terça-feira, 28 de maio de 2013

Jamais voltamos ao mesmo livro e à mesma página porque nós mudamos... (Alberto Manguel)


Francesco Petrarca
(Altichiero da Zefio, Wikipedia)
"No Secretum meum, Petrarca (com seu prenome cristão, Francesco) e Agostinho sentam-se e conversam em um jardim, observados pelo olhar firme da Senhora Verdade. Francesco confessa que está cansado da vã azáfama da cidade; Agostinho responde que a vida de Francesco é um livro como aqueles da biblioteca do poeta, mas um livro que ele ainda não sabe como ler, e relembra-lhe vários textos sobre o tema das multidões enlouquecidas - inclusive do próprio Agostinho. 'Eles não te ajudam?' - pergunta ele. Sim, responde Francesco, durante a leitura são muito úteis, mas 'assim que o livro deixa minhas mãos, todos os meus sentimentos por ele desaparecem'.

Agostinho: Essa maneira de ler é agora bastante comum; há uma tal multidão de homens letrados... Mas se tivesse rabiscado algumas notas no lugar adequado, poderias facilmente deleitar-te com o fruto de tua leitura.

Francesco: A que tipo de notas fazes referência?

Agostinho: Sempre que leres um livro e encontrares frases maravilhosas que te instiguem ou deleitem teu coração, não confies apenas no poder de tua inteligência, mas força-te a aprendê-las de cor e torná-las familiares meditando sobre elas, de tal forma que ao surgir um caso urgente de aflição terás sempre o remédio pronto, como se estivesse escrito em tua mente. Quando encontrares quaisquer trechos que te pareçam úteis, faz uma marca forte neles, que poderá servir de visto em tua memória, pois de outra forma eles poderão voar para longe.

O que Agostinho (na imaginação de Petrarca) sugere é uma nova maneira de ler: nem usando o livro como um apoio para o pensamento, nem confiando nele como se confiaria na autoridade de um sábio, mas tomando dele uma ideia, uma frase, uma imagem, ligando-a a outra selecionada de um texto distante preservado na memória, amarrando o conjunto com reflexões próprias - produzindo, na verdade, um texto novo de autoria do leitor. Na introdução de De viris illustribus, Petrarca observou que esse livro deveria servir ao leitor como 'uma espécie de memória artificial' de textos 'dispersos' e 'raros' que ele não apenas coletara, mas, o que é mais importante, nos quais dera uma ordem e um método. Para seus leitores do século XIV, a reivindicação de Petrarca era espantosa, pois a autoridade de um texto era auto-estabelecida, enquanto a tarefa do leitor era a de um observador de fora. Um par de séculos depois, a forma de ler de Petrarca, pessoal, recriadora, interpretadora, cotejadora, iria se tornar o método à luz do que chama de 'verdade divina': um sentido que o leitor deve possuir, com o qual deve ser abençoado, para escolher e interpretar seu caminho através das tentações da página. Mesmo as intenções do autor, quando presumidas, não têm nenhum valor no julgamento de um texto. Este, sugere Petrarca, deve ser feito mediante as lembranças que se tenha de outras leituras, para as quais dar e receber, de separar e juntar, o leitor não deve exceder as fronteiras éticas da verdade - quaisquer que sejam elas, ditadas pela consciência do leitor (pelo senso comum, diríamos). Em uma de suas muitas cartas, Petrarca escreveu: 'A leitura raramente evita o perigo, exceto se a luz da verdade divina iluminar o leitor, ensinando o que procurar e o que evitar'. Essa luz (para usar a imagem de Petrarca) ilumina de modo diferente a todos nós, e também varia nos diversos estágios de nossa vida. Jamais voltamos ao mesmo livro e nem à mesma página, porque na luz vária nós mudamos e o livro muda, e nossas lembranças ficam claras e vagas e de novo claras, e jamais sabemos exatamente o que aprendemos e esquecemos, e o que lembramos. O que é certo é que o ato de ler, que resgata tantas vozes do passado, preserva-as às vezes muito adiante no futuro, onde talvez possamos usá-las de forma corajosa e inesperada." (pág. 81-83, do capítulo O livro da memória)


COMENTÁRIO

"mas tomando dele uma ideia, uma frase, uma imagem, ligando-a a outra selecionada de um texto distante preservado na memória, amarrando o conjunto com reflexões próprias - produzindo, na verdade, um texto novo de autoria do leitor"

Este blog, desde sua criação, faz já alguns anos, tem um pouco disto que Agostinho sugeriria à Petrarca: eu vou lendo, lendo, vendo filmes, observando a vida, e vou anotando trechos ou situações e fazendo novos textos e reflexões a partir deles.

Conversando com meu sobrinho em Uberlândia neste fim de semana, fiquei encantado com o jeito que ele próprio está encantado com as aulas de filosofia e com as possibilidades que ele viu na biblioteca da UFU. Ali tem o mundo e ele me lembrou a sensação que eu sentia quando entrava na biblioteca da FFLCH na USP. Se eu pudesse, viveria ali, lendo, refletindo e escrevendo.

Graças aos governos Lula e Dilma, jovens pobres e de origem afrodescendente como meus sobrinhos estão nas universidades públicas do Brasil tendo oportunidades de estudar e acessar todo o conhecimento disponível no mundo.


Bibliografia:

MANGUEL, Alberto. Uma História da Leitura. Companhia Das Letras. Edição 1999, 4a reimpressão.

domingo, 26 de maio de 2013

Crônica: Amor, uma fortaleza!


Tia Lúcia, minha mãezinha Dirce e meu paizinho Gercir.

Refeição Cultural - Amor

Rápida passagem por Minas Gerais para estar algumas horas com minha família. A vida está difícil. Nossa vida está difícil.

O amor incondicional como o que sinto por meus pais me dá fôlego para as batalhas diárias da vida na luta que empreendo contra o capitalismo, contra as traições, contra a falta de ética e de valores que encontramos diariamente pelo caminho.

Sou um privilegiado de ter pais como estes.

Amor, uma Fortaleza!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

"Scripta manent, verba volant" - O inverso do que se pensa


Capa do livro.
"As palavras escritas, desde os tempos das primeiras tabuletas sumérias, destinavam-se a ser pronunciadas em voz alta, uma vez que os signos traziam implícito, como se fosse sua alma, um som particular. 

A frase clássica scripta manent, verba volant - que veio a significar, em nossa época, "a escrita fica, as palavras voam" - costumava expressar exatamente o contrário: foi cunhada como elogio à palavra em voz alta, que tem asas e pode voar, em comparação com a palavra silenciosa na página, que está parada, morta

Diante de um texto escrito, o leitor tem o dever de emprestar voz às letras silenciosas, a scripta, e permitir que elas se tornem, na delicada distinção bíblica, verba, palavras faladas - espírito. As línguas primordiais da Bíblia - aramaico e hebreu - não fazem diferença entre o ato de ler e o ato de falar; dão a ambos o mesmo nome" (pág. 62, do capítulo "Os leitores silenciosos")


COMENTÁRIO

Sigo pensando que este livro do Alberto Manguel é uma "bíblia" do leitor, um livro de cabeceira dos amantes da leitura. Nele, vemos um diário de cada pessoa que algum dia leu neste nosso pálido ponto azul no Universo - o planeta Terra.


Bibliografia:

MANGUEL, Alberto. Uma História da Leitura. Companhia Das Letras. Edição 1999, 4a reimpressão.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Artigo: A Vida no pálido ponto azul do Universo



Refeição Cultural

Dias atrás, em meio ao meu estresse das cerca de quinze horas de trabalho diárias (há várias semanas) para preparar o 24º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil, me veio por acaso, em um instante, este vídeo de Carl Sagan sobre o nosso Mundo, nosso único e solitário ponto de vida no vasto Universo.

Quedei-me perplexo naquele instante, emocionado com um vídeo de Astronomia que tanto me falou.

Acabei decidindo passá-lo na abertura do Congresso para pedir tratamento respeitoso e gentil àquelas pessoas especiais que ali estariam para debater formas de combater as mazelas de um banco aos seus funcionários e, por que não dizer, debater as formas de mudar o rumo suicida que nossa civilização capitalista está levando adiante.

Fiquei pensando em tanta coisa. Fizemos o Congresso. Avalio que foi positivo e, em geral, as pessoas foram tolerantes e bastante solidárias nos debates.

***

Sigo pensando sobre a Vida e o sentido de tudo que estamos fazendo, em tudo que estou fazendo.

Faz tempo que escrevo que não estou cansado de lutar, porque nasci na classe trabalhadora, pertenço a ela e vou lutar até morrer. Aliás, não tenho nenhum desejo de mudar de lado e pertencer à classe dominante do sistema capitalista. Quero derrubar o sistema capitalista. Não quero mudar de lado e virar algoz e explorador.

Mas me preocupa muito o rumo que nós humanos estamos dando ao nosso único e pálido ponto azul no Universo, da maneira como estamos lidando com ele nesses duzentos e poucos anos de exploração capitalista.

O ser humano, como o conhecemos, tem vivido há algumas dezenas de milhares de anos sobre as partes sólidas do planeta Terra. As populações originárias viveram modificando o planeta com suas tecnologias de adaptação e melhorias para a vida humana.

Mas não fizemos com o planeta em dezenas de milhares de anos o que fizemos nestes últimos duzentos anos. O sistema capitalista baseado na criação do desejo no fetiche da matéria e no modelo seguinte de qualquer bugiganga faz com que se comece a temer pela vida nas próximas décadas. Estamos exterminando com velocidade exponencial o mundo vegetal e animal que se constituiu em milhões de anos.

***

Eu sempre quis um tempo pra ler, escrever e refletir sobre a Vida em si, sobre a razão da existência das coisas e sempre busquei sentido e um pouco de paz neste curto espaço de tempo que é uma vida humana neste pálido ponto azul no Universo.

Nos últimos anos, não tenho tido um átimo de tempo sequer para esta minha busca. Já perdi minha vovó Cornélia, minha tia Alice. Pessoas que me davam um sentido em lutar por um mundo melhor pelo quanto elas eram inocentes e puras em suas simplicidades. Minha mãezinha Dirce e meu paizinho Gercir são ainda dois fortes vínculos de amor puro e simples neste meu instante de existência neste pálido ponto azul em que respiramos. São idosos e estão cheios de problemas de saúde e nas filas intermináveis de espera do SUS. E eu mal tenho visto meus paizinhos lá em Minas Gerais. Quando eles não estiverem mais comigo, não vai adiantar me lamentar sobre o tempo perdido.

***

Não liguei o celular pela manhã. Não consegui levantar-me cedo porque ainda estou mal de saúde. Mesmo assim, saí para correr um pouco pra ver se acho a Vida em mim. Vou pro trabalho agora. Sou bancário dirigente sindical. Meu salário é de seis horas de trabalho como escriturário, mas ainda vou trabalhar umas dez horas hoje. Sei disso.

William Mendes

domingo, 12 de maio de 2013

Artigo: Nova York sitiada – 1998 (The Siege)


Poster do filme de 1998.

Refeição Cultural – Uma questão de valores

Filme com Denzel Washington, Annette Bening e Bruce Willis. 
Dirigido por Edward Zwick.

Sinopse do filme (ao final do texto há revelações do enredo)

A estória do filme começa com o sequestro de um líder religioso iraquiano pela CIA após um ataque terrorista a bases americanas na região do Oriente.

Começa então em Nova Iorque uma série de ataques terroristas que vão se ampliando em relação ao poder de estrago e número de vítimas.

O herói bonzinho do filme é o agente do FBI Anthony “Hub” Hubbard (Denzel Washington). O americano que faz o lado ambíguo do Tio San é o general William Devereaux (Bruce Willis). A agente dupla da CIA que atuou por longo tempo no Oriente e que tem participação importante no que está ocorrendo em Nova Iorque é Elise Kraft / Sharon Bridger (Annette Bening).

A tragédia do terrorismo

Uma das questões que nos leva a muitas reflexões é sobre a eterna tragédia do terrorismo e da violência contra as pessoas e o assassinato de cidadãos de qualquer parte do mundo.

O filme antecipou em ficção o que viria a ocorrer em Nova Iorque após o ataque terrorista contra as Torres Gêmeas em 2001 com a morte de mais de 3 mil pessoas. Antecipou também o que viria a ser a linha adotada pelo governo norte-americano na “guerra contra o terrorismo” com sua política de violações aos direitos humanos e contra toda e qualquer razoabilidade no que diz respeito às violações das liberdades civis nos Estados Unidos e também no mundo com as invasões americanas em diversos países após o 11 de setembro.

Se já ficamos enojados no filme com o que os agentes da CIA fizeram com aquelas 1.500 pessoas de origem árabe do bairro do Brooklin durante a perseguição e busca de alguns terroristas árabes, o que dirá do absurdo que é até hoje a existência e manutenção da Base de Guantánamo violando todos os direitos humanos e civis e todas as leis internacionais!

A importância da preservação dos valores éticos e morais

O filme me fez refletir sobre a questão dos valores que nos movem, que nos definem e que nos dão alguma razão em fazer o que fazemos.

Na estória de Nova York sitiada, o que aparentemente é uma “simples” questão de guerra entre mundos (Ocidente x Oriente; árabes x americanos), se trata mais especificamente de vingança por traições, se trata de pactos não cumpridos, de quebra de limites e valores éticos e morais com reflexos para todos os lados.

A agente Sharon/Elise da CIA criou uma célula terrorista no Iraque com apoio de um líder religioso local para derrubar Saddan Hussein. Depois os EUA mudaram de ideia e deixaram sua célula local iraquiana ser destroçada. O líder religioso e seu grupo dão o troco nos americanos com um sanguinolento ataque suicida em uma base americana no Oriente. Os EUA replicam de novo e sequestram o líder religioso.

A agente Sharon da CIA acabou levando alguns dos sobreviventes de seu grupo terrorista contra Saddan Hussein para Nova Iorque. Imaginem quem eram os terroristas que estavam sitiando a cidade para que seu líder religioso fosse libertado pela CIA?

Durante os momentos decisivos da trama, o agente "Hub" do FBI viu os agentes da CIA violando de todas as formas os direitos civis e humanos, além das normas internacionais.

Reflexões sobre os valores éticos e morais de meu mundo

Passei a última década lapidando meu ser, aprendendo a ser um militante orgânico de movimento político e sindical.

Avalio que desde moleque já tinha bons valores morais e éticos passados a mim por meus pais e alguns de meus parentes em suas simplicidades benfazejas. É lógico que fiz um monte de coisa errada como todo mundo faz.

No movimento sindical, aprendi com os meus companheiros do Sindicato, principalmente lideranças do funcionalismo do Banco do Brasil, o que é ser um militante de corrente política e sindical, o que é respeitar os fóruns e fazer o debate político democraticamente e depois encaminhar o que ficou deliberado por maioria ou por consenso progressivo.

Os valores que aprendi e pratiquei foram permeados de solidariedade e de espírito de coletividade, antagônicos do personalismo e do cupulismo (de cúpula), contrários às traições. Os projetos sempre foram políticos e não pessoais. Foi desta forma que acabei indo de função em função, após definições nos fóruns políticos de projetos a se realizar.

Tenho visto e sentido instabilidade e quebras nos valores éticos e morais do movimento de esquerda e humanista nos últimos tempos. É claro que lutamos todos os dias para manter o bom caminho e o norte a perseguir. Mas em alguns dias enfrentamos várias “crocodilagens” ao mesmo tempo... É foda!

Que sobrevivam os valores humanistas da esquerda

Ao final do filme, vence o agente "Hub" do FBI, o mocinho dos valores éticos e morais. Aqueles que traíram os valores, que violaram todos os princípios, foram presos ou morreram. Só tem uma coisa: filme é ficção!

A vida real no mundo em crise capitalista, no mundo da chamada esquerda, no mundo do movimento sindical e social, enfim, a coisa está feia na vida do mundo real.

Espero que consigamos resgatar um pouco dos valores éticos e morais da esquerda e do humanismo: a liberdade, a solidariedade, o valor da vida e a democracia valorizando mais a coletividade que a predominância do querer individual de alguns poucos.

William Mendes

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Artigo: Pessoas que são exemplos de reserva moral


Mãezinha: um exemplo de amor e
reserva moral pra mim


Refeição Cultural

O que poderia dizer sobre as últimas refeições culturais que tive nestas longas semanas ininterruptas de trabalho sindical?

Acho que vale a pena refletir sobre a fala de um companheiro que foi homenageado no XVIII Enafor - Encontro Nacional de Formação da CUT, que participei dias atrás, em Campinas, interior de São Paulo.

O companheiro Arquimedes se aposentou e por muitos anos assessorou a formação da Central Única dos Trabalhadores.

Ele falou de momentos que marcaram ele como pessoa e como militante e uma coisa ficou na minha mente.

PESSOAS QUE SÃO EXEMPLOS DE RESERVA MORAL

Paizinho: outro exemplo de reserva
moral de um batalhador incansável

Ao falar de momentos marcantes em sua vida e jornada de luta, o companheiro Arquimedes citou passagens que ele chamou de momentos e encontros com pessoas que eram exemplos de reserva moral. Eu achei a frase muito bonita e muito importante para um militante de esquerda.

Citou uma vez em que ele estava preparando um local para um debate com muitas pessoas e enquanto ele estava carregando cadeiras acabou dando de cara com Henfil fazendo o mesmo. Henfil já estava mal de saúde, era uma pessoa importante e famosa e simplesmente estava ali como qualquer militante preparando o local para o debate que ocorreria.

Fiquei com a ideia de "reserva moral" na cabeça desde aquele dia...

Eu estou no movimento sindical há onze anos. Não estou cansado de lutar. Sou um trabalhador. Estou na luta de classes e vou lutar a vida inteira. Foi assim desde que me entendo por gente.

Ando cansado da falta de ética e princípios que tenho encontrado do meu lado da classe. O capitalismo e o individualismo estão corrompendo corações e mentes. Somos todos falíveis, é verdade. Mas é preciso ter ao menos vontade para se vigiar, se fiscalizar e o tempo inteiro verificar a si próprio se está atento ao caminho.

Só de pensar no exemplo do Henfil citado pelo companheiro Arquimedes, fico cabisbaixo. Estamos numa época de castas no movimento sindical. De uns serem mais iguais que os outros. Fico imaginando se alguns dirigentes que eu conheço iriam arrumar cadeiras num plenário para um evento com os trabalhadores.

Outro dia, companheiros meus presenciaram militantes sendo destratados por estarem em "área indevida" pra eles (área vip para ver o Lula). Os militantes foram convidados a se retirarem e irem para a entrada onde os "comuns" iriam entrar.


Referências: Sérgio Rosa,
Deli e Deise Lessa
Além das minhas reservas morais na vida pessoal como meu paizinho e minha mãezinha, também tenho algumas que são referência para mim na vida política e sindical. A companheira Deise Lessa que me convidou para fazer parte da chapa 1 do Sindicato dos Bancários em 2002 é uma das minhas reservas morais. Ela e o companheiro Deli Soares são referências importantes de uma vida dedicada a luta dos trabalhadores.

Desde que entrei me esforço para ser um representante dos trabalhadores como ela foi quando eu estava na base. Íntegra, presente e democrática, respeitosa nas divergências. Trabalhadora. Todos os dias nesses onze anos, me esforço para ser um dirigente ético, respeitoso com os trabalhadores e os adversários, incansável na defesa dos trabalhadores que represento e também dos princípios da CUT e da Articulação Sindical, porque participar de movimento social de forma orgânica não funciona com certa "lógica" de se dizer neutro, isento ou coisa do gênero.

Conheço algumas pessoas que estão no movimento sindical há muito tempo e nunca deixaram de ser solidárias, íntegras e combativas.

Finalizo pensando na famosa frase que diz que "A prática é o critério da verdade".

William

domingo, 14 de abril de 2013

Artigo: Fim de semana pra dar um tempo à falta de tempo


Forte Orange - Pernambuco/Brasil
(em 2010)


Refeição Cultural

Sábado e domingo. Meu cansaço não tem permitido a mim mesmo grandes projetos para os finais de semana. Chego em casa e quero não fazer nada.

Assim fiz (nada)...

Assisti a dois filmes intrigantes, mas não estou a fim de escrever postagens de comentários sobre eles. Antes, na sexta à noite, fiz uma façanha para um analfabeto informático: consegui destravar o computador de casa que sofreu aquele bug de atualização do Windows 7. Fucei até conseguir fazer ele reinicializar-se. Eu já havia programado incomodar um amigo do condomínio no sábado de manhã e isso é uma tremenda sacanagem. Nos livrei disso (Qualquer um é capaz de qualquer coisa. Não é isso que sempre escrevo e digo? Basta persistência).

FILMES

Um é brasileiro, é pernambucano: O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, lançado em 2012. É um bom filme. Nos deixa pensativos e aborda o medo e a insegurança do mundo contemporâneo. Foi sugestão do companheiro Deli Soares.

O outro filme é americano, rodado na Espanha em 2004. O operário, com uma interpretação espetacular do inglês Christian Bale. O ator emagreceu 29 kg para fazer o papel. Impressionante! O filme aborda os transtornos vividos por uma pessoa com peso de consciência por algo que fez no passado.

MÚSICA, CORRIDA E LEITURA

No sábado, ouvi música alta. É! Coisa rara. Durante hora e meia escolhi a dedo músicas que gosto. Rock e Pop dos anos bem passados...

Corri um pouco hoje porque ontem eu não tinha a menor condição física pra isso. Corri 5 Km neste domingo frio.

Li um pouco do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

É PRECISO UM POUCO DE PRAZER NA EXISTÊNCIA

Escrevi em meu diário uma reflexão que é bem o que tenho vivido. As duas coisas que mais me dão prazer e sentido na vida é ler e estudar e praticar esporte, mais especificamente correr.

A minha condição e função social atual não me permitem mais fazer nem uma coisa nem outra. Eu não pego um livro porque sei que não poderei lê-lo até o fim. Não adianta começar. Eu não tenho mais agenda sequer para correr com regularidade. Aí, lá raramente quando posso, corro e fico mal depois por falta de sequência.

Está muito ruim sobreviver assim. 

TÁ VALENDO A PENA LUTAR ASSIM?

O pior é a questão de saber se está valendo à pena ou não tudo o que estou fazendo. Eu luto contra o capital e seus gestores. Nós militantes de esquerda somos aquele 1% que luta para alterar um pouco daquilo que os 5% detentores de tudo (Capital) organizam e que os 94% restantes estão lá executando como as baterias humanas do filme Matrix.

No nosso 1% ainda há dezenas de divisões e disputas de uns querendo foder os outros para ocupar os espaços de poder da pequena estrutura social que combate (ou se disfarça e acaba por servir) a aqueles 5% gestores do Capitalismo.

A grande questão (pessoal) é se está valendo à pena manter-me na luta nesses espaços.

Seguimos... Amanhã vou me dedicar a fazer a melhor luta possível, de novo.

William

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Artigo: A memória e o ato de contar


Genésio, uma militante, eu, outro jovem e Rafael
na posse de Lula em 1/01/2003.


Refeição Cultural

Dias atrás, pesquisando sobre literatura na rede mundial, soube de uma coisa que mexeu muito comigo. O grande escritor colombiano Gabriel García Márquez (86 anos) se aposentou em 2009 e está com um tipo de demência que o fez perder a memória. Fiquei com isso na cabeça até hoje.

É muito triste alguém que viveu de contar histórias e criar estórias sofrer justamente um problema que lhe faça perder a memória. Que tristeza para ele, família, amigos e para nós amantes da leitura!

Hoje estava no evento de lançamento das comemorações dos 90 anos do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região. Nosso sindicato tem uma bela história de luta pela democracia e por melhores condições de vida e trabalho para a classe trabalhadora brasileira.

Para resumir o evento de abertura, diria que a cerimônia foi cuidadosa, emocionante e muito bonita. Parabéns a toda a categoria bancária!

---

A memória das lutas, derrotas e conquistas

A história da classe trabalhadora é construída pela própria classe trabalhadora. Cada dirigente, militante, trabalhadora e trabalhador que participou e ou organizou a luta de classes tem muitas histórias pra contar.

Eu estou sempre pensando em organizar a minha versão dos dez anos que vivi como dirigente sindical. É por isso que minhas pilhas de papel e guardados incomodam onde quer que eu chegue para me instalar em uma nova tarefa designada a mim pelo movimento sindical bancário.

Eu participei de toda a luta dos anos dois mil pela construção da Campanha Unificada entre bancos públicos e privados e pela construção vitoriosa da lógica do Aumento Real ao invés de ficar lutando por tabelas de "perdas" fazendo com que as campanhas fossem sempre derrotadas e focadas no passado e não no futuro. A estratégia foi correta para a categoria.

Também tenho orgulho de dizer que estive nas mesas e nas defesas das posições cutistas nas assembleias decisivas do BB entre 2003 e 2012 em nosso Sindicato.

Para eu poder contar minha memória e minhas impressões desses dez anos de campanhas 2003-2012 eu precisaria de uns seis meses para ler, pesquisar e escrever.

Tenho uma memória impressionante do que vivi no movimento nesta década. Mas posso começar a perder isso a qualquer momento. Como vou fazer para escrever esta história, essas memórias?

Eu quero contar um pouco do que vivemos, sobre o que aprendi com a política sindical a partir do meu coletivo de banco (BB) e do Sindicato e que me moldou como dirigente e cidadão militante que atua de forma muito verdadeira e esforçada, mesmo nos momentos de pelejas e divergências de ideias.

Preciso achar uma maneira de pôr no papel de forma organizada, os acontecimentos que vi e vivi como dirigente da Articulação Sindical da CUT.

É isso! Parabéns ao nosso Sindicato pelos nossos 90 anos. Já tenho mais de 20 anos de sindicalizado e 10 como diretor desta entidade classista e de luta.


Referências

Falando em memória e no ato de contar, estiveram no evento do Sindicato duas referências iniciais na vida deste militante e diretor do sindicato. 

Marcos Martins - O funcionário licenciado do Sindicato e Deputado Estadual pelo PT paulista foi um dos primeiros contatos que tive com esta história de luta de nossa entidade. Eu era bancário do Unibanco e trabalhava na agência do CAU na Raposo Tavares. Fui convencido pelo pessoal do Sindicato a chegar lá umas 4 e meia da manhã em 1989 para ajudar a parar os funcionários naquela greve. Deu certo e foi bem legal.

Deise Lessa - Grande pessoa e militante de esquerda. Eu a conheci como diretora do Sindicato. Ela atuava na base e era muito comprometida em organizar os bancários, respeitar a divergência de ideias nos debates e defender as posições tiradas nos fóruns políticos. Me convidou a disponibilizar o nome para a formação da Chapa Cutista do Sindicato em 2000 (não deu certo) e 2002 (deu certo). Desde que virei diretor eleito, me espelho em ser um dirigente como foi a Deise e os companheiros que conheci logo em seguida no coletivo como o Sasseron, Genésio, Deli, Cláudião e demais camaradas com quem convivi.


SOMOS FORTES, SOMOS CUT!

domingo, 31 de março de 2013

Filme: O Palhaço (reflexões...)


Filme de uma reflexão profunda.

Refeição Cultural - A busca é pra sabermos o que somos

Iniciei o feriado de Páscoa sentindo um forte cansaço e quase em estado catatônico. Minha vida sindical, meu trabalho, tem sido marcada por um alto nível de estresse.

Pensei em ler um livro, mas concluí que não iria dar conta. Pensei em assistir a alguns filmes que comprei, filmes políticos, e também concluí que não ia rolar.

Aí peguei para ler um livro de contos de um autor que nunca havia lido. Peguei o José J. Veiga - Os cavalinhos de Platiplanto, lançado em 1959. O autor é um dos principais representantes brasileiros do Realismo Mágico. Já li alguns contos.

Em termos de filmes, assisti na sexta-feira Cavalo de Guerra, de 2011, dirigido por Spielberg. O filme me deu muita agonia pelo sofrimento do cavalo. Passei raiva.

Bem, finalmente, cheguei ao filme de Selton Mello.


"NÃO TÔ DANDO CONTA!" (BENJAMIM)

(este trecho revela partes do filme)

O filme é sobre um grupo circense que percorre o país nos anos setenta. Benjamim (Selton Mello) é o palhaço Pangaré e seu pai (Paulo José) é o Palhaço Puro Sangue. O circo é o Esperança.

Benjamin vive muito infeliz, apesar de ser muito eficiente em sua profissão - palhaço - e fazer a alegria dos outros.

Lendo a história do roteiro do filme feito pelo próprio Selton Mello, descobri que ele criou o roteiro num momento de depressão e busca existencial em sua vida.

A mensagem do filme, passada pelos palhaços, é de que a gente é o que é. Um rato come queijo, um gato bebe leite e eles são palhaços.


E EU, SOU O QUÊ?

Benjamim foi em busca de descobrir o que ele era para encontrar a felicidade. Benjamin descobriu que ele era realmente o palhaço Pangaré. E ficou feliz por isso.

O que eu sou? No Brasil, sindicalista não é profissão. Diz-se que é uma representação passageira. "Estou" sindicalista.

De certa forma, isso é um problema. Troquei um década de estudos filosóficos e busca existencial para ser o melhor representante que pudesse ser. 

Perceberam que sou um bom sindicalista assim que terminou meu primeiro mandato entre 2002/05. Fui disponibilizando meu nome para as chapas e para as tarefas e missões que o movimento cutista me designou.

"O rato come queijo, o gato toma leite, eu sou palhaço" (Benjamim - palhaço Pangaré)

Por tudo que estudei e compreendi nesta década a respeito do movimento sindical e por toda experiência que vivi e construí para a categoria bancária, temos a realidade de que "sindicalista" não é profissão. E aí?


Eu me formei em Contábeis e não atuei porque havia virado funcionário do Banco do Brasil.

Eu cursei e não terminei meu curso de Educação Física de maneira que não sou profissional da área.

Eu entrei na USP para fazer Letras, mas como virei sindicalista em seguida, fiz o bacharelado da maneira que deu e a prioridade foi a representação sindical e não posso dizer hoje que sou profissional da área.

Eu sempre achei que bancário não é profissão, apesar de milhares de pessoas passarem a vida laboral trabalhando para os banqueiros.

E aí, sou o quê?

Essa é a pergunta de minha vida neste ponto que cheguei...

Não sou professor de educação física, não sou contador, não sou professor de português, espanhol, literatura.

Meu roteiro não está escrito para poder rodar meu filme... Não sou palhaço. Estou bancário. Espero ter a sorte de Benjamim e encontrar a felicidade.


William Mendes

domingo, 24 de março de 2013

Artigo: Lutar com dedicação e fazer o que se deve ser feito


Refeição Cultural


Era sábado. Dormi um cochilo no sofá e acordei com o pensamento nos problemas que tenho enfrentado como dirigente nacional do funcionalismo do Banco do Brasil. Isso vem ocorrendo há semanas. Eu sou focado e obcecado por aquilo que me proponho a fazer. Quanto mais os desgraçados do banco prejudicam o funcionalismo, mais eu foco o pensamento em como reverter as merdas feitas por essa gestão do banco do brasil. Eu sempre soube que isso iria acontecer assim que eu aceitasse coordenar nacionalmente o movimento sindical no bb. Evitei isso até o ano passado.

Desde que terminei meu primeiro mandato na executiva do meu sindicato, me destacaram para atuar na confederação para que eu assumisse nacionalmente as questões do bb. Eu havia me destacado nos primeiros anos como dirigente sindical em minha base, principalmente com o meu trabalho de base no bb.

Felizmente, pude me envolver com outras questões além do bb entre 2006 e 2012, pois nos dois mandatos que fiz na confederação até assumir a coordenação nacional do funcionalismo ano passado, fui secretário de imprensa e depois secretário de formação sindical. Ambas tarefas me fizeram estudar muito e crescer como pessoa e como militante de esquerda. 

Aliás, meu mandato atual seguiu na formação e apesar de já termos feito dois cursos básicos de capacitação para dirigentes bancários (PCDA) de 3 módulos cada e dois cursos de especialização em saúde, estou insatisfeito com minha atuação neste mandato (2012-15) porque quero aplicar 3 cursos de especialização neste ano e mais um PCDA e não consigo encaminhar meus projetos formativos por absoluta falta de tempo.

Sempre acreditei que qualquer pessoa pode se destacar em qualquer coisa a que se dedicar

Estou num ritmo de trabalho alucinante e com tanto foco que sei que vou me quebrar, mas não tem outro jeito. O combate às merdas do bb tem que ser feito e vou coordená-lo enquanto for minha tarefa e missão fazê-lo. Sempre foi assim comigo.

Focar assim na luta contra o bb está me emburrecendo como ser humano porque não existe mais lacunas de tempo para meus estudos filológicos e para o ócio criativo. Mas para as grandes batalhas na vida é preciso foco e especialização.

Quando eu olho para trás e vejo minha caminhada, só faço acreditar mais e mais que qualquer pessoa pode realizar qualquer tarefa, mesmo se ela não for dotada de certa genialidade que destaca pessoas em cada área da vida humana por dons.

Fui uma criança franzina e endureci quando tive que endurecer conforme mudaram os ambientes nos quais cresci e vivi.

Fui capinar, quebrar concreto, descarregar toneladas de caixas de caminhões quando foi preciso. Mesmo com minhas mãos pequenas para tal.

Saí do trabalho braçal e acreditei que ler e estudar com foco e perseverança, mesmo que só nas horas em que não estamos na labuta, faz a diferença. Naquelas horas em que muitos foram relaxar nas festas e na farra merecida da adolescência, eu fui estudar e ler. Como as greves nas escolas públicas duravam meses, aprendi matemática básica quase que sozinho em casa à noite.

Quando se tem força de vontade, tudo é possível. A mente humana é uma máquina de aprender que só precisa de estímulos. Na minha opinião, é uma grande bobagem dizer frases limitadoras a si próprio do tipo "não adianta que não consigo aprender matemática... português... física quântica... não tenho jeito para tal coisa...".

Até quando precisei ser bom em jogos como bilhar e sinuca, ganhei grana com isso para meus gastos juvenis.

Quando a vida me abriu a oportunidade de estudar ciências contábeis, eu fiz o curso com os pés nas costas. Eu me lembro de fazer equações de derivadas e outras que não me lembro o nome que se resolviam em várias páginas de caderno. Eu só tirava nota alta nas matérias, sem dificuldade.

Depois, já sendo bancário do bb e desiludido com aqueles anos noventa, fui estudar Educação Física no Náutico, em Mogi das Cruzes, curso com várias matérias médicas e peguei com afinco e só tirava nota alta em Anatomia, Biologia e Nutrição, Fisiologia, Cinesiologia e coisas do gênero. Não acabei por falta de dinheiro, mas fui bem na mudança da área de cálculos para áreas biológica e médica.

Acabei ainda me aventurando em uma faculdade de Letras na USP e eu tenho certeza que poderia ter sido um bom aluno e profissional da área.

Poderia. Não fosse a coincidência de ter aceitado virar sindicalista na mesma época em que entrei no curso da USP. Meu senso de responsabilidade e compromisso com o movimento e com os trabalhadores não me deixou nenhuma dúvida de qual deveria ser a prioridade de minha dedicação e destaque.

No ano seguinte em que entrei na Faculdade de Letras, entrei também no Sindicato e eu não era militante orgânico de movimento algum. Participei e liderei também movimento estudantil, mas o nível orgânico lá não chega nem aos pés do sindical.

Passei os primeiros anos de dirigente "comendo" história do movimento para saber quem eu era ali e o que eu representava. Isso foi fundamental para eu poder fazer uma boa atuação junto aos bancários e dentro da estrutura interna do movimento.

---

Hoje, tenho que conhecer a cada dia mais e mais sobre o banco que coordeno as negociações. E a quantidade de conhecimento que souber, sempre estará aquém do necessário. Além dos males causados pelo banco aos trabalhadores, é inerente ao movimento sindical ter que enfrentar uma parte do próprio movimento, que tem pessoas e grupos com foco em combater e derrubar uns aos outros.

Cansei de refletir por hoje. São três da manhã de domingo. Espero não lembrar do banco durante o sono.

Posso não ser feliz nem andar rindo por aí, mas tenho convicção absoluta do meu papel e da minha importância para os trabalhadores bancários e para o movimento sindical cutista e para a Articulação Sindical. 


SOMOS FORTES, SOMOS CUT!

terça-feira, 19 de março de 2013

Artigo: O desejo de calar é incongruente com o que sou


Refeição Cultural

José Bonifácio, Mano Brown, Mario Vargas Llosa...


Estou numa fase desejosa de silêncio. Necessidade de calar...

Mas tal atitude é meio-que incoerente com o que sou, com o papel que represento nesta aldeia global.

Ando estressado, trabalhando muito mesmo. Sequer estou dormindo sonos reconfortantes. Os desgraçados da direção do banco do brasil conseguem inventar uma merda por semana que tem reflexos negativos aos trabalhadores e às condições de trabalho. O movimento sindical tem que ficar o tempo inteiro reagindo às porcarias da gestão do bb.

Mas se estou aqui, vamos refletir sobre contatos recentes com textos e outras formas de cultura.

JOSÉ BONIFÁCIO DE ANDRADA E SILVA


Neste fim de semana li a respeito deste personagem da história brasileira. Já passei diversas vezes pela Praça do Patriarca, ao lado do meu trabalho, e observo ali a estátua do "patriarca da independência". Ela está lá como banheiro de pombos.

O cara nasceu em Santos em 1763, filho da segunda família mais rica daquela província na época, foi para a Europa aos 20 anos e voltou para o Brasil durante o período da Corte Portuguesa de D. João VI e Dom Pedro I. Depois ainda foi tutor de Dom Pedro II.

Li o projeto de lei dele propondo ao legislativo brasileiro o fim da escravidão dos africanos antes de 1820. E olha que Franklin nos EUA foi personagem do fim da escravidão lá na América do Norte uns 40 anos depois. O projeto tem como pano de fundo uma estratégia de dizer que a escravidão é ruim para os brancos proprietários.

José Bonifácio tinha um projeto completo para a construção de uma nação ao modo europeu. Ele tinha todos os problemas que conhecemos da época como, por exemplo, achar que a solução para o Brasil era homogeneizar o povo, mesclando os negros e índios com os brancos europeus. Enfim, a leitura dos apontamentos dele sobre várias coisas é bem curiosa.

MANO BROWN

Li uma entrevista muito boa do Mano Brown na Revista Fórum deste mês. O cara fala muita coisa verdadeira sobre a sociedade e sobre racismo e violência contra os negros na sociedade paulista e na periferia.

Segundo ele, as chacinas têm forte participação da polícia.

MARIO VARGAS LLOSA

Li uma entrevista deste escritor peruano neoliberal no Estadão. O que me chamou a atenção para ler a entrevista inteira foi o intelectual apontar um dos problemas da contemporaneidade: as imagens estarem substituindo as ideias. Eu também acho isso.

Em relação à sua obra literária, não tenho opinião porque nunca li nenhum livro seu.

---

Bom, com o ritmo de trabalho atual tem sido raro poder ler alguma coisa que me traga algum conhecimento cultural, reflexão filosófica e que me torne menos ignorante culturalmente. Meu papel atual no movimento sindical está acabando com a minha saúde e creio que está me emburrecendo um pouco, pois não tenho tempo pra mais nada.

Fim.

William Mendes

domingo, 17 de março de 2013

Pica-pau de cabeça amarela: alumbramento urbano


Curti hoje pela manhã um pica-pau
como este da foto acima.


Refeição Cultural

Hoje, pela manhã, saí sob uma leve garoa para buscar pães.

A região onde moro é relativamente arborizada e temos muitos pássaros locais como sabiás, bem-te-vis, maritacas e hoje presenciei um belo pica-pau de cabeça amarela. Foi muito legal!

Ao sair da porta de casa, andei uns 10 metros e fiquei parado olhando o passarinho bicando e pulando de galho em galho na maior tranquilidade. Esse pica-pau tem um penacho na cabeça bem levinho. Ele pica e o penacho fica balançando.

Foi um momento de alumbramento neste domingo chuvoso aqui em Osasco.

Vejam abaixo um vídeo que achei na internet cujo autor disse que filmou o pica-pau aqui mesmo na região paulistana. Agradecemos a ele pelas imagens. Ver ao vivo o bichinho é muito legal.



sábado, 9 de março de 2013

Estudos de Anatomia e doação de corpos


Refeição Cultural

Apresentação do blog

Lendo a matéria abaixo no sítio da CartaCapital (matéria de 9/3/13), eu me emocionei. Vieram até mim lembranças profundas do curso de Educação Física que fiz entre 1997/98, curso que não pude terminar por questões financeiras, e que me deixou uma frustração dolorosa por isso.

Eu entrei na Faculdade do Náutico, em Mogi das Cruzes, e logo nos primeiros meses de curso havia me tornado um aluno exemplar nas matérias biológicas. Estudei com afinco e profundidade Anatomia, Nutrição e Bioquímica, Fisiologia, Cinesiologia etc.

Eu ia todo sábado para a faculdade para estudar durante umas 6 horas seguidas os corpos e partes dos corpos que tanto me ensinaram sobre o corpo humano.

Eu tenho a convicção de que me tornei uma pessoa melhor e mais humanista por ter estudado Anatomia e passei a respeitar muito mais os seres humanos. 

À medida que conhecia o funcionamento do corpo humano, mais eu me encantava e sentia admiração pela perfeição daquela máquina, que a natureza reservou ao homem após milhares e milhares de anos de adaptações desse animal aos diversos habitats por onde ele viveu.

Eu pretendo doar meu corpo para estudos. É verdade o que diz a matéria. A primeira aula que tive de Anatomia, antes do professor descobrir o corpo na mesa, foi sobre a ética e o respeito obrigatório naquele espaço de estudo do corpo humano.

A questão da doação será a concordância dos entes próximos que terão o direito de posse sobre o meu corpo quando eu morrer.

William Mendes

---

Brasiliana


09.03.2013 10:08



Uma última nobre missão


Por Amanda Lourenço

Em um dos laboratórios do Instituto de Ciências Biológicas da USP, há mais televisores do que corpos para o estudo da anatomia ­humana. É meia dúzia de aparelhos destinados a transmitir, ao vivo, as dissecações que os 180 estudantes de medicina deveriam acompanhar in loco, tarefa impossível sem algum tipo de revezamento ou troca de empurrões. Sobre as 16 bancadas de inox da espaçosa sala azulejada repousam apenas dois cadáveres. Por causa da drástica redução do número de indigentes, mortos não identificados por suas famílias, a instituição sofre um “apagão” de corpos para as aulas práticas.
Desde 2008, apenas quatro cadáveres foram incorporados pela instituição, número insuficiente para a demanda universitária, a incluir cerca de mil estudantes de cursos na área de saúde, como farmácia, enfermagem e educação física, entre outros. “Nos anos 1940 e 1950, recebíamos de 200 a 250 corpos por ano”, afirma Edson Aparecido Liberti, professor-titular do Departamento de Anatomia. “Não há a necessidade de tantos, mas o mínimo necessário é um cadáver por ano para cada grupo de dez alunos de medicina. Por isso estamos implantando um programa de doação voluntária, no qual as pessoas se comprometem em vida a doar o próprio corpo para a universidade após falecer.”
O problema não se restringe à USP. Em virtude da escassez de cadáveres, algumas universidades passaram a substituir corpos reais por bonecos para o estudo de anatomia. As peças artificiais podem imitar muito bem o corpo humano e servem como complemento, mas não são capazes de substituir as naturais. “Existe uma gama de variações anatômicas que os bonecos não conseguem representar. É importante para os alunos lidarem com a realidade”, diz a professora Thelma Parada, responsável pelo Programa de Doação Voluntária de Corpos para Estudo Anatômico do ICB-USP, em fase final de implantação e com 15 doadores já cadastrados. Além dos quatro corpos recebidos nos últimos cinco anos, a instituição conta com outros dez cadáveres mais antigos. “Algumas peças têm mais de 20 anos, só podem ser observadas. Não tem mais o que ser dissecado.”
No dia 25 de fevereiro, Thelma deve apresentar a sua tese de doutorado sobre o tema. Solução adotada por poucas universidades brasileiras, o programa que coordena pretende desmitificar a doação de corpos, informando os interessados sobre a possibilidade, quase desconhecida. “Não é nem uma questão de convencimento, é apenas de esclarecimento”, afirma Thelma. “Nos Estados Unidos, essa é uma prática muito comum. Quase todas as universidades têm programas semelhantes.”
O processo para se tornar doador é simples. Basta preencher alguns documentos de autorização com a assinatura de três testemunhas, de preferência as pessoas mais próximas do doador. Recomenda-se que o interessado avise aos familiares e amigos sobre seu ­desejo ­para que não haja nenhum estranhamento. Também é possível fazer a doação sem os documentos assinados, mas a burocracia aumenta e muitas vezes os familiares acabam desistindo. O contrário também acontece e o processo pode ser desfeito a qualquer momento: “Se na hora H houver qualquer tipo de hesitação, preferimos abrir mão do corpo, mesmo que tenha documentos válidos. Não estamos aqui para brigar”, diz Thelma.
Romeu Chimenti, metroviário aposentado de 66 anos, decidiu doar seu corpo após se informar sobre a crise de cadáveres nas universidades: “Quero ser útil para a sociedade mesmo depois de morto”, justifica. A família recebeu bem a decisão, tanto que sua esposa também aderiu à causa e se inscreveu. “Na nossa família somos adeptos da cremação, então já não haveria túmulo de qualquer forma. Faremos apenas um velório”, explica o aposentado, que é espírita e diz não haver objeção por parte de sua religião. O velório pode ser feito normalmente e após a cerimônia o corpo é levado para a universidade, em vez de ser enterrado ou cremado.
Denise Castor, professora de 44 anos, dispensa até o velório: “Não quero que a última lembrança de mim seja aquela imagem triste”, argumenta. Ela também assinou o documento de doação depois de muito pesquisar sobre o procedimento e até ter certeza de sua decisão. A família também aceitou bem, até mesmo sua mãe, evangélica, que foi motivo de preocupação para Denise. “Minha mãe me surpreendeu. Ela perguntou se isso ajudaria alguém e quando eu confirmei ela disse que queria fazer também”, conta a professora, acrescentando que a mãe preencheu os documentos, mas ainda não teve coragem de entregar. Denise pretende doar também seus órgãos, já que uma ação não impede a outra: “Minha família já está ciente do meu desejo”.
Um dos motivos de insegurança na doação do próprio corpo é a preocupação com os que ficam. Nem todas as famílias aceitam bem a ideia de não ter um lugar específico para prestar homenagem quando a saudade apertar. Saber que o corpo do ente querido vai ser espetado, cortado e manipulado em uma mesa de laboratório, sem a certeza de que o cadáver será devidamente respeitado, também pode ser duro para alguns.
No entanto, Thelma garante que a ética é uma norma dentro da sala de estudos: “Os estudantes respeitam. Certas brincadeiras podem até levar à expulsão. Mas faz tempo que não há nenhuma ocorrência do tipo”, explica a anatomista, acrescentando que de qualquer forma as pessoas dispostas a fazer a doação “aceitam a ideia de que seu corpo será possivelmente cortado errado pelos estudantes ou até, no pior dos casos, motivo de uma brincadeira, porque mesmo assim uma lição será aprendida”, seja de anatomia, seja de ética. “Os cadáveres são os primeiros pacientes dos estudantes”, defende. “Se o médico não treinar com os corpos, durante a faculdade, vai acabar fazendo isso com pacientes vivos, nos centros de emergência do País. O risco é muito maior.”
Thelma não fala apenas da boca para fora: ela dissecou o corpo da própria avó em 2008. Eunice Simão, avó paterna da professora, quis estudar medicina quando jovem, mas na época o pai não permitiu. Impedida de colaborar com a ciência enquanto viva, seu último desejo foi de que seu corpo servisse aos estudos anatômicos. “Foi uma coincidência dos anjos! Ela assinou o documento no ano em que eu nasci e eu escolhi estudar anatomia sem qualquer influência dela, já que não éramos tão próximas”, conta.
Mas quando foi realizar o último desejo da avó, Thelma teve de enfrentar uma montanha administrativa e decidiu abraçar a causa da doação de corpos para ajudar a dinamizar o processo. E então se tornou uma referência no assunto. Ela também pretende doar seu corpo, caso tenha ficado alguma dúvida.

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/uma-ultima-nobre-missao/

terça-feira, 5 de março de 2013

Com morte de Chávez, mundo perde grande líder comprometido com o povo




É com lágrimas nos olhos que registro aqui o falecimento do grande líder latino-americano Hugo Chávez. Estou muito triste e deprimido. A luta da esquerda carece de pessoas apaixonadas por mudanças reais contra o capitalismo. Comandante, obrigado pela inspiração!


Com grande pesar, a Central Única dos Trabalhadores lamenta a morte do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que faleceu nesta terça-feira (5), aos 58 anos, vítima de complicações causadas por um câncer na região pélvica.

Da mesma forma que lutou para ver sua pátria livre de governos saqueadores, que a destinavam a uma realidade de elites enriquecidas pelo petróleo e uma população majoritariamente miserável, o comandante Chávez enfrentou a doença para continuar a liderar seu povo.

Seu legado e o recado de que é possível acreditar num mundo justo e igualitário permanecem. Certamente, a América Latina que queremos, socialista, solidária, integrada, não avançaria como avançou nos últimos anos não fosse a contribuição do homem que sempre teve como referência Simón Bolívar, responsável por expulsar os espanhóis da Venezuela.

Em seu governo, Chávez demonstrou que é possível crescer combatendo a miséria e privilegiando o povo: os venezuelanos abaixo da linha da pobreza eram quase metade da população e passaram para 27,8% durante seu governo. A taxa de mortalidade infantil diminuiu de 27 por mil para 14 por mil. O acesso à água potável subiu de 80% a 92% da população e o consumo de alimentos cresceu 170%.

A taxa de escolaridade cresceu de 40% para 60% e, de acordo com a Unesco, o país também ficou livre do analfabetismo.

Como em qualquer revolução, o comandante bolivariano colecionou desafetos conservadores, especialmente a velha mídia, inclusive brasileira, que sempre o considerava um ditador. Os meios de comunicação não citavam, contudo, que Chávez participou de 14 eleições e referendos, saindo vencedor em todas elas.

A última, em outubro de 2012, com 54,42% dos votos. Mas, dessa vez, o líder bolivariano sequer pode ascender ao cargo que ocupava desde 1999 e assumiria pela terceira vez.

A morte de Hugo Chávez nos deixa mais carentes de líderes que sonham e praticam o que pregam. Acreditamos, porém, que sua jornada inspirará muitos outros sonhadores.

Obrigado, comandante! 

"Por Cristo, o maior socialista da história, por todos os feridos, por todo o amor, por todas as esperanças que serão realizadas por essa maravilhosa Constituição, mesmo que custe minha vida. Pátria, socialismo ou morte!" 


(Chávez, ao iniciar novo mandato presidencial, em 2007)


Direção Executiva da CUT


Fonte: CUT