sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Lendo a biografia de Santos Dumont (6)



Refeição Cultural

"E confessou, alguns anos depois, que não saberia descrever, de forma exata, 'a surpresa, a alegria, a embriaguez produzida por esse livre movimento diagonal da proa do aparelho, na ascensão ou na descida, combinado com as bruscas mudanças horizontais de direção, quando a aeronave responde a um comando do leme'. Concluiu estas considerações dizendo que os pássaros deviam experimentar a mesma sensação ao distenderem as suas longas asas e no instante em que, como setas, atravessam o firmamento." (As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont, Fernando Jorge)


Em setembro de 1898, Alberto Santos Dumont conseguiu fazer uma aeronave (aeróstato) que lhe permitiu "navegar" pelos céus de Paris. 

No dia 18, o "Santos Dumont n° 1" levantou voo e se chocou com as árvores, rasgando-se. Ele cedeu às sugestões dos outros quanto ao ponto de partida. 

Dois dias depois, ele não deu ouvidos aos palpiteiros e partiu de onde havia planejado e conseguiu sobrevoar o local que idealizou.

Quase morreu, pois perdeu sustentação da aeronave, por defeito em uma bomba de ar e perda de hidrogênio. O balão começou a dobrar-se ao meio e cair.

Enquanto caía, viu crianças empinando papagaios nas cercanias do prado de Bagatelle.


"De súbito, uma ideia varou-lhe o cérebro. Gritou a plenos pulmões para os garotos, pedindo que agarrassem a corda principal, já a roçar o solo, e a toda força corressem contra o vento.

   As crianças obedeceram e a manobra suavizou a queda, impedindo talvez um desastre fatal. O balonista salvara-se, graças aos tais meninos. Não foi à toa que Victor Hugo criou, num dos seus romances, a impressiva figura de Gavroche, que com a sua singeleza, ternura e generosidade é o símbolo do garoto parisiense." 

---

COMENTÁRIO FINAL 

Que figura inspiradora! Santos Dumont é um exemplo de pessoa com inteligência, persistência e atitude ao perseguir seus sonhos, seus "por quês" como li dias atrás nas palavras da jovem navegadora Tamara Klink, ao realizar sua primeira navegação sozinha aos 23 anos de idade. 

Os seres humanos são criaturas incríveis!

William 

11/09/26

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (15)



Refeição Cultural

Quinta-feira chuvosa. Estou firme na leitura das memórias do companheiro Zé Dirceu. 

Quero acabar a leitura. Sempre que lemos grandes livros, no tamanho e no conteúdo de qualidade, chega um momento no qual queremos terminar a tarefa empreendida.

Vamos lá!

---

27. QUEDA DE BRAÇO 

No meio de uma reunião convocada pelo presidente Lula, uma briga: José Dirceu versus Antônio Palocci

Primeiro ano de governo Lula e Palocci e Meirelles (BC) propõem autonomia do Banco Central. Defendiam mais juros e mais superávit.

Zé Dirceu afirma que "O poder da Fazenda era total e Palocci o exercia com maestria..." (p. 361)

As prioridades da Casa Civil eram o Bolsa Família e o Desmatamento Zero (p. 362). Informa que o Pronaf iria crescer dez vezes (p. 363).

Fortalecer o mercado interno:

"Lula foi tecendo um caminho do meio para evitar o custo social do ajuste e engendrar uma política anticíclica de novo tipo, criando demanda via Bolsa Família, crédito consignado, salário mínimo e benefícios da assistência social e previdência. Quer dizer, induzindo na prática a retomada do investimento, apesar dos altos juros e do baixo investimento público." (p. 363)

Lula forçou os bancos públicos a atenderem o pequeno, o pobre, o excluído, o trabalhador. (p. 364)

---

28. DO BRASIL PARA O MUNDO 

Contra a vontade da Globo e da oposição, o Bolsa Família é um sucesso e vira notícia mundial 

Neste capítulo, Zé Dirceu relembra fatos importantes do primeiro governo Lula, com destaque para a efetivação do Bolsa Família, muito atacado pela Globo e pelas elites. 

Uma questão complexa foi a reforma da Previdência. O foco do governo era a aposentadoria dos servidores públicos, principalmente as altas aposentadorias do legislativo, do judiciário e dos militares: 

"Salta à vista a iniquidade, afora o fato de que, no INSS, são 22 milhões de beneficiados enquanto no serviço público não alcançam 2 milhões." (p. 368)

Mesmo com o foco descrito acima, Zé Dirceu afirma nas memórias que é irreal pedir uma Previdência Social sem déficit no Brasil por diversos fatores econômicos que beneficiam o andar de cima.

"Faço essa observação para me posicionar perante a reforma da Previdência do governo Lula, que encontrou forte resistência no partido, nas bancadas, na esquerda, nos sindicatos, nas universidades e no serviço público." (p. 370)

A política de aumento real do salário mínimo foi outro grande acerto do governo Lula. Participei das marchas sindicais cutistas dessa luta histórica!

---

29. É GUERRA 

Os tucanos iniciam uma caminhada para desestabilizar o Governo Lula 

Zé Dirceu descreve as armações dos adversários nos primeiros anos do governo Lula. 

Destaque para a Gtech na Caixa Econômica Federal. O autor apresenta dados revelados uma década depois, aponta envolvimento de Veja (da Abril) e o bicheiro Carlos Cachoeira e Demóstenes Torres.

Também fala das contas CC5 do escândalo do Banestado. O responsável já naquela época era um tal de Sérgio Moro... não sei se vocês já ouviram falar nele... a CPI do Banestado virou pizza.

---

30. O RACHA

Dividido, o Partido dos Trabalhadores perde a presidência da Câmara 

Dois petistas, Eduardo Greenhalgh (SP) e Virgílio Guimarães (MG) disputaram a presidência da Câmara na sucessão de João Paulo Cunha (PT-SP). Deu uma merda generalizada. Severino Cavalcanti (PP) foi eleito. 

Outro destaque do capítulo: o exército afronta o governo enaltecendo o golpe e a ditadura:

"Uma nota do exército, já em outubro, com uma atitude inacreditável, justificava o golpe em nome da defesa da democracia, falseando a história, como se a ditadura tivesse sido reação a um levante armado comunista. Era a volta da doutrina da segurança nacional, do inimigo interno a serviço do movimento comunista internacional, pretexto para a tortura, crimes e violação dos direitos humanos." (p. 402)

No final do capítulo, Zé Dirceu informa que saiu do governo em novembro de 2005.

---

31. "NÃO SABIA QUE TINHA TE NOMEADO MINISTRO DA DEFESA"

O dia em que ouvi essa frase do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, depois de uma palestra 

Amigas e amigos leitores, o mais espantoso deste capítulo está em seu final, em uma lembrança de Zé Dirceu sobre a visita de Fidel Castro à casa de Lula em 1989. O líder revolucionário cubano, que sobreviveu a mais de 600 tentativas de assassinato, quase se complicou com um bife a rolê... a cena é desesperadora!

Zé Dirceu também nos conta sobre o fim da Alca, o velório de Arafat, e sua versão sobre a liderança do Brasil no Haiti. Eu nunca tinha pensado na questão sob a ótica que ele apontou.

---

COMENTÁRIO FINAL 

Foram muitas lembranças e novidades advindas com a leitura dos cinco capítulos desta postagem. 

Minha representação política como dirigente da categoria bancária coincidiu com esse período abordado por Zé Dirceu: o primeiro governo Lula e alguns fatos do segundo governo. 

Espero terminar essa aventura histórica em mais um sentada. Faltam algumas dezenas de páginas. 

William 

10/09/26

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (14)



Refeição Cultural

O 7 de setembro na Av. Paulista teve boneco do presidente Trump dos EUA. Há agentes operando o golpe até na Corte Suprema do país. Estamos em pleno processo de Golpe de Estado promovido pelo clã bolsonarista. 

O país do norte, de governo fascista, invadiu a Venezuela, sequestrou seu presidente, se apossou das reservas de petróleo e os países do mundo sequer exigiram a libertação de Maduro. Nem o Brasil (morro de vergonha por isso!). A ONU está desmoralizada, assim como a Liga das Nações no passado.

O bloqueio estadunidense a Cuba está causando um genocídio e uma crise humanitária a ilha com cerca de 9 milhões de habitantes e ninguém faz nada. Nada! O que eu poderia fazer para ajudar o povo cubano? (Impotência...)

Agora vão tomar o Brasil, isso está em andamento, e me parece que ninguém vai fazer ações concretas para impedir isso. O governo brasileiro poderia propor aos seus parceiros do BRICS uma aliança de defesa militar semelhante a OTAN. Pra já!

O risco à nossa soberania é existencial. Mas o que se usa chamar de esquerda ou campo progressista no Brasil jamais pegaria em armas para lutar por nossa existência... somos um povo explorado, trabalhador, mas inculto e sem formação patriótica de verdade. 

Enfim, vou seguir a leitura das memórias do Zé Dirceu. 

---

25. A CARTA AO POVO BRASILEIRO 

A convicção de que Lula venceria as eleições presidenciais de 2002, mesmo sem ela

O capítulo nos faz relembrar como é deletério o papel da mídia brasileira golpista e vendida aos interesses da casa-grande e dos EUA. 

Vendo o fim do reinado do príncipe dos sociólogos e do tucanato em 2002, havia uma grande pressão e terrorismo midiático para que Lula e o PT se comprometessem com as bases econômicas dos rentistas. Eles conseguiram. 

---

26. A FORMAÇÃO DO GOVERNO LULA 

Quem era quem no novo governo e a história do dia em que dormi com o acordo fechado e acordei com Lula me desautorizando

Interessante a análise de bastidores da montagem do primeiro escalão do governo Lula. Zé Dirceu foi escolhido para a Casa Civil, ele havia sido eleito deputado federal com 513 mil votos. 

Zé Dirceu avalia que a aliança com o PMDB seria melhor para a governabilidade no Congresso do que a aliança com o PTB e o PP.

"Anos depois, o PMDB veio para o governo com os ministérios da Saúde, Previdência e Comunicações em diferentes momentos, mas já havíamos pago um preço - e que preço - com a farsa do Mensalão que, na minha avaliação, teria sido evitada com a aliança prioritária com o PMDB e não com o PTB e o PP, este ainda que por vias indiretas.

     Não deu outra. Ficamos na mão do PTB, PP e de outros pequenos partidos e o resultado foi pior do que se poderia imaginar. Quem pagaria o preço? Eu." (p. 346)

Ao final do capítulo, Zé Dirceu registra a capacidade notável do presidente Lula de governar e administrar conflitos. 

"Lula era o Senhor Presidente. Soube como ninguém, presidir, coordenar, liderar seu gabinete e os ministros do Palácio, a coordenação de governo e o conselho político. Sabia ouvir, buscar consensos progressivos e quando não era possível, decidia!" (p. 354)

---

COMENTÁRIO FINAL 

A leitura das memórias do companheiro Zé Dirceu é uma oportunidade excelente de reflexão política, tanto para leitores como eu, com experiência na representação da classe trabalhadora, quanto para pessoas que acompanham menos a política por dentro, nos bastidores. 

É um texto denso. Já revi e descobri grandes acontecimentos da história do Brasil, do partido e dos movimentos de esquerda. 

Já estou ansioso por terminar o livro e ainda faltam 130 páginas... ufa!

No Brasil, estamos no meio de uma tentativa de Golpe de Estado e de interferência nas eleições. 

Um dos ministros do STF indicado por Bolsonaro está executando o projeto da extrema-direita de destruir a instituição por dentro, para facilitar o golpe que falhou no 08/01/23. Contam agora com os EUA. 

O sentimento de impotência me incomoda. O que fazer para interromper o golpe contra nosso país e nosso povo?

Dureza.

William 

08/09/26

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Livro: Mil milhas - Tamara Klink



Refeição Cultural

"Uma mulher precisa viajar. Para descobrir por si mesma aonde é capaz de chegar" (Tamara Klink)


SINGRAR OS MARES 

Das façanhas da espécie humana, duas que admiro muito são voar e navegar através de artefatos criados para superar nossas limitações físicas. Voar e singrar os mares são consequências da inteligência e da coragem de algumas pessoas. 

Lançar-se ao mar, partir em um oceano, expor-se às forças dos elementos da natureza é de uma ousadia que só nossa espécie poderia empreender conscientemente. 

Tamara Klink tem coragem e ousadia ímpar para lançar-se sozinha ao mar. Que coragem!

A leitura de seu livro Mil milhas (2021) me fez refletir sobre um monte de questões que extrapolaram sua aventura solitária no mar. 

Me fez mergulhar na natureza humana, me fez refletir sobre os tipos de pessoas que somos. Confirmou a impressão que tive de Tamara antes mesmo de ler seu livro, suas ideias. 

Admiro na jovem navegadora uma qualidade extraordinária que algumas pessoas têm: a atitude de ir atrás de seus sonhos e objetivos. 

Seus diários apresentam aos leitores uma garota envolvida com as questões comuns de sua idade e geração e uma mulher em busca de autoafirmação e superação de seus receios e medos.

SOBRE SER MULHER

"(...) Mas me deixam desconfortável quando me perguntam se não tenho medo de estar sozinha num barco destrancado num porto de pesca (como se fizessem um favor ao tentar me apresentar medos que eu não tenho, como se soubessem o que é o melhor para mim mais do que eu mesma). Perguntam se eu não tenho medo de ser perseguida por um barco mal-intencionado em alto-mar. Onde se ancoram todos esses pensamentos? Falas como essas, com um fundo de boa intenção, só fazem nos trancarmos em gavetas para estar a salvo das nossas ambições. Acham normal que mulheres se limitem para se proteger dos possíveis males causados por homens. Por que imaginam eles perigos que eu não vejo? Como se andar na rua devêssemos temer que objetos caíssem do céu, que fissuras abrissem crateras no asfalto, eventos possíveis, mas improváveis, que poderiam nos impedir até de ter coragem de andar. Como pode meu útero tornar-me tão mais vulnerável aos olhos dos outros?" (Tamara Klink, p. 95/96)

Essa afirmação da jovem navegadora Tamara Klink é espetacular, é libertadora! Fiquei impactado com sua assertiva.

A SOLIDÃO MODERNA

Ao final dos diários, já em casa e com a família, pais e irmãs, Tamara faz uma anotação que retrata bem o que somos enquanto sociedade humana (p. 116/117). 

Ela percebeu estar só ao tentar ter a atenção de seu pai e não conseguir. Me lembrei da imagem e da frase em inglês de um livro no qual estudei nos anos noventa: "alone in the crowd".

"Precisei estar longe para descobrir quanto do meu sonho era meu e quanto dele era dos meus pais. Eu precisei estar longe para me conhecer sem eles. Longe, eu conversei com minha voz nos cafés da manhã, fui dona do meu corpo, pude vesti-lo e visitá-lo como eu quis, pude errar sem vergonha e sem pressão, pude me isolar do medo protetor materno, que tantas vezes aumentou os perigos e conteve os meus quereres. Longe, pude experimentar ser maior do que eu pensava. Longe, entendi melhor de onde vim e pude desejar voltar." (Diários: 05/10/20)

Essa passagem me encheu os olhos d'água... em seguida, ela diz a frase que coloquei na abertura do texto, que uma mulher precisa viajar, para descobrir por si mesma aonde é capaz de chegar. 

O PAI

Surpreende leitoras e leitores as confissões de Tamara Klink em relação à forma como seu pai a educou: "Primeiro, faz. Só depois me liga para contar quando já tiver feito."; "Eu não vou te dar conselho nenhum. Abre o livro, o computador, e procura." (p. 119)

Caraca! A gente fica chocado com a rispidez e secura do pai também navegador, Amyr Klink, com a filha que sonha ser navegadora...

Quando ela contou ao pai que havia comprado o veleiro e faria a rota entre a Noruega e a França, ouviu: "Puxa, é uma viagem longa..." (p. 47)

Tamara escreve no diário: "Nenhum conselho, nenhum contato, nenhuma oferta, nenhuma sugestão..." (idem)

E após superar todos os desafios, a jovem navegadora chegou ao seu destino.


POEMAS E CRÔNICAS 

"Me faltam palavras 

Para eu sentir

O que eu sinto"

O livro tem uma seção de poemas e crônicas da navegadora e escritora que congrega emoção e reflexões filosóficas sobre a vida. 

Cito duas afirmações ligadas aos direitos das mulheres e encerro a postagem sobre o livro Mil milhas, de Tamara Klink:

"Tantos são os perigos que a gente ouve quando é mulher. O mundo faz chover razões para voltarmos para semente, guardarmos as folhas crescentes, para temer brotar, florescer, semear, e então mudar do vaso para a terra infinda." (p. 153)

Outra ideia potente na página seguinte (p. 154):

"'Sozinha?'

Eles não sabem. Quando a gente se entrega inteira, quando a gente cuida de cada ponto e cada nó, a gente nunca está só. Vem conosco uma manada afoita e latente uivando para seguirmos sempre em frente."

---

COMENTÁRIO FINAL 

"Sonhos são coisas perigosas (...) Sem a gente perceber, os sonhos já nos são." (p. 22/23)


O livro de Tamara Klink nos conta sua primeira viagem solitária como navegadora no mar do Norte, entre a Noruega e a França, aos 23 anos de idade. Foi em 2020, quando o mundo enfrentava a pandemia de Covid-19. 

A navegadora disse algo sobre liberdade que me deixou reflexivo:

"(...) Sem porto, não tem partida, só a busca contínua por qualquer lugar. Sem segurança, sem escolha, não tem como haver liberdade. É só fuga, falta de opção, tentativa de chegar sem ter saído de nada..." (p. 29)

No começo do livro, teve uma passagem do diário de Tamara que mexeu muito comigo, acabei interrompendo a leitura e voltando um tempo depois. Ela diz que a oportunidade de realizar a viagem surgiu porque tudo que fez foi baseado em seu objetivo de navegar, o "por que".

"(...) Mas o 'por que', que me fornece energia quando ela me falta, foi o que me trouxe aqui: minha ambição de navegar..." (p. 39)

Fiquei um tempo olhando para trás e procurando os meus "por ques"... foda. É bem o que já sei da minha existência. 

---

Amigas e amigos leitores, recomendo a leitura do livro! Ele me fez pensar muito sobre temas centrais da vida.

William 

07/09/26

O que somos



Refeição Cultural

Há tempos reflito sobre a vida e o mundo. Busco compreender as coisas. Não tenho outro objetivo além de entender a mim mesmo, a vida que tive e por quê as coisas foram como foram. Já encontrei quase todas as respostas (acho que todas). 

Viver até aqui foi uma oportunidade ao menos para isso. Se tivesse morrido na adolescência (pensei muito nisso), entre os vinte e trinta anos, ou até com quarenta e tantos anos, não teria compreendido a minha existência e um pouquinho do mundo. Viver foi uma oportunidade de compreender as coisas, mesmo não concordando com elas ou não querendo aceitá-las.

A vida foi acontecendo, as realidades foram se impondo, e entre raivas, medos, angústias, dores, amores, desesperos, erros, acertos, fui indo, participando dos acontecimentos ocorridos nas veredas tomadas, os caminhos foram se abrindo, já que eles não existem, e as pegadas foram ficando após minha passagem. 

As pegadas se apagam, já que não somos dinossauros que pisaram em lama que virou pedra, e ao final somos o que somos, isso aqui. E só somos enquanto estamos aqui.

Algumas leituras aclararam meu entendimento do mundo como as luzes do sol naquele momento em que se abrem as cortinas do ambiente escuro e tudo se vê com mais clareza. Graças às leituras, entendi algo dessa coisa chamada vida.

Já faz alguns anos, percebi a minha natureza: não desbravei nada, fui um operário honesto e disciplinado. Até serviço com esgoto cheio de merda procurei fazer bem feito porque era o meu trabalho. Um "bicho-grilo", deixei a vida me levar. Não conduzi o meu destino. Tudo, tudo, foi consequência de acontecimentos fortuitos, tudo. Não conduzi nada. 

Depois de compreender isso ainda queria entender alguns porquês de situações no entorno do meu viver. Já entendi quase todas elas. Nossa!, é meio assustador isso... Já não estou procurando mais respostas, nem sentidos... 

Para seguir, nessa condição, a pessoa tem ou teria que encontrar alguma coisa, um desafio, algo a fazer que realmente a tirasse do conforto mortal da mesmice cotidiana... 

Muitas vidas vão sendo vividas porque a própria existência traz benefícios alheios e ou ao mundo e os contratos sociais e as responsabilidades que o nome delas carrega faz a vida seguir indo indo indo.

O olhar daquele menino de doze anos e tudo o que ele estava sentindo e vivendo diz muito sobre a vida e o percurso que ele teve. Ter chegado até aqui foi sorte e foi uma oportunidade. Tiveram coisas boas e que valeram a pena.

Somos o que somos

domingo, 6 de setembro de 2026

Instantes (12h16)



Refeição Cultural

Domingo. Chuvisco e frio... Acordei na expectativa de ler o livro de Tamara Klink que chegou ontem à noite. Já estou lendo. Paro a todo instante para refletir. A vida... as pessoas... estou muito reflexivo...

William 

06/09/26

sábado, 5 de setembro de 2026

Instantes (11h58)




Refeição Cultural

MEMÓRIAS DE LEITURAS 

Ao acordar neste sábado chuvoso, fiquei olhando para o teto do quarto e decidi exercitar a memória. 

Fiz uma recapitulação dos cem livros clássicos que enumerei semanas atrás para ver se ainda me lembrava da sistematização que fiz para não me esquecer mais (a lista é essa aqui). 

Deu um trabalhinho relembrar minha lista de clássicos lidos, mas deu certo. Só me esqueci do nome do livro na posição 96, mas sabia o país de origem e do que se tratava: Lazarillo de Tormes, da Espanha. 

Inverti algumas posições também, mas nada que comprometesse a memorização de 100 livros.

Para melhorar a memorização, agora defini nomes para cada um dos 5 blocos de memória com 20 obras. 

O primeiro bloco se chama "Números", o segundo "Mundos", o terceiro "Viagens", o quarto "Crianças" e o quinto "Morte". 

Os nomes nos blocos são para me ajudarem na hora de buscar as sequências. São cabides de memórias, ou gavetas.

Espero em breve desenvolver mais uma lista de 100 livros e com isso ir exercitando minhas memórias e o verdadeiro criador de tudo, o cérebro (lição de Miguel Nicolelis). 

O mundo fora de mim está o caos: o mundo humano onde habito. São crises e mais crises. Meu mundo interno também sente a natureza e as crises lá fora. No entanto, eu tenho que sobreviver! 

A vida é uma oportunidade!

William 

05/09/26

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Dirce Mendes, uma grande mulher!



Refeição Cultural

Hoje é aniversário de minha mãe querida, Dirce Mendes. Parabéns e muita saúde e felicidades, mãezinha! Te amo muito!

Dona Dirce é uma grande mulher, uma pessoa que faz o mundo ser melhor, uma vida que dignifica o sentido da vida humana. 

Como filho dessa mulher incrível, fico meio sem saber se escrevo sobre ela ou sobre o que sou por ser filho dela... seus ensinamentos salvaram minha vida...

A Dirce Mendes nasceu nos anos quarenta em Goiás. De família simples, assumiu responsabilidades de adultos com menos de dez anos de idade. Cuidou, inclusive, da irmã Alice Mendes.

Autodidata, minha mãe se casou aos 18 anos e o casal foi construir a vida em São Paulo, nos anos sessenta. Meus pais fizeram os estudos básicos nas escolas públicas e com inteligência desenvolveram habilidades diversas. 

Minha mãe trabalhou como costureira e fazia desde o desenho dos vestidos e ternos, até o corte e a produção. Vestidos de noivas, roupas para festas e todo tipo de vestimenta. Detalhe: nunca fez um curso sequer. Aprendeu sozinha.

A Dirce Mendes também tem habilidades com desenhos, pinturas, esculturas, escritas e produção de alimentos. Foi cabeleireira. Já trabalhou vendendo salgados e doces. Percebem os dons dessa mulher incrível? É minha mãe!

Muito religiosa, sua fé inabalável em Deus fez a diferença em momentos difíceis da existência ao longo da vida.

Nós, seus filhos e netos, e pessoas próximas, temos o privilégio de tê-la como referência e inspiração de vida. 

Eu, pessoalmente, tenho com ela nosso pacto de vida. Vivemos e lutamos pela vida porque temos e queremos uns aos outros. 

Mãezinha, obrigado por tudo nesta vida! Se cuide. Te amamos muito!

William 

04/09/26

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Lendo a biografia de Santos Dumont (5)



Refeição Cultural

"(...) uma névoa densa envolveu os aeronautas, mergulhando-os em quase completa obscuridade. Só conseguiam distinguir a barquinha, os objetos e o equipamento próximos do cordame. Apenas divisavam uma parte da rede que os prendia ao balão, e este parecia ter sumido, não era mais visível senão até certo ponto (...) às cegas na bruma espessa, experimentaram a inquietante sensação de estarem suspensos no vácuo, desprovidos de apoio, libertos da lei da gravidade, 'prisioneiros do nada opaco'." (As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont. Fernando Jorge)


Ao ler esse trecho da biografia de Alberto Santos Dumont, descrevendo a experiência do primeiro voo de balão do brasileiro, realizado na França, me veio à memória meu primeiro salto de paraquedas, que foi também a primeira vez que voei na vida. Recordo aqui que estou lendo este livro porque meu pai o leu nos anos setenta. 

Através da descrição do texto, que fala de névoa densa, bruma espessa e sensação de suspensão no vácuo, voltei naqueles dias de saltos de paraquedas em Piracicaba, interior de São Paulo. Posso imaginar o que Santos Dumont sentiu dentro daquele balão naquele seu primeiro voo.

A sensação de estar no céu, suspenso no vácuo, entre as nuvens, vendo pássaros ao redor, é algo único na vida de uma pessoa, de uma espécie que não foi feita para voar, que não possui asas. É um acontecimento marcante em nossas vidas. 

Em 2000, se não me engano, quando fiz meu primeiro salto de paraquedas, experimentei uma das maiores emoções da minha vida. Depois do primeiro salto, foram mais treze experiências únicas. Eu vivia em busca de adrenalina naquela época. Tem uma postagem no blog sobre essas lembranças (ler aqui). 

É isso! Minha experiência de voar, saltar do avião e descer ao chão de paraquedas, um século depois da invenção do avião, devo ao brasileiro Alberto Santos Dumont. 

William 

03/09/26

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (13)



Refeição Cultural

Enquanto sigo na leitura das memórias do Zé Dirceu, a Corte Suprema do Brasil está mergulhada numa crise sem precedentes por causa de uma guerra interna entre ministros. Estamos a 33 dias das eleições no país. 

O sujeito indicado por Bolsonaro, o "terrivelmente evangélico", faz ataque violento contra o sujeito indicado por Temer, o golpista. Nenhum deles é santo... O bolsonarista usou métodos ilegais, como fez aquele juiz de Curitiba na Lava Jato, para contar com o apoio da mídia golpista.

O juiz parcial da Lava Jato se deu bem. Virou ministro de Bolsonaro, depois senador e é candidato a governador. Mostrou que no Brasil vale a pena cometer as ilegalidades que cometeu.

O "terrivelmente evangélico" vai se dar bem também? Aqui nesta ex-colônia de exploração tudo pode essa gente branca da casa-grande. No futuro veremos o que aconteceu com ele, quando olharmos para trás. 

Seguimos lendo as memórias do Zé Dirceu, história pura de nossa gente da classe trabalhadora brasileira, explorada e maltratada há cinco séculos como uma colônia invadida pelos bárbaros da Europa. Os invasores do Norte não aceitam nossa independência e soberania. 

---

24. A QUEDA DE ROSEANA SARNEY

A Operação Lunus derruba a candidata do PFL e, no cenário petista, surge um bom candidato para ser vice de Lula 

Capítulo muito interessante com os bastidores da construção da chapa do PT para as eleições de 2002.

Achei legal Zé Dirceu apontar as qualidades e as divergências que ele tinha com o "japonês", nosso querido companheiro Luiz Gushiken (p. 320/321). Como militante sindical formado no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, Gushiken é nossa referência de toda a vida.

Zé Dirceu também elogia o político José Sarney, pelo papel leal que teve durante sua presidência do Brasil na transição para a democracia. 

José Alencar 

"Estava certo. No encontro com os militantes do PT, Zé Alencar fez um discurso à altura do momento histórico, demonstrando seu sentido de responsabilidade e de oportunidade. Começou devagar, como que tateando o sentir da militância, desconfiada e arisca, na retranca. Narrou a história de sua vida e, em um crescendo, demonstrou o escândalo dos altos juros e da especulação, exibindo seu conhecimento de economia e sua atitude de oposição ao governo FHC e ao neoliberalismo. Deu um show e conquistou a militância." (p. 322)

---

COMENTÁRIO FINAL 

Essa história eu conheço bem, pois já vivi as eleições presidenciais de 2002 como dirigente eleito do Sindicato dos Bancários. 

Amigas e amigos leitores, essas memórias do Zé Dirceu são essenciais para a militância de esquerda e o campo democrático neste momento de ataques da extrema-direita internacional e do bolsonarismo ao nosso país. 

Eleger Lula 13 presidente é defender a soberania do país e os direitos elementares do povo. Lula refez o Brasil após a tragédia de 7 anos do país nas mãos de Temer e Bolsonaro.

Eleger Haddad 13 governador de SP é dar uma chance ao Estado de ser dirigido por um professor com experiência como Ministro da Educação e da Fazenda e prefeito da maior cidade da América do Sul. 

Precisamos de um Congresso que defenda os interesses do povo e dos Estados. Vamos eleger Luna Zarattini 1302, Marina 180 e Simone 400. E Marcolino 13310 deputado estadual. 

Sigamos nas leituras e nas lutas populares. A cultura e a educação podem mudar vidas e o mundo.

William 

02/09/26

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Lendo a biografia de Santos Dumont (4)



Refeição Cultural


"Uma mosca morde o homem

Disso vira uma ferida, 

Da ferida o homem morre, 

A mosca tirou-lhe a vida..." 

(Quadrinha popular citada por Salomão Jorge no ensaio "A estética da morte". Fernando Jorge, no livro sobre Santos Dumont)


O "ÁGUIA" DO SUECO ANDRÉE ENTUSIASMA UM JOVEM BRASILEIRO

A quadrinha é uma lembrança sobre a fragilidade humana. No capítulo dois do livro sobre a vida de Santos Dumont, conhecemos a história de Salomon August Andrée, um engenheiro sueco que realizou uma viagem de balão ao Polo Norte, com objetivos científicos.

Essa expedição (1897) e a façanha de seu idealizador inspiraram muito o jovem Santos Dumont, no que se refere ao componente tecnológico, o balão construído e as soluções para se chegar pelo ar até o Polo Norte. 

A expedição teve final trágico. Os corpos dos três tripulantes só foram encontrados em 1930. Mas o aparelho voador, o "Águia", percorreu em 65 horas cerca de 480 Km. De acordo com o livro, os tripulantes teriam falecido devido à ingestão de carne de urso.

"(...) Ao que tudo indica, faleceram por causa do consumo da carne de urso polar triquinosa. As triquinas são vermes intestinais que em estado larvar vivem nos músculos de certos mamíferos, sendo principalmente transmitidas ao homem pela ingestão da carne de porco malcozida..." (Fernando Jorge)

Enfim, voltando a Santos Dumont...

Neste capítulo, soubemos da morte de seu pai, o engenheiro Henrique Dumont. Ele voltara de uma viagem na qual ia com Alberto para Paris, mas passou mal. O ano era 1892, Santos Dumont não havia completado vinte anos e perdeu sua maior referência de vida, seu pai.

"(...) A figura do pai seria uma sombra que sempre o acompanharia. Nos momentos de angustia, de depressão, muitas vezes essa sombra estaria ao seu lado, a fim de consolá-lo." (idem)

Santos Dumont recebeu sua herança e se instalou em Paris para realizar seu sonho de voar em uma máquina, algo muito superior aos balões da época. 

Em Paris, Alberto tinha um automóvel da marca De Dion, que chegava a 30 Km/h, um risco à época. Também tinha um triciclo a motor e promovia corridas de triciclos. 

---


COMENTÁRIO FINAL 

Estou lendo a biografia de Santos Dumont em homenagem ao meu pai, o Palmério, que leu esse livro de Fernando Jorge nos anos setenta. 

A geração de meus pais foi de gente que criava coisas e inventava soluções pra tudo na vida cotidiana. Não havia essa "facilidade" de buscar na Internet como resolver algo.

As pessoas pensavam, matutavam, cismavam com as coisas e os problemas. E com inteligência inventavam soluções... coisa de homo sapiens...

E hoje? O que essas big techs e algoritmos e IAs estão fazendo com nossa espécie?

William 

01/09/26