Refeição Cultural
Cem clássicos de literatura
Teve uma época difícil de minha existência na qual inventei coisas para me agarrar à vida. Defini, então, algumas coisas materiais que gostaria de adquirir, lugares que gostaria de ir, conhecimentos que desejaria aprender e coisas do tipo. Eram muletas para me apoiar durante a caminhada por caminhos que não existiam, veredas que tomaria para abrir caminhos no viver.
Essa época não é um período curto do meu viver. Pelo contrário, essa busca de sentidos para seguir por esses vales do mundo se estende do início da adolescência, ainda criança diria, e vai até perto de uns trinta anos de idade. É uma longa jornada convivendo com a depressão e o desânimo perante um mundo duro, sem recursos adequados, num país injusto, no qual a impressão que se tem é de que estamos sempre por nossa conta, sós.
Sobrevivi até aqui - sou um homem de sorte - e se passar mais uns três anos nesse mundão em acelerada fase de destruição pela nossa espécie, poderei até me tornar um idoso, conforme define a legislação em vigor no país onde habito.
As muletas que inventei para me apoiar e seguir vivendo foram de grande ajuda, hoje tenho plena consciência disso. Com os objetivos que fui inventando para não desistir de viver, por mais bobos ou difíceis que fossem de se alcançar, peguei uma birra danada de não me deixar morrer porque tinha alguma coisa que estava perseguindo... e eu tenho uma natureza turrona, sou muito obstinado quando encasqueto com alguma coisa.
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"Em lugar de estranha, a conscientização é natural ao ser que, inacabado, se sabe inacabado. A questão substantiva não está por isso no puro inacabamento ou na pura inconclusão. A inconclusão, repito, faz parte da natureza do fenômeno vital. Inconclusos somos nós, mulheres e homens, mas inconclusos são também as jabuticabeiras que enchem, na safra, o meu quintal de pássaros cantadores; inconclusos são estes pássaros como inconcluso é Eico, meu pastor alemão, que me 'saúda' contente no começo das manhãs." (Pedagogia da autonomia, Paulo freire)
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Na medida em que vamos sobrevivendo e vivendo a vida, vamos mudando, vamos nos moldando, e a cada dia podemos ser pessoas melhores, como nos ensina Paulo Freire ao dizer que somos seres inconclusos, não acabados ainda. Lógico que fui sobrevivendo por diversos motivos, inclusive pelas pessoas que nos amam e que amamos, mesmo sendo egoístas como somos às vezes.
Uma das coisas que tinha na minha lista de sobrevivência era ler cem clássicos da literatura universal (risos). Imaginem, o item já era uma sacanagem - ou uma busca por salvação - porque não seria algo a se cumprir num curto espaço de tempo, meses ou anos. Somos humanos e, no fundo no fundo, somos seres de esperança. Só queremos uma coisinha para nos agarrarmos à vida.
Fui contar e refletir sobre livros que li, dias atrás, e não é que por meus critérios de leitor, por suposto, já li uma centena de obras clássicas em suas áreas de conhecimento humano!
A novidade é que a lista de desejos de leitura é enorme, absurda de grande, teria que viver centenas de anos com condições de ler e isso é uma coisa boa, só possível porque cheguei até aqui.
Quero viver porque a vida é uma oportunidade diária, a cada amanhecer. Quero ajudar as pessoas e a natureza de alguma forma, quero contribuir de alguma maneira para livrar o mundo da destruição em andamento, com o pouquíssimo que sei e aprendi nessas décadas de caminhada pela Terra.
Eis a lista de meus primeiros cem clássicos da literatura universal. Que venham mais centenas de livros e leituras instigantes e renovadoras.
1. El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha - Miguel de Cervantes
2. A montanha mágica - Thomas Mann
3. Ulisses - James Joyce
4. Grande Sertão: Veredas - João Guimarães Rosa
5. Os irmãos Karamazov - Fiódor Dostoiévski
6. Vidas secas - Graciliano Ramos
7. Alguma poesia - Carlos Drummond de Andrade
8. Hamlet, o príncipe da Dinamarca - William Shakespeare
9. Era dos extremos - Eric Hobsbawm
10. Cem anos de solidão - Gabriel García Márquez
11. O velho e o mar - Ernest Hemingway
12. A viagem do elefante - José Saramago
13. Ensaio sobre a cegueira - José Saramago
14. Decamerão - Giovanni Boccaccio
15. Razão e sensibilidade - Jane Austen
16. La Celestina - Fernando de Rojas
17. Libertinagem - Manuel Bandeira
18. O vermelho e o negro - Stendhal
19. O retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde
20. Adeus às armas - Ernest Hemingway
21. Odisseia - Homero
22. Os Lusíadas - Luís de Camões
23. Utopia - Thomas More
24. Macbeth - William Shakespeare
25. Otelo, o mouro de Veneza - William Shakespeare
26. Admirável mundo novo - Aldous Huxley
27. 1984 - George Orwell
28. Fahrenheit 451 - Ray Bradbury
29. Metamorfose - Franz Kafka
30. A guerra dos mundos - H. G. Wells
31. O Guarani - José de Alencar
32. Senhora - José de Alencar
33. Memórias de um sargento de milícias - Manuel Antônio de Almeida
34. Triste fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto
35. Memórias póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
36. Dom Casmurro - Machado de Assis
37. Os sertões - Euclides da Cunha
38. Macunaíma - Mário de Andrade
39. Pauliceia desvairada - Mário de Andrade
40. São Bernardo - Graciliano Ramos
41. Viagem - Cecília Meireles
42. Moby Dick - Herman Melville
43. Bagagem - Adélia Prado
44. As aventuras de Robinson Crusoe - Daniel Defoe
45. Minhas vidas - Shirley Maclane
46. Mar morto - Jorge Amado
47. Las genealogías - Margo Glantz
48. O cemitério - Stephen King
49. A hora da estrela - Clarice Lispector
50. Becos da memória - Conceição Evaristo
51. Operação Cavalo de Troia - J. J. Benítez
52. Eram os deuses astronautas? - Erich Von Däniken
53. O caso dos dez negrinhos - Agatha Christie
54. Pedro Páramo - Juan Rulfo
55. A jangada de pedra - José Saramago
56. Las venas abiertas de América Latina - Eduardo Galeano
57. Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado
58. Nada de novo no front - Rene Maria Remarque
59. Por quem os sinos dobram - Ernest Hemingway
60. A rosa do povo - Carlos Drummond de Andrade
61. As aventuras de Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll
62. O Mágico de Oz - L. Frank Bawm
63. O Pequeno Príncipe - Antoine Saint-Exupéry
64. Fernão Capelo Gaivota - Richard Bach
65. A revolução dos bichos - George Orwell
66. Capitães da areia - Jorge Amado
67. A volta ao mundo em 80 dias - Júlio Verne
68. A morte e a morte de Quincas Berro d'Água - Jorge Amado
69. O grande mentecapto - Fernando Sabino
70. O menino no espelho - Fernando Sabino
71. Enterrem meu coração na curva do rio - Dee Brown
72. O mundo de Sofia - Jostein Gaarder
73. O apanhador no campo de centeio - J. D. Salinger
74. As aventuras de Tom Sawyer - Mark Twain
75. Serafim Ponte Grande - Oswald de Andrade
76. Memórias sentimentais de João Miramar - Oswald de Andrade
77. A língua de Eulália - Marcos Bagno
78. O Ateneu - Raul Pompeia
79. Lolita - Vladimir Nabokov
80. Os cavalinhos de Platiplanto - José J. Veiga
81. Romeu e Julieta - William Shakespeare
82. A morte de Ivan Ilitch - Liev Tolstói
83. Morte e Vida Severina - João Cabral de Melo Neto
84. Crónica de una muerte anunciada - Gabriel García Márquez
85. Madame Bovary - Gustave Flaubert
86. O homem que amava os cachorros - Leonardo Padura
87. Carrie, a estranha - Stephen King
88. Os mortos vivos - Peter Straub
89. O diário de Anne Frank - Otto Frank e Mirjam Pressler
90. As intermitências da morte - José Saramago
91. Nocturno de Chile - Roberto Bolaño
92. O primo Basílio - Eça de Queiroz
93. Dublinenses - James Joyce
94. Fausto - Goethe
95. Sagarana - João Guimarães Rosa
96. Lazarillo de Tormes - Anônimo
97. A mulher de trinta anos - Honore de Balzac
98. Kolstomer (a história de um cavalo) - Liev Tolstói
99. A Ilha - Fernando Morais
100. O caçador de pipas - Khaled Rosseini
Que venham as próximas leituras! Faz um mês que tive um descolamento do humor vítreo do olho esquerdo, uma porcaria que me fez ver pior que antes, mas ainda estou aqui, ainda posso ler, escrever, falar e caminhar.
Seguimos nas lutas! E na defesa dos direitos da classe trabalhadora e do planeta e suas diversidades!
William
28/06/26


Sua lista de clássicos me envergonha no quesito literatura brasileira. Li poucos autores nacionais dela. Já li mais de 100 clássicos, porém, a maioria dos autores são de outras nacionalidades.
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