domingo, 24 de setembro de 2023

Lembranças - Capítulo 11



Refeição Cultural

Opinião


Bebida alcoólica é uma droga!

A foto que ilustra o artigo é a foto de um bêbado. Eu bebi muito por anos e anos em minha vida. Das drogas consumidas por humanos, o álcool é a única que experimentei. Fiz várias das merdas que um bêbado faz como, por exemplo, dirigir bêbado e outras loucuras. Por sorte, acabei sobrevivendo às bebedeiras e não fui responsável por nenhum acidente por causa da droga do consumo de álcool. Mas nem todo mundo tem ou teve a sorte que eu tive na vida. Acabei superando a bebedeira sem sequelas graves ou irreversíveis.

Fiquei matutando por meses se valia a pena escrever ou não sobre a questão do álcool e do alcoolismo e, se escrevesse, de que forma poderia abordar esse tema sem ser odiado gratuitamente por qualquer pessoa que lesse minha opinião e que se sentisse incomodada com o meu texto por ser uma consumidora contumaz de bebida alcoólica. 

Deu vontade de escrever alguma coisa. Avalio que não exista uma forma de discurso que garanta a eficácia de não provocar as pessoas ao criticar o consumo cada dia maior de álcool, essa droga legalizada no Brasil e uma das bases do consumo supérfluo das sociedades humanas e uma das maiores causas de tragédias pessoais e coletivas da sociedade, além de prática que destrói recursos dos sistemas de saúde. 

Já que não sou ninguém pra apontar o dedo a qualquer pessoa, posso ao menos escrever sobre essa prática social e cultural na forma de um depoimento pessoal de como bebia e como decidi não ficar mais bêbado.

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A CULTURA DO ÁLCOOL NO BRASIL É ANTIGA

A sociedade humana tem uma natureza contraditória, talvez desde a sua origem, porque somos animais contraditórios. Falamos uma coisa e fazemos outra, isso é o mais comum. 

O ser humano é um animal social e a comunicação é característica central dos homo sapiens. Nossas relações sociais são organizadas através da linguagem e é pela linguagem que contamos casos, criamos estórias e construímos narrativas para tudo. Me lembro que cresci ouvindo narrativas de bebedeiras...

Pela linguagem argumentamos, influenciamos, manipulamos, condenamos e inocentamos as pessoas. Pela linguagem fazemos o que só os humanos podem fazer: educamos. Tenho a impressão de que até pela educação brasileira se ensina a cultura do álcool. Se não pela palavra, pelos atos, pelos exemplos.

Fui criança nos anos setenta e adolescente nos anos oitenta. Cresci num país governado por ditadores (chamados pela grande imprensa da casa-grande de "presidentes" - a linguagem que manipula), meu ambiente de aculturação quando criança e jovem foi um ambiente autoritário, preconceituoso e violento. É o que somos, o Brasil. 

Dos tempos de criança nos anos setenta, me lembro das bebedeiras nos encontros de família, que uma vez ou outra terminavam por causa de alguma desavença provocada pela bebida em excesso. 

Na juventude foi pior. Fui morar em outro Estado aos dez anos de idade, no bairro Marta Helena, em Uberlândia, e tive que me acostumar ao novo ambiente do viver. Eram tempos duros, o Brasil vivia a crise econômica dos anos oitenta, a miséria e a carestia faziam parte do cotidiano das massas e a classe trabalhadora se virava para sobreviver.

Não vou adentrar na história da família, não é necessário. O que sei é que deveria ter uns doze ou treze anos quando passei a beber como faziam todos ao meu redor nas ruas e bailinhos do Marta Helena. Imaginem só, o moleque tomava doses de cachaça nos bares porque era a bebida mais barata e a rapaziada ficava toda corajosa e doidona com um trago de cachaça. E nos encontros de família me juntei aos familiares como mais um tomador de cerveja. Muita cerveja!

O resumo da ópera, ou da comédia, ou da tragédia, ao gosto do(a) leitor(a), é que bebi muito até quase uns trinta anos de idade. 

Imagens na memória: me lembro da molecada fazendo arruaça nas madrugadas do Marta Helena; me lembro de algumas vezes nas quais bebi até vomitar muito (cara, que merda vomitar de tanto beber!); me lembro de me expor a riscos desnecessários de propósito porque estava bêbado (às vezes, queria morrer); me lembro do bar do Chaplin, na frente da Faculdade do ITO em Osasco, eu levava as pessoas de moto pra casa delas estando bêbado...; me lembro de magoar pessoas e fazer pessoas que gosto chorarem porque não tinha limite estando bêbado. 

Que merda é lembrar de tanta coisa que vivi estando bêbado. Perdi um dos tios com o qual tinha mais proximidade porque ele virou um alcóolatra e não conseguiu sair dessa condição. Vi outras mortes relacionadas ao consumo sem limites de álcool. Quantas vidas perdidas sem necessidade!

Esse pequeno relato de um ser humano, uma pessoa que bebeu muito e por muito tempo, é um relato comum. Milhões de pessoas bebem como eu bebi desde sempre. E bebem muito mais do que eu bebi. 

BEBER SOCIALMENTE - A extensão do que se costuma denominar de "beber socialmente" é enorme e também é meio hipócrita. Tem pessoas que bebem nos finais de semana e dizem que bebem socialmente; tem pessoas que bebem quase todos os dias e dizem que bebem socialmente; tem pessoas que bebem tudo que aguentam (não aguentam!) de uma vez e só de vez em quando e dizem que bebem socialmente... e por aí vai.

Por isso abri esta parte do texto dizendo que somos seres contraditórios. As pessoas defendem ideias de um determinado tipo de sociedade e mundo e todos os dias praticam atos que são absolutamente contrários às ideias e tipo de sociedade e mundo que vendem por aí. Falam de saúde e afogam o mundo em álcool, falam de solidariedade e só pensam em si mesmas, pregam a paz e só praticam as diversas violências cotidianas possíveis. Seres contraditórios.

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UM DIA DECIDI QUE NUNCA MAIS FICARIA BÊBADO

Cada pessoa sabe de sua vida, até certo ponto somos seres livres. Porém, é certo que somos altamente influenciáveis. A cultura do consumo de álcool no capitalismo está cada dia mais agressiva e as pessoas estão bebendo como nunca, estão se destruindo no álcool. 

Não vou entrar em discussões filosóficas e sociológicas sobre liberdade e livre-arbítrio neste texto. Tenho consciência e vivência suficientes para compreender as complexidades inerentes ao que somos, animais da espécie homo sapiens, seres humanos e seres que se aculturam de acordo com as relações sociais e produtivas de onde vivem.

Quando fui eleito diretor do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, em 2002, tive a percepção de que a minha vida iria mudar daquele momento em diante e mudaria definitivamente. A pessoa que eu era seria modificada em outra pessoa com a experiência que viveria naquela nova função social. Eu já tinha uns quinze anos de categoria bancária, sendo dez no BB e havia completado 33 anos de idade.

Tive medo, tive receio, passei a viver uma espécie de insegurança que nunca havia sentido. Eu era um grande admirador do Sindicato e das pessoas que representavam a nossa entidade de classe. Nossa chapa foi eleita em abril e só fui liberado do cotidiano do banco em agosto daquele ano. Eu me questionava internamente se estaria à altura da tarefa de representar os colegas e, mais que isso, em um dos maiores sindicatos do país. Foram momentos de grande tensão interna.

Eu era um trabalhador bancário comum, como todos nós da classe trabalhadora somos, em geral. Por não ter sido um militante orgânico da esquerda desde pequeno, como ouvia as histórias do pessoal do movimento sindical, eu me sentia inseguro se conseguiria ao menos fazer uma boa representação e dirigir o movimento como as lideranças que conhecíamos. Sempre havia votado na esquerda, meus primeiros votos com o título de eleitor nas mãos foram em Erundina (PT) e Lula (PT). Mas entendia isso como algo básico, trabalhador(a) vota em trabalhador(a).

Um de meus receios na capacidade de ser um bom representante de classe era por causa de minhas características pessoais. Eu era uma pessoa impulsiva, de opiniões fortes e muito centrado em mim mesmo. Desde a adolescência, fui uma pessoa intolerante. A tomada de consciência de meus novos desafios e do que eu seria a partir daquele momento me fez refletir sobre atitudes novas que deveria ter para conseguir ser um bom dirigente da classe trabalhadora.

Nossas memórias nos auxiliam no olhar para trás, mas não adianta querermos romantizar as lembranças de tudo. Não sei o dia exato em que defini que nunca mais ficaria bêbado como ficava às vezes quando bebia em rodas de amigos, mas jurei a mim mesmo que nunca me veriam bêbado como diretor do Sindicato. 

RESPEITO PELO SINDICATO, A CASA DOS TRABALHADORES - Me lembro como se fosse hoje o dia em que entrei no Edifício Martinelli para começar a exercer o mandato de diretor do Sindicato. Aquelas fotos e quadros de movimentos sociais, as militâncias e lideranças andando pra lá e pra cá, aquela aura de energia para mudar o mundo e defender a classe trabalhadora... eu sei que aquele foi um momento inesquecível para mim. Eu faria de tudo para ser um bom dirigente e representante dos colegas de trabalho.

Me lembro que decidi que nunca mais ficaria bêbado, não era uma questão moral, entendo que qualquer pessoa tem o direito de fazer o que quer, se não for contra a lei. O que eu defini pra mim mesmo é que não achava adequado como um representante de pessoas ser visto na condição de bêbado em espaços públicos. Eu não era mais CPF para fazer a merda que quisesse. 

Um conjunto de atitudes passaram a balizar o meu comportamento como político, como representante de classe. Além de decidir que não era adequado um dirigente beber até perder a consciência e o domínio da razão, entendi também que não poderia mais ser intolerante e agressivo como era. Imaginem um dirigente com a camisa do Sindicato ou da CUT brigando por aí e facilitando a vida de nossos inimigos de classe que usam imagens e as mídias para manipularem as pessoas contra nós. Já bastavam as mentiras inventadas contra nós.

Enfim, fiz uma avaliação política e mudei atitudes comuns ao meu comportamento anterior para assumir um novo papel social. Nunca deixei de "beber socialmente" como dizemos no popular. No meu caso, consegui encontrar o equilíbrio necessário durante eventos com bebidas alcoólicas para beber pouco enquanto participo do convívio social. Entretanto, sabemos que nem todas as pessoas conseguem estabelecer o limite quando ingerem bebidas alcoólicas. Essa é uma das dificuldades ao lidar com essa droga de grande circulação e estímulo em nossa sociedade.

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ÁLCOOL E ALCOOLISMO: PERDAS E DANOS IRREPARÁVEIS, PESSOAIS E COLETIVOS

Vamos para a parte final dessa reflexão sobre o consumo de bebida alcoólica na forma de um depoimento pessoal, texto reflexivo e também argumentativo, tendo como objetivo sensibilizar leitoras e leitores a respeito da importância de reduzir o consumo dessa droga ou abandonar o consumo para o caso das pessoas que não conseguem parar de beber quando começam a "beber socialmente" e sempre passam dos limites de consumo. Lembro aqui: as pessoas morrem por causa de bebidas alcoólicas. 

De cara, temos que ter claro que bebida alcoólica é uma droga, legalizada no Brasil, mas é uma droga. Todo consumo de droga tem algum efeito e alguma consequência para os consumidores e para a coletividade, porque somos seres sociais e vivemos em sociedade.

Seria simplório de minha parte dar crédito sem limites à tal liberdade de escolha das pessoas, ao livre-arbítrio de cada um etc, como se não fôssemos seres humanos movidos pelas paixões, mesmo sendo classificados como seres racionais. O que nos movem em geral são as paixões e não a razão. E o que nos move hoje são os desejos e necessidades que movem o modo capitalista de organização do mundo, a mercadoria e o lucro.

PORRES HOMÉRICOS

Uma história clássica não me sai da cabeça quando penso em bebedeiras e porres que transformam pessoas em zumbis ambulantes. Falo dos clássicos gregos Ilíada e Odisseia, epopeias atribuídas ao aedo Homero.

Após quase dez anos de guerra e sem conseguir derrotar os troianos em sua cidade fortificada, o sábio Ulisses tem a ideia de construir um monumento de madeira gigante e ofertar aos troianos, como se reconhecessem a vitória deles na guerra. Um grupo de soldados gregos se escondeu dentro de um cavalo de madeira. Os troianos avaliam bem a questão e decidem levar o monumento para dentro da cidade. Bebem até caírem de bêbados pelos cantos da cidade na comemoração... (os guerreiros bêbados se foderam!)

O estratagema da construção do Cavalo de Tróia é ideia do engenhoso Ulisses, é verdade. Porém, o porre homérico dos troianos após a comemoração pela vitória pode ter facilitado muito a vida dos gregos na batalha surpresa após invadirem Tróia a partir do presente de grego. 

Eu sinceramente não consigo entender como um guerreiro consegue baixar a guarda desse jeito, ficar bêbado e à mercê de ser facilmente derrotado. Conhecemos o dito popular: mais fácil que empurrar bêbado em ladeira. 

(Me lembro de descobrir estratégias e táticas de militantes de correntes adversárias à nossa em períodos de greve, por exemplo, ao me juntar a eles em mesas de bar nos finais dos dias de luta... é triste, mas é fato: o álcool libera até segredos de disputas de hegemonias de mundo)

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O ÁLCOOL ALTERA O COMPORTAMENTO DE SEU USUÁRIO

Não é preciso ser muito racional ou de inteligência aguçada para saber quando uma pessoa já bebeu uma quantidade que modificou o comportamento usual dela. Essa droga começa a surtir efeitos no corpo da pessoa assim que ingere o primeiro gole.

Como disse no início, cresci entre rodas de cerveja e outras bebidas nos encontros de família. Não só eu, diria que quase todo mundo. Os traumas causados pelo consumo de álcool também fazem parte do histórico familiar de muita gente. Danos irreparáveis por causa do consumo de álcool marcam a vida do povo brasileiro.

Ao beber, as pessoas perdem todos os freios que têm, uns mais outros menos, em relação a diversas coisas do dia a dia. Além do olhar mudar, a língua ficar mole e o corpo perder parte do equilíbrio automático, os bêbados ficam corajosos e com boa autoestima, ou o inverso e com baixa autoestima, ou choram à toa, ou riem mais, ficam nervosos e até violentos, podem ter ideias suicidas, alguns ficam insuportáveis, outros ficam engraçados, eles contam segredos e, o que é pior, podem fazer coisas que jamais fariam se estivessem conscientes, sãos. Todos os dias, vidas são alteradas para sempre por causa de algum fato envolvendo pessoas e álcool.

Uma pessoa alcoolizada se torna uma pessoa frágil, exposta, à mercê de qualquer outra pessoa ou situação complicada socialmente porque ela perde a capacidade de discernimento, de avaliar consequências dos atos. Sinceramente, é loucura alguém ficar bêbado, principalmente se for de maneira proposital! 

No mundo das imagens e registros instantâneos no qual vivemos hoje, a pessoa pode perder tudo que conquistou na vida ao se expor alcoolizada numa situação ilegal, ou questionável, ou que possa ter interpretação diversa do que seja de fato. Uma pessoa pode perder o emprego por causa do álcool, por exemplo. 

Enfim, estou apresentando apenas algumas dimensões de consequências do consumo de bebida alcoólica, principalmente para a parcela de pessoas que mesmo bebendo até ficar bêbada, acha que só bebe socialmente e que não fica bêbada. 

Quando decidi que nunca mais ficaria bêbado ao me tornar representante de milhares de pessoas, tomei uma decisão consciente, racional, e depois gastei um tempo me adaptando a ela. Não foi fácil... tive que mudar completamente meu comportamento. Quem me conheceu antes é que poderia avaliar o quanto mudei em consequência de decidir mudar para iniciar outra fase de minha vida.

Não vou discorrer sobre outras dimensões coletivas oriundas do consumo do álcool na sociedade, e de consequências enormes e cada dia mais trágicas. Uma delas é na área da saúde do usuário e do sistema coletivo de saúde daquela sociedade. O álcool é responsável por danos incalculáveis no sistema por causa de casos agudos de violência e acidentes e casos de longo prazo como inumeráveis doenças que impactam os usuários.

Outra dimensão séria é a questão econômico-financeira na vida das pessoas, dos usuários dessa droga. É inevitável lembrarmos da penúria econômica por que passam milhões e milhões de brasileiros e essas pessoas estão tirando recursos de necessidades básicas nas suas contas pessoais e da família para beber, para dar rolês e para frequentar ambientes que vão custar muito mais do que poderiam gastar.

Eu avalio que foi muito bom para mim nunca mais ter ficado bêbado e me colocado em condição frágil durante as quase duas décadas em que fui político e representante de pessoas. Isso deve ter sido bom para minha saúde também. Nunca deixei de tomar uma cervejinha, um pouco de vinho ou uma cachacinha quando estou nos momentos sociais. A diferença foi aprender a hora de parar.

Finalizo aqui esse depoimento honesto e de alguém que sofre ao ver como o álcool está destruindo a vida das pessoas e da sociedade humana.

William


Post Scriptum: o texto anterior da série Lembranças pode ser lido aqui.

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Lendo "Banzeiro òkòtó", de Eliane Brum




Refeição Cultural

Osasco, 22 de setembro de 2023. Sexta-feira.


"A tessitura deste livro, que é também uma convocação à amazonização do mundo, para muito além do território geográfico da Amazônia, tem uma proposta explícita: é tempo — e talvez a última oportunidade de tempo — de escutar aqueles que foram chamados de bárbaros, aqueles que foram relegados à condição de sub-humanidades no processo colonizador que ao longo dos séculos só mudou de estética, mas não de ética. Escutar não por condescendência nem por compaixão, mas por derradeiro instinto de sobrevivência. E, talvez, se tivermos sorte, aqueles cujas vidas foram tantas vezes destruídas pelos que se autodenominam civilizados aceitem nos ensinar a viver depois do fim do mundo, apesar de tudo o que fizemos contra seus corpos." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)


A catarse ao ler Eliane Brum

Começo esta reflexão com uma definição simples do que seria a palavra catarse, para dizer que vivencio uma catarse ao estar lendo o livro Banzeiro òkòtó, da jornalista e escritora Eliane Brum. Tirei a definição da Wikipedia.

- Catarse (do grego κάθαρσις, kátharsis, "purificação", derivado de καϑαίρω, "purificar") é uma palavra utilizada em diversos contextos, como a tragédia, a medicina ou a psicanálise. Significa "purificação", "evacuação" ou "purgação". Segundo Aristóteles, a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um trauma.

Ou seja, é preciso que o herói trágico passe da "felicidade" para a "infelicidade" para que o espectador possa atingir a catarse. Por exemplo: Édipo Rei começa a história como rei de Tebas e, no fim, se cega e se exila. Ou a tragédia Romeu e Julieta, de Shakespeare, na qual os dois protagonistas fazem parte da elite da cidade e são mortos pelo seu amor proibido.

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A leitura desta obra da jornalista e escritora Eliane Brum foi motivada pela participação no curso "13 livros para compreender o Brasil", do Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Fiz o curso meses atrás e estou no processo de leitura dos livros apresentados e debatidos no curso (comentário aqui).


A cada capítulo que leio, experimento a descarga emocional e o impacto causado pela catarse gerada em mim ao ler o que a autora compartilha conosco. É impressionante! Para entender a questão que ela está tratando, temos que rever nossos conceitos e visões de mundo, reaprender a ver as coisas da realidade.


No capítulo que li hoje pela manhã - "povos-floresta: a aliança de entes e entres" - a escritora nos ensina a rever os conceitos de propriedade, de o que pertence ao que e o que somos quando se trata de pensar a natureza. 

Por causa de meus estudos e buscas pessoais recentes já tenho utilizado em meus textos esta denominação "natureza" para nos lembrar o que somos: natureza. 

No entanto, Brum organiza metodicamente os porquês para entendermos o que somos e por que somos o que somos: natureza.


Na sequência de citações abaixo, podemos entender um pouco do que Eliane Brum nos explica:


"Agora que quilombolas e beiradeiros já foram aqui apresentados e se enfileiram ao lado dos diferentes grupos indígenas na composição humana da floresta, eu paro de chamá-los de “povos da floresta” e passo a me referir a eles como povos-floresta. Considero que, a partir deste momento, já é possível compreender primeiro o mais óbvio, uma das premissas deste livro: o fato de que a floresta não pertence a eles (nem a ninguém), por isso jamais usei “a floresta dos povos”. Inclusive por uma impossibilidade lógica e conceitual que se expressa na linguagem: quando a floresta passa a pertencer às pessoas humanas, no sentido da propriedade, ela já não é mais floresta. A propriedade pressupõe a aniquilação do corpo. Assim, o que pode pertencer a humanes não é mais floresta, mas suas ruínas. O que pode pertencer a humanes é campo de soja, pasto para boi, hidrelétrica, ferrovia e rodovia. A floresta é, por definição, constante intercâmbio. Ela é tanto plantada por pessoas humanas e não humanas quanto também as planta. O conceito de propriedade é tão estranho como incompatível com a floresta. Ao ser submetido a ele, a floresta torna-se um não ser." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

e também:

"Povos da floresta implica que são os povos que pertencem à floresta, e não a floresta que pertence aos povos. A crase no “a” faz toda a diferença. Para ser considerado e reconhecido como povo da floresta é preciso encarnar duas transgressões ao sistema capitalista. A primeira é que não se trata de propriedade, mas de pertencimento, o que é radicalmente diverso. A segunda é que aqueles que pertencem à terra são as pessoas humanas — e não o contrário." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)


Amig@s leitores, repito a vocês: cada capítulo é uma catarse para o leitor atento.


A cada leitura que tenho feito no meu percurso recente de leituras e estudos, mais adquiro uma espécie de consciência do quanto somos partículas, átomos, grãos de algo muito grande. Sinto impotência e ao mesmo tempo necessidade de saber algo a mais, na esperança de ao menos me tornar um ser consciente do que é.


Sigamos lendo, refletindo e sugerindo que as pessoas recuperem a curiosidade que nos trouxe até aqui, curiosidade filosófica que chegamos a ter enquanto espécie animal em nosso caminhar de milhões de anos e que está ameaçada ao nos tornarmos zumbis digitais, baterias da matrix que nos capturou talvez como nunca antes na história humana.


William


Bibliografia:


BRUM, Eliane. Banzeiro òkòtó - Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo. Companhia das Letras, 2021.


quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 20 de setembro de 2023. Quarta-feira.


Ao estudar algo novo percebemos o quanto sabemos pouco de quase tudo. Eu tenho clareza disso há bastante tempo. Essa consciência de saber que quase nada sei já me acompanha desde a adolescência, lá nos anos oitenta do século passado. O não saber me incomodava e ainda incomoda até hoje.

Como tudo muda o tempo todo, o mundo mudou de lá para cá, a sociedade humana mudou, e muito. Atualmente, há quase um incentivo à ignorância. Tenho a impressão de que as gerações que foram sendo aculturadas nas últimas décadas perderam um pouco do interesse ou desejo de estudar e saber cada dia mais sobre tudo. Pode ser só uma impressão minha.

Ao decidir incluir no meu cotidiano uma carga de estudos de algumas coisas, me lembrei dos ensinamentos que lia quando estudava para concursos públicos. Os professores e especialistas diziam que o conhecimento tende a ir aumentando cada vez mais, à medida que vamos estudando com planejamento e estratégias definidas. Vamos ver...

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CURSOS DO ICL

Estou entrando em meu terceiro ano como membro associado do Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Durante os dois primeiros anos, acabei me inscrevendo mais para contribuir com o sucesso do projeto revolucionário do Instituto. Quase não entrava na plataforma nem via aula alguma. Só de pagar uma mensalidade solidária já me sentia satisfeito.

Agora decidi olhar com mais atenção a plataforma e as opções de cursos disponíveis, principalmente por causa de meu objetivo de provocar e estimular meu cérebro a se exercitar e se manter ativo e funcional. 

Quero postergar ao máximo os eventuais problemas que a natureza me reserva com o passar dos anos de existência. Somos natureza, o tempo é implacável em nossos corpos e o futuro não existe, pois não temos poder sobre o amanhã. O máximo que podemos fazer é a nossa parte para estarmos bem. E significar ou dar sentidos ao viver.

Dos poucos cursos que já fiz no ICL, um deles me estimulou a ler diversos livros profundos e que nos fazem pensar o Brasil, o povo brasileiro e a vida (comentário aqui). Tenho ainda uns sete livros pra ler somente pela referência desse curso. Estou lendo agora os livros de Abdias Nascimento e Eliane Brum. Demais demais!

Estou fazendo um curso sobre o nosso mestre Paulo Freire. Cada aula faz a gente pensar tanto e tanta coisa, que a vontade que temos é de lermos todos os livros citados no curso. É muita coisa, é verdade! 

Compartilho com vocês que eventualmente leem o blog um sentimento que sempre tive: estudar e ler é algo muito gostoso, é trabalhoso, mas é muito gratificante saber coisas novas!

ITALIANO - Até agora, assisti a cinco aulas de Língua Italiana na plataforma do ICL. Que curso legal! A professora Linda Riolo é a simpatia em pessoa e sua didática é fantástica! Foram cinco aulas com muito conteúdo, mas me parece que vou aprender Italiano, mesmo o tiozinho aqui estando com mais de 50 anos de idade.

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NÃO ACRESCENTO MAIS NADA FALANDO DE POLÍTICA

Tenho pensado muitas coisas em minhas caminhadas também. O ímpeto de minha natureza e o cacoete de décadas de representação política me cutucam para falar e escrever sobre diversas questões políticas que estão acontecendo neste exato momento.

O presidente Lula na ONU e seus desafios atuais e os passos já dados pelo nosso governo... achei o discurso do Lula na ONU ousado e histórico. Talvez eu até guarde no blog o discurso do nosso estadista porque os temas tratados por Lula são essenciais para o planeta e a humanidade neste momento da história humana.

A Cassi que apresentou um déficit gigante em seus resultados econômico-financeiros... A Cassi é a Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, uma autogestão em saúde. É uma das poucas coisas que posso dizer que conheço muito porque fui gestor e devo ter sido uma das pessoas que mais estudou a Cassi na história da gestão da entidade. Pois é... a vontade de falar o que penso é enorme, mas isso não faz diferença alguma. Tenho que seguir a minha vida.

É isso. Seguimos estudando e buscando evoluir de alguma forma. 

William


segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 18 de setembro de 2023. Segunda-feira.


Tenho feito poucos registros de diários no blog. Não é falta do que observar e registrar: nosso mundo está se desfazendo e poucos ligam pra isso. É vontade de calar, de silêncio. 

No entanto, algo precisa ser escrito, já que estou me definindo como escritor: alguém que tenha como atividade humana escrever sobre qualquer coisa. Escrever com qualidade e honestidade intelectual, é claro!

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LEITURAS

Estou lendo alguns livros e a leitura tem me deixado muito reflexivo, muito. Se fosse enumerar algumas palavras-chave ou expressões de temas presentes nas leituras que ando fazendo, poderia citar Paulo Freire, Amazônia, Racismo, Eliane Brum, Abdias do Nascimento, China, Cuba, Brasil, estudo de línguas e linguagem, Tempo, História, Socialismo.

A partir de um curso que fiz no Instituto Conhecimento Liberta (ICL), acabei pegando para ler dois livros que não conhecia ainda, um de Abdias Nascimento - O genocídio do negro brasileiro - e outro de Eliane Brum - Banzeiro òkòtó. 

Abdias fala da população negra no Brasil e desfaz o mito da "democracia racial" e Brum fala da destruição da Amazônia e da condição da mulher. 

Cada capítulo que leio dos livros, fico... sei lá, passado, estupefato. Que merda é essa que nós humanos escolhemos ser? Somos animais fantásticos biologicamente falando, temos um cérebro incrível e decidimos nos tornar monstros inconscientes destruidores do mundo e das formas de vida no planeta. Que foda isso!

Ainda sobre livros em andamento, preciso acabar o livro do Peter Straub - Os mortos vivos. Acabei inventando de reler o livro de terror que li na juventude para tentar lembrar alguma coisa da sensação que tive na época, pois o livro me impressionou e tive medo à época, e o livro é enorme, são mais de 500 páginas. Agora que já li quase a metade, tenho que acabar a leitura...

Os miseráveis, de Victor Hugo: de livros enormes, ao terminar a leitura acima, talvez fique meses só na leitura do clássico de Hugo.

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CÉREBRO: EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM

Diminuí o ritmo de leituras de livros porque decidi desafiar meu cérebro, dar atividades de aprendizagem a ele, estudando idiomas e linguagem. 

Estou às voltas com Português (sim, Português), Espanhol, Japonês, Italiano e Inglês. Não sei nenhum deles, mas tenho vontade de saber sobre esses idiomas e as culturas que eles representam. 

Como diz o professor Luiz de japonês, um passo de cada vez, sempre que contato uma lição, uma aula, uma leitura ou áudio em outra língua, avanço na aprendizagem de alguma coisa nova. Aí está a atividade cerebral que estou interessado. Se ao final do dia, souber alguma coisa a mais que antes, já exercitei meu cérebro, a minha alma humana, a minha identidade.

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HISTÓRIA DO BLOG - O WIKIPEDIA DO WILLIAM

Estou fazendo um trabalho de revisão dos milhares de textos que produzi no blog Refeitório Cultural. Estou terminando a leitura do ano de 2008 do blog, ano que já foi revisto e encadernado. A releitura segue sendo interessante. 

Tratei naquele ano de postar diversos textos sobre aulas da Universidade de São Paulo, da Faculdade de Letras. Tem muita informação boa. Postei aulas de Filologia e Morfologia, estão bem legais os textos. Essa temática sempre foi um dos objetivos do blog. 

Após terminar a releitura do ano de 2008 (216 postagens), irei pegar para reler, diagramar e imprimir o ano de 2009, será um trabalho imenso, pois são 348 postagens. 

Não poderia dizer que nunca escrevi um livro, pois tenho vários livros nos blogs, o de cultura e o do movimento sindical.

É isso, enquanto leio e releio textos, estudo e também exercito meu cérebro.

William


sexta-feira, 15 de setembro de 2023

ICL: Compreendendo a China



Refeição Cultural

Curso do ICL: "Compreendendo a China"


Gostei do curso do professor Elias Jabbour. Ao longo de dez aulas, tivemos um panorama geral sobre a história da civilização chinesa. 

Antes de comentar os novos conhecimentos que nos foram disponibilizados pelo ICL, sugiro às leitoras e leitores do blog que avaliem se inscreverem no projeto, o ICL é fantástico.

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Na apresentação do programa do curso, consta a seguinte proposta:

"No curso vamos percorrer a história da China dos últimos 50 anos. Tentaremos mostrar uma visão ampla, baseada em profunda base histórica mediada por insights sobre a dinâmica do processo recente de desenvolvimento do país. Passaremos pelas minúcias que envolvem grandes e acertadas decisões políticas que transformaram a China no maior case de desenvolvimento econômico da história humana."

As dez aulas ministradas pelo professor Elias Jabbour foram distribuídas com a seguinte organização temática:

1. Aspectos históricos fundamentais à compreensão da China

2. Um precoce "Estado Desenvolvimentista"?

3. Sobre a Revolução de 1949

4. 1949-1978: A economia e a dinâmica de acumulação dos "Planos Quinquenais"

5. Aspectos políticos, econômicos e sociais do lançamento das reformas de 1978

6. A grande estratégia

7. Das Zonas Econômicas Especiais à "Nova Rota da Seda"

8. O segredo do combate à miséria absoluta

9. Sobre as particularidades da economia chinesa: sistema empresarial, bancos etc

10. Discutir o chamado "socialismo com características chinesas"

11. Aula tira-dúvidas com Elias Jabbour

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REFLEXÃO SOBRE OS CURSOS DO ICL

O acesso a novos conhecimentos a partir da participação como membro do Instituto Conhecimento Liberta é uma oportunidade imperdível para aquelas pessoas que ainda têm em si a curiosidade filosófica e a sede de conhecimento características de parcela dos homo sapiens.

Neste momento em que escrevo, o ICL tem disponível em sua plataforma 235 cursos para os mais diversos interesses humanos. Eu, por exemplo, carrego comigo um desejo desde jovem de conhecer línguas diversas e o ICL tem disponível 7 cursos de línguas estrangeiras, com diversos módulos. Amig@s, não é qualquer coisa isso. Acredito que se eu tiver disciplina e firmeza de propósito, posso aprender qualquer uma delas através da plataforma do ICL, ao menos no nível básico e intermediário pactuado ali.

Quando era representante eleito da classe trabalhadora e dirigente nas diversas funções que desempenhei em nome das pessoas que representava, eu estudava todos os dias, todos os dias!, para aprender a ser um bom dirigente, para saber dirigir a categoria que representava, e para desenvolver estratégias e táticas para conquistar melhorias para nós. 

UM MUNDO DE GENTE SEM NOÇÃO DAS COISAS - Uma das questões centrais que defendi e exercitei por quase duas décadas foi politizar as pessoas que representava. Como fazia isso? Dando noções básicas sobre os temas que debatíamos e contribuindo para que o representado fosse menos ignorante (não sabedor) no tema que conversávamos. As pessoas não têm noção de nada! Essa é a constatação que tive. DAR NOÇÃO ÀS PESSOAS É ALGO REVOLUCIONÁRIO!

Eu diria que os cursos disponíveis na plataforma do ICL são os remédios que possibilitam que as pessoas interessadas em conhecimento e que não se sentem à vontade e confortáveis em serem ignorantes em quase tudo possam adquirir noções elementares nos mais variados temas de interesse. A pessoa que faz um curso do ICL não vai se tornar uma especialista naquele tema, mas pode ter seu interesse despertado e isso pode gerar um ciclo novo na vida dela, indo atrás de uma formação de maior fôlego, seja formal em um curso acadêmico ou não formal através de estudos autodidatas.

A CHINA

Eu, por exemplo, me considero um ignorante no tema China. O que eu saberia dizer sobre a China e o povo chinês não passaria de algumas questões básicas e talvez mais alguma coisinha por não me considerar um analfabeto funcional ou político. Não mais que isso.

Após as aulas e o panorama geral que aprendi com o professor Elias Jabbour, sei alguma coisa a mais. Posso dizer que tenho noções melhores sobre o tema. Se olhar ao meu redor, neste momento atual do mundo, é quase como se eu fosse uma pessoa com um olho num mundo de cegos. O que não quer dizer muito. Não me esqueço do sofrimento da personagem que via naquele mundo de cegos do Ensaio sobre a cegueira, de Saramago... que sofrimento ela dizia sentir ao ver aquilo que via!... até me arrepiei ao me lembrar do romance.

Enfim, tenho hoje noções melhores sobre a China, sobre a história do povo chinês, sobre características geográficas, históricas, políticas e culturais que contribuíram para a China ser o que é hoje. Se quiser me aprofundar e conhecer um pouco mais sobre a China, é só ter disciplina e firmeza de propósito e estudar mais. 

Por exemplo, adquiri na internet por sugestão do próprio professor Elias Jabbour, dois trabalhos dele de fôlego sobre a China: suas teses de mestrado e doutorado. São dois livros. Jabbour diz que seu interesse inicial foi estudar a respeito do socialismo, de forma científica. A China apareceu como um estudo de caso. O cara meteu uma mochila nas costas e foi pra China... a história dele é fantástica!

Enfim, tenho refletido muito sobre cuidar de meu cérebro de forma carinhosa e técnica, para preservar a essência do que sou, porque minha identidade humana e tudo que sou está em meu cérebro, que podemos chamar de alma, espírito, do que quisermos.

Agradeço ao ICL e ao professor Elias Jabbour pelo conhecimento compartilhado conosco.

William

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Post Scriptum: Por causa do estudo e contato com o curso e a temática China, acabei revendo o filme belíssimo A caminho de casa, de 2007, do diretor chinês Zhang Yang. Comentários sobre o filme aqui.


quinta-feira, 14 de setembro de 2023

ICL: 13 livros para compreender o Brasil



Refeição Cultural

Curso do ICL: "13 livros para compreender o Brasil"


Este foi um dos primeiros cursos que fiz no Instituto Conhecimento Liberta (ICL), um projeto revolucionário de compartilhamento de cultura e saber de forma acessível para todas as pessoas. Por estar na grande São Paulo, tive o privilégio de ir às aulas presenciais na sede da instituição.

Antes de comentar abaixo as obras que vimos nas aulas, deixo para as leitoras e leitores do blog a sugestão de avaliarem a possibilidade de se inscreverem no ICL para fortalecerem o projeto e para acessarem uma gama enorme de cursos nas mais diversas áreas do saber. 

Quando vi o projeto do ICL, me lembrei do desejo que tive ao criar este blog lá em 2007 para compartilhar conhecimento de forma gratuita. Se possível, façam a assinatura solidária e ajudem mais pessoas a participarem do projeto e terem acesso ao conhecimento.

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Este curso apresentou a seguinte proposta de estudos:

"O curso apresenta 13 livros fundamentais para a compreensão da história e da sociedade brasileira. Com efeito, a partir de leituras comentadas, os professores Lindener Pareto e Suze Piza irão debater as grandes questões que marcam a cultura nacional. Movimento Negro, História das Mulheres, A questão Indígena e tantos outros temas da vida brasileira a partir de grandes clássicos como Euclides da Cunha, Carolina Maria de Jesus e Jessé Souza. Ao mesmo tempo, o curso apresenta uma proposta de leitura pública, incentivando a participação do público e celebrando a construção coletiva da leitura crítica."

A partir dessa proposta, a cada semana nos encontramos com os professores para refletirmos sobre uma obra e um autor ou autora comentados.

Participei de quase todas as aulas presenciais e já li alguns dos livros comentados no curso. Outros, comprei e ainda não fiz a leitura.

Neste momento da postagem, estou revendo as aulas gravadas e refletindo novamente sobre as obras e as questões debatidas.

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Aula 1: A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert

Esta primeira aula não foi presencial em 5/10/22. Adquiri o livro em edição em papel. Ainda não li o livro. 

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Aula 2: O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul, de Luiz Felipe de Alencastro

Fui a esta aula presencial em 19/10/22. Não tinha o livro e o adquiri no formato digital. Não o li ainda.

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Aula 3: Liberdade, de Luiz Gama

Participei da aula (26/10/22). Fiquei impressionado com a história de Luiz Gama e com a produção intelectual desse brasileiro extraordinário. Adquiri o livro em formato digital e consegui ler o livro, que faz parte de uma coletânea sobre a vida e obra desse intelectual em diversos volumes. Ler comentário inicial aqui e sobre a leitura aqui.

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Aula 4: Os sertões, de Euclides da Cunha

Participei da aula em 9/11/22. Este livro é um dos livros que comecei a ler faz muito tempo e nunca terminei a leitura. Li a primeira parte "A terra" e a segunda parte "O homem" décadas atrás. Acabei deixando de ler à época a terceira parte "A luta" porque já sabia no que havia dado aquilo: mais uma chacina vergonhosa praticada pelas elites brasileiras contra os movimentos populares. Por causa do curso, acabei retomando a leitura, mas ainda falta o final, a 4ª expedição. Comentários aqui.

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Aula 5: Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus

Participei da aula (16/11/22). Ainda não li este livro, que já adquiri. A leitura coletiva de alguns trechos do diário da autora foi marcada por momentos de emoção, pois os relatos são de fome, de miséria na favela e resistência de uma mulher negra que acorda todos os dias sem a certeza de que conseguirá algum dinheiro catando papel ou outros recicláveis para alimentar seus filhos. (revi a aula na plataforma em 12/9/23).

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Aula 6: Macunaíma, de Mário de Andrade

Participei da aula presencial em 23/11/22 (revi a aula na plataforma em 12/9/23). Já li umas três vezes Macunaíma, a última vez para a aula do ICL. Clique aqui para ler a respeito da última leitura, feita na ocasião do curso. Fiz uma reflexão sobre aquele momento vivido pelo Brasil.

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Aula 7: Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa

Estive na aula em 30/11/22. Tenho uma longa história com este livro. Durante anos tentei ler o romance até o fim e não conseguia. Hoje é um livro que já li e releio sempre. Das várias postagens no blog, esta aqui é após a conclusão da leitura. Revi a aula na plataforma na madrugada de 13/9/23.

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Aula 8: Como o racismo criou o Brasil, de Jessé Souza

Participei da aula em 6/12/22. Temos a edição impressa do livro em casa, mas não o li ainda. Revi a aula na plataforma em 10/9/23.

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Aula 9: Genocídio do negro brasileiro, de Abdias do Nascimento.

Estive na aula em 14/12/22. Não li o livro ainda, mas o adquiri no formato digital no dia que revi a aula na plataforma em 11/9/23. Após a aquisição, já li o Prefácio à Edição Brasileira, por Florestan Fernandes, o Prefácio à Edição Nigeriana, por Wole Soyinka, e o Prólogo: A História de uma rejeição, do próprio Abdias Nascimento. Textos fantásticos!

Post Scriptum (10/10/23): A leitura do livro de Abdias Nascimento foi impactante. A crítica direta e objetiva que ele faz aos intelectuais brasileiros que usaram de suas posições para endossar ou amenizar a tragédia do racismo no país é única. Só fui ver algo parecido em Jessé Souza, décadas depois de Abdias. Ler comentário sobre a leitura aqui. Revi a aula hoje, após ler a obra.

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Aula 10: Insubmissas Lágrimas de Mulheres, de Conceição Evaristo

Participei da aula presencial em 21/12/22. Tenho o livro em formato digital e já li a obra. Ler Conceição Evaristo é um privilégio para qualquer pessoa. Já li algumas obras da autora e ela é fantástica! Ler aqui o comentário que fiz sobre este livro. Revi a aula na plataforma em 13/9/23.

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Aula 11: Brasil - Mito fundador e sociedade autoritária, de Marilena Chauí

Esta aula foi gravada em janeiro de 2023 pela professora Suze Piza. Adquiri a obra pela internet em formato digital e não a li ainda. Assisti à aula pela plataforma em 13/9/23. A professora fez uma explanação sobre o contexto no qual a obra foi lançada pela filósofa Chauí, na virada dos anos dois mil e durante as "comemorações" dos 500 anos do "Descobrimento". Muito esclarecedora a questão do "mito fundador" que nos acultura desde que nascemos no Brasil.

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Aula 12: Torto arado, de Itamar Vieira Junior

Li o livro antes da aula em 24/1/23, mas não consegui chegar a tempo de participar da aula, pois estava na Colônia do Sinpro SP, na Praia Grande. Fiz uma postagem sobre o livro: ler aqui.

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Aula 13: Banzeiro òkòtó, de Eliane Brum

Aula gravada e transmitida pela plataforma. Não li o livro ainda. Revi a aula em 14/9/23. Adquiri o livro no formato digital. Li dois capítulos e fiquei encantado com o conteúdo e a proposta de reflexão da autora. 

Ao ler o capítulo "desestrutura" me senti representado pelas palavras de Brum. Me identifiquei com a descrição de desconforto da escritora por ser uma branca no Brasil. Não é fácil lidar com o fato de ser um branco privilegiado num país racista que desde as invasões europeias define a vida de cada um de nós por sua estrutura racista, violenta e autoritária.

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Aula 14: Roda de conversa sobre leituras públicas e formação de coletividades

Participei desse encontro presencial de fechamento do curso em 30/1/23. Revi a aula na plataforma em 14/9/23. Na exposição de ideias foram feitas reflexões profundas sobre livros e meios de registro e transmissão de informações e conteúdos ao longo da história humana. Fiz intervenção ao final. Tive a oportunidade de expor o que penso várias vezes durante o curso.

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REFLEXÕES

Gostei muito do curso! Ao longo do processo de aprendizagem, acabei lendo livros que talvez não leria se não fosse a referência do curso. Isso é muito bom, a programação organizada pelos professores Suze Piza e Lindener Pareto nos abre novas perspectivas de leitura de mundo.

Foi assim com a leitura sobre Luiz Gama (Liberdade) e o romance de Itamar Vieira Junior (Torto arado). Também acabei lendo um livro que não havia lido ainda da autora Conceição Evaristo (Insubmissas lágrimas de mulheres).

Em relação aos livros e autores que já conhecia, adorei ouvir reflexões novas sobre os temas. Os clássicos de Mário de Andrade (Macunaíma), Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas) e Euclides da Cunha (Os sertões) são parte da história da cultura brasileira, para o bem e para o mal.

E ficam as leituras novas como desafios intelectuais para mim, pois ainda tenho que ler 7 obras abordadas durante o curso. Já as tenho todas e agora é só mergulhar nas leituras nos próximos meses de vida.

O percurso de leitura será extraordinário para mim por causa do leque de conhecimento contido nas obras: A queda do céu, de Kopenawa; O trato dos viventes, de Alencastro; Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus; Como o racismo criou o Brasil, de Jessé Souza; Genocídio do negro brasileiro, de Abdias Nascimento; Brasil - Mito fundador e sociedade autoritária, de Marilena Chauí; Banzeiro Òkòtó, de Eliane Brum.

Deixo meu agradecimento aos professores Suze Piza e Lindener Pareto pela oportunidade e ao ICL.

Sigamos estudando e aprendendo sobre nós mesmos, a vida, o Brasil e o mundo.

William


domingo, 10 de setembro de 2023

Livro: Cuba insurgente - Maria Leite



Refeição Cultural

Osasco, Brasil. América do Sul.


10/9/23 (13h41)

O livro da professora Maria Leite, sobre a pedagogia em Cuba, é um dos livros que peguei para ler desde que passei a estudar um pouco sobre o país e o povo cubano, há mais ou menos um ano. É um livro exigente, na minha opinião, porque ele é profundo e para mim livros assim não são de leitura rápida, leio e releio parágrafos e páginas, vou e volto, paro e sigo.

Neste momento em que abro esta postagem, ainda faltam cem páginas para terminar a leitura do estudo sobre a pedagogia cubana, é um estudo de 40 anos de vida da doutora e mestra Maria Leite, um estudo profundo sobre a identidade e a educação em Cuba, principalmente após a Revolução de 1959. Já aprendi muito com a leitura feita até aqui. 

Acho que é hora de pegar na leitura até acabar. Já vivi a experiência fantástica em minha vida de ir a Cuba por duas semanas e conhecer Havana e mais três cidades do país, Trinidad, Santa Clara e Varadero. Já me demorei demais na leitura do livro.

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ANTES, UMA DIGRESSÃO

Escrever na rede mundial pra quem? 

Uma coisa que tenho refletido muito é sobre a profundidade e a superficialidade das coisas, inclusive da sociedade humana. Os problemas atuais do mundo são complexos e toda complexidade deveria ser tratada de forma complexa. Mas os tempos são de superficialidade. 

Não quero ser superficial, nem quero escrever superficialidades como escritor de blog. Faço há tempos um esforço de construir textos enormes, com citações e reflexões para contribuir com o compartilhamento de conhecimento humano de forma gratuita. São mais de 5 mil postagens em meus blogs. Seguirei escrevendo.

No entanto, talvez eu mude um pouco o tipo de conteúdo em algumas postagens. Não sei até que ponto vale a pena eu ficar um dia todo para fazer um texto bem trabalhado para disponibilizar na rede mundial e não saber se o conteúdo foi lido por alguns humanos ou se o conteúdo foi apenas roubado pelas máquinas da mentirosa "Inteligência Artificial", que não é inteligente e não cria nada, só rouba tudo que se escreveu até hoje, usa a nossa criação textual sem citar a fonte e engana o povo do mundo como se a máquina que compila textos fosse "inteligente".

Como saber se as centenas de acessos diários aos meus textos são máquinas ou seres humanos? Acho que não tem como saber. Imagino que é da natureza do que nós escritores fazemos viver com a dúvida se alguém leu o que criamos. Até quem edita um livro pode ter os livros vendidos e os mesmos serem colocados nas estantes de metro (de enfeite) sem nunca serem lidos...

Enfim, vamos seguir com a leitura do livro profundo e sério da professora Maria Leite. O deleite do novo conhecimento, no fundo, é meu, é do leitor da obra em si.

Aliás, quando penso ainda nas redes sociais das big techs, aí é que eu fico danado com esse mundo da aparência e da superficialidade... A hora que eu tiver coragem de não saber mais sobre os outros, acabo de vez com as contas que tenho nas redes sociais.

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10/9/23 (21h30)

CAPÍTULO 4

A leitura do Capítulo 4 traz reflexões muito atuais perante os dilemas da sociedade humana, dilemas não só para a República Socialista de Cuba como também para os demais países sob a hegemonia do modelo capitalista. A autora nos falou bastante sobre o modelo de educação cidadã em Cuba.

O capítulo abordou os seguintes pontos:

A EDUCAÇÃO E AS NOVAS DIRETRIZES

4.1 O sistema nacional de educação em Cuba; 4.2 O plano de estudos "E"; 4.3 Os conselhos na atividade educacional; 4.4 As relações entre trabalho e educação; 4.5 A educação para a vida cidadã.

Os "valores morais" devem ser como uma bússola orientadora das conquistas e manutenção do socialismo.

DIREITOS DAS CRIANÇAS E JOVENS CUBANOS

"O Estado Socialista, como poder do povo, garante que não haja criança sem escola, comida e vestuário; que não há jovem que não tenha a oportunidade de estudar; que não há quem não tenha acesso a estudos, cultura e esportes" (Artigo 9, CUBA, 1992)

AS RELAÇÕES ENTRE TRABALHO E EDUCAÇÃO

(...) Em O Capital, a análise da categoria trabalho é apresentada em sua dimensão ontológica, ou seja, a partir da ideia de que é pelo trabalho que se constitui a vida humana ao longo da história..." (p. 139)

Essa parte foi tão profunda na análise que é necessário fazer aqui algumas citações para quando eu for reler a postagem.

A autora cita Marx à página 139:

"Antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria natural como uma força natural. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para a sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a Natureza externa a ele e ao modificá-la ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. Ele desenvolve as potências nela adormecidas e sujeita o jogo de suas forças a seu próprio domínio (MARX, 1996, P. 297)"

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11/9/23 (22h08)

"(...) Na concepção marxista, a divisão técnica e social do trabalho na sociedade capitalista gera a alienação do homem em relação ao próprio trabalho e à natureza, desumanizando-o. Marx une o ato produtivo ao ato educativo, explicitando que a unidade entre a educação e a produção material deve ser admitida como meio decisivo à emancipação humana. No pensamento marxista, a separação entre ensino e trabalho faz da escola uma instituição 'morta'." (p. 139)

Principalmente após a Revolução de 1959, "a escola cubana deposita no trabalho a possibilidade concreta de elevação cultural e desenvolvimento dos seres humanos." (p. 143)

Após a visita a Cuba, acabei vendo diversos vídeos na internet que mostram Che Guevara e os cubanos em intenso trabalho nos primeiros anos da república socialista. É muito legal ver as imagens da época.

O TRABALHO CAPACITA O HOMEM PARA A REALIDADE DA VIDA

"(...) Segundo Castro Ruz (1998, p.12), 'há de ser o trabalho o grande pedagogo da juventude e, simplesmente, é ele que pode capacitar o homem para entender seus deveres e a realidade da vida'." (p. 144)

As leis da didática em Cuba atuam no sentido de criar de forma consciente o amor pelo trabalho socialmente útil nos estudantes e jovens do país.

"A Constituição de 2019 assegura, em seu Capítulo I - Dos fundamentos políticos, Título II, Artigo 31, que: 'o trabalho é um valor primordial de nossa sociedade. É um direito, um dever social e um motivo de honra para todas as pessoas em condições de trabalhar' (CUBA, 2019c)." (p. 147)

No último tópico do Capítulo 4 - "A educação para a vida cidadã" - nos chama a atenção a leitura de que tem sido um desafio para o sistema educativo cubano manter os valores da revolução para as novas gerações, cercadas de novas tecnologias e apelos consumistas.

APARELHOS CELULARES, A ARMA DO INIMIGO DO REGIME: Uma imagem que ficou na minha memória, das caminhadas por Cuba, principalmente em Havana Velha, foi a imagem das pessoas - jovens principalmente - com as caras nas telas de celulares pelas ruas... fiquei triste ao ver isso. Não à toa, diversos cidadãos cubanos com quem conversei, mais velhos, me disseram que a maior arma contra a Revolução é "essa" me mostrando os aparelhos de celulares...

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12/9/23 (14h35)

CAPÍTULO 5

"Em Cuba, existe a consciência de que o mundo está imerso em um quadro de acentuado desenvolvimento e, paradoxalmente, também de espantosos índices de pobreza. Para os cubanos, muitos fatores deste quadro estão ligados às tentativas, em nível mundializado, de anular, no interior das nações, os sentimentos pátrios e suas identidades como estados soberanos. Desde os primeiros anos da Revolução, a Educação foi chamada a ocupar um lugar privilegiado, como a pedra angular da nova sociedade. Existe uma espécie de consenso de que a criação e a formação de valores na consciência das crianças e dos jovens, desde muito cedo, são agora mais necessárias que nunca para salvar a independência de Cuba e a Revolução." (p. 189)

Terminei a leitura do Capítulo 5 - "A interlocução com a realidade", que tratou dos seguintes temas: 5.1 Espaços de observação; 5.2 A interação face a face; 5.3 Eixos de articulação das entrevistas.

Enquanto lia a análise das entrevistas e estudos feitos por Maria Leite, fiquei me lembrando dos dias que passamos em Cuba meses atrás. Como leio quase todos os dias notícias de Cuba, percebo que o capítulo abordou temas muito atuais como a questão do trabalho autônomo - "cuentapropismo" - e os desafios da educação e da economia do país, sobretudo por causa do bloqueio imposto pelos Estados Unidos.

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12/9/23 (22h30)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A última parte do livro de Maria Leite são as considerações finais dela. Gostei muito do estudo, do percurso empreendido pela autora e de tudo que passei a saber sobre Cuba e o povo cubano.

Não dá pra fazer grandes citações, mas deixo duas para finalizar a postagem.

MARTÍ E MARX - BASES DO SOCIALISMO CUBANO

"(...) O legado de Martí, entrelaçado às ideias de Marx, acabou por produzir uma recepção ao marxismo distinta daquela até então hegemônica no continente americano. A combinação desses fatores provavelmente é o sustentáculo capaz de explicar a continuidade do regime cubano após a extinção da URSS, mesmo com o fortalecimento do bloqueio imposto a Cuba, como relíquia da Guerra Fria." (p. 196)

UMA DIFERENÇA CENTRAL DA CUBA SOCIALISTA E DO BRASIL CAPITALISTA

"No entendimento desta pesquisa, a distância que separa os grupos em 'desvantagem social' e os que conhecem a 'filiação', se é possível assim chamá-los, dentro do formato identitário cubano, não se inclui a brutalidade, que mantém as massas em estado de alerta contra balas perdidas, assaltos à mão armada e outras formas de criminalidade frequentes nos países alinhados ao capitalismo da era globalizada. A educação tem colaborado acentuadamente para estabelecer em Cuba um quadro distinto do nível de desagregação social, que marca as grandes cidades da América Latina e do Caribe. As limitações engendradas nos períodos de crise não acarretaram o abandono de prédios escolares, o fechamento de hospitais, o fenômeno de 'meninos de rua', grupos de extermínio e massacres perpetrados por atiradores." (p. 201) 

Como cidadãos brasileiros, sabemos o que a autora quer dizer sobre essa brutalidade e os riscos aos quais estamos expostos diariamente. Ao visitar Cuba por duas semanas, andando todos os dias por Havana e pelas outras cidades do país, percebi a diferença em relação ao risco de alguma brutalidade ou ameaça local: praticamente zero risco.

Bom, finalizada a leitura. Seguirei acompanhando o dia a dia do povo cubano e a construção do socialismo na Ilha caribenha.

William


Bibliografia:

LEITE, Maria do Carmo Luiz Caldas. Cuba insurgente: identidade e educação. Curitiba: CRV, 2023.


sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Lembranças - Capítulo 10



Refeição Cultural

Osasco, 8 de setembro de 2023. Sexta-feira (19h40)


MEU PAI

Neste momento no qual escrevo, não sei onde meu pai está. Durante o dia, estaria na estrada. Ontem, meu pai saiu de casa e foi parar em Goiás, onde viu dois irmãos. Hoje, seus planos eram ir para o Mato Grosso, para a cidade onde reside um cunhado e família.

Se fosse possível um diálogo com meu pai, eu gostaria de procurar com ele onde ou quando foi que as relações com a família se tornaram tão difíceis. Os tempos são tempos nos quais o diálogo está se tornando algo quase impossível entre as pessoas. Em geral, na maioria dos casos, as pessoas não estão mais abertas ao diálogo. Só se for para o outro dizer amém.

Ao longo da vida, e dos autores que tive a oportunidade de ler, aprendi que não é possível sabermos a dor dos outros. A dor de alguém é algo indescritível e de uma intensidade que só a pessoa que sofre sabe o que está passando. Só essa questão já é suficiente para nos fazer respeitar a dor dos outros. Eu sei que meu pai padece de dores há anos. Dores físicas e sobretudo dores da alma. E isso talvez tenha feito meu pai ir se tornando a pessoa que é hoje.

Ao acordar nesta manhã, e ver uma mensagem no celular para ligar para os meus familiares para saber notícias, talvez notícias de meu pai, acabei inventando algum preparo para receber notícias ruins, preparo que não existe. Fui primeiro enfiar a cabeça embaixo do chuveiro por alguns minutos. Depois liguei e felizmente eram só atualizações sobre o dia de ontem.

Enquanto meu corpo sentia a água morna do chuveiro cair sobre mim, uma das coisas que pensei foi a respeito de algum tipo de morte idealizada, menos sofrida. Ninguém gosta de pensar sobre aquele dia que todos enfrentarão, o dia de nossa morte. No entanto, se houvesse algum tipo de previsão ou planejamento para esse dia de nosso fim, evidente que seria melhor partir sem sofrer, num lugar confortável, com alguém que nos ama por perto, sem dores, frio, sozinho etc. 

E fiquei muito triste ao pensar até como hipótese em alguém que amamos partir sofrendo sozinho. Acho um risco um homem com mais de oitenta anos dirigindo sozinho o dia todo pelas estradas brasileiras. Meu pai é um cara teimoso, não ouve mais ninguém. Isso dificulta muito as relações e a forma de cuidar dele. O sentimento de impotência que tenho sentido em relação a não conseguir dar sequer opiniões talvez racionais às pessoas é algo que aperta o coração da gente.

Quando pensei no dia de nosso fim, da morte que chegará para todos nós, foi por saber que pessoas se colocam em situações desnecessárias de risco, às vezes. E, às vezes, as pessoas morrem por isso. E aprendi que a vida é uma oportunidade.

Não desejo uma má morte nem para meus desafetos nem para os inimigos de nossa classe trabalhadora. Se eu fosse Light Yagami (Kira), do clássico anime Death Note, daria um destino final sem dor e rápido para todas as pessoas marcadas para morrer.

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SOMOS FRUTOS DO MEIO SOCIAL NO QUAL VIVEMOS

Tenho refletido sobre a vida e sobre o nosso mundo, algo que fiz menos do que gostaria ao longo da vida, durante o período de lutas sindicais meu foco era cem por cento a luta de classes, era um soldado das causas que representava e encarava isso como uma guerra, uma batalha de vida ou morte. Sou assim. Quando me entrego a uma causa, me entrego de corpo e alma.

Hoje, compreendo muito melhor diversas etapas de minha vida, atos e fatos ocorridos em meu percurso existencial e ao meu redor. Ao longo dos anos de estudo sobre o Brasil e sobre o povo brasileiro fui vendo como um filme minha gente dentro dos acontecimentos do tempo e da história. Fui compreendendo a minha origem, a de minha família, a do povo brasileiro.

Meus pais, seus pais e irmãos, e depois as dezenas de primos e primas, e nossos filhos, somos todos tipos comuns do povo brasileiro. Brasileiros. Somos frutos desta terra e isso não é qualquer coisa. Somos brancos e mestiços de origem nas classes subalternas do país, gente que se virou como milhões de iguais para sobreviver e conseguir seu lugar ao sol.

Qualquer branco ou mestiço de minha família poderia tranquilamente ser personagem do clássico conto machadiano "Pai contra mãe", todos nós poderíamos ser Candido Neves ou Clara... 

Aliás, minha gente poderia ser qualquer dos tipos construídos por nossos grandes escritores na tentativa de entender o Brasil e o povo brasileiro: digo os personagens que não eram os senhores donos de tudo. Seríamos os agregados, os não proprietários, os que foram sobrevivendo de bico por aí. (hoje, alguns dos que se ajeitaram na vida foram pescados pela balela da meritocracia)

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CEM ANOS DE SOLIDÃO

O que sei é que ao longo de nossas vidas, enfrentamos momentos duros juntos, meus pais e eu, meu pai e minha mãe. As memórias que guardamos são formadas das mais diversas formas, algumas sem a menor explicação ou coerência lógica. A vida vai nos deixando na memória lembranças boas e ruins do nosso viver.

Tenho boas e más lembranças da minha relação com meus pais, com os familiares mais próximos, com pessoas que marcaram a minha vida para sempre. 

Fico tão triste ao ver no que nos transformamos nos últimos anos, pessoas intolerantes, egocêntricas e rápidas em romper relações de toda uma vida por não aceitarmos conviver com a diversidade de ideias e visões de mundo. Vivemos uma solidão do tamanho dos "cem anos de solidão", do García Márquez.

Me lembro de uma imagem de um livro de Inglês na qual uma mulher olhava a esmo, sozinha numa mesinha ao redor de diversas mesas cheias de gente. O título para a imagem era "alone in the crowd". Nunca me esqueci disso. Me parece que aquela imagem e aquele conceito encaixaram-se na minha vida.

Quem não se sente sozinho muitas vezes ou algumas vezes, mesmo cercado de pessoas, que atire a primeira pedra. Ao olhar a vida para trás, vou avaliando algumas vezes nas quais me lembro de ter sentido uma solidão do tamanho do mundo. Felizmente, fui vivendo e cheguei até aqui, superando até os momentos nos quais não queria mais nada. Não tenho receio em dizer sempre que sou um homem de sorte.

Me lembro de ter discutido com meu pai quando fui embora da casa de meus pais aos dezessete anos. Tenho quase certeza de que o responsável por tudo naquela época fui eu, eu era a fúria. 

Me lembro de quando cumprimentei meu pai com um beijo após ter me tornado aluno de uma graduação de Educação Física em Mogi das Cruzes. Assim que vi um jovem servindo o exército cumprimentar o nosso professor na porta da sala de aula achei aquilo impactante. A cena me fez dar um beijo no meu pai. Já tinha uns dez anos que eu havia ido embora de casa.

Me lembro dos perrengues que passamos juntos, meu pai e eu, quando meu pai precisava de assistência médica e não tinha. Uma vez, em São Paulo, fomos atrás de uma internação para meu pai tratar dos rins e tivemos até que ir à imprensa para denunciar que meu pai não conseguia ser atendido com dores insuportáveis nos rins. 

Me lembro que passei anos tendo plano de saúde por ser funcionário de banco público sem querer usar o plano porque eu não achava justo ter atendimento e meus pais não terem. Uma vez, fiquei tão mal em casa que achei que iria morrer e só consegui me levantar da cama uns três dias depois. Nunca soube o que tive. Não usei o plano de saúde.

Me lembro dos meus pais correndo pra cima e pra baixo pra buscar atendimento médico para meus sobrinhos pequenos. Meus pais são humildes e pessoas simples, mas como a maioria dos pais, viram bichos quando estão sendo injustiçados por não conseguirem o que deveriam ter como direito: atendimento médico.

Me lembro de muita coisa. Tenho fuçado muito em minhas memórias...

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Espero que meu pai chegue aonde esteja indo. Espero que ele esteja bem.

Já são quase dez horas da noite e ainda não temos notícias do pai andando por aí pelas estradas brasileiras.

William


Post Scriptum: por volta de meia-noite, consegui a informação de que meu pai chegou ao destino pretendido, à casa de meus tios. Para aumentar a tristeza do dia, soube que meu tio, que tem enfrentado uma doença grave, teve uma piora em sua condição nos últimos dias. Estamos na torcida por sua melhora.

Post Scriptum II: o texto anterior sobre minhas "Lembranças" pode ser lido aqui.


quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Leitura: Operários Sem Patrão - Lorena Holzmann


 

Refeição Cultural 

"Se havia, em tese, a oportunidade democrática de acesso à palavra para todos os participantes da assembleia, eram poucos os que efetivamente dela se apropriaram. Nas representações dos trabalhadores o discurso era prerrogativa dos que sabiam falar bem, dos que tinham 'coisas certas para dizer'. Era o reconhecimento do discurso competente, 'no qual os interlocutores já foram previamente reconhecidos como tendo o direito de falar e ouvir, no qual os lugares e as circunstâncias já foram predeterminadas para que seja permitido falar e ouvir e, enfim, no qual o conteúdo e a forma já foram autorizados segundo os cânones da esfera de sua própria competência' (Chauí, 1982:2)." (p. 129)


A leitura do livro Operários Sem Patrão: gestão cooperativa e dilemas da democracia (2001), de Lorena Holzmann, me trouxe lembranças de minha jornada de sindicalista e me fez refletir sobre as chances de sucesso nos projetos alternativos à hegemonia do capitalismo como forma atual de produção e distribuição material e intelectual das necessidades humanas. 

A edição do livro que li não é minha, é de um amigo de meu filho. Acabei lendo este estudo - que tem por base uma tese de doutorado - por ter surgido a oportunidade nesta semana ao recebermos a visita do jovem Mateus em casa. O livro nos é apresentado pelo saudoso Paul Singer.

Pertencimento - uma das ideias conceituais que pensei ao ler a história dos trabalhadores das antigas Indústrias Wallig - depois "Cooperativas Wallig" - foi a questão do pertencimento, a importância de ter um sentimento de pertencer a algo quando se engaja numa luta qualquer, principalmente uma luta coletiva. 

Trabalhei com essa ideia-força ao longo de minha vida de organização e representação da classe trabalhadora: pertencimento. 

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RESUMO DO CASO ANALISADO NO LIVRO

"Este estudo primoroso de Lorena Holzmann tem por base tese de doutoramento, aprovada na Universidade de São Paulo, em 1992. O seu objeto é a Indústria Wallig, que chegou a se celebrizar como fabricante do fogão a gás mais prestigioso do Brasil, e foi atingida pela grande recessão de 1981-83. Mas, o seu fechamento enquanto empresa capitalista não foi aceito pelos operários, seu sindicato e a própria opinião pública do Rio Grande do Sul. Os trabalhadores formaram duas cooperativas - uma fundição e uma mecânica - e após muita luta conseguiram alugar as instalações da massa falida para prosseguir as operações da antiga empresa." (Paul Singer, na apresentação do livro)

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CAIXAS DE ASSISTÊNCIA DE TRABALHADORES SÃO MODELOS DE COOPERATISMO

Pensei muito na minha experiência como gestor eleito (2014-2018) de uma associação, uma Caixa de Assistência, da qual quase a totalidade da comunidade envolvida com ela não tem noção alguma do que a Cassi é: uma autogestão em saúde. E a parte que tem noção disso faz de tudo para apagar a característica central do que essa associação é: um modelo assistencial baseado no cooperativismo e na solidariedade. 

Ao ser gestor do modelo de saúde da Cassi, pesquisei a história da associação, o trânsito dela na comunidade ao longo de décadas, desde os anos quarenta até o momento no qual era gestor. Por incrível que pareça, o banco patrocinador, que tem acesso integral ao corpo de associados e poderia educar e orientar os participantes a aderirem ao sistema de atenção primária, fez em uma década de implantação do modelo de Estratégia de Saúde da Família (ESF) um vídeo institucional sobre o que era e como funcionava a ESF. Um vídeo. Enquanto isso, o foco da comunicação era a venda de planos de saúde, ao invés de focar na essência da Cassi: o Plano de Associados. Por quatro anos, viajamos pelo Brasil para falar da ESF. O modelo ganhou credibilidade e aderência como essência de nosso modelo cooperativo e solidário de assistência à saúde.

Após nossa saída, o que vejo é uma Cassi que se apresenta como uma empresa capitalista do mercado de saúde, vendendo inúmeros planos ruins de saúde que não têm a menor relação com o que a Cassi deveria fazer - cuidar da saúde de seus associados - e a ESF foi deixada de lado, e a "empresa" aposta no mercado para tudo. É uma lástima. Essa autogestão com um modelo fantástico de cooperativismo na área da saúde dos trabalhadores terá muitas dificuldades de seguir existindo. Um sistema cooperativo se referenciar na indústria capitalista da saúde é arriscar sua existência.

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CONFRONTO ENTRE CAPITAL E TRABALHO (O DINHEIRO SEMPRE DIVIDE AS PESSOAS)

A distribuição das "sobras" no primeiro ano das cooperativas me lembrou as discussões sobre a PLR dos bancários (Participação nos Lucros e Resultados)

"(...) Desse modo, a ideia inicial de que o empreendimento era de todos, foi se diluindo, solapada pela diferença de interesses que se tornaram manifestas no interior das Cooperativas." (p. 90)

No estudo de Lorena Holzmann, ela tomou conhecimento do quanto a unidade inicial dos cooperados se diluiu assim que entrou em pauta a primeira distribuição das sobras (resultados positivos) das cooperativas.

É justo distribuir de forma desigual os lucros ou sobras?

A justiça ou injustiça dos critérios dividiu os associados para sempre. A PLR da categoria bancária enfrentou o mesmo debate de critérios desde a sua instituição em 1995 nos acordos da categoria: distribuição linear ou distribuição desigual de acordo com salários e funções dos trabalhadores na hierarquia do banco (ou da cooperativa)?

É justo dar cotas maiores do resultado para aqueles que já ganham mais na pirâmide salarial da empresa? Afinal de contas, o esforço para conseguir o resultado positivo não foi de todos? A folha de pagamentos já remunera mais ou menos ao longo do ano de acordo com as habilidades e responsabilidades de cada trabalhador.

Isso aconteceu nas duas cooperativas oriundas das Indústrias Wallig. Uma forma de distribuição se opunha a outra. Cada associado tinha cotas diferentes na cooperativa. Os antigos tinham mais, os novatos quase nada. Aí depois de todo mundo ralar para conseguir o resultado positivo, os caras de cima, da administração, definiram que as sobras seriam distribuídas de acordo com as cotas de cada um... o povo do chão da fábrica viu centavos e os de cima ficaram com todo o resultado... (é foda!)

Participei desses debates por mais de uma década na categoria bancária. Os bancários criaram um critério misto ao longo de quase três décadas. Isso na regra geral, porque os bancos deram um jeito de premiar os de cima ou "mais chegados" com programas individuais não contratados com os sindicatos.

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FÉRIAS ERAM FÉRIAS MESMO

"O sistema de descanso anual implantado era considerado pela direção das Cooperativas como superior ao direito a férias disposto na CLT, pois seu objetivo 'salutar de recuperação e composição de forças' não poderia ser mercantilizado, impedindo o trabalhador de trocar por dinheiro o 'recurso sanitário de restauração de seu desgaste físico e mental', como foi declarado por um entrevistado." (p. 103)

Achei interessante essa questão de forçar que as férias fossem cumpridas em descanso mesmo pelos trabalhadores. (ou seja, que as férias fossem compridas...)

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PARTICIPAÇÃO SOCIAL 

"O 'fim da síndrome de participação' e a autonomização do Conselho fez com que emergisse entre alguns associados a certeza de que tinha havido a apropriação das instâncias decisórias por um pequeno número de associados. Isso teria ocorrido mesmo com a renovação obrigatória de parcelas de cada um dos Conselhos (o de Administração e o Fiscal), já que houvera, no primeiro deles, um processo de cooptação, pelos interesses de associados do setor administrativo..." (p. 135)

Será que essa questão acima não se tornou a realidade em nossas organizações de classe hoje?

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A DIFICULDADE DE SE ATINGIR A SONHADA IGUALDADE 

"As inúmeras linhas de segmentação da coletividade, opondo seus integrantes a partir do tipo de atividade que exerciam (trabalho na produção x trabalho na administração), antiguidade (fundadores x novatos), propriedade do capital (grandes cotistas x pequenos cotistas) determinaram uma complexa teia de interesses divergentes que, mal equacionados, levaram ao aprofundamento da desigualdade." (p. 148)

Interessante: a leitura desse estudo de caso foi como ver um filme a partir de minhas memórias ainda frescas de décadas de organização da classe trabalhadora, as dificuldades reais e materiais de se alcançar a unidade e a solidariedade de classe etc. Vi um filme de memórias através do livro!

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ALGUMAS REFLEXÕES 

Durante a leitura desse estudo de caso de uma indústria que faliu e da luta de seus trabalhadores para mantê-la por causa de seus empregos, pensei um pouco sobre essa nossa caminhada humana em busca de sobrevivência e de realização.

Fiquei me lembrando das experiências humanas em busca de organizações sociais baseadas em cooperativismo e solidariedade, que tendem a ser mais justas e com melhores oportunidades a todas as pessoas.

Me lembrei de exemplos enormes como o caso da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), experiência da classe trabalhadora que durou décadas (1917-1991) e que mudou o cenário político mundial.

Me lembrei de organizações de trabalhadores como as nossas caixas de assistência e previdência dos trabalhadores do Banco do Brasil: a Cassi e a Previ.

Me lembrei de cooperativismo como aquele que fez o apartamento onde moro, que custou aos associados um valor muito menor do que o valor que seria comprá-lo pelos modelos hegemônicos do capital.

E me lembrei de algumas realidades atuais, me lembrei da China e de Cuba, dois casos alternativos ao modelo hegemônico de organização social no mundo do século atual, o modelo de produção e distribuição de riquezas identificado com os conceitos de capitalismo, neoliberalismo e imperialismo.

Não vou desenvolver uma argumentação ou reflexão sobre isso. Isso não é mais meu papel. Já foi.

A China me impressiona. Cuba e os cubanos têm minha solidariedade fraterna. A lembrança sobre a autogestão em saúde dos funcionários do BB me traz uma certa dor porque gosto dela e lamento ela ser uma oportunidade desperdiçada. A Previ é uma segurança que sua comunidade deve estar alerta, pois a cobiça no patrimônio dela enlouquece até seus associados.

É isso. O livro de Lorena Holzmann foi o 24º livro que li neste ano. Todo dia quando percebo que estou aqui no mundo, penso sobre o que posso fazer para aprender algo novo, e tento, só tento, ficar atento para não fazer mal a ninguém. (gostaria de contribuir para tornar o mundo um lugar melhor, mas hoje não estou fazendo isso)

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Ah, sobre o que disse no primeiro parágrafo do texto, sobre chances de projetos alternativos ao modo capitalista de organizar as sociedades humanas, modelo baseado na religião do dinheiro, na ganância, no egoísmo e no cada um por si, confesso meu pessimismo da razão, apesar de me esforçar para crer no otimismo da ação criadora do ser humano. 

A questão é: quantos jovens estão neste momento focados nas mudanças coletivas inclusivas, solidárias e sustentáveis e não só em seus prazeres pessoais? Ou focados em superar suas dores e angústias pessoais, algo muito real num mundo sem perspectivas? Quantos? Tenho a impressão de que poucos, um número insuficiente para mudar a tendência escatológica dos tempos. 

Estamos sós, todos nós, estamos sós, uma solidão do tamanho da ideia de García Márquez no clássico "Cem anos de solidão". E qualquer saída para a humanidade será uma saída coletiva. Coletiva. Mas estamos sós...

São as minhas impressões. Espero estar errado. Quando era político, acertava mais minhas impressões. Agora, atomizado, espero estar errado em minhas impressões.

William

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Bibliografia:

HOLZMANN, Lorena. Operários Sem Patrão: gestão cooperativa e dilemas da democracia. São Carlos: EdUFSCar, 2001.


sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Diário e reflexões - Linguagem III



Refeição Cultural

Osasco, 1º de setembro de 2023. Sexta-feira.


O quanto posso aprender ainda?

O desafio que vou lançar ao meu cérebro por um certo tempo é um desafio gostoso: estudar línguas, linguagens e culturas diferentes das quais estou mais familiarizado. Algumas das culturas que quero estudar um pouco são as culturas orientais, asiáticas: China e Japão.

Em relação às línguas, vou tentar recuperar um pouco do que já soube de Inglês e de Espanhol, pois já estive nos Estados Unidos e consegui me comunicar com as pessoas. Também já estive em alguns países de Língua Espanhola e foi bem tranquila a comunicação com falantes nativos. 

As línguas são ferramentas de comunicação humana. Podemos nos comunicar de forma oral com outras pessoas, através de conversação, e também podemos desenvolver e manter as habilidades de comunicação de outras formas, em outras mídias.

Os ensinamentos do professor Miguel Nicolelis sobre o cérebro humano mudaram minha forma de ver o mundo e a vida. Hoje tenho uma consciência maior sobre o que somos enquanto animais humanos.

O cérebro humano é muito plástico e flexível, se adapta o tempo todo às necessidades que identifica serem as com melhores perspectivas de sobrevivência no meio ambiente no qual a pessoa está.

Quero recuperar as habilidades comunicativas que já tive e desenvolver novas habilidades, conhecer novas línguas. Entender novamente músicas e falas cotidianas em Inglês, por exemplo. 

Fiz graduação em Letras, habilitações em Espanhol e Português na Universidade de São Paulo, sou oriundo da FFLCH. Quero retomar a capacidade de escrever em Espanhol.

Um dos desafios novos para meu cérebro, para estimular meus neurônios, será aprender o idioma Japonês, que comecei a estudar no início de 2020, durante a pandemia mundial de Covid. O curso do professor Luiz, do "Programa Japonês Online" é excelente! O pouco que estudei, aprendi. Eu o recomendo para todas as pessoas interessadas na Língua Japonesa.

Quero aprender o idioma Italiano também. Certa vez comecei a estudar por conta própria e parei. Quando fui à Itália, não entendi nada que os italianos falavam. Foi frustrante. Quando voltar lá, quero me comunicar em Italiano.

Todas essas possibilidades de estudos que estou citando são possíveis porque sou aluno do Instituto Conhecimento Liberta (ICL). O projeto é simplesmente revolucionário! Por alguns reais a pessoa tem disponíveis mais de 230 cursos, incluindo os idiomas Inglês, Espanhol, Francês, Italiano, Alemão, Japonês e Mandarim. Acreditem!

China 

Sobre a cultura chinesa e o país, estou fazendo um curso no ICL do professor Elias Jabbour: "Compreendendo a China". Já fiz 3 aulas e o curso é muito bom!

Uma das atitudes que preciso refletir a respeito em relação ao estudo é a atitude que ouvi hoje do professor Jabbour, em uma de suas aulas sobre a China. Ele diz que temos que estudar com prazer, o Carpe Diem é importante nos processos de estudos. Ele tem razão!

Talvez uma das questões que tenham influenciado na minha incapacidade de aprender a gramática da Língua Portuguesa tenha sido a falta de gosto e prazer durante os anos escolares de aprendizagem no ciclo básico da educação. 

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Enfim, vamos estudar e exercitar meu cérebro e minha inteligência.

Post Scriptum: quis ser professor e não fui. De certa forma, quando era sindicalista eu ensinava o que sabia para meus pares, os trabalhadores, eu fazia formação política. 

Tenho que aprender algo novo que possa ensinar às pessoas, isso dá um certo sentido na existência. 

William


Post Scriptum: o texto anterior sobre linguagem pode ser lido aqui.