sábado, 10 de julho de 2021

100721 - Diário e reflexões



Refeição Cultural


ENTRE O AMOR E O ÓDIO, FICO COM LULA, COM O AMOR

O AMOR - Assisti nesta manhã de sábado ao encontro de Lula com o pessoal da cultura e dos movimentos sociais. Foi impossível não se emocionar ao ouvir as lideranças dos artistas e dos movimentos. Foi impossível não se emocionar ao ouvir Lula demonstrar sua gratidão aos artistas, às lideranças e ao povo brasileiro pelo apoio que recebeu durante todo o período de acusações falsas, fake news e os 580 dias preso injustamente. 

OUVIR A BASE, O POVO - Uma fala de Lula me emociona sempre, a que ele fala das dezenas de conferências que fez em seu governo para ouvir as propostas do povo nas mais diversas áreas. Tive a honra de fazer dezenas de conferências de saúde e dezenas de reuniões de saúde nos 26 Estados e no DF durante o mandato que fiz na Cassi. Estar sempre entre os trabalhadores, nas bases, foi a maior lição que aprendi na minha vida, na representação das pessoas. 

O ÓDIO - Ao terminar o evento que assisti na internet, ao ver as informações da manhã, soube que o inominável que ocupa a cadeira da presidência da república esteve desfilando de moto em Porto Alegre e, como de hábito, abriu a boca para proferir palavras de baixo calão e ódio, ódio, mentiras, ofensas contra autoridades do país e oposições a ele e ao que ele significa. O site do UOL reproduziu uma fala do genocida ofendendo um ministro do STF, Bolsonaro afirmou que o presidente do TSE, Barroso, defende pedofilia: "é a pedofilia o que ele defende". Nesta semana, o sujeito disse em sua live semanal: "caguei" para a CPI. Esse é o cara que elegeram em 2018, que comete crimes diariamente. E pensar que amig@s, familiares e conhecidos apoiaram (ou apoiam ainda) esse ser desprezível, inumano...

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É isso, fico com o amor, fico com Lula e com o que ele significa. Fico com os ideais da esquerda, com o socialismo. Fico com a solidariedade, com a amizade, com a justiça e a democracia. Fico com a ciência, a educação, a liberdade, o respeito à alteridade. Fico com a vida!

#ForaBolsonaro

William


sexta-feira, 9 de julho de 2021

Retrato do artista quando jovem - James Joyce



Refeição Cultural

"   - Podem voltar para os seus lugares, vocês dois.

     Fleming e Stephen ergueram-se, encaminhando-se para os seus bancos, e se sentaram. Stephen, rubro de vergonha, abriu correndo um livro com a mão fraca e se inclinou sobre ele, a face bem perto da página.

     Era injusto e cruel, porque o médico lhe havia dito para não ler sem os óculos! E ele já escrevera para casa, aquela manhã mesmo, para que lhe mandassem um outro par. E o Pe. Arnall tinha dito que ele não precisava estudar até que os novos vidros chegassem. Portanto, ter sido chamado de fingido diante da classe, e ter apanhado de palmatória quando sempre tirava o cartão de primeiro ou de segundo e era o chefe dos Iorkistas! Como podia o prefeito dos estudos saber que era patranha? Tinha sentido os dedos do prefeito tocarem-no quando apresentara a mão; até cuidara que lhe ia apertar as mãos num cumprimento, pois os dedos do prefeito estavam macios e firmes; mas depois, logo depois, tinha ouvido o zunido da manga da batina e a pancada. Fora crueldade, e não fora nada bonito fazê-lo ajoelhar no meio da classe, depois; e o Pe. Arnall dissera a ambos que podiam voltar para os seus lugares, sem fazer nenhuma distinção entre eles..." (JOYCE, 1987, p. 62/63)


A cena descreve o jovem Stephen Dedalus sendo castigado com a palmatória no colégio sem ter feito nada de errado. Ao castigarem outro garoto aproveitaram para castigar ele também, por escolha aleatória, porque estava sem óculos durante uma lição em sala de aula. Antes dessa cena, lemos outra descrevendo o açoite dos garotos com palmatória. É nojento e cruel saber que isso era a norma nas escolas de outras épocas.

Stephen Dedalus é uma espécie de alter ego de James Joyce, que enfrentou sérios problemas de visão em sua vida. Neste primeiro capítulo do livro, também vemos discussões entre irmãos (tios) na família de Stephen por causa de diferenças religiosas entre católicos e protestantes, algo muito presente na vida dos irlandeses.

Ao terminar a leitura dessa obra de Joyce, terei completado a trilogia dele mais significativa, na minha opinião. Já li diversas vezes os contos de Dublinenses (1914) e estou relendo o grande clássico Ulysses (1922), o qual havia lido duas décadas atrás. A experiência da leitura é outra, tanto porque sou outro quanto porque as traduções são diferentes, primeiro li a de Houaiss e agora leio a de Galindo. Retrato do artista quando jovem é intermediário aos dois, lançado em 1916. A tradução é de José Geraldo Vieira.

Estou terminando a leitura em versos da Odisseia, de Homero, obra referência de Joyce para a odisseia de Leopold Bloom por Dublin, em Ulysses. Stephen Dedalus, personagem que leio no Retrato, é o mesmo Dedalus da epopeia joyceana pela Dublin do dia 16 de junho de 1904.

É isso, seguimos lendo e buscando conhecimento e cultura para que suportemos com resiliência o Mal e tenhamos resistência para viver, mesmo que tristes, por causa da realidade que enfrentamos no Brasil pós golpe da casa-grande e pós predomínio da banalidade do mal com o bolsonarismo e a destruição do Estado nacional e das instituições do país.

Quero sobreviver mais um pouco porque ainda tenho pessoas que dependem de mim. Estudar, ler e escrever são tarefas revolucionárias em tempos de ignorância, apagamento da história das lutas da classe trabalhadora e predomínio da pós-verdade por parte dos capitalistas e seus ideólogos e lacaios.

Resistir!

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Retrato do artista quando jovem. Tradução de José Geraldo Vieira. Ediouro/92340, 1987.


quinta-feira, 8 de julho de 2021

Instantes (madrugada 080721)

Ouvindo Rolling Stones: "Anybody Seen My Baby?" (relembrar uma língua é algo importante para exercitar a memória e a atividade cerebral. Mais que relembrar, reaprender, porque é disso que se trata. Sem contar a batida... o som... a guitarra... o baixo... o ritmo)

Estar novamente contatando a outra língua que comecei a aprender, uma língua bem diferente daquela que falo, é outra forma de exercitar o cérebro. A língua japonesa é um desafio interessante para o cérebro de um ocidental por causa do som, da organização sintática diferente, por causa dos signos escritos - ideogramas e alfabetos diferentes do nosso. Não tenho pretensão profissional alguma em relação a esse estudo, só quero conhecer mesmo.

Talvez acabe a leitura da Odisseia em versos em dois dias. É outra língua, efetivamente. A forma de organização sintática adotada pelo tradutor do grego para o português é completamente diferente da língua cotidiana que usávamos até pouco tempo, há algumas décadas (agora eu não sei dizer que linguagem humana existirá nos próximos anos, nem humanos é certo haver em apenas cem anos...). Minha versão é de Odorico Mendes, um maranhense do século XIX.

A linguagem comunica. A linguagem permite a interação entre os homo sapiens, até entre humanos e alguns animais. A linguagem engana. Com ela se corrompe, com ela se destrói vidas, mundos. Com a linguagem se mata, se salva vidas. A linguagem convence animais humanos a se tornarem idiotas, ignorantes, se ensina a odiar aquelas pessoas que poderiam aprender a amar.

Agora estou ouvindo David Bowie: "Absolute Beginners"...

Que serão dos livros? Dos meus e dos demais livros do mundo? Não sei.

Que será da história de luta dos bancários? Da classe trabalhadora brasileira e mundial? Não sei.

Que será da autogestão Cassi? Nas últimas décadas, gerações de militantes lutaram para criar e desenvolver um sistema de saúde solidário e preventivo. Estão destruindo a associação. É tão triste que até encheu meus olhos d'água pra escrever isso. Sou sentimentalista. Que será da Cassi? Não sei.

Que será dos 99% de humanos do mundo que estão escravizados pelo 1% no controle de tudo? Não sei.

Vamos dormir. (vou apertar o botão 'publicar" e terminar de ouvir "Run, Baby, Run" de Sheryl Crow...)

William

PS: Acabei ouvindo ainda "Gimme Shelter" ao vivo com U2, Mick Jagger e Fergie no Madison Square Garden em 2009. Agora vamos encerrar.


quarta-feira, 7 de julho de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses reconhecido pela ama



Refeição Cultural

"   Palpando, a cicatriz conhece a velha,
Nem pode o pé suster; cai dentro a perna,
E a bacia retine e se derrama,
Dor a assalta e prazer; nos olhos água,
Presa às faces a voz, lhe afaga o mento,
E balbucia enfim: 'Tu és, meu filho,
És Ulisses; depois que te hei palpado,
Ora por meu senhor te reconheço'.
" (LIVRO XIX, v.354-361, p.328)


Leitura dos livros XVIII e XIX da epopeia, vimos cenas clássicas como a do encontro de Ulisses com sua ama, que o reconheceu ao tocar a cicatriz da ferida no joelho, feita por um javali quando ele ainda era uma criança.

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Também vemos o encontro de Ulisses com Penélope, vinte anos depois. Ela não o reconhece porque a deusa Minerva o disfarçou num velho forasteiro para que ele consiga realizar sua vingança, matando os inimigos em sua casa e retomando suas posses.

"   À pressa o escano de tosões coberto,
Lhe trouxe a velha; ao divo herói sentado
Penélope interroga: 'Hóspede, vamos,
Quem és? De que família? De que pátria?'
" (LIVRO XVIII, v.76-79, p. 320)

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Outra cena antológica é a que se conta o estratagema de Penélope que tece e desfaz o manto para enrolar os pretendentes que querem desposá-la. A estratégia dela dura três anos, mas depois ela tem que terminar a confecção da mortalha. Ela conta isso ao velho hóspede, que na verdade é Ulisses.

"Saudosa a prantear consumo a vida!
Urgem-me os procos, e eu maquino enganos.
Um gênio me inspirou tramar imensa
Larga teia delgada, e assim lhes disse:
'- Amantes meus, depois de morto Ulisses,
Vós não me insteis, o meu lavor perdendo,
Sem que do herói Laertes a mortalha
Toda seja tecida, para quando
No sono longo o sopitar o fado:
Nenhuma Argiva exprobre-me um funéreo
Manto rico não ter quem teve tanto.' -
A diurna obra desfazia à noite,
E os entretive ilusos por três anos;
Mas, gastas luas e horas, veio o quarto,
E então, por traça de impudentes servas
Apanhando-me, encheram-me de afrontas,
E a concluir a teia me forçaram.
" (LIVRO XVIII, v. 103-119, p. 321)

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Nestes versos abaixo, vemos a origem do nome do herói Ulisses, dado a ele por seu avô materno Autólico.

"   Veio Autólico a Ítaca ubertosa
De seu neto ao nascer; e, mal cearam,
Põe-lhe o infante aos joelhos Euricléia:
'Tu o almejavas tanto, agora inventa
Um nome ao filho da querida filha'.
    Disse o avô: "Genro meu, minha Anticléia,
Eu ressentido contra muitos venho
De um e outro sexo na selvosa terra;
Um nome lhe imporei, chama-se Ulisses,
Crescido, a casa a visitar materna,
Vindo ao Parnaso, onde as riquezas tenho,
Hei de brindá-lo e despedir contente'.
" (LIVRO XIX, v. 306-317, p. 327)

Sobre o significado do nome, o tradutor Odorico Mendes fez nota explicando ao leitor:

"O nome Ulisses ou Odisseus vem do verbo odýssö, 'irar-se'. Querem muitos que a história da ferida, a qual vai seguindo, seja uma interpolação. Pode ser que haja acrescentamentos; porém, Homero, em ambos os seus poemas, não perde ocasião de contar-nos sucessos ainda mais longos, e estes, interessantes como pertencentes ao seu herói, é provável que os não quisesse omitir." (Nota 309-312, p. 327)


Enfim, foram dois livros ou cantos com episódios bem clássicos da Odisseia.

Estamos chegando ao fim de mais um clássico da literatura mundial.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


terça-feira, 6 de julho de 2021

060721 - Diário e reflexões (Carta Capital)



Refeição Cultural - Carta Capital 1164


VACINOGATE

Terça-feira, 6 de julho. Finalizei a leitura de mais uma edição da excelente revista Carta Capital. A matéria de capa traz a continuação das investigações e denúncias sobre a corrupção da corja de milicianos no poder do país (por fraudes e golpes à democracia). 

A revista aprofunda a matéria da semana anterior sobre os crimes ao erário público às custas de milhares de vidas perdidas para a Covid-19. Homens do regime genocida no poder negociavam desde o início do ano vacinas com propina através de empresas picaretas enquanto o sujeito na presidência dizia publicamente ser contra comprar vacinas e rejeitava as vacinas propostas pelos próprios fabricantes. 

Enquanto o Brasil só vacinou 12,1% de sua população graças aos desgraçados no poder, outros países avançam na imunização. Nos EUA tiraram o irmão siamês do genocida daqui e já vacinaram 45,5% da população. O genocida no poder é responsável por uns 3/4 dos brasileiros mortos por Covid-19, segundo alguns cientistas que já foram ouvidos pela CPI no Congresso. Mortos hoje: 525.112 (fonte: Johns Hopkins University)

Na seção "Seu País" li matéria sobre o meio ambiente, que continua sendo destruído mesmo com a saída do canalha Salles. Sobre violência, li uma matéria alertando para as mudanças na lei que os caras no Congresso querem fazer para dificultar a saída temporária e a progressão de pena de detentos. Lembrando que no Brasil existem 209 mil presos provisórios, sem julgamento ou condenação!!! São 702 mil presos e a criminalidade só aumenta no país miserável e desigual. Por fim, a chacina de Jacarezinho, ocorrida em maio, que matou 27 "suspeitos" aponta para o que já imaginamos: execução por parte da polícia. Agora querem colocar sob sigilo de 5 anos as investigações. É Brasil...

Na seção "Nosso Mundo" me inteirei sobre a continuação da política do Trump com o governo Biden e Kamala Harris. Ela é filha de imigrantes e agora diz "Não venham!" para os imigrantes. Esperar o que daquela nação? Outra matéria muito boa foi sobre as eleições no Peru, vencidas pelo professor Castilho e até agora a filha do ditador e bandido preso, Fujimori, não aceitou a derrota. Tudo indica que vai dar merda. A burguesia não aceita perder eleição. É a mesma coisa em todos os países, eu não acredito mais em democracia nos moldes das que conheço, as democracias "liberais" burguesas.

Nesta edição, as matérias mais legais ficaram para a seção "Plural". A matéria sobre os norte-americanos do QAnon é de surpreender porque a gente nunca consegue imaginar até onde foi a demência humana. Os EUA estão tomados por malucos. Essa gente trumpista é algo inacreditável. Eles ensinaram os bolsonaristas como se deve ver o mundo. As teorias que eles acreditam é algo que só bolsonarista pra acreditar também.

Por fim, a matéria sobre "Em busca do leitorado perdido" traz informações importantes. O número de leitores do Brasil caiu de 56 para 52 milhões após 2015. E o número de pessoas que nunca leu um livro aumentou de 44 para 48 milhões. Acreditem! Mas fiquei feliz ao ver um trecho da pesquisa que fala dos autores mais lidos no Brasil:

"O autor mais querido do País, entre 14 mais citados, evidente, é Machado de Assis, mas pontificam também, pela ordem, Monteiro Lobato, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e Paulo Coelho. Clarice Lispector aparece num surpreendente 9º lugar, e os únicos estrangeiros citados são William Shakespeare e o pastor evangélico peruano Alejandro Bullón." (p. 61)

É isso. Voltei a ler a revista faz 3 edições. Vou renovar a assinatura, principalmente para apoiar o jornalismo de Carta Capital.

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Ao ouvir uma entrevista hoje do relator da CPI no Congresso, Renan Calheiros, ao jornalista Luis Nassif, fiquei impressionado com os dados que os congressistas já coletaram sobre a roubalheira do clã no poder e seus acólitos. Gente, centenas de milhares de pessoas morreram por ganância desses corruptos nas oportunidades de ganhar propinas na compra de vacinas. É chocante! É um genocídio! Francamente!

Quero viver para ver esses corruptos no poder respondendo processos penais aqui e nas cortes internacionais.

William

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Odisseia (Homero) - De volta a Ítaca (XV a XVII)



Refeição Cultural

"   Aqui, deitado um cão, de orelhas tesas
A cabeça levanta, Argos tem nome:
Hoje langue, e o nutria o próprio Ulisses,
Antes que se embarcasse. Costumava
Lebre caçar e corças e veados;
Ora de bois e mus no esterco o deixam,
Que às portas se amontoa, enquanto os servos
Para estrume da lavra o não carregam.
Jazia ali de carrapatos cheio,
E meigo, assim que a seu senhor fareja,
As orelhas bulindo, agita o rabo;
Mas não pôde acercar-se. O bom Laércio
Uma lágrima enxuga às escondidas,
E questiona o pastor: 'Um cão tão belo
Pasmo que esteja, Eumeu, nesse monturo;
Talvez, com tanto garbo, ágil não fosse,
E à mesa por formoso é que o tratavam'.
(...)
    Argos nesse momento, após vinte anos
Seu dono a contemplar, morreu de gosto." (LIVRO XVII, v.213-229 e 241-242, p. 295-296)


A cena do encontro do cão Argos com seu dono, Ulisses, é de chorar. Na hora nos lembramos do cão da raça akita, Hachiko, da história de amizade entre o cachorro e seu dono. A Odisseia, de Homero, é tudo isso, é a referência clássica para diversas cenas reais e das narrativas ficcionais nos últimos 2800 anos.

No Livro XV, voltamos a ver o jovem Telêmaco, que abriu a epopeia nos primeiros quatro livros - a "Telemaquia". Vendo sua casa e patrimônio serem dilapidados pelos varões de Ítaca, que queriam desposar sua mãe, Penélope, o filho de Ulisses saiu em busca de informações sobre o pai nos primeiros cantos da epopeia.

Neste momento em que estou da leitura da Odisseia, Ulisses finalmente chegou a sua amada Ítaca, 20 anos depois de terminada a Guerra de Troia. Apoiado pela deusa Minerva, ele está disfarçado de velho e chega a sua casa para avaliar os intrusos e as condições para derrotá-los e retomar seu reino.

Cito abaixo, uma nota explicativa do professor Medina, a nota 1 do Canto XVII, que explica esta parte da epopeia.

"Este livro XVII é propriamente a narrativa da Volta de Ulisses a seu palácio. Embora a cena inicial seja recapitulativa e acessória, o desenvolvimento deste livro tem as mesmas grandes qualidades dos livros XIII e XIV. Ulisses e Eumeu vão para a cidade, encontram a fonte onde está o altar das ninfas, topam com o insolente servidor Melântio; depois, a chegada ao palácio, com o admirável episódio do cão Argos, que reconhece o dono, depois a cena em que Ulisses passa a mendigar de mesa em mesa, e amaldiçoa Antino. A resposta que Ulisses manda dizer a Penélope, através de Eumeu, faz com que haja íntima união entre este livro e o décimo nono, onde a conversa dos cônjuges realmente se realizará." (MEDINA, Nota 1 ao LIVRO XVII)

Caminhamos para os momentos finais dessa epopeia homérica.

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TRILHA CLÁSSICA

Meu planejamento de leitura nesta linha de clássicos antigos já está definida em minha mente. Terminando a Odisseia, vou ler a Ilíada, também na tradução em versos de Odorico Mendes. Um livro conta a Guerra de Troia e a "Ira de Aquiles" e o outro a volta atribulada de um dos heróis gregos - Odisseu, rei de Ítaca.

Depois da Ilíada, vou ler a Eneida, de Virgílio. Consegui adquirir a tradução de Odorico Mendes. Após a Guerra e a destruição de Troia, após acompanhar as desventuras de Odisseu (Ulisses na forma latina), vou ler a epopeia de Eneias, troiano sobrevivente que iria fundar uma nova civilização, Roma e o Império Romano.

Por fim, lida essa sequência clássica, vou fechar a trilha com a leitura de A divina comédia, de Dante Alighieri. Nela, o próprio autor da Eneida, o poeta Virgílio, guia Dante pelos mundos do além-túmulo. Até hoje, só li o "Inferno". Não segui na leitura do livro.

É isso, espero que os deuses e a Fortuna me permitam viver os próximos meses para empreender essa trilha literária clássica. Parte da cultura ocidental dos últimos 3 mil anos provém dessas obras e desses autores.

Alguém topa fazer esse roteiro de leitura?

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Na outra trilha clássica, estou na releitura de Ulysses, de James Joyce. Após Joyce, vou ler As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e Robinson Crusoe, de Daniel Defoe. Dessa trilha, li recentemente Moby Dick, de Herman Melville. 

Lembrando o final do clássico texto de Italo Calvino sobre "Por que ler os clássicos", ele nos ensina que "é melhor ler do que não ler os clássicos".

Seguimos lendo...

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


sábado, 3 de julho de 2021

#3J Fora Bolsonaro!



Sábado, 3 de julho de 2021.

Hoje, participei novamente das manifestações populares pelo #ForaBolsonaro. Centenas de localidades no Brasil e no mundo reivindicaram o impeachment daquele ser desprezível que ocupa a presidência por causa de fraudes eleitorais ocorridas em nosso país em 2018. Foi um golpe continuado desde 2016. Sei que é um risco para a saúde e a vida participar de aglomerações durante a pandemia, mas é um dever de cidadania estar nas ruas lutando pela vida das pessoas, pelos direitos do povo e pelo futuro de nossos filhos, sobrinhos e jovens.

Desta vez eu não levei o celular, então minha participação foi mais atenta. Normalmente a gente vai a algum evento e só pensa em registrar a coisa ficando em segundo plano a experiência em si. Inclusive em relação às quase duas horas de transportes públicos que peguei: hoje eu não fui um dos inúmeros seres humanos isolados em suas telas de celular. Olhar e ver como estão as pessoas é algo chocante, estamos escravizados, nós é que servimos às máquinas e não elas a nós. Que encalacrada nos metemos nesta quadra da história humana...

Cheguei à Paulista pouco depois das 15 horas, horário definido para o ato #ForaBolsonaro. Mais uma vez, foi encantador ver a quantidade enorme de jovens ocupando os espaços públicos de lutas. Além dos jovens, foi bom voltar a ver os movimentos organizados. Foi bom demais ver as gerações que tanto lutaram antes de nós e nos legaram direitos que estão ameaçados ou sendo retirados. A Paulista estava lotada! Agora no fim da noite, as matérias apontavam que foi a maior das 3 manifestações na Paulista. Já tivemos a #29M, #19J e a de hoje.

Fiquei ouvindo as falas das lideranças por quase duas horas em frente ao Masp. Depois encontrei um companheiro do Banco do Brasil e sua companheira. Ficamos conversando sobre política. Acabei ficando mais do que havia planejado. Esperei para encontrar mais dois companheir@s do BB e encerrei minha participação no ato. Segui com a passeata em seu início, por volta das 18 horas e voltei para casa.

As manifestações dos movimentos populares, das forças de esquerda e progressistas e dos jovens e estudantes são manifestações pacíficas. Sempre são atividades com muita música, muita energia positiva e solidariedade e respeito. Por isso, é necessário que as lideranças do movimento avaliem com muita atenção o que os infiltrados estão fazendo. Não há inocência na luta de classes. 

Nossos inimigos estão se movimentando para contra-atacar a força das manifestações para derrotar o regime nazifascista no poder. Pela 2ª vez, infiltrados quebraram agências bancárias, colocaram fogo e a polícia não fez nada. Ou seja, todos ao redor viram, filmaram e a força policial não viu? Estranho! As imagens deixam claro que não eram pessoas do movimento pacífico. É preciso adotar estratégias para lidar com esses infiltrados de nossos inimigos. Os capitalistas de sempre estão aguardando a hora de manipular a sociedade com os seus meios midiáticos para colocar as pessoas contra o movimento.

Enfim, foi um bom dia de lutas populares pelo impeachment do verme e genocida no poder, lutas pelo auxílio emergencial para o povo, por vacina para todos, contra a privatização do patrimônio público, pela educação e saúde, pela apuração das corrupções escancaradas dos milicianos no poder e seus asseclas.

O movimento popular acumulou forças hoje. Espero que tudo corra bem com os manifestantes de hoje. Eu me cuidei o máximo possível. Só os momentos das aglomerações no metrô e no trem é que me deixaram muito apreensivo. Mas enquanto eu observava as pessoas no transporte, vi o quanto o povo está indefeso, exposto ao vírus. A ampla maioria das pessoas usa máscaras muito ruins, que não protegem quase nada em relação ao vírus no ar, porque são máscaras que ficam caindo do rosto, de pano e todas sem aderência ao rosto. Gente, essa é a vida do povo todos os dias da semana! Largados à própria sorte (azar)!

Sem um governo que lidere a luta contra a pandemia de vírus, é muito difícil vencermos a guerra contra a Covid-19. Hoje em São Paulo era dia de vacinação dedicada à 2ª dose. Sabem quantas pessoas foram tomar a vacina? Umas 3 mil... era para 90 mil pessoas tomarem a 2ª dose. Entendem? Não existe campanha de vacinação sem um governo liderando a campanha de esclarecimento e chamamento. É um genocídio porque é a estratégia do regime no poder. A estratégia é que todos se contaminem, aqueles que não morrerem, sorte deles (!?). Os desgraçados no poder acham que as pessoas estarão imunizadas. Nem a ciência conseguiu aferir isso em relação ao coronavírus. Pode ser que tenhamos que nos vacinar contra esse vírus por muito tempo, anualmente.

Enfim, hoje lutamos contra a ignorância e os manipuladores do povo, lutamos contra o genocídio e os genocidas. Lutamos pelo Brasil e o povo brasileiro.

William


sexta-feira, 2 de julho de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses acolhido pelo servo Eumeu (XIV)



Refeição Cultural

"E o Satúrnio o proteja. Ora me explanes
Quem és, de que família, de que terra,
Os infortúnios teus; que exímios nautas
E em que navio aqui te conduziram?
A Ítaca não creio a pé viesses.'
    Começa Ulisses: 'Narrarei sincero.
Se de espaço a lograr teu vinho e pasto,
Incumbido o serviço a outros sendo,
Fôssemos nesta choça, inda que um giro
Decorresse anual, não me era fácil
Expor as penas que infligiu-me a sorte.
" (LIVRO XIV, v. 145-155, p. 251)


Retomando a leitura da clássica epopeia de Homero, Odisseia, vemos agora o herói Ulisses de volta a sua amada Ítaca. Estamos na segunda parte da epopeia.

Ulisses foi trazido a Ítaca pelos Feácios. A deusa Minerva (Palas Atena) modificou a aparência do herói para que ele se pareça com um velho. Assim ele pode executar sua missão de chegar até a casa de sua amada Penélope, matar os inimigos e retomar suas posses.

O velho foi acolhido por Eumeu, servo de Ulisses que cuida de seus porcos. Após a tradição ser cumprida - o hóspede ser alimentado, agasalhado e bem recebido - o servo ouve a história da origem e andanças do estranho.

Agora vamos para o Livro ou Canto XV, e nele voltaremos a encontrar o jovem Telêmaco, que vimos lá nos quatro primeiros cantos, na "Telemaquia".

Para a leitura da postagem anterior, clicar aqui.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


quinta-feira, 1 de julho de 2021

O verdadeiro criador de tudo - Miguel Nicolelis



Refeição Cultural

"Educação, oportunidades e justiça ilimitadas, não ganância, deveriam ser o mote que impulsiona o universo humano no futuro." (p. 355)

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"(...) o nosso cérebro permanece maleável ao longo de toda a vida. Isso implica que, por meio da educação crítica, pode-se desmistificar a natureza das abstrações mentais, como o mercado e o sistema financeiro, demonstrando que são apenas criações do ser humano, não produto de intervenção divina." (p. 355)


Terminei a leitura do livro do neurocientista Miguel Nicolelis muito emocionado, às lágrimas. Ganhei o livro O verdadeiro criador de tudo - Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos (2020) no dia de meu aniversário. É um livro de ciência, mas é sobretudo um livro de um intelectual humanista, de um "homem cultivado", como diz Mircea Eliade. 

Desde pequeno tive o espírito curioso ou uma certa curiosidade filosófica em relação à existência e ao mundo. Ao longo das últimas décadas procurei respostas às minhas questões filosóficas nos mais variados espaços de conhecimentos: nas religiões, nos estudos formais, nas leituras literárias e nas leituras de áreas do saber humano. Nas lutas sociais e coletivas tive minha aprendizagem mais aprofundada que nunca.

Tive contato com diversas matrizes religiosas ocidentais, orientais e de origem africana. Estudei áreas variadas na educação formal: fiz Ciências Contábeis, fiz Educação Física e não concluí e fiz Letras. Estudei várias áreas do direito como concurseiro em certa época de minha vida. Nessas quase quatro décadas de adulto, sempre estive procurando respostas e sentidos.

A leitura do livro sobre o cérebro humano neste momento de minha vida e neste momento da sociedade humana foi algo que mexeu bastante comigo. Busquei muitas explicações para os acontecimentos do mundo e os comportamentos humanos nas leituras de História. Toda leitura feita me acrescentou alguma coisa, é verdade, mas avalio que Nicolelis me trouxe respostas sobre várias questões que martelam em nossa cabeça de cidadão curioso e politizado.

Nicolelis escreve muito bem, a considerar que o livro passa a primeira metade falando sobre Biologia, Anatomia, Fisiologia, sistemas do corpo humano e demais áreas médicas e da ciência. Talvez meu conhecimento de Anatomia e estudos do corpo humano adquirido duas décadas atrás tenha contribuído para que minha leitura não fosse superficial na parte mais espinhosa do livro.

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"Do ponto de vista da visão cerebrocêntrica discutida neste livro, a era dos excessos de Hobsbawm (Era dos Extremos) pode ser descrita como o período em que uma abstração mental - o capitalismo - tornou-se poderosa o suficiente para reconfigurar a dinâmica das interações humanas em escala global, cruzando o perigoso patamar que, no limite, pode jogar a humanidade em um buraco negro do qual ela não mais se libertará." (p. 361)

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Na segunda parte do livro, o neurocientista Nicolelis nos faz pensar e pensar e refletir e avaliar a vida e a sociedade e ao final estamos profundamente imersos nos destinos da humanidade. Ou mudamos o rumo das coisas ou não haverá futuro para a espécie humana. Precisamos superar o modo de vida capitalista ou não seguiremos enquanto espécie no planeta Terra.

Tudo que existe na sociedade humana atual é fruto da criação do cérebro humano, todas as abstrações que nos pautam a vida, todas as coisas produzidas, tudo. O cérebro humano deu sentido às coisas que existem, além de criar tudo que há entre nós. 

Algumas abstrações se tornaram maiores que seus criadores como, por exemplo, a Igreja do Mercado e o deus dinheiro. Também a abstração Culto das Máquinas. Neste momento da história humana, ou retomamos a importância humana como centro das coisas ou pereceremos enquanto espécie.

Durante décadas tive receio em relação à Inteligência Artificial. Era uma das pessoas que temia que as máquinas adquiririam vida própria e colocariam sob ameaça as outras espécies animais, sobretudo a humana. Nicolelis me explicou a falácia da "Inteligência Artificial", algo impossível de se realizar. 

A inteligência é animal, uma máquina não pode ser inteligente no sentido da criação humana. Só nós somos inteligentes, por enquanto (pode ser que fiquemos limitados como as máquinas se não mudarmos o rumo das coisas).

Foi um dos livros mais esclarecedores que li na minha vida. Olho o mundo de forma diferente a partir da leitura de Nicolelis. Não fiquei nem mais triste nem mais feliz, mas me tornei uma pessoa mais consciente a respeito da existência das coisas. 

Já não havia espaço para visão mística em minha vida, mas agora as coisas estão mais claras do que nunca. Mas meu humanismo saiu reforçado após essa experiência. Como animal humano, ainda homo sapiens, podemos mudar o rumo da destruição de tudo, e isso é algo valioso, saber que podemos fazer coisas incríveis e aparentemente "impossíveis" como, por exemplo, nos livrarmos do capitalismo.

É isso. Professor Miguel Nicolelis, muito obrigado pela experiência e conhecimento compartilhados. Muito obrigado!

Mais que nunca, é fundamental lutar pela vida, pela educação, pela ciência, pela ética, pelo amor, pela solidariedade, pelo cooperativismo. E para seguirmos a vida é preciso gritar #ForaBolsonaro!

William


Bibliografia:

NICOLELIS, Miguel. O Verdadeiro Criador de Tudo - Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos. São Paulo: Planeta, 2020.


quarta-feira, 30 de junho de 2021

300621 - Diário e reflexões (Carta Capital)



Refeição Cultural - Carta Capital 1163


A CPI CHEGA NELE

Pela segunda semana seguida, li a revista Carta Capital de ponta a ponta. É uma revista com muita qualidade na edição das matérias. 

A matéria de capa sobre o genocida - suspeito finalmente de corrupção também - traz as informações sobre as denúncias que apontam que ele prevaricou ao permitir que aliados do PP e militares praticassem corrupção na compra bilionária da Covaxin. Para alguém que desde o início da pandemia foi contra qualquer medida de combate ao coronavírus, permitir que uma vacina fosse negociada não poderia ser coisa boa para o povo e sim para a sua patota. 

E o povo? São 515.985 mortos e milhões de sequelados pela Covid-19 (13,09% dos mortos do mundo). Era para estarmos quase todos vacinados... não estamos por causa do regime do genocida que não nos deu vacina (só com propina teremos vacina?).

No Editorial de Mino Carta, ele afirma que "Lula é ainda, e sempre, a nossa oposta". O jornalista comenta o fato do Nordeste ser o melhor Brasil hoje e São Paulo ser o estado mais reacionário do país. Triste isso!

Nesta semana que passou, o STF finalizou o julgamento da parcialidade do juiz ladrão da república de Curitiba. Moro é suspeito, é um lesa-pátria contratado para destruir a economia do Brasil, a democracia e prejudicar o cidadão Lula e sua família e o Partido dos Trabalhadores. Lula está com seus direitos políticos para contribuir com o país e os brasileiros.

Nas matérias da seção "Seu País", nos atualizamos sobre as movimentações políticas para as eleições de 2022, o Nordeste foi o destaque da matéria: Lula x Bolsonaro na região. Ainda tem uma entrevista com Flávio Dino, que fala sobre o tema e também de sua saída do PCdoB. 

Um artigo de Guilherme Boulos nos alerta sobre um novo golpe à democracia engendrado por aquela parte podre do Congresso eleita em 2018 na onda do lavajatismo, os caras querem piorar mais ainda as regras das eleições brasileiras. Leiam o artigo "A ameaça do Distritão". Boulos nos alerta que "o significado político do Distritão é a personalização completa da política e a perda de relevância dos partidos. Apesar de muitos partidos no Brasil serem balcões de negócios, o partido político é - ou deveria ser - o espaço onde se afirmam projetos coletivos."

Outra matéria que chamou muita atenção é a matéria "Receita perigosa" sobre os lobbys dos empresários dos alimentos ultraprocessados para que essa dieta avance como nunca no Brasil. Hoje, 20% das calorias consumidas por nós vêm dessa alimentação lesiva à saúde. Como nos Estados Unidos, a referência de merda de parte dos brasileiros, se consome 60% de calorias via ultraprocessados, os empresários daqui veem muito espaço pra avançar durante o regime do genocida, aquele que incentiva destruir a natureza, o patrimônio público, os direitos sociais etc.

Dois artigos refletem um pouco sobre a tragédia do bolsonarismo, analisando as mentes dessa gente doente. O de Esther Solano - "Uma história de terror" - mostra em quatro perguntas e respostas a bolsonaristas como estamos lascados. A mente dessa gente é algo inacreditável. O outro artigo "A globalização da angústia", de Luiz Gonzaga Beluzzo, termina apontando de onde brotam os bolsonaristas, da perda da autoestima fruto dos reflexos da globalização e do neoliberalismo.

Na seção "Nosso Mundo" lemos sobre os Estados Unidos de Biden, sobre o novo líder supremo do Irã e sobre "Novos ventos nos Andes", onde esquerda e centro esquerda avançam graças às mobilizações históricas do povo chileno.

É isso! 

Me parece que a Terra tá girando, apesar de ser plana segundo os bolsonaristas. A CPI nesses últimos dias já descobriu tanta coisa sobre corrupção do regime genocida no poder, que parece que a casa-grande vem organizando alternativas para se manter no poder golpista, sem a figura monstruosa que colocaram lá.

A nós, o povo, só resta a rua, as praças, os logradouros públicos como alternativas para mudar as coisas e retomar o país e a democracia com igualdade de oportunidades.

Temos que lutar pelo fim do capitalismo! Temos que construir um mundo cooperativo e solidário. Um mundo inclusivo, no qual a tecnologia sirva para produzir o necessário a todos de forma que todos sejam beneficiados, trabalhando poucas horas e tendo a remuneração suficiente para viver decentemente e com acesso aos bens da humanidade.

Vamos juntos nessa?

William


segunda-feira, 28 de junho de 2021

Mandela - Longa caminhada até a liberdade



Refeição Cultural

"A política de apartheid havia criado um ferida profunda e perene no meu país e no meu povo. Todos nós passaremos muitos anos, senão gerações, nos recuperando daquele ferimento profundo. Mas as décadas de opressão e brutalidade tiveram outro efeito, não intencional, que foi a produção dos Oliver Tambos, os Walter Sisulus, os Chefes Luthulis, os Yusuf Dadoos, os Bram Fischers, os Robert Sobukwes dos nossos tempos - homens de coragem, sabedoria e generosidade tão extraordinárias que iguais a eles poderão não existir novamente. Talvez seja necessária tal profundidade de repressão para criar tais estaturas de caráter. Meu país é rico em minerais e pedras preciosas que estão sob o seu solo, mas eu sempre soube que a sua maior riqueza é o seu povo, mais belo e verdadeiro que o mais puro dos diamantes." (p. 760)

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"Aprendi que a coragem não era a ausência do medo, mas o triunfo sobre ele. Eu mesmo senti medo mais vezes do que posso lembrar, mas eu o disfarcei sob uma máscara de ousadia. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que conquista aquele medo." (p. 761)

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"Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor da sua pele, ou de sua origem, ou de sua religião. As pessoas têm que aprender a odiar, e se elas podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar, pois o amor ocorre com mais naturalidade no coração humano do que o seu oposto." (p. 761)


Ganhei a autobiografia de Nelson Mandela em agosto de 2014, no dia dos pais. Eu recém começava uma nova jornada de lutas em minha vida de representação eleita da classe trabalhadora. Havia começado um mandato na área da saúde em uma entidade dos trabalhadores do Banco do Brasil. Essa jornada de lutas durou 4 anos, foi até maio de 2018.

Durante o mandato na área da saúde, cheguei a ler a autobiografia de Mandela até a Parte Três (175 páginas), pouca coisa, mas minha vida era quase toda de leituras de trabalho. O grosso volume chegou a viajar comigo para alguns estados brasileiros, eu o lia durante os voos. Ao voltar definitivamente para minha casa em Osasco, o livro ficou quietinho na estante, esperando a leitura e o conhecimento completo desta rica história de lutas de um povo e seus líderes.

A VIDA DO POVO É LUTAR AO LONGO DO TEMPO

O tempo é algo muito presente na vida e na sociedade humana, mas pouco percebido. 

DÉCADAS DE LUTAS PARA AVANÇAR - A luta do povo negro sul-africano pelo fim do regime da minoria branca e as leis raciais do apartheid - luta através do Congresso Nacional Africano (CNA) e de outras instituições populares - durou 82 anos, nos conta Nelson Mandela. Ele assumiu a presidência da África do Sul em 1994, aos 76 anos de idade. Mandela ficou preso pelo regime racial dos africâneres, o apartheid, por 27 anos. A maioria da população, de negros e mestiços, mal conseguia sobreviver em seu próprio país sob aquele regime injusto e opressor.

DÉCADAS DE RETROCESSO APÓS O GOLPE - Estamos em 2021 no Brasil. Há 6 anos o Brasil foi impedido, boicotado, assaltado por uma minoria também (como na África do Sul dos brancos). Um grupo de canalhas da casa-grande organizou um golpe para tirar de forma ilegítima a presidenta do país, golpe para destruir as cadeias produtivas do país, para roubar o pré-sal, para interromper os avanços que o povo conquistava, para dilapidar o patrimônio público e retroceder em todas as áreas da cidadania. Foi um golpe reacionário de uma minoria. 

Em 2018, os golpistas ampliaram o processo de tomada do poder por assalto e corromperam o processo eleitoral. Uma operação chamada Lava Jato - um juiz suspeito e membros de órgãos públicos - interferiu nas eleições colocando o povo contra o maior partido de esquerda do país. Esses funcionários públicos suspeitos prenderam a maior liderança popular - o ex-presidente Lula -, que venceria as eleições e recolocaria o Brasil no caminho dos avanços populares e soberanos. E o pior, os golpistas e suas ferramentas de manipulação do processo eleitoral colocaram o pior tipo de gente que já ocupou o Congresso do país, uma alcateia eleita na onda do lavajatismo, e a consequência mais grave de tudo isso foi abrirem espaço para chegar à presidência um sujeito inominável, um ser desprezível, do mal, e agora acusado de diversas ilegalidades e suspeições de crimes, com mais de uma centena de pedidos de impeachment na gaveta do presidente da Câmara.

6 ANOS, em 6 anos o povo brasileiro vivenciou um retrocesso de décadas de avanços em todas as áreas da sociedade e da cidadania. Com o presidente traidor, o do golpe, e com o inominável alçado ao poder com a prisão do candidato Lula, o Brasil foi desmontado em todos os sentidos. 6 anos de destruição. E uma das consequências foi a morte de meio milhão de pessoas por um vírus para o qual há vacinas há quase um ano e a população segue morrendo porque o sujeito na presidência optou por contaminar a população com o vírus mortal. 6 anos...

Não sei, mas talvez tenhamos um processo longo de reconstrução do Brasil e de libertação do povo - a classe trabalhadora brasileira -, não sei se décadas, acho que sim, mas temos pela frente "uma longa caminhada até a liberdade" parafraseando Mandela.

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A AUTOBIOGRAFIA

Voltando à autobiografia de Nelson Mandela, peguei o livro na estante neste ano de 2021 e comecei a ler de novo. São 765 páginas. A história de Mandela e do CNA se confunde com a história do povo sul-africano. 

O livro é dividido em algumas partes: 1."Uma infância no interior", 2."Johannesburgo", 3."O nascimento de um guerreiro pela liberdade", 4."A luta é a minha vida", 5."Traição", 6."O pimpinela negro", 7."Rivonia", 8."Ilha de Robben: os anos negros", 9."Ilha de Robben: o início da esperança", 10."Conversando com o inimigo" e 11."Liberdade".

Ao ler a história de Mandela, me lembrei um pouco do livro sobre Lula, organizado por Denise Paraná. Não são estratégias de produção textual parecidas, mas ambos os livros abordam a vida dos biografados em épocas e fases da vida. Através da história deles, vemos a história do país e do povo naquele período. As biografias acabam antes do período no qual os protagonistas exerceriam mandatos presidenciais.

Sofri demais na leitura do período dos 27 anos de prisão de Nelson Mandela e de seus companheiros de luta. Esses caras são gigantes!

Fiquei descabriado na fase seguinte à libertação dos líderes do CNA. Mandela mal pisou fora da prisão e as tentativas de negociação para se conseguir o fim do apartheid e do regime racial dos brancos africâneres, e os nacionalistas atuaram para dividir os negros e financiaram um grupo rival do CNA para uma guerra tribal com banhos de sangue, chacinas de centenas de pessoas durante todo o processo de negociação entre 1991 e 1994. Haja persistência de Mandela e seus companheiros para não retornarem à luta armada.

Enfim, conheci muito a respeito do processo de luta pela liberdade do povo negro sul-africano. Em vários momentos daquela história, vi semelhanças com o que já vivemos e podemos ter pela frente no Brasil atual.


FUTURO: SERÁ POSSÍVEL RECONSTRUIR O BRASIL SEM CONCILIAÇÃO?

"Foi durante aqueles longos e solitários anos que a minha fome pela liberdade do meu povo tornou-se uma fome pela liberdade de todos os povos, brancos e negros. Eu sabia tão bem quanto sabia qualquer coisa que o opressor tem que ser libertado tão certamente quanto o oprimido. Um homem que tira a liberdade de outro homem é um prisioneiro do ódio, ele está preso por detrás das grades do preconceito e da pobreza de outra pessoa, tão certamente quanto não estou livre quando a minha liberdade é tirada de mim. O oprimido e o opressor igualmente têm sua humanidade roubada." (p. 763)


Estamos presos ao ódio que envenenou a todos nós. Os organizadores do golpe de 2016 nos ensinaram a odiar.

Me parece que não conseguiremos avançar para um futuro brasileiro sem aprendermos a perdoar e amar.

Se quisermos recomeçar, teremos que superar o bolsonarismo, para além do clã desgraçado que está no poder por causa das fraudes diversas que alteraram o processo eleitoral de 2018.

Além de superar e eleger novos representantes para os executivos e os parlamentos, tanto o federal como os estaduais, teremos que superar o ódio que não nos permite sequer amainar a raiva que sentimos dessa gente que descobrimos serem más, repulsivas, hipócritas e preconceituosas a respeito de tudo. Teremos...

Nessa hora é que veremos o quanto um Mandela, um Lula, são as pessoas mais adequadas para nos ajudar no difícil processo de reconciliação, porque esses caras são diferentes, eles conseguem superar os bloqueios que o ódio nos põe em relação aos que temos raiva, rancor, mágoa etc.

É isso! Mais um livro lido, mais conhecimento adquirido.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


sábado, 26 de junho de 2021

260621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Mas ao conversar com esses jovens inteligentes, fiquei sabendo que eles assistiram a minha liberação na televisão e estavam familiarizados com os eventos na África do Sul. 'Viva o CNA!' falou um deles. Os Inuit são um povo aborígine historicamente maltratado pela população de colonizadores brancos; havia alguns paralelos entre as condições dos negros sul-africanos e do povo Inuit. O que me impressionou fortemente foi o quão pequeno o planeta havia se tornado durante as décadas que passei na prisão; era assombroso para mim que um adolescente Inuit, vivendo no teto do mundo, pudesse assistir à liberação de um prisioneiro político na ponta do sul da África. A televisão havia encolhido o mundo, e nesse processo havia se tornado uma arma poderosa para a erradicação da ignorância e promoção da democracia." (MANDELA, 2012, p. 714)


Sábado, 26 de junho. Osasco.

Vejam só a observação de Nelson Mandela em 1990. Ele havia sido liberado da prisão após 27 anos. Estava visitando alguns países e numa passagem pelo Ártico para abastecer o avião, ele foi até a cerca da pista do aeroporto conversar com um grupo de jovens Inuit, mais conhecidos como esquimós.

Tanto Mandela como quase todo mundo achava que as tecnologias da informação e comunicação iriam melhorar o mundo, dentro daquela lógica de se compartilhar mais informação, conhecimento, contato entre as pessoas e povos do mundo e teríamos uma "erradicação da ignorância e promoção da democracia".

O mundo havia ficado pequeno e diminuía a cada dia. 

Uma década depois, em 2001, vimos ao vivo os aviões se chocando contra as torres gêmeas em Nova Iorque. Vimos ao vivo o Iraque ser bombardeado e destruído e a biblioteca de Bagdá desaparecer junto com toda a riqueza histórica que acumulava. 

Ao mesmo tempo, começavam os Fóruns Sociais Mundiais, com milhares de pessoas de todo o mundo se reunindo para discutir "Um outro mundo possível" na "aldeia global".

Em meados daquela década, nasceriam as redes sociais como o Orkut e depois o Facebook, o Twitter e o YouTube. Os blogs começaram a democratizar o espaço de fala na rede mundial de computadores. Nós nos entusiasmamos e achamos que a democracia na comunicação iria fazer a humanidade dar um salto positivo para o futuro. Qualquer pessoa poderia falar livremente, publicar, opinar e partilhar conhecimento.

Pouco mais de uma década depois, as grandes big techs já haviam mudado tudo. Poucas empresas dominaram todas as formas de comunicação no mundo. As informações de bilhões de pessoas passaram a ser utilizadas para manipular o comportamento humano e interferir em gostos, hábitos e na política dos países.

O povo, inocente até não caber mais, achava que poderia jogar fora suas bibliotecas porque qualquer informação que quisesse era só pesquisar no "Google"... doce ilusão! (Somos feitos de idiotas.). As informações virtuais existem hoje nos links e amanhã não existem mais (ERROR). Cadê a informação que estava aqui? O gato comeu! 

Pesquisar no "Google" significa, muitas vezes, que a palavra ou conceito que você pesquisou vai trazer como resposta a informação da empresa ou fonte que pagou mais para aparecer na primeira página e nas primeiras posições. Pesquisar palavras de determinado campo ideológico significa direcionamento proposital para tais fontes e bloqueio de outras. As esquerdas perderam milhões de acessos na última década por causa de programas de algoritmos.

Em muito pouco tempo, o que era uma ideia de "erradicação da ignorância e promoção da democracia", como pensou Nelson Mandela em 1990, se transformou num sistema mundial de divulgação de mentiras, de manipulação e incentivo à ignorância, negacionismo, ódio e desinformação global. Alguns sujeitos conseguem manipular milhões de humanos. Desacreditam a ciência, a geografia, a filosofia, matemática etc; vacina seria ruim, a Terra seria plana e aberrações do tipo. 

Estudos apontam que os seres humanos estão emburrecendo, que pela primeira vez em séculos as gerações seguintes não estão mais desenvolvidas intelectualmente que as gerações anteriores. Vi uma entrevista do neurocientista Miguel Nicolelis em 2020 (para Luis Nassif) na qual ele citava alguns desses estudos: perda de capacidade de comunicação e linguagem nos jovens norte-americanos, diminuição do quociente de inteligência nas gerações atuais etc.

Enfim, quis registrar isso ao ler a observação de Mandela em 1990.

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Um monstro mentiroso, um corrupto empedernido. Um ser com claros sinais de psicopatia. O inominável... 

O Brasil em uma década saiu de governos democráticos e populares, com distribuição de riquezas, oportunidades para todos, crescimento nos direitos do povo, perspectivas de futuro, para um país destruído, governado por hordas de gente racista, elitista, corrupta, um país cujo regime no poder não tem nenhum projeto para a melhoria de vida do povo brasileiro. Pelo contrário, um regime de morte, de banalidade do mal. Um regime de gente mentirosa, sem-vergonha, canalha. Um regime responsável pela morte de mais de meio milhão de pessoas, assassinadas por falta de medidas contra a pandemia mundial de Covid-19.

Nós já perdemos tantas pessoas conhecidas, queridas, de nosso convívio por toda uma vida, que é difícil falar sobre o tema. Do ano passado para cá, a todo momento vemos morrer nossos companheiros e companheiras de lutas pelo povo trabalhador e por um mundo mais junto e solidário. 

Entre as 1.593 pessoas que perderam a vida hoje para o coronavírus por causa do regime genocida que tem a pandemia como estratégia de governo, estava nosso companheiro de lutas Jeferson Boava, dos bancários de Campinas. Estivemos tanto tempo juntos nas lutas do Banco do Brasil... A minha tristeza pela morte de tantas pessoas é uma tristeza que dá uma gana interna de sobreviver a esse regime nazifascista e ver todos esses desgraçados caírem e nós vamos reconstruir nosso mundo após essa gente ser retirada do poder.

Companheiro Jeferson, presente!

(esses inimigos do povo vão cair, vão ter o que merecem. O povo brasileiro vai voltar a construir um futuro melhor para todos e todas)

William



Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

250621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Sexta-feira, 25 de junho.


OS CEM MELHORES CONTOS BRASILEIROS...

Ontem e hoje, li contos de um livro de coletâneas. Já faz um tempinho que não lia contos. Na madrugada de ontem, a mais fria do ano em Osasco (12º), não consegui dormir mais a partir das 4 horas da manhã. Fui para a sala e não quis pegar nada que já estava lendo. Peguei o livro Os cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi.

A coletânea foi organizada há duas décadas e adquiri o livro pouco depois de seu lançamento. Estava em meus primeiros anos como aluno de Letras na USP. Até hoje não li mais que 30 contos do livro, justamente os contos da primeira metade do século XX, pois o livro é organizado de forma cronológica em relação aos contos. Ou seja, ainda tenho dezenas de contos para ler e conhecer, tanto textos quanto autores. Um dia eu termino o livro.

Li os contos abaixo, da seção "Anos 40/50 - Modernos, maduros, líricos":

- "Um cinturão", de Graciliano Ramos;

- "O pirotécnico Zacarias", de Murilo Rubião;

- "Gringuinho", de Samuel Rawet;

- "O afogado", de Rubem Braga;

- "Tangerine-Girl", de Rachel de Queiroz;

- "Nossa amiga", de Carlos Drummond de Andrade;

- "Um braço de mulher", de Rubem Braga;

- "As mãos de meu filho", de Érico Veríssimo;

- "A moralista", de Dinah Silveira de Queiroz;

- "Entre irmãos", de José J. Veiga;

- "A partida", de Osman Lins.

De cara, gostei do conto de Osman Lins. Me lembrei de minha avó Deolinda, com quem morei um tempo quando voltei para São Paulo na adolescência. E jovem tem dessas coisas de não ser amoroso e carinhoso com as pessoas mais velhas. Creio que fui assim também. Quase todos são assim.

Eu não conhecia nenhum texto do excelente escritor José J. Veiga quando comprei o livro de contos. Agora conheço bem o autor goiano porque já li mais da metade de sua obra. O conto "Entre irmãos" tem a pegada dele, é muito bom.

Adorei os dois contos de Rubem Braga. O autor é muito bom. "O afogado" dá uma agonia grande quando estamos na leitura. Já a personagem com medo de avião é uma cena que todos nós já vimos algum dia.

Que posso dizer do conto de Graciliano? Que merda é a realidade ontem e hoje das crianças espancadas em casa! Eu vi isso na minha infância. Nunca apanhei, mas vi muita criança sendo espancada. Na verdade, tomei uma surra na infância, mas minha pena era o castigo. Moriconi nos informa na introdução que o texto está contido no livro Infância, de G. Ramos. É um livro autobiográfico. Tenho ele na estante, mas não o li ainda.

Gostei de todos os contos que li, mas esses acima me cutucaram mais, me incomodaram ou me despertaram mais lembranças. O de Veríssimo e de Rachel de Queiroz também me chamaram a atenção.

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Seguimos lutando para sobreviver à pandemia mundial de Covid-19 no país que mais morre vítimas no mundo (509 mil mortos), porque temos um regime genocida que adotou a estratégia de contaminar a população toda com a ilusão de atingir uma suposta imunidade de rebanho às custas de alguns milhões de mortos. Tudo em nome de uma ideia equivocada de manter a "economia funcionando". Mentiras, mentiras, mentiras. O regime bolsonarista é o regime da mentira e dos mentirosos genocidas.

Vivemos num mundo onde ninguém quer conselhos nem dicas de nada. É o mundo do capitalismo, do individualismo, da ilusória autossuficiência. Então nem vou sugerir que as pessoas leiam, estudem e procurem preservar e ampliar suas inteligências e culturas. Os tempos são de loas a ignorância e não de homens e mulheres cultivados na cultura geral.

William


quarta-feira, 23 de junho de 2021

230621 - Diário e reflexões (Carta Capital)



Refeição Cultural - Carta Capital 1162


IMBECILIZAÇÃO PROGRESSIVA NO BRASIL

Entre ontem e hoje, li a revista semanal Carta Capital. Não fazia isso há muito tempo! Tenho preferido a literatura e outras leituras em livros para alimentar meu conhecimento. No entanto, faço questão de ser assinante da revista para apoiar o jornalismo sério da revista liderada por Mino Carta. 

Que qualidade nas matérias! A leitura das 66 páginas é de uma facilidade incrível, mesmo sendo as notícias duras e deprimentes, porque os tempos são esses e jornalismo sério não briga com os fatos. A "escola" Mino Carta está de parabéns! A nova geração de repórteres, articulistas e jornalistas é digna da revista.

Os artigos de Mino Carta são sempre imperdíveis! O desta edição aborda "A imbecilização no país do plim plim - Desinformados impunemente pela Globo, somos vítimas de um longo processo destinado a nos afastar da realidade".

A matéria de capa é sobre a destruição da educação pública brasileira. Além de sabermos que as instituições de ensino estão sem verbas até para a manutenção das atividades essenciais, o regime bolsonarista atua para implantar o "Homeschooling" e a matéria pergunta "A quem interessa liberar a educação domiciliar, hoje restrita a 0,03% dos alunos?". Amig@s leitores, enquanto esse projeto é prioridade desse regime da imbecilização das pessoas, 46 milhões de estudantes seguem largados à própria sorte.

Algumas matérias sobre o Brasil e a política nacional - "Seu País" - nos mostram os embates entre a PGR e o STF. Lemos sobre o risco que partidos enfrentam - como o quase centenário PCdoB - por causa da atual lei eleitoral. Também lemos sobre as privatizações criminosas acontecendo no Rio Grande do Sul e no país, como a da Eletrobras. Vi boas matérias na seção de economia nos alertando para o apagão e o custo da energia elétrica no Brasil.

Na seção "Nosso Mundo" eu me atualizei sobre a nova guerra fria que os países do G7 estão desenvolvendo contra a China. Também me atualizei sobre o novo governo de Israel e a continuidade das políticas anteriores, do fascista Netanyahu. Segue o cerco a Gaza. É desesperadora a matéria sobre a forma de tratamento aos trabalhadores do Sudeste Asiático em relação à Covid-19 e as linhas de produção das fábricas que abastecem os países europeus. É um regime de escravidão global.

A seção "Plural" é o respiro n'alma após tanta tragédia factual. Sabemos ali de livros, teatro, cultura etc. Saiu uma biografia de Euclides da Cunha. Eu não terminei a leitura de Os Sertões. Li as duas primeiras partes "A terra" e "O homem" e me falta um dia retomar e ler "A luta". Recomendo a leitura do artigo de Maria Flor "Reflexões sobre a morte". Tive que interromper a leitura com os olhos cheios d'água e arrepiado. Também apreciei o artigo de Arthur Chioro: "Luto pelos 500 mil mortos".

COMENTÁRIO: Que caos vivemos no mundo sob a hegemonia do sistema capitalista! Não dá mais, não dá mais! Nós precisamos reunir pessoas suficientes para construirmos uma nova sociedade, um mundo cooperativo, solidário, sustentável e com igualdade e oportunidade para todas as pessoas. Temos que enterrar o capitalismo e distribuir a riqueza que a humanidade gerou e temos que aproveitar os avanços da ciência para vivermos de outra forma, sem exploração e acumulação capitalista.

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Neste caos em que vivemos no Brasil, destruído por um golpe de Estado que nos legou o clã Bolsonaro e um bando de trogloditas e todo tipo de corrupto predando as instituições da vida nacional, estamos largados à própria sorte. Não temos mais leis, não temos normalidade nas coisas mais comezinhas da vida cotidiana.

Teremos falta de luz e água. Não temos uma estratégia nacional para enfrentar a pandemia de Covid-19. Não temos empregos para as pessoas. Vivemos uma total anomia. Nossos cartões são clonados, a internet não funciona mesmo pagando caro. Nenhum serviço público funciona mais. Caos.

William


segunda-feira, 21 de junho de 2021

32. Hamleto - William Shakespeare



Refeição Cultural - Cem clássicos

"HAMLETO: Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer... dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonho poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa ideia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte - terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou - que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência. Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e até o nome de ação perdem. Mas, silêncio! Aí vem vindo a bela Ofélia. Em tuas orações, ninfa, recorda-te de meus pecados." (SHAKESPEARE, Hamleto, p. 74)


Reli o clássico Hamleto, de Shakespeare, entre ontem e hoje. Foi minha terceira incursão na tragédia, escrita por volta do ano de 1600. Minha primeira leitura foi ainda na juventude, antes dos 20 anos. Depois, a li em 2005, já adulto e com maior experiência de vida. Agora a releio aos 52 anos. Que tragédia! É um grande clássico da literatura mundial.

Desta vez, a leitura foi motivada por outra leitura em andamento: Ulysses, de James Joyce. Dias atrás, li o capítulo 9 da epopeia irlandesa e parte da temática abordada no capítulo se trata de Hamlet e Shakespeare. Assim que terminei a leitura, pensei em reler o clássico shakespeareano. Ler aqui a postagem sobre a leitura de Joyce.

Essa tragédia deu origem a algumas expressões que se tornaram populares na cultura mundial. O drama do jovem príncipe Hamlet nos põe a pensar sobre a vida e a morte.

A edição que tenho foi presente de meu primo mineiro Jorge Luiz, na tradução de Carlos Alberto Nunes e com ilustrações feitas no século XIX, por John Gilbert.

Ilustração de John Gilbert. Hamleto segura
nas mãos o crânio do bobo do rei, Yorick.

Alguns textos que li sobre Shakespeare me trouxeram conhecimento novo a respeito do dramaturgo e poeta. As leituras de curiosidades se deram após ver o debate sobre o personagem Hamlet através de Stephen Dedalus, personagem de Joyce. 

Shakespeare teve três filhos, e o único filho homem - Hamnet - morreu aos 11 anos de idade. Alguns críticos dizem que as tragédias do dramaturgo ficaram muito mais intensas após isso. No Ulysses, de Joyce, o personagem principal, Leopold Bloom, também padeceu dessa dor indescritível, perder o único filho homem - Rudy -, que no dia em que se passa a estória, teria também 11 anos de idade.

Muitos estudiosos e críticos associam a semelhança entre o nome do filho morto de Shakespeare (Hamnet) ao nome do personagem principal da tragédia (Hamlet).

Algumas passagens de Hamleto são por demais fantásticas, a do "ser ou não ser", a do crânio do bobo da corte durante a passagem de Hamleto pelo cemitério, dentre outras. Veja alguns excertos abaixo:

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"HAMLETO: Recebamo-lo, então, como a estrangeiro. Há muita coisa mais no céu e na terra, Horácio, do que sonha a nossa pobre filosofia." (p. 46)

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"POLÔNIO: (...) Vou falar-lhe outra vez. Que é que o meu príncipe está lendo?

HAMLETO: Palavras, palavras, palavras..." (p. 58)

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"HAMLETO: Pode-se pescar com um verme que haja comido de um rei, e comer o peixe que se alimentou desse verme.

O REI: Que queres dizer com isso?

HAMLETO: Nada; apenas mostrar-vos como um rei pode fazer um passeio pelos intestinos de um mendigo." (p. 107)

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"HAMLETO: Deixa-me vê-lo. (toma o crânio.) Pobre Yorick! Conheci-o, Horácio. Um sujeito de chistes inesgotáveis e de uma fantasia soberba. Carregou-me inúmeras vezes às costas. E agora, como me atemoriza a imaginação! Sinto engulhos. Era aqui que se encontravam os lábios que eu beijei não sei quantas vezes. Onde estão agora os chistes, as cabriolas, as canções, os rasgos de alegria que faziam explodir a mesa em gargalhadas? Não sobrou uma ao menos, para rir de tua própria careta? Tudo descarnado! Vai agora aos aposentos da senhora e dize-lhe que embora se retoque com uma camada de um dedo de espessura, algum dia ficará deste jeito. Faze-a rir com semelhante pilhéria. Dize-me uma coisa, Horácio, por obséquio.

HORÁCIO: Que é, príncipe?

HAMLETO: Acreditas que Alexandre, depois de enterrado, tivesse esse mesmo aspecto?

HORÁCIO: Igual, igual, príncipe.

HAMLETO: E este cheiro? Puá!!

                  (joga o crânio.)"

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É isso. Mais um clássico relido.

Eu sei que deveria focar na leitura das dezenas de clássicos que ainda não li (o tempo de minha vida está escorrendo pelas bordas da terra plana na qual me peguei após o golpe de Estado no Brasil e as mortes severinas ficam nos cercando nos dias que correm), mas não tem jeito. Às vezes, temos que reler clássicos que já vimos muito tempo atrás. Até porque somos outra pessoa, o mundo é outro, o contexto idem e até a leitura coletiva da obra é outra.

Abraços aos leitores e leitoras.

William


Bibliografia:

SHAKESPEARE, William. Hamleto. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Coleção Universidade de Bolso. Ediouro/10983.