quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Queria férias da pandemia e do bolsonarismo



Opinião

Dos quase quarenta anos de trabalho, ou da venda do meu corpo em horas de trabalho para os outros - os capitalistas, os burgueses e seus agregados, gente que acha que é rica e da elite e, muitas vezes, não é porra nenhuma -, quase três décadas foram de trabalho para o sistema financeiro, dois anos para banqueiros privados e quase 27 anos como funcionário de um banco público de economia mista. Os outros dez anos foram muito foda, fiz de tudo desde os onze anos de idade, trampos braçais. Fizemos de tudo, eu e todo mundo com a mesma origem na classe trabalhadora.

Ao longo de três décadas como bancário - trabalho com direitos coletivos conquistados na base de muita luta organizada através dos sindicatos -, nos acostumamos a uma rotina de vida que incluía um ou quase dois anos de trabalho para depois tirarmos férias. Que coisa fantástica para a classe trabalhadora poder desligar alguns dias ou semanas daquela servidão necessária para sobreviver! Em alguns momentos de nossas vidas de trabalhadores, como nos anos de governos do PT (2003-2015), as férias foram momentos de muita felicidade! O céu era o limite dos sonhos das categorias profissionais assalariadas e com carteira assinada. Num mês como esse, janeiro, meu corpo traz ainda a memória das férias, das viagens de uma semana para algum lugar legal. De rede e leituras livres. (hoje estou na rede, mas o cansaço é descomunal...)

Vieram as eleições presidenciais de 2010, e o PSDB (e tudo o que ele representa) perdeu a 3ª eleição seguida para o Partido dos Trabalhadores. Depois de dois mandatos de Lula, o povo brasileiro escolheu Dilma para governar o país. O mundo enfrentava a maior crise econômica desde o crash da Bolsa de Nova Iorque, de 1929. Vivíamos a crise do subprime desta vez. Os índices de desemprego em alguns países do mundo desenvolvido variavam entre 20% e 50% da classe trabalhadora. Os tucanos liderados pelo candidato Serra se tornavam cada vez mais agressivos e destruidores da política, em parceria com os barões da mídia venal e concentrada do país. Serra inventou até uma agressão de apoiadores do PT, simulando ferimento ao ser atacado "violentamente" por uma bolinha de papel. Seria só ridículo se não fosse séria aquela esculhambação.

Em 2013, os ataques do PSDB e sua tropa midiática aos avanços do povo brasileiro seguiam através das mais diversas estratégias, diuturnamente, cotidianamente, até a náusea. Era necessário interromper os governos democráticos e pacíficos do Partido dos Trabalhadores, mesmo com o país crescendo, com o povo feliz, com os empresários ganhando dinheiro. Os empresários da grande mídia, liderados pela Rede Globo e pela revista Veja da Editora Abril, foram para o tudo ou nada para derrubar o governo de Dilma Rousseff. A única pauta midiática do país era derrubar o PT. Era preciso criminalizar a política e os políticos, criminalizar os movimentos sociais e as instituições da classe trabalhadora. A operação em andamento era baseada numa estratégia que o mundo já havia visto no passado: a máquina de propaganda nazifascista de Hitler e Mussolini. Os meios de comunicação foram usados para modificar o comportamento de todo o povo brasileiro. Foi muito ódio, muita mentira, muito medo enfiado goela abaixo de milhões de pessoas.

Em 2014, vieram novas eleições presidenciais. O mundo ainda sentia os fortes reflexos da crise econômica mundial (subprime). Um dos maiores países do mundo, a China, havia reduzido seu crescimento econômico, e isso afetou o comércio no mundo todo, inclusive de países como o nosso, fortemente apoiado na exportação de commodities. O Brasil, sob a liderança do Partido dos Trabalhadores, era quase uma ilha em relação ao mundo do trabalho e da cidadania. A taxa de desemprego daquele ano foi de 4,6%, uma das menores da história. Tínhamos emprego de carteira assinada, aumento real todos os anos, aposentados sendo respeitados pelo governo, férias, 13º salário, licença-maternidade de 6 meses para mães trabalhadoras de várias categorias organizadas. Tínhamos oportunidades para todos na área da educação, inclusive de nível superior. E os empresários seguiam ganhando muito dinheiro. Mas para o PSDB e seus agregados tirar o PT do governo era uma questão de classe e pouco importava o povo e o país.

Dilma Rousseff venceu as eleições em 2014. Era a 4ª eleição seguida que o PSDB perdia para o PT. Os tucanos e os meios de comunicação já não queriam saber de democracia, de respeito às instituições, à política e à Constituição Federal. Os tucanos questionaram a legitimidade das eleições, levantaram suspeitas sobre as urnas eletrônicas, atiçaram o ódio, gritaram "fraude!" sem prova alguma, ampliaram as mentiras contra o governo e o partido vencedor das eleições. Ao mesmo tempo uma operação chamada Lava Jato havia sido montada para destruir o governo do Partido dos Trabalhadores e condenar e prender suas lideranças. Uma das consequências drásticas dessa operação foi a destruição do país, das cadeias econômicas e de produção. Veio o desemprego em massa. Bloquearam o início do 2º mandato de Dilma através do Congresso com pautas bombas. Colocaram o presidente da Câmara, um sujeito de longa ficha corrida, para impedir o mandato da presidenta recém reeleita.

Gente, que merda tudo isso! Eu tenho que registrar essa história de forma sintética. Isso é duro, mas isso é a nossa história. Não foi invenção do Bolsonaro questionar as urnas e inventar fraudes nas eleições. Toda essa desgraça hoje começou com Aécio, FHC e essa gente tucana. Toda essa violência contra os outros começou com essa elite tucana paulista e das casas-grandes e capitanias hereditárias dos coronéis, reunidos em partidos de direita (a invenção "Centrão") e liderados pelo emedebê de hoje.

Veio um golpe em 2016, um golpe parlamentar, com apoio daquela mídia que construiu o ódio e matou a política. Com o apoio irresponsável da justiça brasileira. Jogaram o país e o povo na merda. Um troglodita de histórico envolvimento com milicianos e com décadas de mamata no poder elogiou um torturador reconhecido em sessão do Congresso durante o impeachment sem crime de Dilma - ele não saiu preso daquela sessão. Todas as leis foram rasgadas para perseguir, processar e condenar sem provas as lideranças do Partido dos Trabalhadores. A maior vítima dessa monstruosidade foi o ex-presidente Lula, que ficou 580 dias numa masmorra em Curitiba. Hoje tudo foi denunciado, a Vaza Jato mostrou as conversas e armações de servidores públicos do judiciário brasileiro para interferir nas eleições presidenciais de 2018 e o resultado foi demoníaco, foi apocalíptico. 

O ano de 2019 foi uma desgraça para o povo brasileiro, como já haviam sido os anos sob o governo do traidor lesa-pátria Temer. Os direitos trabalhistas e previdenciários foram destruídos. Neste período pós golpe de 2016 a nossa maior empresa pública, a Petrobras, foi desmontada e suas riquezas incluindo o Pré-sal foram entregues para as empresas do imperialismo. Grandes empresas estatais fundamentais para o país como os bancos públicos, Correios e Eletrobras estão sendo destruídas, esvaziadas. De 2016 pra cá é só desgraça para o povo trabalhador brasileiro e para o mundo do trabalho. Tiraram o PT do poder para uberizar o emprego brasileiro. O ano de 2020 trouxe como novidade para se somar à tragédia da destruição do Brasil, a pandemia mundial do novo coronavírus. Esta peste mudou o mundo, mas foi uma oportunidade para o regime fascista colocado no poder pelos tucanos e grande imprensa. 

O longo ano de 2019 seria de difícil repetição e manutenção do poder bolsonarista até 2022, pois havia sido um ano de destruição nacional e mentiras e ódios diários por parte do novo regime fascista. Dificilmente seria possível manter 4 anos na mesma toada de mentiras para encobrir a incompetência do governo e as denúncias de crimes de sua família e ministros. A pandemia caiu como uma luva nas mãos suspeitas do governo fascista. O vírus serviu como desculpa para justificar toda a destruição econômica e crise política e social causada pelo golpe e pelo governo de Bolsonaro e seus ministros incompetentes e mais que isso, a pandemia virou ferramenta do governo para dividir mais ainda a sociedade e o povo sofrido. O sujeito não esconde que está disposto a se manter no poder levando a sociedade brasileira à guerra civil, a uma ruptura institucional como nunca se viu antes no país, uma ruptura baseada na violência, nas táticas e estratégias conhecidas do totalitarismo nazifascista.

Queria férias da pandemia e do bolsonarismo. Mas não há tempo a se perder. Está em andamento um regime de morte e fim das liberdades civis, de miséria e fanatismo. De escravidão.

Ou nos unimos e combatemos o que vem por aí, ou morreremos sem ter ao menos tentado lutar pela democracia, pela liberdade, pela cultura, pelo amor, pela amizade, pela solidariedade, pela tolerância, pela distribuição da riqueza e pela igualdade de oportunidades a todas as pessoas. Morreremos sem ao menos lutar contra a exploração assassina da classe trabalhadora.

Queria férias da pandemia e do bolsonarismo, mas sei que não teremos férias. Nossas vidas estão sob risco neste exato instante.

William


quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

060121 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Quarta-feira, 6 de janeiro do ano 2 do Covid-19. Que temos visto, lido, ouvido, refletido?

Estou terminando a leitura de um livro de contos de Julio Cortázar, Las armas secretas (1959). Falta um conto agora. Literatura é importante para os seres humanos, para sermos Seres Humanos. Acreditem! Se possível, leiam textos literários diariamente, nem que seja por meia hora. Se não tiverem o hábito, comecem a ter. Podemos salvar a humanidade se salvarmos a linguagem, a cultura, a educação, o cérebro humano.

Estou criando coragem para fazer meu trabalho de conclusão da matéria que estudei no semestre passado na faculdade, temos que entregar o texto no início de fevereiro. Feito isso, encerrarei uma etapa de minha vida, uma das coisas boas que fiz nos últimos dois anos de crise profunda do Brasil golpeado e em destruição. Assim que concluir o bacharelado em Letras, terei que estabelecer outras coisas boas para perseguir e alcançar na vida.

Não sei vocês o que pensam, mas eu tenho claro que os longos dias do ano de 2021 serão para o povo brasileiro iguais ou piores que os dois anos desgraçados sob o regime neofascista implantado pelos tucanos, emedebistas e pelos meios de comunicação empresarial (P.I.G.: Partido da Imprensa Golpista), ferramentas ideológicas da casa-grande que destruiu o país só para interromper os avanços que vinham ocorrendo para a classe trabalhadora durante os governos do Partido dos Trabalhadores (2003-2014). 

Esses golpistas lesas-pátrias da casa-grande e dos partidos de direita e seus servidores infiltrados nos órgãos do Estado deveriam sofrer julgamentos em cortes penais internacionais por crimes contra a humanidade. É só ver o genocídio atual por causa deles em relação à pandemia: 197.732 mortos e 7,8 milhões de contaminados e sequelados. Não teremos vacina contra Covid-19 neste ano e com isso não teremos retomada da economia, dos empregos, da vida. As mortes morridas e matadas, as mortes severinas, vão aumentar no Brasil de Bolsonaro, P.I.G. e elite do atraso. 

Neste momento em que escrevo a postagem, a imprensa divulga que o demente no poder vetou a compra de insumos como seringas para a vacinação contra o novo coronavírus. Já não temos plano de vacinação. Bolsonaro não é impedido porque ele está fazendo nestes dois anos o que a casa-grande quer, destruindo o Estado nacional e os direitos do povo. A pandemia e as mortes são estratégicas para o regime fascista, pois assim parte da vanguarda que poderia estar nas ruas mobilizando está paralisada para não contribuir com a expansão da contaminação pelo vírus.

Como o ano será duríssimo, um ano de impasse na frente de batalha entre capital versus trabalho (1% X 99%), impasse como ocorreu nos anos finais nos fronts da 1ª Guerra Mundial (1914-1918), temos que trabalhar nosso psicológico e nosso físico para sobreviver, para resistir, sob condições ruins de vida, porque não podemos circular por aí por causa da pandemia. Temos que sobreviver a este período de exceção, que começou em 2016. E ao mesmo tempo temos que estudar e nos fortalecer para as batalhas que virão.

Resistir. Vamos ver esses desgraçados golpistas caírem. O clã miliciano e seus principais membros ainda serão julgados, condenados e presos. Mais que isso, eu ainda sonho com o fim do capitalismo e dos capitalistas (o 1%) e a vitória do povo com um novo regime mundial, o socialismo, que pode salvar os 99% da população do mundo e a vida no planeta Terra.

William


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Livro: Poemas 1913-1956 - Bertolt Brecht


Refeição Cultural

"A MINHA MÃE

Quando ela acabou, foi colocada na terra
Flores nascem, borboletas esvoejam por cima...
Leve, ela não fez pressão sobre a terra
Quanta dor foi preciso para que ficasse tão leve!
"

(BRECHT, 2012, p. 21)


Completei a leitura do livro Poemas 1913-1956 de Bertolt Brecht. A edição é da Editora 34; a seleção e tradução é de Paulo César de Souza. São 260 poemas abrangendo diversas fases da vida do escritor, dramaturgo e poeta alemão.

São poemas engajados, politizados e com fortes críticas à alienação, à religião e à falta de reação da classe trabalhadora e de suas lideranças em relação à exploração humilhante e assassina por parte dos burgueses e capitalistas. Os poemas são muito pertinentes para os tempos que vivemos, de necrocapitalismo, neoliberalismo, e ampliação da exploração das massas humanas no século 21.

1913-1926

Difícil citar só alguns poemas. A seleção já fala por si, afinal de contas é uma "seleção" organizada por Paulo César de Souza. Mesmo assim, cito alguns poemas ou alguns versos para se ter uma ideia da poética de Brecht.

O poema "Ó FALLADAH, AÍ ESTÁS PENDURADO!" tem como Eu lírico um cavalo de carroça, que após uma vida de fome, exploração e miséria cai na sarjeta, esgotado, e é cortado e comido ainda vivo pelo povo faminto, o mesmo povo que lhe dava comida quando parava por ali. A imagem é impressionante.

"Mal acabara de cair, no chão o pescoço
(O cocheiro criou asas)
Já saíam correndo das casas
Pessoas famintas; um pedaço de carne queriam obter
Com facas arrancaram-me a carne do osso
E eu que ainda vivia, não havia terminado de morrer
"

(p. 14)

Alguns poemas são bem ácidos em relação às personagens da religião cristã. O poema "MARIA" é um exemplo. Outro é o "HINO A DEUS", veja a primeira estrofe:

"No fundo dos vales escuros morrem os famintos.
Mas você lhes mostra o pão e os deixa morrer.
Mas você reina eterno e invisível
Radiante e cruel, sobre o plano infinito.
"

(p. 13)

Poemas do Manual de devoção de Bertolt Brecht

Dessa parte da seleção de poemas, um dos que são mais chocantes, na minha opinião, porque são poemas que nos incomodam, é o poema "DA COMPLACÊNCIA DA NATUREZA". Vejam uma estrofe:

"E à noite o gemido fundo e lascivo da mulher
Cobre o choro da criança no canto do quarto.
E na mão que bateu no menino cai carinhosa
A maçã da árvore mais exuberante de um ano farto.
"

(p. 44)

1926-1933

Nesta fase, os poemas são críticas agudas à ascensão do fascismo na Alemanha e na Europa. Os poemas têm como pano de fundo a miséria da crise econômica mundial.

"QUEM SE DEFENDE

Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legítima defesa. Mas
O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão.
E no entanto morre quem não come, e quem
              [não come o suficiente
Morre lentamente. Durante os anos
              [todos em que morre
Não lhe é permitido se defender.
"

(p. 73)

O poema "SOBRE A MANEIRA DE CONSTRUIR OBRAS DURADOURAS" nos coloca a pensar sobre a questão do tempo, da necessidade de lidar com os tempos duríssimos que estamos enfrentando no Brasil. Não devemos nos acomodar, mas temos que ter paciência porque as coisas talvez demorem muito para mudar e temos que resistir. 

No entanto, outro poema de Brecht, do mesmo período, nos relembra daquele conceito de Paulo Freire, que esperança não é esperar, é esperançar, é uma atitude ativa, de fazer, de organizar, de criar o futuro desejado.

"OS ESPERANÇOSOS

Pelo que esperam?
Que os surdos se deixem convencer
E que os insaciáveis
Lhes devolvam algo?
Os lobos os alimentarão, em vez de devorá-los!
Por amizade
Os tigres convidarão
A lhes arrancarem os dentes!
É por isso que esperam!
"

(p. 102)

Há muitos outros poemas que refletem os tempos que correm, de guerras, de perseguições, de ódio e violência, de incertezas no amanhã.

Esse período até 1933, tem muitos poemas marcantes. O livro fecha o período com "ELOGIO DO APRENDIZADO", "ELOGIO DO PARTIDO" e "MAS QUEM É O PARTIDO", seguidos pelo poema "ALEMANHA".

A questão da importância do coletivo é muito forte. Também a importância do estudo, sobre aprender sempre.

Vou terminar a postagem porque ela ficaria enorme se eu fosse perpassar período por período da seleção de poemas de Brecht. São 260 poemas e devem ser relidos com prazer.

Os outros períodos são: "1933-1938", "Dos Poemas de Svendborg", "1938-1941", "1941-1947" e "1947-1956". Ao fazer a postagem, acabei relendo a primeira parte que havia lido em 2018, foram mais 100 páginas de leituras.

Vale a pena conhecer e ler Bertolt Brecht.

Seguimos esperançosos na vida e no remédio que o tempo nos proporciona. Uma hora esse período de ascensão e predomínio do mal aqui no Brasil vai passar, esses genocidas e gente bandida e desprezível serão retirados das posições de poder e outros tempos virão. 

A pandemia de Covid-19 vai passar, demore ou não a vacina. E se tivermos as condições básicas para ficarmos em casa e evitar aglomerações, devemos seguir as recomendações de distanciamento social, uso de máscaras, higienização etc. 

E como diz o poema "PASSAGEM DA NOITE", de Drummond: 

"Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
"


William


Bibliografia:

BRECHT, Bertolt. Poemas 1913-1956. Seleção e tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Editora 34, 2012 (7ª Edição). A 1ª ed. é de 1986.


domingo, 3 de janeiro de 2021

Narrativas curtas - Dias tristes



Dias tristes

Soube da morte de um grande companheiro de lutas da classe trabalhadora logo depois do meio-dia do domingo. Ele não resistiu à infecção pelo novo coronavírus (Covid-19). A notícia foi arrasadora. Ele se perguntava até quando seguiria aquela rotina de morte, rotina causada pelo regime político que estava no poder após o golpe de Estado que o país havia sofrido alguns anos antes.

Pela manhã, havia saído para buscar pães na padaria próxima de casa. Encontrou o Henrique, rapaz que pede ajuda no farol. Deu uma ajuda pra ele, entre cumprimentos de feliz Ano Novo. Ao sair da padaria, outra pessoa pediu uma ajuda, disse que não queria dinheiro, queria leite para os filhos. Ao pagar o leite na padaria a moça do caixa lhe disse que aquele pedinte era assim mesmo, sempre pedia leite para os filhos. Já em casa, soube da melhora de um conhecido com Covid-19, ele havia voltado a sentir o cheiro das coisas. Estava na fase final da recuperação dos sintomas.

A notícia da morte de mais uma pessoa tão querida e que dedicou toda a vida à luta da classe trabalhadora o deixou abobado, deprimido, com o peito apertado, o coração esquisito. Levantou-se, trocou de roupa, colocou sua máscara contra Covid-19, disfarçou a dor e saiu para andar, correr, se arrastar por aí, gastar tempo nas ruas de seu bairro. Começou a correr lentamente e assim foi por meia hora. Passou na frente do portão da Cidade de Deus, do Bradesco, e parou na praça em frente à Prefeitura de Osasco. Ali ficou pensando sobre a vida, as lutas, o golpe de Estado, o processo fraudulento que colocou no poder aquele ser abjeto; pensou e sentiu a morte do companheiro, as mortes de tanta gente querida e que poderia estar viva.

Muitas lembranças vieram em suas memórias. Foi olhando para trás e tentando compreender o porquê de tanto retrocesso, perdas e mortes. Será que havia uma ação específica ou um momento decisivo no tempo e na história do Brasil que pudesse ser definido como o início de toda a tragédia que o país e o povo enfrentavam? Dias marcados na história política do Brasil como dias tristes, de grande tristeza para o país e o povo? 

Pensando a respeito da tristeza na qual o Brasil estava mergulhado, o que pôde avaliar é que não havia somente um ponto específico, um divisor de águas, um único começo do fim no período de avanços populares que vinham se desenvolvendo para o povo brasileiro desde a eleição do maior líder popular da história recente do país, Luiz Inácio Lula da Silva. Talvez alguns momentos pudessem ser apontados como marcos negativos da história, pontos de ruptura, dias tristes.

O dia 17 de abril de 2016, um domingo, poderia ser considerado um desses dias tristes, desses que afetariam a nossa história para sempre. Naquele domingo, em Brasília, uma camarilha de corruptos e corruptores votava na Câmara dos Deputados a abertura do processo de impeachment de uma presidenta honesta, combatente de toda uma vida pela democracia, pelo Brasil e pelo povo brasileiro. Naquela sessão do Congresso, um dos deputados teve a ousadia de cometer o crime de exaltar o torturador de Dilma Rousseff. Ele não saiu preso. Já a mulher presidenta, foi afastada sem cometer crime algum.

O dia 31 de agosto de 2016, uma quarta-feira, seria o complemento do golpe contra o povo e contra o país, e o Senado cassaria o mandato da presidenta Dilma Rousseff, eleita em processo legítimo e democrático por 54,5 milhões de votos. Aquela alcateia de animais fétidos instalada no Congresso entregaria o comando do país a um traidor da pátria e um dos organizadores do golpe. Aquele dia marcava o início do fim dos direitos trabalhistas e previdenciários do povo brasileiro. Que dia triste!

O dia 7 de abril de 2018, um sábado, mancharia a história do Brasil com a prisão do ex-presidente Lula, condenação e prisão encomendadas para tirá-lo do processo eleitoral daquele ano, uma prisão sem crime, sem provas, apenas por convicção dos "juízes" e por fatos indeterminados. Que dia triste! Que dias tristes viveram os brasileiros que não compactuavam com toda aquela armação e golpe. Lula ficaria preso naquela masmorra em Curitiba por 580 dias. Quando saiu, o país já se desfazia sob o comando do exaltador de torturador e defensor da morte e da destruição de tudo. Que dias tristes!

Talvez o dia mais triste da história do Brasil, quiçá um dos dias mais tristes da história da humanidade, tenha sido o dia 28 de outubro de 2018, um domingo de triste lembrança. Naquele dia, o povo brasileiro escolhia o atual líder neofascista; o povo cometia suicídio coletivo; o povo brasileiro escolhia a morte e a destruição de tudo, com os corações cheios de mágoas, ódios e medos alimentados por anos a fio através de mentiras construídas pela grande mídia empresarial e alguns segmentos de influenciadores, incluindo fanáticos de determinada linha de igrejas-empresas. 

Que dias tristes tivemos desde aquele fatídico dia 28 de outubro de 2018. As quase 200 mil mortes pela pandemia mundial de Covid-19 são consequência daquele dia. Se houvesse compromisso do governo do país com o enfrentamento da pandemia, as consequências oriundas do vírus seriam muito diferentes. A destruição nunca vista dos biomas brasileiros como a Amazônia, o Pantanal, as matas e mangues da costa brasileira é consequência daquele dia triste. Os retrocessos incalculáveis na educação, saúde, cultura, emprego e demais direitos sociais, civis e políticos, nos direitos humanos, enfim, os retrocessos em tudo são consequências daquele dia triste.

Nada seria como antes.

Fim


030121 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Domingo, dia 3 do segundo ano do aparecimento da pandemia mundial do novo coronavírus (03/01/02 d.C - depois do Covid-19). Ou quase poderíamos dizer que hoje é o dia 03/13/2020 (d.C.). Mas não é assim. Por convenção, estamos no 3º dia do mês de janeiro do ano de 2021. Mudamos até a década. Agora começamos a terceira década do século 21 após a marcação do tempo baseada na data de nascimento do judeu Jesus de Nazaré, o Cristo. Este é o terceiro milênio após essa referência religiosa, do homem Jesus de Nazaré ou do filho de Deus, Jesus Cristo.

Enfim, estamos por aqui. Vivos e vivendo a vida do jeito que se é possível viver. Neste instante, registro alguns pensamentos e algumas coisas pessoais e diria até coletivas, pois tudo está interligado no Universo, eu inclusive com tudo ao meu redor. Neste momento respiro bem, não tenho sinais de infecção pelo tal vírus. Tenho outros problemas de saúde como a maior parte das pessoas, mas luto para viver porque tenho amor pelas pessoas e a vida é uma oportunidade única.

Terminei a leitura de mais um livro, um livro de poesias do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. São 260 poemas. Alguns me levaram a pensar muito. Boa parte deles me fez sentir indignação, mal-estar com a sociedade humana sob o capitalismo, sob as guerras. Percebi que não conheço nada de Brecht. Agora conheço esses poemas selecionados. Valeu a pena a leitura.

Fiquei pensando muito nas reflexões do filósofo Ailton Krenak, após ler sua entrevista na revista Carta Capital. Ele afirma que o capitalismo e seus arquitetos planejam um mundo onde a metade da população seja exterminada, uns 4 bilhões de pessoas. Acho que isso tem sentido e é muito sério. A tecnologia e a acumulação do presente permitem esse extermínio. A nossa vida não vale mais nada para o capitalismo, nem como mão de obra barata, já que a tecnologia mudou isso e nossa reprodução é mais cara que nos eliminar. No entanto, eu acho que a vida é o bem mais precioso e a vida de todas as pessoas. Temos que arregimentar pessoas que queiram se unir para derrotar o capitalismo e os capitalistas. São eles contra nós e o planeta. De que lado você está?

Eu aprendi durante duas décadas de convivência com as lutas da classe trabalhadora que é possível lutar por um mundo justo, solidário, desenvolvido e igualitário na distribuição da riqueza produzida. É possível!

É possível mudar as pessoas e mudar o mundo. É possível ser feliz e pertencer a projetos coletivos que simbolizem a vida. Vocês não acham?

Bom domingo a vocês!

William


sábado, 2 de janeiro de 2021

Narrativas curtas - O amigo do filho do prefeito







O amigo do filho do prefeito

Estavam comemorando a posse do pai, agora prefeito de uma grande cidade. A turma já tinha tomado todas e o dono do restaurante já havia dito que precisava fechar por causa do horário e do decreto da pandemia, publicado pela gestão anterior e ainda em vigor.

A algazarra era enorme. Eles incomodaram muito os outros clientes do restaurante, caçoando daqueles que usavam máscara, inclusive os atendentes, e um deles até chegou a arrumar confusão, mexendo com a filha de um dos clientes. Quando o dono do estabelecimento interveio, o rapaz falou umas merdas a ele e disse que estava com o filho do prefeito.

Perto dali, uma blitz escolhia aleatoriamente alguns carros e motos para verificar documentos e irregularidades nos veículos. Winson estava sem paciência naquele dia, seu superior o havia humilhado quando chegou atrasado naquela noite. Sua esposa não estava bem, tinha febre e estava com dores de cabeça e ele não conseguiu folga pra ficar com ela. Queria ter levado ela no postinho de saúde para tentar fazer um exame.

O filho do novo prefeito e seus amigos tinham decidido ir para uma festa clandestina que estava rolando num casarão alugado em outro bairro. O pessoal que convidou eles disse que a casa estava lotada e tinha muita gente doidona lá, que era só chegar chegando, escolher a pessoa com quem ficar e sair pro abraço ou pro amasso.

A rua onde ocorria a blitz dava acesso a uma avenida que ligava aquela região nobre da cidade a um bairro de classe média, onde estava o casarão da festa. O cabo Winson estava com três soldados naquele ponto e não via a hora de terminar o seu turno para ir embora.

Como a rua era estreita, a blitz diminuiu a velocidade do fluxo de veículos. Enquanto um dos soldados verificava a documentação do veículo parado, os outros mantinham a atenção na passagem dos carros e motos.

O amigo do filho do prefeito estava excitado com toda a farra já feita, as bebidas já ingeridas e com a festa que os aguardava. Naquela noite, o céu era o limite. Ele colocou a mão pra fora do carro e começou a bater na porta e reclamar daquele trânsito inesperado. Todos no carro o seguiram nas reclamações e gritos.

Ao passarem pela blitz, um dos soldados mandou eles encostarem logo adiante. Os caras dentro do carro ficaram indignados por serem parados.

O soldado se aproximou e pediu os documentos do carro e do motorista. Antes que o rapaz no volante respondesse ao soldado, o amigo do filho do prefeito já estava aos gritos dizendo que ali era autoridade, que o filho do prefeito não tinha que ser parado em blitz.

Outro soldado, com a mão do coldre de sua arma, se aproximou ao ouvir a discussão e pediu que todos descessem do carro.

O primeiro soldado, o que pediu os documentos ao motorista, também assumiu uma postura mais ríspida e mandou que os rapazes fossem para a parede próxima do carro.

O amigo do filho do prefeito estava muito exaltado, vociferava, veias saltadas, repetia que ali tinha autoridade e que não admitia serem tratados daquele jeito por reles soldados. Exigiu que queria falar com quem estava no comando.

Tudo havia se passado relativamente rápido, coisa de minutos. 

Um dos soldados ainda foi prestativo e disse que iria chamar seu superior imediato, o cabo Winson, já que o terceiro sargento não estava no momento.

- Aquele preto é o superior?, disse o amigo do filho do prefeito. - Vocês tão de brincadeira!, completou.

O cabo Winson já vinha se aproximando daquela discussão envolvendo os dois soldados e os rapazes do veículo.

Não deu tempo pra mais nada, o amigo do filho do prefeito estava armado, ele estava alucinado, descontrolado. Ao colocar a mão no coldre de sua pistola, um dos soldados sacou sua arma e mirou nele. O filho do prefeito rapidamente pediu calma e avançou para conter o amigo. 

Não deu tempo.

O outro policial sacou e atirou ao ver a reação dos rapazes em maior número, estando um deles armado. Um dos jovens caiu bruscamente no chão. 

O cabo Winson e os dois soldados conseguiram dominar a situação e foi dada voz de prisão aos rapazes e os soldados pediram por rádio que viesse uma ambulância porque havia gente ferida a bala no local.

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O prefeito custou a dormir naquela noite. O dia da posse havia sido tumultuado. Não foi uma cerimônia de paz e cordialidade. O clima beligerante que dominou a campanha estava instalado no salão. 

A oposição seguia dizendo que a eleição havia sido fraudada, baseada em fake news, e influenciada por fanáticos da igreja parceira do novo prefeito.

Algumas falas permitidas durante a posse só fizeram piorar o clima do evento. 

Um membro da oposição repetiu sua posição contrária a armar a população civil. Alegava que quanto mais civis estivessem armados, mais tiros e mortes desnecessárias ocorreriam na cidade. A oposição entendia que somente as autoridades policiais deveriam portar armas na comunidade. Apesar de sua posição não armamentista, a lei era nacional e não local.

Os tempos eram outros. Fazer arminha com os dedos era a nova onda. Armas em nome da segurança pessoal. Armas em nome dos direitos individuais. Armas em nome de Deus, da família e da propriedade privada. Armas em nome da liberdade total do cidadão de bem. Era a onda. E o povo estava com o novo prefeito e com a bancada majoritária que havia sido eleita para o mandato que se iniciava.

Assim que conseguiu pegar no sono, o telefone do prefeito tocou na cabeceira de sua cama. Chamou duas vezes por longo tempo até que ele acordasse, pois havia tomado um calmante para dormir.

Atendeu o telefone e do outro lado, alguém falava de uma blitz, de rapazes alcoolizados, de reação.

O prefeito não entendeu nada. Sentou-se na cama e mandou que a pessoa se identificasse e falasse claramente o que estava acontecendo.

O cabo Winson se identificou e informou que houve um incidente envolvendo um grupo de rapazes ao serem parados numa blitz naquela noite e que, infelizmente, um dos rapazes havia sido baleado.

Com o coração a mil, o prefeito perguntou quem havia sido baleado, se estava tudo bem com o filho dele e com seu amigo de infância, que haviam saído juntos para comemorarem.

O cabo Winson informou que seu filho havia falecido após os rapazes reagirem armados a uma blitz da polícia naquela noite.

O prefeito deixou o telefone cair... ele mal havia tomado posse, tinha quatro anos pela frente...

Nada seria como antes.


Fim


sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

O sonho de correr uma maratona



Sonhar não é proibido. Pelo contrário, os tempos difíceis e deprimentes que vivemos são perfeitos para idealizarmos alguns projetos e sonhos porque ter objetivos na vida ajuda as pessoas a seguirem adiante, focadas em algumas coisas a realizar.

Tenho um sonho antigo de correr e completar uma maratona. O tempo foi passando e não consegui realizar esse objetivo. Meus compromissos de trabalho e de estudos eram incompatíveis com os treinamentos para preparar o corpo para correr 42 Km. Agora que tenho tempo disponível, a condição de saúde já não é ideal. Porém, não desisti do sonho.

Apesar de ter desgaste na região dos quadris e ter perdido muita massa muscular por algum motivo, preciso correr com certa frequência porque essa atividade aeróbica é a única que controla um pouco minha pressão arterial e os níveis de colesterol. O Dr. Ricardo me dizia, quando trabalhava em Brasília entre 2014 e 2018, que corridas noturnas seriam excelentes para baixar a pressão arterial. E são mesmo!

Neste primeiro dia do ano, estava com sensação ruim no corpo, meio empanzinado por causa das comidas de ontem e hoje, incluindo doce. Como já voltei a fazer boas sequências de corrida nos últimos meses, resolvi sair de noite para uma corrida e para ver se melhorava o mal-estar.

Corri 10K e a corrida me fez sentir bem melhor. Estou relaxado agora à noite e comecei o ano com o pé esquerdo para meus treinamentos de corrida para um dia correr uma maratona. Estou aumentando a carga de corrida desde setembro e já aumentei o percurso dos meus longões, que no primeiro semestre eram de menos de 7K. Já estou fazendo uns 13K. Agora o desafio é chegar a uns 20K nos próximos dois meses.

Dezembro

29/12 - 30' corrida
27/12 - 40' bike
26/12 - 70' caminhada
24/12 - 50' caminhada
23/12 - 85' corrida (13K)
20/12 - 60' bike
19/12 - 51' corrida
16/12 - 50' caminhada
13/12 - 32' corrida
12/12 - 40' bike
10/12 - 55' corrida
06/12 - 90' corrida (13,5K)
02/12 - 32' corrida

Corri cerca de 57 Km em 7 vezes. Calculei com base em corridas com o Km a 6'30". Os 375' corridos dão 57,7 Km.

Ao analisar minha evolução em relação ao percurso mensal de corridas, estou muito satisfeito. Em julho corri 29 Km em 6 vezes; em agosto 27,5K em 7 vezes; em setembro 36,5K em 9 vezes; em outubro 29K em 4 vezes; em novembro corri 437', o que dá uma média de 62 Km percorridos no mês, foi demais! Calculei novembro com o Km a 7 minutos. Foi trote de resistência mesmo.

Todas as minhas atividades aeróbicas são feitas com muito cuidado em relação ao isolamento social, escolho horários, percursos e locais nos quais não tenho contato com quase ninguém como foi a corrida de hoje. Não tinha ninguém na rua e foi uma corrida silenciosa na noite osasquense.

Vamos nos cuidar. Dificilmente teremos acesso a vacinas contra Covid-19 neste ano de 2021, pois a pandemia é estratégica para o regime fascista que foi colocado no poder pelos golpistas de 2016 e não há mudanças no horizonte. Temos que achar um ponto de equilíbrio para vencermos essa etapa difícil da vida pessoal e nacional.

Abraços a vocês que nos acompanham.

William

010121 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"1
É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.

Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranquilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?
"

("Aos que vão nascer", Bertolt Brecht)


Primeiro dia do ano de 2021. Osasco, São Paulo.

Estou lendo Bertolt Brecht, um livro de poemas selecionados e traduzidos por Paulo César de Souza, publicado pela Editora 34. Ao ler a respeito do autor na "Cronologia da vida e da obra de Brecht", à página 345 da edição, fiquei surpreso. Que história; que vida! Que produção na dramaturgia! E eu sou um completo desconhecedor de sua obra. É uma confissão necessária.

Eu adquiri o livro entre o final de 2017 e início de 2018. Ao reler postagens do blog, vi que os poemas de Brecht foram escolhidos por mim para me acompanharem nas viagens pelo Brasil durante a campanha eleitoral da Cassi, a Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, entre fevereiro e março daquele ano. Fiz duas postagens na época, ler aqui e aqui. Naquela oportunidade, li cerca de 150 páginas do livro. Agora, retomei para acabar a leitura.

Brecht nasceu na Alemanha em 1898 e morreu vítima de um enfarte em 1956, ou seja, morreu relativamente novo, aos 58 anos. Foi um dramaturgo e poeta que viveu as duas grandes guerras, a grande depressão econômica dos anos 30 e a Guerra Fria. Aos 26 anos, já tinha 3 filhos com 3 mulheres diferentes. Leu O Capital, de Karl Marx aos 28 anos. Leu Ulisses, de James Joyce, aos 30. Foi amigo de Walter Benjamin. Como refugiado, viveu em diversos países. Foi uma vida intensa e uma produção importante para nós que nos situamos na classe trabalhadora.

A leitura de seus poemas nos faz pensar muito, além de nos fazer sentir as emoções que a leitura de poesia nos faz.

Vamos ver se dedico esse período que se inicia hoje, o dificílimo ano de 2021 (com pandemia e sem vacina, com Bolsonaro e bolsonarismo, sem emprego e sem auxílio emergencial para o povo), com muita leitura, muitos estudos e com algum tipo de produção textual inovadora, que traga algo de novo para os leitores que acessarem o blog. A narrativa curta que produzi hoje tem esse intuito (ler aqui). Vamos ver se crio algo interessante no campo da ficção literária.

Temos que vencer o ódio e o medo, que nos cegam e imobilizam, e temos que vencer a divisão da classe trabalhadora. Só assim nascerá uma perspectiva de reverter a destruição do país e a miséria absoluta na qual o povo foi colocado após o golpe de Estado em 2016, o ano que ainda não terminou.

Abraços e boas leituras neste ano de 2021. Que eu e vocês encontremos amor, tolerância, resistência e imaginação.

William


Bibliografia:

BRECHT, Bertolt. Poemas 1913-1956. Seleção e tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Editora 34, 2012 (7ª edição).


Narrativas curtas - Ano Novo







Ano Novo

Ela gostava da natureza. Nunca pôde falar muito sobre isso em casa porque a questão era tratada como bobagem, coisa de mulherzinha ou de gente sentimental. Gostava de flores e de pássaros.

A manhã estava silenciosa. Manhã de ressacas, primeiro dia do ano.

Levantou-se e perambulou pela casa enorme. Ainda se lembrava das falas, gritos, urros, das frases machistas e sexistas ao redor da mesa do réveillon. À medida que bebiam, mais falavam mal de mulheres. Como pode ninguém fazer nada contra isso!, pensou.

Acordou cansada, com um desânimo em relação ao futuro, ao futuro dela, uma menina no centro do poder, sem poder algum de decidir sua vida. Queria uma vida diferente. Estava cansada de ser julgada por causa de seus familiares, pelo meio onde vivia.

Às vezes, pensava besteira, pensava loucuras. Já estivera a ponto de fazer bobagem ao ver algumas das armas em cima de criados-mudos, mesa de jantar, mesinha da sala, ao lado de copos e garrafas. Ela cresceu vendo o manuseio daquilo como se fossem facas de cozinha no café da manhã.

Um novo ano começava. Nada de novo começava. A vida seguia para ela como no dia anterior. Marcada e julgada dentro e fora de casa por aquilo que ela era: uma menina dentro daquela família. A chacota de todo mundo.

O pior de tudo é que nem se achava bela, recatada e do lar. Era mulher. Mulherzinha. Era somente o fruto de uma fraquejada, como ela e amigas passaram a ser chamadas pelas costas ou nas horas de discussões ruins.

Queria mudanças em sua vida. Estava cansada de tudo aquilo. Mas tudo que via pela frente no ano novo era a repetição dos anos velhos, nada sinalizava mudanças em sua vida.

Na varanda da casa, via os pássaros cantando naquela manhã de sol. Seus passos rumo ao quintal espantaram os pássaros, que pousavam naquela grama sempre atentos aos ataques, pois ali não gostavam da natureza. Quando não era algo jogado neles, era tiro que deixava um deles morto no chão.

A menina viu a arma esquecida ao lado da churrasqueira, entre garrafas de uísque e copos.

Entrou silenciosamente em casa. Avançou pelos corredores e foi para o banheiro social.

Antes de entrar no banheiro e fechar a porta, tomou um susto ao ouvir seu pai perguntando o que ela estava fazendo. Seu coração quase saiu pela boca. Ficou branca de susto, boca seca.

Numa fração de segundos, levantou a mão com a arma e disse que estava cheia de tudo aquilo, cansada. Só queria ser uma garota como outra qualquer, poder andar pelas ruas e sair com as amigas sem ser a referência daquilo que foi dito sobre elas, mulherzinhas, frutos de fraquejada.

Queria namorar sem ser a chacota dos amigos do garoto que estivesse namorando com ela. Estava cansada de tudo aquilo.

No primeiro instante, o pai foi o que era sempre, rude, grosso, autoritário. Mandou que ela largasse aquilo.

Ela seguia dizendo que estava cansada de tudo, que só queria uma vida normal. Chorava com raiva reprimida.

O pai mudou o tom e tentou persuadi-la a largar a arma porque aquilo era perigoso nas mãos de criança.

Será que o pai quis dizer que aquilo era perigoso na mão de mulher? De mulherzinha?

O pai seguiu falando mais baixo, mas mais ríspido, andando no sentido dela. - Filha, me dá a arma!, falou.

Ela não sabia o que fazer. As coisas não seriam mais como antes, após esse momento. Seriam piores que os dias anteriores, que já eram ruins. Cansaço... estava cansada de tudo aquilo.

3 tiros acordaram todo mundo na casa. Foi a maior gritaria. Correria geral.

O primeiro que chegou ao corredor foi o irmão. Depois a mulher.

O homem estava estirado no chão.

3 tiros no peito.

Nada seria como antes.


Fim


quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

13. As intermitências da morte - José Saramago



Refeição Cultural - Cem clássicos

"No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada..." (SARAMAGO, 2005, p. 11)


Terminei neste dia 30 de dezembro de 2020, um ano que poderíamos considerar o ano do protagonismo da morte devido à pandemia mundial de Covid-19, a leitura de mais uma obra de José Saramago, As intermitências da morte, publicado em 2005. Terminei aos prantos. Coração apertado. Que fábula! Que autor clássico! 

Como a definição de clássico é uma definição em aberto, eu defino Saramago como um clássico, o que não quer dizer que toda leitura que fizer dele será considerada leitura de um clássico. Não conto Todos os nomes (1997) como um clássico, mesmo tendo me deliciado com a leitura.

Estou cumprindo um desejo antigo de enumerar as leituras de clássicos que fiz na vida e que estou fazendo, já que estou vivo, mesmo com pandemia, com desgastes corporais e com o mal instalado nos poderes do país no qual nasci e vivo. Estou vivo e sigo lendo.

Quando me coloco a lembrar das leituras que já fiz, poucas são aquelas que me fizeram rir e chorar. Não me lembro de muitos momentos assim ao olhar para trás. 

Fernando Sabino me fez rir muito com O grande mentecapto (1979) e o seu Geraldo Viramundo. Jorge Amado com o personagem Quincas Berro d'Água (1959). Miguel de Cervantes com nosso cavaleiro da triste figura dom Quixote e também com o carismático Sancho Pança (1605/1615). Saramago, com A viagem do elefante (2008), o Ensaio sobre a cegueira (1995) e este com a morte como protagonista de uma estória.

Se a Parca permitir, talvez faça uma postagem específica sobre a leitura desta obra, com algumas frases e momentos interessantes. (ler as frases selecionadas aqui)

Fiz a leitura de As intermitências da morte pelas manhãs desta semana, entre os dias 25 e 30. Estou mantendo o celular desligado desde o fim da noite até o início da tarde, para me afastar um pouco da droga das redes sociais e das desgraças que nos assolam em tempos de regime fascista e pandemia.

Tem sido uma experiência útil. Ao desligar-me da matrix por algumas horas, meu cérebro se colocou a pensar, lembrar, cismar, refletir e buscar alguma coisa, quem sabe, saídas. 

As redes sociais e as máquinas dos donos do mundo destruíram a humanidade, mas a vida segue, já que ainda estamos no mundo. Temos que resgatar os humanos, mas ainda não achamos uma forma de fazer isso. Quem sabe lendo, estudando, pensando, possamos agir de forma mais eficiente no salvamento do mundo.

A leitura vale muito a pena. Rir, chorar e pensar muito sobre a vida e a morte, são essas as consequências básicas ao se experimentar a leitura desse clássico da literatura universal.

William


Bibliografia:

SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


terça-feira, 29 de dezembro de 2020

291220 - Diário e reflexões



Tempos tempestuosos

Terça-feira, 29 de dezembro do ano da pandemia do novo coronavírus. Ano 5 do golpe de Estado que destruiu o Brasil. Tempos difíceis! Porém, tempos que devem ser superados por nós que estamos do lado certo da história, que não colocamos no poder os celerados e genocidas que tomaram de assalto todos os órgãos do Estado. Eu votei em um educador para presidente em 2018. Não votei em nenhum escroto para os parlamentos. Votei na Dilma em 2014, derrubada pelo golpe mais vil que este país já viveu. 

A morte espreita a todos nós. Está no ar, no elevador, no abraço, na confraternização (falo de um dos agentes da morte, o vírus Sars-CoV-2). Fico imaginando a morte como na narrativa fantástica de José Saramago, que estou terminando, As intermitências da morte. A morte fez convênio com os criminosos de guerra no poder no Brasil. Os líderes do regime incentivam a morte de todas as formas, defendem a guerra, o armamento, a tortura, a exploração dos povos miseráveis.

As diversas maneiras de morrer estão em alta nesta terra de ninguém, terra dos bolsonaros, terra dos donos das mídias empresariais que colocaram o genocida no poder e o mantêm lá. Terra de racistas, terra de exploração, terra de maldades. E sobreviver é preciso, é necessário.

Homens se sentem livres para estuprar, para assassinar, barbarizar mulheres, crianças, idosos. O número de mulheres mortas a facadas, tiros, pancadas explode nos noticiários, são mortes de todos os tipos. É como se víssemos romanos urrando nas arenas enquanto os leões dilaceram suas vítimas.

Os povos do mundo não entendem o que aconteceu com o Brasil. Quando veem as notícias dessa terra sob o comando do mal, se pegam catárticos, sem saber se acreditam ou desacreditam no que veem. Temos o único governo no mundo parceiro da pandemia, da morte, da violência, do racismo, da morte do povo trabalhador.

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Quero viver. Espero que as pessoas que não compactuam com toda essa desgraça sobrevivam ao vírus, às violências contra nós, à miséria programada desses canalhas que assaltaram o país. 

Vou chorar e sofrer por cada perda de companheiro e companheira que está do nosso lado nesta encruzilhada da história do Brasil. Se meu corpo aguentar, vou viver.

Quero ver nos tribunais penais e cortes internacionais cada desgraçado desse regime e seus apoiadores e financiadores, os do capital, os capitães do mato, os miseráveis aproveitadores, que viram a oportunidade de soltar toda a sua barbárie nos outros.

Se eu ficar pelo caminho, paciência. Mas se depender de mim, luto pra viver até ver os responsáveis pelo regime caírem e pagarem por tudo que estão fazendo ao país e ao povo brasileiro.

IMPRECAÇÃO: Sorte às vítimas do regime. Que se fodam os que estão por cima e no comando desse regime. O tempo de vocês vai chegar, vai acabar.

William


domingo, 27 de dezembro de 2020

271220 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Como se levantaria pela manhã o homem
Sem o deslembrar da noite que desfaz o rastro?
Como se ergueria pela sétima vez
Aquele derrubado seis vezes
Para lavrar o chão pedroso, voar
O céu perigoso?

A fraqueza da memória
Dá força ao homem.
"

("Elogio do esquecimento", Bertolt Brecht)


Domingo, último do fatídico ano da peste, das pestes. Ano de pandemia mundial de Covid-19. Segundo ano da desgraça do regime neofascista do clã miliciano no poder. Estamos em 2016, em 2018, em 2020 e seguiremos nesse mesmo período sem fim do pós golpe de Estado. 

Os políticos canalhas e venais do Congresso sentaram em cima de 54 pedidos de impeachment e o sujeito na presidência segue ampliando seu poder, ocupando todos os espaços locais de poder no país (como fizeram Salazar, Pinochet, Franco etc). Jornalistas progressistas estão morrendo como PHA, sendo perseguidos como Nassif, aniquilados financeiramente como vários e, em breve, talvez ninguém mais fale mal do regime.

Não há mudanças à vista, mudanças daquelas que as pessoas sonham com a passagem de data no calendário: desejos de paz, saúde, fraternidade, solidariedade, prosperidade, amizade, amor, felicidades. Que pena! Nada disso está no cenário dos dias que virão após o dia de passagem de ano para o Ano Novo.

Teremos que encontrar energias positivas em nosso ser para seguir adiante e superar os tempos duros que se avizinham. A miséria será maior para o povo brasileiro com o fim do auxílio emergencial de 600 reais (imposto ao Governo pelo Congresso em 2020, por pressão da esquerda) e sem retomada da economia, pelo menos é o que se desenha com a continuação da crise por causa da pandemia de Covid-19 sem vacinas e insumos para livrar o povo dessa peste. Aqui é Bolsonaro, o vírus é estratégico para o regime.

As mudanças terão que partir de nós mesmos, de cada um de nós. O que podemos fazer para mudarmos algo em nossas vidas pessoais e quiçá na vivência coletiva? Sem sermos vacinados, sem nos vermos livres da ameaça de morte a qualquer momento por Covid-19, sem retomarmos a liberdade de circulação, temos que pensar formas de sermos menos infelizes porque isso também está nos matando, todo dia um pouco, ou muito, mais que a morte normal da passagem do tempo. Que fazer?

Sei que não adianta fugir da realidade, se alienar, não me inteirando sobre as desgraças diárias sob o regime dos golpistas que dominam as pautas, os poderes instituídos, as ruas e os espaços públicos que ainda sobram. O poder está com eles. A grande imprensa é toda bolsonarista, mesmo enganando parte das pessoas que caem na lorota de achar que a mídia bate no governo. E a força de repressão e opressão também está com o regime. Vou me informar, mas não posso deixar que meu dia seja tomado e pautado por essas desgraças que nos matam aceleradamente.

Hoje é o segundo dia que não ligo o celular desde ontem de noite. As notícias são as mesmas, ad nauseam.

Os dois dias sem celular e redes sociais pelas horas da manhã foram dias em que li dois terços de um novo livro de Saramago, As intermitências da morte, que é fantástico! Demais! Já me fez pensar muito! E já dei boas risadas também com a estória da morte como personagem central. E hoje, ainda li um pouco de poemas de Bertolt Brecht, que estou conhecendo. E reli alguns textos meus, dos blogs. Agora vou me conectar um pouco, mas não vou ficar longo tempo nisso não. Alguns minutos de silêncio nesta manhã de domingo foram preciosos.

É isso. Acho que vou pedalar agora. Às vezes, esquecer um pouco as coisas, como nos ensina o poeta, pode nos dar força... e, às vezes, na escuridão pode estar o ponto de luz que nos ilumina, assim como na bonança também está o início das tragédias porque nada é para sempre. Tudo muda o tempo todo. 

William


sábado, 26 de dezembro de 2020

261220 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Estamos menos inteligentes. Emburrecendo. Já li alguns artigos falando a respeito disso. Neurologistas e linguistas têm demonstrado preocupação a respeito da perda de capacidade criativa e inventiva dos seres humanos, inclusive nas coisas mais comezinhas do cotidiano. O empobrecimento da linguagem está relacionado a esse processo de emburrecimento. Nós pensamos através da linguagem. Com a linguagem empobrecida e limitada, menos chance temos enquanto espécie de desenvolver o cérebro, as diversas formas de inteligência e as possibilidades imprevisíveis de criatividade.

Tudo está interligado no Universo, nos planetas, no nosso planeta Terra, nas vidas dos seres vivos. Somos um fragmento disso tudo ao nosso redor. A ideia de quem é dono de quem, do que é propriedade do que é uma coisa recente no planeta Terra, pois isso é coisa do animal humano, que tem pouquíssimo tempo de existência neste velho planeta de mais de 4 bilhões de anos. 

Ao analisar o andar da carruagem, essa espécie animal não parece que estará por aqui nos próximos 5 mil anos. Difícil, até porque o modo de produção e consumo capitalista, o neoliberalismo e o egoísmo parecem ter vencido e isso é uma derrota para a espécie humana e para a vida no planeta. De que adiantou nosso cérebro ter se desenvolvido ao longo de milhares de anos e termos nos tornado racionais, dotados de razão, para ao final nos transformarmos nisso que estamos nos transformando? Eu sei, serviu para fazermos o que fizemos até agora. E pode servir para nos exterminar também.

O que fazer para frear o emburrecimento individual e coletivo? Como seres sociais que somos é muito difícil não sermos influenciados pela demência coletiva, pelos medos e ódios que passaram a dominar o ambiente humano como estratégia de poder. Como não emburrecer? Como preservar meu cérebro, meu ser, caso eu siga vivendo mais um dia, mais um ano, o de 2021, por exemplo, que será duríssimo para os seres humanos, muito pior do que foi o de 2020, que ninguém aguenta mais e acha que vai acabar daqui a 5 dias? Como não emburrecer, como não embrutecer mais ainda, como não me tornar a média do que são os animais humanos ao meu redor? Que difícil resposta!

Por acaso, por sorte, eu fui salvo de ser um bárbaro demente agressivo e se achando alguma merda (meritocrata branco de origem pobre) como, por exemplo, são os tucanos e os bolsonaristas ao meu redor; fui salvo por acaso. Poderia ser um deles... 

Quis o andar dos dias que em certos momentos de minha vida, aos 20 anos e depois aos vinte e poucos, quase 30, eu tivesse contato com os militantes do movimento sindical bancário organizados para enfrentar as desgraças da exploração dos donos do poder sobre nossos corpos e carcaças de proletários. Grande sertão: veredas... (como nos presenteou Guimarães Rosa). 

A vereda que peguei me fez deixar de ser ignorante (um pouco menos, mas reconheço minha ignorância), de ser intolerante em relação às pessoas não-heterossexuais (eu não sabia nada de amor até quase 30 anos de idade! Era um binário como a sociedade havia feito com quase todos nós), me fez ser menos agressivo, me fez entender como somos manipulados pelos sistemas ideológicos do capital como os meios de comunicação empresariais. Que sorte eu tive como membro da classe trabalhadora!

E hoje, observando o cenário deste momento da história do país onde vivo, sei que as pessoas são o que são por causa das vitórias dos canalhas da Casa Grande e seus ideólogos e capitães do mato. A vitória deles é a derrota da sociedade humana e da vida no planeta.

Estamos emburrecendo, estamos nos animalizando, estamos com raiva e medo, e nossas mentes e nossos desejos estão dominados por uns poucos detentores dos meios de produção material e cultural. Somos presas fáceis. Como nos libertarmos dessa máquina, desse sistema, dessa Matrix que nos aprisiona? Não é fácil, e, no entanto, temos que tentar, criar, resistir, libertar os seres humanos, a começar por nós mesmos. A questão é: como fazer isso?

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As reflexões fluíram acima. Mas eu queria registrar algumas coisas ainda.

Eu vejo o quanto estamos pouco criativos, pouco inteligentes, ao observar meu comportamento, minhas ações e reações. Fui até a padaria comprar pães. Não tinha pães na hora, mas teria em 20 minutos. Qual foi minha reação: comprei só pão de queijo e voltei pra casa. É uma coisa burra, sem pensar, sem ser racional. Hoje é sábado, pós dia de Natal. Qual o problema em esperar 20 minutos para comprar os pães? Que diferença faz na minha vida não esperar os 20 minutos? Não é inteligente isso que fiz? Só o trabalho de me trocar para ir à padaria, depois ter que fazer aquela merda da higienização por causa da pandemia... que diferença faz a porra dos 20 minutos? Aliás, eu poderia ter andado até o fim da avenida arborizada e voltado e pego os pães. Estamos emburrecendo, não estamos mais pensando. Ao fim e ao cabo, depois de chegar em casa, fazer a higienização e conversar com a companheira, voltei e peguei os pães. Foi muita burrice o que fiz. Mas estamos fazendo isso o tempo todo, muita gente está agindo no cotidiano sem pensar.

Eu desliguei o celular ontem à noite. Não quis ligar o aparelho hoje de manhã. Todo dia, acordo e pego aquele treco e fico quase uma hora olhando as notícias e acontecimentos, algumas manchetes de páginas de notícias e as que o Facebook me autoriza ver, já que aquela merda de empresa totalitária seleciona por algoritmo o que posso ver na minha timeline. O Facebook virou um obituário, mais que um lembrador de aniversários. Nossos amig@s e conhecidos estão morrendo ou tendo familiares mortos por Covid-19, além dos infartos, câncer e outras doenças. É difícil sair dessa bolha porque se sairmos nem saberemos das perdas que estamos tendo (perder amig@s e companheir@s de luta é uma grande perda individual e coletiva). Já estamos tão sós! Enfim, só liguei o celular depois do meio-dia. E a primeira coisa que fiz foi ligar com imagem e voz para minha irmã e para minha mãe. A vida está mais incerta e bem mais instável que antes da pandemia do vírus mortal usado pelo regime fascista no Brasil como estratégia de governo. Eu e as pessoas que amo podemos não estar mais aqui em questão de dias.

É isso. É difícil não falar em morte numa época de morte. Genocídio é o que estamos vivendo. Os brasileiros mortos por Covid-19 foram vítimas de um genocídio organizado por parte do regime no poder. Mais de 200 mil mortos... e sem perspectivas de mudança para o próximo período que chamamos de Ano Novo. Não temos vacina. Não temos um governo apoiando as regras básicas para evitar a expansão da pandemia. Não temos poderes oficiais defendendo os pobres e os trabalhadores. Não haverá nada de regeneração, renascimento, de promissor para o período que segue. Sem derrubar os fascistas e genocidas no poder, através de mobilização e enfrentamento social nada vai mudar. Pelo contrário, o cenário será pior! Desculpem a franqueza. Haverá fome, mais miséria, mais mortes, pois essas são as variáveis no Brasil de Bolsonaro e seus apoiadores do 1% e dos milhões de gentes pobres e idiotizadas que o apoiam.

Esse minuto é o que temos. Hoje já falei com minha mãe e minha irmã. O amanhã no Brasil de Bolsonaro não nos pertence.

William


quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

12. Nada de novo no front - Erich M. Remarque



Refeição Cultural - Cem Clássicos

"No abrigo à prova de bombas, depois de dez horas de bombardeio posso ser estraçalhado, e posso não sofrer um único arranhão; só o acaso decide se sou atingido ou fico vivo. Cada soldado fica vivo apenas por mil acasos. Mas todo soldado acredita e confia no acaso." (REMARQUE, 1981, p. 86)

"Para cada veterano, morrem de cinco a dez recrutas. Um ataque inesperado de gás ceifa a vida de muitos. Nem chegaram a aprender o que fazer. Achamos um abrigo cheio de homens com os rostos azulados e lábios negros. Numa trincheira, tiraram cedo demais as máscaras; não sabiam que o gás se mantém mais tempo no chão; vendo os outros lá em cima, sem as máscaras, arrancaram as suas, e engoliram gás suficiente para queimar os pulmões. Seu estado é desesperador, engasgam com hemorragias e têm crises de asfixia, até morrer." (p. 110)


Esse é um daqueles clássicos cujo nome nunca mais esquecemos e que passam a ser referência em nossas ações e reflexões cotidianas. "Nada de novo no front" é uma expressão síntese de situações e momentos nos quais não parece haver nada que possa mudar uma condição ruim ou solucionar um impasse vivido. Nada de novo no front... é assim que nos encontramos neste momento no país onde nasci e vivo.

Estou contando minhas leituras clássicas. Só para ver em que ponto cheguei de um objetivo antigo, de adolescente, de quando eu sonhava ser um grande leitor e um intelectual; hoje tenho claro o quão inocente era essa coisa da forma como estipulei, mas tudo bem. Aos 51 anos descubro a cada momento o quanto sou ignorante culturalmente, o quanto não sei nada de literatura, linguagem e história, e quanto sei menos ainda de outras dimensões humanas. Não consegui sequer ser um "homem cultivado" em conhecimentos gerais e não técnicos, como diz Mircea Eliade em Mito do eterno retorno.

Li Nada de novo no front (1929) na adolescência. O livro me impressionou muito. Eu me identifiquei com o sofrimento e com a desesperança daquela geração de jovens de vinte anos que estavam na guerra. Eu era trabalhador braçal no Brasil da ditadura militar e nos anos perdidos daqueles anos oitenta. Eu quebrava concreto com ponteiro, talhadeira e marreta em construção civil. Sonhava com um futuro melhor, mas a realidade nacional e pessoal me deixavam com muito ódio, raiva do mundo e depressivo. A leitura é duríssima.

Reli o livro faz pouco tempo, faz uns dois anos, com outra cabeça, em outra realidade, mas a leitura foi muito apropriada ao contexto em que nos encontramos, um país sendo destruído e desfeito por um golpe de Estado em 2016 e eleições fraudadas em 2018 e agora estamos sob o comando das piores espécies humanas no aparelho do Estado: estamos sob a banalidade do mal, sob o comando de celerados, genocidas e bandidagem mafiosa. E com uma pandemia mundial sendo utilizada como estratégia de manutenção do regime, porque recolhe o povo consciente em suas casas e gera medo e raiva na massa miserável ignara: condições básicas para o fascismo.

Fiz uma postagem sobre a leitura recente (ler aqui).

Enfim, vendo os acontecimentos da semana, e as perspectivas econômicas, políticas e sociais, sem previsão efetiva de alguma vacina contra o coronavírus no Brasil, o povo sem o auxílio emergencial de 600 reais que o Congresso exigiu de Bolsonaro e Guedes em 2020, e com a possibilidade quase certa do bolsonarismo avançar no comando do Congresso Nacional - Câmara e Senado - já corrompido pelas eleições atípicas e fraudulentas de 2018, não há "nada de novo no front". Não teremos Ano Novo, teremos a continuação de 2016, de 2018 e, infelizmente, de 2020.

Os dois excertos que coloquei no início da postagem ilustram bem o contexto em que nos encontramos. Natal, Ano Novo e férias de janeiro no Brasil de Bolsonaro. A pandemia está descontrolada, matando como bombas jogadas a esmo no front do inimigo, bombas que matam ao acaso qualquer um de nós e os nossos amigos e conhecidos. Serão assim as mortes por sufocamento por Covid-19 nas próximas semanas. 

As pessoas, assim como os soldados inexperientes, já tiraram a máscara achando que o veneno passou, e vão se reunir, comemorar, matar saudades e alguns vão contaminar pais, filhos, familiares, melhores amigos, entes queridos. E alguns deles vão adoecer e morrer de Covid-19, ao acaso, como no front das guerras...

Estou muito triste por isso, muitos de nós serão as vítimas das bombas de coronavírus.

William


Bibliografia:

REMARQUE, Erich Maria. Nada de novo no front. Tradução de Helen Rumjanek. São Paulo: Abril Cultural, 1981.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

231220 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Quarta-feira, 23 de dezembro do ano da pandemia do novo coronavírus. Que fatos, sentimentos e reflexões registrar nesta página pública da rede mundial de computadores?

(já tive centenas de leitores diários quando meu lugar de fala era de representação da classe trabalhadora, até meados de 2018. Este blog e o blog para falar da categoria bancária tiveram sua importância. Hoje a página é um meio de registro de opiniões, reflexões e às vezes conhecimentos gerais que se quer compartilhar)

A pandemia mundial de Covid-19 estragou o ano que se encerra e ela seguirá firme e forte em 2021, não é uma boa notícia. Empresas privadas do mundo capitalista e governos de todos os matizes ideológicos fizeram um esforço acelerado para descobrir e disponibilizar vacinas contra o vírus Sars-Cov-2, que tem algumas cepas ou variações genéticas, ou seja, pelo que se sabe não é só um tipo genético e por isso se descobrem reinfecções por Covid-19. Países chamados de primeiro mundo ou desenvolvidos já estão vacinando seus cidadãos ou estão com calendário para tal. (Nós não! Aqui é Bolsonaro!)

Outra merda desse vírus e dessa pandemia é o fato de cada pessoa reagir de forma diferente quando infectada por essa peste. Morre-se todo tipo de gente, mas é evidente que os maiores índices de mortandade estão entre os mais pobres e com menos acesso aos direitos humanos e de cidadania. E as sequelas nas pessoas infectadas são impressionantes, algumas pessoas ficam mal por meses, e o vírus ataca quase que todos os órgãos do corpo.

Os ricos se deram muito melhor no enfrentamento mundial ao novo coronavírus. Por quê? Porque eles não trabalham, são rentistas (estou sendo direto e reto na afirmação). São donos dos meios de produção e exploram a mais-valia dos trabalhadores. Então, eles exigem que os pobres desgraçados trabalhem, mesmo com o risco de morte por Covid-19 e ficam em seus palacetes e casas confortáveis falando de isolamento social.

Os ricos e os povos dos países que são metrópoles imperialistas que invadiram, colonizaram e exploraram os nossos países subdesenvolvidos por séculos e ainda hoje o fazem, eles terão vacina. Nós não! Só lá no futuro, e olhe lá, se não tiverem outros bolsonaros por aí. 

Só para se ter uma ideia, independente de nós brasileiros jabuticabas termos nos fodido por termos Bolsonaro e os trogloditas que o seguem e apoiam e sermos os últimos da fila mundial para tomar vacinas contra a peste, os países que vacinarão primeiro seus cidadãos são os países do Norte, Europa, Canadá, Estados Unidos, China, Rússia, países asiáticos etc. O resto do planeta, uns 4 bilhões de humanos, que esperem por algum milagre, imunidade de rebanho ou que o vírus desapareça por um tempo. (Aqui é Bolsonaro!)

Mas aqui é jabuticaba... somos caso único no mundo e sempre tem espaço pra piorar. Agora uns desgraçados desgraçados, duas vezes, querem dar carteirada e furar fila para receber vacina antes dos outros, porque eles são especiais, ricos, cheirosos, maquiados, e têm títulos de nobreza, então entendem que devem passar na frente da plebe, dos fedidos, fodidos, da gentalha.

Iria falar de outras coisas, mas já me estendi na questão do cotidiano desgraçado que virou a nossa vida sob pandemia e sob a tragédia humanitária de estarmos sob Bolsonaro por causa da casa-grande e dos canalhas que efetuaram um golpe de Estado para interromper os avanços históricos para a classe trabalhadora durante os governos do Partido dos Trabalhadores, Lula e Dilma. O país gigante Brasil está se desfazendo para sempre, para sempre.

Segundo a Johns Hopkins University, hoje temos contabilizados 1.727.672 mortos por Covid-19. São 78,5 milhões de infectados e continua crescendo o número. Como aqui é Bolsonaro, tudo que se faz no país é o inverso do restante do mundo, dos duzentos países. Aqui o governo é contra a vacina, contra o isolamento social, uso de máscara e a peste do coronavírus é estratégica para o regime fascista e infernal. Já morreram oficialmente 189.220 pessoas (mas aqui não se testa, não se deixa registrar morte por Covid-19 etc). 

O governo central quer tudo aberto e funcionando, os governos locais idem, mas dizem o contrário junto com suas imprensas parceiras e todo mundo finge que está se cuidando. Temos 7,3 milhões de infectados. Mas... com as festas e beijos e abraços e aglomerações de Natal, Ano Novo e férias de janeiro, a MORTE pode ser que visite toda casa e leve alguém como aquela história das pragas da Bíblia...

Fica até sem sentido terminar esse registro falando das minhas tentativas de sobreviver às doenças crônicas que estão nos matando a todos, os milhões de miseráveis que não têm recursos e precisam se arriscar o tempo todo e isso afeta a saúde como uma bomba relógio e os brasileiros e brasileiras conscientes e tristes que sofrem com toda essa barbárie medieval em que nos enfiaram (mesmo quando têm acesso aos direitos humanos básicos e podem se isolar neste período). Com tanta desgraça junta, pressão sobe, depressões aparecem, síndromes diversas fazem as pessoas aumentarem peso, terem compulsões ruins, beberem, usarem drogas, os sistemas imunológicos se desregulam e as condições básicas de saúde vão pro espaço.

Como sou um dos duzentos milhões de brasileiros que estão adoecendo e acelerando o processo de morte morrida, aquela que dizem que foi Deus que quis assim, estou lutando contra o processo de morte morrida, advinda de doenças crônicas evitáveis em sua maioria: colesterol alto, pressão alta, diabetes, sobrepeso e obesidade e os efeitos dessas merdas aí, como risco de infarto, AVC, aneurisma, degeneração de sistemas internos vascularizados, fígado, rins, pâncreas, olhos, cérebro e sistema nervoso, sistemas circulatório, respiratório e digestório etc.

Correr... o que posso fazer é correr para tentar frear o processo de morte morrida do meu ser. Tô correndo pra cacete! E lido com as dores que já apareceram nos quadris, pernas e pés, nervo ciático. Corri 13 Km hoje e tenho corrido boas distâncias nessas últimas semanas. E pensar que a qualquer minuto posso morrer de Covid-19 e ou pegar e transmitir para outras pessoas... que merda! E pensar que o desgraçado no poder e seus idiotas apoiadores não contribuem para termos logo uma vacina... que merda! E isso não vai mudar com a passagem do ano... 2020 não acaba! Isso é duro, mas temos que lidar com isso e perseverar também. Eu quero viver para ver esses genocidas julgados, condenados e presos.

Chega!

William