quarta-feira, 7 de abril de 2021

O verdadeiro criador de tudo - Miguel Nicolelis



Refeição Cultural

Li o quarto capítulo do livro do neurocientista Miguel Nicolelis, O verdadeiro criador de tudo (2020). É uma leitura diferente da que estou habituado. É um livro de ciências, que aborda muita biologia, anatomia e outras áreas com as quais tive contato décadas atrás quando fiz faculdade de Educação Física, curso que não concluí.

Por outro lado, sempre tive interesse pelas temáticas científicas e culturais, poderia dizer que sempre tive certa curiosidade filosófica. O filósofo e professor romeno Mircea Eliade tinha um conceito que acho interessante - "homem cultivado" - para pessoas de saberes mais diversificados, em contraposição aos técnicos e especialistas. Pois é, gostaria de ser um "homem cultivado". Não fui. Quem sabe ainda seja um se viver mais uns 30 anos e seguir estudando...

O professor Nicolelis se esforça para falar de ciência em linguagem do cotidiano e diria até que ele consegue, mas para leitores que nunca tiveram muita familiaridade com ciências médicas e biológicas deve ser uma leitura trabalhosa. Mitocôndrias, neurônios, dendritos, capa de mielina, sinapses, córtex cerebral etc. Ao ler, vou me lembrando facilmente das matérias e isso facilita a leitura.

O neurocientista traz as descobertas das últimas décadas em relação aos estudos sobre o funcionamento do cérebro nos animais. A teoria desenvolvida por ele e sua equipe é revolucionária. Ele explica que durante duzentos anos os cientistas que estudam o cérebro se dividiam entre aqueles que acreditavam que cada área do cérebro é especializada em determinadas tarefas e aqueles que acreditavam que as áreas são aptas a realizar múltiplas tarefas. Foi só com a tecnologia dos últimos 20 anos que se pôde avançar nos experimentos que favoreceram a 2ª teoria.

Nicolelis é um dos principais neurocientistas do mundo na área de estudos do cérebro humano e criador de diversas teorias que explicam o funcionamento do cérebro de forma integrada, como um todo. Até o momento, achei muito interessantes as 100 páginas que li.

Vamos adiante.

William


Moby Dick - O monstro na verdade é o homem



Refeição Cultural

A leitura de hoje de Moby Dick foi diferente da leitura de ontem. Não foi uma leitura prazerosa, foi um dia de cumprir meu compromisso de leitor dedicado e avançar na obra. 

Li até o capítulo 87 - "A grande armada". Após a cena dos baleeiros ferindo baleias em um grande grupo de baleias que amamentavam seus filhotes, fiquei desgostoso e parei. 

Quando imaginamos a cena da matança de cachalotes com a nossa visão de mundo, só confirmamos a certeza de que o verdadeiro monstro das terras e dos mares é o homem. Usavam chamar os gigantes dos mares de leviatãs, monstros. Monstros somos nós!

Aliás, ainda no século XXI os homens caçam baleias, caçam e matam animais indefesos, matam por prazer, matam por esporte, matam por maldade. Matam por crendices estúpidas.

As necessidades humanas de subsistência nunca foram as mesmas ao longo da história humana. Se antes matar animais como baleias era por necessidades cotidianas de séculos atrás - principalmente pelo seu óleo -, hoje é por motivos capitalistas.

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A julgar pelos animais humanos que habitam essa terra chamada Brasil, um lugar amaldiçoado na atualidade por ter Bolsonaro como o líder supremo, fecho a postagem concluindo que seria melhor extinguir essa gente maléfica do planeta Terra.

O mundo não merece uma gente como essa que ascendeu e mantém no poder esse animal representante de todos os males do mitológico inferno, caso o inferno existisse.

Hoje, o inferno é o Brasil.

William


terça-feira, 6 de abril de 2021

Moby Dick - No entanto... o leviatã deve morrer



Refeição Cultural

"Agora que os botes a encurralavam, ia mostrando mais a parte superior do corpo, que em geral mantém submersa. À maneira dessas estranhas excrescências que se formam nos magníficos carvalhos, quando derrubados, dos seus olhos, ou antes das concavidades que eles deviam ocupar, irrompiam dois bulbos mortiços cuja vista produzia uma horripilante compaixão. Mas ali já não havia piedade. Apesar da velhice, da barbatana única e dos olhos cegos, a baleia devia morrer, e morrer assassinada, para iluminar alegres núpcias e outros divertimentos humanos e iluminar ainda as solenes catedrais nas quais se prega a bondade sem limites para com todos..." (MELVILLE, 1998, p. 413)


Retomei hoje a leitura de Moby Dick, do escritor norte-americano Herman Melville. Comecei a leitura do clássico no dia 8 de março. Hoje é o 14º dia de leitura. Calculei ler essa grande obra em mais ou menos três semanas de leitura, ou seja, 21 dias. 

A leitura do dia foi muito agradável, com diversas passagens que me deixaram impressionado com as surpresas da ficção. A leitura teve momentos de ironia; o narrador se mostra muito interessante, solta suas filosofadas a todo momento. 

Ismael, o narrador personagem, um simples marinheiro do Pequod, se diz iletrado e, ao mesmo tempo, vai narrando e filosofando em momentos marcantes da obra. Cita Shakespeare, Champollion, depois clássicos gregos e romanos, é impressionante!

Teve uma passagem na narrativa que fiquei boquiaberto, foi demais. No capítulo "A fonte" o narrador faz uma marcação temporal impressionante para uma obra lançada em 1851:

"(...) o fato de que tudo isso tenha acontecido e, contudo, até este bendito instante (uma hora, quinze minutos e quinze segundos deste décimo sexto dia do mês de dezembro do ano de 1851), continue a ser um problema saber se esses jorros são realmente de água ou apenas vapor - tudo isto, pois, constitui decerto uma coisa notável." (p. 425)

Fala sério! Fiquei muito admirado com essa parte da obra. Muito legal!

Vários capítulos foram de descrição e filosofadas a respeito das descrições. Meu livro está todo rabiscado e cheio de notas de canto de páginas (rsrs). Alberto Manguel, no livro Uma história da leitura, fala sobre isso, sobre os diálogos possíveis entre os leitores que passaram pelo livro através das marcações no volume.

ACASOS: um grande amigo está lendo Moby Dick ao mesmo tempo em que estou lendo o clássico. Essas coisas do mundo da cultura e da literatura são muito legais. Já por duas vezes, o Sérgio me falou onde parou na leitura e as duas vezes eu havia parado ou no mesmo capítulo ou muito próximo. Cara, o livro tem centenas de páginas!

Ontem, ao receber uma mensagem do Sérgio, ele me disse que havia parado no capítulo "A noz". Eu havia parado a leitura num capítulo antes, comecei hoje no capítulo "O prado", 3 páginas antes dele. E dias atrás, aconteceu o mesmo. Ele me disse que havia lido até o capítulo "A hiena", o mesmo no qual havia parado! Muito louco! E legal!

Foi assim a minha manhã no convés do apartamento, navegando no Pequod e nos Mares do Sul.

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Agora, imitando o marinheiro narrador de Moby Dick, é hora de ligar o celular neste dia 6 de abril de 2021, às 14 horas e 45 minutos e saber mais uma vez das desgraças que se sucedem nas nossas relações de amizade e em nosso mundo tomado pelo mal na figura dos demônios no poder do Brasil. Pessoas queridas estão morrendo, o povo está passando fome e não tem direitos, o país está sob o poder de uma horda de bandidos.

Leviatãs, sem dúvidas, monstros colocados no poder para destruírem tudo e todos em benefício de alguns poucos demônios (de carne e osso, que, apesar de assustadores, podem sangrar e morrer!) que acumulam todos os recursos produzidos pela coletividade humana. E escravizam as pessoas. E perpetuam a miséria, a dor, e o sofrimento.

Ontem, ao ligar o celular e entrar nas redes sociais e nas informações, novas mortes e novas tragédias oriundas do mal instalado no Brasil. A pandemia e o bolsonarismo estão matando nossos amig@s. (já são 332.752 vidas perdidas para o Covid-19, dentre elas, vários amig@s). 

A pandemia não foi combatida pelo governo de maneira proposital, ela é aliada do regime fascista, por isso não temos vacina e nem campanhas pelas medidas sanitárias necessárias. A pandemia é estratégica para o governo da morte. Estimativas apontam meio milhão de mortes até o meio do ano. Nossa vida está sob risco alto de morte, de morte iminente, de morte severina.

Mas a hora desses desgraçados no poder por golpe, que destroem, que nos matam, genocidas!, a hora deles vai chegar. Espero estar aqui, vivo, para ver a queda dessa gente do mal.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.


segunda-feira, 5 de abril de 2021

Leitura: O verdadeiro criador de tudo



Refeição Cultural

"Viver é dissipar energia para poder embutir informação na massa orgânica do organismo" (NICOLELIS, 2020, p. 47)


Segunda-feira, 5 de abril, 14h. Ainda não liguei o celular e não acessei redes sociais nem informações do cotidiano. Sei que ao entrar na Matrix vou saber das mortes e tragédias causadas pelo regime genocida que se apoderou do Brasil após o golpe de Estado de 2016. Ler por algumas horas é uma atividade essencial para a continuidade de minha existência. Enquanto leio procuro sentidos, busco significar as coisas, inclusive a minha vida.

Acabei de ler o 3º capítulo do livro O verdadeiro criador de tudo (2020), do neurocientista Miguel Nicolelis. O livro nos faz pensar muito. Ganhei o livro de presente no dia de meu aniversário, no sábado 3. Estava ansioso para ler as teses do professor Nicolelis desde que vi entrevistas com ele a respeito do livro, ano passado. A ideia é ler um capítulo por dia. O de hoje foi denso pra caramba. Minhas experiências com biologia, áreas médicas e ciências me ajudaram na leitura.

Desde o meu aniversário no sábado, estou dedicando horas para responder a cada pessoa que me enviou alguma mensagem. Dá um trabalho imenso, mas imensa deve ser a nossa gratidão a cada pessoa que se dignou a enviar uma mensagem. Passei quase duas décadas envolvido com movimentos sociais e representando as pessoas, então é importante investir horas no agradecimento e retorno a cada pessoa que me citou numa saudação ou escreveu mensagens a mim.

Voltando ao livro do professor Nicolelis, fico impressionado com o quanto é fantástica a história dos seres vivos no planeta Terra. Ao dissipar energia para agregar informação ao organismo vivo, um conceito do livro, e perceber que a vida é isso, fica pouco espaço para permitir que os mitos criados pelo próprio cérebro humano influenciem o meu ser, meus pensamentos e minhas atitudes, mesmo tendo sido criado no caldo cultural do Brasil, da minha família e dos contextos culturais por onde vivi neste meio século de existência. Sou hoje o acúmulo de informações desses 52 anos de vida.

Bom, vamos entrar na Matrix, vamos sofrer um pouco (e sem o comprimido de Soma), vamos agradecer um pouco, vamos interagir um pouco. Enfim, vamos dissipar energia para agregar informação ao que somos, um organismo vivo.

William


Bibliografia:

NICOLELIS, Miguel. O verdadeiro criador de tudo: Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos. São Paulo: Planeta, 2020.


domingo, 4 de abril de 2021

Livro: Raízes do Brasil - Sérgio B. de Holanda



Refeição Cultural - Cem clássicos

Acabei de reler esse clássico de Sérgio Buarque de Holanda - Raízes do Brasil, de 1936. Estou num período de reflexões sobre a vida e a sociedade humana, mais especificamente sobre o percurso de minha vida e a sociedade brasileira. O livro de Holanda é muito bom para esse tipo de reflexão.

A primeira leitura de Raízes do Brasil foi num momento muito diverso de minha vida e da vida nacional em relação a atualidade. Eu estava em busca de conhecimentos gerais para ser um bom secretário de formação da Confederação dos Bancários e o Brasil vivia o melhor momento político, econômico e social de sua história, a transição do 2º governo Lula para o início do governo Dilma, do Partido dos Trabalhadores (que seria eleita no final daquele ano). 

O povo jamais seria tão feliz como naquele período. Os direitos sociais aumentavam, havia mais oportunidades na educação em todos os níveis, os salários tinham aumentos reais todos os anos, tinham programas como PAC, Mais Médicos, o povo ia para a Disneylândia e tudo quanto era lugar, os aeroportos viviam abarrotados de gente do povo.

A segunda leitura se dá no pior momento da história do Brasil e do povo brasileiro. O país sofreu um golpe de Estado em 2016 para retirar o PT do governo, porque tudo indicava que o PT seria reeleito mais vezes para governar o Brasil. O golpe foi articulado com o Império do Norte, com as elites canalhas e lesas-pátrias do país e culminou na chegada ao poder de um clã de milicianos e a parte mais vil da sociedade se sente representada: temos agora a banalidade do mal. 

Hoje, o Brasil tem na pandemia mundial de Covid-19 uma ferramenta de poder do regime fascista e genocida e já morreram mais de 320 mil pessoas. Não temos vacinas suficientes para toda a população porque o governo não quis adquiri-las (apostou em contaminar todo mundo para uma suposta imunização de rebanho, arcando com as mortes que viriam disso); não temos emprego decente nem oportunidades de trabalho para as pessoas; não temos direitos sociais - foram destruídos com Temer e Bolsonaro e seus apoiadores do golpe que estão dentro das instituições do Estado; não temos um governo para o povo.

Foi nesse cenário que reli Raízes do Brasil e achei que o ensaio de Holanda explica muita coisa. Ao reler as postagens da primeira leitura, vi o quanto eu era espontâneo ao querer compartilhar conhecimento na época que criei o blog - o blog tem centenas de postagens que deram muito trabalho para serem feitas. As postagens sobre este livro de Holanda ficaram muito interessantes, foram postadas entre novembro de 2009 e junho de 2010.

As postagens com referência ao pensador Sérgio Buarque de Holanda estão aqui, inclusive todas referentes ao livro em questão. O blog é mais interativo e melhor visualizado para se pesquisar os mais de 2 mil textos através de telas de computadores e notebooks, ipads e demais telas grandes, de maneira que se possa ver as categorizações e históricos de publicações por data ou por ordem alfabética das categorias.

Mais um clássico contabilizado. Estou verificando quais clássicos já li e avaliando a fila dos clássicos a serem lidos, caso siga sobrevivendo às mortes severinas que nos cercam no Brasil do ódio, da ignorância terraplanista, do fanatismo imbecil e estúpido dos pastores exploradores e manipuladores da fé das pessoas e no país destruído pela elite mais canalha e abjeta do planeta.

William

04/04/21

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Moby Dick - Há 170 anos já faziam quarentena



Refeição Cultural

"Ao sinal do Pequod, o navio desconhecido respondeu finalmente com o seu. Verificou-se que se tratava do Jeroboão, de Nantucket. Em seguida, o navio braceou as vergas, virou de través a sotavento do Pequod, proa a leste, e desceu um bote, que não tardou a aproximar-se; porém à ordem de Starbuck, para que fosse desprendida a escada lateral, pela qual devia subir o capitão do outro navio, este agitou a mão, da popa, indicando que aquilo era inteiramente desnecessário. Acontece que a bordo do Jeroboão se havia declarado uma epidemia e Mayhew, o capitão, temia contagiar os homens do Pequod. E conquanto ele e a tripulação do seu bote estivessem ainda isentos, ainda que o seu navio se achasse à distância de um tiro de fuzil do Pequod, separado pelo incorruptível e ondulante mar e pelas correntes de ar, recusou de maneira terminante - ajustando-se escrupulosamente à prudente quarentena de terra firme - pôr-se em contato conosco." (p. 364)


Amigos e amigas leitores, ao ler essa passagem de Moby Dick, obra clássica de Herman Melville, publicada em 1851, 170 anos antes de nosso tempo, eu fico até sem graça, fico envergonhado, fico reflexivo em relação ao quão fundo do poço chegamos com o negacionismo do regime genocida no poder no Brasil, que desde o começo da pandemia mundial de Covid-19, há um ano, nega as medidas de isolamento social e quarentena para evitar a transmissão do vírus mais mortal do último século no mundo.

Em meados do século XIX até marinheiros com pouca instrução e com o conhecimento científico daquela época sabiam que em caso de epidemias as medidas mais básicas eram evitar o contato com as outras pessoas e fazer algum tipo de quarentena para não transmitir e ampliar a epidemia do foco onde ela estava.

No Brasil, os genocidas no poder por golpe de Estado e por eleições fraudadas e ilegítimas em 2018, fizeram a opção por não seguir as recomendações das autoridades mundiais de saúde e optaram por espalhar o vírus para toda a população brasileira, não tomando as medidas que o mundo todo tomou. O regime fascista sabia que sua opção em não vacinar o povo, incentivar o povo a pegar Covid-19 e contaminar todo mundo poderia matar uma parcela da população de mais de 200 milhões de pessoas. O resultado não tardou. Estão morrendo quase 4 mil pessoas por dia e em breve será meio milhão de pessoas mortas pela pandemia. Foi algo premeditado pelo governo.

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Enfim, comentário trágico à parte, vamos falar da felicidade de avançar na leitura de Moby Dick. Hoje cheguei à página 400 do livro. Foi o 13º dia de leitura desse clássico da literatura mundial.

Li capítulos muito interessantes, é uma pena que não dá para comentar todos eles. Só posso recomendar que vocês leiam o livro de Melville.

Tive uma noite intranquila e não consegui dormir direito. As pessoas conscientes e humanistas sofrem absurdamente nesses dias de mortandade e destruição do nosso mundo pelo bolsonarismo.

Sem conseguir dormir, levantei-me às 5 horas da manhã e antes das 6 horas, já estava tomando um café e me preparando para ler. Vi o sol nascer, e embarquei no convés do Pequod.

Minha sacada virou o convés do Pequod e aproveitei para tomar o sol da manhã. Conforme o sono vinha eu lia em pé, de costas para o sol, e resisti ao cansaço, lendo quase 40 páginas.

Leiam, leiam! Vamos sobreviver e vamos recomeçar o mundo e a vida após a pandemia mundial, após esse regime de morte que se apossou do país por golpe.

Vamos seguir os conselhos daqueles que têm alguma consciência, alguma inteligência e vamos seguir as recomendações de quarentena e isolamento social para evitar ampliar mais ainda a transmissão do vírus e as mortes. Até os marinheiros de baleeiros sabiam disso, dois séculos atrás.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.


quarta-feira, 31 de março de 2021

Livro: A guerra dos mundos - H. G. Wells



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Talvez no plano maior do universo, essa invasão marciana tenha trazido um benefício para a humanidade. Livrou-nos da serena confiança no futuro que é a mais pródiga fonte de decadência, trouxe enormes contribuições para a ciência humana e colaborou muito para promover o conceito de bem comum da humanidade." (WELLS, 2016, p. 299)


Ao reler uma postagem dos primeiros anos deste blog, vi nela a referência a diversos autores dos quais ainda não havia lido nenhuma obra. Era uma postagem sobre lacunas culturais. Eu falava sobre os autores que o jovem Chris McCandless gostava. Chris se fez Alex Supertramp e se embrenhou no Alasca após dois anos perambulando por áreas inóspitas dos Estados Unidos. Ler postagem aqui.

Nosso super andarilho citou Dickens, H. G. Wells, Mark Twain, Jack London, H. D. Thoreau e Melville. E também Guerra e Paz, de Tolstói. Grandes lacunas culturais para mim. De lá para cá, tive a felicidade de conhecer uma obra importante de Wells, A guerra dos mundos (1898). E agora estou, finalmente, lendo Herman Melville, Moby Dick (1851).

Nesta manhã de quarta-feira, 31 de março, reli os últimos 3 capítulos do livro de H. G. Wells, clássico que havia lido em 2017. Li também o prefácio de minha edição, texto de Braulio Tavares. Na época da leitura, fiz postagem no blog (ler aqui).

O livro é interessantíssimo. A vontade que temos é de iniciar a releitura inteira na hora, mas não dá porque temos lacunas culturais a superar (rsrs). Também fica o desejo de ler outras obras de H. G. Wells.

Alex Supertramp, estou no caminho das leituras, já sou um cinquentão e não li diversos daqueles autores que você lia e gostava, mas posso dizer sem receio: você tinha um tremendo bom gosto literário!

O livro de Wells é muito metafórico. Estamos sob uma pandemia mundial de ignorância - terraplanismo, fake news e bolsonarismo no Brasil - vivemos uma verdadeira guerra dos mundos, guerra entre a razão e a ignorância, guerra entre a civilização e a barbárie. 

Na ficção de Wells temos os marcianos, nós e o Outro na disputa pelo espaço vital. Temos as bactérias. Na vida real temos os vírus como o novo coronavírus disputando conosco o espaço vital.

É uma ficção que nos coloca a pensar. Como a reflexão que citei acima - "promover o conceito de bem comum da humanidade" -, nossa chance enquanto seres humanos está em nos unirmos para promover o bem comum, derrotando o capitalismo que destrói a vida na terra, derrotando o mal representado por figuras como, por exemplo, aquele ser abjeto que governa o Brasil neste momento.

Seguimos lendo os clássicos.

William


Bibliografia:

WELLS, H. G. A guerra dos mundos. Tradução de Thelma Médici Nóbrega. 1ª ed. - Rio de Janeiro: Suma de Letras, 2016.


terça-feira, 30 de março de 2021

300321 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Fui persistente na leitura hoje, defini que leria o capítulo 4 de Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, e assim o fiz. Foram 45 páginas de muita informação sobre o Brasil, sobre os povos ibéricos - portugueses e espanhóis - e várias análises muito bem articuladas pelo autor. Na minha edição, além do capítulo original, tem 4 textos incluídos posteriormente por Holanda. O conteúdo que li foi o seguinte:

"O semeador e o ladrilhador

- A fundação de cidades como instrumento de dominação - Zelo urbanístico dos castelhanos: o triunfo completo da linha reta - Marinha e interior - A rotina contra a razão abstrata. O espírito da expansão portuguesa. A nobreza nova do Quinhentos - O realismo lusitano - Papel da Igreja.

Notas ao capítulo 4:

1. Vida intelectual na América espanhola e no Brasil 

2. A língua-geral em São Paulo

3. Aversão às virtudes econômicas

4. Natureza e arte"


A leitura me fez refletir muito. A gente acaba compreendendo muita coisa, muitos porquês. Porque tanta gente apoia o regime fascista e de morte do líder mais mentiroso da história do país. A gente acaba entendendo até porque a direção da Cassi tem fixação por terceirizar todo o modelo assistencial construído há duas décadas, cujo sucesso é em parte por causa do modelo ter estrutura própria. Ao ver a nossa gênese na colonização portuguesa acabei entendendo a cabeça daqueles colegas. Enfim, a gente entende muita coisa, pelo menos fica com várias inferências sobre as coisas.

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O cenário ao qual nos encontramos é desanimador. Estamos há mais de um ano sob a imposição mortal da pandemia mundial do novo coronavírus. A vida mudou e ficou muito mais difícil para todos, sobretudo para a classe trabalhadora mundial. A existência se tornou mais instável, a vida está mais incerta do que já era. Além das mortes momentâneas que já nos ocorria - acidentes, doenças, violências - agora se morre dias depois se formos infectados pelo vírus.

Que planos fazer para os meses desse ano de 2021? Por ser brasileiro e viver no país destruído e subjugado pelo regime genocida no poder, sei que não serei vacinado este ano. Nem eu nem meus familiares e amigos porque os desgraçados do regime de morte atuam a favor do caos, não temos o que os cidadãos dos demais países do mundo têm: a chance de se vacinarem e um governo que combata a pandemia. Isso nos reduz muito a chance de felicidade nesse processo de viver sem viver plenamente. O que temos de planos é sobreviver e sobreviver... 

Estou melhor que a ampla maioria do povo brasileiro, pois estou na pequena parcela da população que pode se dar ao luxo de seguir as recomendações das autoridades mundiais de saúde para se evitar sair, evitar aglomerações, ficar em casa, fazer higienização adequada e usar máscaras para evitar pegar o vírus e para evitar transmitir o vírus para os outros. Estou na pequena parcela da população brasileira que tem o privilégio de poder ficar em casa enquanto durar a pandemia. Se não posso ajudar a combatê-la, já ajudamos não atrapalhando quem combate a pandemia. 

Todos os dias temos recorde de mortes por Covid-19. Hoje morreram 3.780 pessoas no Brasil (em 1 dia!). A culpa é do regime fascista, e quero viver para ver os genocidas julgados e condenados por isso.

Enfim, estou lendo, estudando. Alternando momentos ruins e momentos razoáveis. Não posso reclamar de absolutamente nada. É só lembrar no segundo seguinte a situação da maioria e devo me colocar no meu lugar de privilegiado.

Amanhã é dia 31 de março. Um dia que marcou o Brasil e a história mundial por causa dos desgraçados que deram um golpe de Estado em 1964 e colocaram o país em mais de duas décadas de autoritarismo, morte, fim das liberdades, enriquecimento da parcela que planejou o golpe, empobrecimento do restante do povo subjugado pelos golpistas. Um dia para nunca mais se repetir. 

E os desgraçados no poder por golpe de novo pretendem comemorar de forma ilegal, criminosa, imoral e canalha o golpe que rasgou a Constituição e pôs fim a democracia em 1964.

Quero que se f... esses canalhas que comemorarem a merda da ditadura, tanto a do passado quanto a que o líder do regime atual quer implantar.

Temos que sobreviver, estudar, melhorar como seres humanos, superar esse momento do país e esses lixos que tomaram o poder e temos que reconstruir o país e os direitos dos brasileiros.

William


Bibliografia:

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Raízes do Brasil - Ler é entender xuxas, janaínas



Refeição Cultural

A cidadã brasileira Xuxa defendeu que cidadãs e cidadãos presos sejam usados como cobaias em experimentos para servirem para alguma coisa. Mengele fez muito disso nos presos do regime nazista. A cidadã Janaína, deputada mais votada de São Paulo, sugeriu deixar os cidadãos mais velhos à própria sorte na falta de leitos para atendimento hospitalar, priorizando os mais jovens (por causa da pandemia de Covid-19 e colapso do sistema hospitalar). Ela não sugeriu cobrar mais impostos dos ricos para suprir de recursos adicionais o Estado e o SUS.

Hoje li mais um capítulo do livro de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, publicado em 1936. Li esse clássico em 2009 e decidi relê-lo agora. É impressionante como o ensaio de Holanda nos faz entender as xuxas e janaínas que estão ao nosso redor!

O Brasil é hoje um país pária do mundo, um lugar amaldiçoado por tudo e por todos no planeta Terra. Somos governados por um regime genocida em pleno século XXI, depois das experiências trágicas e sanguinárias do regime nazista de Hitler e de regimes fascistas e autoritários que marcaram o século XX. 

Nosso regime ilegítimo (eleições fraudulentas em 2018) já levou à morte mais de 300 mil cidadãos e cidadãs por jogar as pessoas à própria sorte (ao próprio azar) durante a mais trágica pandemia virótica depois da gripe espanhola. O vírus Sars-Cov-2 (Covid-19) se tornou a principal ferramenta de manutenção dos trogloditas no poder. Não temos vacina, não temos auxílio emergencial, e o objetivo dos sociopatas no poder é levar o país ao caos para ampliar o golpe de Estado através de milícias, estado de sitio ou violências autoritárias do gênero.

Ao ler Raízes do Brasil dá pra entender um pouco mais a nossa gênese, a gênese dessa gente que organizou o golpe de Estado em 2016. Dá pra entender um pouco mais essa gente que votou e apoia o crime organizado no poder do país. Estamos sob o domínio violento dos mesmos homens brancos e escravocratas que barbarizam por aqui há séculos.

É isso. Lendo textos como este de Holanda a gente compreende um pouco mais as coisas. E como diz Hobsbawn na Era dos Extremos estudar e compreender a história e o que os homens fizeram não é perdoar ou concordar com toda a desgraça feita.

William


domingo, 28 de março de 2021

Moby Dick - Capitão Acab à la Hamlet



Refeição Cultural

"- Fala, ó grandiosa e venerável cabeça - murmurou Acab. - Não tens barbas que te adornem, mas o musgo te fornece cãs. Fala, cabeça potente! Dize-nos o segredo que encerras! Não existe mergulhador que tenha afundado tão profundamente como tu. Essa cabeça, agora iluminada pelo sol, moveu-se outrora pelos alicerces deste mundo, lá onde apodrecem âncoras, nomes e frotas não registrados nos anais da história e também esperanças ignoradas: ali onde, no seu mortífero porão, essa fragata que é a terra leva como lastro os ossos de milhões de afogados; esse espantoso reino áqueo era a tua morada mais habitual. Estiveste nos lugares aonde nunca chegaram sinos nem mergulhadores; dormistes ao lado de mais de um marinheiro cuja mãe insone teria dado de bom grado a vida para ocupar o teu lugar; vistes amantes abraçados saltarem do navio em chamas: coração de encontro a coração, afundavam sob as ondas triunfantes, fiéis um ao outro, quando o céu parecia havê-los traído. Viste à meia-noite piratas que assassinavam e atiravam pela borda o piloto que ia caindo, caindo, na noite mais lôbrega do insaciável sorvedouro, e enquanto os criminosos prosseguiam incólumes na sua viagem, raios súbitos transformavam em lascas o navio vizinho que conduziria um esposo fiel aos braços abertos e anelantes da esposa. Ó cabeça, viste o que seria bastante para fazer estremecer os planetas e causar a infidelidade do próprio Abraão, e contudo não pronuncias uma sílaba." (MELVILLE, 1998, p. 361)


Essa passagem de Moby Dick me trouxe na hora a lembrança de Hamlet e suas elucubrações sobre a morte.

Neste domingo, me desliguei do mundo à tarde para retornar ao baleeiro Pequod e singrar os mares do Sul com a tripulação sob comando do capitão Acab.

Consegui ler 40 páginas. Foi meu 12º dia de leitura deste clássico da literatura mundial do século XIX. O baleeiro está no Oceano Índico e já citou a ilha de Java.

O baleeiro conseguiu pescar a primeira baleia branca. É uma parte triste porque a gente fica com dó do cachalote. Eles pescavam o maior mamífero do mundo por causa do óleo, principalmente.

Passei por capítulos fantásticos como "O Calamar" que fala de um tipo de lula gigante, um monstro daqueles mares de 170 anos atrás.

CENA: estava sentado na pequena área de casa lendo, e minha esposa me perguntou sobre o que sentia naquele momento de leitura. Falei que estava imaginando a cena daquele monstro do mar, o Calamar, e outros monstros como os leviatãs - baleias gigantes - aos olhos dos marinheiros de 170 anos atrás. Também pensava na informação do livro de que cachalotes caçavam calamares. É de se pensar realmente sobre a mentalidade e visão de mundo daqueles homens que se lançavam ao mar séculos atrás com tanta coisa ainda desconhecida...

Enfim, a leitura aliviou um pouco o martírio desses dias de mortes. A pandemia de Covid-19 está matando mais de 3 mil brasileiros por dia. A morte iminente nos cerca. Em poucos dias podemos morrer. 

Vamos nos esforçar para sobreviver e recomeçar o mundo, sem a ameaça do coronavírus e derrotando o regime genocida que se apossou do nosso país.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.


sábado, 27 de março de 2021

Livro: Querô (uma reportagem maldita) - Plínio Marcos



Refeição Cultural

"Raiva é um negócio que ninguém pode tirar da gente. Só podem dar mais." (p. 30)

"Fui sem estrilar. Mas não foi fácil. Acho que nunca tinham limpado aquelas privadas antes. Se alguém fosse cagar nelas, ia sair cagado. Mas eu não dizia porra nenhuma..." (p. 32)

"Até pensava em dar um capricho em mim, pra ela me ver bem vestido. Parei de pensar tanto em arrumar um revólver, pra pensar em roupa. Era do caralho curtir aquela menina, a tal da Lica." (p. 48)

"E viu que eu estava mal. Me fez chá, café, me deu comida. Mas tudo que eu botava pra dentro, as tripas botavam pra fora. Era a porra do medo. Medo ferve as tripas." (p. 65)


Entre ontem e hoje, sábado 27 de março, reli o livro de Plínio Marcos, Querô, obra de 1976. A história de Querô é um soco no estômago de todos nós, é a história de nosso ontem, de hoje, e, infelizmente, de amanhã.

Jerônimo da Piedade, o Querosene, o Querô. Filho da prostituta Alzira da Piedade e sem pai. Crescido no prostíbulo, criado pela cafetina Violeta, e depois nas ruas, e depois recolhido em uma prisão de menores, e depois nas ruas. Querô.

Enquanto lia a história de Querô, via flashs do passado, instantes da minha vida ao longo de décadas. Não via só minha vida, via a vida dos querôs ao meu redor. O tempo inteiro pensava nos querôs espalhados por cada canto desta terra tão fecunda e tão miserável: Brasil.

O acaso me fez um sortudo. Não fui um Querô. Comecei com sorte, sendo filho da Dirce e do Gercir. Mas muitos de nós poderiam ter tido o mesmo percurso de Jerônimo da Piedade. 

A miséria e a pobreza de um país como o Brasil são contagiantes, encurralam a todos nós, nos põem todos em guerra: pobre contra pobre, miserável contra miserável.

(15h27 - interrompo a confecção da postagem... soube neste minuto de mais uma vítima da Covid-19, agora um amigo aqui do condomínio. Mais uma vítima do genocídio. Tantos anos juntos aqui onde moramos, reuniões, confraternizações (Sr. Epaminondas, presente!). Mais uma morte severina, morte matada pelo regime genocida... paro para respirar...)

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As narrativas de Querô me fizeram lembrar de coisas muito duras na vida. 

Baratas. Me lembrei muito de baratas. As baratas foram um verdadeiro tormento na minha vida. As baratas nas diversas residências nas quais vivi. Aquele monstro. Tive azar com baratas ao longo da vida humilde que tive, com a família e depois sozinho. Amassar barata na cara (foi difícil superar isso). Amassar barata na botina... casas onde precisei combater colônias de baratas. Jogava inseticida e matava dezenas delas. Numa casa de fundo de quintal onde morei, na entrada de uma favela e em frente a um córrego sujo, tinha um banheiro comunitário no qual as baratas saíam do ralo enquanto se tomava banho... cara, era foda! Muitas casas com baratas tive nas veredas de minha vida.

Merda. Trabalhei de ajudante de encanador antes dos 17 anos de idade. Quebrar concreto, paredes, passar canos de esgoto. Certa vez, tive que tirar o vaso sanitário e os canos de uma casa em reforma. Tive a experiência de ter que mexer na merda dos outros. Obras novas eram melhores por não ter encanamento usado. É um serviço difícil. A sociedade deveria valorizar, respeitar e remunerar adequadamente os serviços braçais que as maiorias jamais gostariam de fazer.

Ler a história de Querô me fez pensar muito no momento em que estamos no Brasil: pandemia de coronavírus e sob o comando do crime organizado - bandidos endinheirados, gente má e gente com desvios mentais no poder, psicopatas. Desemprego em massa após a destruição do país pela Lava Jato e pelo golpe de 2016 (em 2014 vivíamos a experiência do pleno emprego e as pessoas escolhiam onde trabalhar). Mais de 300 mil mortos oficialmente por Covid-19, sem oxigênio, sem atendimento médico. Sem vacinas para todos. Provavelmente, o mesmo número de mortos por mortes severinas, pela miséria, pelo trabalho intermitente sem direitos, pelo não atendimento médico de urgência.

Querô. Não fui órfão como Querô. Não tive o mesmo fim de Querô por diversas casualidades aparecidas nas veredas da vida neste sertão brasileiro. Tive pais. Tive amigos. Tive amores. Tive sorte. Tive companheiros do movimento sindical e político que me mostraram o caminho da consciência política. Tive empenho sim, mas não foi por meritocracia que vivi até aqui, foi pela solidariedade da vida em sociedade, foi por oportunidades surgidas a partir de movimentos externos a mim. Tudo que nós da classe trabalhadora somos e temos, nós excluídos da casa-grande, que não nascemos naqueles berços, tudo que temos é fruto das lutas sociais coletivas.

Chega. Reflexão feita a partir da obra de Plínio Marcos. Vivendo sob o país dos bolsonaros, de moros e dalagnois e sua multidão de apoiadores dementes, canalhas e trogloditas.

Essa gente vai passar, vai cair, vai encontrar o fim.

William


Post Scriptum (13/12/22): assisti na Netflix ao filme Querô (2007), direção de Carlos Cortez, com Maxwell Nascimento no papel principal. Gostei da adaptação da obra de Plínio Marcos.


Bibliografia:

MARCOS, Plínio. Querô (uma reportagem maldita). São Paulo: Publisher Brasil, 1999.


quarta-feira, 24 de março de 2021

Moby Dick - No Pequod fujo da Covid



Refeição Cultural

Nesta quarta-feira 24, consegui chegar à metade do livro de Herman Melville - Moby Dick. Este é mais um clássico da literatura mundial que decidi ler durante a pandemia mundial de Covid-19. Viajar por algumas horas nas narrativas ficcionais é uma forma de sobreviver e manter um pouco da minha sanidade mental e da minha humanidade.

Durante as horas de leitura, evito ligar o celular e entrar em redes sociais. Hoje repeti essa disciplina. Acordei cedo e comecei a ler. Estava difícil de embalar na leitura. Sono... Olho pesado... Li poucas páginas e fechei um pouco os olhos... Insisti na leitura. Felizmente peguei o ritmo e fui adiante. Foi incrível! Li da página 269 até a 322, cheguei à metade do romance. Fiquei feliz!

Nossa psique, nosso eu, precisa desses momentos de cultura e estudos, senão quebramos.

Ao ligar o celular e entrar nos sites de informação, começam as notícias duras. Um grande companheiro de lutas morreu ao sofrer um infarto (Pedro Eugênio, presente!). O Brasil atingiu a marca trágica de 300 mil mortos por Covid-19 e isso não precisaria ser assim, caso não estivéssemos sob um regime genocida. 

São tantas pessoas queridas que estão com o vírus, algumas em casa, outras hospitalizadas, algumas em estado grave. Já era para termos vacinado dezenas de milhões de pessoas, mas os políticos fizeram politicagem com a pandemia e nós nos ferramos. Difícil tudo isso! Nossa vida está sob risco de morte iminente. Morte morrida e morte matada, mortes severinas: vírus, infarto, AVC, quedas, apendicite, tiro.

Pensando num vídeo bonito que recebi de minha mãezinha querida, vou deixar aqui uma palavra de otimismo e não de desânimo. Essas coisas ruins vão passar, vamos recomeçar uma sociedade e uma vida melhor, então vamos sobreviver e, de mãos dadas, recomeçar. Esses seres do mal que se apossaram de nosso mundo vão passar, vão cair, vão ser presos, alguns vão morrer antes da gente.

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MOBY DICK

"Nunca Starbuck conseguiu esquecer o aspecto do velho, uma noite em que descendo à cabina para observar o barômetro viu-o com os olhos fechados, sentado na cadeira parafusada ao soalho; a chuva, o granizo derretido com que a tempestade acabava de açoitá-lo, gotejavam do seu chapéu e do casaco, que vestia ainda. Na mesa próxima jazia desenrolado um daqueles mapas de mares e correntes a que já nos referimos. Na mão fortemente crispada balançava-se uma lanterna. Com o corpo ereto, a cabeça voltada para trás, os olhos fechados dirigiam-se para a agulha do axiômetro que se movia pendurado numa viga do teto.

     'Terrível ancião!', pensou Starbuck estremecendo. 'Dormindo, no meio da borrasca, tens ainda os olhos sempre fixos no teu propósito!'" (p. 278)


Nossa viagem a bordo do baleeiro Pequod, sob comando do capitão Acab, nos trouxe aventuras e novidades. A tripulação do baleeiro jura ter visto Moby Dick pela primeira vez, só seus jatos de água, mas dizem que era o cachalote branco.

O narrador e marinheiro do baleeiro, Ismael, aponta na sua narrativa alguns presságios, e ele faz isso de forma bem interessante. Primeiro um bote naufraga na primeira saída ao mar, depois aparecem corvos marinhos na embarcação, depois um vento que derruba uma trombeta de um capitão de um navio que passou diante do Pequod.

"- Olá, os do navio! Viram o cachalote branco?

     Porém, quando o estranho capitão, inclinando-se sobre a descolorida amurada, dispunha a levar a trombeta aos lábios para nos responder, esta caiu inopinadamente das suas mãos sobre o mar, e como o vento se levantasse então com violência, ele fez inúteis esforços para se fazer ouvir sem ela. Entretanto, o seu navio distanciava-se cada vez mais, e enquanto os tripulantes do Pequod davam provas evidentes, ainda que silenciosas, de ter notado o fatídico incidente à simples menção do nome da baleia branca a um outro navio, Acab refletia..." (p. 280)

Por fim, na leitura de hoje, tivemos uma história dentro da estória, no capítulo "História do Town-Ho". É um capítulo longo e o leitor vai conhecer a história de uma das vítimas do cachalote branco Moby Dick.

Ainda li alguns capítulos que falaram sobre as representações pictóricas das aventuras de baleeiros e caças às baleias.

É isso. Este foi o 11º dia de leitura de Moby Dick. Volto ao clássico Melville daqui a dois dias. Vou retomar a leitura de ontem, de Sérgio Buarque de Holanda e seu clássico Raízes do Brasil (1936). 

Caso haja interesse em outras postagens sobre a leitura de Moby Dick, a mais recente está aqui.

Temos que sobreviver e ajudar a refazer o mundo destruído pela pandemia, pelo bolsonarismo e pelo capitalismo.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.


terça-feira, 23 de março de 2021

Raízes do Brasil - Lendo algo que ajude a entender



Refeição Cultural

Ao acordar nesta terça-feira 23, fiquei olhando para o teto por um tempo. Decidi que não leria Moby Dick hoje, mas sem peso na consciência porque ontem o dia de leitura rendeu. Queria ler alguma coisa que explicasse a situação do Brasil. E o pior é que sei muita coisa que explica um pouco tudo isso, mas queria muito entender por que parte do povo brasileiro é tão escrota.

Quando nos lembramos da realidade do Brasil e de toda a desgraça que se abateu sobre o nosso mundo após o golpe de Estado em 2016 e após a ascensão do regime fascista sob o comando de um clã de milicianos, golpe "com Supremo com tudo" como disse à época um senador da república, enfim, quando nos lembramos da realidade, temos vontade de ler alguma coisa definitiva, que alinhave tudo, do início ao fim da história. Essa ideia simplista é uma bobagem, mas a vontade de compreender as coisas é grande.

Fui até a estante, olhei, olhei, sei que o ideal talvez fosse ler um de meus livros do sociólogo Jessé Souza, mas ainda não estou pronto para os livros dele. Certa vez peguei um pra ler e vi que ainda não estava na hora. Por enquanto, fico com as entrevistas e artigos dele. Aprendi em minha vida de leitor amador que certos livros só são possíveis de se ler quando chega a hora certa.

Fiquei vendo os nomes dos livros. Acho essa coisa do nome dos livros algo central. Exemplo: "Cem anos de solidão"! Como não ler um livro desses? Quem não estiver se sentindo assim após um ano de pandemia de Covid-19 que levante a mão...

Escolhi "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda. Dos pensadores brasileiros, dos quais minhas lacunas culturais são quase integrais, não li quase nada. Esse eu li em 2009. Provavelmente li porque recém começava um mandato de secretário de formação na confederação dos bancários e queria estudar muito para fazer um papel decente na secretaria. O nome foi decisivo: as raízes dessa merda toda na qual estamos enfiados até o pescoço...

Tomei um breve café e comecei a releitura. O texto de abertura, do professor Antonio Candido, foi espetacular! Ele falou de 3 obras centrais para a geração dele: Casa-grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre, Raízes do Brasil (1936), de Sérgio B. de Holanda e Formação do Brasil Contemporâneo (1942), de Caio Prado Júnior. O texto de Candido é de 1967. Depois li os dois primeiros capítulos. 

Assim passei essa terça, sem ligar o celular até umas quatro horas da tarde. Entrar em redes sociais tem sido um martírio. São tantas mortes e tantas pessoas infectadas pelo vírus mortal... o vírus foi estratégico para os grandes capitalistas (ficaram mais ricos) e é utilizado pelo regime genocida como ferramenta de governo, como meio para atingir seus objetivos, todos eles contrários aos interesses do Brasil e do povo brasileiro. 

Repito o que disse na postagem de ontem. Ficar em casa é um ato de cidadania. Evitem sair se puderem ficar em casa, assim vocês diminuem os riscos de pegar Covid-19, infectarem mais pessoas, e contribuem para não aumentar mais ainda a demanda por atendimento no sistema de saúde que já está saturado.

Leiam. Quem sabe lendo a gente não contribui para que o mundo recomece algum dia.

William


Post Scriptum: O Brasil registrou nesta terça 23 o recorde de mortes por Covid-19 num único dia. Não sei se o correto é 3158 (UOL) ou 3251 (Carta Capital), depende das fontes pesquisadas, e sabe por quê? Porque os desgraçados do regime genocida desde meados do ano passado fizeram de tudo para que o povo não soubesse sequer os dados oficiais de mortes e contaminações pelo vírus, afinal era só uma "gripezinha", e o país segue numa condição "confortável" em relação à pandemia, segundo o governo. Não temos vacinas para quase ninguém, temos mais de 200 milhões de pessoas e viver ou morrer é uma questão de acaso, porque se pega Covid-19 mesmo tomando todos os cuidados sugeridos pelas autoridades de saúde. É isso!


segunda-feira, 22 de março de 2021

Moby Dick - Em casa, mas no mar com Acab



Refeição Cultural

Hoje foi o 10º dia de leitura do clássico de Herman Melville, Moby Dick, de 1851. Diferente do dia anterior, hoje consegui ler 5 capítulos (mais de 30 páginas), alguns bem interessantes.

Foi possível ver as reflexões do capitão Acab sobre as revelações dele para sua tripulação, confessando que a viagem do Pequod era uma viagem de vingança e caça à baleia branca que lhe estraçalhou a perna. Refletiu que isso não foi uma boa ideia porque caso o baleeiro não faça o seu papel e dê retorno econômico à tripulação, ele pode até enfrentar uma revolta e perda de comando.

O capítulo "O mapa" descreve a rotina nos mares e traz informações que dão verossimilhança ao romance, no sentido de explicar ao leitor que é factível um baleeiro encontrar-se com determinadas espécies de baleias e outros tipos de seres do mar porque já se conheciam em meados do século XIX rotas e correntes marinhas, épocas nas quais cardumes iam e vinham, hábitos de animais marinhos etc.

O Pequod avista pela primeira vez baleias e os leitores acabam descobrindo que havia mais uma equipe de bote, um 4º bote, um grupo vinculado ao capitão Acab. Os botes se lançam ao mar e não conseguem pescar nada. E chega uma tempestade pra atrapalhar mais ainda o baleeiro e sua tripulação.

Enfim, venci mais um dia de leitura de um grande clássico da literatura mundial. A postagem sobre a leitura anterior pode ser vista aqui, caso aja algum interesse do leitor do blog.

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LER QUIETO EM CASA É UM ATO DE SOLIDARIEDADE, CIDADANIA E AMOR AO PRÓXIMO

A pandemia mundial de Covid-19 está numa fase mortal no Brasil, a transmissão segue incontrolável e o sistema de saúde já começa a colapsar em diversas partes do país. Pessoas morrem sufocadas sem oxigênio, pessoas morrem sem atendimento algum; por outro lado, pessoas seguem fazendo festas e aglomerando sem uso de máscaras e estão se lixando para seus semelhantes. Então, ao ficarmos em casa, já que parte de nós pode ficar em casa, estamos contribuindo para não aumentar a transmissão do vírus e entupir o sistema de saúde.

Se houvesse interesse dos governantes de extrema direita, o Brasil seguiria as recomendações mundiais e teríamos vacinação em massa, lockdown e isolamento social, uso de máscaras e higienização adequada, teríamos auxílio financeiro para a sociedade suportar o período da pandemia e mais de 200 mil mortes seriam evitadas. Mas temos um genocídio porque os governantes são genocidas. Já morreram perto de 300 mil pessoas, mais de 12 milhões foram contaminadas e as sequelas podem atingir mais de um terço dos infectados. 

Ao saber que parte da população do país onde nasci se revelou uma gente má, ignorante, movida a ódio e preconceito, defensora de regimes autoritários e vis, perdi todo o amor e pertencimento que tinha em relação ao Brasil e aos brasileiros. Estou seco de sentimentos em relação ao que sentia por meu mundo. Desacorçoei do povo deste país desgraçado. Tenho vergonha de ser brasileiro, vergonha de conhecer tanta gente bolsonarista, canalha, bandida. Estou sem chão. Não sei como viveremos o resto de tempo que temos na vida, que pode ser dias e pode ser décadas. Mas meu sentimento de pertencimento morreu.

Seguimos querendo sobreviver a tudo isso. Estando vivo, há sempre a possibilidade do prazer e de momentos felizes ao ler um bom livro, ouvir uma boa música, ver o sol e os pássaros e a natureza, amar as pessoas.

William


Moby Dick - A brancura do cachalote



Refeição Cultural

Tem dias que a leitura de literatura é um exercício de persistência, de resiliência e de se mostrar determinado. Neste domingo 21, nono dia de leitura de Moby Dick, meu ânimo conspirou para que eu não lesse nada da narrativa de Melville. Mas insisti.

Não aconteceu nada de excepcional que me impedisse de ler, simplesmente minha mente não conseguia fixar o entendimento na leitura, cada parágrafo lido era perdido. Comecei e voltei e parei várias vezes. Me fiz de teimoso e li pelo menos um capítulo.

O capítulo que li "A brancura do cachalote" foi um capítulo com muita coisa. Um texto complexo, difícil de ler porque o texto é racista ao extremo, é um texto duro, que faz comparações históricas e outras coisas. Valeria a pena reler em outro momento. Seria o 42 pela minha contagem, já que a edição que tenho não enumera os capítulos.

Inclusive a técnica narrativa chama a atenção do leitor atento. Ora é o personagem narrador Ismael quem narra e reflete, ora não é Ismael porque ele é citado pelo narrador. Ou é um narrador demiurgo da estória ou é o próprio Melville.

A BRANCURA DO CACHALOTE

Ismael fala que já foi contado o que significa Moby Dick para o capitão Acab, mas ainda não havia falado sobre o que significa o cachalote branco para ele, um simples marinheiro do Pequod: horror.

"Esse horror era contudo tão misterioso e inefável, que chego a desesperar de conseguir descrevê-lo de maneira clara. O que me atemorizava sobretudo era a brancura do cachalote..." (p. 226)

A partir daí, o narrador reflexiona sobre a cor branca, as coisas brancas. Ele cita coisas em que o branco traz um sentimento bom, acolhedor, de coisa boa, um sentimento positivo e fala da gaivota e do corcel branco no oeste norte-americano.

E fala sobre o homem branco... que merda racista! 

"(...) conquanto essa preeminência se aplique também à raça humana, dando ao homem branco um domínio ideal sobre todas as tribos de cor..." (p. 226/227)

Depois ele fala de quando o branco traz o sentimento ruim, negativo, assustador. Cita o branco dos corpos mortos, o branco cadavérico. Fala mal das pessoas albinas.

Enfim, teria muitas citações para fazer sobre esse capítulo, mas já são duas horas da manhã de segunda-feira, a postagem é uma reflexão sobre a leitura e sobre atos de leitura e vamos encerrar por enquanto. Caso alguém tenha interesse em ler postagens anteriores, a mais recente está aqui.

Superei tudo e li Moby Dick pela 9ª pegada na obra. O livro tem 650 páginas e felizmente conseguimos chegar à 235. Aos poucos, vou lendo os clássicos e sobrevivendo à pandemia. Já li até Decameron, com suas mais de 800 páginas. 

Um comentário final: eu não sei o que vai ser da humanidade, não sei. Tenho refletido sobre isso, como se fosse um grande pensador. 

Sou só um cidadão simples do mundo, sem profissão, inclusive. Não fui contador. Não fui professor. Tive a ocupação de bancário.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.