sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Tempo (XVII)



O tempo...

"Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas temos muito tempo
Temos todo o tempo do mundo...

(Tempo Perdido, Legião Urbana)


"É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Por que se você parar pra pensar
Na verdade não há...
"

(Pais e Filhos, Legião Urbana)


Tenho que fazer um trabalho escolar. Um trabalho final para a disciplina que estou fazendo na graduação em Letras. ("Não tenho mais / O tempo que passou...") 

Estamos chegando ao final do ano de 2020. Que ano! ("Mas tenho muito tempo / Temos todo o tempo do mundo...")

Minha cabeça de 51 anos de idade está com as ideias absolutamente dispersas para a realização de trabalhos estudantis... estou com as ideias fora do lugar (mesma expressão usada por Roberto Schwarz para falar de Machado de Assis em seu tempo e das ideias liberais num país escravocrata).

Ontem à noite, após correr pelas ruas por quase uma hora fiquei andando em círculos no fundo do estacionamento do condomínio cantando músicas da Legião Urbana enquanto me alongava (a cena deve ter sido esquisita para alguém que me visse das janelas ao redor).

As músicas da Legião tocam fundo na gente. Falam muito de Tempo e de Amor. Temos que amar mais. ("É preciso amar as pessoas / Como se não houvesse amanhã...")

Gesto de amor talvez, a essa altura da vida, fazer um último trabalho escolar e não largar pelo meio do caminho todo o esforço que fiz para retomar o curso inacabado por duas décadas, curso que seria para realizar um sonho que tinha e que não se realizou. (não fui professor)

Talvez um último esforço mental para essa tarefa seja um gesto de amor, amor próprio por suposto, amor pelo amor da professora Viviana Bosi ao que ela faz com tanta dedicação e amor (a dedicação dela para a disciplina que estamos fazendo é contagiante). Quiçá amor aos estudos e amor pela educação, que pode(ria)* salvar a humanidade e os seres humanos. 

(*Tristeza!, falo isso sabendo que os desgraçados golpistas no poder sacanearam o Fundeb ontem e vão desviar recursos da educação pública pras merdas de "escolas privadas" dos canalhas profissionais de religião-manipulação... que desesperança! O inimigo está ganhando todas...)

Enfim, por favor, cabeça minha, ache um instante na preocupação mortal em se importar com os rumos do país destruído e faça algum trabalho para encerrar essas duas décadas de estudos interrompidos no mundo das Letras.

O amanhã? (com o capitalismo, com o bolsonarismo, com a pandemia, com a eterna vaidade e egoísmo das poucas lideranças que existem dentro da classe trabalhadora e explorados e ignorantes de tudo, fanatizados por profissionais de religiões?)

O amanhã?

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"É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Por que se você parar pra pensar
Na verdade não há...
"

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William


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

081220 - Diário e reflexões



Refeição Cultural - A morte ronda o povo brasileiro

8 de dezembro. 1000 (mil) dias do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Marielle, mulher preta, liderança das lutas das mulheres, não heterossexual e gente da classe trabalhadora, vereadora do Rio de Janeiro. Marielle e Anderson foram assassinados no dia 14 de março de 2018, fuzilados com armas de grosso calibre. Até o mundo mineral suspeita que o crime não tenha sido desvendado porque os mandantes não são quaisquer pessoas, não são! São gente bem conhecida no Rio de Janeiro e no Brasil. As investigações já foram interrompidas, corroídas, remexidas, interferidas... Quem mandou matar Marielle Franco? (Marielle vive)

8 de dezembro. Eu tinha onze anos quando assassinaram John Lennon. Foi no dia 8 de dezembro de 1980. Eu me lembro de uma cena na TV de um óculos redondo caindo e se estilhaçando no chão e a frase ou a fala de alguém dizendo "The dream is over". John Lennon é considerado um ativista político, um pacifista, além de gênio da música. Se ouvirmos suas músicas hoje, 8 de dezembro de 2020, veremos o quão atuais são suas mensagens sobre a necessidade de paz, de mais amor, mais fraternidade, menos guerras, a necessidade de se dar o poder ao povo, dentre outros lemas. John Lennon vive.

8 de dezembro. Cidadãos do mundo começam a tomar vacina contra o novo coronavírus (Covid-19). Nós brasileiros jabuticabas não somos cidadãos do mundo no sentido mais amplo. Somos cidadãos de um submundo. Seres bípedes com telencéfalos mal desenvolvidos e mão com polegar opositor, capturados numa bolha-mundo, acorrentados numa senzala continental, com um terço de gente de direita, má, abjeta, nazifascista e ignorante; outro terço de gente que se acha isentona, nem esquerda nem direita, "gente boa", "de bem", limpinha, classe média, mas que na verdade é gente má, abjeta, nazifascista e ignorante. Esses dois terços são responsáveis pelo país estar destruído e sob o domínio do mal. Terra sem lei, sem direitos, sem nada: presente da Lava Jato, dos tucanos e dos donos das mídias PIG. O golpe foi "Com Supremo, com tudo".

8 de dezembro. Morreram hoje com o novo coronavírus 842 brasileiras e brasileiros. As mortes no país jabuticaba somaram até agora 178.159 vítimas oficialmente. Já foram infectadas "formalmente" 6.674.999 almas brasileiras. Os !@#$%¨&* no poder estão destruindo absolutamente tudo que o povo brasileiro construiu em décadas de lutas sociais. Meio ambiente, direitos trabalhistas, políticas públicas, empresas públicas, tudo, tudo, tudo que havia no Brasil. Mesmo assim, 210 milhões de pessoas chamadas de brasileiras não se revoltam, não tomam as ruas, não protestam, não derrubam os pulhas nos poderes por golpes e fraudes (é que a Globo não chamou pras ruas...). Caminhamos para 200 mil mortos de Covid-19. Caminhamos para desemprego em massa, fome, misérias, doenças, mortes várias. O mundo estará tomando vacinas em 2021 e tentando retomar a vida e nós desta terra miserável da Casa Grande e Senzala continental estaremos à esmo, fugindo de um tipo de morte aqui, outro ali.

William


domingo, 6 de dezembro de 2020

Sonho correr uma maratona


Os pés que conduzem...


"Sometimes I feel like I don't have a partner
Sometimes I feel like my only friend
Is the city I live in, the city of angels
Lonely as I am, together we cry
I drive on her streets 'cause she's my companion
I walk through her hills 'cause she knows who I am
She sees my good deeds and she kisses me windy
Well, I never worry, now that is a lie..."


(Under the bridge, Red Hot Chili Peppers)


06/12/20 - Domingo de noite

Saí para correr à tarde com todos os limitadores que a vida me impôs neste momento da existência. Dores no pé esquerdo e também um pouco no pé direito. Dores no quadril. Vírus mortais lá fora, vírus Covid-19, vírus do ódio, vírus da ignorância, vírus do racismo, vírus nauseabundos dos preconceitos e das discriminações. Que tristeza tudo isso lá fora. Saí para correr e lidar com tudo isso.

"Sometimes I feel like I don't have a partner
Sometimes I feel like my only friend
Is the city I live in, the city of angels
Lonely as I am, together we cry"

O objetivo era correr um trote para queimar as tristezas, para afinar o sangue, para ganhar resistência, para ter resiliência e superar essa fase do mundo. Às vezes nos sentimos sós como diz a música... (mesmo em meio a multidões)

"I drive on her streets 'cause she's my companion
I walk through her hills 'cause she knows who I am"

A corrida começou com as retas do eixinho de casa; depois a 1ª subida na Franz Voegeli; fomos para o Pq. Continental. Longa descida pela Av. Antônio Noschese; nova subida pela Av. Dr. Francisco P. V. Azevedo até a Av. Autonomistas. Contornei o bosque de eucaliptos da Vila Iara e desci de novo a Av. Franz Voegeli. 

"She sees my good deeds and she kisses me windy
Well, I never worry, now that is a lie..."

De novo no eixinho, agora na Av. Hilário P. de Souza, sentido Osasco. Lá no fim, virei e fui pro Largo de Osasco. Fiz o contorno embaixo da ponte (Under the bridge...). Corri pelo eixinho até a CPTM (Altino). Virei e voltei pelo eixinho... (pensei: vamos subir de novo a Franz Voegeli e completar 90' de trote...). Subi e desci de novo.

Cara, que coisa boa o corpo da gente aguentar o tranco! Momento feliz! Corri os 90' com uns 3k de subida. Deu mais ou menos uns 13,5k. Muito bom para o meu momento.

Passos dados nas últimas semanas para perseguir meu sonho de correr uma maratona um dia, talvez daqui um ano:

06/12 - 90' corrida
02/12 - 32' corrida
28/11 - 71' corrida
25/11 - 41' corrida
21/11 - 84' corrida
18/11 - 36' corrida
16/11 - 80' caminhada
15/11 - 60' bike
12/11 - 75' corrida
08/11 - 60' bike
07/11 - 55' corrida
04/11 - 75' corrida

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(13/nov/20 - Reflexão)

O SONHO DE CORRER UMA MARATONA

Faz muito tempo que sonho em correr e completar uma maratona. A vida de trabalhador e estudante nunca me permitiu conciliar o tempo necessário para adaptar o corpo para correr por horas seguidas, coisa de 4 a 5 horas para percorrer os 42 Km de uma maratona. Estou falando de corredores amadores e normais e não de profissionais, que fazem o percurso em pouco mais de 2 horas, quase super-homens e supermulheres.

Na vida, tive a felicidade de correr 10 edições da São Silvestre (15 Km), a corrida mais charmosa do calendário brasileiro de corridas. E vivi a experiência de correr uma única vez uma meia maratona, em Florianópolis, em 2015. Foi uma sensação incrível completá-la. Também corri uma 10K na areia, que exige bastante do corpo.

Tudo se tornou mais difícil na atualidade. Não é porque fiquei mais velho. É porque a condição em que estou mais velho não é satisfatória. O corpo sentiu o acúmulo de ódio e tristeza que a jornada da vida me proporcionou. E tenho que superar isso, se for possível, para conseguir lidar com as sequelas no corpo oriundas dessa trajetória desgastante dos órgãos internos do organismo vivo que somos.

Além da perda de massa muscular nas estruturas essenciais da atividade de corrida, sofri desgastes na estrutura do quadril, informações que obtive após exames em 2019. Não tem remendo na coisa, tenho que lidar com ela. Outras questões de saúde preocupam, pois meus níveis de colesterol e triglicerídeos pioraram nos últimos dois anos. Estou com barro na vesícula, barro que antecede cálculos. Isso pode ser consequência do colesterol alto, genética e alimentação. Meu sistema digestório não é mais eficaz como antes. Minha pressão arterial voltou a subir neste ano desgraçado de pandemia e destruição do país.

Por causa da pressão arterial, voltei a correr de forma persistente faz alguns meses para tentar sobreviver à tristeza pandêmica, que deve ser um dos motivos da alteração da pressão. Estava correndo percursos pequenos, entre 3 e 6 Km. Em julho corri 6 vezes (29 Km), em agosto 7 vezes (27,5 Km), em setembro 9 vezes (36,5 Km). 

Em outubro, decidi começar a correr mais olhando o tempo de duração do trote do que a distância percorrida. Aos poucos, me veio a ideia de tentar aumentar a resistência do corpo para correr por bastante tempo. Há anos meu trote varia entre 6 e 7 minutos o Km. Ou seja, quando corro uns 40', corri uns 6,5 Km. E assim, corri poucas vezes no mês, mas fiz uma corrida de 51' e outra de 71'. Fiquei feliz porque meu corpo aguentou.

Neste mês de novembro, decidi que pretendo treinar para ver se meu corpo aguenta correr daqui a um tempo, um ano mais ou menos, uma maratona. Não será nada fácil. Estamos em pandemia, e vem aí uma segunda onda. É uma deprê danada essa coisa. Nem perspectiva de vacina temos por causa do verme no poder central do país. Enfim... a vida segue enquanto a gente não morre de morte morrida ou matada.

Na primeira corrida, fiz um trote de 75' (dia 4). Fiquei bem contente de aguentar. Estou correndo alternando planos, subidas e descidas. Depois corri mais 55' e me concentrei muito no corpo para pisar leve e tentar não forçar tendões e quadril (dia 7). No dia seguinte, pedalei 60' (não pedalava há anos). Ontem, corri 75' e estou com o quadril dolorido. Entretanto, estou satisfeito por me superar a cada corrida. Fico atento a mim mesmo, concentração total, dizendo a mim para pisar leve e ser como uma pluma, protegendo minha estrutura de corrida.

Cada dia é mais um dia na luta para superar a pandemia mundial, a destruição do nosso mundo, e para fazer a vida ter algum sentido. A vida é um instante, é incerta e imprevisível. "Life's a journey, not a destination/And I just can't tell just what tomorrow brings..." (já cantava a banda Aerosmith). 

O tempo físico avança a cada segundo. O tempo histórico também. Tudo muda o tempo todo, a certeza é a transformação das coisas. Que meu corpo mude, então, com minhas atitudes e seja mais resistente a tudo, às corridas e às raivas e tristezas.

William

061220 - Diário e reflexões



Mês de dezembro. Ano de 2020. O ano de 2016 não terminou ainda...

Correr ou não correr? Meu calcanhar do pé esquerdo está dolorido. Pode ser tendão ou músculo da planta do pé, alguma "ite". Convivo há anos com as fragilidades da estrutura dos pés e perna em relação à corrida. Quadril também está sensível, os dois lados.

Se corro, sinto as dores da estrutura de corrida; se não corro, pressão aumenta, colesterol aumenta, segue a destruição interna dos sistemas circulatório, cardíaco e respiratório. Correr ou não correr? Eis a questão!

Nós estamos por nossa conta e risco, como sempre estivemos (essa é a realidade). Não temos um Estado por nós. Não temos anjos da guarda por nós, nem os da sociedade humana, nem os da natureza. Se preto(a) e pobre, pior ainda. Se de esquerda, fodeu! Aí temos o Estado contra nós. Desgraçados!

Como somos animais humanos, aculturados com as culturas locais, corpo e mente confluem no ciclo cronológico de "fim de ano" por mais que o ano não terá fim: segue o tempo histórico de bolsonarismo, de golpe, de Estado totalitário, de exceção, com canalhas sarreando a gente nos 3 poderes e os meios de comunicação gozando na nossa cara. Para o 1% e seus apaniguados, tudo pode. Matar, roubar, foder com os outros. Não temos mais leis para todos, só para adversários do regime.

Correr ou não correr? Entupir veias, artérias, engrossar o sangue com porcarias, ter ou não ter infarto, derrame, aneurisma, AVC, trombose? E pra piorar tem o vírus da vez, o vírus "gripezinha", que deixa sequelas até naqueles que são assintomáticos. Fode o coração, órgãos internos, tira força muscular, olfato, e tudo quanto é merda de efeito em quem pegou.

E o trabalho final da disciplina que estou fazendo para concluir os créditos para concluir a graduação para concluir meu período de estudos para concluir um percurso de formação para ser professor que não fui? Gente, simplesmente a vontade de fazer o trabalho é zero. Mas tenho que fazer, talvez mais por respeito à professora tão gente boa que temos. A conclusão de toda essa questão não tem importância alguma nesta altura do campeonato. Nonada!

Correr ou não correr? Apagar as redes sociais ou não apagar? Escrever esses diários idiotas que servem como registro pessoal para olhar amanhã sobre o ontem ou não?

???

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Post Scriptum:

Saí para correr na tarde nublada de domingo e tive a felicidade de correr 90' (13,5k). Foi muito legal. Amanheci com o corpo todo pedrado nesta segunda-feira 7, mas que passo importante para meu sonho de correr uma maratona foi a corrida de domingo. Texto sobre a corrida aqui.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Passagem da Noite (Tempo XVI)



Refeição Cultural

"Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado, 
o essencial é viver!"

("Passagem da Noite", C.D.A.)


Como diz o poeta, "a terra prossegue seu giro", e com isso estamos aqui, vivos e escrevendo, nesta "clara manhã" porque "o essencial é viver!".

Essa série de postagens "Tempo" está relacionada com a disciplina Literatura Comparada II que estou fazendo este semestre em meu curso de Letras. A professora Viviana Bosi nos propôs pensarmos sobre as configurações do tempo nas diversas formas de narrativas e poesias. Os textos nos fizeram pensar muito nos últimos meses.

Os textos críticos e os autores estudados nos permitem refletir sobre o passado, o presente, o futuro; sobre a história e as sociedades humanas; sobre as diversas configurações do tempo - tempo físico, psicológico, histórico, cronológico, linear etc. E com isso é impossível não pensar na vida, na existência, no instante do viver.

Drummond não fez parte do repertório de autores que estamos tendo contato na disciplina, mas eu acabo sempre voltando a ele. E não sou especialista nem entendido em nada, em nada, muito menos em Drummond. Mas do pouco que sei, sei um pouquinho de Drummond; então ele acaba sendo a referência sempre. Cada um lida com suas capacidades, limitações e superações.

Tenho que escolher o tema do trabalho final da disciplina. Um conto, um poema, um fragmento de romance, novela, peça teatral, música etc. Estou tão sem inspiração que a situação até sufoca. Poderia dizer até que:

"É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo."

Talvez por isso, eu escolha Drummond para o trabalho final.

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Mudando de assunto

Ando pensando a respeito dos meus blogs, dos meus perfis em redes sociais, sobre a exposição absurda na qual nos colocamos neste momento da sociedade humana.

As redes sociais destruíram a sociabilidade humana, a pouca que havia. Chegamos a um ponto perigoso da existência humana porque a manipulação em larga escala, escala global, é bem mais grave e perigosa que a manipulação que sempre se deu em escala local. Uma empresa (às vezes uma pessoa) domina uma ferramenta que pode manipular 2 bilhões de pessoas, outra mais 2 bilhões etc.

O ódio, o medo, o fanatismo religioso e a ignorância pura e simples sempre foram formas de enganar e manipular grandes massas humanas, mas isso se dava em escala local, uma vila, um distrito, uma região, um país, uma parte habitada. Agora não, tudo é global. E nos tornamos pessoas cada vez mais isoladas do toque humano presencial e estamos sós, mesmo quando estamos em meio a multidões (alone in the crowd). Sós. 

(E isso não é culpa da pandemia. Agora tudo é culpa da pandemia de Covid-19. Os desgraçados capitalistas e o necrocapitalismo, o neoliberalismo, destroem os direitos sociais, acumulam toda a riqueza humana, destroem saúde, educação, segurança, previdência públicas e a culpa da miséria global é do vírus. Destroem o meio ambiente e o planeta e a culpa é do vírus. Colocam no poder lixos e escrotos psicopatas nos poderes e a culpa é do vírus... O cacete que é culpa do vírus!)

Eu estou pensando em me retirar das redes sociais e talvez ficar somente com os blogs (como máquinas de escrever) porque são menos envolvidos em manipulações pelas ferramentas das empresas donas dos espaços. O Facebook é um câncer na sociedade mundial, ele utiliza até os dados de nossos contatos "amig@s" para fazer o que faz. O Twitter e YouTube a mesma coisa. As outras plataformas idem (não estou nas outras). Não tem santo nesse sistema empresarial mundial de comunicação. Somos escravos, somos dados a serem expostos, vendidos. Somos coisas!

"Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra."

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. "Passagem da Noite" em A Rosa do Povo. 19ª Edição. Rio de Janeiro: Record, 1998.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

301120 - Diário e reflexões



Segunda-feira, último dia do penúltimo mês do ano do novo coronavírus. 

A "gripezinha" - qualificativo dado à Covid-19 pelo inumano no poder do país jabuticaba - já matou 1.464.795 pessoas das 63.050.455 infectadas pelo vírus no mundo. Estados Unidos e nós somos os campeões mundiais de mortos pelo vírus Sars-CoV-2. (informações da Johns Hopkins University)

Nossa colônia dos impérios do Norte já teve 6.314.740 pessoas infectadas "oficialmente" (deve ser muito mais gente infectada, mas os números foram @#$%¨&*). Já morreram de Covid-19 (formalmente) 172.833 brasileirxs, de todas as cores e sangues. Me parece que morreram um pouco mais do que os "7 mil" que os empresários bolsonaristas disseram que poderiam morrer.

As estatísticas, no entanto, revelam que os mortos têm cor escura parda vermelha marrom preta, têm níveis baixos de renda ou não-renda. Os mortos em sua maioria são os miseráveis desta terra miserável.

Não temos vacinas ainda para a Covid-19. Quando o mundo tiver vacinas nós continuaremos sem tê-las um pouco mais. Aqui é a terra dos animais humanos bípedes que deveriam ter telencéfalos altamente desenvolvidos, mas aqui são cérebros parasitados (temos a pandemia do bolsonarismo e a do adestramento dos pobres pela Casa Grande). Mas tudo bem, temos o futebol, temos as igrejas e os "bispos", temos pobres "conservadores".

Ontem foi o dia de fechamento das eleições locais, nos mais de cinco mil municípios brasileiros. Os pobres em geral votaram nos seus algozes, na Casa Grande, nos colarinhos brancos e nos seus representantes. O povo brasileiro não vota em mulheres, não vota em gente como ele mesmo, o povo é machista, é preconceituoso. O povo é a alegria da Casa Grande. 

Tirando alguns negros e negras, algumas pessoas trans e algumas pessoas diferentes do padrão branco-Casa-Grande, os grandes vencedores foram os partidos e grupos que organizaram o golpe de Estado em 2016. Aqui, o crime compensa! Aquela gente que trabalha para o PIG não cabe na tela das TVs de tanta alegria, boca-aberta de orelha a orelha.

Registro aqui em minhas memórias em forma de diário o que afirmo desde abril de 2016. Não há democracia, existe um faz-de-conta que conta com a anuência infeliz do meu lado da classe, a classe trabalhadora, a que não detém os meios. 

Candidatos do campo popular foram impedidos de participar novamente, as eleições municipais contaram com toda sorte de irregularidades, com compras de votos filmadas (distribuição de cestas básicas por candidatos), com distribuição pública de fake news, toda sorte de lawfare contra os candidatos de esquerda. Tudo pôde contra as oposições à Casa Grande. 

Diversas disputas equilibradas foram decididas através de fake news nas últimas 48 horas, como já vem ocorrendo em diversas partes do mundo. Sem uma revolução nada vai mudar para os pobres.

Nesta segunda, as burocracias da esquerda já estão acertando discursos motivadores para que tudo continue como está. O país jabuticaba é "democrático", as instituições funcionam "normalmente", as eleições são "legítimas", a esquerda que perde reconhece e diz que a "democracia" prevaleceu (mesmo com as sacanagens que decidiram o resultado) e E la nave va...

William


quinta-feira, 26 de novembro de 2020

10. A Rosa do Povo - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos

Seguindo na contagem de minhas leituras clássicas, hoje vou refletir sobre a leitura recente de um dos livros mais densos de nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade. Segundo o autor "obra que, de certa maneira, reflete um 'tempo', não só individual mas coletivo no país e no mundo". Os 55 poemas do livro foram escritos durante os anos cruciais da 2ª Guerra Mundial.

Aliás, estou às voltas com a temática do "tempo", das configurações do tempo nas diversas formas de narrativas e poesias, através de minha participação na disciplina de Literatura Comparada II, ministrada pela professora Viviana Bosi, e não consegui definir ainda o tema e o autor de meu trabalho final. Talvez eu vá de Drummond.

A leitura completa de A rosa do povo (1945) se deu num contexto absolutamente diferente da normalidade. Li o livro entre o dia 3 de junho de 2020 e o dia 13 de junho do ano da pandemia mundial de Covid-19. Estávamos no auge da quarentena aqui no Brasil e em isolamento social. Decidi, então, ler em voz alta 5 poemas por dia, durante 11 dias, e ainda gravava o vídeo de um dos cinco lidos a cada dia. Foi uma experiência muito intensa!

A Rosa do Povo é uma criação poética que nos causa estranheza, que nos instiga e incomoda ao passar por seus poemas; não é possível ficar indiferente a ela. O poeta diz que ela é marcada por um tempo: a 2ª GM e suas consequências. No entanto, diria que ela é atemporal, porque lida hoje é perfeita para o contexto que vivemos. Um pouco da explicação está em seus poemas.

Os dois primeiros poemas do livro, "Consideração do Poema" e "Procura da Poesia", são uma espécie de contrato entre o poeta e os leitores. Ele estabelece sua poética e acaba por explicar porque seus poemas ficarão para a posteridade, se mantendo instigantes e provocadores, fazendo seus leitores explodirem em sentimentos independente da época e local da leitura.

Em "Procura da Poesia" o poeta nos revela sua poética e talvez o segredo da atemporalidade de sua criação poética, talvez a explicação para o fato de suas poesias perdurarem no tempo, se universalizando:

"Não faças versos sobre acontecimentos."; "As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam."; "Não faças poesia com o corpo,"; "O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.".

E segue:

"A poesia (não tires poesia das coisas)

elide sujeito e objeto."

E nos conta a fonte de sua poesia, de sua poética, o "reino das palavras", palavras que lá estão em "estado de dicionário".

Na "Consideração do Poema", Drummond afirma ser "Poeta do finito e da matéria/cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas," e diz que todas as palavras lhe convêm.

Ao longo do livro, veremos vários poemas abordando o "tempo", a passagem do "tempo", tanto o tempo físico, cronológico, quanto o tempo psicológico e histórico. O livro é demais!

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. 19ª edição. Rio de Janeiro: Record, 1998.

Alvorada (26/11/20)



Nasce sol. Traga luz e calor e sabedoria para o povo brasileiro. Que seu calor e energia ilumine o povo pobre e trabalhador e dê consciência de classe para ele. Nasce sol, e que o amanhecer seja sempre um recomeço... William

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Tempo (XV)



Refeição Cultural

"um jazzman, caçador do indizível..." (Davi Arrigucci Jr.)


Retomo a temática do tempo, das diversas formas de configuração do tempo nas narrativas, lendo um texto do professor Davi Arrigucci Jr. sobre o conto "O perseguidor" de Julio Cortázar. As reflexões do intelectual estão no livro O escorpião encalacrado, no capítulo "A destruição anunciada". O conto de Cortázar está no livro Las armas secretas (1959). Este livro eu tenho, ele foi adquirido numa viagem que fiz a Buenos Aires.

Arrigucci Jr. inicia o ensaio elogiando o conto de Cortázar, joia rara em meio a uma produção literária que já é excepcional em seu conjunto. A narrativa vai tratar da complexa questão do debate entre criação e crítica. 

"É desses instantes de alumbramento em que problemas fundamentais que preocupam o autor, constituindo, para ele, tema significativo, conseguem, graças a uma técnica extremamente eficaz, expressão num todo orgânico, capaz de envolver o leitor no dramático debate que nele se trava entre criação e crítica, nos próprios meandros da consciência criadora, dilacerada no mundo contemporâneo." (ARRIGUCCI JR.)

Cortázar vai refletir sobre a linguagem e a poética através da história do jazzman Charlie Parker (1920-55), o Bird, um fenômeno incompreendido em seu tempo, que buscou (ou perseguiu) quase o impossível através de suas improvisações musicais. A estória do personagem Johnny Carter traz muitos traços biográficos do músico na vida real.

No texto de Arrigucci Jr. temos acesso a várias informações muito interessantes. Enquanto leio, ouço uma interpretação da música "Out Of Nowhere" pelo mestre do Bebop, Charlie Parker. (depois fiquei ouvindo diversas músicas de Parker)

"Quando, então, se cotejam os fatos principais da vida de Johnny com os dados biográficos de Parker, salta aos olhos a fidelidade do retrato literário, como um signo icônico da realidade. Traços gerais e alguns muito peculiares coincidem totalmente: a miséria; a toxicomania; a vida atormentada e solitária; a falta, muitas vezes, do instrumento para tocar; o estranho hábito das longas viagens noturnas, sem destino, no metrô; o domínio perfeito de uma técnica musical incomum, nunca utilizada gratuitamente; a fidelidade à busca do alvo esquivo, com riscos de 'imperfeição' formal, de destruição da linguagem (como Parker teria dito certa vez: 'eu já não aguentava as harmonias estereotipadas que qualquer um tocava então. Não parava de pensar que devia haver algo diferente. Às vezes, eu podia ouvi-lo, mas não o podia tocar...'), etc" (idem) 

O sublinhado acima é meu, porque Arrigucci jr. comentou antes no texto essa busca, o que faria de Johnny/Charlie um "perseguidor" do algo novo, inédito, inalcançável.

Ao mesmo tempo em que há certa fidelidade biográfica entre personagem e músico (Johnny/Charlie), vemos também a liberdade poética de Cortázar ao inserir no enredo outras referências do mundo da arte, como o poeta Dylan Thomas (1914-53), mesmo sabendo que o preferido de Parker era Omar Kayyam.

"Mas a mudança para Thomas, poeta contemporâneo de Parker (ele nasceu em 1914 e morreu em 1953), representa uma intuição profunda de Cortázar, um achado notável do ponto de vista da coerência literária, uma vez que capta, por debaixo das diferenças, uma analogia fundamental entre essas duas breves existências, autodestruidoras e lendárias, da arte contemporânea." (idem)

Arrigucci Jr. se pergunta ao final da primeira parte do capítulo: "Como pôde o aparente perseguido deixar à mostra, no texto literário, toda a sua grandeza humana de um autêntico perseguidor do impossível?". E ele mesmo já antecipa o que vai avaliar a seguir, as técnicas narrativas: "A passagem da biografia à narrativa literária, à forma artística, à estrutura de signos, ambígua e polissêmica, capaz de se desprender das circunstâncias genéticas imediatas e ganhar a autonomia estética e o raio de ação dos símbolos, mantendo, ao mesmo tempo, vinculações com a realidade, coloca-se aqui como um problema fundamental." (idem)

Paro por aqui a postagem de leitura.

William


Bibliografia:

ARRIGUCCI JR., Davi. O escorpião encalacrado (A poética da destruição em Julio Cortázar). Editora Perspectiva. (não tenho a edição, é um pequeno trecho do livro fotocopiado para estudo universitário)


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Tempos de violência



"Devo seguir até o enjoo?

Posso, sem armas, revoltar-me?


Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, 

                   [alucinações e espera..."

(A flor e a náusea, Drummond)


Opinião

Como diz o poeta, os tempos são de fezes! 

Eu cresci numa época violenta, num lugar violento, no início dos anos 80. Olhando para o passado e consultando os dados econômicos e sociais do Brasil a gente consegue compreender um pouco do contexto em que vivíamos: uma sociedade de coronéis da Casa Grande racista contra o povo miserável. A estrutura do Estado na mão desses desgraçados para subjugar o povo.

A chamada "década perdida" dos anos oitenta, ainda sob o regime da ditadura civil-militar, que vigorou "formalmente" até 1985, marcou a infância e adolescência da minha geração que nasceu nos anos 60 e 70. Digo "formalmente" porque a ditadura nunca acabou, não cessou o sistema de agressão, repressão e tortura contra as classes subalternas, contra os pobres, os pretos e contra as minorias (que são as maiorias como explica Marilena Chauí).

Muitos de nós da classe trabalhadora crescemos com raiva, ódio e medo. E esses sentimentos são manuseados pela classe dominante para nos dominar mais ainda. Soma-se a ignorância e a falta de educação formal com a raiva, ódio e medo que sentíamos e temos um barril de pólvora e o estopim para a explosão e a criação da barbárie. Inclusive com zilhões de pessoas passíveis de serem manipuladas pelos falsos profetas e pastores mercenários. 

Para o povo brasileiro, o período dos governos do Partido dos Trabalhadores, com Lula e Dilma, entre 2003 e 2014, foi um pequeno oásis no deserto dessa eterna colônia de exploração Brasil.

As pessoas vivem, as pessoas morrem. As versões das jornadas de vidas e de mortes dos pobres são construídas pelos meios de informação e manipulação de massas, via de regra com o ponto de vista da classe dominante, que paga para que os profissionais da caneta e da pena (trabalho intelectual) floreiem as versões justificadoras da miséria do povo, do tipo - foi deus que quis, você será recompensado em outra vida no pós-morte, pobre é pobre porque é vagabundo, quem não venceu é por preguiça e falta de mérito etc. Ao mesmo tempo, bloqueiam qualquer oportunidade para os pobres e assim se mantém a massa ignorante, controlada e animada com o pão e circo.

Blá blá blá...

Os tempos são e continuam sendo de violência. Violência contra o povo. Contra os pretos e pretas. Contra os diferentes dos brancos da Casa Grande. Até contra aqueles que acham que não são pretos porque a pele é meio branca parda marrom, mas o cabelo é "ruim", a cor é meio esquisita e se vê pelo nariz ou pelo olho, uma orelha, a fala (xi, vc não é um deles!)... a elite diz que conhece um de nós de longe! Dizem que o cheiro de pobre é diferente, mesmo com perfume caro ou algum dinheiro conseguido. E seus capitães do mato e lacaios também nos reconhecem de longe. Mas o pior sempre é para os pretos e pretas... 

Após o golpe de 2016, após o fim da democracia mequetrefe que tínhamos, após a ascensão do nazifascismo tupiniquim desse país jabuticaba, após o fim do "politicamente correto" e com a adesão de parte do povo ao bolsonarismo (e a corrupção institucionalizada) e aos ódios inoculados em todos nós pelos meios de comunicação da Casa Grande, vimos explodir a violência contra o povo miserável, principalmente de pele preta ou com traços de descendência africana. Que fazer? Muitas lideranças do movimento dizem que não ser racista não é suficiente. Há que ser antirracista. Não sei ao certo como seria isso. Mas os tempos estão insuportáveis!

Tô de saco cheio, sem estômago pra continuar vendo pessoas de pele não branca morrendo de todas as formas possíveis e inventadas, mortes com bala, com chute, com mata-leão, com paulada, com porrada, com facada, com joelho no pescoço, com gravata, com brutamontes em cima até matar sem ar, com depressões e humilhações, sem atendimento médico também. Tô de saco cheio de ver pretas e pretos levando chutes, tapas e socos na cara e tudo seguir como está... um tempo de fezes!

Apesar de ter pele branca e só o cabelo "ruim" e ser um privilegiado por tudo que a jornada da vida me proporcionou, estou de saco cheio de ver tanta violência contra o povo! O povo precisa se defender! Essa guerra da Casa Grande contra o povo, estando os capitães do mato e lacaios da casa grande armados com as armas e com a caneta e a pena e o povo com o corpo indefeso e morrendo das mil mortes possíveis já encheu o saco!

Que merda! Que tempo de fezes!

Algo tem que mudar! O povo brasileiro precisa acordar e reagir como os povos sul-americanos estão fazendo. Sejamos chilenos e bolivianos!

William


sábado, 21 de novembro de 2020

211120 - Diário e reflexões


Lembranças do Amapá. Marco Zero do Equador.

Cenas cotidianas

Uma pessoa declama o poema Navio negreiro de Castro Alves e envia para um grupo de pessoas: fui um dos felizardos a receber o presente, o gesto. Que leitura! Que emoção ao ouvir o poema declamado. Que emoção ao sentir a emoção compartilhada! Que gesto nobre da amiga! Obrigado pelo presente, companheira!

Uma declaração de amor registrada em rede social. Uma declaração linda, rara de se ver. Uma declaração ousada porque confessa até a visão de mundo sem crença em deuses. Uma declaração de amor compartilhada pela recíproca do amor correspondido. Desejo tudo de bom ao casal, e que o amor seja eterno enquanto dure, posto que é chama, como dizia o poeta.

O Amapá é um Estado do Brasil. Os amapaenses são cidadãos brasileiros. Assim como o Acre, o Amapá existe, apesar de parcela dos políticos e instituições do país não respeitarem essas unidades federativas e ignorá-las cotidianamente. Desde o dia 3 de novembro, a população do Amapá sofre com a falta de energia elétrica. São 18 dias numa condição desumana. A barbárie é resultado da privatização do setor. Conheço o Amapá e estive lá 3 vezes durante meu mandato de gestor de saúde em uma autogestão, a Cassi. Deixo aqui minha solidariedade aos amapaenses e lamento por tudo que está ocorrendo com vocês.

E por falar em autogestão em saúde, a gente acaba se lembrando de modelos de sistemas de saúde, e de doenças e de pandemias. Vivemos uma crise mundial na saúde provocada por falta de financiamento dos sistemas de saúde e pela transformação da saúde em negócio, produto, serviço, e não em direito humano (parabéns aos que acham que estão dentro do sistema!). E como o capitalismo consegue idiotizar os seres humanos, pautar a agenda de acordo com seus interesses e invisibilizar os temas que não lhe interessam, agora vivemos a paz dos cemitérios em relação ao sucateamento do Sistema Único de Saúde e temas centrais não são mais passíveis de debates. A panaceia do momento é uma invenção para resolver todos os males da humanidade: a "telemedicina", seja lá que diabos isso signifique verdadeiramente... (deve ser o emplasto Brás Cubas...)

O Dia da Consciência Negra no Brasil foi marcado por ser mais um dia comum de assassinatos de pessoas em sua maioria de cor preta, parda ou descendentes de pessoas não brancas. João Alberto foi espancado até a morte por seguranças de um supermercado que tem longa ficha de casos de racismo e violência contra seus "clientes". Como o assassinato ocorreu no dia 19 poderíamos ter tido o dia 20 de novembro de 2020 como o início de um movimento que ficaria registrado no futuro como o dia que o Brasil deu um basta no racismo secular. Poderia ter iniciado uma guerra civil, uma queda de bastilha, um movimento de secessão, um movimento de independência... pára de sonhar! Não gerou nada além do comum. Manifestações indignadas de gente progressista (e de gente hipócrita), manifestações estapafúrdias e provocadoras como a de uma das maiores autoridades do país que disse que "não há racismo no Brasil" (teu cu que não tem!). Enfim, dias de inconsciência negra, inconsciência feminina, inconsciência de classe... afinal de contas as "eleições" locais do último domingo tiveram como maiores vitoriosos os representantes da casa grande e donos da colônia.

Chega! São tantas cenas cotidianas... a pandemia de Covid-19 segue contaminando e matando, tem uma tal segunda onda fodendo o mundo e no país das jabuticabas está tudo bem, não há mais dados confiáveis, não temos mais fiscalização em nada, está tudo aberto, as pessoas estão comemorando até o que não conseguimos saber, tem rodada do Brasileirão no fim de semana, mengo, mengo, curintia, curintia... tem samba, tem pagode, tem funk, e as mortes são porque deus quis. Viva os golpistas! Vocês venceram! Estamos cada um por si.

William


sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Tempo (XIV)



Refeição Cultural

Estou relendo o conto de Julio Cortázar, "O perseguidor", do livro As armas secretas (1959) e o personagem principal, Johnny, fala sobre a questão do tempo. Ele acha incrível o fato de poder pensar em ações e acontecimentos que duram muito mais tempo do que o tempo físico e cronológico. O caso que ele conta é sobre ver em seus pensamentos sua mãe fazer uma oração enorme, pessoas tocarem músicas de vários minutos e tudo isso acontecer num curto espaço de tempo real, do relógio, entre uma estação e outra do metrô, coisa de um minuto e meio. Ele considera o metrô como um relógio e as estações os minutos.

"- Um minuto e meio, nada mais, pela sua conta, pela conta do tempo dessa aí - disse rancorosamente Johnny. - E também pelo do metrô e pelo do meu relógio, malditos. Então, como pode ser que eu tenha pensado durante quinze minutos, hein, Bruno? Como se pode pensar um quarto de hora em um minuto e meio? Juro que naquele dia eu não havia fumado nem um pedacinho, nem uma folhinha - acrescenta, como um menino que pede desculpas. - E depois tornou a me acontecer, agora começa a me acontecer em todos os lugares. Mas - acrescenta astutamente - só no metrô posso perceber porque viajar no metrô é como estar metido num relógio. As estações são os minutos, você entende?, é esse o tempo de vocês, de agora; mas eu sei que existe outro e andei pensando pensando..." (CORTÁZAR, p. 87)

Essa parte do conto de Cortázar me lembrou o conto de Jorge Luis Borges, "O milagre secreto", que também já lemos no programa da disciplina de Literatura Comparada II, com a professora Viviana Bosi. Nele, o personagem no corredor da morte pede a Deus mais tempo para terminar seu romance inacabado. De alguma forma, o personagem recebe esse tempo extra que precisava e consegue terminar sua obra, apesar do tempo físico seguir nos segundos do relógio dos nazistas e do pelotão de fuzilamento. A passagem é muito bonita para nós leitores que soubemos do acontecimento, porque os leitores do mundo ficcional do enredo nunca souberam que Hladik conseguira terminar a obra de sua vida, "Os inimigos". Veja abaixo seu pedido de tempo:

"Pensou que ainda lhe faltavam dois atos e que em breve ia morrer. Falou com Deus na escuridão. 'Se de algum modo existo, se não sou uma de tuas repetições e erratas, existo como autor de Os Inimigos. Para levar a termo esse drama, que pode justificar-me e justificar-te, requeiro mais um ano. Outorga-me esses dias, Tu de Quem são os séculos e o tempo.' Era a última noite, a mais atroz, mas dez minutos depois o sono o inundou como água escura." (BORGES, p. 570)

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A releitura do final do conto de Borges, o drama de Hladik, me comoveu intensamente. Lágrimas! E o ano extra que ele teve para concluir sua obra lhe foi concedido... e tudo durou uma certa quantidade de segundos no tempo do relógio nazista... aff! Que dureza!

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Reflexão após leituras

Todos esses estudos ligados à questão do tempo e das "configurações do tempo em diversas formas de narrativa e poesia" - nome que a professora Viviana Bosi deu à disciplina que estamos fazendo - tem feito com que eu reflita muito e sobre muitas coisas. Sobre a vida, sobre a sociedade, sobre o tempo em tempos de pandemia mundial de Covid-19. Sobre sentidos e busca de sentidos nas coisas. Sobre a história.

Meu curso caminha para seu fim. O fim de um tempo em minha vida. Ao mesmo tempo, o contexto mundial faz com que tenhamos a sensação que muitas coisas caminham para o fim também. O fim de uma época, de uma era. Um ciclo histórico, talvez. E com muitas incertezas sobre o futuro (é claro!); futuro que poderia ser um reflexo distorcido do passado, já que entendo que o passado não se repete, apesar das concepções ideológicas que tentam negar o presente histórico com a tese de buscar no futuro o passado, aliás um passado mítico, inventado, que nunca existiu.

Enfim, vamos seguir lendo e estudando. Tenho que encontrar sentidos mesmo sabendo que não há sentidos a encontrar. A gente cria sentido para as coisas para justificar a existência de algo ou de alguém.

William


Bibliografia:

BORGES, Jorge Luis. Obras completas, Volume 1, 1923-1949. Editora Globo.

CORTÁZAR, Julio. As armas secretas. Tradução de Eric Nepumoceno. 2ª edição, José Olympio Editora.


quarta-feira, 18 de novembro de 2020

181120 - Diário e reflexões



Instantes

Quarta-feira, dia 18 de novembro do ano do novo coronavírus (a "gripezinha" já matou 1,3 milhão de marias e joões, sendo 166,7 mil no Brazil do verme que colocaram no poder). O tempo avança a cada segundo; ao menos o tempo físico, aquele que é marcado pela movimentação dos corpos no Universo. Milhões de eventos acontecem neste instante em que escrevo. Mortes acontecem; de seres vivos em geral. Mortes inexplicáveis acontecem como a de uma família sentada na sombra de falésias na praia de Pipa: o barranco caiu em cima dela. Nascimentos acontecem; o tempo todo. Conspirações são planejadas e encaminhadas. A tristeza e as diversas formas de depressão adoecem milhões de pessoas (tristeza não é doença, mas pode adoecer; depressão é doença, mas podemos estar deprê sem estarmos doentes). Gente solidária ajuda gente que precisa de algum apoio de terceiros; na verdade, todo mundo precisa dos outros, mesmo os imbecis que se acham autossuficientes. Estudantes não conseguem estudar; mesmo aqueles que gostariam de. As pessoas estão bebendo descontroladamente e estão adoecendo seus organismos. Bebem de alegria, bebem de tristeza; estão se matando do mesmo jeito: mortes explicáveis. Obama dá entrevistas por aí, e o Biden ganhou a eleição dos Estados Unidos (senhores da guerra e com Nobel da "paz"); se os democratas tomam posse ou não em janeiro é o que veremos; "cidadãos" republicanos apoiadores do trumpismo não aceitam a derrota: janeiro é futuro, e o futuro é incerto. Neste instante, milhões de mulheres no mundo sofrem diversas formas de violência dentro de suas casas. Muitas vezes, conhecemos mulheres que sofrem alguma forma de violência dentro de suas casas. Mulheres estão sós, estão mal acompanhadas, estão escravizadas, estão sofrendo. Tem gente otimista que acha que as esquerdas foram bem nas "eleições" locais brasileiras. Tem gente que acha que as esquerdas foram mal. Ficou claro que os golpistas se deram bem (chamam a direita golpista e corrupta de "centro"). No país jabuticaba o crime sempre compensa, ainda mais se é praticado contra a plebe, a massa preta parda morena descendente de homens brancos que vieram de fora do Norte na colonização e engravidaram as mulheres que aqui havia e que aqui chegaram; quase não somos filhos de "brancas", mas quase todos somos filhos de brancos; somos filhos de mulheres índias, pretas, marrons, brancas, amarelas. E a pandemia do Sars-Cov-2 segue matando; o povo está cansado do vírus (nem ligam mais para os números da pandemia do vírus); o vírus não tá nem aí pro cansaço do povo, ele quer mais é se multiplicar nas células corporais de suas vítimas e novas vítimas. No país jabuticaba os números sumiram, foram camuflados disfarçados hackeados embaralhados, agora se morrem de diversos motivos que deus quis menos de Covid-19 (dizem que é pra não atrapalhar as eleições que vão até 29 de novembro. Tem prefeito reeleito que fechou os leitos de Covid-19 no dia seguinte da reeleição; tem governador com candidato em segundo turno que só vai tomar as medidas pelo aumento dos casos no dia 30, após as eleições em 29 de novembro. Tudo com a retórica da ciência, claro!). O tempo passa... desde que este texto começou a ser rabiscado-digitado já se passaram muitos minutos, talvez hora. Pelas estatísticas do país jabuticaba, neste período de fazimento do texto, várias mulheres já foram violentadas, espancadas; várias pessoas trans foram assassinadas, várias mulheres foram assassinadas; vários menores foram abusados. Quase dois terços dos assassinados são pretas pretos pardas pardos marrons. Na última hora, várias conspirações foram acertadas e muita gente e instituições serão vítimas. E ainda tem gente solidária ajudando gente, felizmente (mas sem o Estado, só de forma voluntária, em nome de deus, do coração, da consciência etc). Eu sigo respirando, coração batendo, corpo envelhecendo, a gana que vive em meu cérebro, minha essência minha identidade, segue tentando resistir a tudo e estar por aqui como esteio de algumas pessoas queridas. Estou sem inspiração para ler e estudar os últimos textos da última matéria do último semestre na faculdade. Sem inspiração para escolher o tema do último trabalho escolar. Mas o que me preocupa são os nossos jovens, que estão sofrendo muito. Meu coração aperta dói e chora por eles (coração bate, olhos choram). Como posso ajudá-los? Talvez resistindo neste momento e tendo serenidade para esperar o tempo passar porque o tempo passa e tudo muda, tudo se transforma e o momento seguinte é o novo presente, o tempo todo temos novas possibilidades de presente. Jovens, resistam, sonhem, se puderem ajam, se não, esperem, mas resistam. Novas oportunidades vêm com o instante seguinte. Tem "eleições" (apesar das fraudes do processo eleitoral) e devemos apoiar e votar nos candidatos de nossa classe, votem na esquerda. Não bebam, ou bebam pouco, não se destruam, não se exponham (não se exponham aos inimigos e não fiquem indefesos ao estarem alcoolizados...)

William


terça-feira, 17 de novembro de 2020

Tempo (XIII)



Refeição Cultural

"(Hladik preconizava o verso, porque impede que os espectadores esqueçam a irrealidade, que é condição da arte)" (BORGES, Obras completas, V. 1, Editora Globo, p. 569)


LEITURAS DE BORGES

No texto de Jorge Luis Borges, O milagre secreto, o personagem Jaromir Hladik é um escritor judeu capturado pelos alemães em Praga e é condenado à morte. Ele é preso dia 19 de março de 1939 e será executado em 29 de março. 

O narrador nos conta a situação dramática que vive o personagem durante os dez dias no corredor da morte. Borges trabalha a questão do tempo psicológico e o tempo cronológico, descolando um do outro. 

Hladik tinha um drama em versos inacabado e aquilo o incomodava muito ao saber que iria morrer. Ele pediu a Deus que lhe desse mais um ano para terminar o romance. Na manhã do dia 29, diante do pelotão de fuzilamento (me lembrei do Buendía de G. G. Márquez), Hladik tem seu pedido atendido por Deus e consegue terminar seu romance.

A estória não deixa de ser interessante e nos coloca a pensar muito sobre o tempo em relação à nossa percepção da realidade no mundo físico e cronológico.

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Qual seria a direção do tempo? Borges especula sobre o tema no texto História da eternidade.

Borges começa dizendo que o mais comum é pensarmos que a direção do tempo vai do passado em direção ao futuro, mas cita Unamuno para dizer que o contrário não é ilógico.

"Uma dessas obscuridades, não a mais árdua nem a mais bela, é a que nos impede de precisar a direção do tempo. Que flui do passado para o futuro é a crença comum, mas não mais ilógica é a contrária, aquela que Miguel de Unamuno gravou em verso espanhol:

        Noturno o rio das horas flui

        de seu manancial, que é o amanhã

        eterno..." (BORGES, Obras completas, V. 1, Editora Globo p. 387)

Em seguida, o escritor argentino emenda outras reflexões sobre o tempo que nos coloca a pensar imediatamente. Que não haveria futuro, em Bradley, ou que não haveria presente, conforme uma escola filosófica indiana.

"Ambas são igualmente verossímeis - e igualmente inverificáveis. Bradley nega as duas e adianta uma hipótese pessoal: excluir o futuro, que é uma simples construção de nossa esperança, e reduzir o 'atual' à agonia do momento presente desintegrando-se no passado (...) Bradley nega o futuro; uma das escolas filosóficas da Índia nega o presente, por considerá-lo inapreensível. 'Ou a laranja está prestes a cair do galho, ou já está no chão', afirmam esses simplificadores estranhos. 'Ninguém a vê cair'." (p. 388)

A eternidade

"Nenhuma das várias eternidades que os homens planejaram - a do nominalismo, a de Ireneu, a de Platão - é agregação mecânica do passado, do presente e do futuro. É algo mais simples e mais mágico: é a simultaneidade desses tempos..." (p. 388)

A sequência da leitura do texto é bem exigente. Demanda leitura repetida dos parágrafos. Borges analisa reflexões de Plotino, de Platão e seu mundo das ideias, dentre outros autores. Complexa a coisa...

Após criticar a base do mundo das ideias com alguns exemplos do tipo "Um capítulo de Schopenhauer não é o papel nas gráficas de Leipzig nem a impressão, nem as delicadezas e perfis da escrita gótica (...) nem sequer a opinião que temos dele" (p. 391), Borges diz: 

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"Essas ilustrações ou sofismas podem exortar-nos a tolerar de boa vontade a tese platônica. Vamos formulá-la assim: Os indivíduos e as coisas existem na medida em que participam da espécie que os inclui, que é sua realidade permanente." (p. 391)

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Pausa na leitura, para pôr as ideias no lugar...

William


Bibliografia:

BORGES, Jorge Luis. Obras completas, Volume 1, 1923-1949, Editora Globo.


segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Tempo (XII)



Refeição Cultural

O tempo. A passagem do tempo. As diversas formas de sentir a passagem do tempo. É possível voltar no tempo? Os sentidos do tempo: ele é linear e avança ou não? Podemos usar melhor o tempo, que passa inexoravelmente para todos? O tempo.

Cansaço. É possível não se cansar à medida que o tempo avança e com ele avançamos, ou seja, envelhecemos? Há diversos tipos de cansaço, o cansaço mental, o cansaço físico passível de solução com o descanso, o desgaste do tempo e seus efeitos nas células e estruturas do corpo. O cansaço.

Manhã de segunda-feira, dia 16 de novembro do ano do aparecimento da pandemia de Covid-19. O tempo avança no calendário arbitrário que seguimos aqui onde vivo. Psicologicamente, somos culturalmente treinados para aguentar só mais um pouco porque o ano de 2020 estaria acabando e com a "passagem" do ano e um novo ano, tudo se renovaria... organizamos a vida social com calendários e datas que facilitam essas construções mentais de fim e recomeço. Sem elas talvez não aguentássemos o cansaço...

O fato é que o tempo em si está passando do mesmo jeito, a cada segundo, a cada instante, em todos os lugares do universo. Meu coração segue batendo e se desgastando. Meu sangue segue circulando impulsionado pelo coração que bate. Meu sangue pode conter mais ou menos elementos favoráveis ou desfavoráveis ao funcionamento de todos os sistemas que dependem dele em meu organismo. Colesterol, glicose, minerais essenciais, oxigênio. Artérias e veias podem estar livres ou entupidas. O tempo passa a cada segundo.

Vamos retomar a leitura dos textos que tenho que estudar no contexto da disciplina que estou fazendo na faculdade de Letras. São os últimos textos, da última matéria, do último semestre de estudos na USP. Acho que meu cérebro cansou dessa longa convivência com meu curso nunca acabado de Letras. Como a vida é uma jornada e não um destino, posso afirmar a mim mesmo que o resultado desse esforço que fiz ao fazer graduação em Letras foi o que tinha que ser. Eu não poderia ter deixado de ser dirigente sindical enquanto fazia o curso na década passada. Ser professor naquela condição era mais inviável ainda. Ser professor agora não rola mais. Estou terminando o curso por birra, por orgulho, por vaidade. Não acho certo deixar de completar os créditos e disciplinas exigidos pela faculdade para colar grau nas duas habilitações que fiz. O tempo segue avançando para o fim, para o meu fim, que pode ser no instante seguinte como pode demorar uns 30 anos. Cansaço.

Vou ler os textos de Borges, mas acho que não me identifico com ele. Gosto mais dos outros que lemos, o Kafka, o Tchekhov, Mann. Acho que Borges não desce por ele ser de um espectro político oposto ao meu. Estou tão enojado com o avanço da direita no mundo, no meu mundo, ao ver os desgraçados que deram o golpe e destruíram o nosso país e nossos direitos estarem por aí na boa, que estou contaminado para qualquer coisa, para falar com gente de direita, andar no mesmo elevador, ler e ouvir coisas de gente de direita. Essa merda toda.

Vamos ler. Faltam poucas semanas para acabar um tempo de minha vida, um tempo que poderia ter sido tão bem aproveitado e não foi. Foi do jeito que foi e do jeito que poderia ter sido.

William