quinta-feira, 18 de novembro de 2021

41. Sentimento do Mundo - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos

Cada releitura de livros de poesias é uma leitura nova porque a gente descobre poemas que passaram por nós sem ter havido uma identificação pessoal na leitura anterior.

Hoje reli Sentimento do Mundo (1940), livro que considero um clássico de Drummond e das poesias brasileiras. É o 3º livro publicado pelo poeta, depois de Alguma Poesia (1930) e Brejo das Almas (1934). Nesses 3 livros temos 103 poemas de Drummond.

Alguns dos poemas de Sentimento do Mundo são muito conhecidos e cultuados pelos amantes de poesia como, por exemplo, "Sentimento do mundo", "Confidência de itabirano", "Congresso internacional do medo", "Os ombros suportam o mundo", "Elegia de 1938" e "Mãos dadas".

Desta nova leitura, um poema me encantou, mexeu comigo e foi uma descoberta: "A noite dissolve os homens". Das outras vezes que li o livro, não me identifiquei com esse poema.

Recentemente, fiz uma disciplina de Literatura Comparada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, cuja temática desenvolvida abordava a questão do tempo nas narrativas e poéticas e no trabalho final eu escolhi um poema de Drummond para analisar. O poema que trabalhei foi o "Passagem da Noite", do livro A Rosa do Povo, de 1945.

Ao ler a poesia "A noite dissolve os homens" foi instantâneo o sentimento de relação entre esse poema e o poema "Passagem da Noite" do livro seguinte.

Ambos trabalham com as imagens da noite e do dia para expressar sentimentos de dificuldades pessoais e coletivas num eventual contexto dramático de perdas, medos, riscos diversos quando a imagem está associada à noite e de renascimento da esperança ou de pulsação da vida que segue ao associar essas temáticas ao dia, ao sol, à claridade do amanhecer.

Em relação ao poema "Passagem da Noite" ainda não publiquei a minha redação final do trabalho de conclusão de disciplina que fiz. A professora gostou de minhas reflexões a respeito do poema.

Deixo abaixo o poema do livro Sentimento do Mundo. Drummond é um poeta que tem como característica o trabalho permanente com objetos relativos ao tempo, à matéria, às coisas presentes. 

Podemos, por exemplo, ler a 1ª parte do poema "A noite dissolve os homens" como brasileiros vivendo sob a égide do regime bolsonarista, tempos de destruição de tudo, e podemos ler a 2ª parte do poema como a vida se apresenta a nós, e a vida é a chance de mudança a cada amanhecer. Tempos de esperança e renascimento estão ao nosso alcance, isso depende muito de nós e de nosso comportamento diante das coisas da vida.

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A NOITE DISSOLVE OS HOMENS

                    A Portinari

A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tampouco os rumores
que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas,
nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos,
a noite espalhou o medo
e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda,
sem esperança... Os suspiros
acusam a presença negra
que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho
na noite. A noite é mortal,
completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens,
diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias,
apagou os almirantes
cintilantes! nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo...
O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.

Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida,
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando
                                               [a treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato
                                               [de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram
mas que avançam na escuridão como um
                                      [sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes
                                                  [se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer. O mundo
se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.


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Demais esse poema! Demais Drummond! Demais ler poesia! Como nos ensina Italo Calvino, é melhor ler do que não ler os clássicos!

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo. 10ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2000.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (II) - Daniel Defoe



Refeitório Cultural

Estou no início das aventuras de Robinson Crusoé. Li os 3 primeiros capítulos e vou ler agora o 4º. Já sei quem é o personagem. Um jovem filho de classe média, nascido em 1632 em York, interior da Inglaterra. Seus pais queriam que ele tivesse uma vida tranquila dando sequência aos negócios da família. Mas ele tinha um impulso incontrolável de sair pelo mundo através dos mares.

Engraçado... eu tenho um impulso incontrolável de escrever o nome do personagem como "Cruzoé"... vai entender! Talvez seja porque o nome dele de família em seu condado seja Robinson Kreutznaer, como ele mesmo explica no começo "mas por corrupção de vocábulo, muito usual na Inglaterra, chamam-nos Crusoé...".

Ele saiu de casa se aventurando ao mar com 19 anos e desde que se lançou ao mar as coisas só dão errado. Quase morreu na primeira saída, mas conseguiu chegar a Londres após o naufrágio do navio em que estava. De Londres, partiu em outro navio para Guiné. Foi feito escravo por piratas. Ao conseguir fugir, começou a se dar bem no Brasil, sim!, no Brasil colônia do século XVII. Foi ser plantador de cana-de-açúcar e tabaco, com direito a escravos.

Após virar proprietário de terras - já fazia 8 anos que havia saído jovem da Inglaterra - tinha tudo para prosperar no Brasil, agora com 27 anos, mas... se aventura de novo em navio ao aceitar uma proposta de ir buscar escravos na África e... o navio afunda e todos morrem, menos ele, que chega a um lugar ainda desconhecido.

É nesse ponto que retomo a leitura e o 4º capítulo.

Depois completo esta postagem com o que veio de novidade na vida desse personagem cuja Providência só age em desfavor do indivíduo. Segundo ele mesmo, ora a Providência, ora o azar e a casualidade agem contra ele.

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CAPÍTULO IV

Robinson Crusoé dormiu em cima de uma árvore, por medo de ser devorado por alguma fera. Ao acordar, passou a se inteirar do local onde estava. Era uma ilha e pelo que pôde perceber, estava sozinho nela.

O navio naufragado estava lá no monte de areia. Crusoé nadou até a embarcação e passou a resgatar para a ilha tudo que fosse possível e útil pra ele. Alimentos, armas, ferramentas, roupas etc. Após o resgate, uma tempestade seguinte desapareceu com os destroços do navio.

Em terra, a preocupação do náufrago foi construir um abrigo que o protegesse de homens e de feras. Construiu quase uma fortaleza. E tudo isso, sozinho ao longo do tempo.

Tem um momento no qual Crusoé encontra dinheiro na cabine do capitão do navio e ele reflete sobre a inutilidade daquilo ali onde está. Me lembrei de uma camiseta que usava quando era jovem com uns dizeres em defesa da natureza: que o homem só iria perceber a cagada que fez quando visse que não seria possível comer dinheiro, ao não ter mais água, plantas e animais.

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"A vista do dinheiro fez-me sorrir e provocou-me esta apóstrofe:

- Oh! vaidade das vaidades, metal embusteiro, tens atualmente aos meus olhos um preço vil. Para que me serves? Na verdade, nem vale a pena estender o braço para te apanhar! Uma só destas facas é mais apreciável que os tesouros de Creso. Dispenso a tua inútil intervenção; fica por isso onde está, ou melhor, vai para o fundo do mar como indigno que és de ver a luz do dia!" (p. 62)

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(mas se arrependeu a tempo e levou o dinheiro para terra firme rsrs)

Nosso personagem segue alternando momentos nos quais ora culpa a Providência pelas desgraças que lhe acontecem (por desobedecer aos pais, por exemplo), ora o acaso e a sorte, incontroláveis e responsáveis por eventos não previsíveis ou sem motivações causais do tipo "punição" a ações humanas.

"(...) e às vezes deplorava também comigo mesmo que a Providência determinasse assim a ruína de uma sua criatura, negando-lhe qualquer socorro, calcando-o com a sua mão e inutilizando-o tão completamente, que lhe eliminava da alma o sentimento da gratidão." (p. 67)

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O narrador Crusoé se explica ao leitor de suas memórias:

"Agora, visto que devo expor em cena, à face dos leitores, a representação de uma existência triste e melancólica, como não houve outra ainda neste mundo, vou fazer uma espécie de razão de ordem desde o princípio, para a continuar com mais regularidade." (p. 68)

Ele nos conta, então, que colocou um grande poste na praia com o seguinte registro:

"CHEGUEI A ESTA ILHA EM 30 DE SETEMBRO DE 1659"

No inventário das coisas de Crusoé, soubemos também dos seus pertences de cultura:

"De tudo lancei mão a esmo, sem me dar o trabalho de examinar se teriam ou não algum préstimo. Achei mais três esplêndidas Bíblias que tinha recebido no Brasil juntamente com os artigos que me expediram da Inglaterra, e que na ocasião dessa minha viagem meti dentro da minha roupa no baú, além de alguns livros portugueses, entre outros dois ou três de orações segundo o rito católico romano; e muitos ainda que tive o cuidado de conservar." (p. 69)

UM CÃO COMO COMPANHEIRO FIEL

"Havia a bordo três gatas e um cão, cuja história famosa deve ter o seu lugar nesta para lhe dar relevo. As gatas trouxe-as comigo; o cão, esse saltou do navio para o mar, e veio procurar-me em terra no dia seguinte àquele em que transportei a primeira carga. Foi durante muitos anos o meu serviçal zeloso e companheiro fiel; ia buscar todas as coisas de que era capaz; empregou as aptidões e finuras do instinto em fazer-me boa companhia; a única coisa que não pude conseguir dele, apesar de muito a desejar, foi que aprendesse a falar." (p. 69/70)

Para finalizar o capítulo IV, repleto de informações, soubemos que a construção de sua fortaleza levou mais de um ano para ser concluída. 

Ele traçou um quadro comparativo baseado na razão, segundo ele, para que pudesse seguir adiante quando lembrasse seus infortúnios. O quadro se dividia: em uma coluna "O MAL", na outra "O BEM". De um lado a informação negativa, do outro a positiva, do tipo: "Estou numa ilha horrorosa" e do outro "mas estou vivo" etc.

POR FIM, UM DIÁRIO...

"Principiei então a fazer um diário de todas as ocorrências - entretenimento que não pude encetar mais cedo, atormentado como estava, não tanto pelo trabalho, mas pelas canseiras do espírito; se o tivesse feito nessa conjuntura e com as piores disposições, sairia com certeza recheado de conceitos e incidentes sem graça e insípidos, como os que vou referir." P. 74)

A seguir ele cita momentos de desespero vividos por ele no começo de sua estadia na ilha. Gritava estar perdido, chorava e chorava etc.

Faz então seu pacto com o leitor a partir daquele momento:

"O princípio há de parecer fastidioso aos leitores, que até agora têm me acompanhado; mas a exatidão força-me a repetir algumas particularidades, que já ficam relatadas." (p. 74)

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É isso, leitor William. É isso, leitores do blog do William. Agora, vamos seguir com os diários de Robinson Crusoé...

William


(ver aqui a postagem anterior)


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Morena, pena de amor (1939) - Cecília Meireles



Refeição Cultural

Aos poucos, vamos conhecendo a obra poética de Cecília Meireles. Li mais um livro da poeta - Morena, pena de amor, de 1939. Foram 130 poemas nesta publicação, 129 numerados e uma abertura que dá início aos poemas.

Agora, já li e conheço Espectros (1919), Nunca mais... e Poema dos poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925), Cânticos (1927), A festa das letras (1937) e Morena, pena de amor (1939).

Somando os 130 poemas aos 129 das outras 5 publicações, agora conheço 259 poemas dessa grande poeta e intelectual brasileira.

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MORENA, PENA DE AMOR

"Queria só um sorriso.
Mas deram-me um beijo.
Perdi metade do juízo
e fui dar ao Paraíso.
São Pedro, vendo-me a cara,
dizia: 'Mas que pequena!
Com uma estrela tão clara
numa boca tão morena!'

(Qual seria esse tesouro?
Seria o teu beijo?
Seria o sorriso?
Ou apenas o ouro
do meu dente siso?)
" (p. 191)

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Assim começam os poemas desse trabalho poético de Cecília Meireles.

"1

Me chamam Morena
por ser minha cor.
Mas meu nome é Pena,
Pena de Amor.
"

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Selecionei alguns momentos muito sonoros e prazerosos da obra.

"5

Não perguntes nada,
não perguntes, não.
Tenho uma espada,
enferrujada,
atravessada
no coração.

Como está quebrada,
não se põe a mão.
" (p. 192/193)

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"15

Os meus morenos suspiros
por morenos campos vão,
dentro de morenos rios,
por morena solidão.

Ai, morena sorte
da vida terrena,
ai, morte morena,
ai, terrena morte...
" (p. 195/196)

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"26

Choro de pena,
choro de alegria,
me chamam Morena.
Sou Melancolia.
" (p. 200)

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"32

Chamei Deus - e estava ausente,
ou fez-se desentendido.
Não há nada que atormente
como um chamado perdido.
" (p. 202)

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O próximo poema é muito legal. Basta lembrarmos que Drummond já tinha nos apresentado seu poema "Quadrilha", em Alguma Poesia (1930).

"34

Eu estou sonhando contigo,
tu estás sonhando com ela,
e ela com o teu amigo,
e ele comigo ou com ela...

Tudo sonha e oscila
nas ondas do mundo:
em cima, a lua tranquila,
tranquila, a morte, no fundo.
" (p.202/203)

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"40

De dia, te andei buscando,
de noite, a buscar-te andei.
De tanto andar procurando,
perdi-me e não te encontrei.
" (p. 205)

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"48

Semeei plantas de amores,
nasceram ódios de espinho.
Não foi da mão nem das flores,
foi condição do caminho.
" (p. 207)

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Anotei diversos poemas que me tocaram ou que são muito expressivos para mim. Seria muito trabalhoso postar muitos deles. 

Fecho a seleção com o poema que fala da solidão.

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"62

Bateram na noite escura,
fui abrir com precaução.
Perguntei: 'Quem me procura?'
Disseram-me: 'A Solidão'.

Entrou-me pela vidraça
um vulto de escuridão.
Perguntei: 'Mas quem me abraça?'
Disseram-me: 'A Solidão'.

Viverei com alegria
e sem outra condição
que a da companhia
desta Solidão...
" (p. 214/215)

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CONHECENDO AOS POUCOS CECÍLIA MEIRELES

Hoje vi uma palestra muito interessante na internet a respeito da obra Cânticos (1927), ministrada pela professora Lúcia Helena Galvão, num canal chamado "Nova Acrópole Brasil". A palestrante destaca as mensagens místicas em sua interpretação dos 26 poemas. Outra parte interessante da palestra foi a biografia de Cecília Meireles.

Enfim, sigo avançando na leitura dos poemas da poeta, professora, pintora, educadora, poliglota e tradutora e grande intelectual brasileira Cecília Meireles.

O próximo livro de poesias dela é premiado, vou ler a seguir Viagem (1939).

William


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

domingo, 14 de novembro de 2021

Brejo das Almas (1934) - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural

"HINO NACIONAL

(...)

Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?
" (p. 105)


Reli o segundo livro de poesias do poeta Carlos Drummond de Andrade - Brejo das Almas -, publicado em 1934. Na minha opinião, os poemas desta obra são herméticos, de difícil compreensão. Como diria o Eu-lírico no poema SEGREDO - "A poesia é incomunicável./Fique torto no seu canto.". Talvez seja o leitor (eu) que não tenha ainda conseguido avançar na boa leitura de poesias, já que alguns autores e alguns estilos de poesia são mais exigentes que outros.

A leitura dos 49 poemas de Alguma poesia (1930) é fácil e prazerosa do início ao fim - ler comentário aqui -, talvez porque os poemas já sejam bem conhecidos por mim, e a familiaridade facilita bastante a leitura e o deleite advindo de cada poema. A leitura dos 26 poemas de Brejo das Almas (1934) é uma leitura de estranhamento, de surpresas, e de identificações também.

Eu me lembro de uma entrevista com o escritor e poeta chileno Roberto Bolaño na qual ele destacava para o entrevistador versos, dísticos e algumas imagens de poemas que ele gostava, dizendo que aquela imagem e aquele significado já se bastavam em si mesmos, sendo o restante das estrofes até desnecessárias (impressão que eu tive da fala dele). Forma muito particular de ler poesia, mas tudo bem.

O professor Ariovaldo Vital, nas aulas que tive em 2019 sobre leitura de poesias, nos explicava que cada palavra, cada verso, cada estrofe tem um significado que se inteira com as demais partes do poema e com o sentido total da mensagem. Nada é à toa em um poema. Também tá valendo o ensinamento.

Se eu leio os poemas de Brejo das Almas com o viés de Bolaño, vejo versos e imagens que adorei nos poemas.

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"O AMOR BATE NA AORTA

(...)

o amor ronca na horta
entre os pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.
" (p.95)

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"O VOO SOBRE AS IGREJAS

(...)

Era uma vez um Aleijadinho,
não tinha dedo, não tinha mão,
raiva e cinzel, lá isso tinha,
era uma vez um Aleijadinho,
era uma vez muitas igrejas
com muitos paraísos e muitos infernos,
era uma vez São João, Ouro Preto,
Mariana, Sabará, Congonhas,
era uma vez muitas cidades
e o Aleijadinho era uma vez.
" (p. 102/103)

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"COISA MISERÁVEL

(...)

Mas de nada vale
gemer ou chorar,
de nada vale
erguer mãos e olhos
para um céu tão longe,
para um deus tão longe,
ou, quem sabe? para um céu vazio.
" (p. 112)

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Neste livro já vemos o Drummond que vai dizer o tempo todo que não adianta morrer, que a vida deve seguir, a vida apenas e sem mistificações, mesmo em face de acontecimentos e coisas tão graves e drásticas, sejam elas na vida pessoal, sejam na vida coletiva.

O poema NECROLÓGIO DOS DESILUDIDOS DO AMOR é um caso desses. O Eu-lírico deixa a opinião dele aos românticos e dramáticos de que não vale a pena morrer por amores não correspondidos.

"Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.
" (p. 122)

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Fecho o comentário com os poemas que trazem a questão do amor erótico e sensual. Uma delícia os poemas O PASSARINHO DELA e GIRASSOL. Naquele, o Eu-lírico fala até o nome do autor:

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"O passarinho dela
está batendo asas, seu Carlos!
Ele diz que vai-se embora
sem você pegar.
" (p. 99)

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E o poema GIRASSOL é mais explícito na linguagem e no desejo:

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"havia também (entre vários) um girassol. A moça
                                                             [passou.
Entre os seios e o girassol tua vontade ficou interdita.

Vontade garota de voar, de amar, de ser feliz, de viajar,
                            [de casar, de ter muitos filhos;
vontade de tirar retrato com aquela moça, de praticar
                [libidinagens, de ser infeliz e rezar;
" (p. 111)

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Quase todos nós já tivemos algum dia o sentimento desse Eu-lírico, algo pueril, algo libidinoso e erótico sobre amores e sexos.

É isso. Vou ler a poesia completa de Drummond. E vou contando os poemas a cada livro publicado por ordem cronológica, como estou fazendo com a leitura de Cecília Meireles.

Nos primeiros dois livros de Drummond, são 75 poemas.

Seguimos lendo poesias.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo. 10ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2000.

sábado, 13 de novembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (I) - Daniel Defoe



Refeição Cultural

Comecei a leitura do clássico As aventuras de Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe. Apesar do romance fazer parte de nossos conhecimentos culturais por estar inserido na cultura literária mundial (sabemos de ouvir dizer) e ilustrar histórias de aventuras há três séculos, não conheço praticamente nada sobre a narrativa.

Li duas vezes o primeiro capítulo e li o segundo capítulo hoje. O livro é grande, mais de 500 páginas com fonte pequena. Levarei semanas para ler o clássico.

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CAPÍTULOS I e II

"Nasci na cidade de York no ano de 1632, de uma boa família, mas não originária deste país. Meu pai era estrangeiro, natural de Bremen. Montou o seu primeiro estabelecimento comercial em Hull, onde adquiriu muitos bens com o negócio; e veio finalmente residir em York e aí casou com minha mãe, cujos parentes se chamavam Robinson. Essa família é uma das mais consideradas do condado; dela me veio o nome de Robinson Kreutznaer, mas por corrupção de vocábulo, muito usual na Inglaterra, chamam-nos Crusoé - nome por que somos conhecidos e assim assinamos. Também os meus companheiros nunca me trataram por outro apelido." (p. 9)

O início das aventuras se dá com o personagem principal se apresentando e dizendo quem é, de onde vem, por que as coisas aconteceram em sua vida da forma como se deram etc.

Pelo que Robinson Crusoé nos conta, percebe-se que ele atribui à providência divina ou à fatalidade e ao acaso/sorte tudo o que lhe acontece. 

"parecia que uma espécie de fatalidade me arrastava misteriosamente para o estado de sofrimento e miséria em que mais tarde havia de cair..." (p. 10)

Ele decide se aventurar pelos mares do mundo à contragosto de seus pais, que clamam para que ele fique em casa e desfrute de uma vida calma, sem faltas ou necessidades básicas, pois num discurso premonitório, seu pai lhe diz que eles são da classe média, o estamento social que mais chances teria de alcançar a felicidade, pois os extremos - miseráveis e abastados - são os de maior propensão à infelicidade. Se aventurar por aí como um miserável só lhe traria infelicidade.

"pois pertencia à classe média, ou quando muito ao primeiro grau da vida burguesa; - que por sua longa experiência havia reconhecido que essa situação era a melhor de todas, a que estava mais ao alcance da felicidade humana, isenta das misérias, dos trabalhos e sofrimentos da classe operária e ao mesmo tempo inacessível ao luxo, ao orgulho, à ambição e inveja dos grandes da terra (...) - e que os sábios faziam consistir a verdadeira felicidade no estado da vida em que não haja pobreza nem riqueza." (p. 10)

O jovem Crusoé sente um desejo incontrolável de se lançar ao mar pelo mundo, mesmo tendo tido a experiência trágica em família ao perder os dois irmãos, um morto em batalhas navais e outro sumido.

"meti-me a bordo do tal navio que ia para Londres. Este dia, o mais fatal da minha vida, foi o 1º de setembro de 1651. Não creio que tenha havido moço aventureiro, para quem os infortúnios hajam começado mais cedo e durado mais tempo, do que os meus..." (p. 13)

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DESTINO E PROVIDÊNCIA - "Mas o meu péssimo destino arrastava-me com uma força irresistível, e conquanto o são critério e a razão muitas vezes me gritassem bem alto que devia voltar para casa, nunca podia resolver-me a tal solução. Não sei que nome deva dar a isso! Não posso afirmar que seja um decreto inviolável da Providência o que nos impele a ser os instrumentos da nossa própria desgraça e a lançar-nos no precipício que está a nossos pés, diante dos nossos olhos..." (p. 19)

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E assim começam as aventuras de Crusoé. Logo de cara enfrenta uma tempestade no mar que lhe mete um medo incrível. Ele e a tripulação do navio escapam à tormenta. Mas outra tempestade afunda a embarcação e Crusoé escapa junto com alguns companheiros. 

O jovem é do interior do país e se dirigia a Londres. Após o naufrágio, ele chega a Londres por terra e de lá se lança a outra viagem, agora para a África. 

"Embarquei num navio que ia para as costas da África, ou, para falar a linguagem usual dos marinheiros, para uma viagem da Guiné (...) mas nisso como em tudo estava destinado a escolher o pior..." (p. 21)

O jovem Crusoé chega a conhecer um capitão e amigo que o ajuda a virar um mercador. Mas o capitão e amigo morre e os infortúnios seguem.

O navio é interceptado por piratas e ele vira escravo em Marrocos. A essa altura, ele já está vinculando toda a desgraça que tem enfrentado às previsões que seu pai havia feito ao deixar uma vida tranquila com a família.

E assim começaram as aventuras de Robinson Crusoé, saindo de sua terra natal - York - aos 19 anos e se aventurando pelo mundo através dos mares. Vira mercador, depois escravo por dois anos e vamos seguir vendo o que acontece com o rapaz.

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NAVEGANDO E VIAJANDO NA LITERATURA MUNDIAL

Hoje conheço a história do capitão Acab (Ahab em inglês), a embarcação Pequod e sua perseguição ao cachalote, a baleia Moby Dick. Foi uma grande leitura feita por mim neste ano de 2021.

Daqui a algumas semanas conhecerei toda a história de Robinson Crusoé, história de trezentos anos que não conheço ainda. Mas sempre é tempo de se conhecer coisas novas, conhecimento e cultura não ocupam espaço, pelo contrário, preenchem espaços em nossas vidas, nos dando mais subsídios para seguir vivendo.

William


(ver aqui a postagem seguinte)


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.


sexta-feira, 12 de novembro de 2021

121121 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"INFÂNCIA

        A Abgar Renault

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé.
Comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que a minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé." 

(DRUMMOND. In: Alguma Poesia - 1930)


Sexta-feira, 12 de novembro de 2021.


Dias atrás, reli o livro de poesias que apresentou o poeta Carlos Drummond de Andrade para o Brasil e o mundo. Alguma poesia é um livro que me arrepia só de mencioná-lo! Neste poema - "Infância" -, o Eu-lírico compara sua história à de Robinson Crusoé, personagem do romance do escritor inglês Daniel Defoe, publicado em 1719.

Já no finalzinho das Memórias póstumas de Brás Cubas (1880/81), romance de Machado de Assis que marcou uma revolução na literatura brasileira, o defunto-autor cita um gesto de Gulliver, personagem do romance do escritor irlandês Jonathan Swift, obra lançada em 1726.

"Multidão, cujo amor cobicei até a morte, era assim que eu me vingava às vezes de ti; deixava burburinhar em volta do meu corpo a gente humana, sem a ouvir, como o Prometeu de Ésquilo fazia aos seus verdugos. Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua indiferença, ou da tua agitação? Frágeis cadeias, amiga minha; eu rompia-as de um gesto de Gulliver." (ASSIS. In: Memórias póstumas de Brás Cubas. Cap. XCIX)

Sou um homem de mais de cinquenta anos de idade. Passei boa parte de minha vida lendo alguma coisa aqui e ali de literatura. Desejo e sede de saber eu sempre tive. Não tive foi tempo livre para ler tudo o que gostaria. Trabalhei muito para os capitalistas e fiz os estudos mínimos exigidos de pessoas como nós da classe trabalhadora. Li bastante se me comparar com os meus pares da classe e com o povo brasileiro. Mas me falta muita leitura ainda. São lacunas culturais imensas, que me incomodam muito.

Dessas citações e referências acima, por exemplo, eu não li ainda As aventuras de Robinson Crusoé e As viagens de Gulliver. Só fui ler Prometeu acorrentado este ano (ver comentário aqui). Percebem minhas lacunas culturais? Aprendi a ter a humildade de saber que me faltam muitas leituras, mas tenho a consciência de quem não passou a vida à toa à toa (como a andorinha de Manuel Bandeira). Passei a vida sendo explorado pelos donos do poder e lutando contra essa exploração da classe trabalhadora, se não li mais romances e poesias não foi por opção, foi por necessidade do viver.

Drummond mesmo, tenho centenas de poemas seus a conhecer. Só conheço seus primeiros trabalhos, até os anos quarenta. Cecília Meireles, essa poeta e intelectual multifacetada, só passei a conhecer alguns poemas seus recentemente. Estou interessado em ler toda a obra de Drummond e de Meireles. Se o tempo de existência me permitir, seguirei lendo eles.

Essa introdução trabalhosa de meu diário cultural e de reflexões é para registrar que comecei ontem a leitura de Robinson Crusoé. Lá vamos nós viajar no tempo e na literatura mundial. Crusoé vai se somar aos meus clássicos lidos recentemente como, por exemplo, Moby Dick e Decamerão

Desejo que a casualidade do viver me permita completar a leitura e saber finalmente a história de Crusoé. Apesar dessa lacuna cultural, não tenho dúvidas sobre a boniteza da história do Eu-lírico do poema de Drummond. Daqui a algumas semanas saberei também das aventuras de Crusoé.

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LUTO E PESAR

Estou muito triste, muito abalado e me solidarizo com o falecimento de Dôia, economista e militante socialista. Dôia era companheira de nosso querido Bemvindo Sequeira. Nosso casal militante e socialista, que tem vivido em Portugal, contraiu Covid-19 dias atrás e Dôia, como era chamada carinhosamente, não resistiu. Bemvindo está se recuperando aos poucos da Covid. Ele esteve nesta sexta-feira em uma live com Kiko Nogueira e Pedro Zambarda, do site DCM.

É tudo muito triste... a vida é um instante, somos muito frágeis, apesar de sermos muito fortes quando lutamos como militantes por um mundo mais justo e solidário. Companheiro Sequeira, receba o nosso carinho. 

- Companheira Dôia, presente!

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo. 10ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2000.

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 1ª ed. - São Paulo: Panda Books, 2018.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

A festa das letras (1937) - Cecília Meireles



Refeição Cultural

Que delícia foi a leitura desta obra de Cecília Meireles em parceria com Josué de Castro - A festa das letras (1937).

Quando li o texto introdutório, não entendi nada, parecia um texto perdido sobre alimentação e saúde. Aí no último parágrafo os autores explicaram o intuito da obra:

"A festa das letras procura ser um pretexto agradável para fazer chegar às crianças, revestidos de certo encantamento, esses primeiros preceitos de higiene alimentar, indispensáveis à sua vida."

E aí começam os poemas, seguindo letra a letra do alfabeto. A, B, C... 23 poemas.

Pelo pouco que conheço de poesia, posso dizer que foi uma experiência nova, diferente. Agradável experiência!

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"Ah! Ah! - pois o A, com a sua cartolinha bicuda,

                    parece o chefe do batalhão.

                Para na frente de todas as letras

                e grita: A... A... A... A... Atenção!"

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E assim vamos nos divertindo com as formas, sons, ritmos dos versos e das estrofes poéticas.

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"(...)

        Sou o B, sou o B que não tem igual:

        B de Banana, Bananeira, Bananal...

O B que tem sempre - ontem, hoje e amanhã -

                      a Banana-maçã!

                    que tem um tesouro

                        de Banana-prata

                         e Banana-ouro!"

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Adorei a festa do M...

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"M, M, M, de onde vem você?

- Eu venho do Mato, todo o Mundo vê!


- M, M, M, você que procura?

- Menino que goste de fruta Madura!


- M, M, M, que é que você traz?

- Mangas, Mangabas, Maracujás!


- M, M, M, que Mais você tem?

- Mamões, melancias e Melões, também!"

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Uma festa essa experiência com as letras de Cecília Meireles e Josué de Castro. 

Com a leitura desse quinto livro de poesias de Meireles, passo a conhecer agora 129 poemas da poeta, jornalista, professora, escritora e intelectual brasileira.

William


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

40. Memórias póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis



Refeição Cultural - Cem clássicos

Arrepiado! Terminei arrepiado a releitura dessas Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), do mestre Machado de Assis. As últimas palavras do capítulo final - o CLX. "Das negativas" - foram de arrebentar os sentimentos de qualquer cidadão que sofre com o "legado da nossa miséria" ao viver neste Brasil do século XXI, de moros e bolsonaros.

Eu considero Memórias póstumas... um dos melhores livros de literatura já feitos no Brasil.

São tão diversos os temas abordados por Machado de Assis neste romance revolucionário que a leitura da obra 140 anos depois de sua publicação segue nos deixando impressionados a cada capítulo, a cada ironia, a cada crítica à burguesia hipócrita... é demais!

A filosofia do Humanitismo, desenvolvida por Quincas Borba é ácida demais! É atual demais. 

Na minha opinião, o Humanitismo é a Teoria da Evolução das Espécies, de Darwin, só que sugerindo que, no caso humano, a evolução dos mais adaptados iria dar em bolsonaros, moros, dallagnois, temers, fernandos e toda essa gente que está no topo da cadeia social, mas só para provar que a evolução é na verdade a involução, é o caminho para o fim pela autodestruição da espécie homo sapiens.

O capitalismo é composto por uma burguesia ignorante, feita de casca e aparência, sem essência alguma que preste, e o modelo de acumulação e exploração capitalista é a forma de organização social das classes abastadas que está nos levando à extinção das chances de vida no planeta Terra, como se discute nesses dias na COP26 em Glasgow. A insistência em só aumentar as riquezas destruindo a Terra por parte dessa gente do 1% é o próprio princípio Humanitas. É coisa dessa gente Cubas.

A forma utilitarista, violenta e cínica como Brás Cubas trata tudo e todos ao seu redor é a imagem mais perfeita dessa gente que colocou o bolsonarismo no poder. 

Eu adoro esse livro e cada vez que o leio há um novo encaixe da ficção no contexto da realidade na qual nos encontramos. Hoje, Brás Cubas é qualquer desgraçado desses 15% do bolsonarismo raiz. 

Assim como o personagem Cubas, os bolsonaristas-cubas estão nos cargos políticos e públicos e são "empresários" e também coronéis e ruralistas e banqueiros e são homens de práticas vis, estão nas violências praticadas no cotidiano contra mulheres, pretos, pobres e povão em geral. Estão no clientelismo e no assalto ao patrimônio público.

Enfim, obrigado mestre Machado de Assis, por sintetizar tão bem o anacronismo dessa gente que se classifica como burguesia brasileira. Gente inútil e escrota e que está por aí, há séculos, nos ambientes tidos como nobres e das elites.

William


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 1ª ed. - São Paulo: Panda Books, 2018.

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Diários com Machado de Assis (X)



Refeição Cultural

"XCVIII. SUPRIMIDO

(...)

No intervalo fui visitá-los. O Damasceno recebeu-me com muitas palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a Nhã-loló, não tirou mais os olhos de mim. Parecia-me agora mais bonita que no dia do jantar. Achei-lhe certa suavidade etérea casada ao polido das formas terrenas: - expressão vaga, e condigna de um capítulo em que tudo há de ser vago. Realmente, não sei como lhes diga que não me senti mal, ao pé da moça, trajando garridamente um vestido fino, um vestido que me dava cócegas de Tartufo. Ao contemplá-lo, cobrindo casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta sutil, a saber, que a natureza previu a vestidura humana, condição necessária ao desenvolvimento da nossa espécie. A nudez habitual, dada a multiplicação das obras e dos cuidados do indivíduo, tenderia a embotar os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestuário, negaceando a natureza, aguça e atrai as vontades, ativa-as, reprodu-las, e conseguintemente faz andar a civilização. Abençoado uso que nos deu Otelo e os paquetes transatlânticos!

Estou com vontade de suprimir este capítulo. O declive é perigoso. Mas enfim eu escrevo as minhas memórias e não as tuas, leitor pacato. Ao pé da graciosa donzela, parecia-me tomado de uma sensação dupla e indefinível. Ela exprimia inteiramente a dualidade de Pascal, l'ange et la bête*, com a diferença que o jansenista não admitia a simultaneidade das duas naturezas, ao passo que elas aí estavam bem juntinhas, - l'ange, que dizia algumas coisas do céu, - e la bête, que... Não; decididamente suprimo este capítulo." (p. 243/244)

*o anjo e a besta

(sublinhado meu na parte entre narrador e leitor)


Os estudos de Hélio de Seixas Guimarães nos chamam atenção para a questão dos leitores de Machado de Assis e também de literatura no Brasil. Terminei de ler a introdução do livro e ela aborda dois temas: "Em torno de alguns conceitos de leitor" e "A crítica brasileira e o público de literatura". Os textos nos põem a pensar... e a questão da possibilidade de haver ou não um público de literatura no Brasil segue até hoje.

O texto aponta que em 1890 o Brasil tinha cerca de 17% de pessoas que poderiam compor o público leitor de literatura e publicações em jornais e revistas. De uma informação como esta, poderíamos até inferir que estaríamos bem pra caramba nos dias atuais, já que a maioria das pessoas é "alfabetizada"... magina! Com o incentivo à ignorância que nos capturou com o bolsonarismo e o negacionismo, talvez estejamos em piores condições que em 1890.

---

Para quem escrevemos? Essa é uma questão a se refletir sempre que nos sentamos para produzir textos ficcionais ou de informação, argumentação e reflexão como faço em meus blogs. 

Para quem escrevemos neste momento da história no qual imagens e vídeos e símbolos dominaram os seres humanos? Tempo em que o diálogo e os argumentos foram substituídos pela porrada, pelo grito, pela bala e pela mentira descarada, espalhada de forma nunca vista?

Até que ponto as pessoas acham que é possível tratar assuntos complexos com alguns parágrafos e poucas palavras ou com vídeos e imagens que sintetizariam tudo?

Qual diferença teríamos dos demais animais e seres viventes na natureza se não fosse o desenvolvimento da linguagem humana? E a linguagem tem relação com o cérebro humano e nossos 86 bilhões de neurônios.

Machado de Assis escreveu por cinco décadas num país praticamente sem leitores de literatura. Num país no qual a produção e financiamento da literatura e cultura dependiam dos brancos da Corte e das casas-grandes, ou seja, se a crítica a eles não fosse disfarçada não se publicaria nada por aqui.

E lá no século XXI (nossa volta ao passado com Temer e Bolsonaro) os brasileiros iriam viver o período mais dramático de sua história, com a chegada ao poder político de um bando de bárbaros criminosos e negacionistas, contrários à cultura e ciências e avanços sociais. 

Mas tudo bem. Seguimos por aqui, como indivíduos e como seres históricos e coletivos que lutam para construir uma sociedade de cultura, de ciência, de avanços sociais e seres humanos mais sábios e cientes da fragilidade da vida na Terra.

William



Bibliografia:

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 1ª ed. - São Paulo: Panda Books, 2018.

GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século 19. São Paulo: Nankin Editorial: Edusp, 2004.


segunda-feira, 8 de novembro de 2021

666 O limiar do inferno (1981) - Jay Anson



Refeição Cultural

Quando eu li esse romance de Jay Anson, nos anos oitenta, ele era uma temática da moda, eu diria. Muitos livros de ficção e muitos filmes de suspense e terror faziam sucesso. Demônios e seres fantásticos e fenômenos chamados de paranormais enchiam a imaginação das pessoas.

Uma casa onde pessoas foram assassinadas é transportada para outro local e novamente um casal estará em risco ao conviver com a casa na vizinhança. Esse é o enredo do romance 666.

Li mais rápido que esse 2º livro de Anson o 1º dele, Horror em Amityville (1977) - ler comentário aqui. Liquidei a leitura em dois dias.

Nesse segundo romance, com 50 páginas a mais, achei a estória mais enrolada. No romance anterior, coisas estranhas vão acontecendo do início da narrativa até o fim. Neste 666 o enredo vai duzentas e tantas páginas amarrando as coisas para acontecerem nas últimas vinte páginas. No final, as coisas acontecem e o demônio realiza suas façanhas.

Ficção é ficção. O necessário é ter verossimilhança na estória, como aprendemos ao estudar literatura. Achei o romance de Amityville com mais verossimilhança que este segundo de Jay Anson. O personagem David mudar-se para a casa do 666 não colou muito, faltou um pouco de verossimilhança.

Mas os dois romances de horror de Jay Anson têm muito mais credibilidade e coerência do que, por exemplo, um romance que contasse o que aconteceu no Brasil nos últimos 5 anos...

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VEROSSIMILHANÇA?

Por falar em verossimilhança, uma coisa engraçada e triste ao pensar o conceito é imaginar o Brasil após o golpe de Estado de 2016, com Lava Jato, "com Supremo com tudo" etc.

Suponhamos que o que aconteceu com o Brasil fosse um romance... amig@s, seria impossível haver verossimilhança na narrativa que descrevesse os acontecimentos de 2016 até o momento.

Verossimilhança é algo básico para as narrativas terem sentido. A economia de um romance, conto, novela, peça dramática é baseada em verossimilhança.

Se a ficção é bem construída, não há problema algum em pessoas falarem com fantasmas, cadeiras falarem com a bunda da pessoa etc. Há um pacto entre escritor e leitor na economia da obra.

No romance de Jay Anson, temos forças e fenômenos se manifestando na estória. Acontecimentos fora das leis da física e sem explicações da ciência fazem parte da estória.

O difícil seria num romance explicando o Brasil após o golpe de 2016 construir alguma verossimilhança com os absurdos diários nos últimos cinco anos. 

O Moro e o Dallagnol além de não estarem sofrendo processo e ou estarem presos ainda se lançarem candidatos na política após destruírem um país continental com mais de 200 milhões de pessoas e cinco séculos de existência não tem verossimilhança que explique isso num romance. Seria inverossímil demais!

A história do Brasil não serve nem pra romance, eu diria. 

É isso! Mais uma ficção lida na adolescência e revisitada décadas depois.

William


domingo, 7 de novembro de 2021

Cânticos (1927) - Cecília Meireles



Refeição Cultural

Dando sequência à leitura e contato com as poesias de Cecília Meireles, li neste domingo o 4º livro da poeta - Cânticos (1927) -, livro que reúne 26 poemas numerados de I a XXVI.

Alguns dos poemas me trouxeram algumas reflexões a respeito da questão da temporalidade individual e da temporalidade coletiva, de classe, histórica. Mesmo sabendo que o Eu-lírico tem um viés religioso na sua relação emissor e receptor nas imagens poéticas, é possível a identificação com a temática da temporalidade e sua agonia pela brevidade da vida humana.

Os poemas I, II e o XXIV, quase no final, se encaixaram perfeitamente na temática do dilema (e angústia) da brevidade de nossa temporalidade existencial individual e a questão mais histórica das realizações humanas enquanto espécie.

Lembrando que vi um vídeo de Mauro Iasi, no canal Café Filosófico da TV Boitempo, vídeo do dia 5/11/21, que me pôs a pensar muito sobre a questão da temporalidade do indivíduo versus a temporalidade da classe. Vejam lá no YouTube caso tenham interesse.

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"I

Não queiras ter Pátria.
Não dividas a Terra.
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto,
Que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
Te ponha em tudo,*
Como Deus.
" (p. 138)


"*Verso-base: Estarás em tudo,"

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O poema é tão moderno que me lembrou a COP26 em Glasgow discutindo a destruição do mundo por parte dos humanos e do capitalismo. Alguns países e corporações (humanos!) destroem o meio ambiente porque podem (como dizem os bilionários "fazemos porque podemos") e que se danem as formas de vida na Terra hoje e num futuro próximo.

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"II

Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade...
É a eternidade.
És tu.
" (p. 138/139)

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E o poema XXIV me lembrou de novo as reflexões de Mauro Iasi, que somos fruto de uma temporalidade coletiva, histórica, somos a cultura e as pessoas que nos antecederam e assim por diante.

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"XXIV

Não digas: Este que me deu corpo é meu Pai.
Esta que me deu corpo é minha Mãe.
Muito mais teu Pai e tua Mãe são os que te fizeram
Em espírito.
E esses foram sem número.
Sem nome.
De todos os tempos.
Deixaram o rastro pelos caminhos de hoje.
Todos os que já viveram.
E andam fazendo-te dia a dia
Os de hoje, os de amanhã.
E os homens, e as coisas todas silenciosas.
A tua extensão prolonga-se em todos os sentidos.
O teu mundo não tem polos.
E tu és o próprio mundo.
" (p. 152)

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E assim conheci mais um livro de Cecília Meireles. Com essa obra Cânticos passo a conhecer 106 poemas da poeta, escritora, professora e intelectual brasileira.

William


Post Scriptum (15/11/21): assisti na internet a uma palestra muito interessante sobre esta obra de Meireles: "A filosofia nos Cânticos de Cecília Meireles", com a professora Lúcia Helena Galvão, de um canal chamado "Nova Acrópole Brasil". A biografia de Meireles e a análise dos poemas-cânticos foram muito interessantes. A palestrante exalta a questão mística da poeta e do Eu-lírico, o que é válido, e a interpretação que ela dá para os 26 poemas é muito coerente, tem verossimilhança, para falar algo característico das boas obras literárias e poéticas.

Post Scriptum II: essa interpretação mais mística dada à obra de Meireles não invalida a leitura mais materialista que fiz dos poemas. O texto me permite olhar a questão da temporalidade do ponto de vista individual e do ponto de vista histórico, enquanto homem isolado e enquanto humanidade, enquanto grupo e classe.


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

sábado, 6 de novembro de 2021

39. Alguma Poesia - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos


Li mais uma vez o livro de poesia de estreia de Carlos Drummond de Andrade - Alguma Poesia -, lançado em 1930, um clássico do poeta modernista e da poesia brasileira.

Do início ao fim do livro temos 49 poemas com pernas, coxas, tetas, nádegas, olhos, bigode... "pernas brancas pretas amarelas", "coxas das romeiras", "pernas adjetivas", "coxa morena", "pernas que passam". Cito isso só para não acharmos que só os estrangeiros têm os seus joyces e suas personagens blooms na primeira metade do século vinte.

Poemas de humor, de crítica e denúncia social, poemas que anunciam os efeitos da modernidade tecnológica nas pessoas. Poemas que contrapõem a cidade e o campo, a velocidade do centro urbano e a lentidão da vida no interior.

Que livro! A gente lê os poemas e quer sair divulgando e comentando com as pessoas e com o mundo o quanto os poemas se encaixam naquilo que estamos vivendo. Os poemas falam por nós, falam de nossa angústia frente ao Brasil e ao mundo em destruição acelerada. Que livro! Caraca!

Estou lendo poesias e conhecendo autores, obras, e livros que tenho em casa. Tenho as poesias completas de Cecília Meireles, de Drummond e diversos livros de outros autores. Mas li pouca poesia em minha vida, não conheço praticamente nada de poesia. E a vida é um instante, é um sopro efêmero. Então é ler e reler e sentir as poesias que nos legaram nossos poetas.

já li os 3 primeiros livros de Meireles, lançados em 1919, 1923 e 1925. Os estilos dos livros, temas e formas são bem diferentes dos de Drummond, que também conheço pouco, praticamente só conheço os primeiros livros de poesia dele - 1930, 1934, 1940 e 1945. 

MEIRELES

- Espectros (1919), Nunca mais... e Poema dos poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925).

DRUMMOND

- Alguma poesia (1930), Brejo das almas (1934), Sentimento do mundo (1940), A rosa do povo (1945).

Se formos sobrevivendo neste mundo, vamos conhecendo mais um pouco sobre eles - Meireles e Drummond. Estou indo na leitura por ordem cronológica, pela facilidade de ter as obras completas.

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EXÍLIO? NÃO QUERO IR PRA LUGAR NENHUM

Vivemos tempos nos quais um dos principais temas nas cabeças e corações das pessoas progressistas e decentes é o exílio, o ir-se embora daqui do Brasil destruído, seja pra Pasárgada ou qualquer outro lugar longe do bolsonarismo.

Não acho justo abrir mão de meu país por causa dessa burguesia canalha e vil, burguesia que estragou tudo que construímos ao colocar no poder o crime organizado. Não me agrada sequer pensar em mudar, em ir embora daqui. Tenho trauma de mudanças também. Contei na minha vida mais de dez mudanças em dez anos por causa da vida proletária. Minha vida era mudar de aluguel em aluguel porque era preciso.

Cara, que saco isso! Eu não quero ir embora, não quero deixar o meu país. Mas sei que tá foda! A impressão é que não recuperaremos nosso mundo, que não nos veremos livres do bolsonarismo, essa doença odiosa.

Nesse contexto de vida social do país, Drummond é tudo! Cada poema é uma crítica e um contexto, o Eu-lírico pode ser qualquer um de nós a qualquer tempo.

Mas deixo o poema "Lagoa" pra dizer que aqui é minha terra e aqui gostaria de viver e morrer.

"LAGOA

Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
e calma também.

Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.
Eu vi a lagoa...
" (p. 29)


Aqui é minha terra e nós temos que superar o bolsonarismo, essa gente do mal, gente odiosa, e reconstruir nossa terra, nosso ambiente, nossa cultura, nossas vidas.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo. 10ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2000.


quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Baladas para El-Rei (1925) - Cecília Meireles



Refeição Cultural

"Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
a solitude nebulosa e irreal do ambiente...

(...)

E silenciosos, como alguém que se acostuma
a caminhar sobre penumbras, mansamente,
meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma..." ("Suavíssima", p. 121/122)


E aos poucos vou conhecendo Cecília Meireles. Nesta manhã, li seu 3º livro - Baladas para El-Rei - publicado em 1925. Agora conheço 80 poemas das primeiras 3 obras da autora.

É interessante como os ensinamentos do professor Ariovaldo Vital (FFLCH-USP) não falham quando se trata de leitura de poesia. Ler o poema a primeira vez, depois ler uma segunda vez. Buscar no dicionário as palavras que não se conhece. Ver se há alguma referência externa ao poema que possa ajudar na análise e interpretação de sentidos - vida da autora, questões de época etc. Sugestões básicas para uma boa leitura de poema.

Na leitura de hoje, pesquisei a palavra "solitude" e eu não tinha uma noção boa sobre o sentido. Solitude é um isolamento voluntário e com um sentido mais positivo, enquanto solidão é um isolamento que pode causar algum tipo de dor ou tristeza, algo mais negativo no sentido.

E para fazer esta postagem revi a questão do uso da palavra "poetisa" ou "poeta" para o gênero feminino. Em termos de dicionário e Língua Portuguesa padrão, ambas estão corretas. No entanto, ideologicamente, fico com o termo "poeta" para dizer a poeta Cecília Meireles. É o termo preferido em relação às lutas de gênero.

Outra pesquisa que influenciou no entendimento de um dos poemas foi saber que a personagem "Pedrina" do poema "Para a minha morta" foi a babá de Cecília Meireles, criada com a avó materna desde os 3 anos de idade.

"PARA A MINHA MORTA

(...)

Pedrina minha, és a mais doce das memórias
para a minha alma, a vida inteira alma de criança,
amando sempre o encantamento das histórias

de Barba Azul, de Ali Babá, de um rei de França...
Pedrina minha, és a mais doce das memórias...
" (p. 124/125)

---

A leitura dos poemas de Cecília Meireles, até o momento, me trouxe uma identificação grande com o Eu-lírico. Os poemas e a autora me lembram de uma fase da vida na qual eu cria em todas as formas de misticismo.

Além disso, a poeta cria imagens magníficas em seus versos. Seus poemas encantam pela beleza das construções. Veja abaixo um exemplo de imagem poética, do poema "Oração da noite", ainda de um livro anterior dela - Nunca mais (1923):

"Acendi luzes, desdobrando espaços," (p. 54/55)

É lindo demais!

No poema "Dos pobrezinhos" (p. 117) o Eu-lírico fala para as nossas vítimas da pandemia de Covid-19 e para seus entes queridos.

"DOS POBREZINHOS

Nas tardes mornas e sombrias,
de céus pesados, mares ermos,
e horas monótonas e iguais,

eu penso logo nos enfermos,
na escuridão de enfermarias
tristes e mudas de hospitais...
" (p. 117)

---

Finalizo a postagem citando um excerto do poema que mais gostei de Baladas para El-Rei. Pensa nessa imagem contida em um dos versos do poema: "Anda em choro a folhagem..." ao falar sobre o outono.

"DO MEU OUTONO

O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a
                                     [folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...

O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
E eu sofro a angústia irremediável da paisagem...
" (p. 114/115)


É isso!

Tem valido a pena conhecer a poeta Cecília Meireles.

William



Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Instantes com Cecília Meireles



Refeição Cultural

Osasco, 2 de novembro, Dia de Finados.


"POEMA DA DESPEDIDA

Eleito, ó Eleito,
não tornarão mais os meus olhos
a procurar pelos ares
os lírios dos teus pés...
Nunca mais erguerei os braços,
como se erguem as asas,
nesta loucura
de chegar aonde estás...
Eleito, ó Eleito,
não voltarei a sonhar
que me apareces,
que me ouves,
que me acolhes...
" (p. 85)


Nesta manhã de Finados, peguei o volume 1 de Poesia completa, de Cecília Meireles, e após ler um pouco na internet sobre a biografia dela, li de forma muito concentrada a segunda parte do livro Nunca mais... e Poema dos poemas (1923). A primeira parte havia relido dias atrás.

O Poema dos poemas é composto por 21 poemas, divididos em 3 partes de 7 poemas. Ao ler os lamentos do Eu-lírico conversando com um receptor que nunca se mostra, que não acolhe, que não ouve, que não vê - ou se vê, não interfere em nada -, e ao ver o desenlace dessa busca do Eu-lírico, eu me transportei para o meu passado, décadas atrás, aquele passado de buscas místicas e religiosas daquele que fui.

Mesmo sendo quem sou hoje, compreendo perfeitamente essa relação mística e de busca que os seres humanos vivenciam nas diversas fases de suas vidas. Passei décadas clamando por ser visto e ouvido e acolhido por um ser superior e todo poderoso como faz o Eu-lírico de Cecília Meireles. E no final, o Eu-lírico encontra a Sabedoria. Não sei se tive o mesmo êxito.

"POEMA DA SABEDORIA

(...)

Sabedoria! Sabedoria!
Só te encontrei nos abismos,
quando vim descendo
da altura da solidão...
Depois do renunciamento...
Depois de tudo e de todos...
Depois de mim...
Sabedoria! Sabedoria!
Abençoa-me,
porque sofri,
buscando-te!
E, por encontrar-te e querer-te,
faze-te meu Destino...
Deixa-me viver em Ti!...
" (p. 104)

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Um orgulhozinho: enquanto lia sobre a vida de Cecília Meireles, vi que ela foi oradora de sua turma de formatura. Fiquei lembrando de outras personalidades que também têm em suas biografias o fato de terem sido oradoras em suas turmas escolares e acadêmicas. 

Naquele instante de leitura, me veio uma espécie de orgulho, uma vaidadezinha, porque eu fui escolhido orador de nossa turma de Ciências Contábeis, turma de 1991 a 1994, da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas de Osasco, a antiga FEAO-FITO. 

Nossa turma tinha mais de 100 alunos e nos dávamos muito bem. Foi um privilégio ser o orador e até hoje tenho guardado comigo o texto que fiz e que foi lido em nossa formatura. Me lembro de praticamente todas as pessoas, colegas do curso. Tenho ainda um carinho imenso por elas. Um beijo e um abraço fraterno a cada um e cada uma que esteja por aí nesse nosso mundo, vasto mundo.

William

Post Scriptum - clique aqui para ler a postagem sobre a primeira leitura dessa obra de Meireles.


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

A alucinação de Ulisses - Joseph Strick



Refeição Cultural

O filme de Joseph Strick - A alucinação de Ulisses (1967) é uma adaptação para o cinema do clássico Ulysses (1922), de James Joyce. Gostei demais do filme por ver na tela o resultado do esforço de Strick em ser fiel à obra.

Li o livro de Joyce pela primeira vez em 2002, numa tradução de Antônio Houaiss. Foi uma façanha e tanto para mim à época. Reli o clássico neste ano pandêmico, agora na versão traduzida por Caetano Galindo. Minha compreensão da obra foi bem melhor desta vez, talvez por ser duas décadas mais vivido que antes.

Ao assistir ao filme, eu não esperava uma adaptação tão esforçada em ser fiel ao livro. Em geral, diretores e roteiristas fazem versões bem diferentes do texto original.

Gostei das interpretações de Milo O'Shea como Leopold Bloom, Barbara Jefford como Molly Bloom e Maurice Roeves como Stephen Dedalus.

O filme é rodado em preto e branco. As imagens e cenários nos transportam para o cenário da Dublin de Bloom e Joyce nos anos vinte. Me identifiquei com o filme desde o primeiro minuto ao ver a cena da torre que abre a estória.

Depois vemos diversas cenas muito legais. Para quem leu a obra a identificação é imediata. O enterro de Dignam, as cenas na praia - tanto do monólogo de Dedalus no início, quanto de Bloom e a menina "coxa" no final do dia -, "coxa" como diz o personagem e nosso Brás Cubas (a respeito de Eugênia).

E o fechamento com o monólogo de Molly Bloom: é demais!

Adorei o filme! Filme para rever!

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RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM (1977)

A adaptação para o cinema do romance sobre o jovem Stephen Dedalus, alter ego de Joyce, livro lançado em 1916, anterior ao romance Ulysses, também foi bem fiel à obra. Gostei.

Rodado na Irlanda, o filme nos leva ao cenário descrito por Joyce. 

A cena da palmatória no jovem Dedalus nos revolta, uma violência absurda enquanto regra educacional e mais absurda ainda por ser aplicada de forma injusta ao garoto por causa de seus óculos quebrados, razão para não fazer as lições e com autorização do professor em sala de aula. Mesmo assim, foi punido pelo carrasco...

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Praticamente completei meu percurso com James Joyce. Não pretendo ler Finnegans Wake. Tenho muita coisa na frente para ler e acho que não volto ao escritor para essa tentativa de leitura, até porque sei que a obra é maluca demais para essa fase que estou de leituras na vida. 

Os filmes foram verdadeiros achados (em casa!) porque os comprei faz muito tempo e nem me lembrava direito que tinha filmes baseados na obra de Joyce.

Enfim, seguimos lendo e vendo adaptações para o cinema e televisão de clássicos literários.

William


1. Postagem final sobre a leitura de Ulysses, na tradução de Galindo. Clique aqui.

2. Postagem sobre a leitura de Retrato do artista quando jovem. Clique aqui.

3. Postagem sobre a leitura do Ulisses, na tradução de Houaiss. Clique aqui.