito! Sinto mesmo! Companheiro Paulo Henrique Amorim, presente! Desejo que a família encontre forças para lidar com a perda.

As perdas de pessoas que contribuíam para um mundo melhor, através de suas áreas de atuação foram impactantes para nós. Faleceu o professor Chico de Oliveira, sociólogo aposentado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Passei a ouvir e ver o professor Chico de Oliveira, logo depois que entrei na Faculdade de Letras, da FFLCH, em 2002. Me lembro das posições firmes dele nos debates no auditório da História/Geografia sobre a reforma da previdência levada adiante pelo governo do PT em 2003. Grande pensador! Perdemos muito com sua ausência. 

Nestes dias, perdemos também o cantor e compositor João Gilberto e o ex-guerrilheiro Carlos Eugênio da Paz, conhecido como comandante Clemente, último líder da Ação Libertadora Nacional (ALN), militante que assumiu o comando após o assassinato de Carlos Marighella pelo regime de exceção que vigorou por duas décadas no Brasil, antes do atual regime de exceção, com o golpe de 2016.

E para completar as perdas por morte de cidadãos que honraram a raça humana, os canalhas no Congresso Nacional, com o apoio de seus asseclas nas demais instâncias do poder estatal, passaram por cima de qualquer garantia de bem estar-social que fora conquistada na Constituição Federal através das lutas populares nos anos oitenta e liquidaram a previdência social brasileira e a aposentadoria de dezenas de milhões de pessoas. Essa traição ao povo brasileiro equivale a assassinar milhares de pessoas a partir de agora e pelos próximos anos. Essa terra miserável pode se igualar em miséria à grande maioria dos países do continente africano.

O Brasil nunca mais será o mesmo. Algumas poucas pessoas conseguiram destruir a vida de milhões de pessoas. Eu cheguei aos 50 anos de idade sem entender por que as pessoas de minha classe são tão alienadas, tão manipuláveis, e tão passivas frente à humilhação de poucos seres humanos que são mortais como nós, mas que conseguem subjugar a massa idiotizada e bovina.

Morte a todos nós, que permitimos nos tirarem tudo sem lutar, sem nenhuma reação à altura nas ruas e praças do país. Derrubaram uma presidenta eleita por 54,5 milhões de votos e não fizemos nada. Acabaram com os direitos trabalhistas e com todos os avanços dos governos do PT para milhões de pessoas e não fizemos nada. Prenderam o presidente Lula numa masmorra, e mesmo com toda a comprovação (já sabíamos) das fraudes processuais através das matérias do The Intercept, que vem divulgando há semanas que os sujeitos responsáveis pela Lava Jato montaram toda a fraude e que o processo contra Lula foi para destruir o país e os direitos do povo, não fizemos nada!

Não fizemos guerra alguma. Não reagimos. Seguimos passeando nos shopping centers da vida, assistindo futebol e televisão, seguimos nos mi-mi-mi de nossas redes sociais imbecilizantes. O fim dos direitos do povo e da soberania do país, levados adiante por poucos seres humanos, mortais como nós, só nos enche de vergonha - quem a tem -, e nada mais! Eu não sei como aguentamos tudo isso, como não explodimos ainda. Alguns corações, e artérias e veias, estão explodindo, na verdade...

Estou de luto neste dia 10 de julho de 2019 pelas perdas de grandes combatentes por um mundo melhor como Paulo Henrique Amorim e Chico de Oliveira. Estou oco e sem sentimento em relação ao fim da previdência e do sistema de seguridade brasileira. O povo não fez nada para manter esse direito básico à vida, não fez nada! Acho que merecemos o fim de tudo. 

Viva a lei dos mais fortes e mais adaptados.

William

terça-feira, 9 de julho de 2019

090719 - Diário e reflexões - Desassossegado




Refeição Cultural

"Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal." (Livro do desassossego, Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa)


Feriado no Estado de São Paulo. Dia frio e com sol. Na hora do almoço, vou ao Shopping União e fico observando as pessoas passando pra lá e pra cá, enquanto aguardo a chamada da senha da comida. É um povão simples esse de Osasco. Gosto disso! Por esse motivo escolhi Osasco pra viver.

Desde a noite anterior fiquei pensando no presidente Lula. Vi a entrevista dele na TVT. A gente vê esse povão simples no shopping center... a gente sabe que o presidente Lula é apaixonado por esse povo ingrato. (aproveitei para me tornar um parceiro da TVT, esse importante projeto de comunicação popular: seja você também, clique aqui)

Lula reafirmou pela enésima vez que o que o mantém vivo naquela masmorra, preso por um conluio de juízes e procuradores canalhas, e que faz canalha e vigarista todo antipetista e odiador de Lula que apoia e endossa a canalhice, mesmo sabendo que ele é um preso inocente (afinal de contas, ele seria só um "petista" mesmo!). Enfim, apesar disso, Lula vive porque tem o desejo de ajudar esse povo miserável brasileiro.

A gente vê esse povo mestiço, desempregado ou subempregado, e procura encontrar no coração da gente a grandeza do presidente Lula. Não é fácil! Poucas figuras são injustiçadas, maltratadas, incompreendidas e seguem adiante em seus objetivos de melhorar a vida das pessoas pobres e ingratas. Lula e Mandela, pra citar dois presos políticos da história. Marielle Franco e Chico Mendes, pra citar dois líderes populares que não seguiram lutando pelos miseráveis porque foram assassinados pelos donos do poder que eles incomodavam.

Eu fico procurando encontrar um sentido nas coisas. É mais fácil quando você está envolvido em um processo de luta social como ocorre no movimento sindical ou estudantil como estive; este, movimento mais episódico para o estudante, por nos vermos nele enquanto estamos estudando; aquele, movimento mais perene por lidar com o mundo do trabalho ao longo de nossa vida laboral. Ainda temos (teríamos) que lutar para assegurar direitos após a vida laboral, para termos aposentadoria (mas a maior parte dos cidadãos de faixas etárias maiores está fora das atividades de lutas por direitos, infelizmente - sem contar que parte deles ainda apoia os ataques aos direitos, por falta de consciência política).

Amig@s, neste momento, final de noite e início de madrugada de 9 para 10 de julho, um grupo de seres humanos (animais humanos) está reunido no Congresso Nacional para acabar com a previdência pública e com a aposentadoria de dezenas de milhões de brasileiros e é público que foram gastos bilhões de reais para comprar os votos desses desgraçados. A destruição da previdência e das aposentadorias vai assassinar milhões de miseráveis brasileiros. Fará milhões de miseráveis que não seriam miseráveis. 

O povo não reage! As pessoas estão passeando nos shopping centers amortecidas pelas ferramentas de manipulação de massas (gente) e controle de consciências (de gente). Ficamos sem saber o que fazer para alterar a realidade (dessa gente). Tento encontrar a solução em alguma leitura, em alguma fonte de inspiração. Mas parece que não conseguimos organizar a resistência a toda essa destruição. As vítimas estão ao lado dos algozes. As que não estão, estão por aí, estão nem aí.

A gente deveria ler e estudar diariamente, cotidianamente. Deveríamos ler livros e autores que nos libertassem do jugo da manipulação. Pelo menos as pessoas que se colocam nas posições de vanguarda dos movimentos sociais deveriam ler os autores que dedicaram suas vidas para libertar o povo da exploração de meia dúzia de donos de tudo. Mas isso não ocorre no volume necessário - essa é minha impressão.

A gente pega mil coisas pra ler, acaba não seguindo em nenhuma delas. É desespero. A gente escreve, mas só alguns poucos leem. Os inimigos falam para milhões. Milhões! Milhões! A gente fala pra dezenas.

Eu peguei pra ler a entrevista de Marilena Chauí, de 2006 - "A ética Da política" e "Democratização e transparência: a tarefa do PT contra a despolitização e pela construção de uma ética pública", e fiquei tão encantado com cada página de aula dela sobre política, democracia, direitos sociais, papel do Estado, participação social, a prática como critério da verdade na ética da política, foram mais de 60 páginas apaixonantes, para se ler várias vezes e gritar pro mundo. 

Mas que adianta a leitura encantada dos ensinamentos de Chauí? Procurei fazer o que ela ensina em meus mandatos eletivos por quase duas décadas. Foi importante em meu percurso de representação. Passou. Hoje, se eu fizer uma postagem sobre o que li dos ensinamentos dela, serão poucos a lerem a postagem, talvez ninguém vá para a leitura direta do texto de Marilena Chauí. Nossa militância está lutando desorganizada contra os donos do poder. De novo, é a minha impressão.

Ao sair do Shopping União, vejo nessas bancas no meio do caminho, livros por baciada, todos a dez reais. Dez reais! E lá, vejo o livro de Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, de seu heterônimo Bernardo Soares. Dez reais! 10 reais. O preço de uma garrafa de cerveja por aí. 

Se formos pensar no preço das mercadorias, seriam necessários uns 15 livros de Pessoa para trocar por uma camisa amarela da CBF que custa mais ou menos 150 reais. Que equivalência, heim? Estudiosos de semiótica avaliam que a amarelinha virou símbolo do movimento de direita e do fascismo no Brasil pós golpe de 2016...

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"O coração, se pudesse pensar, pararia" (Bernardo Soares, Fragmento I, Livro do Desassossego)
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Apesar de tudo isso, a gente vai continuar procurando formas de contribuir para mudar esse estado de coisas injustas, bárbaras, corruptas, anti-humanas. Não tem outra coisa a fazer enquanto respiramos, enquanto estamos. Como dizia o poeta Antonio Machado, temos que caminhar, mesmo não tendo caminho. 

Eu talvez possa contribuir com algum conhecimento em alguma área que tenha acumulado experiência como, por exemplo, a do movimento organizado dos trabalhadores brasileiros reunidos na comunidade bancária e do banco público Banco do Brasil. Sei lá, quem sabe!

William

domingo, 7 de julho de 2019

070719 - Diário e reflexões - Corrida 10K no Eixão


Ipês roxos na altura da 114/214 Sul, DF.

Refeição Cultural

"A gente sai de Brasília, mas Brasília não sai da gente" (ditado popular)


Enquanto em nosso Mundo de Oz paulistano (Osasco) fazia frio e o dia estava nublado neste domingo (uns 8º), eu havia colocado calção e tênis e me dirigia para o Eixão no Plano Piloto de Brasília para fazer meu longão de fim de semana. 

O cenário foi de sol e temperatura de 23º e ipês, muitos ipês roxos colorindo o nosso caminho. Brasília é a cidade dos ipês. Primeiro vêm os roxos, depois vêm os amarelos, brancos e rosas. São cerca de 200 mil árvores, segundo a Novacap, órgão que cuida da estrutura distrital.

Morei em Brasília por quatro anos e seria impossível não estabelecer uma relação entre nós, Brasília e eu. Foram anos muito intensos os vividos na Capital do Brasil. Foram anos de trabalho ininterrupto em defesa dos direitos em saúde dos trabalhadores da comunidade BB. Foram anos em que vimos um golpe de Estado derrubar o governo e estabelecer-se o caos e a destruição do país.

Apesar dos anos intensos vividos em Brasília, a relação que estabeleci com a cidade foi fraterna, foi dócil, foi de porto seguro. Brasília concentra o poder do país, que, via de regra, infelizmente depõe contra a cidade por causa dos efeitos da má política. Porém, nem só de política é feita a cidade planejada no meio do Planalto Central.

Brasília é coisa boa, é o céu azul, é a natureza com flores em todas as estações, são pássaros e mais pássaros; Brasília é o cerrado. É o pôr do sol deslumbrante. É o cheiro de mato ao abrir a janela e respirar fundo. Brasília é também o cidadão brasiliense que acolhe a gente no movimento sindical e social. Temos amigos e pessoas queridas em Brasília. Sou grato por isso.


Neste Eixão e nas alamedas da 110 Sul, fiz da corrida o suporte
para o equilíbrio de minha pressão arterial e de minha saúde.
Sem a corrida não suportaria a pressão que vivi por 4 anos.
 

A sensação de prazer da corrida só conhece quem corre

O ano não tem sido fácil em relação à condição de saúde para praticar minhas corridas. Como vinha sentindo dores desde o ano passado, fiz alguns exames e descobri que tenho que lidar com desgastes nos ossos e cartilagens na região do quadril e lombar. Amig@s, já lido com dores permanentes por causa do nervo ciático e outras desde agora. Que virá adiante?

A recomendação seria para que eu evitasse exercícios de impacto como corrida. É um dilema na vida. Difícil isso. Eu sonho em correr uma maratona (42K) e nunca corri uma porque nunca tive tempo para treinar por causa do trabalho e militância. Cheguei a correr uma meia maratona (21K) e várias São Silvestre (15K).

Eu faço caminhadas de introspecção (romarias) há décadas e elas têm um papel importante em minha psique. Que fazer? Sem contar que minha pressão arterial só abaixa com corrida, não adianta andar, não adianta pedalar. Nadar já exige uma estrutura para tal. Não gostaria de resolver isso com remédio de uso contínuo.

Minha decisão é a de seguir correndo. Aumentei o percurso das corridas nas últimas semanas, correndo entre 7 e 8 quilômetros no fim de semana e hoje corri meus primeiros 10K do ano, justo no Eixão de tantas corridas que desopilavam meu fígado do estresse da gestão na Cassi. Foi legal!

A visita à bela Brasília florida pelos ipês roxos foi para acompanhar meu filhão, que veio rever alguns amigos. Unimos o útil ao agradável, fiz companhia para o filho, visitei os amigos do movimento sindical no Congresso Distrital na sexta e sábado e fechei a estadia com a corrida no Eixão florido.

Até a próxima, Brasília! Volto ao Eixão qualquer dia desses!

William

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Livro: "Revolução Laura" deve ser lido todo mês!



Refeição Cultural

"E essa dor é tão grande que não tem nome. Quando morre marido a gente fica viúva, quando morre mãe e pai a gente fica órfã. Quando morre filho não tem nome. Porque não devia existir." (Reflexão de Manuela quando encontrou a mãe de Marielle Franco, após o enterro dela)


Adquirimos o livro de Manuela D'Ávila dias atrás. Em tese, minha companheira iria lê-lo primeiro. Que nada! Assim que chegou o livro, já o abri e comecei a folheá-lo. E fui indo na leitura. Peguei um voo e fui lendo. Enfim, devorei o livro rapidamente. Manuela nos relata o dia a dia dela e de Laura na campanha eleitoral brasileira entre os anos de 2017, como pré-candidata à presidência da república, e 2018, como candidata a vice-presidenta na chapa com Fernando Haddad.

Pensei muito a respeito de tudo que Manuela nos confidencia. Que mundo duro! Quanto caminho pela frente para se mudar a realidade das mulheres, das mulheres pobres, das mulheres negras! Quanto caminho pela frente para se mudar a mentalidade dos homens! E por incrível que pareça, Manuela nos transmite perseverança, nos oferece luta e não pusilanimidade. Fazer o que tem que ser feito! Chama a atenção ela nos dizer que é uma privilegiada, mesmo sofrendo tudo que sofreu e sofre. Leiam o livro e entendam o porquê.

Olhando para trás, acho que a maior e melhor mudança pessoal que pude experimentar ao ter a oportunidade de conviver com o movimento social organizado, sobretudo o movimento sindical, após os vinte e poucos anos de idade, foi me tornar menos ignorante nas temáticas tão sérias das lutas pela igualdade de gênero, raça, orientação sexual, e outras lutas de grupos sociais marginalizados.

A leitura do relato de Manuela D'Ávila sobre as experiências vividas por ela e sua filha Laura e por sua família ao tomar decisões firmes e fora do quadrado do mundo machista em que estamos nos faz refletir muito. Muito mesmo!

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Preconceito gera discriminação;
Discriminação gera falta de oportunidade;
Falta de oportunidade gera desigualdade social.
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Eu me lembrei das andanças que tive por anos com a companheira de lutas sindicais Deise Recoaro, uma mulher branca como Manuela, que abraça as causas de negros e negras, das temáticas LGBTI+, e vi o quanto nós homens somos ignorantes e privilegiados pelo sistema de exploração social. Nos debates, Deise sempre nos dizia que mesmo quando tentávamos nos imaginar na condição do outro, isso não alivia a nossa condição de privilégio por ser branco, por ser homem, por ser hetero etc. É a pura verdade!

Durante os cursos de formação política e sindical, durante os seminários e palestras do movimento dos trabalhadores, pude ir percebendo o quanto a condição de homem branco nos facilita os caminhos a percorrer na existência. Mesmo que sejamos pobres, pobres brancos entre os pobres negros pelos subempregos que vivemos. Mesmo sendo todos miseráveis, na hora da escolha para a vaga no subemprego, tem prioridade homem e não mulher, branco e não negro ou mestiço e assim por diante.

A partir do livro com os relatos de Manuela, muito focado nas coisas que deveriam ser comuns no dia a dia de uma mãe trabalhadora e filha pequena, pude exercitar a humildade. Achei que já era sabedor dos conceitos e concepções que envolvem a árdua luta das mulheres pelo direito a ocupar todos os espaços sociais e pelo direito ao tratamento igual entre as pessoas. Ledo engano! Se achamos comum ou não percebemos o que se fazem com as mulheres, com as mulheres mães, então temos nossa culpa nisso.

Percebi que ainda somos machistas, sexistas, somos preconceituosos até o osso. Tod@s nós, homens e mulheres, sim, mulheres inclusive, somos fisgados como peixes pelas ideias do preconceito e da discriminação contra o outro, a outra. Ainda mais num momento em que a onda é a pregação da morte a alteridade!

Terei, talvez teremos tod@s nós, que abrir o livro de Laura e Manuela a cada mês do ano para lembrarmos das coisas esquecidas em nossos comportamentos machistas e acertarmos a rota do caminho que caminhamos, que é lutar por um mundo mais justo, igualitário, livre, mais tolerante, baseado no amor e não no ódio, na solidariedade e não no cada um por si (e todos que se lasquem no fim).

Amig@s, leiamos a 'Revolução Laura', e com essa atitude, além de percebermos onde está o machismo e o sexismo de cada um de nós, ainda ajudamos a fundação "E se fosse você" um espaço para se pensar e combater a tragédia dos nossos tempos, as fake news, a destruição do ser humano e da sociabilidade através das mentiras como formas de manipulação do comportamento das pessoas.

Abraços, William

quarta-feira, 3 de julho de 2019

O que é a Cassi? Como fortalecer a associação?


Materiais informativos da Cassi aos associados sobre a reforma
estatutária de 2007, que teve 3 consultas ao corpo social.
 

Opinião

Como associado da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, uma associação criada pelos trabalhadores na década de quarenta do século passado (lembrem-se que o BB tem mais de dois séculos), tive a oportunidade de ser um dos gestores eleitos da autogestão em saúde entre os anos de 2014 e 2018. Foi então que percebi um dos maiores desafios a serem superados pela Cassi: ser compreendida por seus associados e a partir daí estar preparada para enfrentar os problemas comuns inerentes a existência de um sistema cooperativista e solidário de assistência à saúde de seus participantes.

Dias atrás, conversamos com os bancários e bancárias do Paraná a respeito da Caixa de Assistência. Fui convidado pelos organizadores do Encontro Estadual BB e Caixa para falar a respeito da Cassi e contribuir para os debates que os trabalhadores estão fazendo dentro do processo de organização nacional dos bancários, uma categoria que tem Convenção Coletiva Nacional, mesas de negociações maduras com minutas de reivindicação construídas a partir de processos democráticos que duram semanas, começando com fóruns locais e finalizando com congressos de bancos e conferência nacional da categoria.


Diagnóstico correto é fundamental para encontrar a solução adequada à natureza da entidade em questão

Outro dia, li um artigo do senhor presidente do Conselho Deliberativo da nossa Caixa de Assistência onde ele se mostrava preocupado com a busca de soluções para a atual crise econômico-financeira de nossa autogestão logo após uma consulta ao corpo social não ter alcançado o resultado esperado por aqueles que compõem a direção da associação neste momento.

Em linhas gerais, o artigo dizia que muitos dos problemas da Cassi são de ordem estrutural, que é inadequado o custeio estar definido no estatuto social da entidade, por questões inerentes ao setor em que a associação opera, o mercado de saúde privado, cuja variação dos custos médico-hospitalares é muito maior que a inflação oficial, chegando a ser 3 ou 4 vezes maior que o índice inflacionário que, via de regra, reajusta salários e benefícios (ou não). Além do "problema do custeio", haveria o problema do "modelo de governança", ambos inadequados por serem estatutários e de certa forma engessados para tomadas de decisões.

Segundo o dirigente eleito, a solução seria "elevar a cada ano a parcela da renda destinada à saúde" ou "reduzir o padrão de assistência à saúde para manter o mesmo percentual de comprometimento da renda"; ou combinar ambos. No artigo, ele também opina que "não há empresa que subsista se não houver um mecanismo que lhe permita decidir" e que "a pior decisão é sempre a não decisão". Ao final, o nosso colega faz uma avaliação pessoal a respeito de influências políticas atrapalharem as decisões técnicas e isso ser fator preponderante nos problemas da associação, da Caixa de Assistência. Respeito a opinião, mesmo tendo leitura diferente.


O que é a Cassi? Como fortalecer a associação?

Algumas questões são centrais na análise de problemas para se pensar soluções para eles. Se os associados de uma entidade de autogestão em saúde e seus gestores não tiverem clara a natureza do que estão discutindo, dificilmente encontrarão respostas satisfatórias para a manutenção da mesma, que dirá para avançar nos objetivos existenciais da associação.

A Cassi não é uma seguradora ou medicina de grupo como, por exemplo, Bradesco Saúde ou Grupo Amil. A Cassi não é uma cooperativa de profissionais de saúde como, por exemplo, o Grupo Unimed. A Cassi não é uma empresa que vende planos de saúde como as do mercado privado (ela até vende planos, mas vende para um segmento específico da própria comunidade BB - o Cassi Família para pessoas até 4º grau de parentesco consanguíneo). A Cassi é na essência o Plano de Associados da entidade.

A Cassi não tem por missão ou objetivo cuidar apenas de uma parte ou segmento dos trabalhadores da empresa Banco do Brasil como, por exemplo, somente aqueles que ganham mais ou que não estão doentes no momento da entrada no sistema, ou ainda cuidar apenas dos "empregados" e não dos "ex-empregados"; sua essência é ser solidária, cooperativa e cuidar de todos os membros da comunidade BB de acordo com suas possibilidades contributivas e necessidades, sendo os associados definidos em seu estatuto social.

A Cassi não faz seleção de público beneficiário de acordo com o perfil do risco epidemiológico como ocorre normalmente no mercado privado de planos de saúde, fazendo isso para ter em suas carteiras segmentos populacionais que podem trazer lucro ou resultado operacional positivo para a empresa. Se assim o fizesse, a Cassi seria qualquer coisa, menos a Caixa de Assistência criada na forma de associação solidária e com participação no custeio de forma mutualista e intergeracional. 

Se assim o fosse, a Cassi não teria no Plano de Associados 152.735 aposentados e dependentes, bem como não teria 19.562 pensionistas (Relatório Cassi 2018). Ou alguém acha que um plano de mercado, que cobra por perfil epidemiológico, teria interesse em manter nas "carteiras" segmentos que utilizam mais o sistema de saúde por questões óbvias de natureza biológica (idade, por exemplo)? Se assim o fosse, a Cassi cobraria no Plano de Associados por dependente, por cabeça, não importando se um dependente "doente" desse mais despesas que três "sadios" de outro titular; cobraria mais por faixa etária; cobraria mais de pessoas com doenças genéticas, doenças crônicas; cobraria mais de Pessoas com Deficiência (PcD). 

De que maneira a maioria dos associados conseguiria permanecer no sistema, se cerca de 70% da ativa e dos aposentados não têm altas remunerações ou benefícios de aposentadoria ou pensão? E o gravíssimo problema do descomissionamento, que faz com que um bancário tenha um salário de acordo com o seu crescimento na carreira e de uma hora para outra pode perder tudo, voltando a ganhar como um escriturário? Isso é real! Hoje um colega não tem filhos, amanhã pode ter uma criança com alguma necessidade maior de uso do plano pelo resto da vida; ou seu cônjuge. Hoje o colega está bem, amanhã sofre um acidente de trânsito ou um AVC e passa a precisar muito mais do sistema solidário Cassi. Amig@s, essa é a realidade de um sistema de saúde solidário mutualista intergeracional no custeio e na utilização.

Entender essas questões essenciais da natureza da Cassi é fundamental para se pensar soluções para o atual momento de desequilíbrio econômico-financeiro da entidade de autogestão em saúde. Em tese, não se cria uma associação, uma cooperativa de trabalhadores, numa canetada autoritária de alguém. Todas as entidades que nós criamos na comunidade Banco do Brasil são fruto de diálogo, de construção de consensos, de participação dos membros dessa comunidade. Ou seja, são fruto de participação política.

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Post Scriptum: Fiz um vídeo no dia 23/07/19 explicando um pouco o que é a Cassi e como ela funciona. Estava no Facebook e disponibilizei no YouTube: 

 
A Cassi é Caixa de Assistência. Sem empoderamento e pertencimento, sem participação e democracia não haverá solução satisfatória

Para finalizar essa reflexão sobre o que é a Cassi e as possibilidades que temos para encontrar soluções para os problemas atuais da nossa autogestão em saúde, entendo que há outras saídas além daquelas refletidas pelo nosso colega presidente do Conselho Deliberativo, cujas opiniões entendo serem sinceras e honestas.

O Estatuto Social e as definições nele contidas são para o patrocinador BB e para nós associados da Caixa de Assistência direitos e obrigações importantes na relação entre capital e trabalho, são conquistas possíveis oriundas dos processos negociais ocorridos em condições específicas num determinado tempo. Foi assim na reforma estatutária de 1996, foi assim na reforma estatutária de 2007. Foi assim na mini reforma estatutária de 2016. Foi assim nas reformas ocorridas desde 1944.

Se o patrocinador Banco do Brasil injetou recursos nas negociações de 2007 - 300 milhões para ESF e serviços próprios, assumiu o déficit dos dependentes indiretos e passou a pagar corretamente 4,5% para os pós 1998 - foi por reconhecer questões estatutárias de 1996 não cumpridas por ele próprio como, por exemplo, o recolhimento a menor de 3% sobre a remuneração dos funcionários admitidos após 1998, ou seja, reconheceu não cumprir o Estatuto Social de 1996 nas negociações de 2007, como lemos nos materiais apresentados pela própria Cassi à época, cuja gestão já era compartilhada entre patrocinador BB e associados durante aprovação da reforma de 2007.

Dizer que a autogestão Cassi é engessada por não ter mecanismo de decisão é um equívoco ou exagero político e ideológico, não técnico. A escolha do mecanismo foi definida na mesma reforma estatutária de 2007. A correlação de força daquele processo fez com que o patrocinador BB impusesse aos associados diversas questões que ele pretendia como, por exemplo, mais poder na gestão e instituir coparticipação sobre exames. Está lá no material de propaganda para aprovação da reforma, que o patrocinador passará a indicar a metade do CD, da Diretoria e do CF, sendo qualquer decisão 50% + 1. Está lá que passará a existir cobrança de coparticipação sobre exames em 10% com teto de 1/24 do salário ou benefício, em vez única, sem ser cumulativa.

Então, quando uma área de atividade-fim como as dos eleitos, a Diretoria de Saúde ou de Planos de Saúde, propõe um benefício novo tipo um novo programa de saúde ou mais unidades CliniCassi e as áreas de atividade-meio dos indicados pelo patrocinador não concordam com os novos direitos dos associados, a instrução dada a eles é votarem contra na Diretoria Executiva (2x2) e no CD (4x4), utilizando assim a ferramenta de gestão para não aprovar algo. Isso é decisão e não "indecisão"! 

O mesmo se dá, por exemplo, quando áreas do patrocinador propõem aumentar os custos dos associados internamente, sem consulta estatutária, como aumentar coparticipações sobre consultas e exames, ou criar franquias nas internações. Apesar do conceito de coparticipação ser redução de despesas (fator moderador), muitas vezes as proposições "técnicas" são claramente para aumentar as receitas de forma a onerar somente um lado dos responsáveis pelas entradas financeiras na autogestão Cassi: o lado dos associados. 

As áreas afetas ao patrocinador fizeram propostas assim desde a confecção do orçamento da Cassi para o exercício de 2015, em novembro de 2014. Os gestores representantes dos associados usaram a mesma ferramenta estatutária de gestão e foram contrários (2x2) na Diretoria e (4x4) no CD. Com isso, os eleitos à época, eu entre eles, procuraram as entidades representativas, a Comissão de Empresa da Contraf-CUT, por exemplo, e foi iniciado um processo de mobilização e encontros que gerou uma mesa negocial que fez com que o patrocinador injetasse a partir de novembro de 2016 um montante próximo a 850 milhões de reais, e os associados algo como 650 milhões (Memorando de Entendimentos).

Qualquer solução para a entrada de novos recursos para a Caixa de Assistência terá melhores perspectivas de sucesso se partirem de processos nascidos no seio do corpo social e seus fóruns democráticos, para depois serem negociados com o patrocinador Banco do Brasil. Cabe aos trabalhadores associados a construção de mobilização, confecção de propostas e unidade para retomar o caminho dos objetivos da Cassi, de cuidar do conjunto dos associados da ativa, aposentados, pensionistas e dependentes, de forma solidária, sem excluir segmentos por falta de condições de se manterem no sistema Cassi. Uma Cassi para todos.

Abraços e voltaremos ao tema com sugestões de propostas para serem pensadas entre os associados e suas entidades representativas.

William Mendes


Post Scriptum:

Para ler opinião sobre o aumento nas coparticipações, clique aqui.

Para ler opinião sobre êxitos das autogestões Cassi e Cassems, clique aqui.

domingo, 30 de junho de 2019

Conversa com os bancários do Paraná



Mesa de saúde e previdência do Encontro
do BB e da Caixa da Fetec CUT PR.

Neste sábado 29, tive a oportunidade de participar do Encontro Estadual do BB e Caixa em Curitiba, Paraná. Foi minha primeira participação como convidado de um evento dos bancários desde que exerci meu último mandato em nome da classe trabalhadora. Havia decidido me afastar das discussões relativas à nossa entidade de autogestão em saúde para cumprir uma quarentena posterior ao mandato. Assim o fiz. Fiquei um ano longe de qualquer debate.

Antes de comentar de forma sucinta sobre as questões que abordamos no encontro, quero agradecer aos dirigentes paranaenses pelo convite, em especial à companheira Ana Busato, e por extensão agradecer aos organizadores do encontro: Fetec Paraná, Sindicato dos Bancários de Curitiba e região e demais sindicatos cutistas do Estado.

O convite foi para falarmos um pouco sobre a Cassi, aproveitando nossas experiências adquiridas através do mandato eletivo que exercemos na Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil entre 2014 e 2018. A Caixa de Assistência é a mais antiga autogestão do país, completou 75 anos, e cuida da saúde de quase 700 mil vidas.  

Na oportunidade, também foi pedido que eu falasse um pouco sobre um dos eixos temáticos do Encontro, a Organização do Movimento, por causa da experiência que tivemos nas negociações coletivas dos bancários, a partir da Contraf-CUT e das Comissões Organizadoras dos Empregados (COE) de cada um dos bancos, comissões que assessoram a Confederação e o Comando Nacional dos Bancários nas negociações coletivas. Na corporação do Banco do Brasil, os trabalhadores chamam a COE de Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil (CEBB).

Antes das reuniões por banco, tivemos uma excelente palestra da deputada federal Érica Kokay (PT/DF), companheira com grande história de lutas em defesa dos direitos dos trabalhadores. Também tivemos palestra da companheira Paula Goto, diretora eleita de nossa Caixa de Previdência, a Previ. Obtivemos esclarecimentos importantes sobre o tema.

ORGANIZAÇÃO DO MOVIMENTO

Fizemos uma breve retrospectiva histórica das últimas décadas de organização sindical dos bancários, tanto do Banco do Brasil quanto da categoria em geral. Os bancários brasileiros construíram uma unidade nacional bastante exitosa e que fortalece a luta por direitos coletivos.

A organização de vanguarda da categoria bancária permite a construção de processos maduros de negociação coletiva com os bancos em geral, através das mesas com a Fenaban, e negociações específicas banco a banco, e o resultado é termos uma Convenção Coletiva de Trabalho que abrange diversos bancos em todas as unidades da federação.

Falamos um pouco da importância dos representantes sindicais de base, também conhecidos como delegad@s sindicais e as possibilidades de atuação dessas lideranças bancárias. Esses trabalhadores podem auxiliar na mediação de conflitos nos locais de trabalho.

CASSI - PERTENCIMENTO É A CHAVE PARA O FORTALECIMENTO DA AUTOGESTÃO EM SAÚDE

Para proteger e ampliar os direitos em saúde da comunidade Banco do Brasil - os trabalhadores da ativa, aposentados e beneficiários da Previ e seus respectivos familiares - é essencial que os associados saibam o que é a Cassi, como ela funciona ou deveria funcionar e os objetivos do modelo assistencial. 

Também é necessário que associados, participantes e patrocinador defendam a Cassi na relação com o mercado privado de saúde, onde a autogestão compra serviços. A nossa Caixa de Assistência precisa ser defendida inclusive de equívocos ou decisões governamentais que ponham em risco sua existência.

Em linhas gerais, explicamos como funciona o modelo assistencial da Cassi, de Atenção Integral à Saúde, organizado a partir da Estratégia Saúde da Família (ESF), das CliniCassi e dos programas de saúde que acompanham e monitoram os participantes já acometidos de alguma comorbidade. A prevenção de doenças e a promoção de saúde são a base do modelo assistencial da entidade.

É necessário ampliar a escala de cobertura do modelo, cuja eficiência comprovamos em estudos e por números durante os quatro anos em que estivemos à frente da Diretoria de Saúde. 

A solidariedade no custeio do sistema por parte dos associados é fundamental para que a Cassi siga sendo a maior autogestão do país, para que ela continue cuidando de todos os trabalhadores da ativa e dos aposentados e beneficiários da Previ, e não somente de parte da comunidade.

Temos que reverter as consequências de medidas recentes que excluíram o acesso à Cassi aos novos bancários. Também temos que retomar os debates entre os associados e suas entidades representativas para pensar alternativas que reequilibrem a Caixa de Assistência. Após definidas propostas por parte dos associados, buscar negociações com o patrocinador.

É isso. A Cassi é um patrimônio dos trabalhadores da comunidade Banco do Brasil e vamos atuar para fortalecer a autogestão, construindo unidade e mobilização como historicamente fazemos para encontrar soluções para os problemas que nos desafiam.

William

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Coparticipação maior pode inviabilizar Cassi



Encontro nacional de saúde convocado por eleitos da Cassi
ocorreu na Afabb SP em 13/3/15. Soluções para
o déficit era a pauta. Foto: Sindicato de Franca.

Opinião

Os trabalhadores da ativa e aposentados da comunidade Banco do Brasil têm grandes desafios a vencer no próximo período. Os bancários da ativa enfrentam duras condições de trabalho e vivem as incertezas relativas ao futuro do maior banco público do país, cujo acionista majoritário e o seu indicado na presidência da instituição não escondem o desejo de privatização do banco. Todos, da ativa e aposentados, vivem também dilemas relativos à manutenção e fortalecimento da Caixa de Assistência (Cassi), maior autogestão em saúde do país e que tem gestão compartilhada entre patrão e trabalhadores.

Após um período sem opinar sobre as questões relativas a nossa Cassi, até por respeito ao processo democrático de escolha de parte da direção da entidade, ocorrido há mais de um ano, entendo que posso contribuir com algumas reflexões sobre possibilidades de solução para o fortalecimento de nossa Caixa de Assistência e de seu sistema de saúde baseado na Atenção Integral, e executado através de um modelo próprio de Estratégia Saúde da Família (ESF) com unidades de atendimento em saúde, as CliniCassi. 

O sistema de saúde da nossa autogestão é bastante exitoso e eficiente; é reconhecido por instituições externas como a própria ANS e pelo mercado privado de venda de serviços de saúde, mercado que vem optando por implantar modelo semelhante ao da Cassi, tanto para planos de saúde como para sistemas hospitalares.

No primeiro artigo de opinião, fiz o que entendo ser o básico em relação a uma autogestão em saúde cujos donos são os trabalhadores associados: conclamei que todos os segmentos participantes e representados busquem unidade e maior envolvimento nas discussões (ler aqui). 

Unidade e mobilização trazem tanto resultado que basta lembrar que as propostas por parte do patrocinador e seus indicados para aumentar drasticamente as coparticipações foram feitas pela primeira vez nesta década em novembro de 2014, na peça orçamentária para 2015 e nós NÃO permitimos que isso ocorresse por entender que não era justo com os associados. As mobilizações nacionais de 2015 adiante e as mesas negociais com o banco, que trouxeram novos recursos de ambas as partes - e não só dos associados -, foram sustentadas pela unidade e mobilização dos associados e suas entidades representativas.

No segundo artigo dias atrás, falei um pouco das experiências exitosas das autogestões Cassi e Cassems - dos servidores do Mato Grosso do Sul -, quando o assunto é cuidar da saúde de segmentos de trabalhadores em sistemas próprios solidários e autogeridos. A Cassi tem a maior estrutura nacional privada de medicina de família (ESF), com 66 unidades CliniCassi por todo território nacional e quase 150 equipes de família, atendendo a mais de 180 mil pessoas, grande parte delas idosa e/ou com doenças crônicas, e a ESF reduz a ida desses segmentos à rede privada e às internações constantes. A Cassems tem uma ótima estrutura própria com 10 hospitais, estruturas de diagnose e agora avança na medicina de família. Ambas autogestões com forte olhar na prevenção de doenças e promoção de saúde. (ler aqui).

Neste artigo, pretendia dialogar um pouco com o presidente do Conselho Deliberativo da nossa Cassi, em relação a um artigo dele do dia 10 de junho onde apresentava suas preocupações para a busca do equilíbrio financeiro e para a gestão, porém se tornou prioritário opinar sobre eventos mais recentes e muito impactantes na vida dos associados da Cassi: os aumentos nas coparticipações ocorridos do final de 2018 pra cá (dois aumentos que resultam de 10% para 30% em exames e de 30% para 50% sobre consultas, ambos sem teto). 

Eu não tenho intenção de ser rude ou fazer enfrentamento às decisões tomadas pela direção da nossa autogestão, haja vista que ela é indicada pelos associados e pelo patrocinador. No entanto, o momento é oportuno para que membros da comunidade participem e opinem, e é inegável que tenho certo conhecimento do sistema Cassi por ter feito parte da gestão por 4 anos, além de ter grande apreço pela nossa autogestão, pelo modelo assistencial e pelo quadro qualificado de empregados.

AUMENTOS NA COPARTICIPAÇÃO E RETIRADA DO TETO LIMITADOR PODEM INVIABILIZAR O SISTEMA CASSI

Antes de mais nada, sob a ótica da origem histórica do evento em questão - "coparticipação" -, me parece inadequada a decisão de passar a cobrar de forma ilimitada a coparticipação sobre eventos de diagnose (exames) e terapia que não estejam vinculados à internação hospitalar. Basta lembrar que o teto limitador da cobrança em 1/24 sobre o salário ou benefício foi apresentado aos associados na reforma estatutária de 2007 como um "avanço" já que o banco queria 20% com teto de 1/12 no início das negociações (que duraram mais de 1 ano). Toda a proposta está apresentada pela própria direção da Cassi na edição especial do jornal Cassi de Julho/Agosto de 2007. Os associados deliberaram em votação nacional plebiscitária baseados naquela proposta de reforma estatutária, e a coparticipação foi apresentada como sendo em vez única e não cumulativa. Ver aqui também na revista O Espelho (nº 244) que abordou o tema. 

A questão foi central para aprovação ou não da reforma estatutária, pois os bancários eram contrários à implantação da coparticipação e o patrocinador exigia de forma inegociável a implantação da mesma (queria inclusive 20% sobre tudo). O banco alegava que a coparticipação seria um fator moderador. Da parte dos representantes dos associados, a exigência era não ter a coparticipação. Entre idas e vindas em meses de negociação, o teto de 1/24 em vez única e com exceções de cobrança em alguns eventos ficou definido. Me parece um pouco arbitrário alterar algo assim com uma simples decisão interna da operadora e autogestão Cassi. Decisão esta que pode aumentar diversas vezes os gastos em saúde das pessoas que mais precisam do plano por já estarem ou virem a ficar doentes.

Além dessa questão legal, normativa e formal porque envolveu reforma estatutária e o corpo social, outra preocupação grande é em relação ao próprio funcionamento do sistema Cassi, baseado em Atenção Primária, ESF e acompanhamento de doentes crônicos, que no caso da população BB/Cassi é algo como quase a metade da população assistida. Qual o sentido de um associado ir a uma consulta regular da CliniCassi (modelo preventivo e monitorador de doenças), e ao ser encaminhado para exames de acompanhamento de seu caso crônico, ter que passar meses pagando pela coparticipação do mesmo? Isso será o fim do modelo! Basta lembrar que a Cassi tem em sua população cuidada pela ESF uma maioria com mais idade e com uma ou várias comorbidades. Isso é um absoluto contrassenso! Sem contar que as despesas de internações (responsáveis pela metade das despesas da Cassi) vão aumentar de forma desnecessária.

Nós mostramos nos estudos da Diretoria de Saúde ao longo de 4 anos que o modelo assistencial é tão eficaz no uso dos recursos da Cassi para quem já teve a oportunidade de ser cuidado pela ESF que todos os índices são melhores quando comparamos os não cadastrados na ESF e os cadastrados e vinculados ao modelo. As internações são bem menores nos casos de maior grau de complexidade da condição de saúde, grau 3. Também são menores as idas a pronto atendimento/socorro. Estamos falando de diferenças de 20% que podem chegar a 40% em cima de valores de milhões de reais. Tudo isso fica sob risco com as decisões de aumentar absurdamente as coparticipações e retirar o teto de cobrança.

Por fim, eu diria que o sistema de saúde Cassi é um sistema sensível como a própria natureza, onde tudo funciona como um relógio e o equilíbrio está em não fazer mudanças drásticas no ecossistema, sob risco de toda uma cadeia de biodiversidade ser perdida. Os associados da Cassi estão distribuídos em um país continental, com 26 estados e DF e com mais de 5600 municípios. São lá que estão nossos participantes. 

Se o sistema passar a cobrar absurdamente valores de parte importante dos participantes que estão em mais de 4 mil municípios que já não têm estrutura adequada de saúde (e não por culpa da Cassi), esses participantes podem sair do Plano de Associados de forma perigosa para a escala do sistema Cassi. Por isso, sempre alertei a todos os gestores e negociadores para não exagerarem nas discussões e proposições de onerar os participantes, porque a Cassi pode perder dezenas de milhares deles, expulsos pela impossibilidade de pagarem os custos e se manterem na Cassi. Queremos uma Cassi solidária e para todos e não para alguns.

Amig@s, em linhas gerais é isso que penso a respeito do aumento substancial das coparticipações na nossa Caixa de Assistência e do não cumprimento do teto de 1/24 do salário bruto ou benefício de aposentadoria dos associados (4,17%), não cumulativo e em vez única, proposto pelo patrocinador em 2007 e aceito pelos associados na reforma estatutária. Seguindo a tradição secular de nossa comunidade Banco do Brasil, as melhores alternativas de solução tendem a vir através da retomada das negociações entre as partes: patrocinador e trabalhadores associados. Dá mais trabalho negociar e construir consensos, no entanto, o resultado traz mais pertencimento a todos e mais empoderamento no encaminhamento das decisões posteriores.

Abraços, 

William Mendes

terça-feira, 25 de junho de 2019

Que podemos fazer? Compartilhar experiências


Arco-íris. Foto: William Mendes.

Refeição Cultural

Há momentos na vida em que nos pegamos meio perdidos, andando a esmo por aí. Algumas pessoas se adaptam bem a isso e até buscam viver assim, tipo "deixa a vida me levar". Outras pessoas têm certa necessidade em ter objetivos a alcançar, em ter um certo plano de por onde ir e aonde chegar.

Quando olho para trás, vejo que quis ser do primeiro tipo, mas acabei precisando ser do segundo tipo. Certa vez, um companheiro do movimento sindical me disse que eu não tinha nada de "anarquista", que eu queria mesmo era ver as instituições da sociedade humana funcionando como deveriam funcionar.

E assim fomos sobrevivendo a vida, assim vivemos entre a adolescência e a madurez dos cinquenta anos. Fazia listas de objetivos pessoais, muitos deles coisas básicas de direitos humanos como querer ter uma casa pra morar, poder trabalhar decentemente e estudar, amar e ser amado, ter uma motocicleta etc.

Ao mesmo tempo em que as pessoas vão atrás de seus sonhos e objetivos, as pessoas vivem em sociedade, e essa relação do ser humano com o seu meio é definidora de absolutamente tudo que vai acontecer na vida, queiramos ou não. Se estivermos numa sociedade injusta, preconceituosa, autoritária, pautada pela violência e ódio, sem igualdade de oportunidades, tudo será mais difícil, se não impossível.

Ao querer trabalhar e não ter emprego, seus sonhos emperram. Ao querer estudar e não ter oportunidade por falta de vaga pública ou falta de dinheiro para a vaga particular, seus objetivos não se realizam. Ao não trabalhar e não estudar, a pessoa não terá casa, não terá bens próprios, não terá condições de amar e ser amada, não terá uma vida na plenitude do conceito.

Eu nasci num Brasil cujos governos não olhavam para o povo, para gente como nós, eram tempos de ditadura civil-militar nos anos setenta e oitenta, toda minha família era de gente tentando sobreviver na vida sem oportunidades. Os governos eram montados para cumprirem a agenda da elite, e para manterem quieta a classe trabalhadora. A ordem clara do governo e velada nos espaços privados era: não se rebelem! não se manifestem! E a elite através de seus meios acalentava os miseráveis dizendo que havia paz social.

Depois sobrevivi num Brasil cujos governos passaram a ser eleitos pelo povo. As liberdades voltaram a dar esperanças de dias melhores e futuro com mais oportunidade para todos. Os primeiros governos eleitos também preferiram cumprir a agenda da elite, mantendo uma relação secular de patrimonialismo da casa grande se beneficiando do Estado. E o povo continuou a não ser a pauta central e o objetivo dos governos nos anos noventa.

Então vivi a virada do século e do milênio e o povo escolheu governos que passaram a incluir no orçamento e nos objetivos do Estado aquilo que a carta magna de 1988, a Constituição Federal, definia como direitos dos cidadãos. Estava escrito lá que o povo tinha direitos civis, políticos e sociais. E os governos mais democráticos e populares passaram a perseguir os objetivos da CF. Por mais de uma década, o Estado foi indutor da economia e o orçamento federal com políticas públicas deu ao povo oportunidades de emprego, educação e, com isso, deu alimento, lazer e sonhos a dezenas de milhões de pessoas. Os governos do PT nos deram, sobretudo, o espírito de pertencimento em sermos brasileiros e o povo era feliz (mesmo que alguns não tivessem consciência disso).

Por praticamente duas décadas, fiz parte dessa experiência brasileira de ascensão do povo no olhar e na pauta do Estado e dos governos democráticos do PT e demais partidos progressistas e populares após o início dos anos dois mil. Virei representante eleito pelos trabalhadores em instituições sindicais e sociais de classe desde 2002 e cumpri mandatos com várias tarefas diferentes até 2018. Foi a maior e melhor experiência que um ente da classe trabalhadora pode ter: estar nas lutas pacíficas e democráticas por direitos para as pessoas comuns como nós bancários e demais segmentos de trabalhadores do povo brasileiro.

Cumpri uma espécie de quarentena de um ano sem me envolver nas discussões da comunidade Banco do Brasil após terminar o mandato na nossa entidade de autogestão em saúde, assim respeitava o processo democrático e dava um prazo razoável sem questionar as ações e decisões tomadas pelos representantes que estão à frente da gestão da Cassi. 

Da mesma forma que não me envolvi com opiniões nas questões das nossas entidades de saúde e previdência, também não me envolvi nas discussões políticas das entidades sindicais. É fato que ajudei a construir o movimento sindical bancário e classista por duas décadas e desejo muito que a classe trabalhadora consiga unidade e mobilização para barrar e reverter os ataques aos direitos históricos que vêm sendo retirados do povo trabalhador como, por exemplo, os próprios bancários da ativa e aposentados.

Acredito que a experiência que acumulei no seio do movimento sindical e social me permite contribuir de alguma forma para que os atuais representantes dos trabalhadores e eles próprios possam desenvolver novas ideias e estratégias de fortalecimento das lutas pela manutenção de nossos direitos trabalhistas, de saúde, de previdência, e todos os demais direitos civis, políticos e sociais.

Na medida de minhas possibilidades, voltarei a escrever sobre a experiência nas questões de gestão de saúde, e se for de interesse da comunidade Banco do Brasil e do movimento sindical, estou à disposição para partilhar as experiências que tivemos nas áreas de organização dos trabalhadores, formação política e de história do movimento de luta de classes. 

Hoje sou um cidadão consciente que sofre todos os dias com os ataques que são desferidos contra os trabalhadores brasileiros e suas instituições de classe e quero contribuir com as lutas sociais, apesar de não ser dirigente político ou partidário.

Abraços a tod@s,

William Mendes


Post Scriptum:

É tão desesperador ver que nosso país não vive mais em um estado democrático de direitos, que um regime de exceção tomou conta do Brasil e que as forças de ocupação dos espaços de poder podem tomar medidas arbitrárias contra qualquer cidadão, como fazem ao manter preso sem crime e sem respeito aos seus direitos constitucionais o cidadão de 73 anos Lula da Silva, que, às vezes, a gente fica sem rumo para as coisas mais triviais do cotidiano. Eu não tive cabeça sequer para fazer uma prova de faculdade hoje. Mas isso parece tão irrelevante perto do que estão fazendo com o Lula, com o povo brasileiro, com nossos direitos...

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Marx explica o dinheiro em 'O Capital'





Refeição Cultural

Confesso que sempre que abro o livro O Capital e começo a leitura neste momento da minha vida, da história do Brasil e da história do mundo, fico me perguntando qual o sentido disso, sendo que os livros clássicos da literatura mundial continuam me esperando, e o meu tempo de existência vai passando sem que eu leia mais alguns clássicos que marcaram a história das artes literárias.

Eu não sei ao certo por que não aproveito cada minuto que ainda tenho e foco em ler o que desejo há décadas. Talvez esteja comprometido para sempre com o engajamento político que tive nas últimas duas décadas com o movimento sindical, social e político nas lutas por um mundo mais justo e solidário, e isso me force a estar sempre engajado em algo, nem que seja leituras políticas que nos façam compreender por que as coisas são como são, por que deu tudo errado no Brasil, por que o povo decidiu pelo suicídio coletivo ao escolher degenerados e lesas-pátrias para governar o país após tantos avanços com os governos democráticos e progressistas do Partido dos Trabalhadores.

Eu tenho consciência que estou perdido, que estou sem rumo, que as coisas perderam o sentido para mim. O pior é ter perdido a esperança em ver o povo deixar de ser besta, alienado e tomar consciência de seu lugar e seu papel numa eventual mudança de rumo para o país, que neste momento se desfaz, enquanto o povo miserável e a ficar mais miserável ainda continua com a cara nas telas das redes sociais rolando as memes imbecilizantes tela acima, curtindo e replicando elas quando dizem o que cada um sente e pensa, independente da meme ser verdade ou não. Os humanos se perderam. O homo sapiens sapiens será extinto.

Enfim, feito o desabafo, vamos às explicações de Karl Marx sobre o dinheiro, pois são bem interessantes. Lembro aos leitores que procuro citar as falas dele mesmo, e emitir pouca opinião, ao molde de fichamento de leitura.


III. O DINHEIRO OU A CIRCULAÇÃO DAS MERCADORIAS (P. 119)

1. MEDIDA DE VALORES

Marx começa o capítulo combinando com o leitor que usará o ouro como mercadoria dinheiro para simplificar as explicações.

O ouro exercerá a função de medida universal dos valores e só por meio desta função, a mercadoria equivalente específica, se torna dinheiro.

Abaixo, citamos uma síntese básica do que isso significa, lembrando a questão central de que as mercadorias trazem em si o valor do trabalho humano.

"Não é através do dinheiro que as mercadorias se tornam comensuráveis. Ao contrário. Sendo as mercadorias, como valores, encarnação de trabalho humano e, por isso, entre si comensuráveis, podem elas, em comum, medir seus valores por intermédio da mesma mercadoria específica, transformando esta em sua medida universal do valor, ou seja, em dinheiro. O dinheiro, como medida do valor, é a forma necessária de manifestar-se a medida imanente do valor das mercadorias, o tempo de trabalho."

Depois Marx nos explica que "como forma do valor, o preço ou a forma dinheiro das mercadorias se distingue da sua forma corpórea, real e tangível. O preço é uma forma puramente ideal ou mental...".

No fundo, o trabalho humano está sempre presente no valor das mercadorias.

"O valor, ou seja, a quantidade de trabalho humano contida, por exemplo, numa tonelada de ferro, é expresso numa quantidade imaginária da mercadoria ouro, que encerra quantidade igual de trabalho."

DUAS FUNÇÕES DO DINHEIRO, SEGUNDO MARX

"Medida dos valores e estalão dos preços são duas funções inteiramente diversas desempenhadas pelo dinheiro. É medida dos valores por ser a encarnação social do trabalho humano; é estalão dos preços, por ser um peso fixo de metal. Como medida de valor, serve para converter os valores das diferentes mercadorias em preços, em quantidades imaginárias de ouro; como estalão dos preços, mede essas quantidades de ouro. A medida dos valores mensura as mercadorias como valores; o estalão dos preços, ao contrário, mede as quantidades de ouro segundo uma quantidade fixa de ouro, não o valor de uma quantidade de ouro segundo o peso de outra."

Estalão quer dizer padrão, medida (standard of value). Medida dos valores é measure of value.

Marx explica que uma variação no valor do ouro não traz nenhum prejuízo à sua função de estalão dos preços: "Por mais que varie o valor do ouro, quantidades determinadas de ouro mantêm entre si a mesma proporção de valor".

Uma onça de ouro terá sempre o mesmo peso, independente do valor do ouro. O mesmo ocorre como medida de valor das mercadorias, se sobe ou desce o valor do ouro, o efeito será sobre todas as mercadorias.

O filósofo segue explicando no capítulo os usos históricos da mercadoria dinheiro citando casos desde a antiga Roma até chegar ao padrão ouro.

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NOMES MONETÁRIOS - "Os preços, ou as quantidades de ouro em que se transformam, idealmente, os valores das mercadorias, são agora expressos nos nomes de moedas, ou seja, nos nomes legalmente válidos do padrão ouro. Em vez de dizer que uma quarta de trigo é igual a uma onça de ouro, diremos, na Inglaterra, que é igual a 3 libras esterlinas, 17 xelins e 10 e 1/2 pence. Assim, as mercadorias expressam com nomes monetários, o que valem, e o dinheiro serve de dinheiro de conta quando é mister fixar o valor de uma coisa em sua forma dinheiro."
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Marx vai finalizando essa parte do capítulo deixando claro que não adianta os governos quererem aumentar a riqueza de seus estados com artimanhas contábeis dizendo que seus capitais, suas moedas, valem mais do que valem.

"O nome de uma coisa é extrínseco às suas propriedades. Nada sei de um homem por saber apenas que se chama Jacó. Do mesmo modo, todo vestígio de relação de valor desaparece dos nomes das moedas libra, táler, franco, ducado etc. A confusão que decorre do sentido misterioso atribuído a esses símbolos cabalísticos torna-se maior por expressarem os nomes das moedas valor e, ao mesmo tempo, partes alíquotas de um peso de metal, de acordo com o padrão monetário..."

Nas notas explicativas, Marx ainda cita um autor do século XVII, Petty, ao fazer ironia sobre governos que querem enganar credores e o povo alterando artificialmente o valor de suas moedas: "Se a riqueza de uma nação pudesse ser decuplicada por ato governamental, seria de estranhar que os nossos governos não tivessem, há muito tempo, decretado atos com esse objetivo".

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Lembre-se: "O preço é a designação monetária do trabalho corporificado na mercadoria".
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PREÇO

Marx faz uma longa explicação sobre a questão do preço nas mercadorias.

"Se o preço, ao revelar a magnitude do valor da mercadoria, revela a relação de troca da mercadoria com o dinheiro, não decorre daí necessariamente a recíproca de que o preço, ao revelar a relação de troca da mercadoria com o dinheiro, revele a magnitude do valor da mercadoria"

Isso porque, por exemplo, "Trabalho socialmente necessário de igual grandeza cristaliza-se em 1 quarta de trigo e em 2 libras esterlinas (cerca de meia onça de ouro). As duas libras esterlinas são a expressão monetária da magnitude de valor de 1 quarta de trigo, ou seu preço. Admitamos que as circunstâncias elevem sua cotação a 3 libras esterlinas, ou compilam-na a cair a 1 libra; então, 1 libra esterlina é uma expressão demasiadamente baixa da magnitude do valor do trigo, e 3 libras, uma expressão alta demais, mas, apesar disso, são os preços do trigo, pois, primeiro, são sua forma de valor e, segundo, indicam sua relação de troca com o dinheiro. Não se alterando as condições de produção, em outras palavras, não se modificando a força produtiva do trabalho, deve-se continuar despendendo para a reprodução de uma quarta de trigo o mesmo tempo de trabalho social. Esta circunstância não depende da vontade do produtor do trigo, nem da dos outros donos de mercadorias. A magnitude do valor da mercadoria expressa uma relação necessária entre ela e o tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la, relação que é imanente ao processo de produção de mercadorias..."

Essa parte é importante para a compreensão do que Marx explica sobre a relação preço e valor das mercadorias. Por isso, é necessário citar o trecho todo. Segue:

"Com a transformação da magnitude do valor em preço, manifesta-se essa relação necessária através da relação de troca de uma mercadoria com a mercadoria dinheiro, de existência extrínseca à mercadoria com que se permuta. Nessa relação, pode o preço expressar tanto a magnitude do valor da mercadoria quanto essa magnitude deformada para mais ou para menos, de acordo com as circunstâncias. A possibilidade de divergência quantitativa entre preço e magnitude de valor, ou do afastamento do preço da magnitude de valor é, assim, inerente à própria forma preço. Isto não constitui um defeito dela, mas torna-a a forma adequada a um modo de produção em que a regra só se pode impor através de média que se realiza, irresistivelmente, através da irregularidade aparente."

HONRA E CONSCIÊNCIA TÊM PREÇO?

No fim, Marx fala até de coisas que, no modo de produção capitalista, podem receber preço, mesmo não tendo valor quantificável, como honra, consciência etc.

A questão vem bem a calhar para o momento em que vivemos.

É isso! Abraços aos leitores e leitoras.

William

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