quinta-feira, 3 de abril de 2025

Poema 23: 3 de abril


3 DE ABRIL


A sinfonia das cigarras.

A caminhada no Parque.

O cheiro úmido da relva.

A vida verde no tronco caído. 

A caminhada e a dor no quadril.

Os olhos e a visão da natureza. 

A vida nas pernas e nos olhos.

O sol, o cheiro, o som e a vida.

A epifania da manhã no Parque.

As substâncias da vida.


A tarde e o cotidiano da vida.

O cotidiano da vida nas noites.

As poucas lembranças do dia.

As mesmas questões colocadas.

A manhã, a tarde, a noite.


O dia termina. 

A vida segue.


William 

03/04/25


terça-feira, 1 de abril de 2025

Instantes de leitura (e da vida)



Refeição Cultural

"Porque pictura est laicorum literatura" (O Nome da Rosa, Umberto Eco, 2003, p. 48)


Eu já havia lido quase duzentas páginas deste clássico de Umberto Eco quando tive a consciência de que estava lendo mal o romance. Parei. 

A lição de Paulo Freire é séria: não importa a quantidade e sim a qualidade da leitura. 

Recomecei a ler e sem pressa O Nome da Rosa (1980). Ler sem me concentrar e viajar na história com Adso de Melk e o Frei Guilherme de Baskerville seria pura perda de tempo, um tempo que não tenho de sobra mais. 

Na passagem que li hoje, a dupla de personagens está admirando o portal da igreja que compõe o conjunto arquitetônico da abadia que visitam. Eles estão hipnotizados com as pinturas desenhadas no portal.

Ler com atenção é a única leitura que dá prazer. Até a citação em latim entendi sem precisar de tradução. A lição é antiga: como o povo era analfabeto, eram as pinturas que contavam as histórias e passagens dos livros sagrados.

Enquanto lia as descrições das figuras que Adso de Melk nos contava, fiquei me lembrando das pinturas e esculturas em relevo que vi em igrejas famosas na Itália e outros lugares. É algo espetacular!

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"Você não pode embarcar de novo na vida, esta viagem de carro única, quando ela termina" (p. 37/38)

Quanto ao livro de Alberto Manguel, Uma história da leitura (1999), livro que marcou minha história da leitura, o peguei pra ler como um crente com sua Bíblia. 

A mensagem acima parece ter sido escrita para mim...

Não poderia perder um segundo desta viagem única, pois não poderei embarcar nela novamente, como podemos fazer com os livros, como eu fiz com o do Umberto Eco. 

Estou vivendo esta viagem única da mesma forma que estava lendo Umberto Eco meses atrás...

Que foda.

William 

segunda-feira, 31 de março de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 31 de março de 2025. Segunda-feira.


MARÇO

Sonho 1 - Raramente me lembro dos sonhos. Nesta noite, sonhei com uma aranha na janela e com duas cobras, talvez jararacas pequenas. Acordei me lembrando até do desfecho do sonho. A aranha da janela foi-se embora, consegui fazê-la sair. As cobras pularam no chão e foram para cima de minha companheira, no calcanhar. Tive que matá-las. Um sonho... coisa rara!

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Ontem, somei com milhares de pessoas na manifestação paulista para cobrar justiça e punição aos golpistas que tentaram um golpe de Estado após a eleição do presidente Lula em 2022. Foi um ato lindo! (imagens aqui)

O sujeito que estava na presidência anterior é acusado de liderar a tentativa de golpe, que planejou inclusive o assassinato do presidente Lula e seu vice e um ministro do Supremo Tribunal Federal. Sem contar explodir bomba em aeroportos e outras barbaridades do tipo.

Sonho 2 - Eu tenho uma teoria e não escondo de ninguém. Na minha leitura política e do pouco que conheço do Brasil, Bolsonaro não será preso. As autoridades brasileiras fizeram de tudo nos últimos dois anos para o cagão fugir do país. Seria um sonho vê-lo condenado e preso pelos crimes que cometeu. Não vejo esse sonho se realizar.

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Cadernos dos blogs - Até que me esforcei para sistematizar meus textos nos blogs de cultura e sindical. Revisei alguns anos e encadernei os textos produzidos ao longo das últimas duas décadas.

Falta muito trabalho a ser feito. Mas só se sobe a escada degrau por degrau. Então é continuar.

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Pós-graduação do ICL - Me inscrevi no curso de pós e logo depois tomei consciência de que terei muita dificuldade de seguir no curso e concluí-lo. Estou gostando do conteúdo e das aulas. O problema sou eu. Foi um momento de empolgação por sempre ter tido o desejo de estudar e conhecer mais. No entanto, sei que não estou em condições de me dedicar a uma pós-graduação.

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Fiz um esforço do cão para praticar atividades físicas neste mês. Fiz um esforço grande para participar de eventos políticos quando convidado ou quando sei da chamada. Mas sinto que as coisas não vão bem comigo. Não é a idade. Pode ser a quilometragem ou a genética. É a natureza.

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Queria registrar algo mais sobre o mês, mas estou cansado.

Vida que segue. Me esforço pra isso.

William

Poema 22: Que crime? Golpe de Estado?


QUE CRIME? GOLPE DE ESTADO?


Tentativa violenta de Golpe de Estado?

Planejar matar o presidente e o vice eleitos?

Planejar matar ministro do Supremo?

"Mas isso é crime? Foi realizado?"


Falsificar cartão de vacinas para entrar em um país?

Vender joias presenteadas ao país e embolsar o dinheiro?

Pintar um clima entre um velho e uma criança?

"Desde quando é crime não tomar vacina?"


Desrespeitar leis ambientais com jet ski no caso da baleia?

Mentir de forma contumaz sendo autoridade pública?

Praticar crime de racismo com provas gravadas?

"Mentir todo mundo menti, isso é crime?"


Desviar recursos públicos ficando com salários de assessores?

Desrespeitar as leis de trânsito e não usar capacete?

Sugerir metralhar cidadãos de certo partido político?

"Ué, então todo mundo é criminoso, não uso capacete."


Que crime? Por que criminoso?


Aos poucos a mídia da casa-grande,

a elite rentista da Faria Lima,

os exércitos de privilegiados,

as instâncias do sistema judicial,

todos, vão atuando no caso Bolsonaro.

Normalizando tudo. 


A estratégia é tirar os crimes materiais do imaginário popular,

do tipo roubar, ser ladrão, fraudar...

e sobrar crimes abstratos do tipo "Golpe de Estado",

ser "sincerão" e dizer o que pensa

de pretos, mulheres, gays, "comunistas"...


Enfim, ficaria feliz de ver

Bolsonaro na cadeia

por tudo que fez.


Não acredito nisso, 

aqui é o Brasil ("porra!").


William 

31/03/25

(61 anos de impunidade)


sábado, 29 de março de 2025

Leitores: seres temidos!



Refeição Cultural 

"Mas não são apenas os governos totalitários que temem a leitura. Os leitores são maltratados em pátios de escolas e em vestiários tanto quanto nas repartições do governo e nas prisões. Em quase toda parte, a comunidade dos leitores tem uma reputação ambígua que advém de sua autoridade adquirida e de seu poder percebido. Algo na relação entre um leitor e um livro é reconhecido como sábio e frutífero, mas é também visto como desdenhosamente exclusivo e excludente, talvez porque a imagem de um indivíduo enroscado num canto, aparentemente esquecido dos grunhidos do mundo, sugerisse privacidade impenetrável, olhos egoístas e ação dissimulada singular. ('Saia e vá viver!', dizia minha mãe quando me via lendo, como se minha atividade silenciosa contradissesse seu sentido do que significava estar vivo.) O medo popular do que um leitor possa fazer entre as páginas de um livro é semelhante ao medo intemporal que os homens têm do que as mulheres possam fazer em lugares secretos de seus corpos, e do que as bruxas e os alquimistas possam fazer em segredo, atrás de portas trancadas..." (Uma história da leitura, Alberto Manguel, 1999, p. 35)


Profunda a percepção de Manguel sobre essa coisa quase inominável que há entre grupos humanos quando pessoas que gostam de ler e estudar e conhecer muito começam a ser foco de alguma forma de isolamento dos demais por bullying ou por escanteamento daquele ou daquela que pode a qualquer momento questionar o líder do referido grupo ao qual pertence. 

(Também há grupos sociais que valorizam os leitores e os que sabem muito, claro!)

A partir do momento que um leitor passa a dominar um tema - um saber - que a maioria ao seu redor não sabe, ou que o tema é domínio exclusivo de determinado grupo que usa aquele saber para obter qualquer tipo de vantagem, aquele leitor passa a ser um incômodo ou se torna alguém temido ou rejeitado, a depender da própria condição do leitor no status quo de seu grupo humano. 

Isso é claro e notório para os bons leitores e leitoras, aquel@s que leem nas entrelinhas e leem mais que palavras, leem o mundo ao redor.

Se olhasse para trás, conseguiria imaginar momentos no percurso do viver que ilustrariam o excerto acima. Sempre frequentei ambientes nos quais se lia pouco, a começar pelos ambientes da infância e adolescência. E depois na vida adulta. Sou fruto da sociedade humana de onde nasci.

Enfim... se entrei para as estatísticas dos poucos que leem foi por acasos, veredas da vida. Sorte.

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Vi o filme "Dias perfeitos" (2023), de Wim Wenders. 

Cara, estou até agora bolado com a história. 

Muitas questões colocadas, nenhuma resposta dada... senão seria fácil demais!

E quanto a mim? E meus dias perfeitos? Por que não? Por quê? O que me impede?

...

William  

quinta-feira, 27 de março de 2025

Diário e reflexões


Luna e Tim no debate Juventude e Política.

Refeição Cultural

Quinta-feira, 27 de março de 2025.


Hoje foi um dia de exercício de cidadania. Estive em fóruns democráticos que valorizam o debate coletivo e a construção de consensos e busca de avanços em direitos sociais.

Pela manhã, participei de um encontro em nossa Associação de Funcionários Aposentados do Banco do Brasil (Afabb-SP) que debateu o tema "Juventude e Política".

O encontro contou com a presença de nossa vereadora Luna Zarattini (PT-SP) e com adolescentes de uma escola pública da Zona Sul de São Paulo, além dos colegas da comunidade BB.

Foto que a equipe da Luna nos enviou.

Foi uma manhã de inspiração e esperança na boa política e no engajamento das novas gerações na construção coletiva de direitos. Temos que apostar na transição geracional entre a militância mais experiente como nós que estamos há décadas nas lutas e a geração de novas lideranças como a nossa companheira Luna e nas meninas e meninos que estiveram no encontro.

Para os estudantes, Luna Zarattini fez uma apresentação resgatando a sua história de envolvimento com a política desde os grêmios estudantis e fez também uma análise de conjuntura esclarecendo para os participantes as principais questões em debate na Câmara Municipal de São Paulo, resumiu os principais ataques dos governos de extrema-direita Tarcísio e Nunes à sociedade paulista e paulistana e se colocou à disposição de todas as lutas e demandas dos jovens e das populações periféricas, como vem fazendo há anos.

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Luna recebeu o livro Mulheres Armadas de Amor.
A vereadora foi presenteada também com os livros do
companheiro Tim, ator e diretor de teatro.

Na oportunidade, pude presentear a nossa companheira Luna Zarattini com o nosso livro coletivo "Mulheres Armadas de Amor", livro em homenagem às lutas feministas e às mulheres citadas na obra. Fiz uma contribuição ao livro homenageando nossa jovem vereadora Luna.

O livro tem prefácio de Alice Ruiz e é organizado por Cleusa Slaviero. Essa edição homenageia nossa querida companheira Daniele Bittencourt Azevedo, que nos deixou recentemente, e tem textos emocionantes e potentes sobre diversas mulheres que são exemplos de luta, de vida e de amor, mulheres que nos inspiram e nos enchem de esperança em um mundo melhor, mais justo e solidário.

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No fim do dia, participei de assembleia presencial de condomínio, e durante horas dezenas de pessoas exercitaram a cidadania e a democracia buscando soluções e melhorias para uma comunidade de centenas de moradores.

É isso!

William


terça-feira, 25 de março de 2025

Casa-grande & Senzala (1)



Refeição Cultural 

CASA-GRANDE & SENZALA


"Mas a casa-grande patriarcal não foi apenas fortaleza, capela, escola, oficina, santa casa, harém, convento de moças, hospedaria. Desempenhou outra função importante na economia brasileira: foi também banco. Dentro das suas grossas paredes, debaixo dos tijolos ou mosaicos, no chão, enterrava-se dinheiro, guardavam-se joias, ouro, valores. Às vezes guardavam-se joias nas capelas, enfeitando os santos. Daí Nossas Senhoras sobrecarregadas à baiana de teteias, balangandãs, corações, cavalinhos, cachorrinhos e correntes de ouro..." (p. 40)


Nunca li o clássico de Gilberto Freyre. Até li umas dezenas de páginas em 2017, mas parei de ler.

Tenho uma certa birra com o ensaio de Gilberto Freyre. Mas acho um texto referencial, todos nós deveríamos lê-lo. 

Inventei de fazer a pós-graduação do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) meio que de forma impulsiva. Fiz isso a vida toda: inicio percursos de cultura e conhecimento por desejo e depois acabo não finalizando o percurso por alguma dificuldade. 

Nos textos da bibliografia da primeira disciplina "Narrativas da História do Brasil" e nas aulas e debates, Gilberto Freyre é sempre citado, nem sempre de forma elogiosa.

Peguei minha edição do livro, reli a introdução de Fernando Henrique Cardoso - "Um livro perene" -, e estou lendo o Prefácio à 1a edição, de 1933.

Que dizer? É um clássico das tentativas de explicação sobre o Brasil e os brasileiros. Não concordo com o pouco que li da tese do autor. Cheguei a ler quase duzentas páginas na primeira vez que encarei o ensaio de Freyre. 

Enfim, ler é sempre uma atitude que nos faz humanos. 

William 

segunda-feira, 24 de março de 2025

Operação Cavalo de Tróia (18) - J. J. Benítez



Refeição Cultural 

"Quanto a Judas Iscariotes, nunca cheguei a saber com exatidão quais teriam sido seus verdadeiros sentimentos. Em um ou outro momento pareceu-me notar em seu rosto sinais evidentes de desacordo e repulsa. É possível que tudo aquilo lhe parecesse infantil e risível. Como gregos e romanos, considerava grotesco e desprezível todo aquele que consentisse em montar um asno. Creio não me equivocar se deduzo que Judas estivera a ponto de abandonar ali mesmo o grupo. Possivelmente detivera-o o fato de ser ele o 'administrador' dos bens. Isso significava uma possibilidade de dispor de dinheiro, e Judas sentia especial inclinação pelo ouro." (p. 168/169)


Quem descreve e analisa um dos apóstolos de Jesus Cristo na passagem acima é o astronauta do futuro - Jasão -, personagem de nossos tempos (século XX), infiltrado na comitiva do nazareno lá na longínqua Palestina do ano 30.

Esse é o enredo do livro "Operação Cavalo de Tróia" do escritor e jornalista J. J. Benítez, publicado pela primeira vez em 1984.

Quando li a história pela primeira vez, ainda adolescente, fiquei fascinado com a riqueza de detalhes contida no romance. 

O leitor daquela época era um cidadão brasileiro como a maioria em seu ambiente social, era católico e acreditava em toda sorte de abstrações criadas pela mente humana. 

Mesmo lendo hoje, sendo um materialista, acho o livro incrível! Ficção bem feita é isso!

A postagem anterior pode ser lida aqui.

William 


sábado, 22 de março de 2025

Uma história da leitura: A última página



Refeição Cultural 

"De início, mantinha meus livros em rigorosa ordem alfabética, por autor. Depois passei a separá-los por gênero: romances, ensaios, peças de teatro, poemas. Mais tarde tentei agrupá-los por idioma, e quando, durante minhas viagens, era obrigado a ficar apenas com alguns, separava-os entre os que dificilmente lia, os que lia sempre e aqueles que esperava ler..." (p. 33/34)


O livro de Alberto Manguel "Uma história da leitura" (1997) faz a gente viajar, tanto na história dos livros e suas leituras e leitores, quanto em nosso próprio passado de leituras ou não leituras. 

Fiquei tentando me lembrar de minhas primeiras leituras...

Os gibis vêm em primeiro lugar nas lembranças. Foi em uma aventura do Tio Patinhas, Pato Donald e seus sobrinhos que conheci a mosca tsé-tsé que faz suas vítimas dormirem.

Foi em Uberlândia, onde cresci e vivi entre os dez e os dezessete anos, que comecei a ler livros. Não me lembro de ter trazido livro algum para São Paulo, quando vim morar com minha avó Deolinda e primos. Vim sem nada. Ou deixei o que tinha nos meus pais ou era tudo emprestado o que li. Eu lia muitos livros do Jorge Luiz, meu primo.

"(...) era tão arbitrária ou constituía uma escolha tão aceitável quanto a literatura que eu mesmo podia construir, baseado nas minhas descobertas ao longo da estrada sinuosa de minhas próprias leituras e no tamanho de minhas próprias estantes. A história da literatura, tal como consagrada nos manuais escolares e nas bibliotecas oficiais, parecia-me não passar da história de certas leituras - mais velhas e mais bem informadas que as minhas, porém não menos dependentes do acaso e das circunstâncias." (p. 34)

O que Manguel descreve sobre o acaso das leituras é bem verdadeiro em nossas histórias de leituras.

Durante os anos de crescimento em Uberlândia, eu fui lendo os livros que tomei emprestado, a maioria do meu primo. Eu ir a uma livraria comprar um livro era algo fora de perspectiva à época.

Naquele tempo, anos oitenta, eram livros "best sellers", os mais vendidos ou lançados no "Círculo do Livro", os livros que a gente lia.

Então, li adolescente "Tubarão" (1974), de Peter Benchley, "O exorcista" (1971), de William Peter Blatty, "Os mortos vivos" (1979), de Peter Straub (ler comentário aqui), "Horror em Amityville" (1977), de Jay Anson (ler aqui), "Carrie" (1974), de Stephen King (ler aqui) e outros livros de suspense. Eram os livros da hora.

Calhou de ler alguns livros que podemos considerar clássicos da literatura universal. Li "Lolita" (1955), de Vladimir Nabokov, e "Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída" (1978) antes dos dezoito anos. Li "Mar morto" (1936), de Jorge Amado (ler aqui), um puta clássico. Li "Hamlet" (1600), de William Shakespeare (ler aqui), e gostei demais da tragédia!

Dos livros que a escola obrigava a ler, me lembro do sofrimento pra ler "O cortiço" (1890), de Aluísio Azevedo, "O Ateneu" (1888), de Raul Pompeia e "Senhora" (1875), de José de Alencar.

Li muito jovem "Enterrem meu coração na curva do rio" (1970), de Dee Brown. Que orgulho!

A história da leitura de cada leitor(a) já é uma aventura. Acredito nisso de verdade. 

Eu não fui salvo só pelos acasos, pelos anjos e pessoas queridas que passaram por minha vida e pelo movimento sindical. 

Também fui salvo pelos livros. 

William 


quarta-feira, 19 de março de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 19 de março de 2025. Quarta-feira.


"- É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade." (Ensaio sobre a cegueira, José Saramago)


Li um artigo hoje que me deixou reflexivo, artigo anunciando uma grande guerra em breve. De certa forma eu tenho a mesma leitura de cenário, mesmo sem ter o conhecimento que o articulista tem, vivendo na Alemanha. As fábricas de automóveis alemãs estão sendo fechadas por crise econômica e vão virar fábricas de armas para abastecer a guerra adiante.

O artigo "A Europa se prepara para a guerra" é do professor aposentado Flávio Aguiar, que também é jornalista e escritor, e está na página do site Vi o Mundo. Tive algumas aulas de literatura na Universidade de São Paulo com o professor Flávio e gosto muito dele. Leio seus artigos desde a antiga página da Carta Maior.

Aí, lendo a carga de textos da primeira semana de aula da pós-graduação do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), bibliografia da disciplina "Narrativas da História do Brasil", todos os textos versam sobre guerras, pessoas ou escravizadas ou deliberadamente eliminadas para desocupar o espaço onde viviam. 

Aí, os mais sensíveis (os que se importam) têm que lidar com a transmissão diária do extermínio do povo palestino sem que o mundo faça nada a respeito. Se hoje fosse o ano de 1943 ou 1944, com a tecnologia de transmissão ao vivo, estaríamos assistindo aos fornos dos campos de concentração nazista em pleno funcionamento, soltando a fumaça de judeus queimando e estaríamos exatamente iguais estamos vendo Israel explodir e queimar crianças, mulheres e civis palestinos aos milhares. O mundo não tá nem aí!

É isso que somos... é isso que somos enquanto espécie animal! Estou sendo convencido pelos fatos que nós não demos certo enquanto um dos seres vivos que apareceu neste planeta.

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Dilemas

Estou vivendo um dilema nesses dias. Percebi a urgência em sistematizar toda a minha produção textual publicada em blogs, ou seja, de forma virtual em plataformas nada confiáveis que estão se organizando para dominar o mundo e eliminar seus adversários e isso deveria ser feito não só por este articulista mas por todas as pessoas e instituições que guardam suas produções culturais nas nuvens dessas empresas big techs inimigas da humanidade. Isso é sério e as pessoas e instituições não perceberam ainda que vão perder toda a sua produção.

Aí, por essa coisa minha de querer estudar e aprender, me peguei inscrito na pós-graduação do ICL e bastou regularizar a matrícula e entrar na plataforma de ensino algumas semanas depois do início do curso para ver que a carga de leitura de uma pós é enorme. A pergunta a mim mesmo é: devo seguir ou isso é outra aventura iniciativa e não "acabativa" que me enfiei na vida? A primeira semana da disciplina tem textos ótimos, mas são 150 páginas de leitura densa.

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Tenho outros dilemas...

Todos temos. 

E essa taxa selic de 14,25% pra foder o país, o governo Lula e o povo?

Estamos em guerra...

E nós estamos desarmados...

Que merda!

William 


terça-feira, 18 de março de 2025

Poema 21: Parem de matar palestinos!


PAREM DE MATAR PALESTINOS!


Quatrocentos mortos de uma vez!

Os sionistas do Estado de Israel

desrespeitaram o cessar-fogo

e explodiram quatrocentas

crianças, mulheres e idosos.


Parem de matar palestinos!

Parem de matar crianças!

Parem de matar mulheres!

Parem de matar idosos!

Parem de matar humanos!


Só os nazistas matavam às centenas!

Os nazistas matavam centenas de judeus!

Matavam queimados em fornos...

Judeus estão matando palestinos...

Explodidos e queimados!


Os fornos nazistas são hoje

a Faixa de Gaza queimando

os corpos palestinos.

Assassinos...

Parem de matar palestinos!


William 

18/03/25


domingo, 16 de março de 2025

O nome da rosa: não cuspam nos livros



Refeição Cultural 

Umberto Eco, um grande pensador 


Estou lá no meio do livro, pela edição dos Mestres da Literatura Contemporânea, da Editora Record, e no recomeço, pela edição da Biblioteca Folha. 

Comecei a reler o clássico porque percebi que estava lendo mal.

Como sinto a urgência do instante, preciso dar qualidade a qualquer coisa que decida fazer. 

Das citações da postagem, a lição: não molhem o dedo no cuspe e coloquem o dedo no papel do seu livro, ou de qualquer livro ou material gráfico. 

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Releitura 

Ao reler o começo da história, captei melhor a origem da parceria do noviço beneditino Adso de Melk com o sábio franciscano frei Guilherme de Baskerville, mais ou menos entre 1324 e 1327. (no Prólogo)

O pai do noviço lutava ao lado de Ludovico da Bavaria, que disputava a coroa de imperador de Roma com Frederico de Áustria, derrotado na disputa.

Ludovico representava o grupo que era adversário do papa João XXII, Jacques de Cahors, eleito em Avignon, em 1316. Ludovico foi excomungado por Cahors, o papa.

Teses sobre a igreja de Cristo

"É preciso dizer que, justamente naquele ano, tivera lugar em Perúgia o capítulo dos frades franciscanos, e o geral deles, Michele de Cesena, acolhendo as instâncias dos 'espirituais' (sobre os quais terei ainda ocasião de falar) proclamara como verdade de fé a pobreza de Cristo, que, se tinha possuído coisa com seus apóstolos, Ele a tivera apenas como usus facti..." (p. 21, da edição da Folha)

Local

"Acontece que dobramos para ocidente enquanto nossa meta última ficava a oriente, quase seguindo a linha dos montes que de Pisa leva em direção aos caminhos de San Giacomo, parando numa terra em que os terríveis acontecimentos que lá ocorreram depois me desaconselham a identificar melhor, mas cujos senhores eram fiéis ao império e onde os abades de nossa ordem opunham-se de comum acordo ao papa herege e corrupto. A viagem durou duas semanas, entrecortadas por vários acontecimentos, e nesse tempo tive oportunidade de conhecer (nunca o suficiente, como sempre me convenço) meu novo mestre." (p. 22)

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O CONHECIMENTO HUMANO DEVE SER PRESERVADO EM MEIOS FÍSICOS

"(...) Eis, eu me disse, a grandeza de nossa ordem: durante séculos e séculos homens como esses viram irromper as ordas dos bárbaros, saquear suas abadias, precipitar os reinos em vórtices de fogo, e, no entanto, continuaram a ler à flor dos lábios palavras que eram transmitidas há séculos e que eles, por sua vez, transmitiam aos séculos vindouros. Continuaram a ler e a copiar enquanto se aproximava o milênio, por que não deveriam continuar a fazê-lo agora?" (p. 215)

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"(...) O saber não é como a moeda, que permanece fisicamente íntegra mesmo através das mais infames trocas: ele é antes como um hábito belíssimo, que se consome através do uso e da ostentação. Não é assim de fato o próprio livro, cujas páginas esfarelam-se, as tintas e os ouros se tornam opacos, se muitas mãos o tocam? Bem, estava vendo a pouca distância de mim Pacífico de Tivoli que folheava um volume antigo, cujas folhas estavam como que grudadas umas às outras por causa da umidade. Ele molhava o indicador e o polegar na língua para folhear seu livro, e a cada toque de sua saliva aquelas páginas perdiam em vigor, abri-las queria dizer dobrá-las, oferecê-las à severa ação do ar e da poeira, que teriam roído as sutis veias que no esforço encrespavam o pergaminho, teriam produzido novos mofos lá onde a saliva tinha amolecido e enfraquecido o canto da folha. Como um excesso de doçura torna mole e inábil o guerreiro, este excesso de amor possessivo e curioso predisporia o livro à doença destinada a matá-lo." (p. 217)

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Não cuspam nos livros...

William 


Instante



Refeição Cultural

Alberto Manguel conta em seu livro Uma história da leitura que por dois anos leu para Jorge Luis Borges já quase cego. Manguel era um jovem vivendo em Buenos Aires nos anos sessenta. Borges disse ao rapaz que sua mãe de 88 anos estava com dificuldades de ler para ele.

Tenho pensado muito esses dias no tio Léo. A situação de meu quadril me faz tentar imaginar o que o tio Léo pensava ou sentia ao perceber que suas pernas começavam a falhar e deixá-lo na mão. 

Ouvindo a trilha sonora de Na natureza selvagem, história do jovem "Alex Supertramp", na verdade Chris McCandless, trilha musicada por Eddie Vedder, também fico imaginando em tudo que Chris sentiu e pensou sozinho por meses no Alasca, principalmente quando riscou as últimas palavras no ônibus mágico: "Happiness is only real when shared". Pensei muito nessa mensagem... é verdade!

A foto que está marcando as páginas do livro de Manguel é da minha avozinha Cornélia, mãe do tio Léo e de minha mãe. A vó faleceu já faz alguns anos. Minha vó e o tio Léo, o filho caçula, eram muito apegados à vida.

Borges cego, tio Léo, minha avó, Chris McCandless sozinho no Alasca...

Minha avó caiu num segundo que viu uma oportunidade de andar sozinha quando não tinha ninguém por perto... quebrou o fêmur. 

A vida é tudo isso que viveu tio Léo, minha avó, McCandless, Borges... e nós. 

William 

16/3/25 (2h49)

sábado, 15 de março de 2025

O trato dos viventes: os brasileiros



Refeição Cultural

O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul, Séculos XVI e XVII - Luiz Felipe de Alencastro


"Entre outros autores seiscentistas, Brito Freyre fala dos 'portugueses brasílicos', elogiando sua atuação na guerra contra os holandeses (...) quando a palavra brasiliense se referia sobretudo aos índios, e brasileiro principalmente aos cortadores de pau-brasil (...). Os 'brasílicos' tornam-se 'brasileiros', no sentido atual da palavra, ao longo do século XVIII, depois que a economia do ouro engendra uma divisão inter-regional do trabalho e um mercado interno na colônia..." (O trato dos viventes, Luiz Felipe de Alencastro)


OS BRASILEIROS

Uma nota de rodapé do capítulo um nos explica a origem da denominação que acabou se estabelecendo para nós que nascemos e vivemos no Brasil. 

"Brasileiros" eram as pessoas que cortavam o pau-brasil, pois "eiro" é sufixo de função ou atividade, tipo padeiro, pedreiro etc. 

Nos primeiros séculos, "brasilienses" eram os indígenas, povos nativos.

Os "brasílicos", os colonos da terra, viriam mais tarde a serem denominados brasileiros, nós.

William 


sexta-feira, 14 de março de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 14 de março de 2025. Sexta-feira. 


(Nesta data, dois seres humanos referenciais para nós faleceram: Karl Marx em 1883 e Marielle Franco em 2018. Eles vivem em nós que lutamos pela libertação dos seres humanos da exploração capitalista. Marielle Franco, presente! Karl Marx, presente!)


O QUE FAZER? (não é sobre a revolução... é só sobre mim mesmo)

Em minhas reflexões e digestões culturais nos últimos dias, pensava a respeito de escolhas que tenho que fazer diariamente, nós humanos temos decisões a tomar sobre as veredas que escolhemos o tempo todo. Faço isso ou faço aquilo? Tenho opções sobre o que fazer? Eu tenho opções, sou um homem de sorte. (muitos não têm opções...)

Sempre gostei de estudar, ler, conhecer coisas novas. Por décadas, lamentei em minhas reflexões o fato de não ter tempo adequado para ler e estudar. Trabalhei desde criança, e conciliar a sobrevivência com os estudos formais dificultou a possibilidade da leitura por prazer. Quando conseguia ler, estava sempre cansado.

Foi nos dilemas do percurso de minha vida que comecei e não terminei várias coisas. O desejo me instava a fazer a coisa, a iniciativa. A realidade me obrigava a cair na real e acabava deixando o que iniciava. Tinha iniciativa, mas não era "acabativo".

Adolescente, optei por um curso técnico de eletrônica e não terminei. Meio por acaso, entrei em Ciências Contábeis e concluí o bacharelado. O desejo me fez iniciar a graduação de Educação Física, sempre amei esportes e seria professor. Não pude concluir por falta de condições financeiras. Passei na Fuvest e tentei novamente uma graduação para ser professor. Por virar sindicalista, o curso de Letras ficou em segundo plano e só o concluí muito depois do início.

Assim a vida seguiu entre os vinte e os cinquenta anos. Não fui professor. Fui bancário e sindicalista. 

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A BUSCA POR SENTIDOS

A vida é uma coisa intrigante. Sim, tão intrigante que os humanos acabam lidando com as cotidianidades inventando diversas explicações para conviver com as situações que o viver vai encontrando diariamente. 

Enquanto a vida só é para as demais espécies viventes no planeta, a espécie homo sapiens sente a necessidade de dar sentido às coisas e pensar sobre a vida. Qualificar a existência.

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A VIDA É UMA COISA INTRIGANTE

Esta reflexão é para registrar o dilema pessoal do momento. Estudar e aprender coisas novas neste instante mais curto de minha existência ou sistematizar décadas de tudo que produzi de textos, e que estão sempre em risco de se perderem por estarem em máquinas dos inimigos da humanidade: as nuvens das big techs?

E para complicar mais ainda as escolhas: por que me meter em novos estudos se eu passei décadas querendo ler e não conseguia e agora tenho pilhas de livros para ler, ali na estante, ao meu alcance, e eu não li tudo que acumulei já estando há seis anos fora da rotina de vender meu corpo e minhas horas de vida para sobreviver? 

(o ser humano é um bicho complicado!)

Ainda sobre a vida ser uma coisa intrigante. 

Na adolescência, quase poderia ter sido professor de arte marcial, Kung Fu, pois pratiquei o esporte por anos e parei quando fui embora da casa de meus pais aos 17 anos. 

O abandono do Kung Fu foi uma coisa mal resolvida na minha vida. Que foda isso! Voltei ao esporte aos 50 anos de idade e fiz aulas por quase dois anos, evoluindo rápido nas faixas. Veio a pandemia e eu parei. 

Talvez o azar da pandemia tenha sido sorte para mim. O esforço e a carga que fiz pelos exercícios e pelos movimentos de perna foram tão intensos que destruí meu quadril... a vida é uma coisa intrigante! 

Pode ser que o desejo de terminar algo que iniciei na juventude tenha me tirado o sonho de treinar e correr uma maratona... Talvez não possa nem levar uma vida normal em breve... (e correr é/era uma das coisas mais importantes de minha vida!)

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O QUE EU SEI É... 

Sobre gostar de estudar e ler - e depois peguei gosto em escrever -, acabei sendo um dirigente sindical que se dedicou a ler e estudar pra caralho! 

Durante os 16 anos de exercício de mandatos eletivos estudei tudo que pude sobre o sindicato e a categoria na qual trabalhei, a central sindical e o partido político aos quais dediquei o melhor de minha vida adulta, e depois estudei como um louco a autogestão em saúde à qual me colocaram como candidato para ser gestor e fui eleito.

Como tomei gosto em escrever o que fui aprendendo e refletindo, acabei por criar páginas na internet que chamamos de blogs (diários) e fui escrevendo nos blogs aquilo que conceitualmente é chamado de "WIKIPEDIA".

O que é "WIKIPEDIA"? É o compartilhamento de forma gratuita daquilo que a pessoa sabe. É uma espécie de biblioteca livre. Eu sempre quis ser alguém do mundo do saber e partilhar conhecimento para melhorar as pessoas e o mundo.

Ou seja, seus conhecimentos ou uma coletânea de textos seus partilhando o que você sabe. What I Know Is (WIKI).

Então, passei os últimos vinte anos fazendo isso: compartilhando o que eu sei ou o que li ou o que eu aprendi ou o que eu pensava a respeito de algo.

Acumulei mais de cinco mil textos nos dois blogs que administro há duas décadas. É uma vida escrevendo honestamente o que aprendi na minha jornada de existir. 

E por mais que meus textos já tenham desempenhado um dos objetivos de um texto, ser lido por alguém, e já foram mais de 2,5 milhões de acessos aos textos, eu preciso sistematizar e organizar tudo que escrevi em minha vida. Nem eu me lembro de tudo que escrevi. E tem muita coisa boa quando releio.

Escrevi quando estava no auge de minha capacidade intelectiva e sendo uma liderança nacional de uma importante categoria profissional de trabalhadores. Tanto o blog com a história sindical quanto o blog de cultura contêm textos de alguém politizado e que fala a partir de um lado definido da sociedade humana: um homem de esquerda, humanista e amante da leitura.

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ESTUDAR FORMALMENTE OU BUSCAR SENTIDOS E CRIAR SENTIDOS EM MINHAS TRILHAS INTELECTIVAS?

Os impulsos de minha natureza curiosa e desejosa de novos conhecimentos arrefeceram com a experiência de vida... arrefeceram um pouco, quero dizer. 

Mesmo neste ponto de minha existência, quando relaxo a vigilância, já me inscrevi em algo para iniciar nova jornada de estudos... imaginem que pensei em fazer Fuvest para voltar à USP e fazer História o ano passado! Vi que isso era um devaneio e me contive. 

Cochilei, e quando vi estava inscrito na Pós ICL... eu gosto de estudar, é verdade! Mas uma pós-graduação é uma coisa puxada, com carga formal de estudos a fazer. Óbvio que isso define o tempo de uma pessoa ao longo de um tempo. 

O dilema de sempre já me cobra o juízo. O que é prioridade? Minha produção de uma vida ou os novos conhecimentos da Pós? "Deixa de ser mole, William... faz as duas coisas!" Meu corpo cansou sem combinar comigo. 

E minhas pilhas de livros que gostaria de ler? Os clássicos, pelo menos? Os Miseráveis, Guerra e Paz, Doutor Fausto, A Divina Comédia...

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A URGÊNCIA DA VIDA AGORA

Há poucas semanas, senti uma urgência em trabalhar a sistematização de minha produção cultural. A urgência é uma espécie de percepção da emergência do instante no qual estou vivo e podendo fazer isso. Não sei do amanhã. Do meu amanhã.

Ao reler e sistematizar os 141 textos produzidos no blog A Categoria Bancária entre os anos de 2020 e 2025 (ilustração), eu tenho a exata consciência de que aquele conteúdo não deveria ser desprezado porque ali contém história de nossa classe social, da comunidade de trabalhadores do Banco do Brasil, da militância de esquerda que estuda e pensa o país e o mundo. 

CASSI/BB - Sinceramente, acho pouco provável, de verdade, que alguém já tenha escrito tanto sobre a Cassi como eu nos 80 anos da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil. Difícil. São centenas de textos técnicos e políticos de alguém que tem lado, textos escritos na última década. 

Deixo isso se perder? Por mais que os que estejam no poder momentâneo façam questão de desconsiderar a história da Cassi contida ali? Tenho esse direito? Só sei o que sei sobre a Cassi porque me elegeram para estar lá um dia.

...

É isso. Ainda estou por aqui. Sigo refletindo sobre tudo.

Tenho consciência de que minha coletânea de texto (minha wikipedia) contém uma partezinha da história de nossa classe.

William


quarta-feira, 12 de março de 2025

O nome da rosa: o poder de enganar os crédulos



Refeição Cultural 

Umberto Eco, um grande pensador 


"Digamos que teriam medo, sabeis... às vezes as ordens dadas aos simples são reforçadas com uma ameaça, como o presságio que a quem desobedecer pode acontecer alguma coisa de terrível, e por força sobrenatural. Um monge, ao contrário..." (p. 41)


Como fui um crédulo por décadas, fui aculturado no catolicismo, sei exatamente o que o abade Abbone está insinuando ao frei Guilherme de Baskerville no diálogo acima.

A base das religiões monoteístas está assentada no medo, na invenção do pecado, na ameaça ao crente se "perder", se lascar, se ele não cumprir alguma coisa dos textos "sagrados", textos escritos por homens de carne e osso. Alguns podem até ter tido inspiração divina, mas outros...

Sei como é forte a influência do medo para os simples... 

Já para aqueles que sabem como se dão as coisas dos homens dentro das burocracias das igrejas...

Foi isso que Abbone disse ao frei Guilherme de Baskerville.

No início do dialogo, ao se conhecerem, a primeira coisa que o chefão daquela abadia disse ao visitante foi: se descobrir algo, encubra... (ler aqui)

É isso, né!

William 


Bibliografia:

ECO, Umberto. O nome da rosa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: O Globo; Folha de São Paulo, 2003.

domingo, 9 de março de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Domingo, 9 de março de 2025.


Tão longe, Tão perto - Wim Wenders

O filme de Wim Wenders "Faraway, So close" (1993) foi lançado há mais de três décadas. Eu não havia tido oportunidade de assistir ao filme ainda. Muito tempo atrás, mais de uma década, talvez umas duas, eu fiquei encantado com um videoclipe da música "Stay", da banda U2, cujas imagens retratavam o filme de Wim Wenders com os anjos Cassiel (Otto Sander) e Raphaella (Nastassja Kinski). Desde então, sou fissurado na música, no videoclipe e na imagem angelical de Nastassja Kinski.

Hoje, finalmente, assisti ao filme. A sensação é esquisita, assisti ao filme com Nastassja Kinski no papel do anjo Raphaella! Foram duas horas e meia de filme e me emocionei várias vezes durante a história. Já havia me emocionado com o primeiro filme de Wim Wenders: "Asas do Desejo" (Wings of Desire), de 1987, com Bruno Ganz no papel do anjo Damiel e Solveig Dommartin no papel da trapezista Marion. Este, assisti em 2022 e fiz uma reflexão profunda após ver o filme (comentário aqui). Sendo continuação, os personagens do primeiro filme estão nesta sequência.

Na minha leitura, o filme tem várias camadas ou temáticas desenvolvidas. Tem o aspecto mais claro da religião e das visões humanas sobre a vida e a morte. Tem a questão da história da Alemanha desde a 2ª Guerra Mundial, o nazismo, a guerra fria, capitalismo e comunismo, queda do muro de Berlim e fim da União Soviética. Até o Gorbachev faz uma ponta no filme, acreditem, é ele mesmo! E tem a questão do "tempo", uma percepção inventada pelo animal humano. No filme, o Tempo é interpretado por Willem Dafoe.

Se eu tivesse visto o filme nos primeiros anos de seu lançamento (1993), eu seria absolutamente outra pessoa. Todos mudamos com o tempo, claro! Mas eu fui uma verdadeira metamorfose ambulante, como cantou Raul Seixas. Naquela época eu era bem religioso, acreditava em qualquer abstração da mente humana. Fui aculturado em um dos países mais religiosos do mundo. Eu era como a maioria do ambiente onde nasci e vivi. Hoje, não tenho religião, mas compreendo melhor os seres humanos e sei como as crenças operam na vida das pessoas para dar um sentido ao que não tem muito sentido, a vida apenas é e somos natureza.

No enredo do filme, o anjo Cassiel acompanha a vida de Hanna e sua filha Raissa, e também de seu amigo Damiel, agora humano. Damiel se casou com Marion e eles têm uma linda filhinha. Cassiel acaba virando humano por motivos bem diferentes dos de seu amigo Damiel. Os anjos sempre imaginam como deve ser a vida humana, e Cassiel não é diferente. Mas as coisas serão bem complicadas para ele em sua experiência humana. Raphaella, sua amiga, estará ao lado de Cassiel e, ao longo da história teremos cenas muito comoventes.

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E então, assisti a um filme que esperei anos para ver. E gostei bastante do filme, não me decepcionei com a história.

Ao subir os créditos do filme, precisei colocar imediatamente um tênis e sair para caminhar e refletir sobre a vida.

Caminhar e ver são duas das características de nossa espécie que mais dão sentido em minha existência. Como a vida muda... 

Já tive objetivos muito ousados e difíceis de se alcançar quando era mais novo e não tinha alcançado a estabilidade social que tenho hoje... além de querer vencer na vida como trabalhador, queria coisas do tipo comprar uma Harley Davidson, caminhar centenas de quilômetros até Santiago de Compostela, conhecer Machu Picchu, sobrevoar o Grand Canyon... 

Agora, sonho ter mobilidade nos próximos anos...

A vida é mudança. Somos natureza. Fiquei bastante sensibilizado com Cassiel naqueles momentos em que estava totalmente perdido em sua vida humana, e sem acertar, sendo que tudo que ele queria era praticar o bem e não estava dando nada certo.

Vi minha vida, meu percurso nas décadas de caminhadas pelas veredas da existência. Não sou velho no sentido cronológico, no entanto, sinto profundamente que meu corpo cansou, meu corpo sentiu o percurso que percorreu nessas poucas décadas.

Eu tentei acertar e fazer o bem, como era o desejo de Cassiel, o anjo caído. 

No filme, o Tempo atua implacavelmente na vida das personagens. O Tempo... eu tenho uma coisa com o Tempo desde que me entendo por gente. O Tempo. Até poetizei sobre o "Deus tempo"... (ler aqui)

É isso. Queria registrar um pouco dos sentimentos a partir do filme que finalmente conheci. 

Preenchi mais uma lacuna cultural...

William

sábado, 8 de março de 2025

A língua de Eulália - Marcos Bagno (1)



Refeição Cultural

História da norma-padrão


"Na Itália, a variedade que ganhou o título de padrão e que hoje chamamos de italiano é a língua originária de uma região chamada Toscana. Esta região teve uma importância muito grande durante vários séculos, tendo a cidade de Florença como capital política e cultural. Florença foi um dos pólos do Renascimento, o grande movimento cultural europeu que revolucionou todos os gêneros artísticos e literários da época. Lá trabalharam e viveram gênios como Leonardo da Vinci, Michelangelo e Botticelli. E na língua da Toscana foram escritas algumas das obras-primas da literatura mundial: a Divina Comédia de Dante Alighieri, as Poesias de Petrarca, o Decamerão de Bocácio. Além disso, a Toscana contava com uma moeda forte, o florim, que foi uma moeda importante de comércio internacional durante mais de duzentos anos e em torno do qual se havia organizado um sistema bancário muito evoluído para a época. Tamanho prestígio fez com que o toscano se tornasse, pouco a pouco, a língua de cultura de toda a Itália. E isso apesar de existirem naquele país dezenas e dezenas de línguas diferentes, chamadas dialetos, falados por milhões de pessoas e também veículos de importantes manifestações culturais." (p. 25/26)


Enquanto tomava vitamina de abacate e banana, relia o clássico de Marcos Bagno, A língua de Eulália, livro que conheci em 2001, ano que iniciei minha graduação em Letras na Universidade de São Paulo. 

Os ensinamentos do linguista e escritor Marcos Bagno mudaram para sempre aquele adulto jovem, branco e pobre, que vinha sendo conquistado pelas mídias ideológicas da casa-grande: jornalões e canais de TV que eram as referências de todo mundo. Eu era como a maioria e tinha preconceito linguístico, pois a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. 

A cada capítulo da novela sociolinguística, os leitores vão se surpreendendo com as informações que tia Irene traz nas conversas com as jovens Vera, Sílvia e Emília, que passam uns dias na casa dela. Dona Eulália era empregada de Irene, professora de língua portuguesa e linguística.

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Dias atrás, vi uma entrevista do escritor Alberto Manguel e novamente me veio à lembrança aquele ano de 2001, primeiro ano das Letras na USP.

Ao ler dois textos de Manguel da bibliografia de uma matéria de literatura, saí desesperado atrás do livro dele: Uma história da leitura (1997). É um dos livros mais interessantes que li em minha vida!

Foi tão encantador vê-lo falar de literatura e cultura que dá até vontade de seguir teimando com a vida para poder ler mais um pouco. A leitura salva!

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Enfim, após instantes de prazer na leitura, preciso perseverar em trabalhar na revisão, sistematização e encadernação de meus textos nos blogs. É a minha vida ali e o meu desejo de preservar tudo que compartilhei de conhecimento com as pessoas. 

William 


Bibliografia:

BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: novela sociolinguística. 6a ed. São Paulo: Contexto, 2000.

sexta-feira, 7 de março de 2025

O nome da rosa: os segredos da igreja



Refeição Cultural 

Umberto Eco, um grande pensador


"Aconteceu uma coisa nesta abadia, que pede a atenção e o conselho de um homem prudente e agudo como vós. Agudo para descobrir e prudente (se for o caso) para encobrir." (p. 37)


Ao reler com atenção o que havia lido de forma displicente, vou percebendo as nuanças da história e do enredo em O nome da rosa (1980). 

O sábio franciscano frei Guilherme de Baskerville vai à abadia do romance por missão dada a ele pelo imperador. 

O abade local, na primeira conversa com o visitante, já dá a ele a determinação que se espera de qualquer investigação ou tarefa a cumprir: encubra seja lá o que descobrir...

É mole?

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Palavras, palavras, palavras... ler sem atenção nos tira a essência da leitura.

Quantas vezes interrompi leituras de clássicos da literatura universal para recomeçar com mais sentido!

A primeira vez que li Ulisses (1922), de Joyce, comecei diversas vezes o livro e voltei ao início, até que peguei o ritmo.

Não foi diferente com Os Lusíadas (1572), de Camões. E com a Odisseia, atribuída ao aedo Homero, se passou a mesma coisa quando a li em versos.

O nome da rosa deve ser lido com atenção, pois tem muita coisa a cada página da obra.

A estratégia do abade Abbone foi interessante, mas a postura escorregadia do frei também surpreendeu. 

Ao saber que o frei Guilherme de Baskerville foi um inquisidor que livrou da fogueira alguns acusados, saiu com um discurso malicioso ao sugerir que ele reconhecia que alguns acusados eram inocentes por ser culpado o diabo...

Frei Guilherme respondeu ao abade Abbone que o diabo era tão esperto que poderia até influenciar o inquisidor... 

É lição para quem sabe ler além das palavras. 

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A igreja encobre os erros de seus membros 

"(...) Frequentemente, de fato, é indispensável provar a culpa de homens que deveriam sobressair por sua santidade, mas de modo a poder eliminar a causa do mal sem que o culpado seja relegado ao desprezo público. Se um pastor falha, deve ser isolado dos outros pastores, mas ai se as ovelhas começam a desconfiar dos pastores." (p. 37)

Sigamos, de forma perspicaz, pelos cantos sombrios da vida.

William 


Bibliografia:

ECO, Umberto. O nome da rosa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: O Globo; Folha de São Paulo, 2003.

quinta-feira, 6 de março de 2025

Nada mais será como antes - Miguel Nicolelis (12)



Refeição Cultural 

"Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia!" (Citação de frase de Arthur C. Clarke, na p. 207)


Parei de ler com regularidade o romance de Miguel Nicolelis. Na verdade, parei de ler com rotina tudo que estava lendo. Sei de meu desejo e necessidade de ler diariamente. No entanto, defini outra prioridade na urgência e instabilidade do viver. Não farei nada até terminar a tarefa.

Nossos colegas da intelectualidade, da produção de cultura e da esquerda ou qualquer qualificação do tipo ficaram tão encantados com a tecnologia das últimas décadas que perderam a razão quase que por mágica... confiam toda nossa história humana às plataformas digitais de nossos inimigos. Atitude irracional de "homo sapiens".

Sabemos algo do passado porque meios físicos chegaram até nós ao longo de milênios. Argila, pedra, couro, papiro, tabuinhas, papel, pele, osso... no entanto, nada ficou da cultura humana que não estivesse registrada em algum material que durasse no tempo.

E neste momento da história humana, primeiro quarto do século XXI, boa parte do conhecimento humano que vem sendo produzido nas últimas 3 décadas não está salvo e registrado em nenhum meio físico, nenhum! Só no meio digital das big techs, dos "overlords", pra usar a linguagem do neurocientista e romancista Nicolelis. Salvo na máquina dos nossos inimigos... nas nuvens!

Eu mesmo tenho milhares de textos com a história coletiva do meu país, do meu segmento social, da minha vida privada - que não deixa de ser pública, pois somos legião, somos seres humanos - dispersos nas plataformas dos inimigos da humanidade. 

É uma obrigação ética de alguém consciente preservar em meios duráveis a nossa história humana. Por mais que a ideologia da classe dominante se imponha neste momento - a ignorância e o desprezo pela história - tenho (temos) que preservar e sistematizar nossa produção cultural e histórica.

Decidi não priorizar mais nada até terminar minha tarefa de preservar tudo que registrei na vida nas duas décadas que escrevi como dirigente da classe trabalhadora brasileira. 

E digo aqui que está dando muito trabalho fazer isso. Muito! Nem bunda tenho para tantas horas lendo, corrigindo textos, diagramando, salvando e encadernando. 

Sistematizar e preservar minha produção textual é um compromisso ético para com as pessoas que amo, que me consideram e para a imensidão de gente que está por aí - a humanidade -, capturada sem tempo de pensar, de ser gente humana, que está no "corre", sobrevivendo ao instante.

Seguirei trabalhando para preservar a nossa história humana, enquanto os overlords das plataformas digitais se preparam para dominar o mundo inteiro (reescrevendo e inventando a história).

William 


terça-feira, 4 de março de 2025

Dom Quixote de la Mancha - Cervantes (5)


Don Quijote em Toledo, Espanha.


Refeição Cultural

“-Yo sé quién soy - respondió don Quijote-, y sé que puedo ser no sólo los que he dicho, sino todos los Doce Pares de Francia y aun todos los nueve de la Fama, pues a todas las hazañas que ellos todos juntos y cada uno por sí hicieron, se aventajarán las mías.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por “Miguel de Cervantes”)


Sigo na aventura de acompanhar nosso cavaleiro andante em suas primeiras façanhas. Após os incidentes da primeira saída de Dom Quixote, já é dado a ele a primeira alcunha: "El herido Caballero del Bosque".

Depois de "salvar" o pobre Andrés do açoite (no capítulo anterior: aqui), Dom Quixote quis que um grupo de mercadores de Toledo enaltecesse a beleza sem igual de sua amada Dulcinea del Toboso.

Ele se deu mal no confronto com a turba (os mercadores) porque Rocinante escorregou no caminho. Levou muita pancada e não conseguiu mais se levantar.

Neste capítulo, o senhor Alonso Quijana é encontrado nessa situação por um vizinho, caído e todo moído de levar pauladas de um servo dos mercadores.

O bondoso conhecido - Pedro Alonso - vai levá-lo de volta pra casa.

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CAPÍTULO 5

"Donde se prosigue la narración de la desgracia de nuestro caballero"


Através de alguns trechos do capítulo 5 é possível compreender a criatividade e engenhosidade de Miguel de Cervantes no trato com seus leitores. 

Ele se mantém fiel ao que contratou com os leitores no "Prólogo", mas aos poucos nós leitores já vamos esquecendo o senhor Alonso Quijana e vamos nos envolvendo emocionalmente com Dom Quixote. 

Já vivi a experiência de ler os dois volumes do clássico cervantino. Depois que Dom Quixote sair novamente, a 2ª saída, já acompanhado de seu fiel escudeiro Sancho Pança, não nos lembraremos mais do senhor Quijana.

Seremos todos Dom Quixote.

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EXCERTOS

Senhor Alonso Quijana é encontrado pelo vizinho Pedro Alonso:

“Y quiso la suerte que, cuando llegó a este verso, acertó a pasar por allí un labrador de su mesmo lugar y vecino suyo que venía de llevar una carga de trigo al molino, el cual, viendo aquel hombre allí tendido, se llegó a él, y le preguntó que quién era, y qué mal sentía, que tan tristemente se quejaba. Don Quijote creyó sin duda que aquél era el marqués de Mantua, su tío, y así, no le respondió otra cosa sino fue proseguir en su romance, donde le daba cuenta de su desgracia y de los amores del hijo del emperante con su esposa, todo de la misma manera que el romance lo canta.”

O engenhoso cavaleiro andante está caído ao solo e segue esperando por um sábio ou sábia com alguma poção que o cure das feridas em batalha...

“-Señor Quijana - que así se debía de llamar cuando él tenía juicio y no había pasado de hidalgo sosegado -a caballero andante-, ¿quién ha puesto a vuestra merced desta suerte?”

Dom Quixote segue com suas lamúrias descrevendo cavaleiros e feiticeiros enquanto rola pelo chão todo moído. Ele entende que seu vizinho é um dos personagens que idealiza em sua cabeça. O vizinho insiste:

“-Mire vuestra merced, señor, ¡pecador de mí!, que yo no soy don Rodrigo de Narváez ni el marqués de Mantua, sino Pedro Alonso, su vecino; ni vuestra merced es Valdovinos, ni Abindarráez, sino el honrado hidalgo del señor Quijana.”

Nosso ferido Cavaleiro do Bosque responde de forma convicta ao seu vizinho:

“-Yo sé quién soy - respondió don Quijote-, y sé que puedo ser no sólo los que he dicho, sino todos los Doce Pares de Francia y aun todos los nueve de la Fama, pues a todas las hazañas que ellos todos juntos y cada uno por sí hicieron, se aventajarán las mías.”

DE VOLTA AO LAR (fim da 1ª saída)

O vizinho chega com o senhor Alonso e encontra reunidos a ama e a sobrinha, o licenciado Pero Pérez - o cura - e o barbeiro senhor maese Nicolás, amigos do antes honrado fidalgo Alonso Quijana, leitor voraz de romances de cavalaria. Comentam que aquele tipo de leitura é coisa do demônio.

“Encomendados sean a Satanás y a Barrabás tales libros, que así han echado a perder el más delicado entendimiento que había en toda la Mancha.”

A sobrinha afirma:

“Mas yo me tengo la culpa de todo, que no avisé a vuestras mercedes de los disparates de mi señor tío, para que lo remediaran antes de llegar a lo que ha llegado, y quemaran todos estos descomulgados libros, que tiene muchos, que bien merecen ser abrasados, como si fuesen de herejes.”

Eles conversavam sobre as consequências da leitura daquelas histórias sem pé nem cabeça contadas nos livros de cavalaria, tão populares à época. 

Cervantes apresenta aqui a questão de se lançar os livros à fogueira, algo comum ao longo dos séculos e séculos, em um mundo dominado pela igreja e pelos monarcas.

O senhor Quijana segue sendo Dom Quixote e intervém na conversa ao redor dele, culpando o pobre pangaré nominado Rocinante:

“-Ténganse todos, que vengo mal ferido por la culpa de mi caballo: llévenme a mi lecho, y llámese, si fuere posible, a la sabia Urganda, que cure y cate de mis feridas.”

E vamos caminhando para o final do capítulo.

“Hiciéronle a don Quijote mil preguntas, y a ninguna quiso responder otra cosa sino que le diesen de comer y le dejasen dormir, que era lo que más le importaba. Hízose así, y el cura se informó muy a la larga del labrador del modo que había hallado a don Quijote. El se lo contó todo, con los disparates que al hallarle y al traerle había dicho, que fue poner más deseo en el licenciado de hacer lo que otro día hizo, que fue llamar a su amigo el barbero maese Nicolás, con el cual se vino a casa de don Quijote.”

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Amigas e amigos leitores, que romance extraordinário! A leitura de Dom Quixote foi uma das maiores aventuras literárias de minha vida.

William