sábado, 4 de julho de 2009

Machado de Assis critica aumento na jornada e horas extras em 1862


Refeição Cultural

Esta carta de Machado de Assis, de 1862, discute problemas de jornada de trabalho, da falsa vantagem das horas extras, das más condições de trabalho e do mau aproveitamento das verbas públicas.

A carta é um "achado" para nós que vivemos neste mundo do século XXI, tão distante daquele de 1862. E, paradoxalmente, tão perto!, por haver os mesmos problemas já apontados por nosso escritor maior e serem ainda hoje, tão reais e não resolvidos.

Os argumentos de Machado de Assis são incontestáveis aos homens de consciência que buscam "a elucidação da verdade".

A diferença entre os tempos e a reivindicação fica por conta da qualidade da crítica de quem a faz. Melhores palavras para descrever problemas tão antigos e ainda tão modernos, só mesmo as do nosso escritor Imortal.

Vamos à carta do Bruxo do Cosme Velho:

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Ao redator dos “Ecos Marítimos”

Meu caro. — Praz-me acreditar que, nos longos anos da nossa íntima e nunca estremecida amizade, tenho-te dado sobejas provas de que não costumo subordinar as minhas opiniões ao interesse ou conveniências, e que, errôneas ou verdadeiras, são-me elas sempre ditadas pela consciência. Sabes, que não pertenço ao número desses otimistas que têm sempre nos lábios um elogio e nos bicos da pena uma justificação para todo ato de poder, somente porque é do poder.

E, pois, tentando defender o atual ministro da Marinha de acusações que julgaste dever dirigir-lhe, faço-o constrangido, é verdade, por achar-me em divergência com um amigo a quem muito prezo, mas sem temor de que me classifiques entre os turiferários e amigos interesseiros de que falaste no teu primeiro artigo.

Nesta contenda ficaremos colocados em campos opostos, tomaremos mesmo caminhos diversos, mas como ambos temos o mesmo fim, como ambos visamos ao mesmo norte — a elucidação da verdade, — espero que nos encontremos, e então, como agora, nos poderemos apertar as mãos, porque nem tu nem eu teremos de corar.

Não tratando por enquanto do teu primeiro artigo, porque nele te limitas a formular capítulos de acusação, que prometes desenvolver mais tarde, ocupar-me-ei com as censuras, que no segundo fazes ao sistema que se está seguindo no fabrico do vapor Amazonas.

Pensas que semelhante obra seria mais pronta e economicamente realizada, prorrogando-se as horas de trabalho, mediante abono de gratificações de sesta aos operários.

Por este, dizes tu, lucraria o governo que mais cedo teria à sua disposição o Amazonas; lucrariam os operários que com esse acréscimo de salário proporcionariam às suas famílias maior soma de bem estar; lucrariam finalmente os cofres do Estado que poderiam aumentar suas receitas com o aluguel do dique.

Para admitir estas conclusões, seria mister conceder-te que a produção do trabalho durante 2 horas de sesta é equivalente ao salário de meio-dia, em tais casos abonado como gratificação, o que contesto.

O trabalho ordinário começa nos nossos arsenais ao nascer do sol e termina às 4 horas da tarde, apenas com interrupção de meia hora concedida para o almoço; o extraordinário ou sesta prolonga-se dessa hora ao anoitecer.

Assim o sistema que preconizas exige do operário um esforço continuado de 13 horas!

E acreditas que um homem possa, no nosso clima, e durante a estação chuvosa, trabalhar com a mesma atividade e perfeição por tão dilatado espaço de tempo, exposto aos raios do sol, que os gigantescos refletores de granito formados pelas paredes do dique, tornam ainda mais abrasador?

O bom senso dir-te-á que não.

Um ou outro indivíduo, dotado de constituição mais robusta, realizará este supremo esforço no primeiro ou segundo dia, porém, exatamente sucumbirá tentando ultrapassar esse limite.

Mas, dir-me-ás, o meio que indico tem por si a sanção de inveterada prática!

Nem tudo o que é velho é bom; e não ignoras que mais de um abuso existe enraizado na nossa administração pelo emperrado espírito de rotina.

Vês, portanto, que a adoção do alvitre por ti sugerido, longe de produzir as vantagens que apontas, prejudicaria os cofres públicos, que teriam de pagar pela obra feita quantia superior ao seu merecimento; prejudicaria ao serviço naval dando como pronto um vapor que, pelo mal acabado do seu fabrico, teria mais tarde de voltar à posição de disponibilidade.

Isto é intuitivo; e seguramente te escapou, porque apenas examinaste a questão por uma face.

O dique, como bem dizes, não foi construído para cevar os cofres do Tesouro, porém, para prestar o seu valioso auxílio ao material da nossa armada; conseguintemente, que importa que os navios neles se demorem mais ou menos dias, se por este modo executam-se radicalmente os consertos de que carecem?

Precipitação é antípoda de perfeição.

Se isto não fora um axioma, citar-te-ia, como exemplo, o vapor Oyapock, que segundo é voz geral saiu do dique fazendo água.

(aqui Machado passa a outro ponto)

Passemos ao outro ponto.

O ministro da Marinha não se intrometeu em atribuições privativas de outrem nem procurou exercer pressão sobre o espírito dos peritos do arsenal, no intuito de arrancar-lhe opinião favorável ao vapor Princesa de Joinville; sua intervenção neste negócio foi estritamente legal e ditada pelos preceitos da prudência e de justiça.

A companhia dos paquetes, como é de praxe, requereu que esse navio fosse vistoriado, mas, empregando as restrições mentais em que é vezeira, não falou do casco, porém simplesmente da máquina; e os peritos, que sabem ser aquele o ponto vulnerável, lavraram o seu parecer em termos genéricos, declarando que haveria imprudência em arriscar o vapor em uma viagem no oceano.

Frustrada a estratégia, voltou a companhia requerendo que se discriminassem os quesitos que tinham servido de base ao juízo da comissão; ao que, como era de seu dever, deferiu o Ministro. Eis quanto pela marinha se fez, nesse negócio; o mais pertence ao Ministro das Obras Públicas.

A meu ver fora melhor ter-se negado à companhia permissão para fazer seguir semelhante vapor aos portos do norte; porém, como foi ela limitada pela proibição de conduzir passageiros, acautelando-se por essa forma a segurança do público, qualquer desastre superveniente apenas alcançará a tripulação e companhias de seguro, que só terão o direito de queixar-se da sua imprudência, visto que perfeitamente conhecem os riscos que vão correr.

Não posso, todavia deixar de notar que a companhia, anunciando a saída do Joinville, calasse tão importante circunstância!

Acredita-me, amigo, abre mão de pequenas polêmicas de que não poderás tirar glória, não malbarates em pouquidades o talento que Deus te concedeu; volta-te para os grandes interesses do país, disseca as profundas chagas que corroem o nosso corpo social, põe a descoberto a podridão desses cancros que, sob o nome de companhias, absorvem o melhor dos nossos recursos; e protesto-te que, nesse terreno, não tendo forças para acompanhar-te, pelo menos te aplaudirá - O sincero amigo - M. de A.


8/2/1862

Bibliografia:

ASSIS, Machado de. Crítica & Correspondência. In: Obras Completas. Editora Globo, 1997.

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