quinta-feira, 14 de setembro de 2023

ICL: 13 livros para compreender o Brasil



Refeição Cultural

Curso do ICL: "13 livros para compreender o Brasil"


Este foi um dos primeiros cursos que fiz no Instituto Conhecimento Liberta (ICL), um projeto revolucionário de compartilhamento de cultura e saber de forma acessível para todas as pessoas. Por estar na grande São Paulo, tive o privilégio de ir às aulas presenciais na sede da instituição.

Antes de comentar abaixo as obras que vimos nas aulas, deixo para as leitoras e leitores do blog a sugestão de avaliarem a possibilidade de se inscreverem no ICL para fortalecerem o projeto e para acessarem uma gama enorme de cursos nas mais diversas áreas do saber. 

Quando vi o projeto do ICL, me lembrei do desejo que tive ao criar este blog lá em 2007 para compartilhar conhecimento de forma gratuita. Se possível, façam a assinatura solidária e ajudem mais pessoas a participarem do projeto e terem acesso ao conhecimento.

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Este curso apresentou a seguinte proposta de estudos:

"O curso apresenta 13 livros fundamentais para a compreensão da história e da sociedade brasileira. Com efeito, a partir de leituras comentadas, os professores Lindener Pareto e Suze Piza irão debater as grandes questões que marcam a cultura nacional. Movimento Negro, História das Mulheres, A questão Indígena e tantos outros temas da vida brasileira a partir de grandes clássicos como Euclides da Cunha, Carolina Maria de Jesus e Jessé Souza. Ao mesmo tempo, o curso apresenta uma proposta de leitura pública, incentivando a participação do público e celebrando a construção coletiva da leitura crítica."

A partir dessa proposta, a cada semana nos encontramos com os professores para refletirmos sobre uma obra e um autor ou autora comentados.

Participei de quase todas as aulas presenciais e já li alguns dos livros comentados no curso. Outros, comprei e ainda não fiz a leitura.

Neste momento da postagem, estou revendo as aulas gravadas e refletindo novamente sobre as obras e as questões debatidas.

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Aula 1: A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert

Esta primeira aula não foi presencial em 5/10/22. Adquiri o livro em edição em papel. Ainda não li o livro. 

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Aula 2: O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul, de Luiz Felipe de Alencastro

Fui a esta aula presencial em 19/10/22. Não tinha o livro e o adquiri no formato digital. Não o li ainda.

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Aula 3: Liberdade, de Luiz Gama

Participei da aula (26/10/22). Fiquei impressionado com a história de Luiz Gama e com a produção intelectual desse brasileiro extraordinário. Adquiri o livro em formato digital e consegui ler o livro, que faz parte de uma coletânea sobre a vida e obra desse intelectual em diversos volumes. Ler comentário inicial aqui e sobre a leitura aqui.

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Aula 4: Os sertões, de Euclides da Cunha

Participei da aula em 9/11/22. Este livro é um dos livros que comecei a ler faz muito tempo e nunca terminei a leitura. Li a primeira parte "A terra" e a segunda parte "O homem" décadas atrás. Acabei deixando de ler à época a terceira parte "A luta" porque já sabia no que havia dado aquilo: mais uma chacina vergonhosa praticada pelas elites brasileiras contra os movimentos populares. Por causa do curso, acabei retomando a leitura, mas ainda falta o final, a 4ª expedição. Comentários aqui.

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Aula 5: Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus

Participei da aula (16/11/22). Ainda não li este livro, que já adquiri. A leitura coletiva de alguns trechos do diário da autora foi marcada por momentos de emoção, pois os relatos são de fome, de miséria na favela e resistência de uma mulher negra que acorda todos os dias sem a certeza de que conseguirá algum dinheiro catando papel ou outros recicláveis para alimentar seus filhos. (revi a aula na plataforma em 12/9/23).

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Aula 6: Macunaíma, de Mário de Andrade

Participei da aula presencial em 23/11/22 (revi a aula na plataforma em 12/9/23). Já li umas três vezes Macunaíma, a última vez para a aula do ICL. Clique aqui para ler a respeito da última leitura, feita na ocasião do curso. Fiz uma reflexão sobre aquele momento vivido pelo Brasil.

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Aula 7: Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa

Estive na aula em 30/11/22. Tenho uma longa história com este livro. Durante anos tentei ler o romance até o fim e não conseguia. Hoje é um livro que já li e releio sempre. Das várias postagens no blog, esta aqui é após a conclusão da leitura. Revi a aula na plataforma na madrugada de 13/9/23.

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Aula 8: Como o racismo criou o Brasil, de Jessé Souza

Participei da aula em 6/12/22. Temos a edição impressa do livro em casa, mas não o li ainda. Revi a aula na plataforma em 10/9/23.

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Aula 9: Genocídio do negro brasileiro, de Abdias do Nascimento.

Estive na aula em 14/12/22. Não li o livro ainda, mas o adquiri no formato digital no dia que revi a aula na plataforma em 11/9/23. Após a aquisição, já li o Prefácio à Edição Brasileira, por Florestan Fernandes, o Prefácio à Edição Nigeriana, por Wole Soyinka, e o Prólogo: A História de uma rejeição, do próprio Abdias Nascimento. Textos fantásticos!

Post Scriptum (10/10/23): A leitura do livro de Abdias Nascimento foi impactante. A crítica direta e objetiva que ele faz aos intelectuais brasileiros que usaram de suas posições para endossar ou amenizar a tragédia do racismo no país é única. Só fui ver algo parecido em Jessé Souza, décadas depois de Abdias. Ler comentário sobre a leitura aqui. Revi a aula hoje, após ler a obra.

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Aula 10: Insubmissas Lágrimas de Mulheres, de Conceição Evaristo

Participei da aula presencial em 21/12/22. Tenho o livro em formato digital e já li a obra. Ler Conceição Evaristo é um privilégio para qualquer pessoa. Já li algumas obras da autora e ela é fantástica! Ler aqui o comentário que fiz sobre este livro. Revi a aula na plataforma em 13/9/23.

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Aula 11: Brasil - Mito fundador e sociedade autoritária, de Marilena Chauí

Esta aula foi gravada em janeiro de 2023 pela professora Suze Piza. Adquiri a obra pela internet em formato digital e não a li ainda. Assisti à aula pela plataforma em 13/9/23. A professora fez uma explanação sobre o contexto no qual a obra foi lançada pela filósofa Chauí, na virada dos anos dois mil e durante as "comemorações" dos 500 anos do "Descobrimento". Muito esclarecedora a questão do "mito fundador" que nos acultura desde que nascemos no Brasil.

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Aula 12: Torto arado, de Itamar Vieira Junior

Li o livro antes da aula em 24/1/23, mas não consegui chegar a tempo de participar da aula, pois estava na Colônia do Sinpro SP, na Praia Grande. Fiz uma postagem sobre o livro: ler aqui.

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Aula 13: Banzeiro òkòtó, de Eliane Brum

Aula gravada e transmitida pela plataforma. Não li o livro ainda. Revi a aula em 14/9/23. Adquiri o livro no formato digital. Li dois capítulos e fiquei encantado com o conteúdo e a proposta de reflexão da autora. 

Ao ler o capítulo "desestrutura" me senti representado pelas palavras de Brum. Me identifiquei com a descrição de desconforto da escritora por ser uma branca no Brasil. Não é fácil lidar com o fato de ser um branco privilegiado num país racista que desde as invasões europeias define a vida de cada um de nós por sua estrutura racista, violenta e autoritária.

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Aula 14: Roda de conversa sobre leituras públicas e formação de coletividades

Participei desse encontro presencial de fechamento do curso em 30/1/23. Revi a aula na plataforma em 14/9/23. Na exposição de ideias foram feitas reflexões profundas sobre livros e meios de registro e transmissão de informações e conteúdos ao longo da história humana. Fiz intervenção ao final. Tive a oportunidade de expor o que penso várias vezes durante o curso.

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REFLEXÕES

Gostei muito do curso! Ao longo do processo de aprendizagem, acabei lendo livros que talvez não leria se não fosse a referência do curso. Isso é muito bom, a programação organizada pelos professores Suze Piza e Lindener Pareto nos abre novas perspectivas de leitura de mundo.

Foi assim com a leitura sobre Luiz Gama (Liberdade) e o romance de Itamar Vieira Junior (Torto arado). Também acabei lendo um livro que não havia lido ainda da autora Conceição Evaristo (Insubmissas lágrimas de mulheres).

Em relação aos livros e autores que já conhecia, adorei ouvir reflexões novas sobre os temas. Os clássicos de Mário de Andrade (Macunaíma), Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas) e Euclides da Cunha (Os sertões) são parte da história da cultura brasileira, para o bem e para o mal.

E ficam as leituras novas como desafios intelectuais para mim, pois ainda tenho que ler 7 obras abordadas durante o curso. Já as tenho todas e agora é só mergulhar nas leituras nos próximos meses de vida.

O percurso de leitura será extraordinário para mim por causa do leque de conhecimento contido nas obras: A queda do céu, de Kopenawa; O trato dos viventes, de Alencastro; Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus; Como o racismo criou o Brasil, de Jessé Souza; Genocídio do negro brasileiro, de Abdias Nascimento; Brasil - Mito fundador e sociedade autoritária, de Marilena Chauí; Banzeiro Òkòtó, de Eliane Brum.

Deixo meu agradecimento aos professores Suze Piza e Lindener Pareto pela oportunidade e ao ICL.

Sigamos estudando e aprendendo sobre nós mesmos, a vida, o Brasil e o mundo.

William


domingo, 10 de setembro de 2023

Livro: Cuba insurgente - Maria Leite



Refeição Cultural

Osasco, Brasil. América do Sul.


10/9/23 (13h41)

O livro da professora Maria Leite, sobre a pedagogia em Cuba, é um dos livros que peguei para ler desde que passei a estudar um pouco sobre o país e o povo cubano, há mais ou menos um ano. É um livro exigente, na minha opinião, porque ele é profundo e para mim livros assim não são de leitura rápida, leio e releio parágrafos e páginas, vou e volto, paro e sigo.

Neste momento em que abro esta postagem, ainda faltam cem páginas para terminar a leitura do estudo sobre a pedagogia cubana, é um estudo de 40 anos de vida da doutora e mestra Maria Leite, um estudo profundo sobre a identidade e a educação em Cuba, principalmente após a Revolução de 1959. Já aprendi muito com a leitura feita até aqui. 

Acho que é hora de pegar na leitura até acabar. Já vivi a experiência fantástica em minha vida de ir a Cuba por duas semanas e conhecer Havana e mais três cidades do país, Trinidad, Santa Clara e Varadero. Já me demorei demais na leitura do livro.

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ANTES, UMA DIGRESSÃO

Escrever na rede mundial pra quem? 

Uma coisa que tenho refletido muito é sobre a profundidade e a superficialidade das coisas, inclusive da sociedade humana. Os problemas atuais do mundo são complexos e toda complexidade deveria ser tratada de forma complexa. Mas os tempos são de superficialidade. 

Não quero ser superficial, nem quero escrever superficialidades como escritor de blog. Faço há tempos um esforço de construir textos enormes, com citações e reflexões para contribuir com o compartilhamento de conhecimento humano de forma gratuita. São mais de 5 mil postagens em meus blogs. Seguirei escrevendo.

No entanto, talvez eu mude um pouco o tipo de conteúdo em algumas postagens. Não sei até que ponto vale a pena eu ficar um dia todo para fazer um texto bem trabalhado para disponibilizar na rede mundial e não saber se o conteúdo foi lido por alguns humanos ou se o conteúdo foi apenas roubado pelas máquinas da mentirosa "Inteligência Artificial", que não é inteligente e não cria nada, só rouba tudo que se escreveu até hoje, usa a nossa criação textual sem citar a fonte e engana o povo do mundo como se a máquina que compila textos fosse "inteligente".

Como saber se as centenas de acessos diários aos meus textos são máquinas ou seres humanos? Acho que não tem como saber. Imagino que é da natureza do que nós escritores fazemos viver com a dúvida se alguém leu o que criamos. Até quem edita um livro pode ter os livros vendidos e os mesmos serem colocados nas estantes de metro (de enfeite) sem nunca serem lidos...

Enfim, vamos seguir com a leitura do livro profundo e sério da professora Maria Leite. O deleite do novo conhecimento, no fundo, é meu, é do leitor da obra em si.

Aliás, quando penso ainda nas redes sociais das big techs, aí é que eu fico danado com esse mundo da aparência e da superficialidade... A hora que eu tiver coragem de não saber mais sobre os outros, acabo de vez com as contas que tenho nas redes sociais.

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10/9/23 (21h30)

CAPÍTULO 4

A leitura do Capítulo 4 traz reflexões muito atuais perante os dilemas da sociedade humana, dilemas não só para a República Socialista de Cuba como também para os demais países sob a hegemonia do modelo capitalista. A autora nos falou bastante sobre o modelo de educação cidadã em Cuba.

O capítulo abordou os seguintes pontos:

A EDUCAÇÃO E AS NOVAS DIRETRIZES

4.1 O sistema nacional de educação em Cuba; 4.2 O plano de estudos "E"; 4.3 Os conselhos na atividade educacional; 4.4 As relações entre trabalho e educação; 4.5 A educação para a vida cidadã.

Os "valores morais" devem ser como uma bússola orientadora das conquistas e manutenção do socialismo.

DIREITOS DAS CRIANÇAS E JOVENS CUBANOS

"O Estado Socialista, como poder do povo, garante que não haja criança sem escola, comida e vestuário; que não há jovem que não tenha a oportunidade de estudar; que não há quem não tenha acesso a estudos, cultura e esportes" (Artigo 9, CUBA, 1992)

AS RELAÇÕES ENTRE TRABALHO E EDUCAÇÃO

(...) Em O Capital, a análise da categoria trabalho é apresentada em sua dimensão ontológica, ou seja, a partir da ideia de que é pelo trabalho que se constitui a vida humana ao longo da história..." (p. 139)

Essa parte foi tão profunda na análise que é necessário fazer aqui algumas citações para quando eu for reler a postagem.

A autora cita Marx à página 139:

"Antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria natural como uma força natural. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para a sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a Natureza externa a ele e ao modificá-la ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. Ele desenvolve as potências nela adormecidas e sujeita o jogo de suas forças a seu próprio domínio (MARX, 1996, P. 297)"

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11/9/23 (22h08)

"(...) Na concepção marxista, a divisão técnica e social do trabalho na sociedade capitalista gera a alienação do homem em relação ao próprio trabalho e à natureza, desumanizando-o. Marx une o ato produtivo ao ato educativo, explicitando que a unidade entre a educação e a produção material deve ser admitida como meio decisivo à emancipação humana. No pensamento marxista, a separação entre ensino e trabalho faz da escola uma instituição 'morta'." (p. 139)

Principalmente após a Revolução de 1959, "a escola cubana deposita no trabalho a possibilidade concreta de elevação cultural e desenvolvimento dos seres humanos." (p. 143)

Após a visita a Cuba, acabei vendo diversos vídeos na internet que mostram Che Guevara e os cubanos em intenso trabalho nos primeiros anos da república socialista. É muito legal ver as imagens da época.

O TRABALHO CAPACITA O HOMEM PARA A REALIDADE DA VIDA

"(...) Segundo Castro Ruz (1998, p.12), 'há de ser o trabalho o grande pedagogo da juventude e, simplesmente, é ele que pode capacitar o homem para entender seus deveres e a realidade da vida'." (p. 144)

As leis da didática em Cuba atuam no sentido de criar de forma consciente o amor pelo trabalho socialmente útil nos estudantes e jovens do país.

"A Constituição de 2019 assegura, em seu Capítulo I - Dos fundamentos políticos, Título II, Artigo 31, que: 'o trabalho é um valor primordial de nossa sociedade. É um direito, um dever social e um motivo de honra para todas as pessoas em condições de trabalhar' (CUBA, 2019c)." (p. 147)

No último tópico do Capítulo 4 - "A educação para a vida cidadã" - nos chama a atenção a leitura de que tem sido um desafio para o sistema educativo cubano manter os valores da revolução para as novas gerações, cercadas de novas tecnologias e apelos consumistas.

APARELHOS CELULARES, A ARMA DO INIMIGO DO REGIME: Uma imagem que ficou na minha memória, das caminhadas por Cuba, principalmente em Havana Velha, foi a imagem das pessoas - jovens principalmente - com as caras nas telas de celulares pelas ruas... fiquei triste ao ver isso. Não à toa, diversos cidadãos cubanos com quem conversei, mais velhos, me disseram que a maior arma contra a Revolução é "essa" me mostrando os aparelhos de celulares...

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12/9/23 (14h35)

CAPÍTULO 5

"Em Cuba, existe a consciência de que o mundo está imerso em um quadro de acentuado desenvolvimento e, paradoxalmente, também de espantosos índices de pobreza. Para os cubanos, muitos fatores deste quadro estão ligados às tentativas, em nível mundializado, de anular, no interior das nações, os sentimentos pátrios e suas identidades como estados soberanos. Desde os primeiros anos da Revolução, a Educação foi chamada a ocupar um lugar privilegiado, como a pedra angular da nova sociedade. Existe uma espécie de consenso de que a criação e a formação de valores na consciência das crianças e dos jovens, desde muito cedo, são agora mais necessárias que nunca para salvar a independência de Cuba e a Revolução." (p. 189)

Terminei a leitura do Capítulo 5 - "A interlocução com a realidade", que tratou dos seguintes temas: 5.1 Espaços de observação; 5.2 A interação face a face; 5.3 Eixos de articulação das entrevistas.

Enquanto lia a análise das entrevistas e estudos feitos por Maria Leite, fiquei me lembrando dos dias que passamos em Cuba meses atrás. Como leio quase todos os dias notícias de Cuba, percebo que o capítulo abordou temas muito atuais como a questão do trabalho autônomo - "cuentapropismo" - e os desafios da educação e da economia do país, sobretudo por causa do bloqueio imposto pelos Estados Unidos.

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12/9/23 (22h30)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A última parte do livro de Maria Leite são as considerações finais dela. Gostei muito do estudo, do percurso empreendido pela autora e de tudo que passei a saber sobre Cuba e o povo cubano.

Não dá pra fazer grandes citações, mas deixo duas para finalizar a postagem.

MARTÍ E MARX - BASES DO SOCIALISMO CUBANO

"(...) O legado de Martí, entrelaçado às ideias de Marx, acabou por produzir uma recepção ao marxismo distinta daquela até então hegemônica no continente americano. A combinação desses fatores provavelmente é o sustentáculo capaz de explicar a continuidade do regime cubano após a extinção da URSS, mesmo com o fortalecimento do bloqueio imposto a Cuba, como relíquia da Guerra Fria." (p. 196)

UMA DIFERENÇA CENTRAL DA CUBA SOCIALISTA E DO BRASIL CAPITALISTA

"No entendimento desta pesquisa, a distância que separa os grupos em 'desvantagem social' e os que conhecem a 'filiação', se é possível assim chamá-los, dentro do formato identitário cubano, não se inclui a brutalidade, que mantém as massas em estado de alerta contra balas perdidas, assaltos à mão armada e outras formas de criminalidade frequentes nos países alinhados ao capitalismo da era globalizada. A educação tem colaborado acentuadamente para estabelecer em Cuba um quadro distinto do nível de desagregação social, que marca as grandes cidades da América Latina e do Caribe. As limitações engendradas nos períodos de crise não acarretaram o abandono de prédios escolares, o fechamento de hospitais, o fenômeno de 'meninos de rua', grupos de extermínio e massacres perpetrados por atiradores." (p. 201) 

Como cidadãos brasileiros, sabemos o que a autora quer dizer sobre essa brutalidade e os riscos aos quais estamos expostos diariamente. Ao visitar Cuba por duas semanas, andando todos os dias por Havana e pelas outras cidades do país, percebi a diferença em relação ao risco de alguma brutalidade ou ameaça local: praticamente zero risco.

Bom, finalizada a leitura. Seguirei acompanhando o dia a dia do povo cubano e a construção do socialismo na Ilha caribenha.

William


Bibliografia:

LEITE, Maria do Carmo Luiz Caldas. Cuba insurgente: identidade e educação. Curitiba: CRV, 2023.


sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Lembranças - Capítulo 10



Refeição Cultural

Osasco, 8 de setembro de 2023. Sexta-feira (19h40)


MEU PAI

Neste momento no qual escrevo, não sei onde meu pai está. Durante o dia, estaria na estrada. Ontem, meu pai saiu de casa e foi parar em Goiás, onde viu dois irmãos. Hoje, seus planos eram ir para o Mato Grosso, para a cidade onde reside um cunhado e família.

Se fosse possível um diálogo com meu pai, eu gostaria de procurar com ele onde ou quando foi que as relações com a família se tornaram tão difíceis. Os tempos são tempos nos quais o diálogo está se tornando algo quase impossível entre as pessoas. Em geral, na maioria dos casos, as pessoas não estão mais abertas ao diálogo. Só se for para o outro dizer amém.

Ao longo da vida, e dos autores que tive a oportunidade de ler, aprendi que não é possível sabermos a dor dos outros. A dor de alguém é algo indescritível e de uma intensidade que só a pessoa que sofre sabe o que está passando. Só essa questão já é suficiente para nos fazer respeitar a dor dos outros. Eu sei que meu pai padece de dores há anos. Dores físicas e sobretudo dores da alma. E isso talvez tenha feito meu pai ir se tornando a pessoa que é hoje.

Ao acordar nesta manhã, e ver uma mensagem no celular para ligar para os meus familiares para saber notícias, talvez notícias de meu pai, acabei inventando algum preparo para receber notícias ruins, preparo que não existe. Fui primeiro enfiar a cabeça embaixo do chuveiro por alguns minutos. Depois liguei e felizmente eram só atualizações sobre o dia de ontem.

Enquanto meu corpo sentia a água morna do chuveiro cair sobre mim, uma das coisas que pensei foi a respeito de algum tipo de morte idealizada, menos sofrida. Ninguém gosta de pensar sobre aquele dia que todos enfrentarão, o dia de nossa morte. No entanto, se houvesse algum tipo de previsão ou planejamento para esse dia de nosso fim, evidente que seria melhor partir sem sofrer, num lugar confortável, com alguém que nos ama por perto, sem dores, frio, sozinho etc. 

E fiquei muito triste ao pensar até como hipótese em alguém que amamos partir sofrendo sozinho. Acho um risco um homem com mais de oitenta anos dirigindo sozinho o dia todo pelas estradas brasileiras. Meu pai é um cara teimoso, não ouve mais ninguém. Isso dificulta muito as relações e a forma de cuidar dele. O sentimento de impotência que tenho sentido em relação a não conseguir dar sequer opiniões talvez racionais às pessoas é algo que aperta o coração da gente.

Quando pensei no dia de nosso fim, da morte que chegará para todos nós, foi por saber que pessoas se colocam em situações desnecessárias de risco, às vezes. E, às vezes, as pessoas morrem por isso. E aprendi que a vida é uma oportunidade.

Não desejo uma má morte nem para meus desafetos nem para os inimigos de nossa classe trabalhadora. Se eu fosse Light Yagami (Kira), do clássico anime Death Note, daria um destino final sem dor e rápido para todas as pessoas marcadas para morrer.

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SOMOS FRUTOS DO MEIO SOCIAL NO QUAL VIVEMOS

Tenho refletido sobre a vida e sobre o nosso mundo, algo que fiz menos do que gostaria ao longo da vida, durante o período de lutas sindicais meu foco era cem por cento a luta de classes, era um soldado das causas que representava e encarava isso como uma guerra, uma batalha de vida ou morte. Sou assim. Quando me entrego a uma causa, me entrego de corpo e alma.

Hoje, compreendo muito melhor diversas etapas de minha vida, atos e fatos ocorridos em meu percurso existencial e ao meu redor. Ao longo dos anos de estudo sobre o Brasil e sobre o povo brasileiro fui vendo como um filme minha gente dentro dos acontecimentos do tempo e da história. Fui compreendendo a minha origem, a de minha família, a do povo brasileiro.

Meus pais, seus pais e irmãos, e depois as dezenas de primos e primas, e nossos filhos, somos todos tipos comuns do povo brasileiro. Brasileiros. Somos frutos desta terra e isso não é qualquer coisa. Somos brancos e mestiços de origem nas classes subalternas do país, gente que se virou como milhões de iguais para sobreviver e conseguir seu lugar ao sol.

Qualquer branco ou mestiço de minha família poderia tranquilamente ser personagem do clássico conto machadiano "Pai contra mãe", todos nós poderíamos ser Candido Neves ou Clara... 

Aliás, minha gente poderia ser qualquer dos tipos construídos por nossos grandes escritores na tentativa de entender o Brasil e o povo brasileiro: digo os personagens que não eram os senhores donos de tudo. Seríamos os agregados, os não proprietários, os que foram sobrevivendo de bico por aí. (hoje, alguns dos que se ajeitaram na vida foram pescados pela balela da meritocracia)

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CEM ANOS DE SOLIDÃO

O que sei é que ao longo de nossas vidas, enfrentamos momentos duros juntos, meus pais e eu, meu pai e minha mãe. As memórias que guardamos são formadas das mais diversas formas, algumas sem a menor explicação ou coerência lógica. A vida vai nos deixando na memória lembranças boas e ruins do nosso viver.

Tenho boas e más lembranças da minha relação com meus pais, com os familiares mais próximos, com pessoas que marcaram a minha vida para sempre. 

Fico tão triste ao ver no que nos transformamos nos últimos anos, pessoas intolerantes, egocêntricas e rápidas em romper relações de toda uma vida por não aceitarmos conviver com a diversidade de ideias e visões de mundo. Vivemos uma solidão do tamanho dos "cem anos de solidão", do García Márquez.

Me lembro de uma imagem de um livro de Inglês na qual uma mulher olhava a esmo, sozinha numa mesinha ao redor de diversas mesas cheias de gente. O título para a imagem era "alone in the crowd". Nunca me esqueci disso. Me parece que aquela imagem e aquele conceito encaixaram-se na minha vida.

Quem não se sente sozinho muitas vezes ou algumas vezes, mesmo cercado de pessoas, que atire a primeira pedra. Ao olhar a vida para trás, vou avaliando algumas vezes nas quais me lembro de ter sentido uma solidão do tamanho do mundo. Felizmente, fui vivendo e cheguei até aqui, superando até os momentos nos quais não queria mais nada. Não tenho receio em dizer sempre que sou um homem de sorte.

Me lembro de ter discutido com meu pai quando fui embora da casa de meus pais aos dezessete anos. Tenho quase certeza de que o responsável por tudo naquela época fui eu, eu era a fúria. 

Me lembro de quando cumprimentei meu pai com um beijo após ter me tornado aluno de uma graduação de Educação Física em Mogi das Cruzes. Assim que vi um jovem servindo o exército cumprimentar o nosso professor na porta da sala de aula achei aquilo impactante. A cena me fez dar um beijo no meu pai. Já tinha uns dez anos que eu havia ido embora de casa.

Me lembro dos perrengues que passamos juntos, meu pai e eu, quando meu pai precisava de assistência médica e não tinha. Uma vez, em São Paulo, fomos atrás de uma internação para meu pai tratar dos rins e tivemos até que ir à imprensa para denunciar que meu pai não conseguia ser atendido com dores insuportáveis nos rins. 

Me lembro que passei anos tendo plano de saúde por ser funcionário de banco público sem querer usar o plano porque eu não achava justo ter atendimento e meus pais não terem. Uma vez, fiquei tão mal em casa que achei que iria morrer e só consegui me levantar da cama uns três dias depois. Nunca soube o que tive. Não usei o plano de saúde.

Me lembro dos meus pais correndo pra cima e pra baixo pra buscar atendimento médico para meus sobrinhos pequenos. Meus pais são humildes e pessoas simples, mas como a maioria dos pais, viram bichos quando estão sendo injustiçados por não conseguirem o que deveriam ter como direito: atendimento médico.

Me lembro de muita coisa. Tenho fuçado muito em minhas memórias...

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Espero que meu pai chegue aonde esteja indo. Espero que ele esteja bem.

Já são quase dez horas da noite e ainda não temos notícias do pai andando por aí pelas estradas brasileiras.

William


Post Scriptum: por volta de meia-noite, consegui a informação de que meu pai chegou ao destino pretendido, à casa de meus tios. Para aumentar a tristeza do dia, soube que meu tio, que tem enfrentado uma doença grave, teve uma piora em sua condição nos últimos dias. Estamos na torcida por sua melhora.

Post Scriptum II: o texto anterior sobre minhas "Lembranças" pode ser lido aqui.


quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Leitura: Operários Sem Patrão - Lorena Holzmann


 

Refeição Cultural 

"Se havia, em tese, a oportunidade democrática de acesso à palavra para todos os participantes da assembleia, eram poucos os que efetivamente dela se apropriaram. Nas representações dos trabalhadores o discurso era prerrogativa dos que sabiam falar bem, dos que tinham 'coisas certas para dizer'. Era o reconhecimento do discurso competente, 'no qual os interlocutores já foram previamente reconhecidos como tendo o direito de falar e ouvir, no qual os lugares e as circunstâncias já foram predeterminadas para que seja permitido falar e ouvir e, enfim, no qual o conteúdo e a forma já foram autorizados segundo os cânones da esfera de sua própria competência' (Chauí, 1982:2)." (p. 129)


A leitura do livro Operários Sem Patrão: gestão cooperativa e dilemas da democracia (2001), de Lorena Holzmann, me trouxe lembranças de minha jornada de sindicalista e me fez refletir sobre as chances de sucesso nos projetos alternativos à hegemonia do capitalismo como forma atual de produção e distribuição material e intelectual das necessidades humanas. 

A edição do livro que li não é minha, é de um amigo de meu filho. Acabei lendo este estudo - que tem por base uma tese de doutorado - por ter surgido a oportunidade nesta semana ao recebermos a visita do jovem Mateus em casa. O livro nos é apresentado pelo saudoso Paul Singer.

Pertencimento - uma das ideias conceituais que pensei ao ler a história dos trabalhadores das antigas Indústrias Wallig - depois "Cooperativas Wallig" - foi a questão do pertencimento, a importância de ter um sentimento de pertencer a algo quando se engaja numa luta qualquer, principalmente uma luta coletiva. 

Trabalhei com essa ideia-força ao longo de minha vida de organização e representação da classe trabalhadora: pertencimento. 

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RESUMO DO CASO ANALISADO NO LIVRO

"Este estudo primoroso de Lorena Holzmann tem por base tese de doutoramento, aprovada na Universidade de São Paulo, em 1992. O seu objeto é a Indústria Wallig, que chegou a se celebrizar como fabricante do fogão a gás mais prestigioso do Brasil, e foi atingida pela grande recessão de 1981-83. Mas, o seu fechamento enquanto empresa capitalista não foi aceito pelos operários, seu sindicato e a própria opinião pública do Rio Grande do Sul. Os trabalhadores formaram duas cooperativas - uma fundição e uma mecânica - e após muita luta conseguiram alugar as instalações da massa falida para prosseguir as operações da antiga empresa." (Paul Singer, na apresentação do livro)

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CAIXAS DE ASSISTÊNCIA DE TRABALHADORES SÃO MODELOS DE COOPERATISMO

Pensei muito na minha experiência como gestor eleito (2014-2018) de uma associação, uma Caixa de Assistência, da qual quase a totalidade da comunidade envolvida com ela não tem noção alguma do que a Cassi é: uma autogestão em saúde. E a parte que tem noção disso faz de tudo para apagar a característica central do que essa associação é: um modelo assistencial baseado no cooperativismo e na solidariedade. 

Ao ser gestor do modelo de saúde da Cassi, pesquisei a história da associação, o trânsito dela na comunidade ao longo de décadas, desde os anos quarenta até o momento no qual era gestor. Por incrível que pareça, o banco patrocinador, que tem acesso integral ao corpo de associados e poderia educar e orientar os participantes a aderirem ao sistema de atenção primária, fez em uma década de implantação do modelo de Estratégia de Saúde da Família (ESF) um vídeo institucional sobre o que era e como funcionava a ESF. Um vídeo. Enquanto isso, o foco da comunicação era a venda de planos de saúde, ao invés de focar na essência da Cassi: o Plano de Associados. Por quatro anos, viajamos pelo Brasil para falar da ESF. O modelo ganhou credibilidade e aderência como essência de nosso modelo cooperativo e solidário de assistência à saúde.

Após nossa saída, o que vejo é uma Cassi que se apresenta como uma empresa capitalista do mercado de saúde, vendendo inúmeros planos ruins de saúde que não têm a menor relação com o que a Cassi deveria fazer - cuidar da saúde de seus associados - e a ESF foi deixada de lado, e a "empresa" aposta no mercado para tudo. É uma lástima. Essa autogestão com um modelo fantástico de cooperativismo na área da saúde dos trabalhadores terá muitas dificuldades de seguir existindo. Um sistema cooperativo se referenciar na indústria capitalista da saúde é arriscar sua existência.

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CONFRONTO ENTRE CAPITAL E TRABALHO (O DINHEIRO SEMPRE DIVIDE AS PESSOAS)

A distribuição das "sobras" no primeiro ano das cooperativas me lembrou as discussões sobre a PLR dos bancários (Participação nos Lucros e Resultados)

"(...) Desse modo, a ideia inicial de que o empreendimento era de todos, foi se diluindo, solapada pela diferença de interesses que se tornaram manifestas no interior das Cooperativas." (p. 90)

No estudo de Lorena Holzmann, ela tomou conhecimento do quanto a unidade inicial dos cooperados se diluiu assim que entrou em pauta a primeira distribuição das sobras (resultados positivos) das cooperativas.

É justo distribuir de forma desigual os lucros ou sobras?

A justiça ou injustiça dos critérios dividiu os associados para sempre. A PLR da categoria bancária enfrentou o mesmo debate de critérios desde a sua instituição em 1995 nos acordos da categoria: distribuição linear ou distribuição desigual de acordo com salários e funções dos trabalhadores na hierarquia do banco (ou da cooperativa)?

É justo dar cotas maiores do resultado para aqueles que já ganham mais na pirâmide salarial da empresa? Afinal de contas, o esforço para conseguir o resultado positivo não foi de todos? A folha de pagamentos já remunera mais ou menos ao longo do ano de acordo com as habilidades e responsabilidades de cada trabalhador.

Isso aconteceu nas duas cooperativas oriundas das Indústrias Wallig. Uma forma de distribuição se opunha a outra. Cada associado tinha cotas diferentes na cooperativa. Os antigos tinham mais, os novatos quase nada. Aí depois de todo mundo ralar para conseguir o resultado positivo, os caras de cima, da administração, definiram que as sobras seriam distribuídas de acordo com as cotas de cada um... o povo do chão da fábrica viu centavos e os de cima ficaram com todo o resultado... (é foda!)

Participei desses debates por mais de uma década na categoria bancária. Os bancários criaram um critério misto ao longo de quase três décadas. Isso na regra geral, porque os bancos deram um jeito de premiar os de cima ou "mais chegados" com programas individuais não contratados com os sindicatos.

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FÉRIAS ERAM FÉRIAS MESMO

"O sistema de descanso anual implantado era considerado pela direção das Cooperativas como superior ao direito a férias disposto na CLT, pois seu objetivo 'salutar de recuperação e composição de forças' não poderia ser mercantilizado, impedindo o trabalhador de trocar por dinheiro o 'recurso sanitário de restauração de seu desgaste físico e mental', como foi declarado por um entrevistado." (p. 103)

Achei interessante essa questão de forçar que as férias fossem cumpridas em descanso mesmo pelos trabalhadores. (ou seja, que as férias fossem compridas...)

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PARTICIPAÇÃO SOCIAL 

"O 'fim da síndrome de participação' e a autonomização do Conselho fez com que emergisse entre alguns associados a certeza de que tinha havido a apropriação das instâncias decisórias por um pequeno número de associados. Isso teria ocorrido mesmo com a renovação obrigatória de parcelas de cada um dos Conselhos (o de Administração e o Fiscal), já que houvera, no primeiro deles, um processo de cooptação, pelos interesses de associados do setor administrativo..." (p. 135)

Será que essa questão acima não se tornou a realidade em nossas organizações de classe hoje?

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A DIFICULDADE DE SE ATINGIR A SONHADA IGUALDADE 

"As inúmeras linhas de segmentação da coletividade, opondo seus integrantes a partir do tipo de atividade que exerciam (trabalho na produção x trabalho na administração), antiguidade (fundadores x novatos), propriedade do capital (grandes cotistas x pequenos cotistas) determinaram uma complexa teia de interesses divergentes que, mal equacionados, levaram ao aprofundamento da desigualdade." (p. 148)

Interessante: a leitura desse estudo de caso foi como ver um filme a partir de minhas memórias ainda frescas de décadas de organização da classe trabalhadora, as dificuldades reais e materiais de se alcançar a unidade e a solidariedade de classe etc. Vi um filme de memórias através do livro!

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ALGUMAS REFLEXÕES 

Durante a leitura desse estudo de caso de uma indústria que faliu e da luta de seus trabalhadores para mantê-la por causa de seus empregos, pensei um pouco sobre essa nossa caminhada humana em busca de sobrevivência e de realização.

Fiquei me lembrando das experiências humanas em busca de organizações sociais baseadas em cooperativismo e solidariedade, que tendem a ser mais justas e com melhores oportunidades a todas as pessoas.

Me lembrei de exemplos enormes como o caso da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), experiência da classe trabalhadora que durou décadas (1917-1991) e que mudou o cenário político mundial.

Me lembrei de organizações de trabalhadores como as nossas caixas de assistência e previdência dos trabalhadores do Banco do Brasil: a Cassi e a Previ.

Me lembrei de cooperativismo como aquele que fez o apartamento onde moro, que custou aos associados um valor muito menor do que o valor que seria comprá-lo pelos modelos hegemônicos do capital.

E me lembrei de algumas realidades atuais, me lembrei da China e de Cuba, dois casos alternativos ao modelo hegemônico de organização social no mundo do século atual, o modelo de produção e distribuição de riquezas identificado com os conceitos de capitalismo, neoliberalismo e imperialismo.

Não vou desenvolver uma argumentação ou reflexão sobre isso. Isso não é mais meu papel. Já foi.

A China me impressiona. Cuba e os cubanos têm minha solidariedade fraterna. A lembrança sobre a autogestão em saúde dos funcionários do BB me traz uma certa dor porque gosto dela e lamento ela ser uma oportunidade desperdiçada. A Previ é uma segurança que sua comunidade deve estar alerta, pois a cobiça no patrimônio dela enlouquece até seus associados.

É isso. O livro de Lorena Holzmann foi o 24º livro que li neste ano. Todo dia quando percebo que estou aqui no mundo, penso sobre o que posso fazer para aprender algo novo, e tento, só tento, ficar atento para não fazer mal a ninguém. (gostaria de contribuir para tornar o mundo um lugar melhor, mas hoje não estou fazendo isso)

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Ah, sobre o que disse no primeiro parágrafo do texto, sobre chances de projetos alternativos ao modo capitalista de organizar as sociedades humanas, modelo baseado na religião do dinheiro, na ganância, no egoísmo e no cada um por si, confesso meu pessimismo da razão, apesar de me esforçar para crer no otimismo da ação criadora do ser humano. 

A questão é: quantos jovens estão neste momento focados nas mudanças coletivas inclusivas, solidárias e sustentáveis e não só em seus prazeres pessoais? Ou focados em superar suas dores e angústias pessoais, algo muito real num mundo sem perspectivas? Quantos? Tenho a impressão de que poucos, um número insuficiente para mudar a tendência escatológica dos tempos. 

Estamos sós, todos nós, estamos sós, uma solidão do tamanho da ideia de García Márquez no clássico "Cem anos de solidão". E qualquer saída para a humanidade será uma saída coletiva. Coletiva. Mas estamos sós...

São as minhas impressões. Espero estar errado. Quando era político, acertava mais minhas impressões. Agora, atomizado, espero estar errado em minhas impressões.

William

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Bibliografia:

HOLZMANN, Lorena. Operários Sem Patrão: gestão cooperativa e dilemas da democracia. São Carlos: EdUFSCar, 2001.


sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Diário e reflexões - Linguagem III



Refeição Cultural

Osasco, 1º de setembro de 2023. Sexta-feira.


O quanto posso aprender ainda?

O desafio que vou lançar ao meu cérebro por um certo tempo é um desafio gostoso: estudar línguas, linguagens e culturas diferentes das quais estou mais familiarizado. Algumas das culturas que quero estudar um pouco são as culturas orientais, asiáticas: China e Japão.

Em relação às línguas, vou tentar recuperar um pouco do que já soube de Inglês e de Espanhol, pois já estive nos Estados Unidos e consegui me comunicar com as pessoas. Também já estive em alguns países de Língua Espanhola e foi bem tranquila a comunicação com falantes nativos. 

As línguas são ferramentas de comunicação humana. Podemos nos comunicar de forma oral com outras pessoas, através de conversação, e também podemos desenvolver e manter as habilidades de comunicação de outras formas, em outras mídias.

Os ensinamentos do professor Miguel Nicolelis sobre o cérebro humano mudaram minha forma de ver o mundo e a vida. Hoje tenho uma consciência maior sobre o que somos enquanto animais humanos.

O cérebro humano é muito plástico e flexível, se adapta o tempo todo às necessidades que identifica serem as com melhores perspectivas de sobrevivência no meio ambiente no qual a pessoa está.

Quero recuperar as habilidades comunicativas que já tive e desenvolver novas habilidades, conhecer novas línguas. Entender novamente músicas e falas cotidianas em Inglês, por exemplo. 

Fiz graduação em Letras, habilitações em Espanhol e Português na Universidade de São Paulo, sou oriundo da FFLCH. Quero retomar a capacidade de escrever em Espanhol.

Um dos desafios novos para meu cérebro, para estimular meus neurônios, será aprender o idioma Japonês, que comecei a estudar no início de 2020, durante a pandemia mundial de Covid. O curso do professor Luiz, do "Programa Japonês Online" é excelente! O pouco que estudei, aprendi. Eu o recomendo para todas as pessoas interessadas na Língua Japonesa.

Quero aprender o idioma Italiano também. Certa vez comecei a estudar por conta própria e parei. Quando fui à Itália, não entendi nada que os italianos falavam. Foi frustrante. Quando voltar lá, quero me comunicar em Italiano.

Todas essas possibilidades de estudos que estou citando são possíveis porque sou aluno do Instituto Conhecimento Liberta (ICL). O projeto é simplesmente revolucionário! Por alguns reais a pessoa tem disponíveis mais de 230 cursos, incluindo os idiomas Inglês, Espanhol, Francês, Italiano, Alemão, Japonês e Mandarim. Acreditem!

China 

Sobre a cultura chinesa e o país, estou fazendo um curso no ICL do professor Elias Jabbour: "Compreendendo a China". Já fiz 3 aulas e o curso é muito bom!

Uma das atitudes que preciso refletir a respeito em relação ao estudo é a atitude que ouvi hoje do professor Jabbour, em uma de suas aulas sobre a China. Ele diz que temos que estudar com prazer, o Carpe Diem é importante nos processos de estudos. Ele tem razão!

Talvez uma das questões que tenham influenciado na minha incapacidade de aprender a gramática da Língua Portuguesa tenha sido a falta de gosto e prazer durante os anos escolares de aprendizagem no ciclo básico da educação. 

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Enfim, vamos estudar e exercitar meu cérebro e minha inteligência.

Post Scriptum: quis ser professor e não fui. De certa forma, quando era sindicalista eu ensinava o que sabia para meus pares, os trabalhadores, eu fazia formação política. 

Tenho que aprender algo novo que possa ensinar às pessoas, isso dá um certo sentido na existência. 

William


Post Scriptum: o texto anterior sobre linguagem pode ser lido aqui.


quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Diário e reflexões - Agosto



Refeição Cultural - Agosto

Osasco, 31 de agosto de 2023. Quinta-feira.


Introdução

Criei neste ano aqui no blog uma categoria de postagem de final de mês para registrar alguma coisa que tenha me chamado a atenção naquele período. Quando olhar para trás relendo o blog, terei a memória registrada sobre minhas impressões do mundo no qual existo.

Vai terminando o mês de agosto. Pensando sobre o que me chamou a atenção, ou que fatos marcaram a minha vida ou a vida do mundo onde habito, ou ainda decisões que eventualmente tenha tomado, posso deixar registrado o seguinte:

1. 

É no mês de agosto que os sabiás aqui da região onde moro começam a sinfonia de cantos nas madrugadas afora. É algo fantástico! Mesmo estando numa zona urbana, ouvimos durante semanas a cantoria dos sabiás. Some a esse espetáculo a beleza da floração dos ipês rosas, amarelos e brancos, que se juntam às patas-de-vaca para deixarem nosso ambiente humano mais bonito. Nossos agradecimentos aos sabiás, aos bem-te-vis e aos joões-de-barro de nossa região!

2. 

Fiz a romaria entre Uberlândia e Água Suja neste mês de agosto. Deu tudo certo. Completei o percurso de quase 80 Km em 25 horas, e de forma admirável não tive nenhuma bolha nos pés, mesmo sem usar esparadrapos como faço há anos. Foi a 1ª vez que usei um aparelho que marca distâncias (um Huawei Band 8). Minha última romaria havia sido feita em 2019, antes da pandemia mundial de Covid. Cheguei a Uberlândia com muitas dúvidas na minha capacidade de ainda fazer a romaria. Tive medo de não conseguir. Meu corpo já não é o mesmo de antes. No entanto, o treinamento que fiz semanas antes da caminhada e a concentração no que estava fazendo durante o percurso foram fundamentais para que meu corpo ainda respondesse aos meus comandos. Mais uma vez, contei com a assistência de meu cunhado na estrada: ter alguém acompanhando o romeiro é um diferencial positivo na realização do projeto. A romaria foi um fato intenso em minha vida neste mês de agosto. Clique aqui para ler a postagem sobre essa experiência de peregrino.

3.

Aceitei neste agosto o fato de que algumas lideranças atuais da direção não me queriam mais na Articulação Sindical, tendência política da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Dediquei a maior parte de minha vida à militância política no movimento sindical bancário. Ao olhar para trás e ver as lutas realizadas e as etapas vencidas pela categoria, sei que deixei a minha contribuição em momentos importantes e decisivos de nossa história de luta de classes. Quanto mais estudo e busco conhecimento, mais claro fica para mim por que as coisas são como são e hoje tenho uma ideia melhor dos porquês de meu apagamento e cancelamento por parte de algumas lideranças da corrente política que ajudei a construir e fortalecer por cerca de três décadas - a CUT fez 40 anos e a Articulação quase isso, sou cutista há uns 35 anos. Fiz um texto de reflexões sobre essa decisão (ler aqui), aliás, as postagens sob a categoria "Memórias" é praticamente um livro publicado. É um momento de luto para mim, apesar de não significar nada para a corrente e a política atual. Nunca consegui colocar nada pessoal nas minhas prioridades, as prioridades do meu viver sempre foram as causas sociais e políticas que o movimento dos trabalhadores tinha na agenda. É um luto. Mesmo vivendo um duro processo de cancelamento por quase 5 anos, reconhecer o fim de meu pertencimento à Articulação é um desafio pessoal. Vou sobreviver a isso e vou me reinventar.

4.

O que sou no mundo neste momento, neste agosto? Não tem sido fácil viver sem função social definida. Se é frescura ou cacoete ser "útil" no mundo, não sei, mas o aculturamento enfiado em meu cérebro cobra que alguém seja algo. Apesar de nunca ter exercido profissão nas graduações que fiz - Ciências Contábeis e Letras - até pouco tempo eu era um "trabalhador", vendia meu corpo - as horas de meu dia - e minha força de trabalho para sobreviver, era bancário, era dirigente político, e isso alimentava minha psique formada através das décadas de existência num canto do mundo chamado Brasil... De repente, entre 2018 e 2019, me peguei sem resposta ao ser questionado sobre o que andava fazendo, quem eu era e coisas do tipo. "E aí, tá onde? Que anda fazendo? O que você faz? Qual sua ocupação?". O que sou no mundo neste momento? Nem "aposentado" sou, haja vista que pagarei a previdência pública até a morte pelo andar da carruagem. Avaliei que talvez seja razoável preencher essa resposta com algo parecido à função de "escritor". Eu escrevo. Estudo e escrevo a partir das reflexões que faço sobre o que leio e estudo. Eu escrevo. Em tese, quem escreve pode ser considerado um "escritor". Não tenho nenhum livro publicado. Mas poderia dizer que existem alguns livros nas quase duas décadas de textos publicados em meus blogs. São mais de 5 mil postagens e mais de 2 milhões de acessos. Talvez eu possa me identificar como um escritor...

5.

Tive um agosto de poucas leituras. Este foi o primeiro mês do ano no qual não li um livro por inteiro. Estou lendo alguns livros, dentre os quais cito Os miseráveis - Victor Hugo, Os mortos vivos - Peter Straub, Cuba insurgente - Maria Leite, Vaga Música - Cecília Meireles, mas as leituras seguem em ritmo lento. Sendo assim, li até o momento 23 livros no ano. As leituras que fiz até agora me fizeram refletir muito sobre a vida e o mundo. Isso é bom. Calculo que diminuirei o ritmo de leitura de livros nos próximos meses. Decidi lançar novos desafios ao meu cérebro, já que tenho andado preocupado com a alta incidência de problemas mentais na população mundial. As doenças degenerativas do cérebro têm aumentado assustadoramente. O que posso fazer para postergar alguma doença ou falência de meu cérebro eu tento fazer. Atividade física aeróbica, atenção no que como com frequência, e estímulos ao cérebro. Vou fazer um experimento comigo mesmo: vou adicionar uma carga diária de estudos de línguas e linguagem para estimular meu cérebro, ver se recupero e melhoro minha memória, e ver se realizo um sonho juvenil de saber algumas línguas. Aliás, gostaria de saber a gramática de nossa língua, pois nunca soube. Escrevo desde jovem com qualidade razoável por causa daquilo que chamamos de gramática internalizada da língua, por ser leitor e escritor praticante. Em resumo, vou ler menos livros e estudar linguagem e línguas.

6.

O mês de agosto na política pode ter sido bom ou pode ter sido ruim, depende do ponto de vista do observador. Decidi já faz algumas semanas usar menos tempo de meu tempo ocioso com o acompanhamento da política nacional. Eu não sou mais dirigente político e não consegui entender isso nos últimos cinco anos. O que falo ou penso ou escrevo sobre política não tem relevância alguma, sou um nada nessa área da política e não quis entender isso. O mundo atual vive uma esquizofrenia total. Um sujeito ou uma sujeita qualquer abre um perfil em alguma rede social, faz alguma coisa que dê relevância a ele ou ela, passa a ter milhões de seguidores e vira influenciador(a), e sem saber tecnicamente nada de porra nenhuma passa a ser a pessoa que faz milhões de pessoas pensarem como ele ou ela. Enquanto isso, um cientista ou profissional com uma vida de dedicação e estudos a determinada área de saber não consegue ser visto nem por centenas de pessoas, não influencia ninguém e ainda pode ser cancelado se contrariar um mané desses com milhões de seguidores. Uma esquizofrenia total. Postar opinião sobre as merdas de decisões do novo ministro do STF indicado por Lula? Falar da eterna impunidade dos caras que destruíram o país e o povo? Comentar sobre uma pauta política bombando na semana? Que diferença faria um comentário meu sobre isso? Se eu tiver o cuidado necessário, me informo rapidamente sobre as coisas e foco meu tempo ocioso em estudar algo que definir como relevante a mim. Tenho que ter a sabedoria de me colocar no meu lugar no mundo neste momento da vida e da história.

7.

E assim, fecho o registro do mês de agosto. Neste último item coloco um desafio que seria bobo anos atrás, mas que agora é um desafio grande para mim. Me inscrevi na 98ª Corrida de São Silvestre. Depois de 10 participações, não corro a prova faz alguns anos. Neste momento, não tenho condições de correr 15 Km, não tenho condicionamento físico para isso. Tenho 4 meses para me preparar. Minha condição de saúde atual para correr um percurso desses é ruim. Ontem mesmo, fiz um trote de 5K e sempre fico com dores no dia seguinte, principalmente nas minhas estruturas musculares e esqueléticas. Vamos ver o que programo para esses meses. Enquanto estiver treinando e me preparando, estarei ajudando meu coração e meu sistema respiratório e circulatório. Meu cérebro também agradece por isso.

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O que é a vida?

A vida é oportunidade. Estar vivo é estar no mundo e estar no mundo é uma chance de poder aprender algo novo e criar e estar sob o imponderável a cada momento, a cada manhã que acordamos. Então, felizes ou tristes, com muitas ou poucas dificuldades, penso que temos que viver, e penso que temos que viver não de qualquer jeito, temos que viver com ética, com caráter, com solidariedade, com humanismo e com consciência social de que não somos nada sozinhos, somos seres sociais e precisamos das pessoas que estão no mundo como nós estamos. Somos natureza! Somos parte da natureza, não estamos acima dela em escala hierárquica. Nossa potência de fazer esbarra na impotência de não poder intervir em tudo. É isso que penso neste momento do meu viver.

William


Post scriptum: minha reflexão sobre julho pode ser lida aqui.


terça-feira, 29 de agosto de 2023

Os miseráveis - Victor Hugo (11)



Refeição Cultural 

Osasco, 29 de agosto de 2023. Terça-feira fria. (Havia escrito calor infernal - invernal - quando comecei a postagem na quinta-feira passada...)


Vamos retomar a leitura do clássico de Victor Hugo. Desde a última leitura, caminhei dezenas de quilômetros pensando na vida e na sociedade humana. A leitura anterior do livro de Hugo (ler comentários aqui) me fez refletir muito.

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PRIMEIRA PARTE - FANTINE

LIVRO 3: NO ANO DE 1817

I. O ano de 1817

Muito interessante o panorama de época descrito pelo narrador.

Em um parágrafo de 4 páginas ficamos atualizados sobre a França no ano de 1817.

Tem até descrições irônicas, como esta a seguir:

"(...) Cuvier, um olho no Gênesis e outro na natureza, esforçava-se por agradar à reação carola, pondo os fósseis de acordo com os textos bíblicos e fazendo com que os mastodontes lisonjeassem Moisés..." (p. 159)

E o narrador termina o capítulo com um ensinamento histórico:

"Eis, ao acaso, o que confusamente acontecia no ano de 1817, hoje esquecido. A história negligencia quase todas essas particularidades, e não pode fazer de outro modo, ou seria invadida por um infinito delas. Esses detalhes, que chamamos erradamente de pequenos - não há pequenos fatos na humanidade, nem pequenas folhas na vegetação -, são úteis. É da fisionomia dos anos que se compõem a feição dos séculos." (p. 160)

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II. Duplo quarteto

Neste capítulo nos são apresentadas Fantine e suas amigas - Favourite, Dhalia e Zéphine -, e seus namorados: Tholomyès, Blachevelle, Listolier e Fameuil, respectivamente. Elas são operárias da costura.

"(...) Tinha o nome que agradou ao primeiro que a encontrou, pequenina, andando descalça na rua. Recebeu um nome, como recebia na fronte a água das nuvens quando chovia. Chamavam-na de pequena Fantine. Ninguém sabia mais nada sobre ela. Essa criatura viera assim ao mundo. Aos dez anos deixou a cidade e foi trabalhar na casa de uns sitiantes dos arredores. Aos quinze foi para Paris, 'em busca de fortuna'. Fantine era bela e conservou-se pura o máximo que pôde. Era uma linda moça loira e com belos dentes. Ouro e pérolas eram seu dote, mas seu ouro estava nos cabelos e suas pérolas na boca." (p. 162/163)

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III. Quatro a quatro

É muito interessante a técnica narrativa, é muito moderna. 

O narrador, entendo ser Victor Hugo, dialoga com os leitores no tempo presente, 1862, ou seja, 45 anos após os fatos da história de Fantine, de Jean Valjean e dos demais personagens, 1817. 

O narrador descreve ainda a beleza da jovem Fantine.

"Fantine era bela, sem ter muita consciência disso (...) Aquela filha das sombras possuía nobreza de raça..." (p. 167)

É dito que Fantine é a personificação da alegria e do pudor. 

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IV. Tholomyès está tão alegre que canta uma canção espanhola 

O narrador nos conta a história como se estivesse na nossa presença numa narrativa oral... doido isso!

"Depois do almoço, os quatro casais foram ver, no que então se chamava canteiro do rei, uma planta havia pouco chegada da Índia, cujo nome nos foge agora, e que, naquela ocasião, atraía Paris inteira a Saint-Cloud..." (p. 169)

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V. No restaurante Bombarda

Neste capítulo, um chefe de polícia relata ao rei que a gente pobre dos arredores de Paris é "gente inofensiva", que não é perigosa, e que as pessoas até diminuíram de tamanho e corpo em 50 anos. 

"Os chefes de polícia de Paris não acreditavam ser possível um gato transformar-se em leão; todavia, acontece; esse é o milagre do povo de Paris..." (p. 172)

O narrador alerta, entretanto, que o povo parisiense não é um gatinho não. Tem encarnado a "Liberdade" em si, é um povo "indolente" e de admirável fúria quando visa a glória.

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VI. Capítulo em que todos se adoram

Neste capítulo ameno, uma das personagens - Favourite - cita o sentimento de spleen dos ingleses, ao falar de certa chatice das coisas, das dificuldades. 

Spleen é uma palavra inglesa usada para o sentimento de melancolia e pessimismo.

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VII. Sabedoria de Tholomyès

O personagem Tholomyès é o destaque no capítulo. Faz discursos enaltecendo o prazer e a vida.

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VIII. Morte de um cavalo

Em um certo momento do capítulo, de devaneios dos quatro casais, o narrador nos descreve o esgotamento e morte de uma égua que puxava uma carroça pesada.

"(...) Era uma égua de Beauce, magra, velha, digna de um équarrisseur*, puxando uma charrete muito pesada. Chegando em frente ao Bombarda, o animal, cansado e extenuado, recusou-se a ir mais adiante. Esse incidente fez juntar muita gente. Mal o charreteiro, zangado e praguejando, teve tempo de dizer, com a energia conveniente, a palavra sacramental arre! reforçada por uma implacável chicotada, o animal tombou para não mais se erguer." (p. 181)

Cena triste e que poucos se importaram. Só Fantine se sensibilizou.

Eu me lembrei na hora do personagem de Tolstói, Kholstomer... que história triste de um cavalo!

*A palavra me lembrou mais ainda o personagem de Tolstói: équarrisseur é uma espécie de açougueiro que abate animais impróprios ao consumo para tirar-lhes o que ainda é aproveitável. 

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IX. Alegre fim da alegria

No capítulo final deste livro 3, os quatro rapazes namorados das garotas, simplesmente inventam uma surpresa e abandonam as quatro, deixando uma carta dizendo que foi bom enquanto durou o namoro deles. Agora eles teriam que voltar para suas famílias abastadas para serem figuras importantes na sociedade francesa...

Só neste momento nós leitores ficamos sabendo que Fantine tinham em casa uma criança...

"Uma hora depois, porém, ao entrar em seu quarto, chorou. Como dissemos, este era seu primeiro amor, dera-se a Tholomyès como a um marido, e a pobre moça tinha uma criança." (p. 185)

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Comentário

Gastei quase uma semana para ler essa parte de Os miseráveis. Estou um pouco travado nas leituras. É meu psicológico nesses dias.

Aliás, este mês de agosto é o primeiro mês do ano no qual não li nenhum livro por completo. 

Andei muito, fiz uma romaria de uns 80 Km, tive um pouco de contato com algumas formas de cultura como, por exemplo, o estudo de línguas e linguagem, mas não li obra literária completa.

Até cheguei a começar uma peça de Shakespeare da coletânea de mais de vinte peças que tenho dele, mas não dei sequência.

É isso, seguimos as leituras, mesmo que lentamente, mas seguimos.

William


domingo, 27 de agosto de 2023

Diário e reflexões (27/08/23)



Refeição Cultural

Osasco, 27 de abril de 2023. Domingo.


Comecei a escrever este texto de reflexões no domingo passado, quando caminhei sob um sol prazeroso por ruas repletas de ipês amarelos, brancos e rosas, patas-de-vaca e demais flores da época. Pensava na minha vida, no meu viver. Parei o texto porque não quis escrever mais. Hoje, o domingo está frio, nublado. Vou tentar retomar a reflexão e se vou conseguir ir até a conclusão, eu não sei.

Desde que iniciei longas caminhadas, tenho andado muito reflexivo. Fiz a romaria de quase 80 Km dias atrás, deu tudo certo. Durante a romaria, acabei focando só na superação do percurso e no atingimento daquela meta. O pensamento foi todo focado em administrar um corpo exposto a uma carga enorme de esforço. Um corpo que já não é mais o mesmo... a natureza! Não pude digerir as coisas que vão dentro de mim. 

Depois da romaria, sigo pensando e sei que preciso de mudanças. Devo viver e pra isso preciso de mudanças. 

Só eu mesmo para definir a minha existência. Ou seja, é verdade que não temos controle e domínio de absolutamente nada na vida, nada. Isso está dado. Um tiro, um infarto, uma doença degenerativa, um tombo, um vírus invisível... e pronto, já éramos. Mas a atitude de seguir todo dia e a forma de seguir todo dia é somente minha e de mais ninguém.

Para sobreviver nesses tempos, será necessário retomar os desafios estabelecidos para o meu cérebro, a essência do que sou, meu eu. Sou materialista. Não tenho mais visão mágica da existência do mundo e dos seres vivos que o habitam. O corpo que me carrega é natureza, é frágil, é instante. Se minha personalidade se perder com algum tipo de falência das funções de meu cérebro, já não serei eu mesmo andando por aí. E todas as pessoas com problemas de saúde devem ser acolhidas e tratadas com respeito, é o que nós humanistas defendemos.

Após muitas reflexões posteriores à vida que tive como jovem e depois adulto vendendo minha força de trabalho e depois como dirigente da classe trabalhadora, cheguei à conclusão que tive um cérebro flexível e muito adaptado às suas funções de manutenção da vida do organismo que coordena e governa. Brinco que sou um homem de sorte, e imagino que meu cérebro esteja por trás de um pouco dessa "sorte" por ter chegado até aqui.

Já faz muito tempo que minha vida mudou. De forma satisfatória ou não, passei os últimos cinco anos tentando manter vínculos com minha vida passada, com a condição que me fez ser o que sou. Me esforcei por estar disponível a contribuir com o conhecimento que acumulei nas diversas funções que exerci em nome da classe trabalhadora. Qualquer pessoa honesta intelectualmente seria testemunha que mantive um pertencimento de lealdade canina com o meio político no qual passei décadas de minha vida: a Articulação Sindical da CUT. Sempre estive disponível para o que precisassem de mim. Tive alguma utilidade até o início de dezembro de 2021, dali em diante, não mais.

Custei a entender que não querem mais nada de mim, nada. Durante todo o tempo no qual contribuía com a formação da militância, explicava para as pessoas que elas tinham que aprender a ler os contextos, as mensagens nas entrelinhas, ler o que não estava escrito. Política é assim. Por pertencimento e talvez até por amor, eu me negava a praticar a leitura de mundo que eu mesmo ensinava à militância política.

Como nunca participei de nenhum fórum que pautasse a minha saída da corrente política à qual passei a maior parte de minha vida, nunca soube por que motivo fui relegado, cancelado, proscrito da terra onde me criei politicamente pelas lideranças atuais da corrente. Segui à disposição... em vão.

Pelas circunstâncias, decido por conta própria a partir de hoje não pertencer mais formalmente à Articulação Sindical, corrente política da Central Única dos Trabalhadores. Isso não tem reflexo algum em nada. Minha decisão é somente um ato de amor-próprio, de respeito comigo mesmo. É uma espécie de morte, e com a morte vem o luto e com o luto vem a vida, que segue para quem fica.

Quanto ao Partido dos Trabalhadores, vou seguir filiado por enquanto, admiro muito a história do partido e de inumeráveis lideranças e militantes comuns que estão por aí em cada canto do país.

Como disse a mim mesmo a vida toda, não me vejo em nenhuma outra força política, meu sangue vermelho é todo composto dos princípios, concepções e práticas da Central Única dos Trabalhadores e do Partido dos Trabalhadores.

Tenho que inventar no meu mundo atomizado um novo existir. Não tenho que dar palpite ou me posicionar sobre a vida política do país como fazia quando era representante de classe. Não é fácil perder o cacoete. Quando vê, a gente quer falar disso ou daquilo...

Tenho que arrumar novos desafios para o meu cérebro seguir ativo. Fiz isso algumas vezes na vida. 

Nem era isso ou dessa forma que iria se desenvolver o texto que comecei domingo passado. Mas entendo que essa morte e esse luto precisam começar logo. Senão é o meu corpo que vai e ainda tem gente que precisa de mim.

William


sábado, 26 de agosto de 2023

Vendo filmes (VI)


 

Refeição Cultural

FILMES

Chocolate (2000) - Filme dirigido por Lasse Hallström e estrelado por Juliette Binoche, Johnny Depp e demais atores e atrizes. Vianne Rocher (Binoche) e sua filha Anouk (Victoire Thivisol) de 6 anos chegam a uma pequena vila francesa, Lansquenet-sous-Tannes (ficcional), vila conservadora e controlada com mãos de ferro pelo prefeito local, um conde, e decidem abrir uma chocolateria. O prefeito não gosta da ideia por achar que aquilo era uma tentação para as pessoas e diz que Vianne teria que fechar o estabelecimento e desistir, inclusive porque eles estão na quaresma. A partir daí a estória se desenvolve.

COMENTÁRIO: gostei do filme. A começar pela participação de Juliette Binoche, encantadora como sempre. Ela é uma espécie de cigana com ares de magia e seus chocolates mudam a vida de todas as pessoas do vilarejo. Ela é movida pelo vento do norte e isso parece uma sina de família, sua mãe também teve uma vida parecida. Mãe e filha não param em lugar nenhum, e de repente vão embora sem fixar residência. A estória aborda questões comuns da sociedade como preconceito, religião dominadora, violência contra mulheres e xenofobia. Minha esposa ficou muito tempo querendo que eu visse o filme. Finalmente vi. Gostei.

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Os doze macacos (1995) - Filme dirigido por Terry Gilliam e estrelado por Bruce Willis, Madeleine Stowe e Brad Pitt. Num cenário distópico do mundo em 2035, a raça humana foi quase toda extinta por causa de uma epidemia de vírus entre 1996/1997. Os humanos sobreviventes vivem no mundo subterrâneo e os animais voltaram a dominar a natureza lá em cima. James Cole (Willis) é forçado a voltar ao passado - 1995 - para tentar descobrir informações sobre um grupo chamado "Os doze macacos" e ver se com isso consegue algo que possa ajudar a humanidade no presente.

COMENTÁRIO: gostei do filme. Tinha visto o filme muito tempo atrás. Vê-lo após a pandemia mundial de Covid-19 dá outro sentido à estória. Apesar de não acreditar que um dia a espécie humana possa desenvolver alguma tecnologia de viagem no tempo (o tempo é uma percepção resultante da abstração humana). Sobre o fim do mundo como o conhecemos hoje, vejo probabilidades reais de isso acontecer, já que estamos inviabilizando a vida no planeta por causa da destruição descontrolada dos biomas da Terra. O ser humano é o maior vírus que o planeta já produziu. Bom filme! A interpretação de Brad Pitt como maluco é um atrativo a mais no filme.

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Papa Hemingway in Cuba (2016) - Filme com direção de Bob Yari e estrelado por Adrian Sparks (Hemingway) e Giovanni Ribisi no papel do jornalista norte-americano Denne Petitclerc- no filme o personagem Ed Myers - que tem em Hemingway uma referência de vida e de escritor e jornalista.

COMENTÁRIO: Assistir ao filme depois de estar em Cuba por duas semanas e depois de conhecer a finca onde Hemingway viveu por muitos anos em Havana foi um momento de nostalgia. Tenho também um grande apreço pela obra de Hemingway. Já li 5 livros do autor, incluindo os clássicos Por quem os sinos dobram (1940) e O velho e o mar (1952). O filme foi rodado em Havana e nós estivemos no Floridita, lugar muito frequentado pelo escritor. O filme reproduz com qualidade o drama da depressão e do alcoolismo de Hemingway, problemas comuns em nossa sociedade humana. O enredo também coloca os espectadores no cenário de Cuba no momento central de embate entre o regime ditatorial de Batista, apoiado pelos Estados Unidos, e os revolucionários cubanos, liderados por Fidel Castro, entre os anos de 1956 e 1959. Um filme para ver e rever e uma história que nos convida a conhecer a obra de Hemingway e a história de Cuba, antes e depois da revolução libertária de 1959. Até pouco tempo atrás, eu não tinha a clareza de que Hemingway havia vivido em Cuba justamente durante esse período da revolução e libertação da Ilha em relação ao novo colonialismo, o dos Estados Unidos.

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- Bacurau (2019) - Filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, com Sônia Braga e um grupo excelente de atores brasileiros e alguns atores estrangeiros. Bacurau é um vilarejo localizado em algum lugar do sertão brasileiro, lugar abandonado pelo governo local e que de repente passa a nem constar dos mapas de localização virtual. Logo após o enterro de uma liderança local, Dona Carmelita, coisas estranhas começam a acontecer: o caminhão que traz água potável é alvejado por tiros, estrangeiros começam a circular pelos arredores do vilarejo e drones sobrevoam a região. Assim que moradores começam a ser assassinados de forma brutal, a população percebe que está sendo atacada e unidos organizam a defesa de si próprios.

COMENTÁRIO: gostei muito do filme quando o vi no cinema. Ao rever o filme em casa, anos depois, sigo gostando de Bacurau. A estória nos envolve e é impossível não torcer pela população local contra os invasores estrangeiros. O enredo tem um quê de romances de José J. Veiga, um dos maiores escritores brasileiros de contos fantásticos: os enredos de Veiga e de Bacurau têm a seguinte estratégia narrativa: de repente, tudo muda numa comunidade pacata e tradicional por causa de acontecimentos externos. Bom filme!

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É isso!

William


Post Scriptum: aqui está o comentário anterior sobre filmes que vi.