domingo, 6 de agosto de 2023

Diário e reflexões - Cuba XXXI



Refeição Cultural - Cuba (XXXI)

Osasco, 6 de agosto de 2023. Domingo.


Comecei a ler o 4º capítulo do livro da professora Maria Leite sobre a educação na República Socialista de Cuba - Cuba insurgente: Identidade e Educação (2023). O tema é: "A educação e as novas diretrizes".

Leio sobre Cuba com um sentimento de preocupação em relação ao que pode acontecer ao país e aos cubanos no presente e no futuro porque torço por eles e sei que a cada dia se torna maior o desafio de existir enquanto organização social distinta do restante do mundo organizado através do modelo neoliberal e capitalista.

O capítulo fala de "valores morais"... importante isso: valores morais!

A Constituição de Cuba garante a toda criança escola, comida e vestuário. 

E aqui no Estado mais rico do Brasil, o governador carioca de SP, um bolsonarista, corta de milhões de crianças o acesso ao livro didático impresso...

"A Revolução não roga aos pais que se preocupem pelo comportamento e pela educação de seus filhos colaborando com a escola e com os maestros: a Revolução o exige", disse Fidel Castro na inauguração do curso escolar de 1977. (p. 118)

Depois, ainda sobre direcionamentos no processo "Educação para Todos" vemos de novo o foco "valores":

"(...) procurando fortalecer a educação de valores, como a solidariedade e o patriotismo; manter e elevar os conhecimentos nas asignaturas de Matemática, Espanhol e História..." (p. 119)

Pedagogia: ciência, arte ou técnica?

"(...) a Educação cubana busca inserção na corrente contrária às tendências que reduzem a Pedagogia apenas a uma existência instrumental, mera facilitadora de atividades aplicadas pelos professores, produzidas por outros saberes e outras ciências, relegando à própria Pedagogia um papel subalterno." (p. 124)

A professora Maria Leite explica que Cuba foi aos poucos se libertando dos pressupostos positivistas sobre o que seria ciência.

-------------------- 

Comentário: é noite de domingo, estou lendo sobre a Pedagogia em Cuba, enquanto leio, martela na minha memória os argumentos de Gorbachev explicando as boas intenções da "Perestroika" nos anos 80, reestruturação que não deu certo e que levou ao fim a experiência socialista na URSS... infelizmente, me dá uma "bad" ao imaginar o fim da experiência socialista em Cuba... mas tudo conspira contra a continuidade do regime lá. Que foda!

--------------------

FORMAÇÃO INTEGRAL EM CUBA (NOVOS HOMENS E MULHERES)

"Na educação superior cubana, o conceito de formação integral, em termos de paradigma, é definido da seguinte forma: a formação integral dos estudantes universitários deve resultar em graduados com um sólido desenvolvimento político, a partir dos fundamentos da ideologia da Revolução Cubana; egressos dotados de uma ampla cultura científica, ética, legal, humanista, econômica e ambiental; empenhados e preparados à defesa da pátria socialista e às causas justas da humanidade com seus próprios argumentos e competentes ao desempenho profissional e o exercício de uma cidadania consciente (CUBA, 2016a)." (p. 128)

Imaginem só a formação universitária no Brasil... Estamos a anos-luz de atingir uma educação semelhante...

Terminando o item 4.2 que aborda o plano de estudos "E", no qual vemos toda a estrutura do sistema de educação de Cuba, fica a preocupação com os dados relacionados à demografia da Ilha, a população está envelhecendo rapidamente por diversos motivos. 

---

(Leitura segue e postagem idem...)

sábado, 5 de agosto de 2023

Diário e reflexões - Caminhei 48 Km


Av. Dr. Martin Luther King.

Refeição Cultural

Osasco, 5 de agosto de 2023. Sábado.


Acordei com o corpo um pouco pedrado. No entanto, considerando a minha caminhada de ontem, estou melhor do que poderia imaginar. Não tive nenhuma bolha nos pés, nenhuma dor além da dor crônica no quadril. Nesta sexta-feira, andei 48 Km entre 9h30 e 23 horas. De certa forma, sei que foi uma realização pessoal incrível nesta altura de minha vida.

Foi um dia todo andando, olhando ruas e paisagens, movimentos de pessoas, carros, trânsito. Vendo a natureza, ouvindo pássaros. Um dia todo concentrado em meu corpo, em minha energia vital. Um dia todo refletindo sobre a vida, as pessoas, o mundo. Pensei muita coisa sobre o passado para compreender o presente e imaginar o futuro.

Fiquei andando entre bairros da região do Butantã, Zona Oeste, entre São Paulo e Osasco. Vila Iara, Parque Continental, Pq. Colina de São Francisco, região do Campo de Golfe, região ao redor da Fundação Bradesco e Vila Campesina, Prefeitura de Osasco, Jaguaré, Cidade Universitária, Rio Pequeno. Andei por onde ando há meio século... meio século!

Av. Dr. Francisco de Paula V. Azevedo.


Cheguei na fase da vida na qual não tenho certeza se consigo completar uma caminhada de 80 Km que faço há décadas, a romaria entre Uberlândia e Água Suja, a secular festa de Nossa Senhora da Abadia, no Triângulo Mineiro. Naturalmente, tenho sido desencorajado por todos, porque se preocupam comigo.

A última vez que fiz a romaria foi antes da pandemia mundial de Covid-19. De lá para cá, a natureza seguiu atuando e minha condição física não é mais a mesma. Não é uma questão de idade. A vida de cada ser vivo é única e cada um é o resultado do acúmulo do viver. O meu viver foi bem intenso e as consequências estão registradas em meu ser. Eu me conheço.

Nas últimas semanas, me deu aquela comichão de pegar a estrada e sentir aquele turbilhão de coisas que se sente quando se faz uma caminhada como aquela de Uberlândia a Água Suja. Juro, só quem a faz sabe o que é aquilo... Tenha a pessoa o motivo que tiver, religioso ou não, a experiência de fazer a romaria é única e muito pessoal.

Avaliando racionalmente, mesmo após a caminhada de ontem, não tenho a certeza se completo ou não a romaria. O que sei é que fiz um esforço pessoal e andei nos últimos dias 10 Km, depois 20 Km, depois 30 Km e ontem 48 Km. Aliás, como digo sempre, cada caminhada dessas foi única, porque o caminho vale mais que o destino, e muito refleti durante as caminhadas, muito mesmo.

---

Av. Dr. Martin Luther King.


QUANTO POSSO AINDA?

A ideia quando saí cedo de casa nesta sexta, dia 4, era andar e sentir o meu corpo e a minha condição física para os momentos decisivos de uma longa caminhada, ou seja, ver como meu corpo reagiria após dezenas de quilômetros andados.

Uma questão central para um peregrino é a condição de seus pés ao longo da jornada. Uma coisa é a pessoa estourar os pés logo no início, outra é estar com os pés inteiros até o destino ou próximo a ele.

Já teve vez que meus pés deram bolhas antes do Rio Araguari, uns 15 Km depois do início. Aí é dureza... a dor e o sofrimento serão imensos por dezenas de quilômetros. Tem vez que não tenho bolha nenhuma... aí a peregrinação é bem melhor, sentindo só as dores do cansaço físico.

Depois que aprendi a preparar meus pés com esparadrapos, a vida de romarias melhorou muito. Os esparadrapos nos locais certos evitam que as bolhas estourem quando o calçado não deu muito certo. Às vezes temos bolhas por causa do calor do chão, às vezes por meias ruins, calçados ruins, pisada forte demais etc.

Como fiquei testando um tênis este ano, apostei em um nas últimas semanas e ontem foi uma questão de adequar meus pés e minha pisada para não me machucar. É sério! Com um pouco de autoconhecimento, a gente consegue pisar diferente e "amaciar" a caminhada para não ir marcando os pés. Deu certo! Mesmo sem esparadrapos, não tive bolhas.

---

Av. Antônio de Souza Noschese.


METÁFORA DA VIDA, ETAPAS A VENCER

Outra questão mental para um caminhante é definir metas intermediárias durante o percurso que se pretende andar. Na romaria de Uberlândia a Água Suja é assim. São "x" quilômetros até tal lugar, depois "y" quilômetros até outro ponto e assim por diante, até se chegar à igreja na cidade.

Ontem não foi diferente, andando na Zona Oeste, entre São Paulo e Osasco. Mentalizei que queria andar até chegar a "Antena" (abstração de meus 86 bilhões de neurônios). Antena é onde fica uma das principais barracas de ajuda aos romeiros na BR-365 lá em MG. De onde saio até a Antena são 47 Km. 

Da mesma forma, quando andei 30 Km na semana passada, foi como andar de onde saio, no Trevo para Araxá, até o Trevo para Araguari (30 Km).

1ª etapa: 9,82 Km

É impressionante o odômetro interno que um corredor ou caminhante tem em si. Nunca andei com medidor de distâncias. Agora é que tenho um aparelhinho que faz isso. O percurso que sempre achei ter uns 10 Km tinha exatamente 9,82 Km... fala sério, heim!

Comentário: a primeira etapa numa romaria é fundamental. Acertar a pisada, ver se o pé encaixa bem no tênis para um longo dia e calibrar o objetivo internamente. Diálogo consigo mesmo.

2ª etapa: 3,73 Km

Nesta caminhada de 50 minutos, ao redor do bairro onde resido, foi de efetivação de meus acertos internos e antes de fazer uma refeição melhor para uma etapa mais demorada.

Comentário: Na estrada também é assim. Tem etapas maiores e etapas menores de percursos mentalizados. "Agora vou andar até tal lugar e parar uns minutos..."

Av. Prof. Almeida Prado.


3ª etapa: 13,95 Km

Esta foi uma etapa prazerosa. Saí de casa e fui até a nossa querida Universidade de São Paulo. Foram 5 Km até o portão da Av. Politécnica, depois 4 Km lá dentro, mais 5 Km saindo pelo portão da Av. Corifeu e indo até Osasco, a minha casa.

Monumento a Ramos de Azevedo.
Desde 1975, o arquiteto olha para
a Av. Prof. Luciano Gualberto, na USP.


Comentário: passei pela FFLCH-USP, lugar de grande importância em minha vida. Ali completei a mudança de personalidade que iniciei ao entrar no movimento sindical. A graduação em Letras me moldou assim como ser sindicalista.

Saudosismo. Lá no fim da calçada está a
querida FFLCH-USP, onde fiz o curso de Letras.


4ª etapa: 10 Km

Eu tenho preferência por andar de dia, um míope prefere luz natural. Após andar bem durante o dia e o cansaço estar controlável, saí para andar mais uma volta no Parque São Francisco, desta vez anoitecendo e indo por Osasco e chegando por São Paulo. De manhã, havia feito o inverso.

Comentário: imaginem vocês se o corpo não fica te instigando, insinuando que já está bom e que é hora de parar... nesta hora começa a entrar em ação a mentalização e a definição de objetivos que o peregrino traçou lá no início.

Anoitecer em Osasco.

 

Queria me testar andando uns 47 Km como se estivesse na estrada e buscando chegar à Antena. Fui firme comigo mesmo e andei os 10 Km em 2 horas e meia.

Ponte Metálica de Osasco.


5ª etapa: 10,25 Km

Na etapa anterior, fiquei pensando se passava ou não passava em casa. É óbvio que se passasse, meu cansaço venceria e eu dificilmente sairia para completar o percurso que queria, noite entrada já, corpo sentindo, as desculpas mentais de que já estava bom etc.

Decidi ir direto para um dos shoppings próximos de casa e tomar um café e comer alguns pães de queijo e pensar num roteiro para andar mais 10 Km e completar o objetivo mentalizado cedo. E deu certo!

Já que não tinha barraca de ajuda aos romeiros,
tive que pagar um café com pão de queijo.


Comentário: durante o dia, fiquei atento a não sentir fome e não sentir sede, como me lembrou dias atrás o amigo cronista e caminhante experiente Roberto Buzzo. Mas os finais de caminhadas são sempre os mais perigosos...

---

O CANSAÇO NOS TIRA A RAZÃO...

Uma coisa comum em longas caminhadas é a pessoa se descuidar de si mesma nos momentos de muito cansaço e ansiedade para atingir um objetivo e isso pode nos fazer passar do ponto sem parar para descansar ou se alimentar.

Já tive queda de pressão algumas vezes nas romarias porque o desejo de superar cansaço e dores gerais faz com que o peregrino não queira sequer mexer na mochila para pegar uma fruta ou algo para mastigar porque está perto do ponto, porque o destino da etapa está logo ali...

Aonde vou ela vai, aonde ela vai eu vou.


O mesmo se dá até com relação à hidratação. Já aconteceu comigo algumas vezes de mesmo tendo água na mochila, não querer tirar a mochila das costas andando no breu total na estrada na alta madrugada querendo chegar desesperadamente à Antena... então, é óbvio que isso tem consequência... dá merda!

Aí quando o romeiro chega aonde queria, ele desaba, prostra! A pessoa está desidratada, está faminta, e o corpo quebra, não teve as calorias necessárias durante o percurso de grande esforço físico.

Normalmente, um descanso resolve. O peregrino come, se hidrata, fica uma hora sentado ou deita um pouco e já melhora, segue adiante.

Mas é muito comum e muito perigoso fazer isso. Tem que se buscar uma consciência racional que falta na hora do cansaço. Pare! Mastigue algo! Beba água!

---

Prefeitura Municipal de Osasco. Mundo de Oz.


QUE A CAMINHADA NO MUNDO DE OZ SIRVA DE EXPERIÊNCIA PARA A ROMARIA

A última etapa ontem foi assim. Já beirava as 23 horas, eu andando pra completar quase 50 Km, já sentia que o corpo pedia para mastigar algo, deveria estar tomando mais água... como faltavam poucos quilômetros para chegar ao objetivo fui adiando... adiando. Não me hidratei e não comi para saciar meu corpo extenuado.

Cheguei umas onze horas e estava eufórico por ter completado o percurso, por ter andado bem e não ter tido bolha, por meu quadril ter me permitido andar 48 Km... Me senti realizado pelo que mentalizei de manhã.

A cidade que escolhi para viver. Mundo de Oz.


Cheguei e vacilei ao não comer um prato de comida logo que entrei. Já perto da meia-noite, percebi que minha pressão arterial caiu assim como já vi acontecer algumas vezes chegando ou a Antena ou a igreja de Água Suja. Só então, já meio mareado, fui comer direito. Pra quê!! Gastei mais de uma hora para voltar ao normal...

---

A VIDA É UMA JORNADA, NÃO UM DESTINO

Ao acordar hoje pela manhã, fiquei com muitas dúvidas e até pensei algumas estratégias, caso vá mesmo para a estrada na semana que vem. Talvez eu tenha que dormir umas duas horas na Antena, de forma já planejada, para ver se não chego tão esgotado na cidade de Água Suja. 

Também será de grande importância ter muita atenção para não ficar sem comer e beber nos longos percursos até a Antena, 11 Km, e após a Antena, 12,5 Km, num posto conhecido. São nestas etapas duríssimas que a gente perde um pouco da racionalidade por estar muito cansado.

Finalizo esta reflexão de um caminhante reforçando o que disse no início, que vivenciar o caminho intensamente é mais proveitoso do que só considerar exitosa a jornada se for alcançado o objetivo final. Penso até que, se eu for pra estrada e se chegar até a Antena, e não der mais, paciência! Sou natureza...

Estou assim ultimamente. Mais que nunca o dístico da música do Aerosmith tem feito muito sentido para mim. 

"Life's a journey, not a destination
And I just can't tell just what tomorrow brings...
" (Amazing)

É isso!

Seguimos caminhando...

William


quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Os miseráveis - Victor Hugo (10)



Refeição Cultural 

Osasco, 3 de agosto de 2023. Quinta-feira


Hoje foi dia de dedicar meu tempo à leitura de mais alguns capítulos do clássico de Victor Hugo, Os miseráveis, de 1862.


PRIMEIRA PARTE - FANTINE

LIVRO 2: A QUEDA

VI. Jean Valjean

A partir deste capítulo passamos a conhecer a história do personagem Jean Valjean, um condenado às galés por ser pego roubando um pão. Ele passou 19 anos preso.

"Jean Valjean era de caráter pensativo sem ser triste, o que é próprio das naturezas afetuosas. Era, afinal, uma criatura bem dorminhoca e insignificante, ao menos aparentemente. Perdera os pais ainda muito novo. A mãe morrera de uma febre de leite mal cuidada; o pai, que também fora podador, morrera ao cair de uma árvore. Jean valjean ficou apenas com uma irmã, mais velha do que ele, viúva, com sete filhos, entre meninos e meninas. Essa irmã criou Jean Valjean, e, enquanto seu marido era vivo, deu casa e comida ao irmão. Morreu o marido. A mais velha das sete criancinhas tinha oito anos, a mais nova apenas um. Jean Valjean acabava de chegar aos vinte e cinco anos; tomou o lugar de pai, amparando por sua vez a irmã que o criara. Isso ocorreu simplesmente, como um dever, apesar de algum enfado por parte de Jean Valjean. Assim, consumira a mocidade num trabalho rude e mal pago. Na região, ninguém nunca soube que tivesse uma 'amiga'. Não lhe sobrou tempo para apaixonar-se." (p. 123)

Um dia, faltou o pão para as crianças e Jean Valjean acabou quebrando a vidraça de uma loja e pegando um pão. Foi pego, preso, julgado e declarado culpado, em 1795, a cumprir 5 anos em galés. Ficou 19 anos.

Ele nunca mais soube de sua irmã e sobrinhos.

O narrador termina o capítulo nos contando que "Jean Valjean tinha roubado um pão. Uma estatística inglesa constata que, em Londres, de cada cinco roubos, quatro têm como causa imediata a fome." (p. 127)

É o capitalismo... é o capitalismo...

---

VII. O interior do desespero

"Perguntou-se se a sociedade humana podia ter o direito de fazer sofrer igualmente todos os seus membros, ora com sua incompreensível imprevidência, ora com sua impiedosa previdência, e de manter indefinidamente um infeliz entre uma falta e um excesso, falta de trabalho, excesso de castigo." (p. 128)

O narrador faz impressionante reflexão sobre a dosimetria da pena imposta a Jean Valjean por roubar um pão... 

Valjean reconhece que errou, mas se sente indignado pela iniquidade da pena imposta a ele pela Estado, pela sociedade humana, e com isso a odeia.

"Propostas e resolvidas essas questões, julgou a sociedade e condenou-a. Condenou-a a seu ódio." (p. 128)

Por sua força bruta era apelidado pelos condenados de Jean-le-Cric, (guincho, forte tipo um guindaste).

"A origem e o alvo de todos os seus pensamentos era o ódio contra a lei humana, ódio que, se não for interrompido em seu desenvolvimento por algum acaso providencial, se transforma, após certo tempo, em ódio contra a Criação, e se traduz por um vago, incessante e brutal desejo de fazer mal, seja a quem for, a um ser vivo qualquer." (p. 133)

E então, após 19 anos de prisão, Jean Valjean se tornou aquele "homem muito perigoso", classificação descrita em seu passaporte. 

---

VIII. A onda e a sombra 

"Homem ao mar!" (p. 134)

Incrível a descrição de um afogamento, de um homem deixado ao mar para morrer... foda isso!

"Não há mais homens. Onde está Deus? 

Grita. Alguém! Alguém! Grita sem parar. Nada no horizonte, nada no céu." (p. 135)

---

IX. Novos agravos

As injustiças da sociedade humana... que dureza!

"A ideia da liberdade o deslumbrara; acreditara na possibilidade de uma nova vida, mas bem depressa deu-se conta do que era a liberdade acompanhada de um passaporte amarelo." (p. 136)

Um homem marcado pela condenação permanente do preconceito...

Primeiro, o Estado o roubou, seu tempo e sua vida, e até seus soldos; agora, empresários safados abusavam dele por ser ex-condenado, pagando soldo pela metade. 

"(...) Agora era a vez de um indivíduo roubá-lo um pouco pequeno. Liberdade não é estar solto. Pode-se sair da prisão, mas não dá condenação." (p. 136)

--------------------

Inevitável não associar essa situação de Jean Valjean ao ex-presidiário de "Um homem na estrada" dos Racionais MC, 150 anos depois...

"A justiça criminal é implacável

Tiram sua liberdade, família e moral

Mesmo longe do sistema carcerário

Te chamarão para sempre de ex-presidiário..."

--------------------

(Chorei... também foi inevitável...)

---

X. O homem acordado 

"(...) Ele havia reparado nos seis talheres de prata e na colher de sopa que a senhora Magloire colocara na mesa." (p. 137)

Neste capítulo, o narrador descreve as tentações que martirizavam a cabeça de Jean Valjean... 

Ele acordou no meio da noite e ficou pensando nos poucos objetos de prata que viu na casa do bispo de Digne.

---

XI. O que ele faz

"Jean Valjean, de pé e imóvel no escuro, com o candeeiro na mão, estava assombrado diante da serenidade do velho. Nunca vira coisa semelhante. Tal confiança o espantava. O mundo moral não conhece espetáculo mais grandioso: uma consciência perturbada e inquieta, à beira de uma má ação, contemplando o sono de um justo." (p. 141)

E então, a tentação vence.

---

XII. O bispo trabalha 

No dia seguinte, soldados batem à porta do Monsenhor Bienvenu, trazendo puxado pelo pescoço Jean Valjean. 

De forma surpreendente, o bispo de Digne cumprimenta o ladrão da prataria e lhe pergunta por que não levou os castiçais que havia ganho também... 

O senhor Myriel de "Os miseráveis" é o nosso padre Júlio Lancellotti da atualidade, um homem que realmente ama os pobres, os miseráveis.

---

XIII. O pequeno Gervais

"Foi seu último esforço; os joelhos curvaram-se bruscamente, como se um poder invisível o oprimisse repentinamente com o peso de sua consciência; caiu esgotado sobre uma pedra, os punhos na cabeça e o rosto contra os joelhos, exclamando: 'sou um miserável!'

Então, com o coração partido, desatou a chorar. Era a primeira vez que chorava em dezenove anos!" (p. 150)

Se já não bastasse o roubo na casa do bispo, Jean Valjean fez aquela maldade com a criança, tomando dela aquela moeda de 40 soldos.

O narrador descreve a luta interna que estava sendo travada no coração de Jean Valjean. O perdão do padre estava liquidando seu endurecimento de anos de maus-tratos e seu ódio.

"(...) Uma voz dizia-lhe ao ouvido que acabava de atravessar o momento solene de seu destino, que já não tinha meio-termo; que, a partir de então, se não fosse o melhor dos homens, seria o pior; que agora precisava, por assim dizer, elevar-se acima do bispo ou ficar ainda abaixo do condenado; que, se quisesse tornar-se bom, deveria virar anjo, e, se quisesse continuar perverso, deveria virar monstro." (p. 150)

---

COMENTÁRIO

A leitura de hoje me trouxe lembranças amargas de minha pré-adolescência e parte da vida adulta.

Essa parte final, na qual o narrador descreve a batalha interna do personagem Jean Valjean entre deixar-se derrotar pelo perdão do religioso e "perder" o endurecimento que ele adquiriu em 19 anos de humilhações e maus-tratos por parte do Estado e da sociedade humana e, ou se tornar uma pessoa boa, ou se tornar alguém mais duro e perverso do que vinha sendo até ali, me trouxe lembranças de quando lutei muito comigo mesmo para ser mau.

Foi um período terrível que vivi internamente do início da adolescência até perto dos trinta anos de idade...

Dureza! Não quero falar sobre o meu dilema. Só sei que compreendo o personagem Jean Valjean, quando gritava "Sou um miserável!".

William


Post Scriptum: para ler o comentário anterior sobre a leitura do livro, clique aqui. O comentário seguinte sobre o clássico pode ser lido aqui.


Bibliografia:

HUGO, Victor. Os miseráveis. Tradução de Regina Célia de Oliveira. Edição especial. São Paulo: Martin Claret, 2014.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Diário e reflexões - Naruto (02/08/23)



Refeição Cultural

Osasco, 2 de agosto de 2023. Quarta-feira.


INTRODUÇÃO

Ao refletir sobre a leitura de mangás e do mangá do personagem Naruto, me lembrei do intelectual Alberto Manguel nos contando sobre a história das leituras no livro fantástico Uma história da leitura, de 1999 (comentário aqui). As leituras têm uma história.

Por que um cara com mais de cinquenta anos está lendo mangás do Naruto? Posso simplesmente dizer que estou lendo porque quero ou porque gosto, por isso ou por aquilo. Na verdade, não é preciso um motivo específico para ler algum tipo de gênero literário. E o contrário também é verdadeiro, pode ser que estejamos lendo algum tipo de literatura por diversos motivos.

De certa forma, comecei a ver animes e a ler mangás por um motivo sim, para ter contato com um tipo de cultura que jovens gostam, porque sou pai e seria legal conversar e trocar impressões sobre Histórias em Quadrinhos (HQ) e animes japoneses. Minha leitura de mangás tem uma história.

Comecei a ver animes com meu filho entre 2016 e 2017. Eu trabalhava em Brasília, longas jornadas, viajava muito, e me sobrava pouco tempo para estar com a família. O contexto familiar foi ficando bem complicado e eu me sentia mal por não poder mudar aquela situação de pouco contato com o filho.

Naquela época, era comum estarmos cada um num lugar durante semanas. Meu filho estudando no interior de São Paulo, minha esposa em Osasco e eu em Brasília. Foi então que pensamos em compartilhar algo que nos colocasse em sintonia, mesmo separados fisicamente. Decidimos ver anime. 

O primeiro anime que vimos em 2016, meu filho e eu, foi Death Note (comentário aqui). Meu filho é quem sempre escolhia os animes que veríamos. Ele é especialista no tema e tem excelentes sugestões para nós. Foi bem interessante a experiência do primeiro anime. 

Além de adquirir um conhecimento novo, os episódios geravam boas discussões entre nós. Quando não estávamos juntos fisicamente, víamos juntos os episódios: cada um no seu notebook dava o "play" no mesmo instante e víamos "juntos" o anime.

Depois passamos a ver alguns animes os três. Chegamos a ver episódios cada um num local diferente, como disse acima: eu em Brasília ou em algum hotel pelos cantos do Brasil, a mãe em Osasco e o filho em Jaboticabal. Família unida, vendo animes no computador ao mesmo tempo.

--------------------

Ao pesquisar sobre essa temática dos animes no blog, encontrei uma postagem saudosa dessa época. Estava sozinho em Brasília, família distante, fim do dia de trabalho na Cassi, passaria o fim de semana sozinho em casa, aí peguei um dos livros de ficção do filho para ler - O azarão, de Markus Zusak (ler comentário aqui). A postagem de 2017 me fez recordar essas lembranças que estou registrando aqui. 

--------------------

NARUTO - MASASHI KISHIMOTO


ANIME

Meu primeiro contato com o anime Naruto se deu em 2017. Como expliquei acima, estávamos assistindo animes como forma de nos mantermos unidos mesmo estando distantes uns dos outros.

No final daquele ano, já tínhamos visto 40 episódios do anime. Escrevi à época:

"Para dizer da impressão ou da mensagem que mais me chamou atenção até agora na história do garoto sem família, e que sofre com a forma como as pessoas de sua aldeia o tratam - com preconceito e discriminação - foi que ele não vive de chororô pelos cantos e não deixa que nada o impeça de olhar para a frente e seguir com determinação seu objetivo de ser o melhor ninja da aldeia." (ver postagem toda aqui)

O garoto Naruto é órfão e sua atitude perante a vida é de determinação na busca de seus objetivos. Ele não é um garoto que fica pelos cantos se lamentando pelos infortúnios da vida.

Na época, vimos toda a primeira parte de Naruto, quando ele deixa a Aldeia Oculta da Folha com Jiraiya para um treinamento que durará mais de dois anos.

Naruto Uzumaki é um dos três membros da "Equipe 7", treinada pelo sensei Kakashi Hatake. Seus companheiros de equipe são Sasuke Uchiha e Sakura Haruno.

A experiência de ver o anime Naruto é ampliada pela trilha sonora, que é fantástica. As músicas de determinados momentos da história já fazem parte de nossa experiência com Naruto.


MANGÁS

Agora, muitos anos depois, resolvi ler os mangás que deram origem ao anime e a experiência é bem diferente, e ambas são muito interessantes.

A edição brasileira da coleção de mangás do Naruto saiu pela Panini e contém 72 volumes, sendo a primeira parte até o volume 27, capítulos 1 a 244 e a segunda parte vai até o capítulo 700.  

Levarei muito tempo para ler todos os volumes do mangá, mas tudo bem. E para ficar melhor ainda, estou revendo os animes à medida que avanço nos volumes do mangá.

Nos 4 primeiros volumes, revi a apresentação dos personagens principais: Naruto, Iruka sensei, Sasuke, Sakura e Kakashi, dentre outros da Aldeia Oculta da Folha. É bom citar também Konohamaru, o garotinho neto do Terceiro Hokage.

Os ninjas desenvolvem habilidades a partir de treinamento intensivo e uso de energia vital, seus chakras, e alguns ninjas trazem habilidades especiais herdadas de família ou adquiridas como é o caso do garoto Naruto, que traz em si a Raposa de Nove Caldas, derrotada numa batalha e selada dentro do garoto recém-nascido.

Após Naruto ser admitido na escola de formação de ninjas, eles saíram numa primeira missão com o sensei Kakashi e tiveram que lidar com vilões muito poderosos: Zabuza e Haku. 

Neste momento inicial, Naruto já desenvolveu seu principal jutsu, o Jutsu Clone das Sombras. Ele também tem um jutsu que causa sensação (risos), o Jutsu Sexy, que deixa qualquer homem no chão.

Post Scriptum: meu filho me lembrou de uma questão interessante no jutsu dos clones usado por Naruto: ele nunca teve família e ao criar clones de si mesmo acaba sendo uma habilidade que dialoga com a solidão que o acompanhou ao longo da infância. Tem um sentido psicológico aí...

Enfim, seguimos em contato com todas as formas de cultura e conhecimento. Animes e mangás são de uma riqueza cultural imensa e eu recomendo a experiência para todas as pessoas.

William


segunda-feira, 31 de julho de 2023

Diário e reflexões - Julho



Refeição Cultural - Julho

Osasco, 31 de julho de 2023. Segunda-feira.


INTRODUÇÃO

Desde o início do ano, tenho feito uma postagem de final de mês como se fosse uma espécie de balanço das leituras e aprendizados pessoais, mesclando com o registro alguns comentários acerca do que tenho observado no cotidiano da sociedade humana, coisas que me chamaram a atenção.

Em relação ao Brasil, sigo com grande admiração ao presidente Lula. Se considerarmos o país que recebemos dos golpistas, é quase um milagre o que Lula está conseguindo fazer em todas as áreas afetas ao povo brasileiro.

EDUCAÇÃO: o governo vai investir 4 bilhões de reais em escolas em tempo integral com o objetivo de matricular 3,2 milhões de crianças e jovens até 2026. Fico feliz em ver a educação no foco do governo do Brasil. Desde que tomou posse, Lula já recompôs os orçamentos das universidades federais, reajustou as verbas de alimentação escolar e aumentou o valor das bolsas de graduação da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, uma fundação ligada ao Ministério da Educação).

SAÚDE: Lula participou do encerramento da 17ª Conferência Nacional de Saúde cujo tema do encontro foi "Garantir direitos, defender o SUS, a vida e a democracia - Amanhã vai ser outro dia". O fórum democrático contou com a participação de mais de 6 mil pessoas em todas as etapas. 

Nestes 7 meses, o governo destinou 600 milhões para a redução de filas de cirurgias, retomou o Mais Médicos e já contratou cerca de 6 mil profissionais para atuarem nos interiores e periferias (serão 15 mil novos contratados até o fim do ano), recuperou o Farmácia Popular e o Brasil Sorridente e retomou as campanhas de vacinação.

Um dos focos do Sistema Único de Saúde é a Atenção Primária através da Estratégia de Saúde da Família (ESF). Na matéria que li no site do PT, achei interessante o depoimento do prefeito de Boa Vista (RR), feliz por poder triplicar as Equipes da ESF na cidade. 

Me lembrei da Cassi, que tinha uma CliniCassi lá em Boa Vista e tínhamos ESF coordenando os cuidados da população Cassi/BB local. Não sei como está a Unidade Cassi Roraima e os participantes de lá hoje após os governos Temer, Bolsonaro e os eleitos do Grupo Mais...

---

MÍDIA SEGUE GOLPISTA E FASCISTAS SEGUEM ORGANIZADOS

Enquanto o governo Lula se esforça para refazer a imagem do Brasil no exterior e refazer os direitos sociais do povo brasileiro, a mídia empresarial golpista e os bolsonaristas seguem manipulando e agindo com violência contra os avanços populares. 

O sujeito do Bacen boicota a economia do Brasil há 7 meses com a taxa de juros mais cara do mundo (13,75%) e vem tirando o dinheiro do povo para encher os cofres de rentistas. Isso é uma violência! Violência! Isso gera fome e desorganização social. Esse sujeito neto de ditador e que usa talheres pratica o pior tipo de violência contra o povo e o país...

Os pau-mandados da Globo passaram dias atacando de forma canalha e mentirosa o economista e professor Marcio Pochmann por ter sido indicado à presidência do IBGE. Essa rede esgoto é um câncer para o país há décadas. As agressões cometidas contra Pochmann foram de uma violência inominável! Que merda! Como podem ficar impunes por isso?

E fecho os comentários negativos com os 17 milhões de reais que deram para o verme amante de torturador que ocupou a presidência do país de forma ilegítima até o ano passado. 17 milhões... recebidos por pix. Teve até ex-juiz que deu dinheiro a ele por admirar o miliciano...

Essa é a nossa realidade material... não dá para exigirem uma mudança extraordinária nas diversas áreas econômicas e sociais do país através de canetadas do presidente Lula, não com um país desse! Eu tenho consciência disso.

Não podemos esmorecer, temos que seguir estudando e lutando por um mundo melhor, mais justo e solidário.

---

LEITURAS E CULTURA

Li neste mês de julho cinco obras completas e sigo lendo outros livros que me exigem um tempo maior de leitura e reflexão como, por exemplo, Os miseráveis, de Victor Hugo (mil e quinhentas páginas). Nesta leitura vou demorar meses.

Três livros foram impactantes para mim e me fizeram reviver minha vida como representante político da classe trabalhadora. 

Falo dos livros de José Martí - Nuestra América, de 1891 (comentário aqui), de Fidel Castro - La historia me absolverá, de 1953 (ver aqui) e a entrevista com Lula antes de ele se tornar um preso político por 580 dias - A verdade vencerá, de 2018 (comentário aqui).

As histórias de vida de Martí, Fidel e Lula são histórias que nos fazem acreditar que a vida humana vale a pena, que as lutas pela emancipação popular valem a pena.

Ainda no campo das reflexões políticas li Quatro anos nas sombras, de 2022 (ler comentário aqui), um livro de coletâneas de artigos sobre o duro período que vivemos no Brasil após o golpe e sob o regime bolsonarista de destruição do país. Contribuí com um artigo neste livro.

Depois de vários meses sem ler poemas, li mais um livro de Carlos Drummond de Andrade - Novos poemas, publicado em Poesias até agora e em José e outros (1948). Foi o 6º livro de Drummond que passei a conhecer. Ver comentário aqui.

Cultura oriental: tenho visto animes e lido mangás, formas culturais diferentes das nossas do Ocidente. Li o 5º volume do mangá Gen Pés Descalços, de Keiji Nakazawa (comentário aqui). Estamos vendo animes em casa com o nosso filho: One Peace é um deles, eu estou revendo Naruto; e vimos um fenomenal: Megalobox (1T) e Nomad (2T). A cultura oriental tem muita história e política envolvida.

Livros em andamento:

Além do clássico de Victor Hugo, estou lendo outras obras. Nas leituras em andamento tenho optado por mesclar diversos gêneros literários e discursivos. 

Estou relendo um clássico do terror dos anos oitenta - Os mortos vivos, de Peter Straub (1979); estou lendo um dos principais livros de poesia de Cecília Meireles - Vaga Música (1942) e estou estudando sobre Cuba no livro Cuba insurgente, da professora Maria Leite.

Até o momento, já li 23 livros e obras completas. Aprendi muita coisa nova, coisas que não conhecia até o ano passado. Isso é bom! A natureza segue seu movimento, envelheço e caminho para o fim e mesmo assim busco conhecimento sobre a vida e o mundo.

Produção textual

Neste mês escrevi bastante. Fiz dois textos no blog A Categoria Bancária sobre a Cassi (ler aqui e aqui). Os textos tiveram muito acesso e neste caso sei que contribuo quando escrevo porque conheço sobre o assunto e sei o que estou dizendo, gostem ou não de minhas opiniões.

Neste blog Refeitório Cultural foram 18 textos dos mais variados temas. Os textos são minha contribuição à difusão de conhecimento de forma gratuita porque acredito nisso. Este blog foi criado para compartilhar conhecimento. É a minha página de WIKIpedia (What I Know Is).

---

SAÚDE E ESPORTES

Neste mês de julho me esforcei para praticar exercícios aeróbicos e um pouco de exercícios de resistência. Isso é fundamental para adiar o fim do mundo (o meu fim no mundo rsrs).

Corri 5 vezes no mês (25K), pedalei 3 vezes (3 horas) e andei bastante. Estou testando meu corpo em longas caminhadas para ver se ainda conseguiria fazer uma romaria. Fiz uns longões: um de 10 Km, outro de 20 Km e um de 30 Km.

Como considero uma prática de saúde integral os relacionamentos humanos saudáveis, neste mês fui a um sarau na regional Paulista do Sindicato, me encontrei com amig@s do BB, participei de atividades presenciais e virtuais do Partido dos Trabalhadores e sobre Cuba e também a assembleia de meu condomínio.

---

Fecho aqui o registro reflexivo do mês de julho. As reflexões sobre o mês passado podem ser lidas aqui.

William


Leitura: Gen Pés Descalços (5) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural

Gen Pés Descalços

Volume 5


A leitura do volume 5 de Gen Pés Descalços, de Keiji Nakazawa, me fez refletir o quanto certos tipos de produções culturais são atemporais e nos trazem reflexões profundas, independente da época na qual temos acesso a elas.

O mangá foi publicado pela primeira vez nos anos setenta e seu autor, Nakazawa, foi um sobrevivente da bomba atômica lançada sobre Hiroshima pelos norte-americanos no dia 6 de agosto de 1945. De sua família, sobreviveram sua mãe e ele, com 6 anos de idade. Ela faleceu de câncer nos anos sessenta e ele também faleceu de câncer em 2012.

A edição que ganhei de presente de meu filho é a edição brasileira da Conrad Editora de 2011/2012 em 10 volumes. A coleção é belíssima e ao terminá-la será minha primeira leitura completa de uma série de mangás, pois não tinha o hábito de ler este tipo de História em Quadrinhos (HQ).

---

GEN PÉS DESCALÇOS

A história da família Nakaoka se passa no Japão, na cidade de Hiroshima, a partir de meados de 1945. A guerra está perdida para o Eixo - Alemanha, Itália e Japão - e o governo japonês não aceita a derrota, fazendo de tudo para que o povo siga acreditando na vitória. O primeiro volume traz um pouco desse cenário.

A população japonesa está passando muita fome e o regime imperial e militar segue exigindo cada vez mais de seu povo. Os Estados Unidos lançam duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki nos dias 6 e 9 de agosto daquele ano. O mangá transmite aos leitores um cenário chocante através dos desenhos de Nakazawa.

Nos volumes 2, 3 e 4 acompanhamos os acontecimentos em Hiroshima entre o primeiro e o segundo ano após a explosão da bomba atômica. O cenário no país é de miséria absoluta. A família Nakaoka sofreu perdas terríveis e os sobreviventes têm que encontrar forças para seguirem adiante. 

O jovem Gen é uma criança incrível, traz em si uma postura fora do comum nas crianças de seu meio ambiente. Ele é de bom coração, algo raro naquele cenário. Os ensinamentos de seus pais são bases muito sólidas. Gen é pacifista como seus pais. Os filhos devem ser como o trigo, mesmo pisoteados, devem crescer fortes.

---

FRIEZA E CRUELDADE

A população japonesa está embrutecida e nós leitores ficamos chocados com a reação fria e cruel das pessoas em situações cotidianas que nos levariam a sentir solidariedade e compaixão pelas pessoas em condições tão miseráveis e dolorosas.

Medo, ódio e preconceito marcam o dia a dia das pessoas.

---

Todos se aproveitando das vítimas da bomba...

VOLUME 5

Neste volume que acabei de ler, a família Nakaoka segue sofrendo as consequências da guerra, há muita fome e desemprego no país e os Estados Unidos ocuparam o Japão.

Os sobreviventes da bomba atômica sofrem as sequelas da radiação e milhares de vítimas seguem morrendo nas regiões da catástrofe. Os japoneses são vistos como cobaias pelos norte-americanos que coletam dados sobre os efeitos da radiação.

Tudo é hostil e inóspito no ambiente da história do mangá. As vítimas da bomba já não conseguiam se manter antes da guerra por causa da fome e agora não conseguem sequer atendimento médico para tratamento das doenças da bomba. Desemprego, falta de recursos e exploração infinita do povo japonês.

A máfia controla o país e os vilarejos. Há maldade para onde se olha, seja nas regiões controladas pelo governo japonês, seja sob controle das máfias, seja ainda sob controle do invasor vencedor da guerra. As pessoas comuns estão por sua conta e risco. Dureza!

---

COMENTÁRIO FINAL

Esse cenário que descrevi sobre os 5 primeiros volumes de Gen Pés Descalços me deixa muito pensativo sobre a realidade do mundo no ano de 2023, cinquenta anos após o lançamento do mangá. 

Estamos vivendo num cenário mundial de muita desesperança e com perspectivas duras para o futuro da humanidade e, ao mesmo tempo, um cenário de muito ilusionismo, de muita alienação da população mundial graças às ferramentas de invisibilização dos temas graves e pela criação de pautas de distração que ganham a atenção de todo mundo.

As mudanças climáticas afetaram o cotidiano do planeta de forma permanente, as consequências já estão aí e vão piorar porque não há uma mudança de tendência em relação às causas. A vida na Terra será cada dia mais desafiadora para todos os seres viventes.

Apesar de ser um sistema de crises constantes, o capitalismo como forma predominante de organização da sociedade humana não dá sinais de que será substituído por outra forma de organização social, nem que se tornará obsoleto como se avaliou no passado ao estudar suas consequências maléficas para a humanidade e o planeta.

E as tecnologias criadas por nós homo sapiens estão sendo usadas pelos homens do capital para transformar o próprio animal humano em uma mercadoria cada vez mais descartável à medida que a tecnologia (inclusive IA) torne obsoleta a mercadoria mão de obra. O excesso de humanos pode estar se tornando algo inconveniente para o lucro dos detentores do mesmo capital.

Vemos isso no Gen Pés Descalços. O Japão e os japoneses se tornaram coisas descartáveis após a derrota na guerra. Os vencedores fazem experimentos com os derrotados. Entre os japoneses, alguns se aproveitam do caos e exploram seus pares em benefício próprio. 

O cenário no mangá de Nakazawa e o cenário atual praticamente empurram as pessoas a buscarem a sobrevivência da forma mais bruta possível, individual e sem pensar a coletividade. E as soluções no planeta e na sociedade humana só são viáveis se forem coletivas...

Estamos assim... até quando?

William


Post Scriptum: para ler sobre os volumes anteriores é só clicar aqui (v.1), aqui (v.2), aqui (v.3) e aqui (v.4). O texto da leitura seguinte, o volume 6, pode ser lido aqui.


Bibliografia:

NAKAZAWA, Keiji. Gen Pés Descalços. Vol. 5. Tradução Drik Sada. - São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2012.


sexta-feira, 28 de julho de 2023

Diário e reflexões - Caminhei 30 Km


É época de ipês,
época de belezas!

Refeição Cultural

Osasco, 28 de julho de 2023. Sexta-feira.


Hoje fiz nova caminhada longa para testar meus limites atuais. Caminhei 30 Km e tudo correu bem. Na semana passada havia caminhado 20 Km e terminei o dia numa condição pior que hoje. Troquei o tênis entre uma caminhada e outra. Isso ajudou um pouco. 

Até 2019 fui um caminhante resistente. Todo ano eu fazia uma romaria de cerca de 80 Km em um dia. Na última vez que fiz o trajeto entre Uberlândia e Água Suja, na região do Triângulo Mineiro, eu já sabia que estava com um início de desgaste na região do quadril. Mas a caminhada correu tudo bem.

Romeiro em 2019.
Deu tudo certo!

Meses depois da romaria de 2019 veio a pandemia mundial de Covid-19 e tudo mudou. Foram três anos sem longas caminhadas. Neste período, a condição de meu quadril piorou e hoje sinto dores crônicas na região. Insisto em fazer meus trotes e caminhadas porque não quero viver sem isso. Enfrento a dor.

É lógico que ao se aproximar o período da romaria deste ano começou em mim um desejo de tentar fazer a caminhada, mesmo com todos os senões de que não deveria mais tentar a proeza. Eu me conheço e sei que realmente não estou em condições adequadas para tentar os 80 Km. Minha razão me diz isso. 

O peregrino.

O problema é que somos humanos, seres racionais com cérebros altamente evoluídos, porém somos reféns das paixões, somos seres movidos a emoções. Por isso somos esse bicho esquisito, que é racional... mas acredita em abstrações absurdas criadas pela mente humana.

Estarei em Uberlândia na semana de maior volume de romeiros na estrada. Se vou sair para tentar a caminhada não sei. Se vou completar caso saia para caminhar não sei. Estarei lá. Já valerá pelas emoções e paixões, ver a família.

---

Caminhada noturna.

Na semana passada, usei o tênis mais macio que tenho em relação ao solado. Mas não conseguiria fazer dezenas de quilômetros com ele. Estava perfeito no dia que o comprei, e agora está apertado. Mesmo andando semanas com ele. Fiz 20 Km e terminei muito cansado fisicamente, unhas dos pés bem doloridas. Não tive bolhas.

---

Inverno florido...
olha essa Pata-de-vaca!

Hoje, saí para uma caminhada decisiva. 

Mentalizei muito e recuperei um pouco de minha memória corporal em relação às longas caminhadas. 

Comecei a andar tarde, meio-dia, não era o que havia pensado, mas dei instruções firmes ao meu corpo e ele me atendeu.

Os pés que me levam.
Feliz por poder caminhar.

O tênis que escolhi é mais duro na sola, também novo e já rodado por semanas, outro dia andei uns 10 Km com ele e tive uma bolha. Avaliei que tinha que ser ele hoje. Escolhi outra meia e fui pra rua.

Família de saguis no
Pq. Continental.


Andei 5 Km primeiro e correu tudo bem. Pisei macio como nos velhos tempos. Vi até uma família de saguis... alumbramento!

Caminhando e refletindo...
Mas concentrado na pisada.

Depois saí para uma caminhada de uns 10 Km, concentração total, e deu tudo certo. Sem bolha e energia vital em ordem. 

Caminhar é sentir a natureza ao redor.

Depois de parar e comer alguma coisa, saí para andar mais uns 15 Km. 

Queria andar mais, mas estava ficando tarde e não quis continuar pelo avançado da noite.

Coisa linda, heim! Fala sério!

Vou me transformar em pedra para dormir...

Se tudo der certo, tomo vergonha na cara e faço uma última caminhada longa antes de viajar pra Uberlândia, começando cedo de verdade e andando quem sabe uns 50 Km.

Neste momento,
ouvia os pássaros.

Fiquei feliz comigo mesmo. Meu corpo reagiu bem. A caminhada longa não é uma coisa da razão, repito. É difícil explicar. Já caminho há décadas e a sensação é única. Só os romeiros e caminhantes sabem como é.

William, o caminhante.