segunda-feira, 17 de julho de 2023

Diário e reflexões (17/07/23)



Refeição Cultural

Osasco, 17 de julho de 2023. Segunda-feira. 


"Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

(...)

Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida.

(...)

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar - somente.
Não necessita de nada.
"

(Canção de alta noite, Cecília Meireles)


Tenho andado e corrido sempre que posso. Já não tenho mais ilusões e objetivos a alcançar com corridas e caminhadas, meu quadril desgastado me tirou esse pequeno prazer que tinha na vida. Corro e ando com dores porque essa atividade aeróbica é necessária para me manter vivo. Pedalo também, mas pedalar é minha terceira opção: gosto menos. Sem ilusões de correr uma maratona, até uma meia-maratona já era... Corri 10 provas da São Silvestre, mas não sei se volto a participar dela algum dia.

Hoje andei 20 Km entre o fim da tarde e a noite. Foi um teste pra ver qual tênis é melhor para andar longas distâncias, pra ver como o meu quadril se comporta, como meu corpo se comporta, energia vital etc. A caminhada foi tranquila. Cansei um pouco, mas dentro do esperado. O tênis não me deu bolha, mas minhas unhas dos dedões dos pés doeram bastante. Parece que minhas unhas já não suportam a carga de longas distâncias. É a natureza, sou natureza e tudo mudou. Me parece que minhas romarias de dezenas de quilômetros já eram também.

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Não li nem escrevi como gostaria nos últimos dias. Estou com um monte de textos iniciados e não finalizados, leituras em andamento e textos meus em produção.

"O mistério do meu canto,
Deus não soube, tu não viste.
Prodígio imenso do pranto:
- todos perdidos de encanto,
só eu morrendo de triste!

(A doce canção, Cecília Meireles)

Alguns textos no mundo das ideias não foram feitos porque tenho dúvidas se os faço ou não. Um deles, por exemplo, é sobre a destruição das pessoas pelo excesso de consumo de bebidas alcoólicas. Eu morro por dentro todas as vezes em que vejo pessoas queridas se destruindo com bebidas.

Textos sobre política, sobre acontecimentos de nosso governo, textos sobre a entidade de saúde que geri tempos atrás, textos sobre livros e cultura e linguagem. Tenho tido uma dúvida incômoda sobre escrever ou não escrever. Tem dia que tenho vontade de deletar as redes sociais que tenho e parar de escrever. Depois reflito e concluo que se fizer isso, morro... de alguma forma morro.

Sobre os livros a ler tenho dilemas também, dúvidas semelhantes sobre ler ou não ler isso ou aquilo. História, política, literatura, poesia, crônica, ciência, filosofia etc. Como a natureza é a mudança, eu mudei e mudo a todo instante. O que acumulei pra ler perdeu o sentido porque tudo mudou. Evidente que tenho que buscar sentidos e significados para estar no mundo, mas a materialidade e minha percepção de mundo estragaram um calhamaço de ilusões que me moviam: histórias a se criar. Não tenho ilusões como antes.

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Pra fechar o registro escrito nesta página virtual da rede mundial, tem a percepção de que a injustiça e a impunidade vencem quase sempre. Ao longo da vida a pessoa talvez tenha relações diversas com as injustiças que presencia. Na primeira fase, ela se incomoda e se move no sentido de se engajar de alguma forma para mudar o mundo e as injustiças do mundo. Depois a vida vai seguindo e a pessoa ora vê avanços ora vê retrocessos. Chega uma hora na qual a pessoa percebe que o mal e a injustiça fizeram parte da história da sociedade humana desde sempre. As formas de luta para mudar a realidade a gente vê que estão desgastadas ou não funcionam mais. A maldade e a impunidade seguem. Fazer justiça com as próprias mãos não rola. Se engajar numa revolução contra aquela casta que está sempre impune, não rola porque parece que nem rola mais esse papo de revolução. E a natureza já te cobrou o seu tempo por aqui.

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É isso. Registro de reflexões do momento. Já se passaram 7 anos do golpe de 2016. Todas as desgraças dos dois governos golpistas seguem impunes. Todas sim! Ser inelegível um deles não é justiça. Os caras não estão presos, nem o vice traidor, nem o clã ladrão, nem trocentos parlamentares e juízes e procuradores e delegados e delegadas que destruíram o país e mataram mais de meio milhão de pessoas estão presos. Nem os "empresários" fdp (depois que FHC criou a lei de "empresário" não pagar impostos em 1995 qualquer fdp se diz empresário... que me perdoem os honestos, mas ô raça do caralho!). Estão todos e todas de boa por aí, nas redes sociais, nos fancy restaurants etc.

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William


Post Scriptum: os poemas da poeta Cecília Meireles chegaram depois do instante das minhas ideias registradas. As poesias são assim, sintetizam em imagens o que nos vai dentro d'alma.


sexta-feira, 14 de julho de 2023

Poema do Missing You




Poema do Missing You

Pedi aos deuses do algoritmo que me enviassem um sinal (não pedi que fizessem IA blá blá blá, só pedi inspiração musical - a musa) e eles prontamente me atenderam. (Eles se lembraram do recente dia de celebração do Rock e me alertaram que os roqueiros também têm sentimentos). Vejam os poemas musicados.

Vieram de Nazareth, depois meteram uma Melissa Etheridge e emendaram aquela angústia com Dire Straits. Seguiram o desabafo com Ozzy Osborne e reafirmaram com Heart que o amor é necessário... Não deu outra, os deuses do Rock finalizaram as baladas-poemas ao som de Van Halen deixando claro que é impossível deixar de amar!

Where Are You Now
I Want To Come Over
(You) So Far Away (From Me)
Mama, I'm Coming Home
What About Love
Can't Stop Loving You.

William Mendes

quarta-feira, 12 de julho de 2023

Dilemas sobre a saúde humana (I)



Refeição Cultural

Osasco, 12 de julho de 2023. Quarta-feira.


REFLEXÕES


Que tipo de reflexão eu poderia fazer sobre o tema saúde humana? Que noções eu tenho sobre o tema saúde humana para exercer meu livre direito constitucional de expressar minha opinião e meus pensamentos sobre esse tema, a saúde humana? 

Em relação à população em geral, talvez eu conheça um pouquinho mais sobre o tema, ou seja, talvez eu tenha algumas noções a mais sobre saúde humana em relação aos leigos porque durante o percurso de minha vida adulta tive alguns contatos com o tema de forma técnica ou profissional.

Tive uma experiência marcante em minha vida, fui gestor de saúde por quatro anos e essa oportunidade me proporcionou conhecimentos na área de assistência à saúde que eu jamais imaginaria ter não fosse essa experiência. Eu diria que posso fazer reflexões ao menos sobre gestão de sistemas de saúde como o da autogestão Cassi.

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PRIMEIROS CONTATOS

Na infância, trabalhei por alguns meses em uma drogaria e até aplicava injeções. Por incrível que isso possa parecer hoje, nos anos oitenta isso foi possível, legal ou ilegalmente, porque não sei se a drogaria onde eu trabalhava de entregador de medicamentos poderia me pedir para aplicar injeções musculares e venosas nos clientes. O fato concreto é que eu apliquei muita injeção durante alguns meses de trabalho. Os clientes ao ligarem na drogaria pediam que eu fosse aplicar as injeções porque eu tinha a "mão boa" e as injeções não doíam, nem as musculares nem as venosas. Que loucura pensar nisso hoje! Eu era uma criança entre meus 14 e 15 anos de idade.

Depois de já ser adulto e trabalhar no Banco do Brasil, eu iniciei uma graduação em Educação Física e cursei o bacharelado por dois anos. Estudei na Faculdade do Clube Náutico Mogiano e modestamente posso dizer que me dei muito bem com as disciplinas que fiz. Eu já era formado em Ciências Contábeis e voltar a estudar com mais idade foi muito positivo porque minha dedicação aos estudos fazia toda a diferença. Aprendi muito com as disciplinas das áreas médicas como, por exemplo, "Anatomia" e "Bioquímica e Nutrição". Infelizmente eu não pude concluir o curso por não ter recursos para pagar as mensalidades.

GESTÃO EM SAÚDE NA CASSI

Meu terceiro contato técnico ou profissional com a área de saúde humana foi uma das maiores experiência de minha vida. Entre 2014 e 2018, no auge de minha maturidade política e intelectual, fui eleito gestor de saúde da autogestão dos trabalhadores do Banco do Brasil, a Cassi. Eu já vinha de uma intensa formação política na luta por direitos em saúde da categoria bancária, pois era dirigente sindical e coordenava as negociações entre capital e trabalho, nas mesas entre os bancários e o Banco do Brasil e Fenaban. Nunca estudei tanto em minha vida! Nunca fiz tanto esforço em transmitir o que aprendi em saúde e gestão de saúde para a coletividade. E ao transmitir conhecimento, a gente aprende e aperfeiçoa o conhecimento.

O nosso mandato de gestão de saúde foi exercido durante um período complexo da vida do país. Quando eu fui eleito para ser diretor de saúde na autogestão do maior banco público do país, o governo federal era gerido pelo Partido dos Trabalhadores, por Dilma Rousseff. Ao longo do mandato, o país sofreu um golpe de Estado, e os golpistas assumiram a gestão do país a partir do dia 17 de abril de 2016, com Michel Temer. Tudo mudou drasticamente na vida do povo trabalhador brasileiro e nas instituições do Estado nacional naquele período. Evidentemente, mudou também as relações internas nas empresas públicas e nas agências reguladoras e controladoras.

Durante o período no qual fizemos parte da gestão da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil havia um forte embate entre capital e trabalho, embate iniciado já nos governos do PT e que se agravou após o golpe de Estado. O patrocinador da Cassi, o banco estatal, alegava não poder investir mais recursos na autogestão, da qual detinha a metade do controle administrativo e era o responsável direto pela gestão das áreas contábeis, econômico-financeiras, presidência, controles e auditoria etc. O embate entre capital e trabalho tinha um foco central: aumentar a contribuição dos associados e dependentes e reduzir direitos em saúde. Esse embate permaneceu enquanto estivemos lá. Os associados não perderam direito algum até terminar nosso mandato.

PREVENIR E EVITAR DOENÇAS OU VENDER A CURA E A ILUSÃO DA CURA?

Enfim, vivemos dilemas sobre a saúde humana, desde sempre. Eu diria que os dilemas começam pelas escolhas feitas pelos gestores de sistemas públicos e privados de saúde (escolha política): se o objetivo do sistema gerido é promover saúde e evitar adoecimentos ou aplicar os mais diversos meios disponíveis (e caros) para reparar doenças e amenizar consequências de doenças e traumas na saúde das pessoas.

Minhas noções sobre saúde humana foram ampliadas após uma vida de representação da classe trabalhadora por causa das disputas entre patrão e trabalhadores em relação às condições de trabalho e adoecimento por causa da venda de nossa força de trabalho. De cara, posso afirmar que um dos embates é tentar prevenir o adoecimento dos trabalhadores, mas a disputa com o patrão nesta questão é dura, a gente acaba adoecendo mesmo.

Ser gestor de saúde e de sistemas de saúde me deu oportunidade de conhecer por dentro como funciona a chamada indústria da saúde, tanto pública como privada. É evidente que meu aprendizado, minhas noções, foram muito mais relativas à realidade da Caixa de Assistência, uma autogestão, com um modelo de saúde que vinha sendo implementado após um longo debate interno entre patrocinador, associados e corpo técnico. 

DE ONDE VEM E PRA ONDE VAI A NOSSA CASSI?

O modelo de Estratégia de Saúde da Família (ESF), escolhido entre os modelos de Atenção Primária em Saúde (APS) era uma decisão acertada na Cassi e nós demonstramos isso em números durante nossa gestão como responsável pela diretoria de saúde. A Cassi conseguiu brilhar interna e externamente em relação ao modelo assistencial mesmo enquanto se debatia a questão do déficit e do custeio, uma área específica e problemática da indústria da saúde. A ESF se mostrou a melhor opção para o futuro da Cassi.

De repente, após 2018, mudaram tudo na Cassi. Em tese, o problema mais imediato foi resolvido, o custeio recebeu uma grande injeção de recursos já a partir do final daquele ano e após a reforma estatutária na qual se aprovou tudo o que o patrocinador queria. 

Os associados passaram a pagar bem mais pela assistência à saúde, o banco público diminuiu seus investimentos no sistema (a proporção), novas gestões vieram, tanto as indicadas pelos governos Temer e Bolsonaro, quanto os grupos eleitos após 2018 foram grupos antissindicais, do espectro da direita, distantes do dia a dia da luta da classe trabalhadora e muito mais próximos dos ideais patronais, defensores do mercado e de ideias como a terceirização de tudo. 

E não é que a Cassi está com um déficit enorme de novo! O Visão Cassi do primeiro trimestre nos apresenta um déficit operacional de 98 milhões! Se fizeram tudo o que queriam, por que os resultados não vieram? Vão dizer que a culpa é dos associados de novo?

Enfim, eu tenho visto os novos gestores se esforçando para fazer um bom trabalho na Cassi, tanto os eleitos em 2022 como os indicados pelo novo governo (2023), tenho visto o movimento sindical se reunindo e cobrando os direitos em saúde dos trabalhadores e aposentados, e me parece que não é só o nosso querido Sistema Único de Saúde (SUS) que vive momentos decisivos para o presente e o futuro da saúde humana, nossa autogestão também está num momento decisivo. 

Nossa Cassi vai seguir a tendência adotada nas gestões (e governos) anteriores? Será que algo não está errado nas opções que fizeram nos últimos 6 anos? O recurso novo entrou, os direitos diminuíram ou ficaram mais caros e o déficit está crescendo de novo. Não seria a hora de repensar o rumo adotado nos últimos 6 anos e se debater o sistema e o modelo atual da Cassi?

Eu sigo na torcida pelo acerto da nossa direção da Cassi e pelo acerto do nosso governo Lula.

Contudo, entendo que a Cassi deveria retomar a ampliação do modelo assistencial da Estratégia de Saúde da Família (ESF) como o modelo de APS a ser disponibilizado para o conjunto dos associados e participantes. 

Tenho a impressão de que da forma como está hoje, a chamada Atenção Integral via APS (faz uma telemedicina aí!) passou a ser só mais um ponto de atenção, uma porta de entrada sem o efeito longitudinal esperado de acompanhamento do participante no tempo, que a ESF tinha. 

O resultado da ESF ao longo do tempo nos participantes vinculados e aderentes ao modelo por mais de 3 anos nós demonstramos e não vejo por que não seguir com o que é bom e dá resultado.

É uma opinião, e não é de leigo.

William


terça-feira, 11 de julho de 2023

Os miseráveis - Victor Hugo (8)



Refeição Cultural

Osasco, 11 de julho de 2023. Terça-feira.


PRIMEIRA PARTE - FANTINE

LIVRO I: UM JUSTO

XI. Uma restrição

Neste capítulo, o narrador ou Victor Hugo, pois ainda não concluí se o narrador transmite as visões de mundo do escritor ou não - me parece que o narrador demiurgo é o Hugo -, apresenta uma restrição a uma atitude do bispo de Digne, o senhor Myriel, em relação ao comportamento dele no que diz respeito a Napoleão Bonaparte.

"A não ser por isso, ele era e foi, em tudo, justo, verdadeiro, equitativo, inteligente, humilde e digno; benéfico e benevolente, que é outra espécie de beneficência. Era um padre, um sábio e um homem. Até mesmo, é preciso dizer, nessa opinião política que acabamos de reprovar-lhe, e que estamos dispostos a julgar quase severamente, era tolerante e fácil, mais talvez do que nós, que aqui falamos." (p. 88)

Vale lembrar que o Monsenhor Bienvenu chegou a esta posição na hierarquia da Igreja por ter caído nas graças do imperador num encontro fortuito (descrito no início do livro).

O narrador vê como certa ingratidão o descaso do Bispo de Digne na hora da queda de Napoleão. O bispo lhe virou as costas. O narrador diz que o povo só perdoou o bispo porque o amava. Bonaparte era muito querido pelo povo.

Antes dessa avaliação, o narrador nos conta que o bispo era malquisto por seus pares acima e abaixo na hierarquia de poder da igreja porque fazia voto de pobreza e não compartilhava da suntuosidade da função. Ele chegou a se retirar de um importante sínodo dizendo que incomodava o ambiente com seus ares de rústico e:

"Uma outra vez disse ainda: O que querem? Aqueles monsenhores são príncipes. E eu, não passo de um pobre bispo aldeão." (p. 85)

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XII. Solidão de Monsenhor Bienvenu

"Diga-se de passagem, o sucesso é algo bastante repugnante. Sua falsa semelhança com o mérito engana os homens. Para a multidão, o sucesso tem quase o mesmo perfil que a superioridade (...) Ser bem-sucedido: teoria. Prosperidade supõe capacidade. Ganhe na loteria e será considerado um homem hábil. Quem triunfa é venerado. Nasça com sorte e pronto, o resto virá por si; seja feliz, e será visto como grande..." (p. 90)

Interessante. Victor Hugo aponta bem antes no tempo - mais de século - questões da realidade atual das redes sociais. O que ele descreve ali é semelhante ao que virou a vida humana e social no século 21: "youtubers" e pessoas "famosas" do nada viram "influenciadores" com milhões de seguidores, influenciadores sem conhecimento algum de nada... e ficam ricos, e muitas vezes poderosos, e muitas vezes induzem de forma perigosa o comportamento de milhões de pessoas.

E quem se mantém nos seus princípios se torna um solitário, alguém até para se evitar. Atualíssimo! Uma pessoa como ele poderia ser hoje um "cancelado".

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XIII. Em que acreditava

"Monsenhor Bienvenu havia sido, em outros tempos, se dermos crédito às histórias sobre sua juventude e virilidade, um homem de paixões, e violento, talvez. Sua mansidão universal era menos um instinto da natureza que o resultado de uma grande convicção filtrada em seu coração através da vida, e lentamente absorvida por ele, pensamento por pensamento; pois um caráter, assim como uma rocha, pode ser escavado por gotas de água. E essas escavações nunca mais se desfazem; essas formações são indestrutíveis." (p. 92)

Essa caracterização do personagem Myriel é bem interessante. Penso muito sobre isso em minha vida. Poderia dizer que sei o que o narrador está descrevendo: as pessoas podem mudar por convicção!

O senhor Myriel organizou sua vida de forma a seguir os dogmas religiosos. Sem analisar Deus; só contemplar tudo o que fora feito por Ele já bastava. E pronto.

"(...) Não analisava Deus; deslumbrava-se com Ele. Refletia sobre esses magníficos encontros de átomos que dão forma à matéria, revelam as forças ao constatá-las, criam as individualidades na unidade, as proporções na extensão, o inumerável no infinito, e, por meio da luz, produzem a beleza. Esses encontros se enlaçam e se desenlaçam sem cessar, daí resultando a vida e a morte." (p. 94)

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XIV. O que pensava

O monsenhor Bienvenu pensava que o questionamento aos dogmas da igreja se fossem feitos, deveriam ser feitos por gênios, que não era o caso dele porque "O que iluminava aquele homem era o coração. Sua sabedoria era feita da luz que nele existia".

O narrador caracteriza assim o senhor Myriel:

"Há homens que trabalham na extração do ouro; ele trabalhava na extração da piedade. Sua mina era a miséria universal. O sofrimento geral era sempre uma ocasião para a bondade. Amai-vos uns aos outros, era sua afirmação mais completa; não desejava nada mais que isso, ali estava toda a sua doutrina." (p. 96)

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COMENTÁRIO

Terminei a leitura do Livro 1 da primeira parte "Fantine".

Conheci o personagem Myriel, padre que virou bispo de Digne após cair nas graças de Napoleão Bonaparte num encontro fortuito. Ele agora é o Monsenhor Bienvenu e vive com sua irmã Baptistine e com a criada Magloire, ambas mais novas que ele, que tem 75 anos.

Percebi que o narrador em terceira pessoa é um demiurgo, sabe tudo a respeito das personagens e da história que vai nos contar, conversa com o leitor ao longo do romance. O livro foi lançado em 1862, a técnica de Victor Hugo é bem interessante.

Vou ler esse romance durante meses. Normal. É como se assistisse a capítulos de novelas ou episódios de séries nos dias de hoje.

William


Post Scriptum - Para ler o texto anterior sobre essa leitura, é só clicar aqui. O texto seguinte sobre o clássico de Victor Hugo pode ser lido aqui.


Bibliografia:

HUGO, Victor. Os miseráveis. Tradução de Regina Célia de Oliveira. Edição especial. São Paulo: Martin Claret, 2014.

domingo, 9 de julho de 2023

Leitura: Novos poemas - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural

Osasco, 9 de julho de 2023. Domingo.


O TEMPO, A MATÉRIA E OS HOMENS PRESENTES 


"Que quer a paixão? detê-lo.
Que quer o peito? fechar-se
contra os poderes do mundo
para na treva fundir-se.

Que quer a canção? erguer-se
em arco sobre os abismos.
Que quer o homem? salvar-se,
ao prêmio de uma canção.
" (O arco)


O livro Novos poemas (1948) é o sexto livro de poesias de Drummond que li. Ele está no 1º volume da coletânea Nova Reunião: 23 livros de poesia, da Edições BestBolso. 

Os cinco livros anteriores de Drummond são os que mais conheço, desde que passei a ler poesia, após os 30 anos de idade. Os três primeiros - Alguma poesia, Brejo das almas e Sentimento do mundo - leio há mais de duas décadas. José e A rosa do povo, li inteiros pela primeira vez durante a pandemia de Covid-19. Foi uma experiência marcante.

"O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,/a vida presente" (Mãos dadas)

Drummond é uma figura humana extraordinária! Dessas que passaram pela humanidade e deixaram grandes coisas para os seres humanos. O poeta foi cronista por mais de seis décadas. Como cronista era um observador, um homem cuja matéria era o tempo, os homens e a vida presentes. Um grande homem, Drummond.

Talvez por causa do poeta trabalhar justamente com as palavras e sua matéria ser o tempo, os homens e a vida é que sempre que leio Drummond fico tão pensativo sobre nossas vidas, nosso tempo e os humanos que nos cercam. Foi assim na leitura dos poemas desse pequeno livro Novos poemas. Pensei nessas coisas do tempo presente e da vida presente.

"Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me veem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
" (Canção amiga)  

É evidente que o coração sente o esquecimento, o ser deixado de lado por causa dos tempos de mesmices e bolhas amigas que não toleram a divergência construtiva. Como não sentir? Sinto. É seguir saudando os velhos amigos.

"E resta a espera, que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam
ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos
" (Desaparecimento de Luísa Porto)

Tanto tenho refletido sobre os momentos nos quais nos sentimos impotentes por causa da incapacidade de interferir em eventos da materialidade da vida nossa e dos outros... às vezes, nos resta a torcida e a espera, até como um dom mesmo, como diz o poeta.

"Mas tenho apenas meu canto,
e que vale um canto? O poeta,
imóvel dentro do verso,

cansado de vã pergunta,
farto de contemplação,
quisera fazer do poema
não uma flor: uma bomba
e com essa bomba romper
" (Notícias de Espanha)

Eita, poeta! Às vezes, a gente que agora só tem a palavra, sem mandato sem representação, a vontade é de escrever e falar tudo o que pensa mesmo, sobre o movimento, sobre a Cassi, sobre acertos e erros de nosso governo, as potencialidades efetivadas e as perdidas...

"A dileta circunstância
de um achado não perdido,
visão de graça fortuita
e ciência não ensinada,
achei, achamos. Já volto
e de uma bolsa invisível
vou tirando uma cidade,
uma flor, uma experiência,
um colóquio de guerreiros,
uma relação humana,
uma negação da morte,
vou arrumando esses bens
em preto na face branca.
" (Aliança)

Do poema "Aliança" quase escolhi dele a ideia triste de "Já desisto de lavrar/este país inconcluso,". Aí pensei, pensei, pensei e senti que o melhor é tirar a ideia feliz "e de uma bolsa invisível,/vou tirando uma cidade,/uma flor, uma experiência/um colóquio de guerreiros,/uma relação humana,". 

É isso! Estamos vivos, estamos aqui, a vida é o presente de lutas, a história segue sendo feita por nós, humanos.

O poema "O enigma", último do livro, é fabuloso! As pedras são as personagens da história. Elas caminhavam pela estrada e um dia uma forma obscura lhes interrompe o caminho. Eram inteligentes e raciocinaram enquanto puderam sobre o que fazer. Acabaram por se fixarem no caminho como chão, montanhas ou seixos.

"Ai! de que serve a inteligência - lastimam-se as pedras. Nós éramos inteligentes; contudo, pensar a ameaça não é removê-la; é criá-la.

Ai! de que serve a sensibilidade - choram as pedras. Nós éramos sensíveis, e o dom de misericórdia se volta contra nós, quando contávamos aplicá-lo a espécies menos favorecidas.
" (O enigma)

Fica para nós a mensagem final do poema e do livro, a Coisa "não se compadece nem de si nem daqueles que reduz à congelada expectação", a Coisa "Barra o caminho e medita, obscura."

Esse é nosso poeta Carlos Drummond de Andrade. Esse foi meu 2º livro do semestre e o 20º neste ano. 

Se contar os poemas dos 6 livros que li de meu poeta preferido, agora são 49+26+28+12+55+12=182 poemas conhecidos por mim. Faltam centenas ainda. É seguir lendo e conhecendo Drummond.

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REFLEXÕES

No início deste semestre, a primeira leitura feita por mim foi a argumentação do jovem advogado Fidel Castro em defesa do movimento de libertação de Cuba e do povo cubano, o grupo atacou o Quartel Moncada e por detalhes não obteve sucesso. Fidel nos conta em A história me absolverá as motivações seculares que moveram aqueles jovens corajosos, patriotas e revolucionários. Ler comentário sobre o livro aqui.

De ler a argumentação de Fidel Castro e de ver paralelos entre as causas originárias das lutas de libertação do povo cubano e as causas que moveram por mais de meio século o retirante nordestino e metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva - essas causas comuns são a miséria do povo, a injustiça social e o abuso de elites e grupos de poder instalados nos países da América do Sul e Caribe - peguei na estante alguns livros sobre Lula e os apartei como desejo de leitura para os próximos dias.

E onde entram os desejos de leitura que ocupam os dois lados de minha pequena mesa de trabalho e estudos na sacada de casa, livros sobre Cuba, sobre Machado, de poesias de Cecília Meireles e Drummond e Os miseráveis? Peguei até um livro de Peter Straub dos anos oitenta de terror e suspense que me deu medo quando o li na adolescência... 

Que miscelânea é essa? Talvez tudo isso tenha para mim um sentido de tempo presente, de urgência do presente, de finitude de tudo e falta de tempo para conhecer tudo que gostaria de conhecer no parco tempo de uma vida humana. Eu só tenho o presente...

Sinto que o tempo está passando naturalmente. Sinto que o tempo está escorrendo rápido como se fosse a água descendo por um ralo: tempo psicológico? tempo cronológico?

Já sei que não tenho o tempo que passou, sei que não tenho domínio algum sobre um eventual tempo que possa vir, e às vezes sinto que sequer tenho domínio sobre o tempo presente. 

O tempo presente. A materialidade do tempo presente. Se sou e estou por que sinto que não consigo sequer fruir o tempo como poderia ser e estar? 

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Domingo. Gostaria de ir à plenária de 100 dias do mandato da vereadora Luna Zaratiini (PT-SP), a jovem está fazendo um mandato da forma como aprendi a fazer representação política, ela está sempre presente nas reuniões e eventos do DZ Butantã. 

Trabalho de base: meu primeiro exemplo de trabalho de base foi nosso companheiro Marcos Martins, aqui de Osasco: ele sempre foi uma referência para mim. Um mandato ao lado do povo o tempo todo, ao lado da base social que representa. Fiz assim os nossos mandatos sindicais e o de gestor de saúde na autogestão dos trabalhadores do BB. Fui querido e odiado por isso. É a luta de classes.

Nesta semana já saí de casa na quinta ao ir a um Sarau do Sindicato, saí na sexta ao me encontrar com um colega de banco aposentado, já passei a tarde do sábado em reunião do Partido contribuindo com as visões políticas que temos, e na segunda tenho que sair para ir a uma atividade defender as casas de cultura ameaças de privatização pelo governo de merda da cidade de São Paulo. Acabei decidindo ficar em casa no domingo. Fica aqui o meu registro de admiração e apoio ao mandato de Luna Zarattini.

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"Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
" (Canção amiga)

Tanta coisa pra escrever, mesmo que para poucas pessoas. Faz dias que tenho refletido sobre fazer um artigo abordando a questão do álcool, da bebida alcoólica e seus efeitos deletérios para as pessoas que bebem e para a sociedade como um todo. Sei que não vão gostar do que vou dizer, mas fico pensando nos ensinamentos de Edward Said sobre o papel que um estudioso e intelectual tem perante a sociedade. Temos que apontar o que pensamos sobre as coisas, independentemente de agradar ou não as pessoas.

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É isso! Já escrevi bastante por hoje. Vamos ficar em casa, ler um pouco e talvez fazer algo mais favorável à saúde do corpo e da mente.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.


quinta-feira, 6 de julho de 2023

Diários com Machado de Assis (XIV)



Refeição Cultural

Osasco, 6 de agosto de 2023. Quinta-feira. 

(Um dia triste: perdemos duas pessoas do nosso lado na luta por um mundo melhor. Perdas por acidentes domésticos. Zé Celso, grande dramaturgo brasileiro, faleceu em decorrência de um incêndio; e nosso companheiro de lutas Carlos Cremoso, funcionário do Sindicato, faleceu em decorrência de uma queda. Um dia triste! Meus sentimentos aos familiares e amig@s)


Crônicas são textos de um gênero discursivo que depende muito de um certo nível de conhecimento por parte dos leitores - as referências -, ou seja, quando alguém lê uma crônica a pessoa precisa ter um conhecimento mínimo sobre a temática na qual a crônica faz referência, caso contrário o texto fica meio sem sentido.

Para dar um exemplo atual, o livro A bíblia em crônicas livres (2023), do excelente escritor e cronista Roberto Buzzo, faz referências em seus textos a personagens e eventos citados na bíblia, nos livros reunidos no Antigo e Novo Testamento (comentário aqui). 

A pessoa pode nunca ter lido a bíblia na vida, mas no mínimo a pessoa sabe do que se trata, sabe que a bíblia existe, já ouviu falar de fulano ou ciclano citado na bíblia etc. São as referências.

Em geral, tendo a afirmar que textos de crônicas envelhecem mal, justamente porque as referências vão se perdendo ao longo do tempo cronológico. Até nisso o Buzzo foi esperto, porque as referências das crônicas dele me parecem que ainda vão longe no presente e no futuro (risos).

Aí peguei pra ler, meio sem querer, um dos livros de Machado de Assis na estante. Percebi nas primeiras páginas a dificuldade da leitura, dificuldades como descrevi acima. Me faltam as referências. Parte delas por ignorância intelectual, parte por terem sido referências episódicas, coisas do cotidiano de Machado naquela época.

O livro História de quinze dias traz reunidas crônicas do Mestre do Cosme Velho dos anos de 1876, 1877 e 1878, reunidas neste volume de Obras Completas de Machado de Assis, da Editora Globo. Essa coleção é uma preciosidade que tenho em casa.

Vou tecer um elogio ao Roberto Buzzo e inclusive vou tratar de comprar o livro dele impresso, já que o que li foi digital, algo que não existe pra mim. Ele me fez rir. Rio com as crônicas dele.

Peguei as crônicas de Machado e li, li, li, até que as referências foram clareando e eu comecei a rir. O cara é fenomenal! Se Machado não é o pai da ironia, ele é herdeiro direto do deus da ironia. Cada parágrafo tem alguma ironia no que Machado apresenta ao leitor ou leitora da época.

Por que falo do elogio ao Buzzo? Porque o Buzzo me fazia rir sozinho quando lia suas crônicas sobre os (as) personagens e eventos clássicos da bíblia. O velho Machado me faz rir sozinho quando o leio, o Machado que nem era velho quando escreveu essas crônicas, tinha menos de 40 anos. Eu rio muito pouco, sou rabugento (triste eu diria). Buzzo e Machado me fazem rir...

MACHADO TIRA SARRO ATÉ DE SI MESMO

Nas primeiras páginas do livro, Machado tira sarro dos nomes próprios das pessoas. À época era comum meter um monte de nomes e sobrenomes nas pessoas para dar algum grau de nobreza ou origem, verdadeira ou falsa. 

Ele termina falando o quanto é bom as pessoas terem apenas dois nomes, tipo Luís de Camões ou Antônio vieira, e que os grandes acabam tendo um só, tipo Chateaubriand ou Gladstone.

Aí depois ele fala de um correspondente de jornal de outro Estado, e demais profissionais da área, que usam diversas denominações para uma palavra e termina dizendo que as pessoas poderiam usar só a forma padrão ou correta, que as outras são invenções deles, elas não existem.

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"Será preciso observar a todos os cavalheiros que cometem semelhante descuido, que não há chefança, nem chefado, nem chefação, nem chefatura, mas tão-somente chefia?"

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O escritor, crítico e jornalista Machado de Assis tira barato dele mesmo ao comentar sobre duas apresentações de teatro que ele não chegou a ver e mesmo assim se mete a comentar... é hilário. Ele se justifica, dizendo que uma pessoa não precisa ir ver alguém imitar um rouxinol cantar se ela já viu o próprio rouxinol cantar.

Enfim, coisas que a gente só para pra pensar ou refletir se a gente pegar o texto pra ler.

É isso! Leiam. (se quiserem ler, é claro)

William


Post Scriptum: para ler o texto anterior dessa temática machadiana, clique aqui.


ASSIS, Machado de. História de quinze dias. Obras Completas de Machado de Assis. Editora Globo. São Paulo, 1997.


quarta-feira, 5 de julho de 2023

Livro: La historia me absolverá - Fidel Castro



Refeição Cultural - Cuba (XXVII)

Osasco, 05 de julho de 2023. Quarta-feira.


"Para mis compañeros muertos no clamo venganza. Como sus vidas no tenían precio, no podrían pagarlas con las suyas todos los criminales juntos. No es con sangre como pueden pagarse las vidas de los jóvenes que mueren por el bien de un pueblo; la felicidad de ese pueblo es el único precio digno que pueda pagarse por ellas." (Fidel Castro)


A primeira leitura deste semestre foi La historia me absolverá (1953), de Fidel Castro Ruz, líder da Revolução Cubana e um dos grandes intelectuais do século 20. 

Que documento histórico! E que argumentações extraordinárias do jovem líder revolucionário Fidel Castro Ruz durante o julgamento de cartas marcadas que ele e seus companheiros enfrentaram em 1953 após a tentativa de tomada do Quartel de Moncada, em 26 de julho daquele ano, em Santiago de Cuba! 

Mesmo sob as piores condições possíveis, Castro construiu uma defesa impecável dos atos que o Movimento 26 de julho empreendeu pela liberdade de Cuba e do povo cubano do jugo do ditador Fulgencio Batista e seus asseclas. Batista havia dado um golpe de Estado em 10 de março de 1952 e a violência contra o povo e o assalto aos cofres públicos eram fatos insuportáveis naquele momento em Cuba.

Em primeiro lugar, agradeço ao companheiro revolucionário senhor Luis Caballero pelo presente tão especial: uma caixa com três textos fundamentais para o povo cubano: La historia me absolverá, de Fidel Castro Ruz, Manifiesto Comunista, de Marx e Engels e Nuestra América, de José Martí.


OS ARGUMENTOS DE FIDEL CASTRO

Fidel nos legou um documento histórico ao pronunciar suas alegações e argumentos durante o julgamento em um tribunal de justiça completamente submetido ao poder do ditador Batista.

As sessões começaram em 21 de setembro de 1953 e terminaram com a condenação de Fidel Castro a mais de 26 anos de prisão. Tudo no julgamento foi irregular, tudo. Não se cumpriram os direitos mínimos garantidos por leis nacionais e internacionais em relação aos acusados.

Fidel organizou sua argumentação contextualizando cada parte do que declarou aos juízes. 

Trouxe o histórico do movimento pela libertação de Cuba, citando lutas anteriores e heróis nacionais como Céspedes, Agramonte, Maceo, Gómez, José Martí. O movimento de jovens revolucionários 26 de Julio foi mais um na luta pela libertação de Cuba do jugo imperialista.

Depois apontou a ilegitimidade do governo golpista de Fulgencio Batista, e cobrou da justiça por que não se aplicou a lei e a constituição a ele e sua turma golpista em 1952.

Fidel descreveu a situação de calamidade na qual se encontrava o povo cubano e a contradição das mordomias do pequeno grupo ao redor de Batista e seus apaniguados. Demonstrou como o país estava em função do império norte-americano.

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"El problema de la tierra, el problema de la industrialización, el problema de la vivienda, el problema del desempleo, el problema de la educación y el problema de la salud del pueblo; he ahí concretados los seis puntos a cuya solución se hubieran encaminado resueltamente nuestros esfuerzos, junto con la conquista de las libertades públicas y la democracia política."

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Depois apresentou os princípios que norteavam o movimento de libertação nacional. Descreveu as 5 leis revolucionárias, que resumo assim: a 1ª devolvia a soberania ao povo, a 2ª fazia reforma agrária e concedia a propriedade ao povo, a 3ª dava aos trabalhadores participação nos resultados das empresas que atuavam em Cuba, a 4ª dava aos colonos 50% dos resultados adquiridos com o plantio de cana de açúcar e a 5ª confiscava imóveis e bens com escrituras e documentações de heranças suspeitas.

Denunciou a barbárie dos assassinatos dos jovens combatentes após torturas e a sangue frio, mesmo quando estes já se encontravam sob a jurisdição do Estado. Com números, demonstrou que a ditadura de Batista assassinou dezenas de prisioneiros indefesos.

E ao final, não pediu sua absolvição, pediu sua condenação, já que haviam condenado seus companheiros de forma ilegal e ilegítima. Queria estar junto deles.

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"En cuanto a mí, sé que la cárcel será dura como no la ha sido nunca para nadie, preñada de amenazas, de ruin y cobarde ensañamiento, pero no la temo, como no temo la furia del tirano miserable que arrancó la vida a setenta hermanos míos. Condenadme, no importa, la historia me absolverá."

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A leitura das mais de 170 páginas de minha edição é uma leitura muito reflexiva, de grande lição e de uma atualidade absoluta perante o momento no qual nos encontramos no mundo.

Me lembrei do depoimento de Aleida March, revolucionária e companheira de Ernesto Che Guevara, ao relembrar que quando leu a alegação de Fidel Castro após 1953, ela com uns 16 anos de idade, percebeu que ali estava a síntese do que ela queria para a sua vida e a vida de seus familiares e do povo cubano. (ler aqui comentários sobre o livro de Aleida March)

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EXCERTOS

Segue abaixo algumas citações do livro. Algumas. Lembro aqui que nada substitui a leitura do texto original. A experiência é muito enriquecedora.

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A FORÇA UNITÁRIA DAS IDEIAS E DOS IDEAIS

"Es que, cuando los hombres llevan en la mente un mismo ideal, nada puede incomunicarlos, ni las paredes de una cárcel, ni la tierra de los cementerios, porque un mismo recuerdo, una misma alma, una misma idea, una misma conciencia y dignidad los alienta a todos."

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IDEIAS E IDEAIS VENCEM EXÉRCITOS

"(...) añadí a mi escrito aquel pensamiento del Maestro: 'Un principio justo desde el fondo de una cueva puede más que un ejército'."

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ARMA NENHUMA VENCE UM POVO DECIDIDO A LUTAR POR DIREITOS

"Se ha querido establecer el mito de las armas modernas como supuesto de toda imposibilidad de lucha abierta y frontal del pueblo contra la tiranía. Los desfiles militares y las exhibiciones aparatosas de equipos bélicos, tienen por objeto fomentar este mito y crear en la ciudadanía un complejo de absoluta impotencia. Ningún arma, ninguna fuerza es capaz de vencer a un pueblo que se decide a luchar por sus derechos."

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JUSTIÇA INJUSTA COM OS POBRES E HUMILDES DA TERRA

"Cuando vosotros juzgáis a un acusado por robo, señores magistrados, no le preguntáis cuánto tiempo lleva sin trabajo, cuántos hijos tiene, qué días de la semana comió y qué días no comió, no os preocupáis en absoluto por las condiciones sociales del medio donde vive: lo enviáis a la cárcel sin más contemplaciones."

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A ERUDIÇÃO DE FIDEL A CITAR DANTE SOBRE FULGENCIO BATISTA

"Dante dividió su infierno en nueve círculos: puso en el séptimo a los criminales, puso en el octavo a los ladrones y puso en el noveno a los traidores. ¡Duro dilema el que tendrían los demonios para buscar un sitio adecuado al alma de este hombre... si este hombre tuviera alma! Quién alentó los hechos atroces de Santiago de Cuba, no tiene entrañas siquiera."

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SOBRE O EXÉRCITO DA PÁTRIA SOB O COMANDO DO DITADOR BATISTA

"(...) solo siento que hombres valerosos caigan defendiendo una mala causa. Cuando Cuba sea libre, debe respetar, amparar y ayudar también a las mujeres y los hijos de los valientes que cayeron frente a nosotros. Ellos son inocentes de las desgracias de Cuba, ellos son otras tantas víctimas de esta nefasta situación."

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JUÍZES QUE CONSPURCAM A LEI SERÃO ELES JULGADOS NO FUTURO

"Pensad que ahora estáis juzgando a un acusado, pero vosotros, a su vez, seréis juzgados no una vez, sino muchas, cuantas veces el presente sea sometido a la crítica demoledora del futuro..."

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O DIREITO À INSURREIÇÃO FRENTE A TIRANIAS

"El derecho de insurrección frente a la tiranía es uno de esos principios que, esté o no esté incluido dentro de la Constitución Jurídica, tiene siempre plena vigencia en una sociedad democrática."

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COMENTÁRIO FINAL

A leitura desta obra histórica foi uma aula de cidadania e um exemplo a ser seguido por todas as pessoas que não compartilham das injustiças do mundo.

Ao conhecer Cuba este ano foi possível perceber em poucos dias a matriz histórica que embasa a formação cultural do povo cubano, a essência daquilo que se denomina cubanidad e cubanía

A cada leitura e a cada descoberta sobre a história do povo cubano, mais vontade nos dá de estudar e conhecer Cuba.

Sigamos lendo e estudando todos os dias de nossa vida como, aliás, nos ensinaram José Martí, Ernesto Che Guevara e Fidel Castro.

William


Bibliografia:

CASTRO RUZ, Fidel. La historia me absolverá. Editorial de Ciencias Sociales. 13ª edición. La Habana, 2021.


segunda-feira, 3 de julho de 2023

Vendo revistas de corridas Contra-Relógio (I)



Refeição Cultural - Revistas Contra-Relógio

Osasco, 03 de julho de 2023. Segunda-feira.


Além de filmes antigos em fitas de VHS e DVD e pilhas de papéis da vida sindical e estudantil que tenho que me desfazer no próximo período de visita aos guardados por décadas em casa, tenho também as revistas, dezenas e dezenas de revistas. Revistas de política, de ciência, de história, de esporte, de cultura em geral.

Folheei algumas das revistas de corridas Contra-Relógio que tenho em casa. Li várias matérias muito interessantes, com muito conhecimento a respeito de esporte e saúde. Sempre gostei dessa revista! Além de ser um apaixonado pela prática da corrida, também adoro história e essa revista sempre trouxe história em seu conteúdo.

Vale registrar que um de meus sonhos interrompidos era o de ser professor de Educação Física. Fiz a graduação por dois anos e não pude concluir o curso por falta de recursos financeiros nos anos noventa.

Outra informação importante. A CR tem um site muito bom e acessível para os amantes da prática de corridas de ruas. Recomendo que os praticantes de corrida sigam a página e assinem a revista.

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REVISTAS DO ANO DE 2016

A revista 269, de fevereiro, traz matérias boas sobre nutrição e consumo de frutas. As frutas são de fácil digestão e por isso não exigem muito tempo e energia do sistema digestivo para chegarem com os nutrientes na corrente sanguínea. A matéria da última página, sobre corrida e música, parece enaltecer a prática, mas no fundo descreveu que o ato é muito arriscado por diversos motivos como, por exemplo, perder a noção do espaço exterior e se colocar em risco de queda e até atropelamento. Eu nunca me imaginei correndo com som, acho isso um absurdo total! A concentração no corpo é fundamental numa atividade esportiva...

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A revista de março de 2016, nº 270, traz uma excelente matéria sobre corridas em climas ou muito secos ou muito úmidos, em ambos é preciso muito cuidado com o superaquecimento do corpo porque a transpiração acaba não resfriando o organismo adequadamente. E a respiração também é dificultada, ficando o ar mais "pesado" nos climas úmidos e um ar que queima e resseca nos climas secos. Atenção à hidratação nos dois casos. Na matéria de história, é explicado que a metragem 42,195 Km nas maratonas modernas foi por casualidade. A distância variou entre 40 e 42 Km ao longo do século. Por fim, legal a matéria sobre corredoras que fizeram história: a luta das mulheres para poderem correr provas de longa distância.

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A revista 271, de abril de 2016, trouxe duas matérias fantásticas: "A façanha de Zatopek na Olimpíada de 1952", quando a "locomotiva humana" Emil Zatopek venceu os 5 mil, os 10 mil e a maratona, quebrando os recordes olímpicos nas 3 provas. O tcheco fez história e isso nunca mais se repetiu. Meus olhos encheram de lágrimas ao ler a matéria! Outra matéria reveladora para mim foi "Os efeitos da idade sobre o treinamento" na seção de fisiologia, texto de Fernando Beltrani. Sigo tentando correr, apesar de minhas dores no quadril, e uma matéria como essa dá muitos subsídios para a consciência do corredor numa condição como a minha. Sobre nutrição, é bom tomar cuidado com as barras de cereais, elas contêm muitos componentes a base de açúcares e adoçantes.

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A revista de maio de 2016, edição 272, trouxe uma matéria muito esclarecedora de Andreia Torres sobre nutrição, é sobre a necessidade ou não de suplementos de proteína: "Whey Protein é importante para o corredor?", de Andreia Torres. Em síntese, a resposta para a pergunta é não. Uma alimentação normal pode suprir as pessoas em suas necessidades diárias de proteínas, inclusive para quem é maratonista. Imaginem então para pessoas sedentárias ou que praticam esporte sem excessos! Eu com meus 75 Kg preciso de 75 gramas de proteína por dia, no máximo iria precisar de 126 gramas se fosse atleta. Isso se consegue comendo normalmente!

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A revista de junho de 2016, edição 273, começa com um editorial emocionante do editor da revista, o senhor Tomaz Lourenço, contando a respeito de seus treinamentos e esforço para conseguir a qualificação para a Maratona de Boston. Perto de completar 70 anos, ele nos confessa a emoção de completar uma maratona. O depoimento é tocante, eu gostaria muito de treinar e correr uma prova dessas de 42 Km. Hoje faço meus trotes em percursos de 5 Km ou um pouco mais e depois sinto dores no quadril que me deixam quebrado. A natureza não contribuiu muito para esse sonho meu. Gostei também das matérias de história (a maratona de Munique 1972) e as matérias sobre a importância do descanso nas planilhas de treinamento.

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A edição de julho, nº 274, tem matérias com muito conhecimento técnico e histórico. O "Guia olímpico do atletismo no Rio" trouxe muitos dados históricos como marcas, heróis e heroínas do Brasil etc. A seção "História" traz a luta secular das mulheres para terem o direito de participarem das provas de maratona. Só em Los Angeles, 1984, tivemos a 1ª prova feminina de 42 Km em uma olimpíada. Por fim, as matérias sobre treinamentos deixam claro a importância dos treinamentos intervalados, que eu não faço... nunca fiz. "Correr menos e mais forte, para correr melhor". 

Comentário: como estou insistindo em meus trotes com dores no quadril, devo pensar na inclusão dos intervalados também, até porque vou desgastar menos minha estrutura com intervalados e menos distâncias percorridas.

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Na edição 275, de agosto de 2016, a revista fala sobre as corridas no Costão do Santinho, em Florianópolis (SC). Tive a felicidade de participar uma vez dessa corrida de 10K. Foi incrível e inesquecível, pela dificuldade do terreno, pela beleza do lugar e por ter conseguido atingir meu objetivo na prova. Outra matéria fantástica da revista foi a da seção "História", que nos apresentou Vanderlei Cordeiro de Lima, maratonista que deu orgulho ao Brasil na Olimpíada de Atenas, em 2004. Um fdp derrubou Vanderlei quando ele liderava e com isso o brasileiro perdeu a medalha de ouro, chegando ainda assim em 3º lugar. A superação de Vanderlei e o espírito olímpico dele lhe valeu a medalha Pierre de Coubertin, dada a poucas pessoas desde a volta das olimpíadas modernas, a partir de 1896.

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Na edição de setembro de 2016, nº 276, edição posterior às Olimpíadas do Brasil, li a matéria de "História" sobre o campeão Olímpico Joaquim Cruz, vencedor dos 800 metros em Los Angeles, 1984. Outra matéria interessante foi sobre a evolução da maratona olímpica desde 1896. Em um século da modalidade, a evolução do tempo no percurso de 42 Km foi incrível, diminuindo de 3 horas para perto de 2 horas de prova. Meu sonho era correr e completar uma maratona, todavia esse sonho ficou impossibilitado por minhas dores e desgastes no quadril.

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Reli várias matérias interessantes da edição 277 de outubro de 2016: a da hidratação é muito importante: só se deve beber água conforme a necessidade e não em excesso, pois o risco de hiponatremia é sério (ficar pouco sódio no sangue). A matéria da seção "História" trouxe a evolução do salto com vara, texto muito legal! Por fim, a importância da musculação para complementar a condição física, principalmente para pessoas como eu, que já passaram dos 50 anos e para a qual a sarcopenia já é uma realidade (perda de massa muscular).

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Na edição 278, de novembro de 2016, a matéria mais interessante foi a da seção "História" sobre o doping de Ben Johnson em 1988: "A prova mais suja do mundo", conta que quase todos os esportistas usavam drogas. Outra boa é sobre a importância do alongamento e flexibilidade porque isso melhora a circulação sanguínea, a nutrição das cartilagens e a lubrificação e acomodação articular.

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Jesse Owens na "Olimpíada de Hitler" em 1936 é o destaque da Contra-Relógio de dezembro de 2016, edição 279. Matéria excelente na seção "História". Outra matéria legal é a que incentiva todo tipo de pessoa à prática da corrida. E tem uma matéria interessante sobre nutrição e o risco do excesso de consumo de "energéticos".

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2023 - A SAÚDE DO POVO VAI MAL

A ciência e o conhecimento podem contribuir muito para a qualidade de vida das pessoas. Os avanços na área do esporte são enormes ao longo do tempo. A prática de atividade física com regularidade melhora a saúde da população. Infelizmente a saúde vai mal no país...

Passamos no Brasil por um período nefasto de incentivo à ignorância e ao negacionismo dos avanços da ciência. Após os governos golpistas de Temer e Bolsonaro, o país regrediu muito em relação à saúde e educação. Nunca estivemos tão mal como agora, após a tragédia bolsonarista.

Hoje, os índices de vacinação regrediram perigosamente. O tipo de alimentação ou de falta de alimentação faz com que a população apresente índices perigosos de sobrepeso e obesidade, por um lado, e desnutrição e anemias, por outro. Com isso é maior o risco de desenvolvimento de doenças crônicas evitáveis ou de controle possível.

A vida poderia ser melhor com mais cultura e mais atividade física, poderia. Mas não é essa a nossa realidade.

William


sábado, 1 de julho de 2023

Os miseráveis - Victor Hugo (7)



Refeição Cultural

Osasco, 01 de julho de 2023. Sábado.


Os miseráveis tem diálogos entre os personagens que colocam o leitor a refletir. Às vezes, a reflexão parte da descrição do próprio narrador sobre alguma característica de personagem ou evento ocorrido.

Nos capítulos abaixo, fiquei pensativo sobre a questão de haver ou não vida após a morte, diálogo entre um senador e o bispo. O senador repete o argumento já comum à época sobre a utilidade para a burguesia, nobreza e a igreja de se fazer crer na questão de alguma compensação após a morte para os miseráveis e despossuídos da Terra.

Outro diálogo interessante é entre o bispo de Digne e um velho à beira da morte num casebre afastado de tudo. O moribundo é um "convencional", um revolucionário sobrevivente dos julgamentos posteriores ao período do terror, 1793. A comunidade local tem desprezo por ele, e não se conforma dele não ter sido ao menos banido, já que não foi decapitado. Ele sobreviveu aos julgamentos porque não se provou que ele tenha sido um dos que apoiaram a decapitação do rei.

O romance traz muita história, o tempo todo.

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PRIMEIRA PARTE - FANTINE

LIVRO 1: UM JUSTO

VII. Cravatte

Neste capítulo, vemos como o bispo de Digne é um destemido. Ele foi pregar nas montanhas mesmo sabendo que lá havia bandidos muito perigosos. Voltou vivo e ainda trouxe de volta alguns pertences roubados por eles na sacristia de uma igreja local.

"Nunca temamos nem os ladrões nem os assassinos. Estes são perigos externos, pequenos perigos. Temamos a nós mesmos. Os preconceitos, esses são os ladrões, os vícios, esses são os assassinos. Os grandes perigos estão dentro de nós. Que importa o que ameaça nossa vida ou nossas bolsas?! Preocupemo-nos apenas com o que ameaça nossa alma." (p. 67)

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VIII. Filosofia depois de beber

Este é o capítulo do bom diálogo entre o senador e o bispo. Os argumentos do senador sobre não existir nada desse mundo místico pregado pela igreja é interessante. Imagino a leitura à época da circulação do livro na França.

"(...) A vida é tudo! Que o homem tenha um outro futuro em outro plano, acima, abaixo, em qualquer lugar, não creio em uma só palavra! Recomendam-me desapego e sacrifício, devo ficar atento a tudo que faço, preciso quebrar a cabeça a respeito do bem e do mal, do justo e do injusto, do lícito e do ilícito. Por que? Porque terei de prestar contas sobre minhas ações. Quando? Depois da morte. Que belo sonho! Após minha morte, bem esperto quem me pegar! Imaginem se é possível uma sombra agarrar um punhado de cinzas! Falemos a verdade, nós, os iniciados..." (p. 69)

E Deus?

"(...) E depois veremos Deus. Ora! Tolices, todos esses paraísos! Deus é uma futilidade monstro. Eu não diria isso no Moniteur, caramba! Mas posso cochichar, aqui entre amigos. Inter pocula. Sacrificar a Terra pelo paraíso é largar a presa pela sombra! Ser enganado pelo paraíso! Nada mais tolo! Sou o nada. Chamo-me senhor conde Nada, senador. Eu existia antes de meu nascimento? Não. Existirei depois de minha morte? Não. O que sou? Um pouco de pó agregado por um organismo. O que tenho a fazer sobre esta terra? Tenho a escolha. Sofrer ou gozar. Onde me levará o sofrimento? Ao nada. Mas terei sofrido. Onde me levará o gozo? Ao nada. Mas terei gozado. Minha escolha está feita. É preciso ser devorador ou devorado. Eu devoro. Antes ser dente do que erva. Essa é a minha verdade..." (p. 70)

Deus é útil para os miseráveis, para aqueles que não têm nada...

"(...) Não me deixo levar por frivolidades! Depois disso, é preciso haver alguma coisa para aqueles que estão por baixo, para os pés-descalços, para os de pequeno ganho, para os miseráveis. Fazem-nos engolir as lendas, as quimeras, a alma, a imortalidade, o paraíso, as estrelas. E eles mastigam tudo. E colocam em seu pão seco. Quem não tem nada tem o bom Deus. É o mínimo. De minha parte, não coloco obstáculos, mas fico com o senhor Naigeon. O bom Deus é bom para o povo!" (ibidem)

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IX. Retrato do irmão feito pela irmã

Neste capítulo vemos uma correspondência trocada entre a senhora Baptistine, irmã do bispo de Digne, e a viscondessa de Boischevron. Nela, se conta as aventuras do bispo, como aquela de ir às montanhas e lidar com os bandidos.

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X. O bispo em presença de uma luz desconhecida

Este é o capítulo do diálogo do Monsenhor Bienvenu e o convencional G., da época da Revolução Francesa.

Foi um capítulo um pouco mais longo que os anteriores. Diálogo bem interessante entre o religioso e o ateu.

Uma cena bonita é no momento da morte do revolucionário, quando o bispo lamenta que ele seja ateu. E ele diz:

"- Existe o infinito. Ele está aí. Se o infinito não tivesse um 'eu', o eu seria o seu limite; e ele não seria infinito; em outras palavras, não existiria. Ora, ele existe. Logo tem um eu. Esse eu do infinito é Deus." (p. 83)

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NÃO SOU NADA, MAS SE ESTOU POR AQUI...

"Sou o nada. Chamo-me senhor conde Nada, senador. Eu existia antes de meu nascimento? Não. Existirei depois de minha morte? Não. O que sou? Um pouco de pó agregado por um organismo..."


Sábado à tarde. Mesmo sonolento, olhos pesados ao tentar ler Os miseráveis, tenho a consciência do que sou. Não posso apagar o que sei. E isso gera naquele que sabe, naquele que não é ignorante, um dever de fazer.

As descobertas da ciência ao longo do tempo estão disponíveis a todas as pessoas que têm algum acesso às informações. 

O conhecimento que tenho sobre saúde e sobre o corpo de um animal humano, e sobre carga genética, e sobre estilo de vida, me geram o dever de saber que devo praticar algum tipo de exercício aeróbico, além de regular o que como.

Fiquei pensando sobre a vida e sobre o que ainda gostaria de fazer enquanto corria e me esforçava para manter a respiração num bom nível na subidona perto de casa. E o quadril me lembrando o tempo todo que ele existe...

Por que preciso correr? Porque sem uma atividade aeróbica que funcione como atividade que controle os níveis de colesterol ruim no sangue e que me ajude a controlar a pressão arterial eu estaria me submetendo a um risco maior de interromper a vida ou a qualidade de vida caso sobreviva a um infarto ou acidente vascular.

O que ainda quero fazer? Quais metas tenho para perseguir neste momento de minha existência? Já que não tenho o tempo passado, só o tempo presente, o que gostaria de fazer e por que não faço hoje, amanhã?

O que gostaria de fazer que está ao meu alcance fazer?

Gostaria de diminuir a injustiça no mundo, de acabar com a miséria. Ter a consciência da injustiça e da miséria do mundo humano me faz infeliz a não caber em mim. 

Resolver isso não está ao meu alcance, não é algo que eu possa resolver ou realizar hoje ou amanhã...

Mas e então, o que faço para gerar algum nível de satisfação hoje ou amanhã? E que eu não me sinta mal por isso?

Miséria miséria em qualquer canto...

William


Post Scriptum: ver aqui a postagem anterior. A postagem seguinte sobre o clássico pode ser lida aqui.


Bibliografia:

HUGO, Victor. Os miseráveis. Tradução de Regina Célia de Oliveira. Edição especial. São Paulo: Martin Claret, 2014.

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Diário e reflexões - Junho


Momentos, seguimos nos movimentos...

Refeição Cultural - Junho

Osasco, 30 de junho de 2023. Sexta-feira.


INTRODUÇÃO

Fiquei olhando a lista de livros que li neste semestre e refletindo sobre eles. Foram leituras bem diversas. Pensei em alguns filmes que vi neste semestre. Pensei em algumas frases ou pensamentos ou coisas que tivessem me impactado, mexido comigo.

Em alguma data de aniversário, a respeito do tempo de vida, vi que disseram que a gente não tem a idade cronológica da gente, a gente só tem o tempo que nos resta. Achei a ideia profunda. É isso. 

Eu não tenho 54 anos. Não tenho. Tenho esse tempo do agora, do momento em que escrevo minha avaliação do semestre que passou. Quando acordei nesta sexta-feira 30, tive que decidir sobre o que fazer do meu tempo. É o que tenho enquanto vivo.

Fiquei indeciso se lia Os miseráveis até determinada página, se lia mais alguns poemas do 8º livro de poesias de Cecília Meireles, o Vaga Música, e pensei se lia ou escrevia o texto de fechamento do semestre em meu blog. Desde menino queria muito ler e não podia, meu tempo era dos outros, era de quem o comprava barato.

Decidi escrever ao invés de ler. Os porquês da escolha são diversos, são confusos, talvez inconfessáveis. Tem a ver com o que somos, humanos.

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PENSO, LOGO EXISTO

Quando penso no tempo que não tenho, o tempo passado, penso no filme Meu pai, com o excelente Anthony Hopkins. Eu não tenho alma na forma de espírito ou energia que continuará após minha morte. Isso é uma das diversas abstrações criadas pela mente deste animal fantástico homo sapiens. Por isso sofro ao pensar na situação do personagem do filme e nos personagens da vida real ao nosso redor.

Minha alma, minha essência, minha identidade e o que sou e penso sobre o mundo e a vida é meu cérebro com os seus 86 bilhões de neurônios e as incontáveis sinapses e idas e vindas de impulsos elétricos e o sangue que corre por essas veredas celulares alimentando a vida de cada célula. É o que nós animais somos. E esse cérebro nosso cria coisas inimagináveis para ursos, morcegos, cachorros, galinhas, baratas, lesmas, peixinhos dourados.

Neste momento de minha consciência humana, a possibilidade de perda de minha identidade ocupa um espaço das preocupações de meu tempo presente, porque um Acidente Vascular Cerebral ou alguma doença degenerativa pode fazer eu deixar de ser o que sou de um instante a outro, ou aos poucos. 

Se meu cérebro sofre uma pane, já era o William. Aí perco a minha alma. Aquela mesma que acreditava existir para além da matéria quando era criança e adolescente. Era tão mais fácil crer que poderia levar comigo para outra vida o que acumulasse de conhecimento... como são confortantes essas abstrações que nossa espécie cria!

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NÃO TEMOS MAIS O TEMPO QUE PASSOU...

Quando penso no tempo passado que não tenho, pois o passado pode não existir, ou pode existir de acordo com a narrativa que se impôs, penso no livro de Leonardo Padura, O homem que amava os cachorros. O que é a vida humana ao longo da história de nossa caminhada pelo planeta no qual vivemos? 

Qual passado nós teremos ou teríamos como agentes políticos? A mim e a você, qual passado restará? (não tenho o tempo passado) São os outros que decidem qual narrativa ficará de nosso passado... ou até mesmo o apagamento total, talvez nunca tenhamos existido.

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LULA E CHE, HOMENS SINCEROS E DE FÉ

Mais dois livros me deixaram pensando tanto tanto neste semestre... Os sentidos do lulismo, de André Singer, e Evocación, de Aleida March, companheira de Ernesto Che Guevara, livros que martelam tanto em meus 86 bilhões de neurônios que um conjunto de reações químicas são disparadas por meu corpo a ponto de meus olhos se encherem de lágrimas. É o que somos, humanos.

O livro de Singer, e as leituras de décadas sobre Lula e o PT e a CUT, e sobre Política e História me fazem compreender muita coisa do comportamento e do pensamento de Lula, essa figura extraordinária. Uma referência para mim, ontem e hoje, mesmo eu nunca tendo sido um "cristão bonzinho" como o Lula. Lula acredita demais nas pessoas e nas instituições. Às vezes, isso até incomoda, mas compreendo ele, Lula é uma pessoa fantástica, uma inteligência que desnorteia a gente!

Já o médico revolucionário Che Guevara... como não se surpreender a cada nova descoberta sobre esse homem de carne e osso, de saúde até frágil por causa de seus pulmões? (além da asma, Che teve pneumonia assim que venceram a guerra de libertação de Cuba) 

O livro confessionário de Aleida March mexeu muito comigo. Trouxe o livro de Cuba. Sua esposa e companheira de lutas e de vida nos conta sobre o Che que não conhecemos. O homem que declamava poemas pra ela e que deixou gravados poemas antes de se despedir para seguir nas lutas de libertação dos povos da África e de Nuestra América... Che viveu por sua fé no novo homem, numa nova sociedade. É de encher os olhos d'água...

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A CRÍTICA DEVE SER RESERVADA QUANDO EXISTE O ESPAÇO RESERVADO PARA A CRÍTICA (PENSO EU)

Eu entendo o que Lula quer dizer quando afirma que as críticas à esquerda não devem ser feitas de forma pública e sim de forma mais reservada. Eu entendo Lula porque fiz (não faço?) parte da história do movimento sindical surgido com Lula e com a companheirada da CUT: o Novo Sindicalismo. 

Eu tanto entendo que já falei para as pessoas que o maior problema é a barreira intermediária que se monta entre nós nas bases sociais e o líder, o Lula ou outra posição na estrutura hierárquica do movimento. Certas paredes são intransponíveis, e as ideias só chegam ao líder de forma pública porque seus intermediários bloqueiam tudo. É muito comum alguém da militância ter uma ideia, sugestão ou crítica construtiva e os intermediários nunca permitirem que a opinião da base chegue ao líder! Lidei com isso uns 20 anos.

No entanto, sempre achei lideranças como o Lula às vezes crentes demais na bondade humana e muito crentes no funcionamento das estruturas políticas que nós mesmos criamos. O movimento sindical e partidário mudou tanto, companheiro Lula, que hoje é quase impossível fazer alguma crítica de forma mais reservada... o crítico é cancelado, bloqueado, invisibilizado. Nas bolhas d@s "capas pretas (líderes)" só chegam os que elogiam e concordam com tudo. Aí a pessoa que pensa diferente acaba gritando ao mundo... é isso, querido Lula, o que acontece muitas vezes.

Vejam, por exemplo, os espaços que poderiam ser reservados para se pontuar questões, fazer críticas e sugestões, ou até mesmo se aproximar dos líderes da direção, companheiro Lula, as assembleias de base, os encontros e conferências e mesmo plenárias políticas... nos fóruns onde poderia haver divergências e embates de ideias. Uma parte hoje desses fóruns é não-presencial, é virtual, companheiro Lula. 

Assim evita-se até um senão diferente do pensamento da cúpula sindical ou partidária. E então os fóruns presenciais são muito mais controlados, já que não foram para aquela instância as divergências que poderiam existir. Pois é, fica difícil assim fazer críticas no reservado, presidente Lula.

Há exceções, felizmente, muitas bases sociais ainda fazem os fóruns democráticos de forma presencial. Com debates intensos de ideias, divergências, proposições, construção de unidade e convergência de encaminhamentos das lutas. 

Até congressos anuais históricos de trabalhadores de bancos públicos me parece que não ocorrerão mais... acho isso uma pena, uma oportunidade perdida de mobilizar a militância para os enormes desafios que podem surgir caso a política do país tenha uma reviravolta, afinal de contas, a vida real é dinâmica. Um dia estamos num governo progressista, no dia seguinte... aqui é o Brasil! 

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A DEMOCRACIA É RELATIVA... UM CONCEITO ELÁSTICO

Nesta mesma semana na qual o presidente Lula falou, com razão, sobre as formas preferenciais de se fazer a crítica no campo da esquerda, de forma mais "reservada" (se possível, penso eu), Lula também falou a respeito de democracia e suas diversas formas de interpretação.

Eu penso há muito tempo sobre essa questão da relatividade do que se chama de democracia. Após mais de três décadas estudando e lendo a respeito de história dos povos e das sociedades humanas, e mediante o que eu mesmo vivi como um adulto politizado no Brasil dos anos noventa até o momento, eu diria até mais sobre democracia ser algo relativo... eu chego a pensar que democracia é uma utopia, um desejo de, algo impraticável, na vida real. Por isso ela é relativa, é uma questão de interpretação e de força impositiva de seu conceito.

Não vou me alongar muito sobre essa questão, mas em linhas gerais poderia fazer alguns questionamentos para problematizar o que seria considerado democracia e o que não seria considerado democracia.

O sistema político dos Estados Unidos é democrático? Desde quando vivemos numa democracia no Brasil? Cuba e Venezuela não são países com sistemas democráticos? Existe democracia no movimento sindical? A democracia da antiga Grécia ou da Roma antiga era democracia? Democracia que exclui a maior parte das pessoas de participação nos processos de decisão política é democracia?

Fala sério, né! Nos Estados Unidos os caras colocam na presidência o candidato menos votado pelo povo, lembram do Bush filho? Os bushs, os clintons, Obama, Trump, Biden, o próximo presidente democrata ou republicano... essa tal eleição indireta norte-americana é o governo do povo desde quando? 

Os países do mundo são geridos por aristocracias, plutocracias, autocracias, teocracias (até do deus dinheiro) e por aí vai. Todos! Falar a favor de uns e contra outros é uma escolha arbitrária do falante, é um relativismo descarado!

E no Brasil dos golpes civis-militares desde a retirada do poder de Dom Pedro II, quando foi que teve democracia aqui? Excluir a maioria da população por voto censitário, não permitir que segmentos inteiros da sociedade votem como as mulheres até recentemente no Brasil e tirar o governante cada vez que ele ameaça favorecer um pouquinho o povão miserável é democracia desde quando? A democracia no Brasil sempre foi uma mentira, uma fake news, um faz de conta.

Aí ouço gente do meu lado da classe, da trabalhadora, dizer que não há democracia em Cuba, mas que há democracia nos EUA e no Brasil... sei...

Em Cuba, o povo escolheu em março deste ano os 470 deputados e deputadas da Assembleia Nacional do Poder Popular. Vejam lá quantas mulheres foram eleitas parlamentares... É atribuição da Assembleia Popular eleger o presidente e o vice-presidente do país.

Por que nos EUA é democracia aquela coisa de eleição indireta e em Cuba não é democracia? Seria porque lá tem dois partidos possíveis e em Cuba não? Qual a diferença mesmo dos democratas e republicanos em relação às questões centrais da sociedade? Nenhuma! E em relação ao poder imperial no mundo? Nenhuma!

Democracia no Brasil? E o golpe contra a presidenta Dilma, eleita com 54,5 milhões de votos e impedida "com o Supremo com tudo" para colocar a casa-grande lesa-pátria no poder? E esse parlamento eleito em 2022 com bilhões do orçamento público usado de forma secreta para comprar votos em milhares de municípios, fora a grana da casa-grande e Faria Lima e agro pop para colocar no legislativo centenas de representantes deles, do dinheiro? Democracia?

E a democracia nas centenas de sindicatos que existem no Brasil? E no movimento estudantil? As pessoas conhecem mesmo como funciona a dinâmica nos movimentos sociais? Gente, a prática é bem diferente da teoria e do desejo. Tem muita coisa boa por aí, mas também tem muito problema, desde sempre. Política é assim, é um eterno esforço para melhorar as organizações e instituições sociais.

Nem vou continuar... já foi suficiente esse registro cansativo sobre essa questão política em voga, a democracia.

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E A CASSI, UMA IMPRESSÃO SOBRE A NOSSA CAIXA DE ASSISTÊNCIA À SAÚDE

Quando penso sobre a Cassi não é um leigo tirando conclusões baseadas em lugares-comuns como acontece normalmente com a ampla maioria dos associados e participantes do sistema de saúde privado Cassi, dos funcionários da ativa e aposentados do Banco do Brasil. 

Fui gestor eleito da nossa autogestão em saúde e nunca estudei algo tanto em minha vida quanto a nossa associação, sua história, nossas lutas, os dilemas, o mercado de saúde onde ela atua, os direitos e deveres dos participantes ao longo de décadas. Como disse, não sou um leigo sobre a Cassi e seu sistema de saúde.

A Cassi voltou a estar sob a influência de um governo legítimo e democrático como é o governo do presidente Lula. Nos últimos sete anos, entre 2016 e 2022, a Cassi esteve sob a influência de governos golpistas, governos cujas questões de saúde eram tratadas por gente da pior espécie, como aqueles ministros da saúde de Temer e Bolsonaro...

Enfim, quando penso em escrever sobre a Cassi me dá uma coisa esquisita no peito, porque eu gostaria que a autogestão mudasse a rota perseguida após janeiro deste ano. Até li hoje uma apresentação sobre algumas coisas que estão sendo implantadas sobre especialidades médicas em algumas unidades etc. Mas acho muito sério não se reverter o que fizeram na Cassi durante esses 7 anos.

Na minha visão de ex-diretor de saúde o que estão fazendo com a Cassi não vai reverter a lógica implantada de transformar a Caixa de Assistência numa mera empresa de mercado de saúde. E a Cassi não tem a menor chance de sobreviver assim no mercado no qual atua. É uma lógica liberal, eu diria, totalmente equivocada.

Essa descontinuidade do modelo de Estratégia de Saúde da Família por outro tipo de Atenção Primária à Saúde, com outra lógica, centrada no estímulo de demanda espontânea não tem como reduzir as despesas assistenciais de uma população quase fixa no tempo e que segue envelhecendo: aposentados e pensionistas e funcionários da ativa do banco. 

A lógica de APS que implantaram na Cassi na gestão dos governos golpistas e dos eleitos até o ano passado é equivocada para o perfil dos participantes da Caixa de Assistência. As CliniCassi e a entrada por telemedicina é só um ponto de atenção, e um gerador de demanda espontânea. Vejam o resultado econômico-financeiro após 7 anos terceirizando tudo e desfazendo a ESF... e recebendo muito mais recursos dos participantes...

Por que será que mesmo com tanto dinheiro a mais de receita e tanta redução de estrutura própria a Cassi não se tornou sustentável? A culpa é dos associados? Não está claro que tem algo errado nessa lógica dos últimos 7 anos de gestores do grupo político que estava lá e dos governos de extrema-direita de 2016 até o ano passado? O resultado operacional do 1º trimestre deste ano foi de 98 milhões de reais de déficit (Visão Cassi)

Enfim, se uma hora tiver estômago, escrevo sobre isso, mesmo sabendo que não se pode falar contra o "nosso" time do governo Lula...

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O BRASIL EM 2023

LULA - O presidente Lula é a melhor coisa a se falar do Brasil... disparado! 

O humanista e estadista Lula tem andado pelo mundo refazendo tudo que aquele regime genocida e criminoso destruiu durante os 4 anos de desgraças.

Lula é o homem com expressão política no mundo que está falando que é necessário mudar o rumo das coisas, ou adiar o fim do mundo, como diz Krenak. 

Lula está cobrando dos governantes do mundo e dos capitalistas que é preciso falar em paz e amor e sermos contra a guerra, que é preciso distribuir riquezas e ter a redução das desigualdades como pauta e meta dos países.

Lula está cobrando que os países façam sua parte contra o aquecimento global e parem de ser hipócritas ao olhar o cisco no olho dos outros sem lidar com a trave no próprio olho (para falar numa linguagem das religiões).

Lula está hoje muito mais à esquerda do que os movimentos sociais nos quais militamos a vida toda. É impressionante! Lula tem a minha admiração e o meu respeito, como sempre teve.

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bolsonarismo - O fascista genocida que esteve no poder do país até dezembro, colocado lá pela casa-grande e pelos donos do poder no Brasil, foi julgado em uma das ações contra ele no TSE e se tornou inelegível na data de hoje, sexta 30. É o assunto do momento. Parte do país está em festa.

Esses criminosos do clã bolsonarista serão julgados e condenados? Isso é o que importa, na minha opinião. Espero estar vivo para ver a justiça ser feita contra esses monstros que destruíram nossos biomas, que por ações e omissões fizeram com que meio milhão de pessoas morressem de forma vil por uma pandemia de Covid para a qual a ciência tinha medidas protetivas e vacinas. Esses mafiosos têm tanta coisa pra explicar como, por exemplo, sobre uma centena de imóveis adquiridos em dinheiro vivo e sem origem comprovada. Vínculos com assassinos e milicianos do Rio de Janeiro etc...

Eu nunca acreditei em se fazer justiça através do sistema de justiça dos países... mas torço para que se faça justiça. 

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PESSOALIDADES DO BLOGUEIRO:

LEITURAS

Os livros lidos têm um sentido para além dos estudos e reflexões de cunho pessoal. Dá um trabalhão fazer uma postagem algumas vezes. Lembro aqui o objetivo inicial do blog: compartilhar conhecimento! (receber milhares de acessos por mês me dá um sentimento de contribuição ao mundo da cultura e das ideias)

1 - A estranha vontade de um morto, Sandro Sedrez (comentário aqui)

2 - Torto arado, Itamar Vieira Junior (aqui)

3 - rio pequeno, floresta (aqui)

4 - Diário de um bandeirante ligeiramente atrasado e totalmente desarmado, Roberto Buzzo (aqui)

5 - Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels (aqui)

6 - Os sentidos do lulismo, André Singer (aqui)

7 - O homem que amava os cachorros, Leonardo Padura (aqui)

8 - A vida não é útil, Ailton Krenak (aqui)

9 - A Ilha, Fernando Morais (aqui)

10 - O trono no morro, José J. Veiga (aqui)

11 - O governo do futuro, Noam Chomsky (aqui)

12 - A impureza da minha mão esquerda, Henry Bugalho (aqui)

13 - A Quinta-Coluna, Ernest Hemingway (aqui)

14 - A comédia dos erros, William Shakespeare (aqui)

15 - A bíblia em crônicas livres, Roberto Buzzo (aqui)

16 - Evocación, Aleida March (aqui)

17 - Lawfare: uma introdução, Cristiano e Valeska Zanin e Rafael Valim (aqui)

18 - A megera domada, William Shakespeare (aqui)

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AS VIAGENS

Tenho viajado pouco. 

Bem diferente de quando tinha uma agenda de viagens intensa durante meu último mandato de representação na Cassi. Estive sempre nas bases sociais do país, todas as capitais por 4 anos. Era cansativo, mas fiz o que tinha que ser feito.

Neste ano pós-pandemia de Covid-19 em sua pior fase (a pandemia não acabou), além de viagens de família, conheci Guarapari (ES) com a esposa e realizei uma das viagens mais interessantes de minha vida: fomos a Cuba, meu filho e eu. Tenho escrito reflexões sobre essa experiência.

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A SAÚDE

Acredito que a alta quilometragem de meu organismo e sempre sob pressão intensa pelos desafios enfrentados pelas veredas percorridas acelerou o desgaste dos componentes dos meus sistemas corporais. Avalio que minha saúde e condição física poderia estar melhor para alguém da minha idade e com o conhecimento que tenho. Uma pena!

Neste mês de junho caminhei bastante, corri algumas vezes mesmo com dores no quadril e pedalei um pouco. No entanto, mesmo me alimentando com consciência e regrando as coisas da vida, sei que estou indo rápido demais para o envelhecimento físico. Uma pena!

Ainda tento fazer o que tem que ser feito, mas não é fácil quando o compromisso é só pessoal e privado. O que move um homo sapiens são as abstrações às quais ele está engajado e nas quais ele se move por fé e pertencimento. Somos máquinas de paixões...

Meus dependentes não têm com que se preocupar, mesmo quando acordo mals, tenho consciência de minha importância como ser social. E a vida é uma oportunidade, sempre. Se depender só de meus cuidados, estarei entre vós mais um tempo.

William


Post Scriptum: o texto anterior sobre abril e maio pode ser lido aqui.