quarta-feira, 9 de junho de 2021

090621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Temos que desafiar a lei quando ela é injusta

Ao ler a autobiografia de Nelson Mandela, hoje pela manhã, me emocionei. Às vezes, vivemos aquelas coincidências que despertam emoção pelo inusitado do fato. 

Dias atrás, interrompi as leituras dos clássicos que estou lendo, livros de leitura demorada, e li alguns livros menores, tragédias gregas entre eles. Li Édipo Rei e Antígona, de Sófocles, e Prometeu Acorrentado, atribuído a Ésquilo. Preenchi algumas de minhas lacunas culturais.

A leitura de Mandela está numa parte difícil porque estou acompanhando os relatos do período em que ele esteve preso na ilha de Robben, cumprindo pena de prisão perpétua por lutar pela liberdade e igualdade para o povo negro sul-africano, povo humilhado e sobrevivendo na absoluta miséria por causa da minoria branca africâner e o regime racista do apartheid.

De repente, Mandela nos conta que chegou a participar de peças teatrais durante seus estudos universitários.

"Eu apareci em apenas alguns dramas, mas tive um papel memorável: o de Creonte, o rei de Tebas, na Antígona de Sófocles. Eu havia lido algumas das peças clássicas do teatro grego na prisão e as achava enormemente inspiradoras. O que eu tirei delas foi que o caráter era medido através de como as situações difíceis eram encaradas e que um herói era um homem que não cedia nem diante das circunstâncias mais difíceis." (p. 557)

Gente, eu havia acabado de ler e conhecer a história de Antígona! Foi de arrepiar! A literatura tem dessas coisas, as intertextualidades e as referências são a base da literatura mundial. As grandes obras literárias, os grandes autores e pensadores, sempre dialogam entre si ao longo dos milênios de cultura humana.

Seguindo com a descrição feita por Mandela, no parágrafo seguinte, eu comecei a temer que a identificação entre Mandela e o personagem que ele interpretou, o rei Creonte, fosse me decepcionar.

"Quando Antígona foi escolhida para ser encenada, eu ofereci os meus serviços, e me pediram que eu interpretasse Creonte, um rei idoso lutando em uma guerra civil pelo trono de sua querida cidade-estado. No início da peça, Creonte é sincero e patriótico, e há sabedoria nas suas falas iniciais quando ele sugere que a experiência é a base da liderança e que os deveres para com o povo têm prioridade sobre a lealdade a um indivíduo." (p. 557)

Ao ler a tragédia de Sófocles eu fiquei muito puto com o rei Creonte. Minha simpatia havia sido evidentemente pela figura de Antígona. Seguimos com a descrição de Mandela.

"Mas Creonte lida com os seus inimigos impiedosamente. Ele decretou que o corpo de Polinice, irmão de Antígona, que havia se rebelado contra a cidade, não merecia um funeral apropriado. Antígona se rebela com base em que há uma lei acima daquela do estado. Creonte não quer ouvir Antígona, nem ouve a ninguém a não ser os seus demônios interiores. Sua inflexibilidade e cegueira não caem bem em um líder, pois um líder deve temperar a justiça com misericórdia. Antígona era quem simbolizava a nossa luta; ela era, à sua própria maneira, uma guerreira pela liberdade, pois ela desafiava a lei por ela ser injusta." (p. 558)

Cara, meus olhos encheram d'água...

Demais!

É por isso que temos que lutar contra todas as desgraças e crimes lesas-pátrias cometidos pelos golpistas e pelos bolsonaristas após o golpe de Estado em 2016. Temos que ser guerreiros pela liberdade e lutar pelo que é justo, ou seja, lutar contra as reformas e leis que prejudicaram o povo brasileiro e a classe trabalhadora e entregaram o patrimônio público para meia dúzia de burgueses apaniguados do regime nazifascista de plantão.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


terça-feira, 8 de junho de 2021

080621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Como guerreiros pela liberdade e prisioneiros políticos, nós tínhamos a obrigação de nos aprimorar e nos fortalecer, e estudar era uma das poucas oportunidades de fazer isso." (MANDELA, 2012, p. 506)


A obrigação de nos aprimorar e nos fortalecer

A parte da leitura da autobiografia de Nelson Mandela em que estou é difícil porque a gente sofre junto com ele. Que dureza, quanta injustiça! Não é possível um ser humano com ética, educação, dignidade e um mínimo de humanidade tolerar as injustiças que se cometeram e se cometem contra milhares e milhões de pessoas ontem e hoje. Não é possível não se indignar com a injustiça.

Estou na parte das memórias de Mandela sobre os longos anos que ele e seus companheiros passaram na ilha de Robben, cumprindo uma sentença de prisão perpétua por lutarem pela liberdade de seu povo e por uma sociedade igualitária e de oportunidades para todos, e multirracial.

Nas dezenas de páginas que li hoje, Mandela nos conta as estratégias que eles desenvolveram para se organizarem dentro do presídio e lutarem por melhorias mínimas de tratamento. Como fizeram para se comunicar entre eles e para conseguir alguma informação sobre a vida lá fora. Como lidaram com guardas brancos violentos no presídio e como buscaram se aproximar de alguns brancos mais civilizados lá dentro.

É de apertar o peito quando Mandela nos conta o sentimento de impotência e tristeza mesmo para alguém que se prepara para ser um guerreiro pela liberdade ao lidar com as perdas de pessoas queridas. Nos primeiros 5 anos de prisão na ilha, Mandela soube da morte do chefe Luthuli (do CNA), e morreram sua mãe e seu filho mais velho, Madiba Thembekile. Nos dois casos, Mandela deveria ser o responsável pelos cuidados e rituais funerários e os brancos não permitiram isso.

Além das perdas, o regime dos brancos perseguiu implacavelmente sua esposa, Winnie Mandela. Prisões injustas, banimentos, invasão de sua casa, ela foi colocada na solitária, perdeu o emprego. Tudo muito desumano.

Aí me lembro do que fizeram com o nosso ex-presidente Lula. A mesma forma de guerra desproporcional dos órgãos do Estado contra uma pessoa, uma família, um segmento da sociedade. Uns desgraçados montaram toda uma farsa e destruíram a vida de um líder que passou a vida lutando para melhorar a vida de seu povo. A maldade não tem limites em certos grupos de animais humanos.

Mas Lula resistiu e está aí se colocando à disposição do povo pobre e trabalhador para reconstruirmos a vida da sociedade brasileira, dizimada pela Lava Jato, pelo golpe de Estado e pela ascensão do nazifascismo nas estruturas do país. Vários presos políticos desse período golpista brasileiro estão contribuindo também, escrevendo, contando suas histórias, nos incentivando a lutar e resistir. José Dirceu, José Genoino, Dilma Rousseff e outras lideranças do povo brasileiro.

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Estudar, ler, conhecer a história de nosso povo e as lutas que já foram empreendidas em busca da justiça, da igualdade, da oportunidade de uma vida comunitária mais solidária e cooperativa.

É isso que temos que fazer diariamente, diariamente! Nem que seja por meia hora, uma hora. Só assim, nos humanizamos e nos preparamos para suportar esses momentos duros que estamos vivendo num mundo sob pandemia, sob o domínio de uma minoria sobre a ampla maioria de seres humanos, sob o predomínio do ódio e ignorância usados como ferramentas de manipulação de massas.

Cada um de nós que tem algum tipo de conhecimento e consciência de classe - de classe trabalhadora que é o que somos - tem que resistir, sobreviver, estudar, e pensar formas de enfrentar e derrotar nossos inimigos. Buscar unidade e tentar dialogar com outras pessoas.

Sobreviver. Reorganizar a classe trabalhadora. Derrotar o inimigo que nos destrói e destrói o mundo.

Vamos juntos, prezados leitores e leitoras?

A cada um de acordo com suas necessidades e de acordo com suas possibilidades. Estudando e escrevendo, estou tentando compartilhar com vocês a experiência de uma vivência nas lutas sociais.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


segunda-feira, 7 de junho de 2021

070621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Para nós, tais lutas - por óculos, calças compridas, privilégio para estudo, alimentos iguais - eram corolários para a luta que promovíamos fora da prisão. A campanha para melhorar as condições na prisão era parte da luta contra o apartheid. Era, nesse sentido, tudo igual, lutávamos contra a injustiça onde quer que a encontrássemos, não importando se era grande ou pequena, e lutávamos contra a injustiça para preservar a nossa humanidade" (MANDELA, 2012, p. 498)


Lutávamos contra a injustiça para preservar a nossa humanidade

Quando eu ia dar as boas-vindas aos novos funcionários do Banco do Brasil, no dia da posse deles em seus cargos de escriturários concursados do banco público, eu transmitia a eles uma mensagem muito parecida com o conceito acima descrito por Nelson Mandela. 

Eu era dirigente sindical dos bancários paulistas, representava os trabalhadores e ao sindicalizá-los dizia para nunca aceitarem violência contra eles (física e psicológica), assédio moral, humilhações ou qualquer forma de injustiça. Deixava claro para eles que assédio moral e injustiça nunca poderiam ser considerados coisas normais. Injustiça não é algo "normal", algo "natural".

Hoje, temos que trabalhar esse conceito mais que nunca no mundo do trabalho, no Brasil e no planeta Terra! Lutar contra a injustiça é uma forma de preservar a nossa humanidade.

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Nesta segunda, 7 de junho, tivemos em Osasco, São Paulo, um dia chuvoso e nublado. A natureza agradece. 

Reli e estudei um pouco as postagens que fiz sobre a leitura do clássico Odisseia, de Homero. Já passei da metade da leitura da epopeia em versos de minha edição a cargo do professor Medina e na tradução de Odorico Mendes. Estudar os clássicos da literatura mundial também é uma forma de fortalecer nossa humanidade.

Retomei a leitura da autobiografia de Nelson Mandela. Sinto que a leitura sobre a história de luta do povo negro sul-africano é necessária para mim neste momento de desesperança em relação ao presente e ao futuro por causa da dura realidade em nosso país, neste momento da história dominado pela banalidade do mal e nas mãos de um regime nazifascista, racista e contra o povo e a classe trabalhadora, regime corrupto, violento e genocida. 

A história de Mandela, seus companheiros e companheiras e a derrota do regime racista do apartheid imposto pela minoria branca é um exemplo de que a luta vale a pena e que não podemos normalizar a injustiça, temos que preservar a nossa humanidade. O bolsonarismo e a extrema direita, representantes do capital financeiro mundial, atuam para destruir nossa humanidade. Não podemos permitir isso. Eles usam inclusive o ódio e o medo para isso, idiotizam as pessoas e devemos combater isso porque é nosso dever lutar contra esse mal.

O povo está sofrendo sob a dominação desse regime genocida, cuja pauta do governo é destruir tudo que existia. Temos que resistir. Você que me lê aqui no blog e que pode estar se sentindo só e desanimado também, saiba que você não está sozinho. A vida vale a pena, a igualdade e a justiça, o amor e a solidariedade são abstrações criadas pelo animal humano e essas abstrações nos humanizam. Não desistam de viver e de lutar para sermos felizes.

Estamos juntos, mesmo que de forma singela como aqui neste blog de um militante de um mundo melhor para todos. Leiam bons livros e bons autores, boas histórias de luta e histórias de culturas, leiam e se humanizem. 

Meu coração está apreensivo com a internação do amigo e companheiro Jacy Afonso, um dos militantes das causas do povo para o qual tenho um amor fraterno antigo. Ele está lutando para vencer os efeitos da infecção pelo vírus Covid-19. A cada notícia positiva como ouvi agora há pouco, sentimos alegria e esperança em sua recuperação.

Amigas e amigos leitores, não desistam da vida, não desistam das lutas. Cada momento vivo vale a pena porque o imponderável pode nos surpreender positivamente, assim como sabemos que a vida é um instante para todo ser vivo.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


domingo, 6 de junho de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses chega a Ítaca (XIII)



Refeição Cultural

"Adormecido Ulisses desembarcam,
Nas mesmas colchas e lençóis envolto;
À sombra da oliveira os dons colocam,
À larga obtidos por mercê de Palas,
Fora da estrada, a fim que não lhos toque,
Antes que ele desperte um viandante,
Isto acabando, para a Esquéria voltam.
" (LIVRO XIII, v. 86-92, p. 239)


Finalmente, Ulisses chega a Ítaca, trazido pelos Feácios. As notas da edição que tenho são muito legais. O professor Medina nos explica que este Livro XIII da epopeia equivale ao início da segunda parte da Odisseia

"Calam-se todos: refere-se ao final da narração de Ulisses, contida nos livros IX-XII, feita para Alcino, e que conta os fatos que lhe haviam ocorrido desde a saída de Tróia até sua chegada à ilha de Calipso. O que lhe vai ocorrer depois, ou seja, o período que vai desde esta chegada até sua boa acolhida entre os Feácios é algo que já foi narrado por Ulisses a Alcino e Areta no fim do livro VII. O livro XIII se distingue totalmente dos anteriores e dá de fato início à segunda parte da Odisseia, onde a ação se desenvolverá de maneira bem mais lenta. Ulisses, uma vez acabado seu 'romance de aventuras', é novamente focalizado na corte de Alcino, e o rei dos Feácios vai preparar agora a viagem de volta do herói a Ítaca. Ora, tanto a viagem como o sonho de Ulisses lembram novamente uma profunda experiência dos limites do homem, arrematada simbolicamente com a transformação do navio dos Feácios num rochedo (daí por diante Atena se faz mais presente); Alcino pode ser, pois, entendido como o rei barqueiro que conduz as almas à ilha dos Bem-Aventurados, sendo, pois, todo episódio dos Feácios considerado como um poema escatológico." (Nota 1, LIVRO XIII, p. 235, Antonio Medina)

Outras duas partes deste livro (ou canto) merecem destaque: a polêmica acerca da possibilidade de se desembarcar dormindo o nosso herói ou não e a deusa Pala mudando a aparência de Ulisses para que ele consiga alcançar sua casa e realizar a sua vingança contra os homens que lá estão há 3 anos dilapidando seu patrimônio e querendo sua esposa.

Os Feácios desembarcam Ulisses dormindo. O tradutor Odorico Mendes faz uma nota muito interessante, discutindo a posição de Aristóteles, que afirma na Poética que há inverossimilhança nesta questão. É fantástico! 

Leio dois séculos depois da tradução da Odisseia para o português um debate entre o maranhense Odorico Mendes (XIX) e Aristóteles (século V a.C.) sobre uma obra de alguns séculos antes da vida do filósofo, a Odisseia é do século VIII a.C.

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"Adormecido Ulisses desembarcam,
Nas mesmas colchas e lençóis envolto;
" (v. 86-87)

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NOTA DE ODORICO MENDES

"Na opinião de Aristóteles, seria esta inverossimilhança intolerável, se as belezas do estilo não fizessem esquecer a pequenez da invenção. Sem embargo da sentença do oráculo da Antiguidade, faria algumas observações a favor do poeta. A inverossimilhança consiste em desembarcarem a Ulisses dormindo sem que ele despertasse. Advirta-se, porém, que depois de quebrar-se o navio onde longamente padeceu, depois de nadar quase três dias com o auxílio da cintura de Leucotéia, depois de escalavrar as mãos nos rochedos, ainda não tinha assaz reparado as forças perdidas: o sono mais salutar foi o que dormiu no bosque antes de lhe aparecer Nausica; porquanto na cidade, onde esteve dois dias, pouco descansou, levando quase todo o tempo a narrar suas aventuras, o que por certo não lhe diminuía o cansaço. Necessariamente, ao chegar ao navio dos Feácios, devera cair em profunda modorra. Tenho visto mudarem-se muitos adormecidos, principalmente meninos, sem darem por si; e o que a idade faz nos meninos, podia fazer em Ulisses a extraordinária fadiga. Se Aristóteles tivesse passado por iguais trabalhos, talvez não teria despertado nem cochilado." (Nota 86-87, LIVRO XIII, p. 239, Odorico Mendes)

No fim deste canto fantástico da Odisseia, a deusa Pala, que agora irá acompanhar o herói até o fim de suas aventuras em Ítaca, decide disfarçá-lo na forma de um velho malvestido para que ele consiga chegar de surpresa e enfrentar aqueles que dilapidam sua casa e seu patrimônio, interessados em desposar Penélope.

"Vou, para ignoto seres, enrugar-te
A lisa pele dos flexíveis membros,
Sumir-te a loura coma, em despiciendos
Andrajos envolver-te, e aos vivos olhos
O brilho embaciar, para que a todos,
Mesmo a filho e mulher, pareças torpe.
" (LIVRO XIII, v. 304-309, p. 245)


Foram bons meus entendimentos de hoje sobre a Odisseia. A leitura dos clássicos da literatura mundial nos permite refletir sobre muitas questões culturais. Intertextualidades entre autores e críticos é uma delas.

Para ler a postagem anterior desta epopeia clássica, clique aqui.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


Odisseia (Homero) - Cila e Caríbdis (XII)



Refeição Cultural

"Cila é que me arrebata uns seis guerreiros
De esforço e brio; olhando para os bancos,
Pernas lhes vejo e braços pelos ares;
Na agonia final por mim bramavam.
" (LIVRO XII, v. 181-184, p. 227)


Neste domingo, retomei a leitura da Odisseia, de Homero. Minha edição é a da tradução do maranhense Odorico Mendes, edição a cargo do professor Medina, da FFLCH.

Neste Canto XII, Ulisses saiu do inferno (Hades) e agora enfrenta as predições que os deuses lhe anteciparam. Terá que enfrentar a tentação do canto das sereias, seus marinheiros com cera nos ouvidos e ele amarrado à viga de sua nau.

Superando esse obstáculo, terá pela frente os desafios tenebrosos de Cila e Caríbdis. Pela cena que ilustrei acima, vê-se que a predição se realizou. O mostro de várias pernas e cabeças Cila devora seis tripulantes da nau de Ulisses.

Mas suas desgraças não param por aí. Foi dito a ele que não permitisse que seus homens comessem os rebanhos que estavam pastando na Ilha dos rebanhos, porque os rebanhos eram do deus Sol. É óbvio que os caras mataram e comeram bois e ovelhas! São humanos, demasiadamente humanos...

O Canto ou Livro XII termina com a vingança dos deuses, que destroçam a nau de Ulisses. Ele se salva sozinho e vai parar na ilha de Calipso, onde passou muito tempo e já conhecemos essa parte da história, narrada nos livros anteriores da epopeia.

Ler aqui a postagem anterior, sobre a leitura do Livro XI.

Abraços a vocês, leitor@s que resistem ao mundo irracional do negacionismo e da destruição massiva do planeta pelo capitalismo.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


sábado, 5 de junho de 2021

050621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Como líder, uma pessoa deve algumas vezes tomar atitudes que não são populares ou cujos resultados não serão conhecidos nos anos vindouros. Há vitórias cuja glória reside apenas no fato de que elas são conhecidas por aqueles que a venceram. Isso é particularmente verdadeiro na prisão, onde devemos encontrar consolo em sermos leais aos nossos ideais, mesmo se ninguém mais tem conhecimento disso." (MANDELA, 2012, p. 479)


Sábado, fim de dia, 5 de junho do 2º ano da pandemia mundial de Covid-19. Dias tristes no Brasil e em vários lugares do mundo. Tempos de crise e miséria para a classe trabalhadora mundial. Dias de reinvenção e resistência porque a vida é uma ordem, como nos diz Drummond, e viver é bom, como diz o personagem Rodrigo Cambará na saga de Érico Veríssimo, O tempo e o vento.

Parei quase todas as minhas leituras de livros nesta semana que se encerra. Enquanto os livros aguardam a continuidade da leitura, peguei na estante a autobiografia de Nelson Mandela. E com ele estou. E nele busco inspiração. 

Estou na parte oito da história de vida de Mandela e da própria África do Sul, pois as histórias se confundem, se interpenetram, se complementam. Mandela e seus companheiros escaparam da condenação à morte e foram condenados a prisão perpétua. Estão na Ilha de Robben. Os prisioneiros ficaram presos quase duas décadas lá.

O crime que eles cometeram foi lutar por liberdade, igualdade e justiça para o povo negro sul-africano. Lideraram seu povo na luta contra o regime racial do apartheid, lutaram por décadas por democracia.

Em certo momento da leitura hoje à tarde, senti tanta agonia ao ler a descrição das injustiças que eram cometidas pela minoria branca e racista contra o povo negro sul-africano que fechei o livro, coloquei minha máscara e saí para pedalar um pouco. Acho que fiz isso só para sentir que ainda era livre, mesmo com a pandemia lá fora e com tanta coisa ruim acontecendo ao povo brasileiro.

Em vários momentos da leitura de Mandela me lembro de lutas que vivi, que vivemos no movimento sindical. Mesmo sendo pequenininhos quando vemos a história de grandes lideranças do povo, sabemos que cada lutador(a) é importante e que a soma de cada um é o todo nas lutas de classes.

Ao ler a reflexão de Mandela, que citei acima, me lembrei de vários momentos que vivi e de ações que tomei que se assemelham ao que o líder sul-africano nos conta. Na Cassi, nas negociações com os banqueiros, nas diversas oportunidades que vivi ao representar dezenas de milhares de pessoas, tive que ser muito firme ao defender o que acreditava e representava e pouca gente sabe disso ou quase ninguém. São lutas solitárias.

Certa vez nas negociações com os banqueiros, exigi que se aumentasse o valor a ser distribuído na participação nos lucros e resultados (PLR) de maneira que as funções da base da pirâmide recebessem um pouco mais, tirando um pouquinho do valor dos grandes salários no topo da pirâmide da folha de pagamento. O negociador do banco ficou muito puto e a queda de braço durou do fim da noite até o amanhecer (rsrs). Foi uma conquista coletiva muito positiva para escriturários, caixas, assistentes e primeiras funções gerenciais. Os bancários jamais saberiam de uma coisa dessas.

Outra vez, já na direção da Caixa de Assistência dos Funcionários do BB, a Cassi, exigi que o banco fosse o responsável pela despesa administrativa relativa ao pagamento da PLR dos funcionários do banco cedidos à nossa autogestão em saúde (era correto que eles recebessem, só questionei quem deveria pagar aquela remuneração). Eu entendi logo que cheguei à gestão que o correto e justo era o banco assumir aquela despesa e não a entidade de saúde. Olha! A negociação foi dura. Ficam as palavras de Mandela acima para descrever o que vivi. Não aceitei que a situação continuasse. A tensão fez com que algumas dezenas de funcionários não recebessem a remuneração variável no dia definido (depois receberam). Tive que utilizar diversas táticas e, inclusive, abri mão de receber a minha parte até que se resolvesse a questão (por princípio não recebi um centavo de PLR pela autogestão, só pelo banco). Só no 3º semestre de nossa gestão é que conseguimos resolver em definitivo o caso. A Cassi desde 2015 economizou milhões de reais com essa atitude minha. Alguém sabe disso? Óbvio que não (e ao final do mandato ainda inventaram um processo fraudulento, um lawfare, para me prejudicar nas eleições seguintes).

Mandela nos faz lembrar de muita coisa. E nos inspira a acreditar que a luta por justiça, igualdade, liberdade e por um mundo melhor para todos vale a pena. Nós temos que acreditar que vamos varrer para a lata de lixo esse nazifascismo que tomou conta do Brasil, esse ódio e essa ignorância violenta que envenenou nosso povo após a Lava Jato e o golpe de Estado em 2016. Nós vamos vencer o bolsonarismo. Essa tragédia odiosa e infeliz vai ficar para trás.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


sexta-feira, 4 de junho de 2021

040621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Eu havia escolhido uma roupagem tradicional para enfatizar o simbolismo que eu era um negro africano entrando em um tribunal de homens brancos. Eu estava literalmente carregando em minhas costas a história, cultura e tradição do meu povo." (MANDELA, 2012, p. 397)


Sexta-feira, 4 de junho de 2021. Queria ler hoje um capítulo inteiro da autobiografia do líder negro sul-africano Nelson Mandela. Ufa! Só terminei agora, perto da meia-noite. Foram quase 85 páginas de história de lutas de um povo em busca de liberdade e igualdade.

Estou triste, com o coração apertado, apreensivo. E sei que devo resistir a tudo e sobreviver, pelo menos devo fazer a minha parte para sobreviver, e com dignidade. Sei que ainda tenho alguns papéis sociais a desempenhar, por mais que já não seja figura pública. A gente segue sendo pai e membro de uma família que amamos.

Esta tem sido uma semana difícil em relação a perdas e doenças na família e nos círculos de amizade e companheirismo. Minha mãe sofreu com a morte de um primo, vítima de Covid-19. Eu não tinha relações com ele porque a relação mais forte era entre minha mãe e a tia Nenzinha. Meus sentimentos a toda a família.

Meus pais e sobrinhos perderam a querida Josinete, a Jô, uma vizinha e família que se tornaram uma só família com meus pais e sobrinhos. As crianças foram criadas juntas, minha mãe tinha nela uma irmã, amiga, companheira. Que tristeza a morte da Jô, ocorrida ontem. Jô querida, presente! Desejo muita força para os filhos Ygor e Laudiane e o marido Laudeci.

Meu coração está apertado e não vejo a hora de receber a notícia de melhoras de meu amigo, irmão, mestre e companheiro Jacy Afonso, uma das pessoas para as quais tenho um dos sentimentos mais antigos de amor fraterno, uma liderança e referência de toda uma vida de lutas no movimento sindical. Jacy nunca abandonou as ruas nas lutas em defesa da classe trabalhadora, mesmo durante a pandemia de Covid-19. Ele contraiu o vírus e está lutando pela vida neste momento. Por favor, Jacy, teima e volte logo pra nós!

Com tanta tristeza e apreensão, peguei o livro autobiográfico de Nelson Mandela pra prestar atenção naquilo que ele nos conta, na luta pela liberdade, pela igualdade, na luta pela dignidade de todo um povo subjugado por colonizadores. Que história pessoal e coletiva! É uma inspiração para não desistirmos de lutar. Assim como a história de nosso querido Lula. Duas referências de vida, de luta, de caráter e de pessoas imprescindíveis. Assim como nosso querido Jacy, também imprescindível.

Temos que ser fortes e sermos corretos e de luta e dignos por causa de seres humanos como Mandela, Lula e Jacy.

O Brasil sangra, o nosso povo está sofrendo, está exposto à morte por Covid-19 por opção do regime genocida, que apostou em não vacinar nossa gente. O povo está sem trabalho e por conta própria.

O meio milhão de mortos é composto em sua ampla maioria por gente pobre, preta e mestiça, das classes de menor renda, gente que precisa do apoio do Estado. Temos que resistir ao inimigo e nos defendermos, de todas as formas. Há um genocídio em andamento.

Temos que ocupar as ruas e mobilizar a classe trabalhadora para retomar o país das mãos dos bandidos e genocidas que ocuparam os poderes a partir de um golpe de Estado apoiado pela casa-grande, agentes externos e seus lacaios.

William


Post Scriptum: na passagem citada acima, me lembrei de minhas camisas vermelhas da CUT nas negociações com banqueiros de ternos e minhas camisas polo da Cassi entre os engravatados. Eu tinha convicção do que estava fazendo ao usar as minhas roupas do dia a dia de luta naqueles espaços de poder.


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


quinta-feira, 3 de junho de 2021

030621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Em minhas sessões de estudo, o Coronel Tadesse discutia assuntos tais como criar uma força de guerrilha, como comandar um exército e como impor disciplina. Certa noite, durante o jantar, o Coronel Tadesse me falou, 'Agora, Mandela, você está criando um exército de liberação e não um exército capitalista convencional. Um exército de liberação é um exército igualitário. Você tem que tratar seus homens de uma forma inteiramente diferente de como os trataria em um exército capitalista. Quando você estiver de plantão, deverá exercer a sua autoridade com confiança e controle. Isso não difere do comando num exército capitalista. Mas quando você estiver de folga, deverá se comportar em base de perfeita igualdade, mesmo em relação ao soldado mais raso. Você deve comer o que eles comem; você não deve comer no seu gabinete, mas junto com eles, beber com eles, não se isolar'." (MANDELA, 2012, p. 375)


Mais um dia de leitura sobre as lutas dos negros sul-africanos em busca da liberdade e da igualdade. Estou tendo essa oportunidade porque Mandela escreveu uma autobiografia e ela foi organizada e impressa na forma de livro. Caso estivesse em rede virtual, ou só nos computadores das big techs donas dos meios onde estão as informações da tal "internet", os capitalistas já teriam sumido com essa história de lutas.

Vocês sabiam que o Congresso Nacional Africano (CNA) teve que mudar seus métodos após o início dos anos sessenta para enfrentar o regime nacionalista dos brancos e a política de apartheid? O CNA tinha como princípio a não-violência, mas chegou um momento em que essa estratégia não tinha mais sentido porque Mandela em uma passagem de suas memórias diz que quem define as armas é o inimigo. A partir do momento em que o inimigo só usa da violência contra as políticas de não violência, algo precisa mudar.

Poderia fazer uma analogia em relação ao Brasil. Durante esse período de pandemia mundial, os genocidas apoiadores do regime nazifascista estiveram nas ruas, agiram contra as medidas de contenção da pandemia, estiveram nas ruas cobrando radicalização e ditadura. A parte mais consciente e humanista, as esquerdas e grupos democratas, estiveram em casa respeitando as recomendações das autoridades sanitárias e de saúde. NÃO DÁ MAIS. O povo contrário ao regime precisa ocupar as ruas e não sair mais.

O Brasil está nas mãos dos golpistas que destruíram a democracia do país desde o golpe de Estado em 2016. Vários são os setores da sociedade que tiveram participação ativa na construção do golpe e todos os setores envolvidos são responsáveis pela tragédia que vivemos hoje. Praticamente todos eles têm algum grau de relação com a elite econômica que destruiu a democracia e que apoia o regime no poder. Até quando o 1% e seus lacaios vai continuar dando as cartas e destruindo o país e matando o povo?

Neste momento um genocídio está em andamento no Brasil. Meio milhão de brasileiras e brasileiros morreram vítimas de uma pandemia de coronavírus. Alguns milhares de vítimas morreram antes de se descobrir formas de se evitar o contágio e centenas de milhares morreram após existir vacina contra o vírus. O regime no poder poderia ter atuado de maneira a evitar centenas de milhares de mortes caso fosse de interesse essa opção pela vida. Não foi o caso. Neste minuto, nossos entes queridos estão em risco, sem vacina e estão lutando pela vida.

Estudos mostram que a ampla maioria dos mortos e dos sequelados pela pandemia de coronavírus é o povo pobre, periférico, miserável, pretos e pardos. São os trabalhadores brasileiros. É um genocídio o que temos em andamento no Brasil do regime nazifascista no poder. Todo apoiador desse genocídio é um assassino, tem responsabilidade com as mortes de nossos familiares, amigos e conhecidos. Espero que alguns paguem por esses crimes de guerra contra os pobres e contra o povo. Muitos talvez não sejam presos e condenados, mas em algum momento de suas vidas desgraçadas terão a consciência de que fizeram parte desse genocídio e dessa tragédia brasileira.

Tenho raiva, pena e nojo de todos os apoiadores desse regime de morte, miséria e destruição. Tenho desprezo total por qualquer bolsonarista! Desprezo!

Quem dera tivéssemos no Brasil um CNA que compreendesse que é o inimigo que define as armas numa guerra. Não temos um CNA aqui. A luta pela liberdade e pela igualdade está muito longe do êxito. Ainda morrerão muitos só do nosso lado, o lado do povo, o lado da classe trabalhadora.

William


Post Scriptum: não vou cansar de registrar que os sindicatos, associações e entidades de lutas da classe trabalhadora deveriam resgatar, organizar e imprimir em livros a nossa história de lutas e distribui-la para as pessoas. Do jeito que está hoje, toda nossa história será vaporizada na tal internet. Estamos morrendo através das diversas mortes severinas que estão aí para matar a gente da classe trabalhadora e deixar vivos os desgraçados da elite predatória, lesa-pátria e que odeia o Brasil e o povo brasileiro.


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


quarta-feira, 2 de junho de 2021

020621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Apesar de eu ser uma pessoa gregária, amo a solidão ainda mais. Eu apreciava a oportunidade de ficar sozinho para planejar, pensar, conspirar. Mas uma pessoa pode se cansar da solidão. Eu me sentida terrivelmente isolado de minha família" (MANDELA. 2012, p. 327)


O momento atual do Brasil e do mundo nos entristece o tempo todo. Temos que buscar estratégias e ferramentas psicológicas para fugir à tristeza e demais sentimentos ruins que nos assaltam.

Quase todo mundo tem alguma pessoa querida lutando contra o vírus mortal Sars-Cov-2 (Covid-19) neste instante em que escrevo. Quase todo mundo tem alguma pessoa querida com algum tipo de depressão. Quase todo mundo perdeu pessoas queridas nesses tempos marcados pela morte e não pela vida e pela esperança de dias melhores. Só pela pandemia de coronavírus são quase meio milhão de mortos no Brasil.

Tenho pessoas queridas lutando contra a Covid-19. Tenho pessoas queridas com depressões diversas. Perdi diversas pessoas queridas nos últimos tempos. A referência da vida hoje é o risco da morte, que loucura! Posso estar aqui hoje e morrer em poucos dias pelo vírus, além das mortes severinas. 

Mas como diz meu poeta favorito, Carlos Drummond de Andrade, chegou um tempo em que não adianta morrer e a vida é uma ordem, a vida apenas e sem mistificação. E noutro poema ele diz que temos que viver seja como for e que o essencial é viver.

Outro dia, estava pensando sobre a importância de se registrar e se imprimir e distribuir a nossa história, a nossa luta de classes, os acontecimentos privados e coletivos de nossa vida de classe trabalhadora e de povo explorado pelos poucos usurpadores humanos que se apropriam das coisas do mundo através da violência e da manipulação.

Como eu saberia da história de lutas do povo negro sul-africano e de seus líderes como Nelson Mandela se ele não tivesse registrado em uma autobiografia tudo o que viveram durante décadas até alcançarem a liberdade do povo negro e o fim do apartheid? Tenho um livro de 800 páginas em mãos que conta essa história sob o ponto de vista de Mandela.

E se essa luta do povo negro sul-africano estivesse sendo travada nos últimos 10 ou 15 anos e só estivesse registrada de forma virtual, na internet, no YouTube, no Facebook, no Google? Vocês acham que essa história teria muitas chances de continuar existindo para as pessoas comuns e espalhadas por esse mundão se não estivesse em livros?

Se o filólogo judeu alemão Victor Klemperer não tivesse registrado em diários tudo o que viu acontecer com a língua alemã durante a ascensão e queda do regime nazista de Adolf Hitler e o 3º Reich, dificilmente nós conheceríamos como a língua alemã foi essencial para a implantação do regime nazista, como a língua foi manipulada para fazer toda uma nação apoiar aquilo que foi o nazismo. Ele registrou isso em livro e eu posso ler em casa essa história trágica. E se estivesse só na internet e só de forma virtual?

Eu insisto na sugestão para que os movimentos sociais, sindicais, estudantis e partidários do campo da esquerda e que representam as lutas da classe trabalhadora registrem e imprimam e distribuam (vender a preço de custo) a nossa história de lutas das últimas décadas porque as big techs donas do mundo virtual vão desaparecer com toda a nossa história de lutas "on-line". É fato! É óbvio! Elas fazem parte daquilo que combatemos! Procurem nossas histórias na internet, procurem! O pouco que registramos está desaparecendo... Me falem das conquistas e lutas dos bancários brasileiros das últimas duas décadas...

Editem e imprimam nossas histórias de lutas, seja na forma de diários dos lutadores, seja na forma de livros das entidades (que é um parto fazer porque tem ciumeira de quem vai brilhar mais), de períodos de lutas, por categoria, por tema, de qualquer forma, mas não permitam que a classe trabalhadora seja o maior segmento da sociedade humana (os 99%) pautado somente pelo ponto de vista dos poucos capitalistas donos de tudo.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


terça-feira, 1 de junho de 2021

010621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"O chefe testemunhou sua crença na bondade inata do ser humano e como a persuasão moral e a pressão econômica poderiam levar a uma mudança de opinião por parte dos brancos sul-africanos. Ao discutir a política de não violência do CNA, ele enfatizou que havia uma diferença entre não violência e pacifismo. Os pacifistas se recusavam a se defender mesmo quando eram atacados violentamente, mas esse não era necessariamente o caso daqueles que desposavam a não violência. Às vezes homens e nações, mesmo sendo não violentos, tinham que se defender quando eram atacados." (MANDELA, 2012, p. 289)


Hoje li dezenas de páginas da autobiografia do líder negro sul-africano Nelson Mandela. Ganhei o livro de presente de minha esposa em agosto de 2014, no Dia dos Pais. Eu recém começava uma longa jornada de lutas em um mandato representativo e havia ido morar em Brasília e passaria quatro anos viajando o Brasil.

Durante aquele período, cheguei a ler duas centenas de páginas do Mandela. Ao final do mandato, por volta de abril de 2018, eu estava terminando a parte 4 - "A luta é a minha vida". Depois guardei o livro. Para retomar a leitura de Mandela, reli inteiro o que havia lido. E agora começo a avançar nas centenas de páginas de história que o líder sul-africano tem para nos contar.

Das leituras principais que estavam em andamento, decidi dar um tempo com algumas delas, principalmente o Ulysses, de James Joyce, porque estou lendo este clássico com um amigo e ele não está podendo ler nessas semanas. O livro do neurocientista Miguel Nicolelis e a Odisseia, vou seguir até o fim com a leitura.

Lendo o conceito acima, da diferença entre pacifismo e não violência, pensei a respeito, olhei para trás e avalio que me encaixo no conceito explicado pelo Chefe Luthuli (do CNA). Não sou um pacifista. Entendo que temos que nos defender quando atacados.

A história do povo negro sul-africano, a luta pela liberdade e pelo fim do apartheid, a luta pela igualdade e contra o racismo e o preconceito são grandes referências para os mais diversos povos do mundo que passam por situações semelhantes hoje e no futuro. 

O Brasil e o povo brasileiro passam por situação muito semelhante neste momento de sua história, racismo, corrupção do grupo no poder, violência do Estado contra o povo mais pobre e abandonado, destruição dos direitos do povo e do patrimônio do país. Genocídio do povo através de uma pandemia não combatida pelo governo como estratégia do regime no poder.


APARTHEID E RACISMO

"Apesar de sermos mantidos juntos, a nossa dieta era estabelecida de acordo com a raça. Para o café da manhã, os negros, indianos e mestiços recebiam as mesmas quantidades, exceto que os indianos e mestiços recebiam meia colher de chá de açúcar, o que não acontecia conosco. Para o jantar, as dietas eram as mesmas, exceto que os indianos e mestiços recebiam pouco mais de cem gramas de pão, enquanto nós não recebíamos nada. Esta última distinção era baseada na premissa curiosa de que os negros normalmente não gostavam de pão, que era um gosto mais sofisticado, ou 'ocidentalizado'. A dieta para os detentos brancos era muito superior do que aquela para os negros. As autoridades eram tão conscienciosas em relação à cor que até mesmo o açúcar e o pão fornecidos aos brancos e aos não brancos eram diferentes: os prisioneiros brancos recebiam açúcar refinado e pão branco, enquanto os mestiços e os indianos recebiam açúcar mascavo e pão de centeio." (p. 300)


Pois é. O mundo deu voltas e voltas ao redor do sol desde que o povo negro sul-africano conquistou a liberdade e depôs o regime da minoria branca e o apartheid. Seu maior líder, Nelson Mandela, foi respeitado por seu povo e teve seu valor reconhecido.

No entanto, eis que num país sul-americano - o Brasil - a secular minoria da casa-grande deu novo golpe de Estado em 2016, tirou do poder uma governante eleita legitimamente, sem crime algum, tirou um partido que vinha fazendo mudanças históricas para o povo preto, mestiço e pobre, partido que gerou oportunidades e melhores condições de liberdade e igualdade e colocou no lugar um traidor da pátria e, em seguida, um nazifascista e genocida.

Agora, assim como na África do Sul dos nacionalistas brancos e do apartheid, os representantes do governo dizem as merdas que querem e praticam os crimes que quiserem e se sentem inimputáveis. Humilham as classes populares, falam mal de empregadas domésticas, de porteiros, falam que o lugar deles não é na Disney nem nas universidades, pessoas pretas são pesadas em "arrobas" segundo o inominável na presidência do país e preconceitos de todo tipo. Sem contar a psicopatia e prazer com as mortes dos brasileiros vitimados pela pandemia de Covid-19.

É nesta condição que estamos neste momento, vivendo o que os povos negros sul-africanos sofreram em seu próprio país ao longo de séculos de colonialismo e imperialismo.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


sábado, 29 de maio de 2021

290521 - Diário e reflexões (#29M)



#29M

Post Scriptum (escrito no final da noite de sábado, 29 de maio)

Amanheci o sábado vivendo um dilema que durou a semana toda: ir ou não ir ao dia nacional de lutas e protestos contra o regime genocida que se apossou ilegitimamente do poder central do país após o golpe de Estado em 2016, golpe que destruiu tudo no Brasil e nos colocou nessa situação que estamos, uma total anomia e caos na vida da cidadania nacional.

Sou hipertenso e sou um dos milhões de brasileiros que não teve acesso à vacina contra o novo coronavírus. Ir às manifestações é um risco - foi um risco -, mas meu coração falou mais forte. À tarde, lá estava eu na Avenida Paulista, me manifestando em favor de #VacinaParaTodos, #AuxilioEmergencial e #ForaBolsonaro.

Foram tantos sentimentos misturados que senti ao voltar às ruas para exercer o meu direito de manifestação... alívio ao ver a resposta popular e aquelas dezenas de milhares de pessoas; receio de contrair o vírus maldito e faltar às pessoas que precisam de mim... e, além disso, ainda correr o risco de transmitir essa peste pra alguém. A decisão sobre ir ou não ir foi difícil e respeito a decisão de cada militante de esquerda que foi e que não foi ao #29M.

Os cuidados foram tantos que sequer quis tomar água para não tirar a máscara KN95 que estava usando. Álcool na mão o tempo todo. Mas não teve como não estar aglomerado porque foi muita gente... (que bom e que perigo!).

Os riscos que corri - que corremos nos manifestando - não foram diferentes dos riscos que milhões (milhões!) de pessoas da classe trabalhadora enfrentam diariamente para ter algo para comer em casa, para ter um teto para morar. Voltei aos vagões de metrô e trem que andei a vida toda, lotados.

Esse capitalismo desgraçado precisa ser derrotado, extirpado da face da Terra, caso contrário não haverá mais esperanças para a vida, nem do homo sapiens nem das demais formas de vida. Era pra todos nós estarmos isolados em quarentena, alimentados, protegidos, com os recursos necessários à vida, vacinados, porque existe tecnologia e recursos para isso. 

Toda a desgraça que vemos ao nosso redor, nas ruas, o sofrimento do povo e a falta de tudo aos nossos irmãos seres humanos é uma decisão política, é uma abstração da mente de alguns espertos (uns canalhas) que conseguem manipular as demais mentes humanas para se submeterem a essa forma de não-vida.

Enfim, foi um bom dia de luta do povo brasileiro que não aderiu à banalidade do mal e a tudo de ruim que significa esse clã de bandidos no poder e suas alcateias de apoio.

Torcer para que meu corpo esteja bem nos próximos dias.

William

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(Escrito no início da madrugada de sábado)

Desci para pegar a pizza na portaria do condomínio. Quando volto ao hall do elevador no térreo, tem um filho de chocadeira saindo do elevador sem máscara. Puta que pariu! Que adiantam as notícias sobre as novas cepas mais contagiosas de coronavírus? Cepa da Índia, cepa do raio que o parta etc. O desgraçado tem direito sobre a merda da vida dele mas, e a vida dos outros, o negacionista também tem direito sobre elas? 

Saco cheio! Saco cheio disso tudo. 

Não vejo pessoalmente meus pais e família em Minas Gerais desde as festas de fim de ano em 2019. Por causa da pandemia mundial parte de nós teve a vida mudada drasticamente tentando sobreviver ao vírus e suas sequelas, fazendo isolamento social, usando as merdas das máscaras protetoras (sempre odiei usar isso, mas uso) e levando uma vida quase vegetativa se compararmos ao que era antes. Falo parte de nós porque tem uma parcela de gente que vive numa outra realidade, como se nada tivesse mudado no mundo após o início da pandemia.

(não tô a fim de escrever mais nada...)


quinta-feira, 27 de maio de 2021

Ulysses - Lestrigões (O Almoço)



Refeição Cultural

Depois de uma semana sem ler os três livros para os quais estou empenhado na leitura - Ulysses (James Joyce), Odisseia (Homero) e O Verdadeiro Criador de Tudo (Miguel Nicolelis) - retomei a leitura de Joyce nesta manhã de quinta-feira 27.

Durante a pausa, li obras menores, livros pequenos, alguns clássicos. Da mitologia grega, li Prometeu Acorrentado, supostamente de Ésquilo (ler postagem aqui), Antígona, de Sófocles (comentário aqui) e Édipo Rei, de Sófocles (ler aqui); li um conto belíssimo de Saramago, A ilha desconhecida (ler aqui); li duas narrativas do francês Honoré de Balzac (aqui) e li narrativas curtas de Jack Kerouac, líder da geração Beat (comentário aqui). 

De verdade, foi bem melhor ter lido isso que ler ver ouvir as merdas da política genocida de meu país. A pandemia não terá fim no Brasil - não temos vacina nem medidas restritivas - e as mortes oficiais chegam perto dos 500 mil humanos (são mais de um milhão de mortos por problemas respiratórios: Covid-19 + Síndrome Respiratória Aguda Grave, SRAG); nossas vidas não valem um tostão furado - morremos a qualquer minuto -; a CPI sobre a pandemia não vai dar em nada contra o clã miliciano e a "boiada segue passando" e não teremos mais os ecossistemas brasileiros - seremos um deserto continental - e sem empresas públicas.

2023 - Eu não acredito que Lula será presidente do Brasil em 2022 (se é que haverá eleições). Lula presidente seria possível se a política não tivesse sido destruída pelo golpe de Estado e se o processo de construção do ódio não tivesse sido um sucesso e gerado uma cultura de banalidade do mal e nazifascismo no país... a anomia, a violência e a miséria vão longe por aqui, e com apoio popular e dos manipuladores da casa-grande. 

A esquerda não compreendeu ainda o mundo paralelo no qual vive parte considerável do povo deste país. Só o regime no poder tem acesso a essa parte da população. Estamos falando de dezenas de milhões de animais humanos.

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ULYSSES

"Deteve-se de novo e comprou da velha das maçãs dois bolinhos por um tostão e partiu a massa quebrantável e jogou os fragmentos no Liffey. Está vendo? As gaivotas adejaram silenciosas, duas depois todas, de suas alturas, caindo sobre a presa. Foi-se. Cada migalhinha." (p. 293)


No capítulo que li hoje, "Lestrigões", Bloom saiu da redação do Freeman onde trabalha como publicitário e estamos na hora do almoço. O capítulo teve muito fluxo de consciência e diálogos com pessoas na rua e em ambientes internos.

Teve uma passagem com pombas que me lembrou da música dos Mamonas Assassinas... muito engraçado!

"Diante da imensa porta alta da casa do parlamento irlandês um bando de pombos voou. Sua festinha depois das refeições. Em quem é que a gente vai fazer? Eu fico com o sujeito de preto..." (p. 306)

O sujeito de preto que a pomba escolhe é o Leopold Bloom, que está assim porque esteve no funeral de Paddy Dignam às 11 horas da manhã.

Aí me lembrei dos belos versos dos Mamonas:

"As pombas quando avoam/ por incrível que pareça/ ficam sobrevoando/ com seu cu amirando/ em nossas cabeças..." (Mundo Animal)

O TEMPO NO FLUXO DE PENSAMENTO E O TEMPO LINEAR DA LEITURA

Tem uma questão interessante. Eu gastei uma hora para ler o que o Bloom diz que foram cinco minutos. Essa é uma questão dos diversos tempos das narrativas que os críticos explicam.

"O Dignam levado no carrinho. A Mina Purefoy barriga inchada numa cama gemendo pra arrancarem uma criança de dentro dela. Nasce um a cada segundo em algum lugar. Outro morre a cada segundo. Desde que eu dei comida pras gaivotas cinco minutos. Trezentos bateram as botas. Outros trezentos nasceram, lavando o sangue, todos são lavados no sangue do cordeiro, balindo méééééé." (p. 309)

Bloom alimentou as gaivotas lá na página 293. Gastei uma hora de leitura.

O capítulo foi fascinante. Bloom faz críticas a diversas coisas. Pensa a respeito da quantidade de filhos que os irlandeses fazem. Critica cardápios de comida vegetariana e nessa parte é interessante ele associar a alimentação sem carnes a maior facilidade para versejar, pensando ser impossível para um comedor de carnes brutamontes fazer versos. Na parte que cito abaixo, ele está falando da comida vegetariana dos poetas e literatos.

"A meia dela está frouxa no tornozelo. Eu detesto isso: de uma falta de gosto. Esse pessoalzinho literário etéreo todos eles são. Sonhadores, nebulosos, simbolísticos. Estetas é o que eles são. Eu não ia ficar surpreso se fosse aquele tipo de comida que produz o seu igual ondas do cérebro o poético. Por exemplo um daqueles policiais suando cozido irlandês na camisa; não dava pra espremer nem um versinho de poesia dali. Não sabem nem o que é poesia. Tem que estar num certo humor." (p. 311)


Essa parte abaixo mereceu até uma foto minha apontando o mindinho pro céu... achei legal a cena.

"Deu meiavolta e, parado entre os toldos, estendeu a mão direita com o braço esticado para o sol. Sempre quis tentar isso. É: completamente. A ponta de seu dedo mínimo apagava o disco solar. Deve ser o foco onde os raios se cruzam..." (p. 312)

Acabei comendo um pão com queijo e mostarda após ler o Bloom comendo seu lanche assim.

Bloom ainda ajuda um jovem cego a atravessar a rua.

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Como disse nas outras postagens da leitura do Ulysses, na tradução de Caetano W. Galindo, estou tendo um aproveitamento muito melhor desta vez em relação à compreensão que tive na leitura duas décadas atrás, na tradução de Houaiss.

A leitura da postagem sobre o capítulo anterior pode ser feita aqui.

Abraços, amig@s leitores.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


30. Prometeu Acorrentado - Ésquilo



Refeição Cultural - Cem clássicos

Agora conheço um pouco melhor o mito de Prometeu. A cada leitura de um desses clássicos da antiguidade, mais vontade tenho de ler outros. 

Na edição que li de Prometeu Acorrentado, da "Coleção a obra-prima de cada autor", da editora Martin Claret, na tradução de J. B. Mello e Souza, consta que o autor é o dramaturgo Ésquilo, o mais antigo dos 3 autores trágicos da Grécia antiga (Sófocles e Eurípides são os outros dois).

Ao ler e pesquisar sobre Ésquilo e, principalmente, sobre esta narrativa, vi que mais recentemente existem dúvidas sobre a autoria do Prometeu Acorrentado ser mesmo de Ésquilo. Mas vamos ficar com as referências constantes no livro que li.

PROMETEU ACORRENTADO

A tragédia se passa nas montanhas do Cáucaso ou nas Estepes, pelo que pude aferir em relação à antiga região da Cítia.

"Nos rochedos da Cítia: O poder, a Violência, Vulcano e Prometeu

Eis-nos chegados aos confins da terra, à longínqua região da Cítia, solitária e inacessível! Cumpre-te agora, ó Vulcano, pensar nas ordens que recebeste de teu pai, e acorrentar este malfeitor, com indestrutíveis cadeias de aço, a estas rochas escarpadas. Ele roubou o fogo, - teu atributo, precioso fator das criações do gênio, para transmiti-lo aos mortais! Terá, pois, que expiar este crime perante os deuses, para que aprenda a respeitar a potestade de Júpiter, e a renunciar a seu amor pela Humanidade." (p. 25)

Assim começa a narrativa sobre as desgraças de Prometeu por ajudar aos humanos. Nas guerras de poder dos céus, Júpiter assumiu o trono e pensava até em se desfazer da humanidade para criar outra raça no lugar. Prometeu acabou interferindo e dando uma mãozinha aos humanos.

Daí em diante a tragédia se desenvolve.

O mito de Prometeu me lembrou a descrição do neurocientista Miguel Nicolelis sobre a evolução do cérebro do homo sapiens, o professor chama nosso cérebro de O Verdadeiro Criador de Tudo. Prometeu diz que tornou os homens "inventivos e engenhosos".

"(...) Não falemos mais nisso; seria repetir o que já sabeis. Ouvi, somente, quais eram os males humanos, e como, de estúpidos que eram, eu os tornei inventivos e engenhosos. Eu vo-lo direi, não para me queixar deles, mas para vos expor todos os meus benefícios. Antes de mim, eles viam, mas viam mal; e ouviam, mas não compreendiam. Tais como os fantasmas que vemos em sonhos, viviam eles, séculos a fio, confundido tudo. Não sabendo utilizar tijolos, nem madeira, habitavam como as próvidas formigas, cavernas escuras cavadas na terra. Não distinguiam a estação invernosa da época das flores, das frutas, e da ceifa. Sem raciocinar, agiam ao acaso, até o momento, em que eu lhes chamei a atenção para o nascimento e acaso dos astros. Inventei para eles a mais bela ciência, a dos números, formei o sistema do alfabeto, e fixei a memória, a mãe das ciências, a alma da vida. Fui eu o primeiro que prendi os animais sob o jugo, a fim de que, submissos à vontade dos homens, lhes servissem nos trabalhos pesados. Por mim foram os cavalos habituados ao freio, e moveram os carros para as pompas do luxo opulento. Ninguém mais, senão eu, inventou esses navios que singram os mares, veículos alados dos marinheiros. Pobre de mim! Depois de tantas invenções, em benefício dos mortais, não posso descobrir um só meio para pôr fim aos males que me torturam." (p. 37/38)

PARA OS GREGOS, NEM OS DEUSES FUGIAM DE SEU DESTINO

Uma das características das mitologias gregas é a força do Destino. Nesta narrativa de Prometeu, nem Zeus (Júpiter) foge ao seu destino.

"O CORO

Depois de haver prestado tamanhos benefícios aos mortais, não te abandones à desgraça. Estamos persuadidas de que poderias, liberto dessas cadeias, ser tão poderoso quanto Júpiter...

PROMETEU

Não!... Não foi assim que dispôs o destino inexorável. Só depois de haver sofrido penas e torturas infinitas é que sairei desta férrea prisão. A inteligência nada pode contra a fatalidade.

O CORO

E a fatalidade, quem a dirige?

PROMETEU

As três Parcas, e as Fúrias, que nada perdoam.

O CORO

Será Júpiter, acaso, menos poderoso que essas divindades?

PROMETEU

Sim... ele próprio não poderá eximir-se a seu destino..." (p. 39)

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"A inteligência nada pode contra a fatalidade"

Que mensagem essa! Profunda!

A fatalidade...

É essa que nos coloca na condição da incerteza de estarmos aqui amanhã... ainda mais com o vírus da morte à caça de cada um de nós em países como o Brasil, onde os desgraçados no poder querem nossa morte sem nos prover do apoio do Estado através de vacina, de medidas protetivas e de recursos de saúde pública.

Estamos sós e por conta própria. 

Que foda.

William


Bibliografia:

ÉSQUILO. Prometeu Acorrentado. Coleção a obra-prima de cada autor. São Paulo: Martin Claret, 2005.


terça-feira, 25 de maio de 2021

29. Antígona - Sófocles



Refeição Cultural

"Antígona - O povo fala. Por mais que os tiranos sejam afeitos a um povo mudo, o povo sempre fala. Fala sussurrando, amedrontado, à meia luz, mas fala..." (SÓFOCLES, 2007, p. 98)


Mais um clássico lido! Agora conheço a história de Antígona, filha de Édipo e Jocasta, na versão de Sófocles. Que dramática é a narrativa do início ao fim! (li que na versão de Eurípides, Antígona tem um final diferente. Dele, eu conheço a tragédia Medeia)

Lendo as tragédias gregas fica mais fácil compreender os mitos da antiguidade clássica e as referências das tragédias de Shakespeare.

Antígona é uma das filhas de Édipo e Jocasta. Édipo é aquele que matou o pai, Laio, e ficou com sua mãe. É bom lembrar que ele não sabia disso. Tudo foi tramado pelos deuses do Olimpo, e os argumentos das tragédias de Sófocles lembram ao povo grego que ninguém foge de seu destino.

A tragédia se passa em Tebas, o rei que ocupa o trono é Creonte, irmão da falecida Jocasta e tio de Antígona e seus três irmãos - Ismênia e os irmãos Etéocles e Polinice. Os irmãos morrem em batalha um contra o outro, um defendendo o tio e Tebas e o outro tentando tirar do poder Creonte, estando ao lado de seu sogro, rei de Argos. 

Antígona quer realizar os ritos fúnebres para Polinice, mas Creonte quer que ele apodreça insepulto e comido pelos cães, enquanto ao outro irmão que defendeu Tebas, Etéocles, faz os ritos corretos. Antígona não aceita isso e está armado o barraco para a tragédia que fará cumprir-se o destino trágico a toda a descendência de Édipo.

Creonte é orgulhoso e inflexível e não atende ao clamor de seu filho Hêmon, noivo de Antígona, e sequer ouve os conselhos do sábio cego Tirésias. O tirano quer sangue! Quando volta atrás já é tarde e uma série de merdas acontecem na família.

Enfim, mais uma lacuna cultural preenchida. Esses clássicos e mitos da antiguidade me fazem lembrar dos textos críticos que li sobre a história ser linear ou cíclica, o tempo nas narrativas religiosas e mitológicas, mitos do eterno retorno etc.

Seguimos lendo, estudando, tentando dar sentido às coisas, mesmo sabendo que as coisas não têm sentido algum.

William



Bibliografia:

SÓFOCLES. Édipo Rei & Antígona. Tradução: Jean Melville. Coleção a obra-prima de cada autor. São Paulo: Martin Claret, 2007.

José Saramago - O conto da ilha desconhecida



Refeição Cultural

"O homem do leme assistiu à debandada em silêncio, não fez nada para reter os que o abandonavam, ao menos tinham-no deixado com as árvores, os trigos e as flores, com as trepadeiras que se enrolavam nos mastros e pendiam da amurada como festões. Por causa do atropelo da saída haviam-se rompido e derramado os sacos de terra, de modo que a coberta era toda ela como um campo lavrado e semeado, só falta que venha um pouco mais de chuva para que seja um bom ano agrícola. Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao seu destino. É uma floresta que se navega e balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começaram a cantar pássaros..." (SARAMAGO, 2015, p. 58)


Ao ler essa breve narrativa de José Saramago, fiquei com os olhos cheios d'água. Que imagem fantástica! Sair por aí pelos mares a navegar uma pequena floresta, como se fosse uma ilha flutuante, por esse mundão afora.

E quando olho para a realidade, estamos numa terra com um povo ignorante e miserável que apoia um regime do mal, com um genocídio em andamento e sem perspectivas de curto prazo para o fim do sofrimento psicológico por ter consciência de tudo ao redor.

Adoro Saramago. Seus textos nos colocam a pensar, nos fazem viajar. A estratégia de suas narrativas é desenvolvida, de maneira geral, a partir de uma ideia apresentada do tipo: "e se acontecesse tal coisa?" ou "e se tal coisa fosse assim?".

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"(...) quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa." (p. 40)

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Enfim, mais um livrinho lido nesses dias de pausas das leituras clássicas em andamento. Livrinho no sentido de livro pequeno, como os que peguei na estante de casa.

William


Bibliografia:

SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida. Aquarelas Arthur Luiz Piza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 37ª reimpressão, 2015.