segunda-feira, 8 de novembro de 2021

666 O limiar do inferno (1981) - Jay Anson



Refeição Cultural

Quando eu li esse romance de Jay Anson, nos anos oitenta, ele era uma temática da moda, eu diria. Muitos livros de ficção e muitos filmes de suspense e terror faziam sucesso. Demônios e seres fantásticos e fenômenos chamados de paranormais enchiam a imaginação das pessoas.

Uma casa onde pessoas foram assassinadas é transportada para outro local e novamente um casal estará em risco ao conviver com a casa na vizinhança. Esse é o enredo do romance 666.

Li mais rápido que esse 2º livro de Anson o 1º dele, Horror em Amityville (1977) - ler comentário aqui. Liquidei a leitura em dois dias.

Nesse segundo romance, com 50 páginas a mais, achei a estória mais enrolada. No romance anterior, coisas estranhas vão acontecendo do início da narrativa até o fim. Neste 666 o enredo vai duzentas e tantas páginas amarrando as coisas para acontecerem nas últimas vinte páginas. No final, as coisas acontecem e o demônio realiza suas façanhas.

Ficção é ficção. O necessário é ter verossimilhança na estória, como aprendemos ao estudar literatura. Achei o romance de Amityville com mais verossimilhança que este segundo de Jay Anson. O personagem David mudar-se para a casa do 666 não colou muito, faltou um pouco de verossimilhança.

Mas os dois romances de horror de Jay Anson têm muito mais credibilidade e coerência do que, por exemplo, um romance que contasse o que aconteceu no Brasil nos últimos 5 anos...

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VEROSSIMILHANÇA?

Por falar em verossimilhança, uma coisa engraçada e triste ao pensar o conceito é imaginar o Brasil após o golpe de Estado de 2016, com Lava Jato, "com Supremo com tudo" etc.

Suponhamos que o que aconteceu com o Brasil fosse um romance... amig@s, seria impossível haver verossimilhança na narrativa que descrevesse os acontecimentos de 2016 até o momento.

Verossimilhança é algo básico para as narrativas terem sentido. A economia de um romance, conto, novela, peça dramática é baseada em verossimilhança.

Se a ficção é bem construída, não há problema algum em pessoas falarem com fantasmas, cadeiras falarem com a bunda da pessoa etc. Há um pacto entre escritor e leitor na economia da obra.

No romance de Jay Anson, temos forças e fenômenos se manifestando na estória. Acontecimentos fora das leis da física e sem explicações da ciência fazem parte da estória.

O difícil seria num romance explicando o Brasil após o golpe de 2016 construir alguma verossimilhança com os absurdos diários nos últimos cinco anos. 

O Moro e o Dallagnol além de não estarem sofrendo processo e ou estarem presos ainda se lançarem candidatos na política após destruírem um país continental com mais de 200 milhões de pessoas e cinco séculos de existência não tem verossimilhança que explique isso num romance. Seria inverossímil demais!

A história do Brasil não serve nem pra romance, eu diria. 

É isso! Mais uma ficção lida na adolescência e revisitada décadas depois.

William


domingo, 7 de novembro de 2021

Cânticos (1927) - Cecília Meireles



Refeição Cultural

Dando sequência à leitura e contato com as poesias de Cecília Meireles, li neste domingo o 4º livro da poeta - Cânticos (1927) -, livro que reúne 26 poemas numerados de I a XXVI.

Alguns dos poemas me trouxeram algumas reflexões a respeito da questão da temporalidade individual e da temporalidade coletiva, de classe, histórica. Mesmo sabendo que o Eu-lírico tem um viés religioso na sua relação emissor e receptor nas imagens poéticas, é possível a identificação com a temática da temporalidade e sua agonia pela brevidade da vida humana.

Os poemas I, II e o XXIV, quase no final, se encaixaram perfeitamente na temática do dilema (e angústia) da brevidade de nossa temporalidade existencial individual e a questão mais histórica das realizações humanas enquanto espécie.

Lembrando que vi um vídeo de Mauro Iasi, no canal Café Filosófico da TV Boitempo, vídeo do dia 5/11/21, que me pôs a pensar muito sobre a questão da temporalidade do indivíduo versus a temporalidade da classe. Vejam lá no YouTube caso tenham interesse.

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"I

Não queiras ter Pátria.
Não dividas a Terra.
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto,
Que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
Te ponha em tudo,*
Como Deus.
" (p. 138)


"*Verso-base: Estarás em tudo,"

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O poema é tão moderno que me lembrou a COP26 em Glasgow discutindo a destruição do mundo por parte dos humanos e do capitalismo. Alguns países e corporações (humanos!) destroem o meio ambiente porque podem (como dizem os bilionários "fazemos porque podemos") e que se danem as formas de vida na Terra hoje e num futuro próximo.

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"II

Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade...
É a eternidade.
És tu.
" (p. 138/139)

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E o poema XXIV me lembrou de novo as reflexões de Mauro Iasi, que somos fruto de uma temporalidade coletiva, histórica, somos a cultura e as pessoas que nos antecederam e assim por diante.

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"XXIV

Não digas: Este que me deu corpo é meu Pai.
Esta que me deu corpo é minha Mãe.
Muito mais teu Pai e tua Mãe são os que te fizeram
Em espírito.
E esses foram sem número.
Sem nome.
De todos os tempos.
Deixaram o rastro pelos caminhos de hoje.
Todos os que já viveram.
E andam fazendo-te dia a dia
Os de hoje, os de amanhã.
E os homens, e as coisas todas silenciosas.
A tua extensão prolonga-se em todos os sentidos.
O teu mundo não tem polos.
E tu és o próprio mundo.
" (p. 152)

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E assim conheci mais um livro de Cecília Meireles. Com essa obra Cânticos passo a conhecer 106 poemas da poeta, escritora, professora e intelectual brasileira.

William


Post Scriptum (15/11/21): assisti na internet a uma palestra muito interessante sobre esta obra de Meireles: "A filosofia nos Cânticos de Cecília Meireles", com a professora Lúcia Helena Galvão, de um canal chamado "Nova Acrópole Brasil". A biografia de Meireles e a análise dos poemas-cânticos foram muito interessantes. A palestrante exalta a questão mística da poeta e do Eu-lírico, o que é válido, e a interpretação que ela dá para os 26 poemas é muito coerente, tem verossimilhança, para falar algo característico das boas obras literárias e poéticas.

Post Scriptum II: essa interpretação mais mística dada à obra de Meireles não invalida a leitura mais materialista que fiz dos poemas. O texto me permite olhar a questão da temporalidade do ponto de vista individual e do ponto de vista histórico, enquanto homem isolado e enquanto humanidade, enquanto grupo e classe.


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

sábado, 6 de novembro de 2021

39. Alguma Poesia - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos


Li mais uma vez o livro de poesia de estreia de Carlos Drummond de Andrade - Alguma Poesia -, lançado em 1930, um clássico do poeta modernista e da poesia brasileira.

Do início ao fim do livro temos 49 poemas com pernas, coxas, tetas, nádegas, olhos, bigode... "pernas brancas pretas amarelas", "coxas das romeiras", "pernas adjetivas", "coxa morena", "pernas que passam". Cito isso só para não acharmos que só os estrangeiros têm os seus joyces e suas personagens blooms na primeira metade do século vinte.

Poemas de humor, de crítica e denúncia social, poemas que anunciam os efeitos da modernidade tecnológica nas pessoas. Poemas que contrapõem a cidade e o campo, a velocidade do centro urbano e a lentidão da vida no interior.

Que livro! A gente lê os poemas e quer sair divulgando e comentando com as pessoas e com o mundo o quanto os poemas se encaixam naquilo que estamos vivendo. Os poemas falam por nós, falam de nossa angústia frente ao Brasil e ao mundo em destruição acelerada. Que livro! Caraca!

Estou lendo poesias e conhecendo autores, obras, e livros que tenho em casa. Tenho as poesias completas de Cecília Meireles, de Drummond e diversos livros de outros autores. Mas li pouca poesia em minha vida, não conheço praticamente nada de poesia. E a vida é um instante, é um sopro efêmero. Então é ler e reler e sentir as poesias que nos legaram nossos poetas.

já li os 3 primeiros livros de Meireles, lançados em 1919, 1923 e 1925. Os estilos dos livros, temas e formas são bem diferentes dos de Drummond, que também conheço pouco, praticamente só conheço os primeiros livros de poesia dele - 1930, 1934, 1940 e 1945. 

MEIRELES

- Espectros (1919), Nunca mais... e Poema dos poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925).

DRUMMOND

- Alguma poesia (1930), Brejo das almas (1934), Sentimento do mundo (1940), A rosa do povo (1945).

Se formos sobrevivendo neste mundo, vamos conhecendo mais um pouco sobre eles - Meireles e Drummond. Estou indo na leitura por ordem cronológica, pela facilidade de ter as obras completas.

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EXÍLIO? NÃO QUERO IR PRA LUGAR NENHUM

Vivemos tempos nos quais um dos principais temas nas cabeças e corações das pessoas progressistas e decentes é o exílio, o ir-se embora daqui do Brasil destruído, seja pra Pasárgada ou qualquer outro lugar longe do bolsonarismo.

Não acho justo abrir mão de meu país por causa dessa burguesia canalha e vil, burguesia que estragou tudo que construímos ao colocar no poder o crime organizado. Não me agrada sequer pensar em mudar, em ir embora daqui. Tenho trauma de mudanças também. Contei na minha vida mais de dez mudanças em dez anos por causa da vida proletária. Minha vida era mudar de aluguel em aluguel porque era preciso.

Cara, que saco isso! Eu não quero ir embora, não quero deixar o meu país. Mas sei que tá foda! A impressão é que não recuperaremos nosso mundo, que não nos veremos livres do bolsonarismo, essa doença odiosa.

Nesse contexto de vida social do país, Drummond é tudo! Cada poema é uma crítica e um contexto, o Eu-lírico pode ser qualquer um de nós a qualquer tempo.

Mas deixo o poema "Lagoa" pra dizer que aqui é minha terra e aqui gostaria de viver e morrer.

"LAGOA

Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
e calma também.

Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.
Eu vi a lagoa...
" (p. 29)


Aqui é minha terra e nós temos que superar o bolsonarismo, essa gente do mal, gente odiosa, e reconstruir nossa terra, nosso ambiente, nossa cultura, nossas vidas.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo. 10ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2000.


quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Baladas para El-Rei (1925) - Cecília Meireles



Refeição Cultural

"Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
a solitude nebulosa e irreal do ambiente...

(...)

E silenciosos, como alguém que se acostuma
a caminhar sobre penumbras, mansamente,
meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma..." ("Suavíssima", p. 121/122)


E aos poucos vou conhecendo Cecília Meireles. Nesta manhã, li seu 3º livro - Baladas para El-Rei - publicado em 1925. Agora conheço 80 poemas das primeiras 3 obras da autora.

É interessante como os ensinamentos do professor Ariovaldo Vital (FFLCH-USP) não falham quando se trata de leitura de poesia. Ler o poema a primeira vez, depois ler uma segunda vez. Buscar no dicionário as palavras que não se conhece. Ver se há alguma referência externa ao poema que possa ajudar na análise e interpretação de sentidos - vida da autora, questões de época etc. Sugestões básicas para uma boa leitura de poema.

Na leitura de hoje, pesquisei a palavra "solitude" e eu não tinha uma noção boa sobre o sentido. Solitude é um isolamento voluntário e com um sentido mais positivo, enquanto solidão é um isolamento que pode causar algum tipo de dor ou tristeza, algo mais negativo no sentido.

E para fazer esta postagem revi a questão do uso da palavra "poetisa" ou "poeta" para o gênero feminino. Em termos de dicionário e Língua Portuguesa padrão, ambas estão corretas. No entanto, ideologicamente, fico com o termo "poeta" para dizer a poeta Cecília Meireles. É o termo preferido em relação às lutas de gênero.

Outra pesquisa que influenciou no entendimento de um dos poemas foi saber que a personagem "Pedrina" do poema "Para a minha morta" foi a babá de Cecília Meireles, criada com a avó materna desde os 3 anos de idade.

"PARA A MINHA MORTA

(...)

Pedrina minha, és a mais doce das memórias
para a minha alma, a vida inteira alma de criança,
amando sempre o encantamento das histórias

de Barba Azul, de Ali Babá, de um rei de França...
Pedrina minha, és a mais doce das memórias...
" (p. 124/125)

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A leitura dos poemas de Cecília Meireles, até o momento, me trouxe uma identificação grande com o Eu-lírico. Os poemas e a autora me lembram de uma fase da vida na qual eu cria em todas as formas de misticismo.

Além disso, a poeta cria imagens magníficas em seus versos. Seus poemas encantam pela beleza das construções. Veja abaixo um exemplo de imagem poética, do poema "Oração da noite", ainda de um livro anterior dela - Nunca mais (1923):

"Acendi luzes, desdobrando espaços," (p. 54/55)

É lindo demais!

No poema "Dos pobrezinhos" (p. 117) o Eu-lírico fala para as nossas vítimas da pandemia de Covid-19 e para seus entes queridos.

"DOS POBREZINHOS

Nas tardes mornas e sombrias,
de céus pesados, mares ermos,
e horas monótonas e iguais,

eu penso logo nos enfermos,
na escuridão de enfermarias
tristes e mudas de hospitais...
" (p. 117)

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Finalizo a postagem citando um excerto do poema que mais gostei de Baladas para El-Rei. Pensa nessa imagem contida em um dos versos do poema: "Anda em choro a folhagem..." ao falar sobre o outono.

"DO MEU OUTONO

O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a
                                     [folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...

O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
E eu sofro a angústia irremediável da paisagem...
" (p. 114/115)


É isso!

Tem valido a pena conhecer a poeta Cecília Meireles.

William



Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Instantes com Cecília Meireles



Refeição Cultural

Osasco, 2 de novembro, Dia de Finados.


"POEMA DA DESPEDIDA

Eleito, ó Eleito,
não tornarão mais os meus olhos
a procurar pelos ares
os lírios dos teus pés...
Nunca mais erguerei os braços,
como se erguem as asas,
nesta loucura
de chegar aonde estás...
Eleito, ó Eleito,
não voltarei a sonhar
que me apareces,
que me ouves,
que me acolhes...
" (p. 85)


Nesta manhã de Finados, peguei o volume 1 de Poesia completa, de Cecília Meireles, e após ler um pouco na internet sobre a biografia dela, li de forma muito concentrada a segunda parte do livro Nunca mais... e Poema dos poemas (1923). A primeira parte havia relido dias atrás.

O Poema dos poemas é composto por 21 poemas, divididos em 3 partes de 7 poemas. Ao ler os lamentos do Eu-lírico conversando com um receptor que nunca se mostra, que não acolhe, que não ouve, que não vê - ou se vê, não interfere em nada -, e ao ver o desenlace dessa busca do Eu-lírico, eu me transportei para o meu passado, décadas atrás, aquele passado de buscas místicas e religiosas daquele que fui.

Mesmo sendo quem sou hoje, compreendo perfeitamente essa relação mística e de busca que os seres humanos vivenciam nas diversas fases de suas vidas. Passei décadas clamando por ser visto e ouvido e acolhido por um ser superior e todo poderoso como faz o Eu-lírico de Cecília Meireles. E no final, o Eu-lírico encontra a Sabedoria. Não sei se tive o mesmo êxito.

"POEMA DA SABEDORIA

(...)

Sabedoria! Sabedoria!
Só te encontrei nos abismos,
quando vim descendo
da altura da solidão...
Depois do renunciamento...
Depois de tudo e de todos...
Depois de mim...
Sabedoria! Sabedoria!
Abençoa-me,
porque sofri,
buscando-te!
E, por encontrar-te e querer-te,
faze-te meu Destino...
Deixa-me viver em Ti!...
" (p. 104)

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Um orgulhozinho: enquanto lia sobre a vida de Cecília Meireles, vi que ela foi oradora de sua turma de formatura. Fiquei lembrando de outras personalidades que também têm em suas biografias o fato de terem sido oradoras em suas turmas escolares e acadêmicas. 

Naquele instante de leitura, me veio uma espécie de orgulho, uma vaidadezinha, porque eu fui escolhido orador de nossa turma de Ciências Contábeis, turma de 1991 a 1994, da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas de Osasco, a antiga FEAO-FITO. 

Nossa turma tinha mais de 100 alunos e nos dávamos muito bem. Foi um privilégio ser o orador e até hoje tenho guardado comigo o texto que fiz e que foi lido em nossa formatura. Me lembro de praticamente todas as pessoas, colegas do curso. Tenho ainda um carinho imenso por elas. Um beijo e um abraço fraterno a cada um e cada uma que esteja por aí nesse nosso mundo, vasto mundo.

William

Post Scriptum - clique aqui para ler a postagem sobre a primeira leitura dessa obra de Meireles.


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

A alucinação de Ulisses - Joseph Strick



Refeição Cultural

O filme de Joseph Strick - A alucinação de Ulisses (1967) é uma adaptação para o cinema do clássico Ulysses (1922), de James Joyce. Gostei demais do filme por ver na tela o resultado do esforço de Strick em ser fiel à obra.

Li o livro de Joyce pela primeira vez em 2002, numa tradução de Antônio Houaiss. Foi uma façanha e tanto para mim à época. Reli o clássico neste ano pandêmico, agora na versão traduzida por Caetano Galindo. Minha compreensão da obra foi bem melhor desta vez, talvez por ser duas décadas mais vivido que antes.

Ao assistir ao filme, eu não esperava uma adaptação tão esforçada em ser fiel ao livro. Em geral, diretores e roteiristas fazem versões bem diferentes do texto original.

Gostei das interpretações de Milo O'Shea como Leopold Bloom, Barbara Jefford como Molly Bloom e Maurice Roeves como Stephen Dedalus.

O filme é rodado em preto e branco. As imagens e cenários nos transportam para o cenário da Dublin de Bloom e Joyce nos anos vinte. Me identifiquei com o filme desde o primeiro minuto ao ver a cena da torre que abre a estória.

Depois vemos diversas cenas muito legais. Para quem leu a obra a identificação é imediata. O enterro de Dignam, as cenas na praia - tanto do monólogo de Dedalus no início, quanto de Bloom e a menina "coxa" no final do dia -, "coxa" como diz o personagem e nosso Brás Cubas (a respeito de Eugênia).

E o fechamento com o monólogo de Molly Bloom: é demais!

Adorei o filme! Filme para rever!

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RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM (1977)

A adaptação para o cinema do romance sobre o jovem Stephen Dedalus, alter ego de Joyce, livro lançado em 1916, anterior ao romance Ulysses, também foi bem fiel à obra. Gostei.

Rodado na Irlanda, o filme nos leva ao cenário descrito por Joyce. 

A cena da palmatória no jovem Dedalus nos revolta, uma violência absurda enquanto regra educacional e mais absurda ainda por ser aplicada de forma injusta ao garoto por causa de seus óculos quebrados, razão para não fazer as lições e com autorização do professor em sala de aula. Mesmo assim, foi punido pelo carrasco...

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Praticamente completei meu percurso com James Joyce. Não pretendo ler Finnegans Wake. Tenho muita coisa na frente para ler e acho que não volto ao escritor para essa tentativa de leitura, até porque sei que a obra é maluca demais para essa fase que estou de leituras na vida. 

Os filmes foram verdadeiros achados (em casa!) porque os comprei faz muito tempo e nem me lembrava direito que tinha filmes baseados na obra de Joyce.

Enfim, seguimos lendo e vendo adaptações para o cinema e televisão de clássicos literários.

William


1. Postagem final sobre a leitura de Ulysses, na tradução de Galindo. Clique aqui.

2. Postagem sobre a leitura de Retrato do artista quando jovem. Clique aqui.

3. Postagem sobre a leitura do Ulisses, na tradução de Houaiss. Clique aqui.


domingo, 31 de outubro de 2021

Horror em Amityville (1977) - Jay Anson



Refeição Cultural

Casas mal-assombradas, fenômenos poltergeists, deuses e demônios, seres fantásticos, monstros desse e de outros mundos, fenômenos de OVNI e seres extraterrestres, poderes da mente e paranormais etc. Cresci acreditando em tudo isso.

Um casal aproveita uma oportunidade de aquisição de um belo imóvel mesmo sabendo que uma tragédia marca a história do casarão. Um ano antes da compra, uma família foi assassinada brutalmente por um dos filhos no local. Essa é a história de George e Kathy Lutz e seus três filhos ao se mudarem em dezembro de 1975 para a Ocean Avenue, 112, Long Island, Amityville.

Eles só conseguiram ficar no imóvel por 28 dias. Fenômenos estranhos passam a ocorrer desde o dia em que se mudam para a casa até que eles saiam às pressas com as roupas do corpo porque temem pela vida da família.

O romance de Jay Anson, de 1977, fez muito sucesso nos anos oitenta, inclusive após adaptações para o cinema.

Eu li esse livro na adolescência, quando morava no bairro Marta Helena em Uberlândia, Minas Gerais. Li esse e o outro livro do mesmo autor, 666 O limiar do inferno (1981). 

Na época, os livros de suspense e terror me causavam calafrios. Eu me lembro disso. Filmes e livros de demônios, espíritos e almas penadas eram assustadores para mim, faziam parte de minha visão religiosa do mundo.

Reli Horror em Amityville entre ontem e hoje. Leituras assim são muito fáceis. Foram 200 páginas lidas em duas sentadas. Peguei para ler este livro porque me deu vontade de avaliar qual a sensação de ler livros assim hoje em dia, sendo o que sou.

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SERES INFLUENCIÁVEIS, SERES DE CULTURA, PASSÍVEIS DE FORMAÇÃO E EDUCAÇÃO

Uma coisa que fiquei pensando durante a leitura do livro com essa temática é o quanto a mente humana é flexível, maleável e possível de se influenciar. Somos animais altamente influenciáveis, mesmo aquela parcela que acha que não é. Bobagem se achar isento de influências das ideias do meio ao qual se está interagindo! 

Somos seres de cultura e o que somos é fruto de todas as formas de interação que temos com o meio ambiente no qual vivemos.

Eu cresci numa família católica. Minha visão de mundo foi a visão de mundo de meus pais, das pessoas com as quais interagia na infância, depois na adolescência, depois na maturidade. 

Minha forma de ver o mundo foi uma quando o acesso ao conhecimento de mundo que tinha era, por exemplo, as ideias dominantes da casa-grande passadas a mim pelos meios de manipulação de massas. E minha visão de mundo foi mudando à medida que novas fontes de informação e conhecimento foram sendo disponibilizadas para mim.

Em cinco décadas de vida, já acreditei em diversas abstrações da mente e cultura humanas e desacreditei de várias coisas também. 

Se hoje uma ficção do gênero terror e suspense não me afeta como afetava em outras épocas - me causando medo e me deixando impressionado -, mesmo assim a experiência nos mostra que as diversas formas de cultura nos trazem reflexões. 

Eu posso não acreditar mais em deuses e demônios, mas o mundo do século XXI foi altamente influenciado por essas abstrações de religiões conjugadas com política para tomada de poder e o mundo vive tempos terríveis novamente por causa disso.

As pessoas ao meu redor estão sendo manipuladas com ferramentas e técnicas nunca antes desenvolvidas ao longo dos milhares de anos de história do homo sapiens

As big techs criaram redes sociais utilizadas por bilhões de pessoas e os algoritmos das máquinas influenciam o comportamento em escalas nunca vistas na história. Mentiras (fake news) têm velocidade de circulação 6 vezes mais rápida que outros tipos de informações, segundo um testemunho do documentário "O dilema das redes" (2020). A Pós-verdade criou mundos paralelos que alteraram o mundo real.

É isso. Foi interessante rever uma ficção como Horror em Amityville tendo mudado minha visão de mundo como ser humano. O tema traz diversas abstrações da mente humana. 

Existir ou não demônios, fenômenos poltergeists e outras abstrações humanas não é a questão central. A questão que merece reflexão é o poder de influenciar pessoas e o mundo que essas abstrações têm.

O acesso à alteridade, à educação e a formas variadas de cultura mudaram minhas possibilidades de visão do mundo. Sigo aberto a novos conhecimentos.

William


sexta-feira, 29 de outubro de 2021

291021 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 29 de outubro de 2021.


Ao caminhar por Osasco por 75' nesta sexta-feira dei sequência a minhas reflexões sobre a busca de sentidos e formas de significar a minha existência neste momento e num eventual futuro. Essas reflexões partem de algumas questões que me colocam a pensar sobre a vida e sobre o viver.

Já estava pensando sobre a vida e o viver quando li algumas páginas do livro de Hélio de Seixas Guimarães sobre Os leitores de Machado de Assis (2004), e no meu caso, inevitavelmente, sou pautado por meus escritos e a releitura deles nos blogs que mantenho há 15 anos. Uma das coisas que fiz durante minha vida pública foi escrever e isso teve sentido.

"Antonio Candido assinala na Formação da Literatura Brasileira que um dos possíveis critérios para diferenciar períodos e escolas seria 'a destinação pública da literatura', observando que 'o escritor, quando escreve, prefigura, conscientemente ou não, o seu público, a ele se conformando'. (GUIMARÃES, 2004, p. 40)

Quando releio postagens de meus blogs - o de cultura e o sobre a categoria bancária - tenho uma noção clara a respeito do escritor ou feitor dos textos naquela época em que era estudante de Letras e dirigente sindical. Meu lugar de fala dava sentido ao desejo de comunicação com determinado público leitor. Queria compartilhar conhecimento e queria influenciar e politizar trabalhadores. Hoje, os contextos são outros e estou perdido ao seguir escrevendo.

Na margem de página da citação acima escrevi que "foi assim com o blog na época da Cassi". Eu sabia exatamente o que estava fazendo e qual era o objetivo das postagens sobre o mandato e sobre a autogestão em saúde na qual era diretor eleito. E criei um público leitor do blog. Para aquele momento, meus textos tiveram sentido e meio milhão de visualizações confirmaram que aquilo foi importante. Hoje, nem os materiais que guardei da época têm mais sentido - livros, revistas, quilos de textos políticos e históricos.

Nas caminhadas desses dias, voltei a pensar numa lista de desejos e objetivos para me guiar por esses caminhos tão difíceis que compõem a jornada da vida. Num dos piores momentos de minha existência fiz isso e aquelas metas foram muletas para seguir caminhando mesmo quando queria interromper a jornada.

Ao olhar aqueles objetivos naquela velha folha de papel vejo que ter elencado aquelas coisas teve algum sentido, pois no final das contas estou aqui até hoje, décadas depois.

Realizei alguns daqueles desejos, eles fizeram parte da jornada de meu viver nesse meio século. Alguns objetivos realizados ou não perderam completamente o sentido de acordo com quem sou hoje. As veredas da vida, aliás, mudaram a maior parte das metas traçadas. Impressionante isso! Em boa parte da jornada não fui condutor de nada, fui conduzido... E isso não foi ruim! Fica muito claro que a jornada é muito muito mais importante que a chegada a algum lugar.

Nem vontade de escrever tenho tido mais. Não vejo sentido nisso. Por outro lado, parece a morte não escrever, não registrar as coisas. Esquisito isso! Mas tenho que encontrar sentidos e significar o viver, mesmo nas condições atuais do meio onde vivemos. O cenário onde exercemos nossa jornada da vida é bem desafiador: o caos e a destruição de nosso país, da vida das pessoas da classe trabalhadora e a destruição acelerada da vida no planeta Terra.

Para fazer uma lista de desejos ou de objetivos a dar rumo na jornada da vida - utopias - é preciso estar vivo e vivo com autonomia, com relativa saúde. Como as limitações físicas começam a me impedir de realizar algumas atividades físicas - creio que não irei correr uma maratona -, devo inventar algumas que me mantenham vivo, com o sangue fino, pressão e colesterol razoáveis, órgãos vitais funcionando.

Caminhar muito pode ser uma alternativa. E na caminhada, me desconectar de toda essa merda que virou o mundo virtual, o mundo paralelo que muda a realidade material. Isso se a pessoa caminhar sem aparelhos eletrônicos, sem ser um boi com cara no cocho.

Sei lá. Caminhar e pensar, ver se encontro alguns sentidos e rumos a seguir.

William


Bibliografia:

GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século 19. São Paulo: Nankin Editorial: Editora da Universidade de São Paulo, 2004.


terça-feira, 26 de outubro de 2021

38. O mágico de Oz - L. Frank Baum



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Ainda assim", concluiu o Espantalho, "prefiro pedir um cérebro, pois um tolo não saberia o que fazer com um coração mesmo que o tivesse."

"Prefiro o coração", retrucou o Homem de Lata, "pois inteligência não traz felicidade a ninguém e não há nada melhor no mundo do que ser feliz." (p. 65)


Conheci mais um clássico da literatura mundial - O mágico de Oz - de L. Frank Baum, publicado em 1900 nos Estados Unidos. Finalmente li o livro! Antes, o mundo de Oz, Dorothy e seus amigos Espantalho, Homem de Lata e Leão Covarde, além de seu cãozinho Totó, eram personagens distantes para mim, pois sabia da existência deles de ouvir dizer e pela fama de mais de um século de cultura.

Kansas deve ser um lugar referencial para a cultura norte-americana. Alguns ícones da cultura daquele povo têm relação com Kansas, para o bem e para o mal. A região é o centro geográfico dos Estados Unidos. De lá, conhecemos Superman e Dorothy Gale, a garotinha que não quis abrir mão de sua terra natal e fez de tudo para voltar do mundo de Oz para lá.

A garota Dorothy mora com seus tios Henry e Em numa fazenda muito pobre, numa casa de madeira de cômodo único e uma tormenta a leva pelos ares. Ela vai parar no mundo de Oz e desde o primeiro instante luta para voltar para casa. 

Nessa jornada vai fazendo amigos, um Espantalho que queria ter um cérebro, um Homem de Lata que queria ter um coração e um Leão Covarde que queria ser corajoso. E assim se desenvolve a narrativa de Frank Baum.

O mágico de Oz é considerado um dos principais ícones da cultura norte-americana pela sua simbologia de que o melhor lugar do mundo é a própria pátria, sua terra natal, sua casa.

Alguns críticos apontam o Mágico de Oz como uma resposta ao clássico Alice no País das Maravilhas, ícone da cultura da Inglaterra vitoriana, antigo império do mundo e metrópole da qual os Estados Unidos se separaram como colônia no século XVIII.

A edição que tenho é fabulosa, com uma beleza e um cuidado impressionante. Foi feita pela coleção DarkSide, traduzida por Marcia Heloisa, que também traduziu Alice. As ilustrações são as originais de W. W. Denslow. Um agrado imenso aos olhos e uma leitura muito leve.

Eu particularmente achei a leitura muito mais linear e fácil que a leitura dos dois volumes de Alice, de Carroll. Mas diria que é muito importante que as pessoas de todas as idades conheçam esses dois clássicos, as aventuras de Dorothy e de Alice, personagens clássicos dos imperialistas do mundo moderno.

Após ler esses clássicos considerados infantis ou infanto-juvenis, posso reafirmar com tranquilidade a máxima de Italo Calvino, que mais vale ler que não ler os clássicos.

William


Bibliografia:

BAUM, L. Frank. O mágico de Oz. Ilustrações de W. W. Denslow. Tradução de Marcia Heloisa. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2020.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

37. Pedro Páramo - Juan Rulfo




Refeição Cultural - Cem clássicos

“... Hacía tantos años que no alzaba la cara, que me olvidé del cielo. Y aunque lo hubiera hecho, ¿qué habría ganado? El cielo está tan alto, y mis ojos tan sin mirada, que vivía contenta con saber donde quedaba la tierra. Además, le perdí todo mi interés desde que el padre Rentería me aseguró que jamás conocería la gloria. Que ni siquiera de lejos la vería... Fue cosa de mis pecados; pero él no debía habérmelo dicho. Ya de por sí la vida se lleva con trabajos. Lo único que la hace a una mover los pies es la esperanza de que al morir la lleven a una de un lugar a otro; pero cuando a una le cierran una puerta y la que queda abierta es nomás la del infierno, más vale no haber nacido... El cielo para mí, Juan Preciado, está aquí donde estoy ahora.”


Conheci as histórias de Pedro Páramo, Susana San Juan, Dolores Preciado, Juan Preciado e outros personagens intrigantes de Comala logo que entrei na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo. 

Me inscrevi numa disciplina optativa cuja temática era a morte e como os autores hispano-americanos lidavam com o tema em suas diversas formas narrativas no século vinte. Foi um dos livros mais impactantes que já li.

A disciplina era ministrada pelo professor Marcos Piason Natali e lemos diversos contos de autores diferentes e este romance do escritor mexicano Juan Rulfo. Entre os hispano-americanos constava um brasileiro, nosso Guimarães Rosa com o conto "Páramo". A matéria foi incrível! Lemos textos de Sigmund Freud e Karl Marx. Demais! A disciplina coroou minha entrada na Letras, após decidir ser aluno da USP após os trinta anos de idade.

Fiz um trabalho para a disciplina do professor Marcos P. Natali a respeito do romance de Juan Rulfo. O que me chamou muita atenção foram os diálogos entre os mortos ao longo do romance, que inova em outras técnicas também. Meu texto elenca um conjunto de recortes dos diálogos dos personagens que nos fazem refletir muito sobre a situação dos povos oprimidos e explorados. 

O texto se chama "Pedro Páramo - Narrativas da vida e da morte" e está disponível aqui no blog (clique aqui para ler). O lançamento da obra de Rulfo se deu em 1955 e o romance hispano-americano vivia o seu Boom.

É um tremendo clássico da literatura das américas! Ao reler o texto que fiz, vi o quanto o cenário e os personagens retratam toda uma história de misérias e explorações de nossos povos sul-americanos, exatamente como estamos vivendo neste momento no Brasil golpeado e destruído após 2016. Abaixo um excerto do trabalho que fiz:

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Pedro Páramo inova, porém, ao deixar que os mortos falem por si mesmos. Mais que isso: deixa-nos ouvir os murmúrios dolorosos de vidas mal-vividas e de mortes “mal-vividas” pois, agora no reino dos mortos, descobrimos que as almas penam por aí e que não há sequer a salvação esperada, e os sofrimentos seguem até nos corpos, inclusive, com as águas das chuvas:

“...Lo que pasa con estos muertos viejos es que en cuanto les llega la humedad comienzan a removerse. Y despiertan.”
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Enfim, é uma obra para reler sempre! Um clássico que nos põe a pensar sobre a condição humana.

William


Bibliografia:

RULFO, Juan. Pedro Páramo. Edición de José Carlos González Boixo. Catedra Letras Hispánicas. Madrid, 1998.

domingo, 10 de outubro de 2021

101021 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Domingo, 10 de outubro.


"Fidel se levantou e prosseguiu: 'Sim, quanto mais penso nisso, mais percebo como Marx estava certo quando disse que não pode existir uma verdadeira revolução enquanto não houver uma revolução mundial. Não somos burros a ponto de acreditar que podemos construir um pequeno e valioso Estado comunista vivendo em esplêndido isolamento'." (p. 453)


Reli umas 70 páginas de um livro sobre a amizade entre Ernesto Che Guevara e Fidel Castro. O livro foi presente dos companheir@s de um curso de formação que realizamos em 2010, quando eu atuava como secretário de formação da confederação dos bancários da CUT.

Em 1967, no dia 8 de outubro, Ernesto Che Guevara foi executado pelo governo boliviano. Che acreditava na revolução socialista, na tomada do poder do Estado das mãos dos capitalistas pelas classes populares, trabalhadores do campo e das cidades. Che morreu lutando por esse ideal solidário com os povos do mundo.

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REVOLUÇÃO

"1. Ato ou efeito de revolver(-se) ou revolucionar(-se). 2. Rebelião armada; revolta, sublevação. 3. Transformação radical da estrutura política, econômica e social, dos conceitos artísticos ou científicos etc." (Míniaurélio. 6ª edição. Curitiba: Positivo, 2004)

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REVOLUÇÃO BURGUESA (CAPITALISTA)

Estamos em outubro de 2021. O Brasil sob o comando de Bolsonaro, Guedes e demais ministros. Sob o comando dos executivos e legislativos eleitos em 2018. Sob o comando do STF ("com o Supremo, com tudo"). O Brasil sob o comando de Bolsonaro, do "Centrão", do Temer e do MDB, dos tucanos e da mídia empresarial. Pasmem! O Moro e o Dallagnol não estão presos! ainda querem ser políticos... O Brasil pós PEC 95, após destruição da previdência pública, da saúde pública, da educação pública, dos direitos trabalhistas e do emprego formal; da Petrobras, da Eletrobras, dos Correios. 

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O golpe de 2016 foi uma revolução capitalista no Brasil: "Transformação radical da estrutura política, econômica e social".

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Sob o comando de Bolsonaro e dos golpistas da casa-grande morreram em 18 meses de pandemia de Covid-19 mais de 600.000 brasileiras e brasileiros. Segundo especialistas, 4/5 dessas mortes poderiam ser evitadas se as autoridades estatais tivessem tomado as medidas necessárias: meio milhão de vítimas do regime apoiado pelos capitalistas do Brasil... 500 mil mortos na conta dos golpistas, da casa-grande, dos bolsonaros e bolsonaristas!

A quase totalidade dos mortos é composta pelo povão, pelas classes subalternas: gente preta, parda, índia. Por outro lado, a maioria dos vacinados com as duas doses e as doses de reforço é das classes mais altas na pirâmide social. Quem tem mais chances de seguir morrendo sem as medidas necessárias pelos governos são os pobres e as classes intermediárias. Genocídio do povo brasileiro é o que vivemos após a revolução capitalista brasileira efetuada a partir do golpe de 2016!

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REVOLUÇÃO DOS DESPOSSUÍDOS (SOCIALISTA)

Cara, entra década, sai década, só vemos a piora das condições de vida dos 99% de seres humanos no mundo. O 1% está acabando com a chance de vida no planeta Terra, com a expectativa de vida da imensa maioria dos seres vivos, e planejam seguir destruindo a vida, destruindo tudo. Só porque eles "podem", segundo dizem os bilionários. Planejam sobreviver no espaço após inviabilizar a vida na Terra.

E nós? Não vamos impedir isso? Que porra é essa de aceitação estúpida de inviabilização de nossas vidas por parte de alguns reles mortais?

Nós poderíamos impedir o fim de tudo. Mas não temos lideranças para nos guiar, para pensar estratégias para derrotar esses desgraçados do 1%.

Como faz falta termos um Che para nos guiar! Como faz falta!

William


REID-HENRY, Simon. Fidel e Che: uma amizade revolucionária. Tradução de Beatriz Velloso. São Paulo: Globo, 2010.


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

36. Através do espelho e o que Alice encontrou por lá - Lewis Carroll



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Nesse momento a Rainha Vermelha recomeçou. 'Sabe responder a perguntas úteis?' disse. 'De que é feito o pão?'

'Isso eu sei!' Alice exclamou, animada. 'Pega-se um pouco de farinha...'

'Onde se colhe a farinha?' perguntou a Rainha Branca. 'Num jardim, ou nas cercas vivas?'

'Bem, ela não é colhida', Alice explicou; 'é moída...'

'De pancada?' disse a Rainha Branca. 'Não devia omitir tantas coisas.' " (p. 134)


Amigas e amigos leitores, esse diálogo maluco acima não é um trecho daquele programa absurdo de "debates" do canal de notícias bolsonarista. 

O excerto acima é ficção de verdade, é um trecho de um romance inglês. Quem diria que diálogos ficcionais como esse se tornariam realidade num país sul-americano no século XXI... 

(todos os absurdos imagináveis e inimagináveis viriam a acontecer no Brasil governado por genocidas, corruptos e dementes em 2021)


CONHECENDO ALICE AOS 50 ANOS

A obra que acabei de ler completou neste ano 150 anos. Através do espelho é o segundo livro com aventuras da garotinha Alice, personagem com 7 anos e meio de idade nesta estória - ela tinha 7 anos quando entrou na toca do coelho. Agora ela atravessou o espelho de sua sala e viveu novas aventuras.

Em Aventuras de Alice no País das Maravilhas (1865), a jovem Alice vê um coelho apressado passar por ela, com um relógio em mãos se dizendo atrasado e, por curiosidade, sai atrás do coelho. Entra na toca com ele, cai no mundo subterrâneo (depois chamado de "Wonderland") e lá no fundo da toca vai viver diversas aventuras. 

Alice, uma garota da Inglaterra vitoriana, o império do mundo naquela época, tenta lidar com aquele mundo subterrâneo ou "das maravilhas", seus personagens e suas regras com uma lógica racional de seu mundo real. E isso não funciona lá. 

Em Através do espelho e o que Alice encontrou por lá (1871), a jovem Alice está sozinha em casa, desta vez não é verão, é inverno. Está só, mas está com suas gatinhas. A gata Dinah teve filhotes: uma gatinha branca e uma gatinha preta, Kitty, a responsável por tudo, segundo Alice. É nesse contexto que Alice atravessa o espelho e vive novas aventuras.

Novamente, as regras do mundo de Alice não funcionam naquele ambiente, tudo é invertido, diferente. Para ficar mais interessante a estória, as aventuras da jovem se dão num tabuleiro de xadrez. É muito legal a forma como Carroll desenvolveu esse segundo livro. Nas duas aventuras, Alice lida com súditos e rainhas amalucados.

Finalmente conheci os clássicos de Alice, do reverendo Charles Lutwidge Dodgson, escritor e professor em Christ Church, universidade onde ensinou a vida toda. Dodgson nasceu em Cheshire (como o gato de Cheshire na 1ª estória). O autor assinou os romances com o pseudônimo de Lewis Carroll.

Eu tenho 3 edições diferentes desses clássicos. Uma em inglês e duas em português. As ilustrações originais de John Tenniel são incríveis! São indissociáveis da obra de Carroll. Esta edição que li da Zahar, com ilustrações-colagens de Adriana Peliano está maravilhosa, a proposta da artista é muito agradável para os leitores. 

Um século e meio depois de publicados, os romances com as aventuras de Alice se tornaram muito maiores que seu autor, que até hoje desperta polêmicas por causa de suas relações com crianças, meninas especificamente. São décadas de debates e questionamentos que avaliam se houve ou não pedofilia na relação do autor com crianças. Nunca houve acusações formais, sequer por parte das crianças envolvidas. Basta lembrar que Alice Liddell faleceu bem idosa e nunca se pronunciou sobre a questão.

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ALICE E DEMAIS FÁBULAS NÃO FIZERAM PARTE DE MINHA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

Cada vez que conheço um novo clássico da literatura mundial, preencho uma espécie de lacuna cultural. 

Às vezes, minha esposa fica impressionada ao me ouvir dizer que não conheço Alice, que não conheço o Mágico de Oz, ou o personagem Peter Pan etc. Talvez a explicação seja a minha infância e adolescência após os 10 anos de idade no Brasil dos anos oitenta e noventa.

Tento lidar com essa "culpa" da forma que dá. Só fui conhecer Moby Dick este ano. Ainda vou ler e conhecer Gulliver e Robinson Crusoé, os livros estão na fila de leitura, junto com o personagem capitão Nemo, de Júlio Verne. Esses personagens famosos estão juntos com um monte de clássicos que não li ainda. Espero ter tempo de ler dezenas de obras literárias, caso siga vivo nos próximos anos.

Acho que dei sorte na vida. Sobrevivi à adolescência (um momento de explosão vulcânica no planeta humano). Sobrevivi às mortes severinas do Brasil da casa-grande e das senzalas. Não li um monte de clássicos, mas li um monte de best sellers dos anos setenta e oitenta. Estudei e completei o ensino fundamental e completei dois cursos universitários. Não posso reclamar de nada.

As leituras das aventuras da personagem Alice não foram fáceis para mim. Li 3 vezes o primeiro livro e agora li o segundo. Vi vários vídeos de resenha, comentários de professores e críticos e as informações me ajudaram bastante na compreensão que adultos podem captar da leitura dos dois livros.

É provável que ainda vá ler de novo os livros de Alice, talvez leia a edição em inglês. As possibilidades de leitura são impressionantes.

É isso! Mais um clássico lido. É melhor ler que não ler um clássico. Acho até que vou pegar o Mágico de Oz agora...

William


Bibliografia:

CARROL, Lewis. Alice: edição comemorativa - 150 anos. Colagens Adriana Peliano; tradução Maria Luiza X. de A. Borges. 1ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.


081021 - Diário e reflexões


Desenho feito em Pernambuco, 2010.
Durante um curso de formação política.

Refeição Cultural

Osasco, 8 de outubro. Brasil dos 600.000 mortos de Bolsonaro.


QUEM SOU EU NESTE MUNDO?

Ao acordar nesta sexta-feira no Brasil de outubro de 2021, fiquei alguns minutos na cama olhando pro teto e me levantei. Alguns pensamentos me dominavam, coisas do ontem. A eles se somaram as coisas do hoje, ao contatar o cotidiano da vida humana. Os tempos são de tristezas alheias e pessoais, desarranjos familiares, desorganização de um mundo anterior, mais coletivo. Estamos todos perdidos. Ontem hoje e o amanhã se parecem muito: desalento, falta de esperanças e perspectivas.

Após uma hora e pouco de contatos com a realidade dura e que entristece a mim e às pessoas não alienadas e com alguma estrutura psicológica de ética e caráter, fui fazer a minha parte na sobrevivência, fui comer alguma coisa de desjejum. Tenho optado por comer frutas de época com mel e granola. Sei que é saudável e pode alongar minha saúde por um tempo. (Falar de comida é uma ostentação, uma opulência... toda comida no prato é um privilégio no Brasil da casa-grande e do 1%. Comer nos dá culpa, enquanto milhões passam fome)

A pergunta "Quem sou eu neste mundo?" é um dos temas que a crítica de literatura aponta como reflexão a partir da obra clássica de Lewis Carroll, As aventuras de Alice no País das Maravilhas (1865). Quem sou eu? Quem somos nós? Quem sou eu neste mundo de Bolsonaro, Guedes, Temer, Moro? Quem fui naquele Brasil dos anos oitenta, quando não pude ser criança direito? Quem somos neste mundo de estupradores identificados e inocentados, corruptos da casa-grande identificados e impunes flanando pelos logradouros públicos bem na nossa frente? Quem somos nós com essa coisa nas veias que nem sequer pode ser sangue de barata, pusilânimes que não fazemos nada com esses estupradores e corruptos da casa-grande e que não fazemos nada para salvar a Amazônia, o Pantanal, os biomas e a natureza eliminando meia dúzia de humanos que decidiram extinguir a vida na Terra? Quem somos nós? Quem sou eu?

Chega! Nem quero registrar mais nada que pensei nessa manhã toda.

William


Post Scriptum: um dos temas de minha manhã de contatos com a dura realidade brasileira foi justamente a informação que recebi pela manhã sobre o desligamento de alguns profissionais de saúde de nossa Caixa de Assistência em Pernambuco, local onde fiz o desenho que ilustra esta postagem. Não tenho detalhes, mas sei que a Cassi que construímos está sendo desfeita, vaporizada. Na época do desenho (2010), eu era secretário de formação política de nossa confederação de trabalhadores do ramo financeiro. Hoje, a direção de nossa autogestão em saúde está desmontando a estrutura própria da Cassi dos funcionários do BB. É o mundo se desfazendo e nós não estamos interrompendo a destruição de tudo, da vida. Quem somos nós que permitimos tudo isso? Quem somos nós?


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

061021 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 6 de outubro.


VER UM IPÊ BRANCO FLORIDO É COMO A VIDA: UMA OPORTUNIDADE ÚNICA


Que registrar neste blog neste momento?

Enquanto caminho pela manhã, penso um monte de coisas. Depois da caminhada, já era o que refleti. Alguma coisa poderia ser de interesse comum, outras coisas eram de interesse puramente pessoal. 

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CASSI - Outro dia, por exemplo, pensei em criar uma seção WIKI no blog Categoria Bancária para compartilhar gratuitamente o que sei sobre gestão em saúde. Fui gestor por 4 anos de uma autogestão de trabalhadores.

Seria uma seção "What I Know Is" (O que eu sei sobre), mas quando penso em começar os textos já vislumbro que o trabalho será de pouco alcance - desanimei de escrever para dez pessoas -, e qualquer produção de texto dá muito trabalho para quem a cria. Eu aprendi muita coisa sobre a Cassi, modelos assistenciais e autogestão de trabalhadores, mas avalio que o conhecimento valeu mais para aquele momento de luta. Naquela época do mandato eletivo, criei um público leitor. Começamos com alguns leitores e ao final do mandato, os textos eram lidos por centenas e milhares de leitores. Valeu para o momento.

Nesses dias, acabei sendo útil para a coletividade porque estive em algumas conversas virtuais sobre o tema com dirigentes da classe trabalhadora.

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EXPECTATIVA DE VIDA - A expectativa de vida do grupo social ao qual pertenço é alta, é mais alta que a do povo brasileiro em geral. Temos caixas de assistência à saúde e previdência na comunidade BB e isso alonga nossa expectativa de vida. O fato tem suas vantagens e desvantagens. Nos faz arrogantes e privilegiados, uma desvantagem ética. Também nos possibilita uma oportunidade social para demonstrar que associativismo e cooperativismo de grupos humanos podem trazer benefícios coletivos. Isso seria uma vantagem, se não estivéssemos caminhando para o cada um por si, uma estratégia dos nossos inimigos de classe que está dando certo. Azar o nosso!

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A BUSCA DE SENTIDOS - Enquanto caminhava, pensava na busca de sentidos para a vida. Por estarmos vivos temos que dar sentido à vida (opinião minha), ter objetivos e motivações ajudam no viver. O tempo todo temos que significar e ressignificar a existência da vida humana e das coisas. Evidente que essa coisa de significação é uma coisa própria da espécie homo sapiens. A natureza é. Mas os conceitos humanos devem ser lapidados. Ideologia. Narrativas. Passei a vida toda dizendo isso: "a natureza é, as coisas são como são". Ledo engano! Essa narrativa é utilizada por nossos inimigos de classe há milênios. A miséria da maioria humana em detrimento de alguns poucos não é uma coisa natural. É uma coisa construída por nós. O futuro é construído por nós hoje. Se quisermos derrotar o 1% que está inviabilizando a vida no planeta, temos que fazer isso a partir de hoje. O futuro é construído hoje por nós. 

Eu sou minha identidade. Minha identidade está em minha cultura, meu comportamento, meus sentimentos. Está em meu cérebro. Eu sou tudo que se acumulou em meus 86 bilhões de neurônios nesses 52 invernos. Sou o meio onde existi e existo. Não acredito em nada além do mundo material. Já acreditei em tudo além do mundo material. Hoje, não mais. Respeito o tempo de cada pessoa nessa vida, nesse mundo. Sou meu cérebro funcionando bem (ou mal), juntamente com o conjunto dos órgãos do meu corpo de homo sapiens. Um entupimento na corrente sanguínea, o coração parar de bombear o sangue, fígado rins pulmões e hormônios vários colapsarem e já era. Não serei mais nada. Não quero apressar o fim. Por isso ando corro e tento levar uma vida saudável - depois de abusar décadas de meu corpo. Algo dentro de mim não está bem - mas a quilometragem rodada é diferente da idade (já me corroí tanto em ódio e tristeza...). Acho que não duro a expectativa de vida do meu grupo social. Tenho consciência que viver depende também de mim, de meus atos. Alguma coisa faço por minha saúde. Não muito, mas faço. E sei que estar vivo é oportunidade. Viver é oportunidade.

A vida é uma oportunidade como a oportunidade de ver um ipê branco florido. As flores se mostram pra nós e pros polinizadores e duram uns dois dias. E só. E como vale a pena ver um ipê florido! É como a vida. Entendo que vale a pena estar vivo.

É isso!

William


terça-feira, 5 de outubro de 2021

Alice (e nós) no tabuleiro (do mundo)



Refeição Cultural

" 'Veja só! Está demarcado exatamente como um grande tabuleiro de xadrez!' Alice disse por fim. 'Deve haver algumas peças se mexendo em algum lugar... ah, lá estão!' acrescentou encantada, e seu coração começou a disparar de entusiasmo enquanto continuava. 'É uma partida de xadrez fabulosa que está sendo jogada... no mundo todo... se é que isso é o mundo. Oh, como é divertido! Como eu gostaria de ser um deles. Não me importaria de ser um Peão, contanto que pudesse participar... se bem que, é claro, preferiria ser uma Rainha.'

Ao dizer isso, olhou de rabo de olho, um tanto acanhada, para a verdadeira Rainha, mas sua companheira apenas sorria amavelmente e observou: 'É fácil arranjar isso. Você pode ser o Peão da Rainha Branca, se quiser, pois Lily é muito novinha para jogar; você está na Segunda Casa; quando chegar à Oitava Casa, será uma Rainha...' Exatamente nesse instante, sabe-se lá por quê, as duas começaram a correr." (p. 35/38)


Certa vez, muito tempo atrás, peguei emprestado de meu primo Jorge Luiz um livro de xadrez para aprender no mínimo o nome das peças, as regras do jogo, como as peças se movem etc. Eu ficava inconformado por não saber jogar xadrez por causa do filme de Ingmar Bergman O Sétimo Selo (1956). Nunca prestei pra jogar, mas aprendi o que precisava para ver e ouvir jogadores falando a respeito dos movimentos das peças no tabuleiro. 

Após ler o clássico As aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, decidi iniciar a leitura de Através do espelho e o que Alice encontrou por lá (1871), publicado por Carroll seis anos após o sucesso de Alice. Minha nossa! A lógica do livro é bem diferente! Enquanto no enredo a personagem infantil tem alguns meses de diferença entre a 1ª e a 2ª aventura (entre 7 e 8 anos), a exigência em relação ao leitor aumenta significativamente. Pelo menos essa é a minha impressão inicial. A começar pela relação entre a estória e o jogo de xadrez.

Li os dois primeiros capítulos (para tudo... a compreensão está ruim!). Vi uma crítica a respeito do livro na internet. Reli os dois capítulos (mas e a relação com o xadrez?). Fui reler as regras do jogo de xadrez, pois havia esquecido quase tudo. Reli parte do segundo capítulo para compreender melhor o que estava lendo. Ufa! Após esse percurso inicial é que posso dizer que Alice entrou no jogo como um Peão Branco e na 2ª casa da Rainha Branca. Dá pra ver Alice ali na foto do tabuleiro rsrs.

Enfim... que interessantes reflexões podemos tirar só desse começo de aventura. Eu, por exemplo, relembrei claramente o quanto é importante ter noções das coisas, noções! Se as pessoas tivessem ao menos noções das coisas, a vida em sociedade poderia ser bem melhor.

Mas vivemos num mundo sem noção! As pessoas não têm sequer noções básicas sobre as coisas do mundo e da vida! Que foda isso!

E, sem noções, as pessoas vão criando e espalhando mentiras, ódios, maledicências, vão sendo manipuladas por alguns reis e rainhas neste tabuleiro mundo que está se acabando, ou melhor, sendo acabado por alguns desgraçados em posições de reis e rainhas. Estamos no tabuleiro, mas teríamos que jogar. Aff!

William


Bibliografia:

CARROL, Lewis. Aventuras de Alice no País das Maravilhas & Através do espelho e o que Alice encontrou por lá. Edição comemorativa - 150 anos. Zahar, Rio de Janeiro, 2015