quarta-feira, 16 de junho de 2021

Bloomsday, 16 de junho



Refeição Cultural

Hoje é quarta-feira, 16 de junho. Essa data é considerada o Bloomsday para os irlandeses e para o mundo da cultura e da leitura também. A epopeia do personagem Leopold Bloom pela Dublin de 1904 se passa numa quinta-feira, 16 de junho.

Sou um dos leitores do mundo que teve a oportunidade de ler o romance Ulisses, de James Joyce. Na época, li uma edição com tradução de Antônio Houaiss. Li quando tinha pouco mais de trinta anos de idade. A leitura foi difícil, foi exigente, pois a linguagem literária é bastante experimental. Foi um feito em minha modesta vida de leitor.

Agora, após os cinquenta anos de idade, estou relendo Ulysses, desta vez numa tradução diferente, de Caetano W. Galindo. A leitura se dá em um contexto interessante. Meu amigo Sérgio Gouveia decidiu ler a obra e me convidou para lermos juntos. Legal a ideia! 

Como no meio do caminho tinha uma pedra, ainda não conseguimos sintonizar a leitura. Eu acabei lendo muito rápido no começo e agora vou mais devagar. Como leio muitos livros ao mesmo tempo, vamos de boa, curtindo cada momento do dia de Leopold Bloom (Bloomsday).

Eu já estou nos acontecimentos das 14 horas, "Cila e Caríbdis". Li até agora os capítulos "Telêmaco" (8h), "Nestor" (10h), "Proteu" (11h), "Calipso" (8h), "Lotófagos" (10h), "Hades" (11h), "Éolo" (12h), "Lestrigões" (13h). Joyce faz um esquema do Ulysses com diversas características em cada capítulo. Ver aqui a postagem mais recente.

ODISSEIA (HOMERO)

Uma estratégia bem interessante que adotei desta vez ao ler a epopeia de Leopold Bloom pela Dublin de 1904 foi ler ao mesmo tempo a Odisseia, em versos, de Homero. Eu só tinha lido em prosa a epopeia de Odisseu (Ulisses é o nome latinizado de Odisseu). Joyce cria sua epopeia moderna fazendo paralelos com a epopeia clássica de Homero.

Enfim, se não fosse a leitura, a literatura, a cultura, eu não sei como conseguiria lidar com esses dias que estamos enfrentando no Brasil, um país destruído após um golpe de Estado e dominado pela banalidade do mal.

Amigas e amigos leitores, se puderem, leiam diariamente, incluam momentos de leitura em suas vidas. Vocês estarão fazendo um bem para si mesmos e também estarão salvando a humanidade, e a parte da humanidade com cultura pode salvar o planeta Terra e todas as formas de vida.

William

segunda-feira, 14 de junho de 2021

31. Romeu e Julieta - William Shakespeare



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Ama - Seu nome é Romeu, e é um Montéquio: filho único de seu grande inimigo.
Julieta - Meu único amor, nascido de meu único ódio! Cedo demais o vi, ignorando-lhe o nome, e tarde demais fiquei sabendo quem é. Monstruoso para mim é o nascedouro desse amor, que me faz amar tão odiado inimigo.
" (p. 43)


Eu havia lido Romeu e Julieta em 2005. Fiquei impactado pela obra na época. Antes dessa tragédia shakespeariana, já tinha lido Hamlet e Otelo, o mouro de Veneza. E depois ainda li Macbeth. Reli a história dos jovens Montéquio e Capuleto neste domingo. Meu sentimento em relação à obra neste momento de leitura foi de tristeza.

Eu poderia dizer que Romeu e Julieta não se trata de uma trama de amor, se trata de uma estória de ódio, de como o ódio domina e destrói tudo ao redor. É uma tragédia triste demais, mas é uma temática por demais atual, haja vista que a base da destruição das relações humanas no Brasil e dos direitos sociais após o golpe de 2016 é a manipulação das pessoas através do estímulo ao ódio e daí se vai às demais consequências após as pessoas terem se transformado em bichos-feras, em zumbis sem capacidade de pensamento e racionalidade.

A tragédia começa e termina com pessoas brigando e se matando porque são da parte dos Montéquio ou dos Capuleto. Até os deuses estão de saco cheio de tanto ódio de parte a parte e decidem dar uma lição nas famílias destacando o "destino" para colocar um ponto final nas desavenças na cidade com perdas terríveis para todos: as duas famílias e até a família do rei.

"Julieta - É só teu nome que é meu inimigo. Mas tu és tu mesmo, não um Montéquio. E o que é um Montéquio? Não é mão, nem pé, nem braço, nem rosto, nem qualquer outra parte de um homem. Ah, se fosses algum outro nome! O que significa um nome? Aquilo a que chamamos rosa, com qualquer outro nome teria o mesmo e doce perfume. E Romeu também, mesmo que não se chamasse Romeu, ainda assim teria a mesma amada perfeição que lhe é própria, sem esse título. Romeu, livra-te de teu nome; em troca dele, que não é parte de ti, toma-me inteira para ti." (p. 48)

Muito boa essa reflexão da personagem Julieta.

Eu me lembrei do magnífico texto de Rubem Alves sobre o nome (ler aqui). Nós usávamos esse texto nos cursos de formação que fazíamos na confederação dos bancários. Os nomes às vezes podem nos aprisionar ou podem servir para gerar falsas expectativas nos outros, ou ainda, podem nos fechar portas e oportunidades, como no caso do ódio entre os Montéquio e os Capuleto.


EXÍLIO

"Romeu - Exílio! Por misericórdia, diga morte, pois o banimento carrega muito mais terror em seu olhar do que a morte. Não diga exílio.
Frei Lourenço - Desde agora está banido de Verona. Sê paciente, pois o mundo é vasto, é amplo.
Romeu - Não há mundo fora dos muros de Verona, mas sim o purgatório, a tortura, o próprio inferno. Ser daqui banido é o mesmo que ser banido do mundo, e exílio do mundo é a morte. Estar exilado é mero eufemismo para estar morto. Quando o senhor chama a morte de exílio, está decapitando-me com machado de ouro, e o senhor carrega um sorriso no rosto quando o seu golpe me assassina.
" (p. 87)


Uma questão muito em voga por causa da tomada do país pela banalidade do mal após o golpe de Estado e a ascensão da máfia e das milícias ao poder e a desilusão que tem pautado a vida e a morte do povo brasileiro é o exílio, o ir-se daqui. Mesmo estando no século XXI das facilidades tecnológicas do mundo virtual, exílio não é qualquer coisa simples.

Eu particularmente acho algo muito complicado essa questão de exílio, de ir embora daqui, sair do Brasil. Além de não me ver morando em outro país, tem a questão de encarar a tristeza da destruição de nosso mundo por parte do bolsonarismo como algo irreversível. Essa gente pestilenta que chegou ao poder e dominou as instituições do país deve ser retirada de lá e jogada no lixo da história. Temos que recuperar o que é nosso e não podemos desistir do Brasil.


NINGUÉM SENTE A DOR DO OUTRO

"Romeu - O senhor não pode falar daquilo que não sente. Fosse jovem como eu, fosse Julieta o seu amor, estivesse o senhor recém-casado e Teobaldo morto, o senhor louco de paixão como eu e como eu banido, então sim, poderia falar, então sim, poderia arrancar os cabelos e deixar-se cair no chão, como faço eu agora, para ter as medidas de uma sepultura que só falta ser cavada." (p. 89)


Muitos intelectuais discutem essa questão da impossibilidade de se colocar no lugar do outro e de descrever a dor do outro. Muitas vezes é melhor dizer que a dor existe, mas não tentar explicar ou descrever o que os outros sentem.


AS MULHERES TRATADAS COMO COISAS

"Capuleto - (...) Sê minha filha, e entrego-te ao meu amigo; caso contrário, enforca-te, pede esmolas, passa fome, morre nas ruas, pois, pela minha alma, não mais te reconhecerei como minha filha, e nada do que é meu passará para teu usufruto. Pensa bem, reflete, que sou homem de palavra e não volto atrás." (p. 102)


Tem uma frase de Julieta, dita em um dos momentos mais dramáticos da tragédia, que achei muito forte, muito dura:

"Se nada funcionar, tenho a capacidade de morrer" (Julieta, p. 104)

Que foda!


O PIOR VENENO

"Romeu - Aqui está o seu ouro, o pior veneno para a alma humana, o que comete mais assassinatos neste mundo detestável - mais que esses pobres compostos que o senhor está impedido de vender. Sou eu quem estou lhe vendendo veneno; o senhor não me vendeu nenhum. Adeus. Compre comida, e acrescente carnes a esse seu esqueleto. - Venha, licor estimulante. Não és veneno. Vamos até à sepultura de Julieta, pois é lá que devo te usar." (p. 126)


O "DESTINO" DECIDIU

O frei mandou um mensageiro levar uma carta a Romeu, em Mântua, mas o mensageiro sequer conseguiu sair de Verona por causa de uma quarentena de uma peste. Com isso, Romeu veio atrás de Julieta, pois recebera a notícia de sua morte e enterro. Mas o amante não sabia das articulações entre o Frei Lourenço e Julieta e os desencontros se mostraram fatais.

"Príncipe - (...) Onde estão os inimigos? - Capuleto! - Montéquio! - Vejam que maldição recaiu sobre o ódio de vocês, que até mesmo os céus encontraram meios de matar, com amor, as vossas alegrias! E eu, por fechar meus olhos às vossas discórdias, também perdi dois de minha família. Fomos todos punidos." (p. 139)

É isso! Mais um clássico relido.

William 


Bibliografia:

SHAKESPEARE, William. Romeu e Julieta. In: Tragédias. Tradução: Beatriz Viégas-Faria. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2003.


domingo, 13 de junho de 2021

Devo ser muito burro! Qual é a estratégia?



Opinião

Eu devo ser muito burro! Eu queria entender qual é a estratégia da parte contrária ao regime bolsonarista e seus crimes diários no Brasil para se defender dele e de seus apoiadores armados e violentos na hora que eles vieram nos ameaçar e eliminar fisicamente. Francamente, não existe estratégia de se defender desarmado de ataques armados contra nossa vida. Não se defende de aço e ferro com o nosso corpinho de carne e osso! Qual a estratégia, afinal de contas?

 

A maior parte de minhas referências políticas e intelectuais acha que as coisas devam ser resolvidas através de processos políticos e pela solução pacífica das controvérsias, processos não violentos e de paz. Democracia, processos institucionais sem rupturas blá blá blá. Acho lindo isso!

No início do século vinte, boa parte das lideranças políticas e intelectuais do mundo também achava o mesmo: não violência, diálogo etc. Aí um sujeito tosco, um bárbaro medíocre em meio aos cidadãos de um dos países mais escolarizados e intelectualizados do continente europeu, uma tal de Alemanha, convenceu esse povo de alto padrão intelectual a se tornarem nazistas. Foi fácil! O país e o mundo viviam uma crise econômica. Bastou falar que a culpa era dos outros e as vítimas eram os alemães (os puros, né! Arianos!).

Enquanto o medíocre bárbaro assumia o poder e começava a falar e fazer as merdas indizíveis e impraticáveis nos primeiros anos de poder (1933, 1935, 1936...), os cidadãos alemães que não pactuavam com aquelas merdas todas ficaram na deles ou foram embora do país. Enquanto as merdas diárias eram feitas pelo sujeito que já se mostrava sem limites, os demais países também não fizeram nada. Não vamos começar nova guerra, diziam (a 1ª Guerra Mundial já havia sido meio foda). Então, deixaram o cara lá fazendo as merdas que ele quisesse.

Aí o sujeito medíocre e bárbaro foi se empoderando de tudo, e com apoio de grupos pequenos de apoiadores violentos no início (e crescente depois). Os não aderentes a ele começaram a perder tudo, começaram a sumir, a morrer, a Alemanha começou a invadir tudo, eliminar quem se opusesse ao domínio dela etc. Internamente, na Alemanha, os alemães - a burguesia - continuavam ouvindo música clássica, comendo de talheres, as propagandas nos meios de comunicação enalteciam cada vez mais o regime e todos que o apoiavam, as crianças arianazinhas brincavam felizes etc. E a caçada aos não adesistas seguia implacável.

Que merda deu não enfrentar o sujeito medíocre e bárbaro enquanto ele construía a violência e o ódio e as armas pra matar tudo e todos que fossem contrários a ele e seu regime totalitário do 3º Reich? Onde ficou o pacifismo ali em 1933, 1935, e 1939, depois 1940, depois 1941 etc? Ficou nos milhões de mortos da 2ª Guerra que até 1942 estava sendo vencida pelo hitlerismo, o nazismo.

Eu devo ser muito burro! Repito. Não sou historiador. Mas gosto de história e cultura. Sou da opinião que a história não se repete porque não tenho essas visões místicas da história e vida humana (mito do eterno retorno etc). Então não acho que a história se repita e reproduza o nazismo alemão ou qualquer outro evento que já tenha ocorrido no passado como, por exemplo, o massacre dos hutus sobre os tutsis e outras formas de extermínio de humanos por humanos. Mas a história serve de referência para nós.

Mas é evidente que fatos são fatos. As coisas estão aí para serem analisadas. Os fatos no Brasil demonstram um percurso perigoso no presente e para o futuro próximo. Vamos esperar os bolsonaristas do momento agirem como agiram os nazistas e os hutus do passado naqueles lugares e naqueles contextos? Vamos deixar eles fazerem o que quiserem conosco, sem limites? Eles não precisam ser a maioria do povo no país por uma questão básica: eles estão armados e o restante do povo não está.

Enquanto construíram o golpe de 2016, os democratas, os "neutros", os "apolíticos", os pacifistas, os "não-é-comigo" ficaram quietos e teve um deputado do baixo clero que votou impeachment declarando o torturador Ustra como símbolo daquela ruptura democrática. Enquanto a casa-grande brasileira (burguesia odiosa) colocava adesivos da presidenta Dilma sendo penetrada em seus carros por bombas de gasolina, ninguém reagiu. Enquanto se inventava que o presidente Lula era ladrão (sem provas), os carros da burguesia odiosa estavam com os adesivos do 9 ("nine"). O JN da Globo passou uma década com aqueles oleodutos correndo dinheiro como painel de fundo atrás daqueles imbecis que regiam o "jornal" fascista.

E hoje, após o criminoso seguir cometendo crimes diários? Seguimos caminhando para algo parecido ao nazismo do século passado. Como devo ser muito burro, eu não estou conseguindo ver a estratégia, então eu pergunto: como nós vamos nos defender daqui alguns dias, meses, ano que vem, sei lá, das ameaças e agressões contra nossas vidas e nossos direitos sem estarmos armados contra esse segmento bolsonarista armado, violento e incontrolável?

Qual é a estratégia para nos defendermos do regime criminoso e violento bolsonarista? É só aquela de "deixar o país" para aqueles que podem?

William


sábado, 12 de junho de 2021

120621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Eu não estava interessado nos Hell's Angels, mas a questão mais ampla que me preocupava era se nós tínhamos, como Strini havia sugerido, nos prendido a uma forma de pensar que já não era mais revolucionária..." (MANDELA, 2012, p. 612)


Temos que pensar de forma revolucionária, temos que ter utopias!

Sábado, 12 de junho. Quando me levantei pouco depois das 6 horas da manhã, o dia estava com uma neblina rara de se ver. Queria terminar mais um capítulo da autobiografia de Nelson Mandela e às 7h já estava no texto.

Ontem, ouvi também um bate papo entre o jurista Pedro Serrano, o historiador Fernando Horta e o linguista Gustavo Conde que me deixou muito pensativo. Ouvir Pedro Serrano não é qualquer coisa para um militante de esquerda e para alguém que luta por justiça social. 

Serrano disse em suas reflexões que o tempo atual é de completa superficialidade nos pensamentos e nos conceitos, nos objetivos e nas questões contemporâneas. A esquerda e a direita são extremamente superficiais. E ele tem razão, na minha opinião. As causas são sempre focadas nas questões emergenciais e não há projetos com engajamentos para médio e longo prazo.

Ao ouvi-lo argumentando sobre a superficialidade das pessoas e dos projetos e objetivos das forças políticas e sociais, concordei com ele que precisamos recuperar os projetos e causas que nos norteiem o futuro coletivo, que nos apontem caminhos para salvar a humanidade e o mundo onde vivemos. Estamos falando em utopias! O que nos move? A que mundo pertencemos? 

Aí pego os exemplos tirados da leitura da autobiografia do líder negro sul-africano Nelson Mandela. A libertação do povo negro sul-africano e o fim do regime racial do apartheid só foi possível porque havia um projeto de futuro, coletivo, de todo um povo, que sofria e que queria mudar aquilo, queria a liberdade, a igualdade, queria usufruir tudo o que a terra pode oferecer a um povo e tudo o que a humanidade criou. E a luta em busca desse sonho, desse objetivo, durou décadas.

Repito a preocupação de Mandela, que citei acima: será que nossa forma de pensar já não é mais revolucionária? Nos acostumamos às merdas com as quais estamos lidando? Não sonhamos mais mudar a realidade?

Isso é sério! Temos que pensar a respeito disso, avaliar com franqueza qual tem sido o sentido de nosso viver e tomar decisões sobre o que queremos pessoal e coletivamente, para nós e para o mundo no qual vivemos.

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Tenho pensado a respeito disso, mesmo aos 52 anos de idade, mesmo fora do movimento organizado de lutas sociais ao qual participei por duas décadas. Avalio que estamos pensando de forma superficial, sim. Todos nós da esquerda. E não acho que vamos mudar a nossa história se não tivermos um projeto de mundo, de humanidade, de vivência para as próximas décadas e estratégias e táticas desenvolvidas para chegarmos lá; o "nós" aqui, o plural majestático, é porque estou falando de nós, nós humanos, nós humanidade, nós seres vivos.

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METÁFORA DA HORTA

"Uma horta era uma das poucas coisas na prisão que se podia controlar. Plantar uma semente, observá-la crescer, cuidar dela e então colhê-la, proporcionava uma satisfação simples, porém duradoura. A sensação de ser o zelador de um pequeno pedaço de terra oferecia um pequeno gosto de liberdade.
  De certa forma, eu via a horta como uma metáfora para certos aspectos da minha vida. Um líder também deve cuidar da sua horta; ele também planta sementes, e então observa, cultiva e colhe o resultado. A exemplo do jardineiro, um líder deve se responsabilizar pelo que cultiva; ele deve ocupar-se com seu trabalho, tentar repelir os inimigos, preservar o que pode ser preservado, e eliminar o que não pode prosperar.
" (p. 597/98)


Profunda essa metáfora que Mandela usa. Em certas situações na vida temos pouca ou nenhuma capacidade de controlar os acontecimentos. Mas sempre há coisas que podemos controlar minimamente, como nosso comportamento, por exemplo. Nossas atitudes são provocadas pelo mundo exterior a nós, é verdade, mas desenvolver técnicas e capacidade de controlar nossas atitudes é algo fundamental para um militante de esquerda e um lutador das causas sociais. Soube que isso é possível ao ser dirigente e líder das lutas dos bancários, negociador e gestor de entidades de classe.


O ENSINAMENTO EM "GUERRA E PAZ"

"Um livro que li muitas vezes foi o grande trabalho de Tolstói, Guerra e Paz (apesar de o título conter a palavra guerra, este livro era permitido). Fiquei particularmente fascinado pela descrição do General Kutuzov, a quem todos na corte russa subestimaram. Kutuzov derrotou Napoleão precisamente porque não foi seduzido pelos valores superficiais e efêmeros da corte, e tomou suas decisões com base em uma compreensão visceral de seus homens e seu povo. Isso me lembrou novamente que, para realmente liderar o seu povo, a pessoa deve também verdadeiramente conhecê-lo." (p. 601)


Outro grande momento do livro de Mandela foi essa passagem na qual ele cita uma obra clássica da literatura mundial, seus personagens e a vida real. Aliás, a citação fala da superficialidade da vida na corte, assim como Pedro Serrano dos tempos que correm.

"para realmente liderar o seu povo, a pessoa deve também verdadeiramente conhecê-lo"

Amig@s, essa é uma questão crucial. Por quase duas décadas fui dirigente sindical e por esse mesmo período de militância fiz trabalho de base junto aos trabalhadores que representava. Nunca deixei de estar nos locais de trabalho porque não conseguiria realizar nada das lutas que empreendi se não estivesse em relação aberta e franca com as pessoas que representava e, é claro, se não tivesse objetivos e utopias a perseguir e nortear meu caminho.

É isso.

Temos que ter utopias, temos que deixar de sermos superficiais, temos que desenvolver projetos e estratégias para salvar o planeta Terra e a humanidade. Entendo que essa é uma tarefa da esquerda. É uma tarefa que não vai a lugar algum sem o engajamento dos jovens e a participação das demais gerações que aqui estão.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


quinta-feira, 10 de junho de 2021

100621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"o essencial é viver!" (Carlos Drummond de Andrade)


Quinta-feira, 10 de junho do 2º ano do aparecimento da pandemia mundial do novo coronavírus.

Que dizer neste momento de registro pessoal sobre os acontecimentos da vida? Talvez começar o registro dizendo que estamos na luta para seguir vivendo e para isso estamos o tempo todo buscando significar a existência, tanto pessoal quanto coletiva, da vida humana e da vida no planeta Terra. Dar sentidos às coisas é algo que pode nos dar motivos para suportar as adversidades da existência e seguir lutando pelo viver.

Nesta semana, estou lendo a autobiografia do líder negro sul-africano Nelson Mandela (1918-2013). Hoje não li, mas li centenas de páginas nesses dias. As outras leituras de literatura estão um pouco interrompidas. Em breve, retomo essa atividade que nos humaniza, conforta e fortalece.

Hoje trabalhei algumas horas neste blog de cultura. Eu mesmo fico impressionado com o quanto tive paciência e tempo para postar tanta coisa legal, para compartilhar tanto conhecimento e opiniões. Meu objetivo na época que criei o blog era fazer com que ele fosse uma espécie de Wikipedia (What I Know Is...). Os blogs estavam em seu começo na rede mundial de computadores em meados da primeira década deste século.

Estou revendo o ano de 2008 e ao reler as postagens sobre aulas na Universidade de São Paulo vejo que o conteúdo tem algum valor. Meu blog tem uma certa quantidade de entradas mensais justamente por causa das centenas de postagens com conteúdos de estudos e de cultura em geral.

Hoje e dias atrás, li e estudei sobre Filologia e Morfologia. Bem legais os temas!

Enfim, toda tentativa diária de trabalhar minha mente e minha atenção por algumas horas vale a pena porque querendo ou não é impossível nos desligarmos da realidade trágica na qual vivemos sob a banalidade do mal num país destruído após o golpe de Estado de 2016. E a realidade nos traz sofrimento e temos que suportar isso. Inclusive sabemos que há um genocídio em andamento e a morte virou referência para nossas vidas. A morte iminente é a referência para nós na atualidade...

Brasil paralelo

O regime nazifascista que tomou de assalto as instituições do Estado brasileiro após o golpe da casa-grande e o fim da democracia formal no Brasil em 2016 não será derrotado pelo povo tão facilmente. Diversos fatores apontam para isso. Minha opinião é que as lideranças e forças mais progressistas estão apostando de forma equivocada e ilusória todas as fichas numa hipotética vitória dos democratas em uma eventual eleição em 2022 (estou falando das apostas em Lula). Acho que estão enganados. E espero estar errado quando reler essa reflexão daqui a alguns anos.

Na verdade, nem poderia denominar a banalidade do mal que tomou conta do Brasil e o regime no poder de "nazifascista" porque a história não se repete. A expressão é um empréstimo porque a história cunha os conceitos depois. O hitlerismo, o franquismo, o salazarismo e outros regimes aconteceram com os contextos que os definiram em suas épocas. Talvez no futuro, os livros de história tenham em seus registros sobre o Brasil deste momento denominações como "bolsonarismo" com o mesmo peso trágico e criminoso que o nazismo teve, nazismo que no fundo foi o "hitlerismo".

Enfim, sobre o risco iminente de morte e o genocídio em andamento, registro que hoje morreram de Covid-19 mais de 2,5 mil pessoas no Brasil. Ultrapassamos a marca trágica de 482 mil mortes de brasileiros e brasileiras. Atualmente, um terço dos mortos diários no mundo, nos 200 países, são de pessoas sob o regime do mal do bolsonarismo. A morte por Covid-19 faz parte das estratégias do regime por aqui. É um regime baseado na morte, na retirada de direitos do povo, no favorecimento de algumas pessoas e grupos de bilionários, e baseado na MENTIRA.

A MENTIRA é a base do poder que está destruindo e matando o povo brasileiro e o país. O MENTIROSO sabe dizer as mentiras que os alienados e os manipuladores querem acreditar e enganar os outros.

Mas se até o nazismo - o hitlerismo - que queria durar mil anos não durou para sempre, durou 12 anos (matou milhões de pessoas, é verdade), não seria um regime de gente tão medíocre e tão desprezível como o que temos neste momento no Brasil que duraria dezenas de anos. Eu sei que o salazarismo durou décadas... esperemos que o contexto atual não permita isso, porque a história não se repete e porque estamos vivos e nos opomos a tudo o que significa esse regime do mal.

Por que coloquei o subtítulo de "Brasil paralelo" nesta parte da postagem? Porque impressiona o quanto as pessoas ao nosso redor foram capturadas pelas mentiras do regime do mal no poder. Nossos amigos, familiares e conhecidos estão morrendo por causa da Covid-19 e estão lutando para sobreviver às consequências da infecção pelo vírus mortal. Mas uma parte da sociedade humana foi captura pelas abstrações mentais do bolsonarismo (como nos explica o neurocientista Miguel Nicolelis sobre o cérebro e as abstrações de O Verdadeiro Criador de Tudo). 

Os bolsonaristas ou simpatizantes ao regime não têm medo de pegar o vírus! Eles não têm medo! Têm medo da abstração "comunismo", mas não têm medo dos efeitos da infecção pelo vírus. Cara, fico vendo as pessoas ao meu redor sem máscara e acreditando em tudo quanto é mentira que é repetida mil vezes por dia nos grupos e redes sociais desse mundo paralelo em que eles vivem e eles não têm medo... Temos um Brasil paralelo com essa gente... é assustador!

William

quarta-feira, 9 de junho de 2021

090621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Temos que desafiar a lei quando ela é injusta

Ao ler a autobiografia de Nelson Mandela, hoje pela manhã, me emocionei. Às vezes, vivemos aquelas coincidências que despertam emoção pelo inusitado do fato. 

Dias atrás, interrompi as leituras dos clássicos que estou lendo, livros de leitura demorada, e li alguns livros menores, tragédias gregas entre eles. Li Édipo Rei e Antígona, de Sófocles, e Prometeu Acorrentado, atribuído a Ésquilo. Preenchi algumas de minhas lacunas culturais.

A leitura de Mandela está numa parte difícil porque estou acompanhando os relatos do período em que ele esteve preso na ilha de Robben, cumprindo pena de prisão perpétua por lutar pela liberdade e igualdade para o povo negro sul-africano, povo humilhado e sobrevivendo na absoluta miséria por causa da minoria branca africâner e o regime racista do apartheid.

De repente, Mandela nos conta que chegou a participar de peças teatrais durante seus estudos universitários.

"Eu apareci em apenas alguns dramas, mas tive um papel memorável: o de Creonte, o rei de Tebas, na Antígona de Sófocles. Eu havia lido algumas das peças clássicas do teatro grego na prisão e as achava enormemente inspiradoras. O que eu tirei delas foi que o caráter era medido através de como as situações difíceis eram encaradas e que um herói era um homem que não cedia nem diante das circunstâncias mais difíceis." (p. 557)

Gente, eu havia acabado de ler e conhecer a história de Antígona! Foi de arrepiar! A literatura tem dessas coisas, as intertextualidades e as referências são a base da literatura mundial. As grandes obras literárias, os grandes autores e pensadores, sempre dialogam entre si ao longo dos milênios de cultura humana.

Seguindo com a descrição feita por Mandela, no parágrafo seguinte, eu comecei a temer que a identificação entre Mandela e o personagem que ele interpretou, o rei Creonte, fosse me decepcionar.

"Quando Antígona foi escolhida para ser encenada, eu ofereci os meus serviços, e me pediram que eu interpretasse Creonte, um rei idoso lutando em uma guerra civil pelo trono de sua querida cidade-estado. No início da peça, Creonte é sincero e patriótico, e há sabedoria nas suas falas iniciais quando ele sugere que a experiência é a base da liderança e que os deveres para com o povo têm prioridade sobre a lealdade a um indivíduo." (p. 557)

Ao ler a tragédia de Sófocles eu fiquei muito puto com o rei Creonte. Minha simpatia havia sido evidentemente pela figura de Antígona. Seguimos com a descrição de Mandela.

"Mas Creonte lida com os seus inimigos impiedosamente. Ele decretou que o corpo de Polinice, irmão de Antígona, que havia se rebelado contra a cidade, não merecia um funeral apropriado. Antígona se rebela com base em que há uma lei acima daquela do estado. Creonte não quer ouvir Antígona, nem ouve a ninguém a não ser os seus demônios interiores. Sua inflexibilidade e cegueira não caem bem em um líder, pois um líder deve temperar a justiça com misericórdia. Antígona era quem simbolizava a nossa luta; ela era, à sua própria maneira, uma guerreira pela liberdade, pois ela desafiava a lei por ela ser injusta." (p. 558)

Cara, meus olhos encheram d'água...

Demais!

É por isso que temos que lutar contra todas as desgraças e crimes lesas-pátrias cometidos pelos golpistas e pelos bolsonaristas após o golpe de Estado em 2016. Temos que ser guerreiros pela liberdade e lutar pelo que é justo, ou seja, lutar contra as reformas e leis que prejudicaram o povo brasileiro e a classe trabalhadora e entregaram o patrimônio público para meia dúzia de burgueses apaniguados do regime nazifascista de plantão.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


terça-feira, 8 de junho de 2021

080621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Como guerreiros pela liberdade e prisioneiros políticos, nós tínhamos a obrigação de nos aprimorar e nos fortalecer, e estudar era uma das poucas oportunidades de fazer isso." (MANDELA, 2012, p. 506)


A obrigação de nos aprimorar e nos fortalecer

A parte da leitura da autobiografia de Nelson Mandela em que estou é difícil porque a gente sofre junto com ele. Que dureza, quanta injustiça! Não é possível um ser humano com ética, educação, dignidade e um mínimo de humanidade tolerar as injustiças que se cometeram e se cometem contra milhares e milhões de pessoas ontem e hoje. Não é possível não se indignar com a injustiça.

Estou na parte das memórias de Mandela sobre os longos anos que ele e seus companheiros passaram na ilha de Robben, cumprindo uma sentença de prisão perpétua por lutarem pela liberdade de seu povo e por uma sociedade igualitária e de oportunidades para todos, e multirracial.

Nas dezenas de páginas que li hoje, Mandela nos conta as estratégias que eles desenvolveram para se organizarem dentro do presídio e lutarem por melhorias mínimas de tratamento. Como fizeram para se comunicar entre eles e para conseguir alguma informação sobre a vida lá fora. Como lidaram com guardas brancos violentos no presídio e como buscaram se aproximar de alguns brancos mais civilizados lá dentro.

É de apertar o peito quando Mandela nos conta o sentimento de impotência e tristeza mesmo para alguém que se prepara para ser um guerreiro pela liberdade ao lidar com as perdas de pessoas queridas. Nos primeiros 5 anos de prisão na ilha, Mandela soube da morte do chefe Luthuli (do CNA), e morreram sua mãe e seu filho mais velho, Madiba Thembekile. Nos dois casos, Mandela deveria ser o responsável pelos cuidados e rituais funerários e os brancos não permitiram isso.

Além das perdas, o regime dos brancos perseguiu implacavelmente sua esposa, Winnie Mandela. Prisões injustas, banimentos, invasão de sua casa, ela foi colocada na solitária, perdeu o emprego. Tudo muito desumano.

Aí me lembro do que fizeram com o nosso ex-presidente Lula. A mesma forma de guerra desproporcional dos órgãos do Estado contra uma pessoa, uma família, um segmento da sociedade. Uns desgraçados montaram toda uma farsa e destruíram a vida de um líder que passou a vida lutando para melhorar a vida de seu povo. A maldade não tem limites em certos grupos de animais humanos.

Mas Lula resistiu e está aí se colocando à disposição do povo pobre e trabalhador para reconstruirmos a vida da sociedade brasileira, dizimada pela Lava Jato, pelo golpe de Estado e pela ascensão do nazifascismo nas estruturas do país. Vários presos políticos desse período golpista brasileiro estão contribuindo também, escrevendo, contando suas histórias, nos incentivando a lutar e resistir. José Dirceu, José Genoino, Dilma Rousseff e outras lideranças do povo brasileiro.

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Estudar, ler, conhecer a história de nosso povo e as lutas que já foram empreendidas em busca da justiça, da igualdade, da oportunidade de uma vida comunitária mais solidária e cooperativa.

É isso que temos que fazer diariamente, diariamente! Nem que seja por meia hora, uma hora. Só assim, nos humanizamos e nos preparamos para suportar esses momentos duros que estamos vivendo num mundo sob pandemia, sob o domínio de uma minoria sobre a ampla maioria de seres humanos, sob o predomínio do ódio e ignorância usados como ferramentas de manipulação de massas.

Cada um de nós que tem algum tipo de conhecimento e consciência de classe - de classe trabalhadora que é o que somos - tem que resistir, sobreviver, estudar, e pensar formas de enfrentar e derrotar nossos inimigos. Buscar unidade e tentar dialogar com outras pessoas.

Sobreviver. Reorganizar a classe trabalhadora. Derrotar o inimigo que nos destrói e destrói o mundo.

Vamos juntos, prezados leitores e leitoras?

A cada um de acordo com suas necessidades e de acordo com suas possibilidades. Estudando e escrevendo, estou tentando compartilhar com vocês a experiência de uma vivência nas lutas sociais.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


segunda-feira, 7 de junho de 2021

070621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Para nós, tais lutas - por óculos, calças compridas, privilégio para estudo, alimentos iguais - eram corolários para a luta que promovíamos fora da prisão. A campanha para melhorar as condições na prisão era parte da luta contra o apartheid. Era, nesse sentido, tudo igual, lutávamos contra a injustiça onde quer que a encontrássemos, não importando se era grande ou pequena, e lutávamos contra a injustiça para preservar a nossa humanidade" (MANDELA, 2012, p. 498)


Lutávamos contra a injustiça para preservar a nossa humanidade

Quando eu ia dar as boas-vindas aos novos funcionários do Banco do Brasil, no dia da posse deles em seus cargos de escriturários concursados do banco público, eu transmitia a eles uma mensagem muito parecida com o conceito acima descrito por Nelson Mandela. 

Eu era dirigente sindical dos bancários paulistas, representava os trabalhadores e ao sindicalizá-los dizia para nunca aceitarem violência contra eles (física e psicológica), assédio moral, humilhações ou qualquer forma de injustiça. Deixava claro para eles que assédio moral e injustiça nunca poderiam ser considerados coisas normais. Injustiça não é algo "normal", algo "natural".

Hoje, temos que trabalhar esse conceito mais que nunca no mundo do trabalho, no Brasil e no planeta Terra! Lutar contra a injustiça é uma forma de preservar a nossa humanidade.

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Nesta segunda, 7 de junho, tivemos em Osasco, São Paulo, um dia chuvoso e nublado. A natureza agradece. 

Reli e estudei um pouco as postagens que fiz sobre a leitura do clássico Odisseia, de Homero. Já passei da metade da leitura da epopeia em versos de minha edição a cargo do professor Medina e na tradução de Odorico Mendes. Estudar os clássicos da literatura mundial também é uma forma de fortalecer nossa humanidade.

Retomei a leitura da autobiografia de Nelson Mandela. Sinto que a leitura sobre a história de luta do povo negro sul-africano é necessária para mim neste momento de desesperança em relação ao presente e ao futuro por causa da dura realidade em nosso país, neste momento da história dominado pela banalidade do mal e nas mãos de um regime nazifascista, racista e contra o povo e a classe trabalhadora, regime corrupto, violento e genocida. 

A história de Mandela, seus companheiros e companheiras e a derrota do regime racista do apartheid imposto pela minoria branca é um exemplo de que a luta vale a pena e que não podemos normalizar a injustiça, temos que preservar a nossa humanidade. O bolsonarismo e a extrema direita, representantes do capital financeiro mundial, atuam para destruir nossa humanidade. Não podemos permitir isso. Eles usam inclusive o ódio e o medo para isso, idiotizam as pessoas e devemos combater isso porque é nosso dever lutar contra esse mal.

O povo está sofrendo sob a dominação desse regime genocida, cuja pauta do governo é destruir tudo que existia. Temos que resistir. Você que me lê aqui no blog e que pode estar se sentindo só e desanimado também, saiba que você não está sozinho. A vida vale a pena, a igualdade e a justiça, o amor e a solidariedade são abstrações criadas pelo animal humano e essas abstrações nos humanizam. Não desistam de viver e de lutar para sermos felizes.

Estamos juntos, mesmo que de forma singela como aqui neste blog de um militante de um mundo melhor para todos. Leiam bons livros e bons autores, boas histórias de luta e histórias de culturas, leiam e se humanizem. 

Meu coração está apreensivo com a internação do amigo e companheiro Jacy Afonso, um dos militantes das causas do povo para o qual tenho um amor fraterno antigo. Ele está lutando para vencer os efeitos da infecção pelo vírus Covid-19. A cada notícia positiva como ouvi agora há pouco, sentimos alegria e esperança em sua recuperação.

Amigas e amigos leitores, não desistam da vida, não desistam das lutas. Cada momento vivo vale a pena porque o imponderável pode nos surpreender positivamente, assim como sabemos que a vida é um instante para todo ser vivo.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


domingo, 6 de junho de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses chega a Ítaca (XIII)



Refeição Cultural

"Adormecido Ulisses desembarcam,
Nas mesmas colchas e lençóis envolto;
À sombra da oliveira os dons colocam,
À larga obtidos por mercê de Palas,
Fora da estrada, a fim que não lhos toque,
Antes que ele desperte um viandante,
Isto acabando, para a Esquéria voltam.
" (LIVRO XIII, v. 86-92, p. 239)


Finalmente, Ulisses chega a Ítaca, trazido pelos Feácios. As notas da edição que tenho são muito legais. O professor Medina nos explica que este Livro XIII da epopeia equivale ao início da segunda parte da Odisseia

"Calam-se todos: refere-se ao final da narração de Ulisses, contida nos livros IX-XII, feita para Alcino, e que conta os fatos que lhe haviam ocorrido desde a saída de Tróia até sua chegada à ilha de Calipso. O que lhe vai ocorrer depois, ou seja, o período que vai desde esta chegada até sua boa acolhida entre os Feácios é algo que já foi narrado por Ulisses a Alcino e Areta no fim do livro VII. O livro XIII se distingue totalmente dos anteriores e dá de fato início à segunda parte da Odisseia, onde a ação se desenvolverá de maneira bem mais lenta. Ulisses, uma vez acabado seu 'romance de aventuras', é novamente focalizado na corte de Alcino, e o rei dos Feácios vai preparar agora a viagem de volta do herói a Ítaca. Ora, tanto a viagem como o sonho de Ulisses lembram novamente uma profunda experiência dos limites do homem, arrematada simbolicamente com a transformação do navio dos Feácios num rochedo (daí por diante Atena se faz mais presente); Alcino pode ser, pois, entendido como o rei barqueiro que conduz as almas à ilha dos Bem-Aventurados, sendo, pois, todo episódio dos Feácios considerado como um poema escatológico." (Nota 1, LIVRO XIII, p. 235, Antonio Medina)

Outras duas partes deste livro (ou canto) merecem destaque: a polêmica acerca da possibilidade de se desembarcar dormindo o nosso herói ou não e a deusa Pala mudando a aparência de Ulisses para que ele consiga alcançar sua casa e realizar a sua vingança contra os homens que lá estão há 3 anos dilapidando seu patrimônio e querendo sua esposa.

Os Feácios desembarcam Ulisses dormindo. O tradutor Odorico Mendes faz uma nota muito interessante, discutindo a posição de Aristóteles, que afirma na Poética que há inverossimilhança nesta questão. É fantástico! 

Leio dois séculos depois da tradução da Odisseia para o português um debate entre o maranhense Odorico Mendes (XIX) e Aristóteles (século V a.C.) sobre uma obra de alguns séculos antes da vida do filósofo, a Odisseia é do século VIII a.C.

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"Adormecido Ulisses desembarcam,
Nas mesmas colchas e lençóis envolto;
" (v. 86-87)

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NOTA DE ODORICO MENDES

"Na opinião de Aristóteles, seria esta inverossimilhança intolerável, se as belezas do estilo não fizessem esquecer a pequenez da invenção. Sem embargo da sentença do oráculo da Antiguidade, faria algumas observações a favor do poeta. A inverossimilhança consiste em desembarcarem a Ulisses dormindo sem que ele despertasse. Advirta-se, porém, que depois de quebrar-se o navio onde longamente padeceu, depois de nadar quase três dias com o auxílio da cintura de Leucotéia, depois de escalavrar as mãos nos rochedos, ainda não tinha assaz reparado as forças perdidas: o sono mais salutar foi o que dormiu no bosque antes de lhe aparecer Nausica; porquanto na cidade, onde esteve dois dias, pouco descansou, levando quase todo o tempo a narrar suas aventuras, o que por certo não lhe diminuía o cansaço. Necessariamente, ao chegar ao navio dos Feácios, devera cair em profunda modorra. Tenho visto mudarem-se muitos adormecidos, principalmente meninos, sem darem por si; e o que a idade faz nos meninos, podia fazer em Ulisses a extraordinária fadiga. Se Aristóteles tivesse passado por iguais trabalhos, talvez não teria despertado nem cochilado." (Nota 86-87, LIVRO XIII, p. 239, Odorico Mendes)

No fim deste canto fantástico da Odisseia, a deusa Pala, que agora irá acompanhar o herói até o fim de suas aventuras em Ítaca, decide disfarçá-lo na forma de um velho malvestido para que ele consiga chegar de surpresa e enfrentar aqueles que dilapidam sua casa e seu patrimônio, interessados em desposar Penélope.

"Vou, para ignoto seres, enrugar-te
A lisa pele dos flexíveis membros,
Sumir-te a loura coma, em despiciendos
Andrajos envolver-te, e aos vivos olhos
O brilho embaciar, para que a todos,
Mesmo a filho e mulher, pareças torpe.
" (LIVRO XIII, v. 304-309, p. 245)


Foram bons meus entendimentos de hoje sobre a Odisseia. A leitura dos clássicos da literatura mundial nos permite refletir sobre muitas questões culturais. Intertextualidades entre autores e críticos é uma delas.

Para ler a postagem anterior desta epopeia clássica, clique aqui.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


Odisseia (Homero) - Cila e Caríbdis (XII)



Refeição Cultural

"Cila é que me arrebata uns seis guerreiros
De esforço e brio; olhando para os bancos,
Pernas lhes vejo e braços pelos ares;
Na agonia final por mim bramavam.
" (LIVRO XII, v. 181-184, p. 227)


Neste domingo, retomei a leitura da Odisseia, de Homero. Minha edição é a da tradução do maranhense Odorico Mendes, edição a cargo do professor Medina, da FFLCH.

Neste Canto XII, Ulisses saiu do inferno (Hades) e agora enfrenta as predições que os deuses lhe anteciparam. Terá que enfrentar a tentação do canto das sereias, seus marinheiros com cera nos ouvidos e ele amarrado à viga de sua nau.

Superando esse obstáculo, terá pela frente os desafios tenebrosos de Cila e Caríbdis. Pela cena que ilustrei acima, vê-se que a predição se realizou. O mostro de várias pernas e cabeças Cila devora seis tripulantes da nau de Ulisses.

Mas suas desgraças não param por aí. Foi dito a ele que não permitisse que seus homens comessem os rebanhos que estavam pastando na Ilha dos rebanhos, porque os rebanhos eram do deus Sol. É óbvio que os caras mataram e comeram bois e ovelhas! São humanos, demasiadamente humanos...

O Canto ou Livro XII termina com a vingança dos deuses, que destroçam a nau de Ulisses. Ele se salva sozinho e vai parar na ilha de Calipso, onde passou muito tempo e já conhecemos essa parte da história, narrada nos livros anteriores da epopeia.

Ler aqui a postagem anterior, sobre a leitura do Livro XI.

Abraços a vocês, leitor@s que resistem ao mundo irracional do negacionismo e da destruição massiva do planeta pelo capitalismo.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


sábado, 5 de junho de 2021

050621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Como líder, uma pessoa deve algumas vezes tomar atitudes que não são populares ou cujos resultados não serão conhecidos nos anos vindouros. Há vitórias cuja glória reside apenas no fato de que elas são conhecidas por aqueles que a venceram. Isso é particularmente verdadeiro na prisão, onde devemos encontrar consolo em sermos leais aos nossos ideais, mesmo se ninguém mais tem conhecimento disso." (MANDELA, 2012, p. 479)


Sábado, fim de dia, 5 de junho do 2º ano da pandemia mundial de Covid-19. Dias tristes no Brasil e em vários lugares do mundo. Tempos de crise e miséria para a classe trabalhadora mundial. Dias de reinvenção e resistência porque a vida é uma ordem, como nos diz Drummond, e viver é bom, como diz o personagem Rodrigo Cambará na saga de Érico Veríssimo, O tempo e o vento.

Parei quase todas as minhas leituras de livros nesta semana que se encerra. Enquanto os livros aguardam a continuidade da leitura, peguei na estante a autobiografia de Nelson Mandela. E com ele estou. E nele busco inspiração. 

Estou na parte oito da história de vida de Mandela e da própria África do Sul, pois as histórias se confundem, se interpenetram, se complementam. Mandela e seus companheiros escaparam da condenação à morte e foram condenados a prisão perpétua. Estão na Ilha de Robben. Os prisioneiros ficaram presos quase duas décadas lá.

O crime que eles cometeram foi lutar por liberdade, igualdade e justiça para o povo negro sul-africano. Lideraram seu povo na luta contra o regime racial do apartheid, lutaram por décadas por democracia.

Em certo momento da leitura hoje à tarde, senti tanta agonia ao ler a descrição das injustiças que eram cometidas pela minoria branca e racista contra o povo negro sul-africano que fechei o livro, coloquei minha máscara e saí para pedalar um pouco. Acho que fiz isso só para sentir que ainda era livre, mesmo com a pandemia lá fora e com tanta coisa ruim acontecendo ao povo brasileiro.

Em vários momentos da leitura de Mandela me lembro de lutas que vivi, que vivemos no movimento sindical. Mesmo sendo pequenininhos quando vemos a história de grandes lideranças do povo, sabemos que cada lutador(a) é importante e que a soma de cada um é o todo nas lutas de classes.

Ao ler a reflexão de Mandela, que citei acima, me lembrei de vários momentos que vivi e de ações que tomei que se assemelham ao que o líder sul-africano nos conta. Na Cassi, nas negociações com os banqueiros, nas diversas oportunidades que vivi ao representar dezenas de milhares de pessoas, tive que ser muito firme ao defender o que acreditava e representava e pouca gente sabe disso ou quase ninguém. São lutas solitárias.

Certa vez nas negociações com os banqueiros, exigi que se aumentasse o valor a ser distribuído na participação nos lucros e resultados (PLR) de maneira que as funções da base da pirâmide recebessem um pouco mais, tirando um pouquinho do valor dos grandes salários no topo da pirâmide da folha de pagamento. O negociador do banco ficou muito puto e a queda de braço durou do fim da noite até o amanhecer (rsrs). Foi uma conquista coletiva muito positiva para escriturários, caixas, assistentes e primeiras funções gerenciais. Os bancários jamais saberiam de uma coisa dessas.

Outra vez, já na direção da Caixa de Assistência dos Funcionários do BB, a Cassi, exigi que o banco fosse o responsável pela despesa administrativa relativa ao pagamento da PLR dos funcionários do banco cedidos à nossa autogestão em saúde (era correto que eles recebessem, só questionei quem deveria pagar aquela remuneração). Eu entendi logo que cheguei à gestão que o correto e justo era o banco assumir aquela despesa e não a entidade de saúde. Olha! A negociação foi dura. Ficam as palavras de Mandela acima para descrever o que vivi. Não aceitei que a situação continuasse. A tensão fez com que algumas dezenas de funcionários não recebessem a remuneração variável no dia definido (depois receberam). Tive que utilizar diversas táticas e, inclusive, abri mão de receber a minha parte até que se resolvesse a questão (por princípio não recebi um centavo de PLR pela autogestão, só pelo banco). Só no 3º semestre de nossa gestão é que conseguimos resolver em definitivo o caso. A Cassi desde 2015 economizou milhões de reais com essa atitude minha. Alguém sabe disso? Óbvio que não (e ao final do mandato ainda inventaram um processo fraudulento, um lawfare, para me prejudicar nas eleições seguintes).

Mandela nos faz lembrar de muita coisa. E nos inspira a acreditar que a luta por justiça, igualdade, liberdade e por um mundo melhor para todos vale a pena. Nós temos que acreditar que vamos varrer para a lata de lixo esse nazifascismo que tomou conta do Brasil, esse ódio e essa ignorância violenta que envenenou nosso povo após a Lava Jato e o golpe de Estado em 2016. Nós vamos vencer o bolsonarismo. Essa tragédia odiosa e infeliz vai ficar para trás.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


sexta-feira, 4 de junho de 2021

040621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Eu havia escolhido uma roupagem tradicional para enfatizar o simbolismo que eu era um negro africano entrando em um tribunal de homens brancos. Eu estava literalmente carregando em minhas costas a história, cultura e tradição do meu povo." (MANDELA, 2012, p. 397)


Sexta-feira, 4 de junho de 2021. Queria ler hoje um capítulo inteiro da autobiografia do líder negro sul-africano Nelson Mandela. Ufa! Só terminei agora, perto da meia-noite. Foram quase 85 páginas de história de lutas de um povo em busca de liberdade e igualdade.

Estou triste, com o coração apertado, apreensivo. E sei que devo resistir a tudo e sobreviver, pelo menos devo fazer a minha parte para sobreviver, e com dignidade. Sei que ainda tenho alguns papéis sociais a desempenhar, por mais que já não seja figura pública. A gente segue sendo pai e membro de uma família que amamos.

Esta tem sido uma semana difícil em relação a perdas e doenças na família e nos círculos de amizade e companheirismo. Minha mãe sofreu com a morte de um primo, vítima de Covid-19. Eu não tinha relações com ele porque a relação mais forte era entre minha mãe e a tia Nenzinha. Meus sentimentos a toda a família.

Meus pais e sobrinhos perderam a querida Josinete, a Jô, uma vizinha e família que se tornaram uma só família com meus pais e sobrinhos. As crianças foram criadas juntas, minha mãe tinha nela uma irmã, amiga, companheira. Que tristeza a morte da Jô, ocorrida ontem. Jô querida, presente! Desejo muita força para os filhos Ygor e Laudiane e o marido Laudeci.

Meu coração está apertado e não vejo a hora de receber a notícia de melhoras de meu amigo, irmão, mestre e companheiro Jacy Afonso, uma das pessoas para as quais tenho um dos sentimentos mais antigos de amor fraterno, uma liderança e referência de toda uma vida de lutas no movimento sindical. Jacy nunca abandonou as ruas nas lutas em defesa da classe trabalhadora, mesmo durante a pandemia de Covid-19. Ele contraiu o vírus e está lutando pela vida neste momento. Por favor, Jacy, teima e volte logo pra nós!

Com tanta tristeza e apreensão, peguei o livro autobiográfico de Nelson Mandela pra prestar atenção naquilo que ele nos conta, na luta pela liberdade, pela igualdade, na luta pela dignidade de todo um povo subjugado por colonizadores. Que história pessoal e coletiva! É uma inspiração para não desistirmos de lutar. Assim como a história de nosso querido Lula. Duas referências de vida, de luta, de caráter e de pessoas imprescindíveis. Assim como nosso querido Jacy, também imprescindível.

Temos que ser fortes e sermos corretos e de luta e dignos por causa de seres humanos como Mandela, Lula e Jacy.

O Brasil sangra, o nosso povo está sofrendo, está exposto à morte por Covid-19 por opção do regime genocida, que apostou em não vacinar nossa gente. O povo está sem trabalho e por conta própria.

O meio milhão de mortos é composto em sua ampla maioria por gente pobre, preta e mestiça, das classes de menor renda, gente que precisa do apoio do Estado. Temos que resistir ao inimigo e nos defendermos, de todas as formas. Há um genocídio em andamento.

Temos que ocupar as ruas e mobilizar a classe trabalhadora para retomar o país das mãos dos bandidos e genocidas que ocuparam os poderes a partir de um golpe de Estado apoiado pela casa-grande, agentes externos e seus lacaios.

William


Post Scriptum: na passagem citada acima, me lembrei de minhas camisas vermelhas da CUT nas negociações com banqueiros de ternos e minhas camisas polo da Cassi entre os engravatados. Eu tinha convicção do que estava fazendo ao usar as minhas roupas do dia a dia de luta naqueles espaços de poder.


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


quinta-feira, 3 de junho de 2021

030621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Em minhas sessões de estudo, o Coronel Tadesse discutia assuntos tais como criar uma força de guerrilha, como comandar um exército e como impor disciplina. Certa noite, durante o jantar, o Coronel Tadesse me falou, 'Agora, Mandela, você está criando um exército de liberação e não um exército capitalista convencional. Um exército de liberação é um exército igualitário. Você tem que tratar seus homens de uma forma inteiramente diferente de como os trataria em um exército capitalista. Quando você estiver de plantão, deverá exercer a sua autoridade com confiança e controle. Isso não difere do comando num exército capitalista. Mas quando você estiver de folga, deverá se comportar em base de perfeita igualdade, mesmo em relação ao soldado mais raso. Você deve comer o que eles comem; você não deve comer no seu gabinete, mas junto com eles, beber com eles, não se isolar'." (MANDELA, 2012, p. 375)


Mais um dia de leitura sobre as lutas dos negros sul-africanos em busca da liberdade e da igualdade. Estou tendo essa oportunidade porque Mandela escreveu uma autobiografia e ela foi organizada e impressa na forma de livro. Caso estivesse em rede virtual, ou só nos computadores das big techs donas dos meios onde estão as informações da tal "internet", os capitalistas já teriam sumido com essa história de lutas.

Vocês sabiam que o Congresso Nacional Africano (CNA) teve que mudar seus métodos após o início dos anos sessenta para enfrentar o regime nacionalista dos brancos e a política de apartheid? O CNA tinha como princípio a não-violência, mas chegou um momento em que essa estratégia não tinha mais sentido porque Mandela em uma passagem de suas memórias diz que quem define as armas é o inimigo. A partir do momento em que o inimigo só usa da violência contra as políticas de não violência, algo precisa mudar.

Poderia fazer uma analogia em relação ao Brasil. Durante esse período de pandemia mundial, os genocidas apoiadores do regime nazifascista estiveram nas ruas, agiram contra as medidas de contenção da pandemia, estiveram nas ruas cobrando radicalização e ditadura. A parte mais consciente e humanista, as esquerdas e grupos democratas, estiveram em casa respeitando as recomendações das autoridades sanitárias e de saúde. NÃO DÁ MAIS. O povo contrário ao regime precisa ocupar as ruas e não sair mais.

O Brasil está nas mãos dos golpistas que destruíram a democracia do país desde o golpe de Estado em 2016. Vários são os setores da sociedade que tiveram participação ativa na construção do golpe e todos os setores envolvidos são responsáveis pela tragédia que vivemos hoje. Praticamente todos eles têm algum grau de relação com a elite econômica que destruiu a democracia e que apoia o regime no poder. Até quando o 1% e seus lacaios vai continuar dando as cartas e destruindo o país e matando o povo?

Neste momento um genocídio está em andamento no Brasil. Meio milhão de brasileiras e brasileiros morreram vítimas de uma pandemia de coronavírus. Alguns milhares de vítimas morreram antes de se descobrir formas de se evitar o contágio e centenas de milhares morreram após existir vacina contra o vírus. O regime no poder poderia ter atuado de maneira a evitar centenas de milhares de mortes caso fosse de interesse essa opção pela vida. Não foi o caso. Neste minuto, nossos entes queridos estão em risco, sem vacina e estão lutando pela vida.

Estudos mostram que a ampla maioria dos mortos e dos sequelados pela pandemia de coronavírus é o povo pobre, periférico, miserável, pretos e pardos. São os trabalhadores brasileiros. É um genocídio o que temos em andamento no Brasil do regime nazifascista no poder. Todo apoiador desse genocídio é um assassino, tem responsabilidade com as mortes de nossos familiares, amigos e conhecidos. Espero que alguns paguem por esses crimes de guerra contra os pobres e contra o povo. Muitos talvez não sejam presos e condenados, mas em algum momento de suas vidas desgraçadas terão a consciência de que fizeram parte desse genocídio e dessa tragédia brasileira.

Tenho raiva, pena e nojo de todos os apoiadores desse regime de morte, miséria e destruição. Tenho desprezo total por qualquer bolsonarista! Desprezo!

Quem dera tivéssemos no Brasil um CNA que compreendesse que é o inimigo que define as armas numa guerra. Não temos um CNA aqui. A luta pela liberdade e pela igualdade está muito longe do êxito. Ainda morrerão muitos só do nosso lado, o lado do povo, o lado da classe trabalhadora.

William


Post Scriptum: não vou cansar de registrar que os sindicatos, associações e entidades de lutas da classe trabalhadora deveriam resgatar, organizar e imprimir em livros a nossa história de lutas e distribui-la para as pessoas. Do jeito que está hoje, toda nossa história será vaporizada na tal internet. Estamos morrendo através das diversas mortes severinas que estão aí para matar a gente da classe trabalhadora e deixar vivos os desgraçados da elite predatória, lesa-pátria e que odeia o Brasil e o povo brasileiro.


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


quarta-feira, 2 de junho de 2021

020621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Apesar de eu ser uma pessoa gregária, amo a solidão ainda mais. Eu apreciava a oportunidade de ficar sozinho para planejar, pensar, conspirar. Mas uma pessoa pode se cansar da solidão. Eu me sentida terrivelmente isolado de minha família" (MANDELA. 2012, p. 327)


O momento atual do Brasil e do mundo nos entristece o tempo todo. Temos que buscar estratégias e ferramentas psicológicas para fugir à tristeza e demais sentimentos ruins que nos assaltam.

Quase todo mundo tem alguma pessoa querida lutando contra o vírus mortal Sars-Cov-2 (Covid-19) neste instante em que escrevo. Quase todo mundo tem alguma pessoa querida com algum tipo de depressão. Quase todo mundo perdeu pessoas queridas nesses tempos marcados pela morte e não pela vida e pela esperança de dias melhores. Só pela pandemia de coronavírus são quase meio milhão de mortos no Brasil.

Tenho pessoas queridas lutando contra a Covid-19. Tenho pessoas queridas com depressões diversas. Perdi diversas pessoas queridas nos últimos tempos. A referência da vida hoje é o risco da morte, que loucura! Posso estar aqui hoje e morrer em poucos dias pelo vírus, além das mortes severinas. 

Mas como diz meu poeta favorito, Carlos Drummond de Andrade, chegou um tempo em que não adianta morrer e a vida é uma ordem, a vida apenas e sem mistificação. E noutro poema ele diz que temos que viver seja como for e que o essencial é viver.

Outro dia, estava pensando sobre a importância de se registrar e se imprimir e distribuir a nossa história, a nossa luta de classes, os acontecimentos privados e coletivos de nossa vida de classe trabalhadora e de povo explorado pelos poucos usurpadores humanos que se apropriam das coisas do mundo através da violência e da manipulação.

Como eu saberia da história de lutas do povo negro sul-africano e de seus líderes como Nelson Mandela se ele não tivesse registrado em uma autobiografia tudo o que viveram durante décadas até alcançarem a liberdade do povo negro e o fim do apartheid? Tenho um livro de 800 páginas em mãos que conta essa história sob o ponto de vista de Mandela.

E se essa luta do povo negro sul-africano estivesse sendo travada nos últimos 10 ou 15 anos e só estivesse registrada de forma virtual, na internet, no YouTube, no Facebook, no Google? Vocês acham que essa história teria muitas chances de continuar existindo para as pessoas comuns e espalhadas por esse mundão se não estivesse em livros?

Se o filólogo judeu alemão Victor Klemperer não tivesse registrado em diários tudo o que viu acontecer com a língua alemã durante a ascensão e queda do regime nazista de Adolf Hitler e o 3º Reich, dificilmente nós conheceríamos como a língua alemã foi essencial para a implantação do regime nazista, como a língua foi manipulada para fazer toda uma nação apoiar aquilo que foi o nazismo. Ele registrou isso em livro e eu posso ler em casa essa história trágica. E se estivesse só na internet e só de forma virtual?

Eu insisto na sugestão para que os movimentos sociais, sindicais, estudantis e partidários do campo da esquerda e que representam as lutas da classe trabalhadora registrem e imprimam e distribuam (vender a preço de custo) a nossa história de lutas das últimas décadas porque as big techs donas do mundo virtual vão desaparecer com toda a nossa história de lutas "on-line". É fato! É óbvio! Elas fazem parte daquilo que combatemos! Procurem nossas histórias na internet, procurem! O pouco que registramos está desaparecendo... Me falem das conquistas e lutas dos bancários brasileiros das últimas duas décadas...

Editem e imprimam nossas histórias de lutas, seja na forma de diários dos lutadores, seja na forma de livros das entidades (que é um parto fazer porque tem ciumeira de quem vai brilhar mais), de períodos de lutas, por categoria, por tema, de qualquer forma, mas não permitam que a classe trabalhadora seja o maior segmento da sociedade humana (os 99%) pautado somente pelo ponto de vista dos poucos capitalistas donos de tudo.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


terça-feira, 1 de junho de 2021

010621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"O chefe testemunhou sua crença na bondade inata do ser humano e como a persuasão moral e a pressão econômica poderiam levar a uma mudança de opinião por parte dos brancos sul-africanos. Ao discutir a política de não violência do CNA, ele enfatizou que havia uma diferença entre não violência e pacifismo. Os pacifistas se recusavam a se defender mesmo quando eram atacados violentamente, mas esse não era necessariamente o caso daqueles que desposavam a não violência. Às vezes homens e nações, mesmo sendo não violentos, tinham que se defender quando eram atacados." (MANDELA, 2012, p. 289)


Hoje li dezenas de páginas da autobiografia do líder negro sul-africano Nelson Mandela. Ganhei o livro de presente de minha esposa em agosto de 2014, no Dia dos Pais. Eu recém começava uma longa jornada de lutas em um mandato representativo e havia ido morar em Brasília e passaria quatro anos viajando o Brasil.

Durante aquele período, cheguei a ler duas centenas de páginas do Mandela. Ao final do mandato, por volta de abril de 2018, eu estava terminando a parte 4 - "A luta é a minha vida". Depois guardei o livro. Para retomar a leitura de Mandela, reli inteiro o que havia lido. E agora começo a avançar nas centenas de páginas de história que o líder sul-africano tem para nos contar.

Das leituras principais que estavam em andamento, decidi dar um tempo com algumas delas, principalmente o Ulysses, de James Joyce, porque estou lendo este clássico com um amigo e ele não está podendo ler nessas semanas. O livro do neurocientista Miguel Nicolelis e a Odisseia, vou seguir até o fim com a leitura.

Lendo o conceito acima, da diferença entre pacifismo e não violência, pensei a respeito, olhei para trás e avalio que me encaixo no conceito explicado pelo Chefe Luthuli (do CNA). Não sou um pacifista. Entendo que temos que nos defender quando atacados.

A história do povo negro sul-africano, a luta pela liberdade e pelo fim do apartheid, a luta pela igualdade e contra o racismo e o preconceito são grandes referências para os mais diversos povos do mundo que passam por situações semelhantes hoje e no futuro. 

O Brasil e o povo brasileiro passam por situação muito semelhante neste momento de sua história, racismo, corrupção do grupo no poder, violência do Estado contra o povo mais pobre e abandonado, destruição dos direitos do povo e do patrimônio do país. Genocídio do povo através de uma pandemia não combatida pelo governo como estratégia do regime no poder.


APARTHEID E RACISMO

"Apesar de sermos mantidos juntos, a nossa dieta era estabelecida de acordo com a raça. Para o café da manhã, os negros, indianos e mestiços recebiam as mesmas quantidades, exceto que os indianos e mestiços recebiam meia colher de chá de açúcar, o que não acontecia conosco. Para o jantar, as dietas eram as mesmas, exceto que os indianos e mestiços recebiam pouco mais de cem gramas de pão, enquanto nós não recebíamos nada. Esta última distinção era baseada na premissa curiosa de que os negros normalmente não gostavam de pão, que era um gosto mais sofisticado, ou 'ocidentalizado'. A dieta para os detentos brancos era muito superior do que aquela para os negros. As autoridades eram tão conscienciosas em relação à cor que até mesmo o açúcar e o pão fornecidos aos brancos e aos não brancos eram diferentes: os prisioneiros brancos recebiam açúcar refinado e pão branco, enquanto os mestiços e os indianos recebiam açúcar mascavo e pão de centeio." (p. 300)


Pois é. O mundo deu voltas e voltas ao redor do sol desde que o povo negro sul-africano conquistou a liberdade e depôs o regime da minoria branca e o apartheid. Seu maior líder, Nelson Mandela, foi respeitado por seu povo e teve seu valor reconhecido.

No entanto, eis que num país sul-americano - o Brasil - a secular minoria da casa-grande deu novo golpe de Estado em 2016, tirou do poder uma governante eleita legitimamente, sem crime algum, tirou um partido que vinha fazendo mudanças históricas para o povo preto, mestiço e pobre, partido que gerou oportunidades e melhores condições de liberdade e igualdade e colocou no lugar um traidor da pátria e, em seguida, um nazifascista e genocida.

Agora, assim como na África do Sul dos nacionalistas brancos e do apartheid, os representantes do governo dizem as merdas que querem e praticam os crimes que quiserem e se sentem inimputáveis. Humilham as classes populares, falam mal de empregadas domésticas, de porteiros, falam que o lugar deles não é na Disney nem nas universidades, pessoas pretas são pesadas em "arrobas" segundo o inominável na presidência do país e preconceitos de todo tipo. Sem contar a psicopatia e prazer com as mortes dos brasileiros vitimados pela pandemia de Covid-19.

É nesta condição que estamos neste momento, vivendo o que os povos negros sul-africanos sofreram em seu próprio país ao longo de séculos de colonialismo e imperialismo.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.