quarta-feira, 8 de março de 2023

Lembranças - Capítulo 8



Refeição Cultural

Osasco, 8 de março de 2023. Quarta-feira. Dia Internacional das Mulheres.


Sem pertencimento

Estava olhando as anotações de minha Carteira de Trabalho e Previdência Social. Nela, os registros feitos ao longo do tempo auxiliam minha memória ao olhar para trás e ver a mim mesmo em diferentes etapas do viver, a começar pela cara de menino na foto do documento, eu tinha 12 anos no dia em que tirei minha CTPS, 21 de janeiro de 1982.

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UMA DIGRESSÃO

Em um dos registros, consta que trabalhei numa escola de idiomas entre os dias 3 de janeiro de 1991 e 31 de dezembro do mesmo ano. Eu era assessor administrativo. Tinha 22 anos.

Me lembro como se fosse hoje as instruções da dona da escola, Glória, para os processos seletivos que fazia. Ela dizia pra eu nunca contratar uma mulher, nunca, porque mulheres menstruam e têm enxaqueca, engravidam, mulheres vivem faltando por qualquer motivo, filhos, família etc. Hoje, tenho claro as explicações sobre as relações de classe no capitalismo. Glória não era uma mulher naquele contexto, era uma capitalista. Lugar de fala tem um pouco a ver com isso.

Essa postagem não tem como tema a questão do dia internacional das mulheres, poderia ser se o meu papel social ainda fosse o que ocupei por um bom tempo em minha vida, de representante de classe. Hoje não teria sentido escrever sobre o tema, não eu. Infinitas serão as matérias e artigos e declarações e posições a respeito da luta central das mulheres pela emancipação e igualdade tão necessárias. Eu não sou mais representante de classe e nem influenciador de segmento algum da sociedade.

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NARRADOR DEMIURGO DE MINHA HISTÓRIA

Quando olho para trás, com o conhecimento que acumulei até hoje, fica mais fácil compreender as diversas etapas da vida pelas quais passei. É como se eu fosse um desses narradores demiurgos em romances ficcionais, que sabem tudo sobre o passado, o presente e o futuro dos personagens, sabe o que eles pensam e o que fariam e não fariam de acordo com seus caracteres.

Começo essas lembranças pelo fim ou pelo começo (ab ovo)? Ou começo in medias res (pelo meio da história)? Meu último registro em Carteira de Trabalho data de 03 de abril de 2019. Meu primeiro registro data de 07 de fevereiro de 1984. 

Ao longo de 40 anos fui personagem de várias histórias da classe trabalhadora brasileira, fui subproletário e proletário, trabalhando sem carteira assinada anos seguidos em trabalhos intermitentes, depois passei a maior parte da vida laboral como bancário, em funções de baixa remuneração - escriturário e caixa executivo -, e ao final da vida laboral acabei ocupando uma posição de alta remuneração, por ter sido representante de classe numa função de direção. Aos 50 anos, após quase 27 anos na empresa que trabalhei, saí sem festas de despedidas e tapinhas no ombro.

Escrever diários, ou memórias, não é um troço fácil, não é. O personagem se expõe. Alguns personagens são clássicos por suas memórias e suas exposições. Os personagens machadianos, por exemplo, são das melhores criações que um homo sapiens produziu para essa espécie tão contraditória e autodestrutiva que somos. Vamos acabar mais dia menos dia, vamos acabar com tudo. Isso não é pessimismo, é leitura da realidade.

UMA VIDA PROCURANDO ALGO, TALVEZ SENTIDOS, TALVEZ PERTENCIMENTOS

Neste exato momento em que escrevo me sinto sem pertencimento a qualquer coisa da sociedade humana. É uma constatação. A sorte é que algumas coisas movem o animal humano, uma certa ética ou talvez algum sentimento desses que chamamos amor, responsabilidade, solidariedade, caráter ou coisa do tipo. Contrato social resume o que quero dizer.

Desde meus tempos de trabalhos intermitentes, trabalhos braçais, na infância, alguma coisa me movia para seguir e seguir e tentar de novo e sonhar em ter um amanhã melhor que aquele que vivia no dia a dia. Uma das lembranças mais fortes que tenho daquele período de um trabalhador jovem em trabalhos duros é a vontade que sentia que o dia terminasse para que pudesse sair daquilo e descansar e dormir. Era impossível ser feliz... e me lembro do cansaço. Por isso, quando o despertador toca, a gente quer dormir um pouco mais, ainda não estamos descansados.

Quando tirei a Carteira de Trabalho aos 12 anos de idade foi porque era preciso vender minha força de trabalho desde a tenra idade, era dura a vida que levávamos - meu pai, minha mãe, minha irmã e eu - como subproletários brasileiros vivendo numa cidade do Brasil dos ditadores e ricos desgraçados que faziam a vida do povo uma merda. Meu conhecimento atual me permite ver melhor esses personagens nos anos oitenta.

É nessa fase tão comum da vida das classes trabalhadoras, entre a infância, adolescência e vida adulta no mundo do trabalho, que as pessoas levam vidas miseráveis e são exploradas de forma vil e humilhante. E como seres humanos racionais (homo sapiens) nós tentamos nos agarrar a qualquer coisa que nos dê alguma esperança num amanhã melhor que o momento (mesmo que seja após a morte!). Marx explica as religiões nesse contexto, e a crença em algo que dê sentido e esperança no viver faz grande diferença na vida dos explorados e infelizes.

Durante 40 anos de venda da minha força de trabalho busquei sentidos e justificativas que dessem completude ao meu viver. Durante esse período busquei sentidos nas religiões, no envolvimento em lutas coletivas, procurei respostas nos estudos e nos livros, na ciência, em tudo quanto é coisa que se possa imaginar do mundo humano. 

Tive pouco tempo pra pensar, cismar, refletir sobre as coisas. A vida de subproletário é trabalhar, fazer os estudos formais e dormir. A vida de proletário, idem. A vida era imediata, ela é imediata para aquela imensa maioria que só vive pra benefício de uma minoria (elite desgraçada!). Eu ainda odeio os ricos! Compreendo a ignorância (não saber) do povo da classe à qual pertenço (pertenço?). 

COMUNIDADES IMAGINÁRIAS, ABSTRAÇÕES HUMANAS

Dois livros que li na última década responderam várias perguntas não necessariamente feitas, mas contidas nos curiosos, naquelas pessoas que têm aquela curiosidade filosófica. O livro do neurocientista e professor Miguel Nicolelis - O verdadeiro criador de tudo - Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos (2020) e o livro de Benedict Anderson - Comunidades imaginadas - Reflexiones sobre el origen y la difusión del nacionalismo (1991) foram leituras que esclareceram grande parte das minhas perguntas sobre a vida e o universo no qual vivemos.

Ambos, explicam como se dão as abstrações humanas, as criações imaginárias que os homo sapiens executam diariamente e ao longo da história dessa espécie e que foram responsáveis por tudo de bom e ruim que nós fizemos nesse planeta nos últimos milhares de anos. Sapiens, de Yuval Harari, também aborda um pouco isso, mas eu não terminei a leitura do livro.

O fato é que criamos deuses há milhares de anos - ontem e hoje, em todos os cantos do mundo -, criamos línguas, símbolos e linguagens, criamos culturas, fazemos guerras de extermínio, destruímos coisas como a própria natureza para criarmos outras coisas, criamos a filosofia, a ciência e a educação e através delas alguns homo sapiens passaram a manipular zilhões de homo sapiens e a dominar o que as pessoas acreditam e defendem - ideologia - mesmo que apoiem coisas que vão prejudicar a elas mesmas, as abstrações e as ideias são mais fortes que elas mesmas.

E assim, como um reles mortal, me vi pertencendo a um monte de abstrações ao longo da existência. Me senti brasileiro, me vi católico e crente nas coisas para além da matéria e da física, depois percebi que as metafísicas não cabiam mais em minhas concepções de mundo, e as relações de classe me fizeram ser de esquerda quando tive oportunidade de acesso à palavra e opinião do meu lado da classe, a dos que vendem a força de trabalho para sobreviver. Após uma vida adulta com muito pertencimento a diversas comunidades imaginadas - a do Banco do Brasil, a dos bancários, a dos movimentos sociais de esquerda - hoje estou no limbo, não me sinto pertencente a nada. Isso é triste!

Não sou aposentado porque com as reformas da previdência talvez eu morra antes de ser considerado um aposentado pelo governo de meu país. Sou beneficiário de fundo de pensão e tenho remuneração certa por ter contribuído por décadas e recebo o que as regras estatutárias definiram ao passar a gozar o direito.

Não sou contador nem professor porque nunca atuei nas áreas nas quais fiz graduação: Ciências Contábeis e Letras. Ao ter a ocupação de bancário a vida toda, acabei não tendo uma profissão. Bancário é ocupação e não profissão. Escriturário, caixa executivo e sindicalista é ocupação e não profissão.

No início dessas memórias e reflexões, que já se estenderam e é hora de finalizar, falei de não me sentir pertencente a nada e ao mesmo tempo saber de meus contratos sociais, de minhas responsabilidades enquanto um ser social de relações. 

Minha saída da política se deu talvez por minhas características, nunca fui de paparicar ninguém e sempre fui honesto nas opiniões e, sendo assim, não caibo mais no espaço político que militei por décadas.

Nas relações com seres humanos sinto uma falta de pertencimento incrível - não só nas minhas relações familiares, com conhecidos e estranhos - porque os seres humanos de hoje são como são - relações em bolhas de "iguais" -, se você endossa e paparica alguém ou algo você faz parte da bolha, se não, não.

O desejo é quase que o silêncio total, quando se pensa pais, filhos, conhecidos, estranhos. Não é todo dia que estamos com saco pra falar amém e sim sim para qualquer ser humano que não tolera um "mas", um "veja bem", uma discordância.

É isso. Sem pertencimento. Contudo, estou ciente que devo me alimentar de forma equilibrada, praticar atividades físicas que preservem o corpo para o viver. Alimentar o cérebro, essa casa de meu "espírito". Aliás, até isso está foda! Estou lendo política, história, ciências, culturas, línguas, mas só por automatismo. O aprender algo novo está sem sentido, sendo o que sou hoje...

Os contratos sociais me mantêm! Tudo bem! Seguirei me cuidando. Tenho pessoas que me mantêm por aqui. Não fossem elas... (me lembrei dos tempos de revolta de subproletário e proletário, eu compreendia por que as pessoas viravam terroristas ao terem suas casas e famílias e amigos mortos pelo inimigo...)

William


Post Scriptum: a leitura do capítulo anterior de minhas Lembranças pode ser feita aqui.


segunda-feira, 6 de março de 2023

Lendo: Os sentidos do lulismo (III) - André Singer



Refeição Cultural

Osasco, 5 de março de 2023. Domingo nebuloso. (só terminei na segunda o texto que comecei no domingo)


A leitura do 2º capítulo do livro de André Singer, me fez olhar para trás e ver a nossa vida brasileira de forma clara e transparente como a água de Bonito (MS). Lula, o PT e o povo brasileiro são bastante próximos daquilo que Singer nos apresenta em sua tese sobre o lulismo. O capítulo 2 se chama "A segunda alma do Partido dos Trabalhadores".

O capítulo analisa um período que vai das eleições de 1989 até as eleições de 2010, da criação do Partido dos Trabalhadores em 1980 ("o espírito do Sion") até a "Carta ao povo brasileiro" em 2002 ("o espírito do Anhembi"). Contrapõe essas duas almas do PT até aquele momento no qual o livro foi editado, 2012.

Ler o livro hoje, entendendo ser uma análise antes das manifestações de junho de 2013, antes do Golpe de 2016, antes de Temer e Bolsonaro, é muito esclarecedor para compreender o Brasil que viveu as eleições de 2022, a vitória do lulismo no ano passado, porque avalio que não foi o PT que venceu as eleições de 2022, foi Lula. E isso nos dá uma fragilidade gigantesca em relação ao futuro, que não existe (só o hoje existe).

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LER E ESCREVER SÃO ATOS DE BUSCA PELO CONHECIMENTO, E UM ATO DE AMOR AO PRÓXIMO

Não tem sido fácil ler. Confesso. Banzo... Faço um esforço pessoal ao ler textos políticos ou materiais formativos que alimentem meu cérebro de algo novo para que eu não caia na rotina imbecilizante que envolveu a humanidade quase que completamente, não posso deixar meu cérebro morrer. Somos natureza, somos matéria, somos o instante, somos finitos. Sou o acúmulo de meus esforços, de minhas relações afetivas e das casualidades do viver. Escrever uma postagem desta dá um trabalho da porra! Contudo, o esforço de fazê-la já é alimento cognitivo, uma refeição cultural. E, às vezes, até contribuo com uma ou duas pessoas que leram esse esforço honesto e compartilhado com o mundo.

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O ESPÍRITO DE SION

Singer nos lembra um pouco do que foi o "espírito" da reunião ocorrida na escola da Congregação Nossa Senhora do Sion no dia da fundação do Partido dos Trabalhadores, em fevereiro de 1980:

"(...) a proposta de fundação do partido, aprovada em Congresso dos Metalúrgicos (janeiro de 1979), falava em criar um partido 'sem patrões', que não fosse 'eleitoreiro' e que organizasse e mobilizasse 'os trabalhadores na luta por suas reivindicações e pela construção de uma sociedade justa, sem explorados e exploradores', expressão que significava, na época, uma referência cifrada ao socialismo." (p. 88)

Em seguida, Singer descreve um pouco das forças políticas e segmentos sociais que participaram daquela construção partidária: grupos de intelectuais de diversas áreas do saber e cultura, grupos religiosos das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), o movimento sindical mais combativo (novo sindicalismo) e movimentos sociais. É uma mistura de segmentos sociais histórica essa que criou o PT. 

Aliás, as mentiras que a extrema-direita inventa sobre o partido são muito ridículas e só fazem efeito porque as pessoas são muito preconceituosas e ignorantes (ignoram, não sabem)! O PT é um partido de crentes, de gente que tem religião e fé, sou ateu e militei no movimento sindical e partidário por décadas e nunca vi na vida tanto crente junto (pessoa que crê em algo além da matéria)! Talvez a proporção seja de uns 8 em cada 10 esquerdistas que se persignam, que têm seus deuses, santos e orixás. É uma riqueza imensa esse sincretismo religioso!

O partido foi criado pelos trabalhadores organizados a partir do "novo sindicalismo" surgido no final dos anos 70 e início dos anos 80. Até Perry Anderson descreve o PT como algo único no mundo pós-guerra.

"(...) A singularidade brasileira foi anotada por Perry Anderson, para quem o PT constituiu o único partido de trabalhadores de massas criado no planeta depois da Segunda Guerra Mundial." (p. 90)

Singer nos conta que o PT começou a fazer mudanças a partir dos anos 90 por causa do refluxo no mundo do trabalho, eram os efeitos do neoliberalismo, a recessão, desemprego etc.

"(...) Reconhecendo que o quadro havia se transformado, o I Congresso do PT, em 1991, elabora estratégia que busca ampliar o espaço para a luta institucional, uma vez que o movimento social entrara em descenso." (p. 93)

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O ESPÍRITO DO ANHEMBI

André Singer afirma:

"Se existe um momento específico que simboliza a irrupção da segunda alma do PT, acredito ter sido o da divulgação da 'Carta ao Povo Brasileiro', em 22 de junho de 2002..." (p. 95)

Que pena! E eu, bancário do BB recém-eleito diretor do Sindicato em abril daquele ano, estava naquele exato momento aguardando minha liberação do local de trabalho, a agência Vila Iara em Osasco, para começar a atuar como sindicalista no maior sindicato da categoria no país. Isso significa que o meu aprendizado do fazer política já seria com base na 2ª alma do PT e da Articulação Sindical da CUT. Um grupo que entendia que o capitalismo venceu...

"A alma do Anhembi, expressa no programa 'Lula 2002', compromete-se com a estabilidade e atira as propostas de mudança radical ao esquecimento. Enquanto a alma do Sion, poucos meses antes, insistia na necessidade de 'operar uma efetiva ruptura global com o modelo existente', a do Anhembi toma como suas as 'conquistas' do período neoliberal: 'a estabilidade e o controle das contas públicas e da inflação são, como sempre foram, aspiração do todos os brasileiros', afirma." (p. 97)

Eu começaria a aprender a ser sindicalista a partir de agosto de 2002 e enquanto isso, nas profundezas da alma do PT e da CUT, começava uma tendência a aceitar que o capitalismo vinha pra ficar. Eu lia documentos e textos falando do socialismo enquanto objetivos históricos, mas os objetivos imediatos sempre falavam primeiro, afinal, nós tínhamos que apresentar resultados dos processos de negociação entre capital e trabalho. E apresentamos resultados por vários anos seguidos!

"O que estava em jogo, na verdade, era o abandono da postura anticapitalista que o partido adotara na fundação..." (p. 98)

Dias atrás, agora em março de 2023, vi uma entrevista do novo presidente do PT-SP, o companheiro Kiko, ao Breno Altman, e em certo momento fiquei chocado (a gente ainda se surpreende!) ao ver afirmações na linha do que está dito por Singer em relação à alma do Anhembi. O capitalismo venceu... temos que melhorar um pouco a vida das pessoas... etc. E olha que passei a entender melhor o que era "conciliação de classe" uns anos depois de já ser sindicalista.

FIM DO AUTOFINANCIAMENTO DO PARTIDO

Aprendi no movimento sindical a expressão "quem cria, sustenta" em relação a lutar pelo fim do imposto sindical e pela sindicalização massiva dos trabalhadores para termos sindicatos independentes de governo e patrão.

Singer descreve o que aconteceu com o PT quando o espírito do Anhembi passou a dominar o partido. Ele cita um estudo de Pedro Floriano Ribeiro que diz:

"A grande guinada na estrutura de financiamento do PT ocorre em 1996: de um ano a outro, a participação do fundo partidário no total das receitas petistas passa de 12,3% para mais de 72%". (p. 100)

Singer acrescenta que a contribuição de empresas também aumentou a partir dos anos 2000. E termina o parágrafo demonstrando o fim do princípio de quem cria, sustenta.

"Em contraste, a participação dos filiados no financiamento do partido, que fora de 30% em 1989, caíra para menos de 1% em 2004." (p. 100)

O capítulo é longo e não dá pra colocar na postagem muita coisa.

O autor vai explicar o processo de popularização do partido nas classes de menor renda, ocupando o lugar que o MDB teve durante o período da ditadura. O PT vai perder base na classe média e nos grupos mais ideológicos à esquerda.

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"Em resumo, os indicadores empíricos convergem na direção de que, depois de 2002, o partido passa a ter menos força relativa na classe média, nos eleitores de alta escolaridade, no Sul/Sudeste e nas capitais das regiões mais ricas, cuja aceitação o caracterizava desde a fundação. Por outro lado, ampliou em escala significativa o suporte entre os eleitores de baixa renda, de baixa escolaridade, no Norte/Nordeste, nas metrópoles periféricas e no entorno das capitais. O PT vai, portanto, na mesma direção que o lulismo, tornando-se um partido popular." (p. 116/117)

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"PARTIDO DOS POBRES"

"Pode-se dizer que, depois de 2006, o partido ficou muito mais próximo do Brasil do que era até meados dos anos 1990, mostrando que estava certa a intuição de Juarez Guimarães quando ele escreveu que 'o PT tornou-se nos últimos anos mais nacional, mais brasileiro, mais sertão, mais samba, mais negro, mais nordestino e mais amazônico, mais agrário'. (...) Por ter entrado no coração do subproletariado, o PT adquire a feição de 'partido dos pobres', lugar que estava vago na política brasileira desde pelo menos 1989, quando o PMDB foi fragorosamente derrotado pelo fracasso econômico do governo Sarney." (p. 117)

Na conclusão do capítulo, Singer diz que a síntese das duas almas do PT, ainda que uma síntese "provisória" à época, 2012, é que a esquerda passou a ser a minoria nos segmentos que apoiam o PT.

"(...) Isso significa que a base do PT, que era predominantemente de esquerda, passou a abrigar um contingente análogo de eleitores situados à direita, os quais, somados aos de centro, deixam a esquerda em minoria." (p. 118)

E olha que eu percebi isso dentro do movimento social ao longo de duas décadas...

O capítulo termina com Singer avaliando que enquanto durasse as melhorias para o povão, sem nenhuma mudança da ordem econômica e capitalista, o PT poderia ir longe. Só que vieram diversas mudanças internas e externas, crise capitalista, movimentações do imperialismo patrocinando novos golpes de Estado, junho de 2013, Lava Jato etc.

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COMENTÁRIO FINAL

É muito esclarecedor o livro de André Singer, mesmo lendo seus ensaios mais de uma década depois e após ver tudo o que aconteceu no Brasil entre 2013 e 2023.

A mim, que vive por dentro todo o período de ascensão e queda de Lula, do PT e do movimento sindical, fica muito claro entender por que no momento as coisas caminham como caminham, após a volta de nosso grande líder Lula à presidência do país num cenário completamente diferente dos cenários de governos anteriores.

Entendo por que na esquerda não há mais espaço algum para divergências de ideias e debates sobre estratégias e objetivos de futuro. Como diz Hobsbawm na "Era dos extremos", tudo compreender não é tudo perdoar. Uma coisa é entender como as coisas funcionam, outra é concordar com elas.

Chega, cansei de escrever nesta postagem longa.

William


P.S.: Para ler comentários sobre o capítulo anterior, é só clicar aqui.


Bibliografia:

SINGER, André. Os sentidos do lulismo - Reforma gradual e pacto conservador. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


sexta-feira, 3 de março de 2023

Lendo: Os sentidos do lulismo (II) - André Singer



Refeição Cultural

Osasco, 03 de março de 2023. Noite de sexta-feira.


"Eis o motivo de o ex-presidente insistir que 'nunca na história deste país...'. Irritados, os supostos 'formadores de opinião' não percebem que Lula não está se dirigindo a eles e martelam a tecla de que a história não começou com Lula, o que é verdade. Contudo, ouvido vários degraus abaixo, o bordão adquire sentido distinto: Nunca na história dos mais humildes o Estado olhou tanto para eles." (p. 81)


Hoje li o 1º capítulo - "Raízes sociais e ideológicas do lulismo" - do livro de André Singer e mesmo sendo uma análise de um período anterior da história política brasileira, um olhar sobre o comportamento do eleitorado brasileiro entre as eleições de 1989 e as eleições de 2010, é possível vermos explicações para o que ocorreria após o golpe de 2016 e a eleição de Bolsonaro em 2018. Tenho a impressão, inclusive, que o eleitorado lulista descrito por Singer - os muito pobres e o subproletariado - foi fundamental de novo para a eleição de Lula em 2022.

"A combinação de elementos que empolga o subproletariado é a expectativa de um Estado suficientemente forte para diminuir a desigualdade sem ameaça a ordem estabelecida." (p. 52)

Li o capítulo relembrando o Brasil daquele período. Pertenci ao subproletariado nos anos oitenta e depois ao proletariado, após os anos noventa. Fui sindicalista nos anos dois mil e vivi intensamente cada momento descrito por Singer no capítulo. 

Me lembro como se fosse ontem a crise do "mensalão" em 2005 e 2006, e as crises sucessivas inventadas pelos manipuladores da casa-grande para desacreditar o governo Lula e a esquerda. Me lembro também de nossos acertos como, por exemplo, as campanhas para estabelecermos uma política nacional de valorização do salário mínimo etc.

Talvez a maior parte de nós da militância nunca tenha compreendido que os pobres no Brasil são de direita, são conservadores e não se identificam com a esquerda. Não é culpa deles, isso é uma questão histórica da luta de classes, e sabemos o poder da ideologia da classe dominante e a manipulação da consciência das massas sem acesso à educação e formação política.

A mudança substancial nas eleições de 2006 em relação às eleições de 1989,1994, 1998 e 2002 é que nessas os muito pobres e miseráveis votavam sempre na direita, nos coronéis, nos candidatos da casa-grande e endinheirados das metrópoles e na de 2006 votaram pela primeira vez na "esquerda", em Lula. Isso se repetiu em 2010 ao votar na candidata de Lula. Surgia ali o fenômeno do lulismo.

Os pobres elegeram Collor em 1989 e FHC nas seguintes e Lula só reverteu essa história dos muito pobres votarem na direita após seu primeiro mandato como presidente do país (2003-2006).

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POBRE QUER MELHORIA DE VIDA SEM SE ENVOLVER EM LUTA DE CLASSE

"Identificada como opção que punha a ordem em risco, a esquerda era preterida em benefício de solução pelo alto, de uma autoridade constituída que pudesse proteger os mais pobres sem ameaça de instabilidade. Esse seria o sentido da adesão intuitiva à direita no espectro ideológico. Era comum, nas pesquisas, os eleitores de baixa escolaridade entenderem a direita como o que é 'direito' ou como sinônimo de 'governo', a esquerda sendo o 'errado' e a oposição..." (p. 58/59)

MARX E O 18 BRUMÁRIO

"Marx, em O 18 Brumário, revela que a projeção de anseios numa figura vinda de cima, que deriva da necessidade de ser constituído enquanto ator político desde o alto, é típica de classes ou frações de classe que têm dificuldades estruturais para se organizar." (p. 59)

Pelos números observados nas eleições brasileiras avaliadas antes do fenômeno do lulismo é possível tirar a conclusão que o teto de 30% era da "esquerda" e não do líder "Lula". Ainda na eleição de 1998, isso é observado:

"Em decorrência, os argumentos da campanha de Lula de que Fernando Henrique tinha abaixado 'a cabeça para os banqueiros e agiotas internacionais [...], aumentou os juros [...] e as empresas estão fechando e demitindo' não atraíram mais do que os cerca de 30% de votos válidos que pareciam, então, constituir o teto do candidato, quando, na realidade, eram o teto da esquerda, socialmente limitada pela rejeição do subproletariado no extremo inferior de renda." (p. 62)

ENTRAM EM CENA OS PROGRAMAS DO GOVERNO LULA

Com as políticas sociais do governo Lula ao longo do primeiro mandato, houve uma mudança no perfil dos apoiadores e eleitores de Lula.

"Em resumo, o tripé formado pelo Bolsa Família, pelo salário mínimo e pela expansão do crédito, somado aos referidos programas específicos, e com o pano de fundo da diminuição de preços da cesta básica, resultou em diminuição da pobreza a partir de 2004, quando a economia voltou a crescer e o emprego a aumentar." (p. 68)

Esses resultados DA Política, como nos ensina Marilena Chauí no livro Leituras da Crise (ela discorre sobre a diferença entre a ética da política e a ética na política), fizeram com que Lula fosse reeleito mesmo após o massacre da crise do "mensalão", crise criada pela mídia da casa-grande por praticamente dois anos.

"Ou seja, durante a fase em que os atores políticos tinham a atenção voltada para as denúncias do 'mensalão', o governo concluía em silêncio o 'Real do Lula', que, diferentemente do original, beneficiava apenas a camada da sociedade que não sai nas revistas." (p. 69)

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"SÍNDROME DO FLAMENGO" OU ELEITOR POBRE NÃO TEM IDEOLOGIA PARTIDÁRIA

Singer traz um conceito formulado por Fábio Wanderley Reis usado para explicar a ascensão do MDB nos anos setenta e depois generalizado como visão estrutural da política brasileira.

"A 'Síndrome do Flamengo' faz o eleitor de baixa escolaridade escolher o partido mais ou menos como opta por um time de futebol. O MDB dos anos 1970 era o 'partido do povo', assim como o Flamengo era o 'time do povo'." (p. 71)

Achei interessante essa questão e isso me faz compreender até as mudanças dos eleitores nas últimas eleições, após o golpe de Estado em 2016.

"(...) Ou seja, não um partido de classe, mas do povo. Nesse script, o PT estaria agora substituindo o MDB dos anos 1970, tanto na falta de conteúdo quanto na capacidade de reter a lealdade popular." (p. 73)

LULISMO SE ESTABELECE NO PT

"Em resumo, argumentarei que o lulismo era uma força nova em 2006, a qual aderiu ao PT lentamente, mas acabou por tomar conta do partido, que, por seu turno, já vinha mudando de orientação programática desde 2002." (p. 74)

PROLETÁRIOS DEVERIAM TER MAIS CONSCIÊNCIA DE CLASSE DO QUE SUBPROLETARIADO DESORGANIZADO

"Para trabalhadores com carteira assinada e organização sindical, a luta de classes em regime democrático oferece alternativas de autodefesa em momentos de instabilidade. Porém, os que não podem lançar mão de instrumentos equivalentes, por não estarem organizados, seriam vulneráveis à propaganda oposicionista contra a 'bagunça'." (p. 75)

QUEM SÃO OS SUBPROLETÁRIOS, FOCO DO LULISMO?

"Subproletários são aqueles que 'oferecem a sua força de trabalho no mercado sem encontrar quem esteja disposto a adquiri-la por um preço que assegure sua reprodução em condições normais'. Estão nessa categoria 'empregados domésticos, assalariados de pequenos produtores diretos e trabalhadores destituídos das condições mínimas de participação na luta de classes'." (p. 77)

Essa citação conceitual é de Paul Singer dos anos 80 e no texto nos é informado que o subproletariado era nada menos que 48% do PEA (População Economicamente Ativa).

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"Dado o seu tamanho, o subproletariado encontra-se no centro da equação eleitoral brasileira, e o coração do subproletariado está no Nordeste. Não somente porque na região empobrecida, que é a segunda mais populosa do país, habita boa parte dos subproletários, mas porque dela irradiam os subproletários que buscam oportunidade no centro capitalista, que é o Sudeste. Nucleado no Nordeste, onde Lula conta com elementos biográficos, mas estendendo-se para o conjunto do país, o lulismo, segundo indicam os dados eleitorais de 2006 e 2010, fincou raízes no subproletariado brasileiro." (p. 78)

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E AGORA, JOSÉ?

André Singer termina o capítulo com a pergunta de um milhão de reais. Como o PT e a CUT vão organizar a classe trabalhadora como pretendem sabendo dessas características do subproletariado e da multidão na informalidade e fora do alcance das organizações da esquerda?

"Em outras palavras, apesar do sucesso do PT e da CUT, a esquerda nao foi capaz de dar a direção ao subproletariado, fração de classe particularmente difícil de organizar. O subproletariado, a menos que atraído por propostas como a do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), tende a ser politicamente constituído desde cima, como observou Marx a respeito dos camponeses da França em 1848. Atomizados pela sua inserção no sistema produtivo, ligada ao trabalho informal intermitente, com períodos de desemprego, necessitam de alguém que possa, desde o alto, receber e refletir as suas aspirações dispersas. Na ausência de avanço da esquerda nessa seara, o primeiro mandato de Lula terminou por encontrar outra via de acesso ao subproletariado, amoldando-se a ele, mais que o modelando, e, ao mesmo tempo, fazendo dele uma base política autônoma. É isso que obriga a esquerda a se reposicionar." (p. 79/80)

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Capítulo com uma análise inteligente e perspicaz para que possamos compreender o Brasil e o povo brasileiro em relação à sua composição e seu comportamento nas questões políticas.

A primeira postagem sobre o livro de Singer pode ser lida aqui.

William


Bibliografia:

SINGER, André. Os sentidos do lulismo - Reforma gradual e pacto conservador. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


quinta-feira, 2 de março de 2023

Lendo: Os sentidos do lulismo - André Singer



Refeição Cultural

Osasco, 02 de março de 2023. Noite de quinta-feira.


"Em suma, penso que no lulismo a polarização se dá entre ricos e pobres, e não entre esquerda e direita. Por isso, a divisão lulista tem uma poderosa repercussão regional, e o Nordeste, que é mais pobre, concentra o voto lulista. Daí, igualmente, termos maioria tucana de São Paulo para o Sul, e petista do Rio de Janeiro para o Norte. Isso significa que o lulismo dilui a polarização esquerda direita porque busca equilibrar as classes fundamentais e esvazia as posições que pretendem representá-las na esfera política." (p. 35)


Acabei lendo 50 páginas do livro de André Singer mesmo não sendo meu foco de leitura no momento. Ontem almocei com o grande amigo e companheiro Carlindo, professor e economista que dedicou sua vida ao Dieese e às lutas da classe trabalhadora brasileira. Em nossa conversa, acabei citando alguns livros, autores e textos formativos para minha compreensão política e a tese de Singer sobre o lulismo é um dos textos que me colocaram a pensar muito sobre o Brasil e o povo brasileiro.

O livro foi lançado em 2012 pela Companhia das Letras e é composto de uma "Introdução", que li hoje, e quatro capítulos, um "apêndice" e um "posfácio". O texto introdutório do professor André Singer é muito esclarecedor, honesto no que se propõe e só de ler a introdução, me veio à memória todo um período de minha vida como dirigente sindical e estudioso do movimento social ao qual militei por mais de duas décadas. Eu li o ensaio que Singer havia escrito antes do livro, talvez uns dois ou três anos antes da publicação, mas não conhecia detalhes como se apresentam no livro.

A ideia central do autor é que Lula conseguiu entre a eleição de 2006 e 2010 mudar a característica dos eleitores que o elegeram e que elegeram Dilma em seguida pela identificação ao líder. Os muito pobres, subproletários, não votavam no PT até 2006, era a classe média que votava no PT. Lula com seu mandato, suas políticas de inclusão pelo consumo e seu jeito conciliador conseguiu quebrar a ligação que havia entre os muito pobres e os coronéis e caciques políticos. Singer descreve como isso se deu. É uma tese muito coerente com o que vimos no país.

Vale a pena deixar algumas citações, contudo vale a pena mesmo é ler o livro e compreender o Brasil, Lula, o comportamento do povo quando o assunto é eleição e a política de forma geral. E a tese de Singer é história brasileira pura.

William

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LULISMO = COMBATE À POBREZA

"Em suma, foi em 2006 que ocorreu o duplo deslocamento de classe que caracteriza o realinhamento brasileiro e estabeleceu a separação política entre ricos e pobres, a qual tem força suficiente para durar por muito tempo. O lulismo, que emerge junto com o realinhamento, é, do meu ponto de vista, o encontro de uma liderança, a de Lula, com uma fração de classe, o subproletariado, por meio do programa cujos pontos principais foram delineados entre 2003 e 2005: combater a pobreza, sobretudo onde ela e mais excruciante tanto social quanto regionalmente, por meio da ativação do mercado interno, melhorando o padrão de consumo da metade mais pobre da sociedade, que se concentra no Norte e Nordeste do país, sem confrontar os interesses do capital, ao mesmo tempo, também decorre do realinhamento o antilulismo que se concentra no PSDB e afasta a classe média de Lula e do PT, criando-se uma tensão social que desmente, como veremos, a hipótese de despolarização da política brasileira pós-ascensão de Lula." (p. 15/16)

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POBRE CONSERVADOR VÊ EM LULA A MELHORA SEM BADERNA

"O subproletariado reconhecendo na invenção lulista a plataforma com que sempre sonhara - um Estado capaz de ajudar os mais pobres sem confrontar a ordem -, deu-lhe suporte para avançar, acelerando o crescimento com redução da desigualdade no segundo mandato, e, assim, garantindo a vitória de Dilma em 2010 e a continuidade do projeto ao menos até 2014." (p. 21)

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CLASSES EM SI (MASSAS) E CLASSES PARA SI (COM CONSCIÊNCIA DE CLASSE)

"Em cada um deles (modo de produção asiático, o antigo, o feudal e o moderno burguês) há classes em si, ocupando posições objetivas nas relações de produção. As classes podem transformar-se em classes para si, isto é, conscientes de seus interesses e dispostas a lutar por eles no plano da política. No caso de classes em si que não logram se unificar e conscientizar-se para a ação coletiva, tendem a aparecer na luta política como massa, estruturada de fora para dentro, como acontece em O 18 Brumário (de Marx)." (p. 23/24)

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LULISMO É CONFLITO ENTRE POBRES E RICOS E NÃO ESQUERDA E DIREITA

"Procuraremos argumentar que o lulismo faz uma rearticulação ideológica, que tira centralidade do conflito entre direita e esquerda, mas reconstrói uma ideologia a partir do conflito entre ricos e pobres." (p. 32)

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LULISMO E VARGUISMO

"(...) o lulismo representa a criação de um bloco de poder novo, com projeto próprio, para cuja compreensão as noções de política de massa (O 18 Brumário) e de revolução passiva (Gramsci) me parecem úteis, desde que filtradas pela cor local. Um poder aparentemente acima das classes que leva adiante a integração do subproletário à condição proletária, assim como o varguismo soldou os migrantes rurais à classe trabalhadora urbana por meio da industrialização, da CLT e do PTB." (p. 45)

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Bibliografia:

SINGER, André. Os sentidos do lulismo - Reforma gradual e pacto conservador. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Diário e reflexões - Fevereiro (28/02/23)



Refeição Cultural - Fevereiro de 2023

Osasco, 28 de fevereiro de 2023. Terça-feira. (texto atualizado às 22h55 de 1º de março)


INTRODUÇÃO: REFLEXÕES

É importante que não esqueçamos os ensinamentos que tivemos ao longo da vida, ainda mais quando tivemos a intenção de aprender através dos estudos e da observação, ou seja, podemos aprender mais ou aprender menos de acordo com a vontade e com as oportunidades que se colocam para nós na vida. Percebo que a curiosidade filosófica do querer compreender a vida eu sempre tive. Isso é bom.

Como diz a música Lucky Man da banda The Verve, sou um homem de sorte. Apesar de todos os perrengues do viver nas décadas vividas, tive muitas oportunidades de aprender coisas boas tanto com as convivências dos ambientes por onde passei como também através de leituras e estudos formais. O homem que sou hoje é resultado da cultura que acumulei até aqui, e só assim pude perceber o quanto não sabemos quase nada. Saber isso é um incentivo para estudar mais todo dia, a todo instante.

A Política é uma das dimensões da vida humana, do viver em sociedade, é uma das habilidades do animal homo sapiens, é o que nos faz diferentes das demais espécies animais. Tive a oportunidade de aprender política por ter sido trabalhador de uma categoria organizada nacionalmente. Mas não me politizei só por isso, aprendi política por querer aprender, por vontade, porque me abri para o ensinamento. Muitos conhecidos também foram da categoria bancária e não se politizaram, não adquiriram consciência de classe. Então meu saber teve um esforço. Isso é bom.

A convivência com o ambiente político do movimento sindical e do mundo do trabalho bancário, primeiro em banco privado e depois em banco público, foi uma oportunidade central na minha vida para me politizar e me tornar a pessoa que sou. Desde a adolescência, minha consciência era formatada somente pelos meios hegemônicos da classe dominante, a minha consciência e a de meus familiares e conhecidos. Nós, o povo brasileiro. Após virar trabalhador bancário numa base com sindicato organizado passei a ter a oportunidade de ouvir a gente da minha classe e isso mudou minha trajetória de vida. I'm Lucky Man...

Achei importante registrar essa reflexão hoje, nesse texto sobre o meu mês de fevereiro, e sobre alguma impressão que tive em relação ao governo Lula e ao mundo no qual vivemos, que é um só, uma aldeia global, com os meios materiais de todos nós, que somos natureza como ela em si. Somos terra, água, ar, minerais, microorganismos. Somos só natureza. E por estarmos hegemonizados pelo modo de produção capitalista estamos destruindo as condições de existência de nós mesmos nessa aldeia global. Política... as decisões entre fazer bombas ou pães são sempre políticas e não técnicas...

Aliás, falando de política, tenho uma compreensão bem melhor das coisas da política pela formação que tive. Como diz o historiador Eric Hobsbawm, não é verdade que "tudo compreender, tudo perdoar" (ver citação completa aqui). Hoje consigo compreender bem melhor como as coisas funcionam na política, concorde ou não, apoie ou não as coisas da política, muito do que já vi nos dois primeiros meses do governo Lula, o nosso governo, são coisas compreensíveis para quem é politizado. Se todas as medidas do governo darão o resultado esperado não temos como saber, mas afirmo aqui que estou na torcida, de verdade! É o meu governo!

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FEVEREIRO

Mundo - A guerra entre os Estados Unidos, seus vassalos e a Otan contra a Rússia em solo ucraniano completou um ano em 24 de fevereiro e não temos à vista perspectivas de paz, nem de vitória de um lado ou do outro. Os EUA desejam que a guerra siga para que o sofrimento dos ucranianos e dos russos traga alguma mudança política na Rússia e seus aliados. A indústria armamentista está sendo beneficiada e o capitalismo agradece por isso. Que merda! Me parece que a Ucrânia pode se transformar naquele charco fétido da 1ª Guerra Mundial, a Frente Ocidental, com mortandade absurda por anos até que a Alemanha perdesse a guerra por maior esgotamento de recursos em 1918. Que foda!

Brasil - O governo Lula segue num esforço de unir e reconstruir o país após a catástrofe dos governos Temer e Bolsonaro. As bolsas de iniciação científica foram reajustadas fortemente, em média 40%. Isso é bom! Outra medida importante para o país e o povo é a volta do Minha Casa, Minha Vida, agora com regras melhoradas que incluem prioridades a idosos e a famílias em áreas de risco (tragédias como a do litoral norte paulista serão cada dia mais comuns com o aquecimento global). Lula começou a valorizar o salário mínimo, referência nacional para trabalhadores e milhões de aposentados. Assim como fizemos desde 2004, haverá uma política de valorização anual do salário mínimo. Isso é bom!

Eu estou preocupado e tenho discordância em relação ao voto que o Brasil deu na ONU se posicionando diferente de seus parceiros do BRICS em resolução sobre a guerra na Ucrânia. O texto só responsabiliza a Rússia e sequer cita o que a Otan e o Ocidente fizeram desde os anos noventa ao avançar as fronteiras e incluir países da antiga Cortina de Ferro na Otan. Muito ruim a posição do Brasil na ONU. Também tenho dúvidas em relação ao que a área econômica está fazendo ao taxar os combustíveis sem mudar a regra dos preços que fode o povo brasileiro em benefício de encher o rabo dos acionistas com a maior distribuição de lucros do planeta. Também acho que Lula deve rever completamente a "deforma" do ensino médio e não me parece que isso é consenso no governo.

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MEU FEVEREIRO

Sigo me esforçando para ter uma condição de saúde aceitável. Evito exageros na alimentação e nas bebidas. Tenho um foco numa alimentação saudável e exercito meu cérebro diariamente, a essência do que sou são meus 86 bilhões de neurônios. O viver é uma oportunidade e temos que dar valor à vida, tanto a nossa quanto a de todas as pessoas e demais seres da natureza.

Neste mês eu corri menos, foram 5 corridas, sendo 4 de 5K e uma maior, de 7,5K. Andei, pedalei e fiz musculação também. Vi muitos filmes antigos e estou lendo revistas de corrida também.

Sigo me esforçando para participar de movimentos políticos, fui em reuniões do Partido dos Trabalhadores e atividades de rua.

Em termos de leituras e estudos, estou lendo dois livros grandes sobre Cuba, Fidel Castro, Ernesto Che Guevara, e lendo autores cubanos, Padura e Martí. Defini que neste ano iria conhecer mais sobre esse povo caribenho fantástico.

Assim como li em janeiro dois livros e um volume de mangá (HQ), neste mês de fevereiro li o livro de poesias rio pequeno, de floresta (comentário aqui), indicado por um grande amigo, o professor Gouveia. O poeta constrói seus poemas no cenário onde nasci e vivi até os 10 anos de idade. 

Li também um livro diário muito bom, diário de um bandeirante..., de Roberto Buzzo (comentário aqui). Terminei a leitura em lágrimas, emocionado com o final. 

Li o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, em homenagem aos 175 anos de sua publicação em 1848. Mais atual que nunca! Ler comentário aqui.

E também li o 3º volume de Gen Pés Descalços, de Keiji Nakazawa. Imagens fortes e história baseada no lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima. Demais! Vale a pena! Comentário aqui.

Em termos de leitura, estou dentro do planejado, foram 5 livros e 2 volumes de mangá nos dois primeiros meses do ano. Além dos livrões que estou lendo.

Sigamos no esforço de ser uma pessoa em busca de conhecimento e de formas de contribuir para um mundo melhor. É fundamental que as pessoas estudem e que pensem maneiras de salvarmos o mundo e os seres humanos.

William


Post Scriptum: minha reflexão sobre o mês de janeiro pode ser lida aqui.


Leitura: Gen Pés Descalços (3) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural

Gen Pés Descalços - Trigo, é hora de brotar

Volume 3


Aos poucos, vou me familiarizando com a linguagem dos mangás e ampliando meus conhecimentos nas diversas formas de mídias de cultura.

A leitura do volume 3 de Gen Pés Descalços se deu em um único dia. Peguei logo cedo o mangá para ler e consegui terminar o volume no final da noite de ontem. Que dureza a vida dos personagens! Quanto sofrimento suporta a família Nakaoka!

Para escrever esta postagem e minhas impressões, reli o texto de prefácio do volume 1 "Os quadrinhos depois da bomba", de Art Spiegelman. O texto é muito elucidativo sobre os mangás de Keiji Nakazawa, ele próprio sobrevivente da bomba de Hiroshima assim como o personagem Gen.

"O simbolismo evidente é característico dos quadrinhos japoneses. Para Nakazawa, isso toma a forma de um sol que reaparece sem piedade, brilhando implacavelmente ao longo das páginas. É o que marca a passagem do tempo, o que dá a vida, a bandeira do Japão, a lembrança da bomba com o calor de mil sóis, e o instrumento que dá ritmo à história de Gen." (V. 1, Prefácio)

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Gen Pés Descalços conta a história de Gen Nakaoka e sua família, descrevendo o dia a dia do povo japonês desde abril de 1945, meses antes do lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki, e avança para o período posterior à hecatombe nuclear e à derrota na 2ª Guerra Mundial.

O 1º volume foca no período que antecede o lançamento da bomba, de abril até 6 de agosto. O povo estava vivendo sob condição de miséria absoluta, um cotidiano de fome e o clima de intolerância era absurdo contra qualquer questionamento ao imperador e à guerra. A família Nakaoka era contra a guerra e eles eram considerados antipatriotas e sofreram muita violência e humilhação por causa disso.

No 2º volume, o leitor sofre muito com os personagens e as cenas que retratam os efeitos da bomba atômica. Os desenhos são incríveis, duros, chocantes. O incrível é que o jovem Gen segue sendo um garoto bom, que se mete em apuros toda vez que seu coração se sensibiliza com a desgraça dos outros. Ele acaba deixando as urgências de si próprio e família para ajudar alguém. É tocante! E ao seu redor, é só maldade e indiferença. Como o povo está embrutecido!

No 3º volume, Gen conhece o senhor Keiji, outra vítima da bomba atômica, uma pessoa desprezada pela própria família por estar entre a vida e a morte pelos efeitos da bomba. Gen precisa desesperadamente de um emprego para ajudar a família e aceita cuidar do senhor Keiji. São fortes as cenas que Nakazawa nos apresenta nessa parte da história.

A maldade inunda o cotidiano japonês e é exemplificada a todo instante, seja através da velha sogra de Kiyo, amiga de Kimie (mãe de Gen), que humilha e trama coisas terríveis contra os inquilinos, seja através da família do senhor Keiji, que deseja a morte dele o tempo todo, seja ainda a cada cenário novo por onde passa Gen.

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IMPÉRIOS, GUERRAS E CAPITALISMO...

A leitura do clássico Gen Pés Descalços me coloca o tempo todo refletindo sobre o mundo em 2023, a respeito da guerra entre os Estados Unidos e Otan contra a Rússia, usando o povo ucraniano como bucha de canhão através do palhaço presidente da Ucrânia, colocado no poder após um golpe de Estado em 2014, início da desestabilização que gerou a guerra. Quem sofre é sempre o povo... sempre! 

Ainda a guerra na Ucrânia e sua continuidade. É idêntico ao caso do império japonês derrotado na 2ª GM: não importava o povo, o imperador e os militares só pensavam nas consequências políticas da guerra. Os Estados Unidos querem derrotar economicamente o inimigo russo e prejudicar a potência econômica China, obrigando a Rússia a colocar seus recursos na guerra em detrimento das necessidades de seu povo. 

PAZ? Nem o imperador japonês queria em 1945, nem os Estados Unidos querem hoje. Os EUA irão alongar a guerra para ver se o povo russo depõe o governo Putin. E o povo ucraniano? Vocês acham que o império norte-americano liga pra eles? As indústrias de armas estão vendendo como nunca...

O lastro da moeda norte-americana é a bomba, as armas, a ameaça de morte a quem não se submete.

Enfim, vamos para o próximo volume do mangá, serão 10 volumes e mais de duas mil páginas.

William


Post Scriptum: para ler os comentários sobre o 2º volume é só clicar aqui. O texto seguinte, volume 4, pode ser lido aqui.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

51. Manifesto do Partido Comunista - Marx e Engels



Refeição Cultural - Cem clássicos

Osasco, 27 de fevereiro de 2023. Segunda-feira.


Reli o Manifesto do Partido Comunista (1848), de Karl Marx e Friedrich Engels, nesta semana que passou, quando o Manifesto completou 175 anos de existência. 

Que documento atual! Ao longo da leitura, cada parágrafo, cada afirmativa, cada diagnóstico da condição da classe trabalhadora é como se o Manifesto tivesse sido feito a partir da condição atual de nossa classe.

O Manifesto é dividido em 4 partes: I. Burgueses e proletários, II. Proletários e comunistas, III. Literatura socialista e comunista, IV. Posição dos comunistas diante dos diversos partidos de oposição.

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O FANTASMA DO COMUNISMO

"Um espectro ronda a Europa: o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa se uniram em uma santa campanha difamatória contra ele: o papa e o tsar, Metternich e Guizot, radicais franceses e policiais alemães."

Que começo empolgante, não é?! Se os autores à época viam realmente o que afirmam sobre uma união geral das classes dominantes para combater os comunistas, hoje vemos uma extrema-direita organizada internacionalmente para combater qualquer avanço social em benefício das classes proletárias e subalternas.

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UMA VERDADE INQUESTIONÁVEL

"A história de todas as sociedades até agora tem sido a história das lutas de classe."

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O ESTADO BURGUÊS

"O poder do Estado moderno não passa de um comitê que administra os negócios da classe burguesa como um todo."

Nós já conhecíamos como operavam os caras da casa-grande nos governos brasileiros antes do golpe de 2016, mas com Temer e Bolsonaro isso foi elevado à enésima potência...

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BURGUESIA REVOLUCIONÁRIA

"A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção, e por conseguinte todas as relações sociais."

Essa afirmação segue muito assertiva. Basta vermos a capacidade da burguesia de alterar em seu favor as relações de trabalho. A uberização e o fim dos direitos sociais no mundo hegemonizado pelo capitalismo é notória.

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NOVOS MERCADOS SEMPRE

"A necessidade de mercados sempre crescente para seus produtos impele a burguesia a conquistar todo o globo terrestre. Ela precisa estabelecer-se, explorar e criar vínculos em todos os lugares."

A atual situação da disputa de hegemonia global por mercados segue idêntica à de séculos atrás. Os Estados Unidos, através da Otan, estão por trás da guerra por procuração entre Ucrânia e Rússia, e a Europa inteira deixou de consumir produtos russos para consumir produtos norte-americanos. EUA x Rússia x China, nova Rota da Seda etc.

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OS EMBARGOS ECONÔMICOS ATUAIS

"Sob a ameaça da ruína, ela obriga todas as nações a adotarem o modo burguês de produção; força-as a introduzir a assim chamada civilização, quer dizer, se tornarem burguesas. Em suma, ela cria um mundo à sua imagem e semelhança."

Os embargos econômicos nada mais são do que uma forma de causar a ruína de países não alinhados e adestrados à burguesia imperialista. É como funciona o capitalismo nesses quase dois séculos de Manifesto e segue assim.

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BURGUESIA AGLOMERA POPULAÇÕES E CENTRALIZA O PODER

"Ela aglomerou as populações, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos. Resultou daí a centralização do poder político."

Vejam essa verdade 175 anos depois da enunciação... os despossuídos se aglomeram nas periferias e encostas das cidades em condições desumanas e 1% de seres humanos capitalistas detêm 70% da riqueza produzida pela humanidade. 

Com o aquecimento global, efeito do modo de produção capitalista, as tragédias aparecem na forma de desmoronamentos dos morros nas fortes tempestades...

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A MENTIRA DA LIVRE CONCORRÊNCIA

"No seu lugar apareceu a livre concorrência, com sua organização social e política correspondente, sob a dominação econômica e política da classe burguesa."

Os capitalistas inviabilizam qualquer forma de concorrência para depois sob a forma de grandes monopólios construírem narrativas de empreendedorismo e livre concorrência... são uns fdp. Quando quebram, roubam os recursos do Estado e do povo explorado.

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NAS CRISES CAPITALISTAS, SÓ O POVO SE FERRA

"Há décadas a história da indústria e do comércio se restringe à revolta das modernas forças de produção, contra as relações de propriedade que constituem as condições vitais da burguesia e de seu domínio. Basta mencionar as crises comerciais que, repetidas periodicamente e cada vez maiores, ameaçam a sociedade burguesa. Nessas crises, grande parte não só da produção, mas também das forças produtivas criadas, é regularmente destruída. Nas crises irrompe uma epidemia social que em épocas anteriores seria considerada um contrassenso - a epidemia da superprodução. A sociedade se vê de repente em uma situação de barbárie momentânea: a fome e uma guerra geral de extermínio parecem cortar todos os suprimentos de meios de subsistência, a indústria e o comércio parecem aniquilados, e por quê? Porque a sociedade possui civilização demais, meios de subsistência demais, indústria e comércio demais..."

E como resolver uma crise capitalista?

"Como a burguesia consegue superar as crises? Por um lado, pela destruição forçada de grande quantidade de forças produtivas; por outro, por meio da conquista de novos mercados e da exploração mais intensa de mercados antigos."

Amig@s leitores, é atual demais esse Manifesto de Marx e Engels...

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TRABALHADORAS E TRABALHADORES SÃO MERAS MERCADORIAS

"Esses trabalhadores, que são forçados a se vender diariamente, constituem uma mercadoria como outra qualquer, por isso exposta a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as turbulências do mercado."

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O CUSTO DA MÃO DE OBRA É O DA SUBSISTÊNCIA DESSA MÃO DE OBRA... QUANDO A TECNOLOGIA FAZ A MÃO DE OBRA CUSTAR MAIS QUE SUA SUBSISTÊNCIA... (DÁ MERDA)

"Os custos do trabalhador se resumem aos meios de subsistência de que necessita para se manter e se reproduzir. O preço de uma mercadoria, portanto também do trabalho, é igual aos seus custos de produção."

Só que temos um problema atual: essa mercadoria está com superprodução. O que o capitalismo faz nessas horas? Citei ali em cima: "destruição forçada de grande quantidade de forças produtivas"... 

Ou seja, para os capitalistas, é preciso destruir uma quantidade de seres humanos, essa mercadoria em excesso...

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A EXPLORAÇÃO DE MULHERES E CRIANÇAS É DA ESSÊNCIA DO CAPITALISMO

"Quanto menos destreza e força exige o trabalho manual, isto é, quanto mais a indústria moderna se desenvolve, tanto mais o trabalho dos homens é substituído pelo das mulheres e crianças. Diferenças de sexo ou de idade não têm mais qualquer relevância social para a classe trabalhadora. Só há instrumentos de trabalho, cujo preço varia conforme a idade e o sexo."

Pagar menos para certos segmentos sociais é uma escolha, uma decisão, uma arbitrariedade do capital na atualidade, por isso paga-se menos para mulheres, pessoas de pele preta, crianças, grupos que sofrem algum tipo de preconceito.

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A ATUALIDADE DO MANIFESTO COMUNISTA

Tenho diversas partes destacadas ainda e a postagem já está enorme. Vamos ver se registro uma segunda parte.

Será que os sindicatos, partidos de esquerda e movimentos sociais do nosso lado da classe fizeram esse trabalho de reler o Manifesto nesta data de comemoração de seu lançamento?

Será? Quem leu ou releu o Manifesto nesses seus 175 anos? Algum companheiro ou companheira do Partido dos Trabalhadores ou do movimento sindical leu?

Para mim, esse sim é um clássico dos clássicos!

William


Bibliografia:

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich Engels. Manifesto do Partido Comunista. 1ª edição. Editora Expressão Popular: São Paulo, 2008.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba XIV (23/02/23)



Refeição Cultural - Cuba (XIV)

Osasco, 23 de fevereiro de 2023. Quinta-feira.


"Para Hilda, o livro era uma ideia maravilhosa e ela se dispôs a ajudar Ernesto. Enquanto isso, os dois estabeleceram uma rotina doméstica amigável, inspirada num programa de leituras semelhante ao que Fidel tinha com Naty. Quando não trabalhavam na magnum opus de Ernesto, os dois falavam sobre poesia: Hilda emprestou a ele uma cópia dos poemas de César Vallejo e ele dividiu com ela o grande amor que tinha por Pablo Neruda, José Hernández e Sara de Ibáñez. Juntos, eles também liam obras políticas: Engels, Marx e Sartre, acima de tudo. 'Compartilhávamos a sensação de "náusea da vida"', relembra Hilda." (Fidel e Che. Reid-Henry, p. 120)


Peguei mais algumas fitas antigas em VHS para assistir. Numa delas estava escrito "Martín Fierro". Para melhorar a experiência ao ver o filme, comecei a reler o clássico poema do gaucho argentino, escrito por José Hernández (1834-1886). A caixinha da fita estava vazia... por sorte, encontrei na internet o filme completo (2005), dirigido por Gerardo Vallejo.

Ao estudar mais a respeito de Cuba e sua história libertadora e revolucionária, vi que o jovem médico argentino, Ernesto Che Guevara era leitor de José Hernández. Que legal essa ligação entre uma leitura e outra!

Terminei a 1ª parte do livro Fidel e Che - Uma amizade revolucionária (2009), de Simon Reid-Henry. Li o livro em 2010 quando o ganhei de presente. A releitura é quase uma leitura nova.

Terminei a 1ª parte do romance do escritor cubano Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros (2009) e já estou no terceiro capítulo da 2ª parte. A impressão que tenho é que o livro é grande demais para a história. Talvez seja porque fazer uma ficção histórica sobre León Trótski seja de fato algo enorme só de pensar, imagina então para completar as lacunas da história do assassinato do líder da Revolução Russa a mando de Josef Stálin?

Em relação ao estudo de línguas e linguagem, ando devagar. Comecei a estudar espanhol na plataforma do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) para relembrar minhas habilidades com a língua, mas ando a passos de tartaruga na sequência das aulas. Estou devagar também com as outras línguas que me esforço no aprendizado, o inglês e o japonês. Estudar pouco é melhor do que não estudar nada. Tenho lido e ouvido muito espanhol, de diversos acentos e isso é bom. Meu ouvido já está bem aguçado para as nuanças dos falares de cada país de língua espanhola.

É isso! Aprender algo diariamente e ser menos ignorante deveria ser o objetivo de toda pessoa que queira melhorar como ser humano e que queira melhorar o mundo no qual estamos também.

William


Post Scriptum: texto anterior dessa série cub.ista pode ser lido aqui.


Bibliografia:

REID-HENRY, Simon. Fidel e Che - Uma amizade revolucionária. Tradução: Beatriz Velloso. 1ª edição. Editora Globo. São Paulo, 2010.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Diário e reflexões (22/02/23)



Refeição Cultural

Osasco, 22 de fevereiro de 2023. Noite de Quarta-feira de Cinzas.


Estava relendo o Manifesto do Partido Comunista, escrito por Karl Marx e Friedrich Engels, publicado há 175 anos, em 1848. É impressionante a atualidade do manifesto! É impressionante! Os diagnósticos das questões sociais presentes naquele momento do mundo capitalista e da luta de classes se encaixam tão perfeitamente no mundo capitalista e na luta de classes do dia 22 de fevereiro de 2023 que fico até com vergonha de não termos mudado a realidade da classe trabalhadora mundial... Como pode ainda estarmos no mesmo cenário 175 anos depois de nos ter sido apresentadas as causas de nossas misérias e infelicidades enquanto classe? Que vergonha!

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No Brasil, o presidente Lula segue trabalhando intensamente para unir e reconstruir o país depois da catástrofe do período Temer e Bolsonaro, após o golpe de Estado em 2016. O governo Lula constituiu um bom grupo de ministros e ministras para a tarefa de dialogar com a diversidade social característica do país mais desigual do mundo, um país cujo povo é carente de tudo, inclusive de formação política, um povo manipulado por séculos, e Lula sabe que é necessário governar para toda essa diversidade. O governo está muito focado em refazer e criar direitos sociais, preservar os biomas naturais, trazer a paz social e oportunidades para todas as pessoas e recolocar o Brasil no mundo, inclusive defendendo o combate à fome e ao aquecimento global e propondo a paz mundial e não a guerra. Lula está hoje mais à esquerda que os movimentos sociais que o apoiam, isso está claro! Que orgulho eu sinto do presidente Lula e de várias lideranças desse governo!

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Eu sigo estudando todos os dias alguma coisa sobre Cuba e o povo cubano, esse foi um dos objetivos que propus a mim mesmo para os primeiros meses do ano. Já sei um pouco mais sobre esse país e povo maravilhosos em relação ao que sabia antes. Peguei alguns livros para ler de autores cubanos ou sobre a história de Cuba. Já li algumas centenas de páginas. No entanto, quanto mais leio, mais fica claro o quanto não sei nada de quase nada. Sei que estudar é assim mesmo, a gente estuda para saber que não sabe nada e com isso se conscientiza de que é necessário combater a ignorância estudando mais ainda. No livro sobre a amizade de Fidel Castro e Che Guevara é notável ver o quanto os dois eram apaixonados pela leitura e pelos estudos, pelo saber. Que orgulho desses dois líderes mundiais de nossa classe trabalhadora! Aliás, ainda em relação a estudar e aprender algo novo diariamente, às vezes supero até o banzo que sinto em alguns momentos e pego algo pra ler e aprender para não passar o dia sem alimentar meu cérebro, meu eu. O que cheguei a ser até agora é o resultado de um amontoado de acasos e sortes somado a um esforço honesto de tentar ser uma pessoa melhor, e o esforço em estudar faz parte dessa construção do ser humano que consegui ser.

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Feito o registro deste diário virtual e público... meu blog de cultura vai mudando ao longo do tempo... é assim mesmo.

William


domingo, 19 de fevereiro de 2023

Vendo filmes antigos (III)



Refeição Cultural

Osasco, 19 de fevereiro de 2023. Domingo de Carnaval e chuva.


Eu que nunca vi muitos filmes na vida, por vários motivos como, por exemplo, preferir leituras e por falta de tempo livre, entendi nesta fase de minha vida (não estou vendendo minha força de trabalho) que deveria ver os filmes que acumulei em casa ao longo do tempo. Sendo assim, estou vendo filmes que tenho em diversos tipos de mídia. Comecei pelos filmes em VHS.

Primeiro vi 6 filmes comprados ou gravados, filmes de décadas diversas (comentário aqui). Dessa primeira lista, O predador (1987), com Schwarzenegger, foi um dos melhores. Gostei dos dois da Coleção Folha também, o filme com a Madonna e o dirigido por Polanski.

Da segunda lista de filmes, documentários e programas em VHS (comentário aqui), o melhor que vi foi o filme Como água para chocolate (1992). Os dois filmes do Jerry Lewis, dos anos 60, são muito ruins. Os dele dos anos 50 são melhores, me parece.

Nesta terceira leva de filmes antigos, vi 5 filmes da Coleção Folha. Gostei de todos eles, sendo A casa dos espíritos (1993) o de maior destaque. Porém, fiquei pensando também no filme do Don Juan. Enfim, para quem vê poucos filmes, já está de bom tamanho ter visto 14 filmes em poucas semanas.

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OS FILMES QUE VI

- Beleza Roubada (1995) - Filme dirigido por Bernardo Bertolucci e estrelado por Liv Tyler, jovem de grande beleza. Sinopse do filme: Lucy Harmon (Liv Tyler) tem 19 anos, alguns sonhos e um trauma: sua mãe suicidou-se. Para tentar superar a dor, entre outros motivos, vai passar as férias na Toscana, Itália, na casa de Diana (Sinead Cusack) e Ian Grayson (Donal McCann). Há mais dois motivos para a viagem de Lucy: Ian quer que ela pose para um retrato e, principalmente, ela espera reencontrar Niccolo Donati (Roberto Zilbetti), com quem trocou o primeiro beijo. Mas há um motivo mais profundo: ela deseja solucionar o enigma deixado pela mãe num diário. 

Comentário: gostei do filme. É um filme com muita sensualidade no ar e as tomadas de cena com os olhares de Liv Tyler encarando o telespectador são de arrepiar. Ao ver as cenas da região da Toscana, me lembrei dos lugares por onde andei na Itália em 2009: Turim, Milão, Veneza e Florença. É um país com belas paisagens. Valeu a pena ver o filme depois de tanto tempo guardado em casa.

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- Don Juan DeMarco (1995) - Filme escrito e dirigido por Jeremy Leven e protagonizado por Johnny Depp, Marlon Brando e Faye Dunaway. Sinopse: Um rapaz usando uma máscara e trajes de época decide acabar com sua vida por perder o seu verdadeiro amor. Ele diz ser o lendário Don Juan e é salvo de se jogar de um prédio pelo psiquiatra Jack Mickler (Brando), que está a poucos dias de sua aposentadoria. O médico tem 10 dias para tentar achar um diagnóstico e cura para o jovem. O jovem paciente acaba mexendo também com a cabeça do psiquiatra... 

Comentário: na minha opinião, o filme é muito bom! O jovem Don Juan é tão bem interpretado por Depp que o telespectador acaba se encantando pelo rapaz e por seu romantismo. O que é real e o que é imaginação em nossas vidas? A história me fez pensar no amor... a música de Bryan Adams é a cereja do bolo: maravilhosa! Have You Ever Really Loved a Woman? Só quem amou sabe a respeito do amor.

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- Traídos pelo desejo (1992) - Filme inglês dirigido por Neil Jordan e estrelado por Stephen Rea, Forest Whitaker, Jaye Davidson e demais elenco. Jody, soldado inglês (Whitaker), é sequestrado por membros do IRA para ser trocado por líder preso. Se o governo não ceder em três dias o soldado será executado. Fergus (Rea), o voluntário do IRA responsável por ficar com Jody e executá-lo, acaba criando uma relação de confiança com a vítima. No desenrolar da história, Fergus acaba conhecendo a namorada de Jody em Londres, a bela cabeleireira e cantora Dil. 

Comentário: o filme me fez lembrar do mundo nos anos 70 e 80, quando o conflito entre o governo inglês e o Exército Republicano Irlandês (IRA) era uma realidade no noticiário. Atentados terroristas não eram incomuns. Outra questão bem interessante no filme do início dos anos 90 é a questão de gênero retratada na obra. A história da rã e do escorpião, contada pelo soldado inglês no cativeiro é conhecida por mim desde a mais tenra idade. 

Para reflexão: o escorpião precisa atravessar um rio e pede que a rã o leve em seu dorso, a rã desconfia da proposta porque sabe do ferrão do escorpião, que usa a razão para explicar que não teria sentido ferroar a rã e morrerem os dois afogados. No caminho a rã sente o ferrão e começa a afundar com o escorpião às costas e antes de afundarem pergunta o porquê de ação tão sem razão. O escorpião disse que foi inevitável porque era a sua natureza...

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- Surpresas do coração (1995) - Filme dirigido por Lawrence Kasdan e estrelado por Meg Ryan, Kevin Kline e Timothy Hutton. Sinopse: Kate (Meg Ryan) não acompanha o noivo Charlie (Hutton) a uma viagem a Paris porque tem muito medo de avião. Ela está entusiasmada com a hipótese de comprar uma bela casa para eles viverem após o casamento, ela inclusive poupou uma boa quantia de dinheiro pra isso. Dias depois da viagem de Charlie, ele liga dizendo que encontrou uma mulher irresistível, que se apaixonou, que sente muito pelo fato e termina o noivado. Kate inconformada com a situação, toma coragem, embarca num avião e vai a Paris para lutar por seu noivo. No voo ela conhece Luc (Kline), um ladrão francês que esconde um colar em sua bolsa. Chegando a Paris, Kate tem a bolsa roubada e então começam as peripécias da história. O ladrão atrás do colar, Kate atrás do noivo... 

Comentário: comédia romântica de entretenimento. Me distraiu por duas horas. Achei o filme bem fraquinho.

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- A casa dos espíritos (1993) - Filme dirigido por Bille August e estrelado por Winona Ryder, Meryl Streep, Jeremy Irons, Glenn Close, Antonio Banderas e elenco. Sinopse: O filme conta a história da família Trueba ao longo de décadas e ao mesmo tempo o telespectador tem ao fundo a história do Chile do início do século XX até o golpe de Estado que derrubou o governo democrático e socialista de Salvador Allende. Vemos os acontecimentos através das lembranças de Blanca (Winona Ryder), que conta a história de sua família, a mãe Clara (Streep) e o pai Esteban (Irons). O filme é baseado no livro homônimo da escritora Isabel Allende, que é filha de um primo irmão de Salvador Allende. 

Comentário: dessa sequência de filmes que vi, este foi sem dúvida o melhor deles. O filme nos faz refletir sobre muitas questões centrais da sociedade como, por exemplo, distribuição da riqueza produzida pela classe trabalhadora, a questão do amor, a fé e religiosidade de cada cultura humana, a democracia, a tolerância e a discriminação social por questões de gênero e raça etc. Filme muito bom!

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COMENTÁRIO GERAL

Se eu tivesse que escolher entre os filmes atuais e os filmes de décadas atrás, eu não pensaria duas vezes e escolheria os filmes antigos, aqueles feitos com pessoas e figurantes de carne e osso, cenários construídos ou naturais e com menos produção por um programa de computador, de forma toda digital. 

Também não tenho interesse nessa série interminável de super-heróis que resolvem as coisas do jeito deles e dane-se a opinião dos outros ou a construção coletiva. Contudo, sei o quanto os cinéfilos gostam dessas franquias e respeito o gosto de cada um. Já vi alguns filmes desses com a família e... normal.

Dos filmes que vi agora, o filme com a história do IRA e do governo inglês - Traídos pelo desejo - me fez pensar sobre algo que eu já percebia quando era criança e adolescente: viver é perigoso... o mundo não é um lugar para se viver em paz, assim como a natureza é bela só do ponto de vista humano, pois na verdade na natureza é matar ou morrer a todo instante. Me lembro dos noticiários sobre o IRA e o governo inglês.

Os dois com a temática do amor e da beleza também me agradaram bastante. Essa série da Coleção Folha tem muitos filmes com a sensualidade e a questão do desejo e sexo destacados.

Por fim, o filme - A casa dos espíritos - que se passa no Chile e que traz a questão da luta entre poderosos e a classe trabalhadora é o mais intenso. 

É isso!

William