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sábado, 8 de outubro de 2022

47. Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado



Refeição Cultural - Cem clássicos

Terminei a leitura de Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado. O "esboço do processo histórico da formação da economia brasileira", como o autor nos diz na introdução do livro foi escrito em 1957. 

A edição que li faz parte de uma coleção de livros organizada pela Folha de São Paulo no ano 2000 - Grandes nomes do pensamento brasileiro - e repousa em minha estante há duas décadas. Só agora pude terminar uma leitura que tentei fazer há muito tempo.

A coleção de pensadores brasileiros que tenho é composta por 13 livros e li Furtado num momento muito especial da vida nacional. Temos que eleger Lula 13 para presidente no dia 30 de outubro e salvar o Brasil da completa barbárie e destruição que já vivemos desde que o crime organizado chegou ao poder após o golpe de 2016.

CONTEXTO DE LEITURA DA OBRA

Li quase a metade do livro em 2009 quando fui eleito secretário de formação da confederação dos bancários. Naquela época, quis ler e estudar tudo que me ajudasse a compreender o Brasil e o que somos. Acho que a metade que li foi muito útil para o meu exercício de representação dos colegas trabalhadores. Estudei o máximo que pude na época.

Como eu tinha uma formação na área de administração, contabilidade e economia, sempre tive facilidade com a temática que Furtado nos descreve de forma simples e para leigos como ele diz na introdução. Além de ser formado em Ciências Contábeis, fiz curso de extensão em economia pelo Cesit da Unicamp em 2004 e nos anos noventa estudei muito economia para concursos públicos.

A leitura neste momento pessoal e da história do Brasil e do mundo tem uma característica bem distinta das leituras daquela época de militância política e representação de classe. Sigo com desejo de novos conhecimentos como sempre tive desde muito jovem. Sem educação, formação e cultura não vamos a lugar algum na sociedade humana e na busca pessoal por compreender a vida humana.

FURTADO DESCREVE A ECONOMIA COMO UMA SÉRIE DE STREAMING

A leitura desse clássico em seu gênero foi feita de uma forma muito especial por mim, foi feita como se eu assistisse a uma série em canais de streaming. Li os 36 capítulos em 36 dias de leitura da obra. Cada dia lia somente um capítulo e comentava alguma coisa simplória no blog. Foi bem interessante. Li entre os dias 9 de junho e ontem 7 de outubro.

Durante minha vida de representação da classe trabalhadora, busquei atuar de uma forma que diariamente e ao longo do tempo pudesse politizar as pessoas que representava com mandatos eletivos. Ao observar que os trabalhadores têm pouco tempo para estudos, formação e cultura, cabe a um dirigente da classe pensar formas de informar e formar seus pares. 

Passei 16 anos fazendo esse esforço na base na qual atuei, a categoria bancária. Sempre tentei passar noções das coisas aos meus colegas, noções. Quem quisesse se aprofundar nos temas, que estudasse mais.

Da leitura e dos comentários que fiz ao longo desses meses ficam as noções sobre economia e sobre os efeitos das decisões econômicas na vida das pessoas em uma sociedade. A economia é muito importante em nossas vidas. Não deixem que destruam sua vida com os efeitos econômicos que poucos tomam. Isso é política!

Comecei a reler os comentários que fui fazendo desde o capítulo um e achei bem legais para relembrar a ideia central do que Furtado descreveu em cada uma das 5 partes nas quais o livro se divide:

1. Fundamentos econômicos da ocupação territorial

2. Economia escravista de agricultura tropical (século XVI e XVII)

3. Economia escravista mineira (século XVIII)

4. Economia de transição para o trabalho assalariado (século XIX)

5. Economia de transição para um sistema industrial (século XX)

Para os leitores e leitoras que tiverem interesse na leitura e nos comentários sobre essa obra fundamental de Celso Furtado, comentários bem descontraídos, com algum palavrão às vezes (dá muita raiva conhecer a nossa história de exploração), é só ler as postagens no blog. Estou revisando elas e colocando o link de uma para a outra para a pessoa ler o primeiro e ter o link para a seguinte.

NOÇÕES DE ECONOMIA NOS LEMBRAM DO DIA 30 DE OUTUBRO: CIVILIZAÇÃO OU BARBÁRIE?

Digo a vocês o quanto a leitura de Furtado me trouxe de volta as lembranças dos efeitos econômicos e políticos na nossa vida comum e cotidiana das decisões que alguns caras da elite e seus apaniguados tomam na calada da noite nos governos das mais diversas formas de organização - monarquia, república etc.

Furtado nos ensina bastante sobre os efeitos nocivos das alterações nas taxas cambiais em favor das elites e para dividir os prejuízos da casa-grande quando alguma coisa dá merda pra eles. Salva-se o patrimônio e o negócio dos ricos e o povão sofre as consequências. Inflação, desemprego, carência de direitos sociais e violência de uns contra os outros são algumas das consequências de decisões econômicas de governos.

Pergunto: é algo diferente do que está acontecendo neste exato momento de nossas vidas aqui no Brasil dominado por uma elite racista, lesa-pátria, criminosa e genocida?

Enfim, mais um clássico lido. Deixo aqui o link da primeira postagem da leitura do livro de Furtado. As seguintes estarão disponíveis. 

No momento em que publico este texto ainda não coloquei link nas 36 postagens, mas vou colocar em todas elas. Dá trabalho a releitura e a diagramação no blog. Faço o possível para que o blog seja agradável para ler, já que aqui tem muitas letras e palavras... (como critica o genocida no poder sobre textos didáticos e educacionais).

Leiam e estudem! Os tempos são de elogios à ignorância. Vocês podem não acreditar, mas tem estratégia por trás da ignorância coletiva. Os poucos que detêm o poder econômico e político no mundo têm método e têm estratégia por trás da pregação da ignorância coletiva. Busquem a formação, a cultura e a ciência.

William


Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (XXXVI)

Quinta Parte

Economia de transição para um sistema industrial (século XX)

XXXVI. Perspectivas dos próximos decênios


"Essa disparidade de níveis de vida, que se acentua atualmente entre os principais grupos de população do país, poderá dar origem a sérias tensões regionais..." (Furtado)


Visionário, não?

Neste último capítulo, Furtado recupera em linhas gerais o que desenvolveu ao longo do livro e deixa algumas perspectivas do que poderia ocorrer no Brasil em seguida. Ele foi certeiro em algumas previsões.

"Se se prolonga a contração da procura externa, tem início um processo de desagregação e a consequente reversão a formas de economia  de subsistência. Esse tipo de interdependência entre o estímulo externo e o desenvolvimento interno existiu plenamente na economia brasileira até a Primeira Guerra Mundial, e de forma atenuada até fins do terceiro decênio deste milênio," (p. 245)

Na etapa seguinte, após a 1ª GM e os anos trinta, tem-se maiores investimentos no setor industrial e serviços conexos. Governo controla importações (foco em bens de capital e matéria prima) para fortalecer a indústria nascente e o mercado interno de consumo de produtos nacionais.

Furtado discorre sobre as relações comerciais entre as regiões do país, o Sudeste com o Sul e com o Nordeste, principalmente. A industrialização quase toda na região Sudeste vai beneficiar a população local em relação à renda per capita (ver epígrafe que cito no início do texto).

SUL - "Esse processo de articulação começou, conforme já indicamos, com a região sul do país. Por uma feliz circunstância a região rio-grandense - culturalmente a mais dissímil das demais zonas de povoamento - foi a primeira a beneficiar-se da expansão do mercado interno induzida pelo desenvolvimento cafeeiro." (p. 248)

NORDESTE - "A articulação com a região nordestina se faz por intermédio da própria economia açucareira. Nesse caso, a luta pelo mercado em expansão da região cafeeira não se realiza contra concorrentes externos, e sim contra produtores locais. A partir da segunda metade dos anos vinte, o sul do país passa a representar um mercado mais importante para o Nordeste (não incluída a Bahia) que o exterior." 

AMAZÔNIA - "Por último, a Amazônia se incluiu entre os beneficiários da grande expansão da região cafeeira-industrial. O mercado desta passa a absorver a totalidade da produção de borracha e permite a abertura de novas linhas de produção na região, como foi o caso da juta." 

INDUSTRIALIZAÇÃO CONCENTRADA EM UMA REGIÃO É PROBLEMA

Furtado diz que a industrialização começou no Brasil concomitantemente em quase todas as regiões, mas isso foi mudando ao longo do tempo por diversos fatores. As manufaturas têxteis, por exemplo, começaram no Nordeste a partir de 1844 (p. 249)

"(...) Com efeito, a participação de São Paulo no produto industrial passou de 39,6 para 45,3 por cento, entre 1948 e 1955. Durante o mesmo período a participação do Nordeste (incluída a Bahia) desceu de 16,3 para 9,6 por cento. A consequência tem sido uma disparidade crescente nos níveis de renda per capita. Em 1955, São Paulo com uma população de 10.330.000 habitantes, desfrutou de um produto 2,3 vezes maior que o do Nordeste, cuja população no mesmo ano alcançou 20.100.000. A renda per capita na região paulista era, por conseguinte, 4,7 vezes mais alta que a da região nordestina. Essa disparidade de níveis de vida, que se acentua atualmente entre os principais grupos de população do país, poderá dar origem a sérias tensões regionais. Assim como na interdependência econômica - à medida que se articulavam as distintas regiões em torno do centro cafeeiro-industrial em rápida expansão - na segunda poderá aguçar-se o temor de que o crescimento intenso de uma região é necessariamente a contrapartida da estagnação de outras." (p. 249-50)

Furtado explica no capítulo alguns motivos pelos quais a região Nordeste tem uma renda per capita menor do que a região Sudeste. 

Uma explicação do economista sobre o quanto a monocultura é complexa quanto aos efeitos bons ou ruins para a coletividade, vale a pena citar meio século depois de publicado por Furtado, por causa da condição em que se encontra o Brasil neste ano de 2022, após o golpe de Estado em 2016 e a transformação do país num fazendão exportador do agro "pop".

"O sistema de monocultura é, por natureza, antagônico a todo processo de industrialização. Mesmo que, em casos especiais, constituam uma forma racional (do ponto de vista econômico) de utilização de recursos de terra, a monocultura só é compatível com um alto nível de renda per capita quando a densidade demográfica é relativamente baixa. Ali onde é elevada essa densidade - o que ocorre na faixa úmida do Nordeste - a monocultura possibilita alcançar formas superiores de organização da produção. Com efeito, nas regiões densamente povoadas uma elevada densidade de capital por homem - condição básica para o aumento de produtividade - só se consegue com a industrialização." (p. 251-52)

E assim, cheguei ao fim da leitura do livro de Celso Furtado. Após fazer breves comentários em 36 postagens dos capítulos, farei uma postagem final de registro da leitura de mais um clássico lido em meus roteiros de busca de conhecimento pessoal. 

William


Leia aqui comentário sobre a leitura de mais um clássico da literatura brasileira e mundial, neste caso na área das ciências econômicas.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.


quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (XXXV)

Quinta Parte

Economia de transição para um sistema industrial (século XX)

XXXV. Os dois lados do processo inflacionário


"Vejamos agora alguns dos aspectos básicos do problema da elevação do nível de preços. Assinalamos, em capítulo anterior, a tendência histórica da economia brasileira para elevar o seu nível de preços, tendência essa que refletia o processo pelo qual o setor exportador transferia para o conjunto da coletividade as suas perdas nas baixas cíclicas ou nas etapas de superprodução. Indicamos, demais, como esse mecanismo tendente a fazer subir permanentemente o nível dos preços dificultava o funcionamento do sistema do padrão-ouro..." (p. 237)


Penúltimo capítulo do "esboço" de Celso Furtado. Neste capítulo, o professor nos explica um pouco sobre os processos inflacionários. Que aula! O livro é dos anos cinquenta (escreveu em 1957). Eu fui jovem trabalhador nos anos oitenta. Me lembro da inflação alta, de dois dígitos ou mais.

Comecei a ler este livro entre 2008 e 2009, queria na época me aprofundar em economia, já que era secretário de formação da categoria bancária. Como quase tudo que li naquele período, fui até a metade do livro e deixei de acabar a leitura por outros afazeres.

Ler agora, retirado do movimento e dos mandatos eletivos, tem sua validade pelo puro prazer de estudar e ler e adquirir conhecimento. Que aula de Furtado ao longo de vários capítulos! Relembrei e aprendi noções sobre câmbio, efeitos micro e macroeconômicos de decisões políticas de governo, como o mercado se movimenta de uma ou outra forma etc.

Até a metade do livro, eu achava que ele tinha a mesma pegada do livro de Galeano - As veias abertas da América Latina - que fala das etapas de exploração dos recursos dos povos sul-americanos, mas depois que passei da metade do livro de Furtado vi que as temáticas são diferentes, neste muito mais focado em fundamentos de economia mesmo.

O QUE É INFLAÇÃO? 

Alguns excertos do capítulo nos abrem as portas para o entendimento do que seria inflação. Vale a pena a pessoa ler o capítulo inteiro. Mas duas citações ajudam a iniciar a análise.

"As observações feitas no parágrafo anterior põem a descoberto certas articulações básicas do mecanismo da inflação no Brasil. A inflação é o processo pelo qual a economia tenta absorver um excedente de procura monetária. Essa absorção faz-se por meio da elevação do nível de preços, e tem como principal consequência a redistribuição da renda real. O estudo do processo inflacionário focaliza sempre esses dois problemas: a elevação do nível de preços e a redistribuição da renda..." (p. 238)

Outra citação interessante reforça essa acima. Inflação é luta entre grupos sociais pela redistribuição da renda real.

"As observações que vimos de fazer põem a claro que a inflação é fundamentalmente uma luta entre grupos pela redistribuição da renda real e que a elevação do nível de preços é apenas uma manifestação exterior desse fenômeno." (p. 240)

Eu vivi a vida laboral e de representação sabendo que na inflação quem se ferra é o povo, mas nunca tinha visto um conceito com essa referência na luta pela redistribuição que Furtado explica. Legal!

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CHANCES DE MUDANÇAS PARA O POVO À VISTA...

Como inflação afeta o povo e o povo tá sofrendo com o governo colocado no poder pelas elites e pelos poderosos da casa-grande (através de golpe em 2016 e 2018) neste momento histórico do Brasil, vamos mudar esse cenário no próximo dia 30 de outubro, elegendo o candidato da esperança, Lula.

#LulaPresidente

#HaddadGovernador

William


Clique aqui para ler comentários sobre o capítulo seguinte.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.


domingo, 25 de setembro de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (XXXI)

Quinta Parte

Economia de transição para um sistema industrial (século XX)

XXXI. Os mecanismos de defesa e a crise de 1929


Este capítulo foi bem interessante. Furtado explica como sucedeu no Brasil a questão da crise da bolsa de Nova Iorque e nos surpreende ao final com algo que eu não tinha ideia. Explicando efeitos macroeconômicos das mutretas feitas para proteger os cafeicultores do agro "pop", ocorreu no Brasil de forma "inconsciente" como ele diz, os efeitos das políticas keynesianas tomadas anos depois para recuperar níveis de emprego e renda em tempos de crise. Que coisa, heim?

No início, Furtado repete a explicação de como o Brasil protegia os caras do agro depreciando o câmbio quando baixavam os preços do café lá fora. Isso mantinha o lucro dos caras da casa-grande e ferrava o povo gerando inflação nos produtos de consumo que tinham insumos importados. Isso foi explicado em capítulos anteriores.

"Como a depreciação da moeda era menor que a baixa de preços, pois também estava influenciada por outros fatores, era claro que se chegaria a um ponto em que o prejuízo acarretado aos produtores de café seria suficientemente grande para que estes abandonassem as plantações. Somente então se restabeleceria o equilíbrio entre a oferta e a procura do produto." (p. 201)

DEVE-SE DESTRUIR O CAFÉ EXCEDENTE... E AÍ, DEIXA APODRECER NO PÉ OU COLHE E QUEIMA?

Na página 204 tem uma tabela citando exemplos com o multiplicador de desemprego (multiplicador 3, no caso). Nela, se mostra o efeito na renda total da coletividade conforme situações diferentes.

"O caso (c) reflete aproximadamente a experiência brasileira dos anos da depressão, quando os preços pagos ao produtor de café foram reduzidos à metade, permitindo-se, entretanto, que crescesse a quantidade produzida. A redução da renda monetária, no Brasil, entre 1929 e o ponto mais baixo da crise, se situa entre 25 e 30 por cento, sendo, portanto, relativamente pequena se se compara com a de outros países. Nos EUA, por exemplo, essa redução excedeu a 50 por cento, não obstante os índices de preços por atacado, desse país, tenham sofrido quedas muito inferiores às do preço do café no comércio internacional. A diferença está em que nos EUA a baixa de preços acarretava enorme desemprego, ao contrário do que se estava ocorrendo no Brasil, onde se mantinha o nível de emprego se bem que se tivesse de destruir o fruto da produção. O que importa ter em conta é que o valor do produto que se destruía era muito inferior ao montante da renda que se criava. Estávamos, em verdade, construindo as famosas pirâmides que anos depois preconizaria Keynes." (p. 204/5)

Ou seja, sob a ótica da macroeconomia, era melhor mandar os trabalhadores colherem o café e depois tocar fogo no produto. Como explico em textos meus, no capitalismo alimento não é alimento, é mercadoria... 

E Furtado segue com a lógica de sua interpretação:

"Dessa forma, a política de defesa do setor cafeeiro nos anos da grande depressão concretiza-se num verdadeiro programa de fomento da renda nacional. Praticou-se no Brasil, inconscientemente, uma política anticíclica de maior amplitude que a que se tenha sequer preconizado em qualquer dos países industrializados." (p. 205)

COMENTÁRIO: atenção, isso não serve para qualquer comparação com os dias atuais (2022) com os desgraçados do agro "pop" apoiadores do regime fascista no poder. Uma coisa era os anos trinta do século passado com uso intensivo de mão de obra no setor agro e outra coisa é 2022 onde praticamente não se usa mão de obra no setor agro. É tudo máquina e poucas mãos humanas... o lucro é todo enfiado no rabo dos caras da casa-grande. É minha leitura sobre a questão!

Voltando a Furtado, ele conclui o capítulo reforçando que a solução para a crise se deu internamente e de forma inconsciente.

"É, portanto, perfeitamente claro que a recuperação da economia brasileira, que se manifesta a partir de 1933, não se deve a nenhum fator externo e sim à política de fomento seguida inconscientemente no país e que era um subproduto da defesa dos interesses cafeeiros." (p. 205-6)

É isso, vivendo e aprendendo. É melhor ler do que não ler os clássicos, já dizia Italo Calvino, e Celso Furtado é sem dúvidas um clássico em sua área de conhecimento. 

William


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Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.


terça-feira, 20 de setembro de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (XXX)

Quinta Parte

Economia de transição para um sistema industrial (século XX)

XXX. A crise da economia cafeeira


"(...) Ao comprovar-se a primeira crise de superprodução, nos anos iniciais deste século, os empresários brasileiros logo perceberam que se encontravam em situação privilegiada, entre os produtores de artigos primários, para defender-se contra a baixa de preços. Tudo o de que necessitavam eram recursos financeiros para reter parte da produção fora do mercado, isto é, para contrair artificialmente a oferta." (p. 192)

Este capítulo foi um reforço no aprendizado de noções de economia. Furtado nos faz perceber o quanto são drásticos os efeitos das políticas governamentais ao se mexer no valor do câmbio.

"(...) Se os efeitos da crise de 1893 puderam ser absorvidos por meio de depreciação externa da moeda, a situação de extrema pressão sobre a massa de consumidores urbanos, que já existia em 1897, tornou impraticável insistir em novas depreciações. Já assinalamos que essa excessiva pressão levou a uma crescente intranquilidade social e finalmente à adoção de uma política tendente à recuperação da taxa de câmbio." (p. 192)

Ao depreciar o câmbio, aumentando o valor da moeda estrangeira em relação à nossa, alguns setores se dão bem e outros se ferram. Basicamente, aqueles que exportam se dão bem (tipo o agro "pop"), aqueles que dependem de importação se ferram (com a inflação, por exemplo).

O capítulo é dedicado a demonstrar a crise de superprodução de café nos primeiros 3 decênios do século 20, o Brasil detinha 3/4 do mercado mundial. Quem mandava na 1ª república eram os cafeicultores (política do café... "com leite" eu não sei se é fato).

Ao se manterem os lucros dos caras do agro "pop" (cafeicultores) com preços artificiais no mercado (controlando estoque, a oferta), o Brasil foi empurrando com a barriga a merda que daria lá na frente, na crise de 1929.

A putaria foi tão grande que inventaram uma tal política de "valorização" que consistia no fato de o governo comprar os estoques excedentes do agro "pop" pagando com empréstimos tomados no exterior. Ou seja, enche-se as burras dos caras de dinheiro e a gente paga a conta.

"A retenção da oferta possibilitava a manutenção de elevados preços no mercado internacional. Esses preços elevados se traduziam numa alta taxa de lucratividade para os produtores, e estes continuavam a intervir em novas plantações." (p. 195)

Apesar de todo o conluio do agro "pop" com o governo e em prejuízo do povo, a crise de superprodução de café era algo incontornável e acabou dando merda.

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EM UMA ATIVIDADE ECONÔMICA DE NATUREZA TIPICAMENTE COLONIAL...

"O equilíbrio entre oferta e procura dos produtos coloniais obtinha-se, do lado desta última, quando se atingia a saturação do mercado, e do lado da oferta quando se ocupavam todos os fatores de produção - mão de obra e terras - disponíveis para produzir o artigo em questão. Em tais condições era inevitável que os produtos coloniais apresentassem uma tendência, a longo prazo, à baixa de seus preços." (p. 196)

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Leitores, o capítulo é uma aula do que acontece ainda hoje no governo fascista apoiado por parte do agro "pop" da casa-grande lesa-pátria. Uma aula!

As eleições brasileiras estão aí, faltam poucos dias até 2 de outubro de 2022. 

Vamos votar #Lula13Presidente e nos dar uma chance de mudar toda essa tragédia econômica, política, social e ambiental que vivemos desde o golpe de Estado em 2016.

William


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Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.


quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (XXVIII)

Quarta Parte

Economia de transição para o trabalho assalariado (século XIX)

XXVIII. A defesa do nível de emprego e a concentração da renda


Nesses últimos capítulos dessa quarta parte do esboço de Furtado sobre a formação econômica do Brasil vê-se claramente como chegamos aonde chegamos no Brasil da pior distribuição de renda do planeta. É impressionante como as coisas se explicam.

Furtado explica a manobra feita no câmbio para beneficiar os coronéis do agro "pop" de um século atrás para foder a população toda. É um repeteco até chato de como o povo paga a conta das merdas feitas na economia em benefício de uns filhos da puta da casa-grande.

No início do capítulo, Furtado explica que havia dois fatores abundantes por aqui para a produção de café: mão de obra e terras disponíveis. Por isso não era necessário investir capital para aumentar a produtividade "física" do produto de exportação. Ganhava-se mais ou menos de acordo com o preço do produto lá fora.

"As condições econômicas em que se desenvolvia a cultura do café não criavam, portanto, nenhum estímulo ao empresário para aumentar a produtividade física, seja da terra seja da mão de obra por ele utilizadas." (p. 166)

Pelas regras do liberalismo e do capitalismo, os empresários acumulariam mais lucros ou menos de acordo com os preços e as demandas do mercado internacional pra suas commodities... mas aqui é Brasil, né!

"A redução do valor externo da moeda significava, demais, um prêmio a todos os que vendiam divisas estrangeiras, isto é, aos exportadores. Para aclarar esse mecanismo, vejamos um exemplo. Suponhamos que, na situação imediatamente anterior à crise, o exportador de café estivesse vendendo a saca a 25 dólares e transformando esses dólares em 200 cruzeiros, isto é, ao câmbio de 8 cruzeiros por dólar. Desencadeada a crise, ocorreria uma redução, digamos, de 40 por cento do preço de venda da saca de café, a qual passava a ser cotada a 15 dólares. Se a economia funcionasse num regime de estabilidade cambial tal perda de dez dólares se traduziria, pelas razões já indicadas, em uma redução equivalente dos lucros do empresário. Entretanto, como o reajustamento vinha através da taxa cambial, as consequências eram outras. Admitamos que, ao deflagrar a crise, o valor do dólar subisse de 8 para 12 cruzeiros. Os 15 dólares a que o nosso empresário estava vendendo agora a saca do café já não valiam 120 cruzeiros mas sim 180. Dessa forma, a perda do empresário, que em moeda estrangeira havia sido de 40 por cento, em moeda nacional passava a ser de 10 por cento." (p. 169)

Como diz o ministro canalha do inominável no poder atual, dólar alto não seria só para parar com essa festa de empregada doméstica viajar pra Disney, é uma questão de livrar a cara dos exportadores e foder o resto do povo nos preços das coisas que dependem de importação nos insumos.

Furtado segue:

"O processo de correção do desequilíbrio externo significava, em última instância, uma transferência de renda daqueles que pagavam as importações para aqueles que vendiam as exportações. Como as importações eram pagas pela coletividade em seu conjunto, os empresários exportadores estavam na realidade logrando socializar as perdas que os mecanismos econômicos tendiam a concentrar em seus lucros." 

Por mais que a casa-grande dos exportadores também consumisse produtos importados, era a grande massa da sociedade que se ferrava.

"Bastaria atentar na composição das importações brasileiras no fim do século passado e começo deste, 50 por cento das quais eram constituídas por alimentos e tecidos, para dar-se conta do vulto dessa transferência..."

CONCENTRAÇÃO DE RENDA É POLÍTICA DE GOVERNO NO BRASIL, ONTEM E HOJE

"Em síntese, os aumentos de produtividade econômica alcançados na alta cíclica eram retidos pelo empresário, dadas as condições que prevaleciam de abundância de terras e de mão de obra. Havia, portanto, uma tendência à concentração da renda nas etapas de prosperidade. Crescendo os lucros mais intensamente que os salários, ou crescendo aqueles enquanto estes permaneciam estáveis, é evidente que a participação dos lucros no total da renda territorial tendia a aumentar. Na etapa de declínio cíclico, havia uma forte baixa na produtividade econômica do setor exportador. Pelas mesmas razões por que na alta cíclica os frutos desse aumento de produtividade eram retidos pela classe empresarial, na depressão os prejuízos da baixa de preços tenderiam a concentrar-se nos lucros dos empresários do setor exportador. Não obstante, o mecanismo pelo qual a economia corrigia o desequilíbrio externo - o reajustamento da taxa cambial - possibilitava a transferência do prejuízo para a grande massa consumidora. Destarte, o processo de concentração de riqueza, que caracterizava a prosperidade, não encontrava um movimento compensatório na etapa de contração da renda." (p. 169/170)

Legal, né?

Um século depois, tudo segue igual e até pior. Viva o agro "pop"! Viva o preço alto do combustível para encher o cu de dinheiro dos acionistas da Petrobras, que agora não é mais nossa! Viva!

William


Clique aqui para ler comentários sobre o capítulo seguinte.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.


quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Malas de dinheiro não são coisas "normais"


Opinião

Ainda bem que meus colegas bancários da ativa e aposentados são treinados para explicar aos familiares e à sociedade que transações com grandes volumes de dinheiro em espécie não são coisas "normais"


Quando virei trabalhador da categoria bancária aos vinte anos de idade tive acesso a novos conhecimentos e a novos grupos de relacionamento como cidadão brasileiro. Passei a conviver com uma vida mais regulada e "normatizada", baseada em leis, normas e regras formais, que variam de tempos em tempos. Antes, nem declaração anual de imposto de renda eu fazia, como grande parte do povo brasileiro não faz.

Antes de ser bancário, tinha trabalhado quase uma década como criança e adolescente pobre nos mais diversos tipos de trabalhos braçais - ajudante de encanador, entregador de remédios, em lanchonetes etc - e alguns menos braçais como em escola de idiomas, mas todos os trabalhos eram ou informais ou formais como alguém não qualificado.

Como trabalhador do sistema financeiro brasileiro aprendemos noções básicas sobre dinheiro, moeda, capital, operações bancárias etc. Um ensinamento básico para um bancário é ter atenção redobrada quando qualquer operação envolve dinheiro vivo em pacotes, malas e volumes grandes de dinheiro em espécie. Fazemos cursos sobre isso, sobre lavagem de dinheiro, crime financeiro ou crime organizado.

Basta estudar minimamente um pouco de história das sociedades humanas para saber que a informalidade favorece alguns grupos e pessoas e prejudica outros. Numa sociedade informal se ferram o Estado e as maiorias que vendem sua força de trabalho para sobreviver: os trabalhadores.

Nas sociedades capitalistas, trabalhador vender sua força de trabalho sem contrato e registro é prejuízo na certa pra ele, porque ele não tem direito algum a nada: salário fixo, descanso remunerado, férias e 13º salário, licença maternidade, não tem acesso a saúde e previdência, aposentadoria etc. A vantagem da informalidade é toda do dono do dinheiro, do capitalista que compra essa mão de obra barata ("desonerada"). 

O Estado (o erário público) só se ferra com isso também porque os recursos públicos vêm de impostos e contribuições das atividades produtivas e dos bens e propriedades particulares. Por que será que atividades como jogo do bicho são ilegais? Por que será que jogadores de futebol multimilionários vivem com pendências com o fisco por não pagarem impostos corretamente? E esses "empresários" que sonegam até o último centavo do que devem de impostos ao Estado? Vai um produto sem nota fiscal aí?

Me lembro que no dia a dia do trabalho bancário, quando alguém chegava na boca do caixa com um pacote de dinheiro já era algo por si só pouco usual, não era normal se fazer operações bancárias com pacotes ou malas de dinheiro em espécie. Além do risco de assalto e mortes por causa disso, na agência nós tínhamos que parar alguém para contar o dinheiro, registrar com documentos a origem do dinheiro e a pessoa que estava portando aquilo tudo.

Pois é...

Após o golpe de Estado em 2016, que interrompeu um governo eleito democraticamente pelo povo brasileiro, um governo sem ilícitos e sem corrupção - o governo de Dilma Rousseff -, nós passamos a viver num país onde foram desfeitas e alteradas todas as leis, normas e regras construídas por décadas pela sociedade civil. Reformas extinguiram os direitos sociais do povão. Normas de proteção ao meio ambiente foram desfeitas. Regras republicanas de gerir o Estado foram pro saco com a milícia no poder.

Passamos a viver numa sociedade cínica, hipócrita, canalha. Algumas instituições do Estado nacional foram corrompidas em suas essências, em suas regras básicas, nas suas bases de existência.

Hoje, vemos no noticiário como algo "normalizado" uma família (um clã) possuir mais de uma centena de imóveis, sendo a metade adquirida em dinheiro vivo, em espécie, coisa de milhões e milhões de reais, como se isso fosse uma operação bancária ou empresarial "normal". Façam uma operação simples: calculem os salários oficiais de parlamentares desse clã e vejam se a renda lícita chega a 1% de todo esse patrimônio...

Qualquer pessoa minimamente honesta e com alguma ética sabe que esse patrimônio todo adquirido em dinheiro vivo não é normal, não parece ser legal, não é moral. Vivemos num país onde as leis, normas e regras são aplicadas ao povão, aos trabalhadores assalariados, aos comuns. Só.

Um trabalhador bancário passa umas três décadas de sua vida para adquirir com muito sacrifício um ou dois imóveis para suas famílias. O mesmo se dá com as principais categorias profissionais do Brasil - professores, metalúrgicos, comerciários, funcionários públicos da base da pirâmide, pequenos empreendedores etc. Já os "empresários" e uma maioria de "políticos", que pertencem a um seleto grupo social, o 1%, acumulam dezenas, centenas, milhares de imóveis e tudo bem, fica por isso mesmo. Os ideólogos da casa-grande atuam para "normalizar" essas fortunas como coisas normais.

A família dos 100 imóveis com a metade adquirida em dinheiro vivo é a família que chegou ao poder central do país após o golpe de 2016 e após as eleições fraudulentas de 2018, eleições que tiveram interferência política de agentes públicos de órgãos do Estado como a operação Lava Jato (lawfare) que prendeu o principal candidato do campo popular em 2018, Lula.

Que nojo dessa hipocrisia descarada de setores de sociedade brasileira que se intitulam "gente de bem" e que acham normal tudo que o clã no poder faz e representa! Que nojo!

Ainda bem que meus colegas bancários da ativa e aposentados são treinados para explicar aos familiares, amigos e conhecidos que transações financeiras e comerciais em grandes volumes de dinheiro em espécie não são coisas "normais", pelo contrário, são coisas bem suspeitas como aprendemos nos cursos sobre lavagem de dinheiro.

É ou não é, colegas bancários?

William


segunda-feira, 27 de junho de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (XV)

Terceira parte

Economia escravista mineira (século XVIII)

XV. Regressão econômica e expansão da área de subsistência

Esse pequeno capítulo fecha a terceira parte do livro de Celso Furtado. As primeiras linhas do capítulo resumem o desfazimento do sistema de mineração dessa grande região que vai do litoral de São Paulo até o Mato Grosso, Sudeste e Centro-Oeste, sendo a área principal o Estado de Minas Gerais.

"Não se havendo criado nas regiões mineiras formas permanentes de atividades econômicas - à exceção de alguma agricultura de subsistência - era natural que, com o declínio da produção de ouro, viesse uma rápida e geral decadência. Na medida em que se reduzia a produção, as maiores empresas se iam descapitalizando e desagregando. A reposição da mão-de-obra escrava já não se podia fazer, e muitos empresários de lavras, com o tempo, se foram reduzindo a simples faiscadores. Dessa forma, a decadência se processava por uma lenta diminuição do capital aplicado no setor mineratório..." (p. 89)

Furtado diz que se os colonizadores daqui (invasores) tivessem optado por investir em algum tipo de industrialização e processos de manufaturas as coisas poderiam ser diferentes daquilo que ocorreu, uma imensidão continental com gente vivendo espalhada por meios básicos de subsistência. Citou como exemplo o ocorrido na Austrália:

"Houvesse a economia mineira se desdobrado num sistema mais complexo, e as reações seguramente teriam sido diversas. Na Austrália, três quartos de século depois, o desemprego causado pelo colapso da produção de ouro constituiu o ponto de partida da política protecionista que tornou possível a precoce industrialização desse país." (p. 89)

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ATENÇÃO! OU NÓS OU ELES, OS FDP DO AGRO "POP"

Fecho o comentário do capítulo citando mais um trecho de Furtado que nos faz pensar nos desgraçados do agro "pop" que insistem em fazer do Brasil um pasto continental exportador de commodities em benefício deles próprios, uns milhares de sujeitos, em prejuízo de 210 milhões de brasileiros:

"A necessidade de absorver o enorme excedente de mão-de-obra que se foi criando na medida em que diminuiu a produção de ouro - problema tanto mais grave quanto os setores lanífero e agrícola haviam introduzido técnicas poupadoras de mão-de-obra no período anterior para poder subsistir - contribuiu para formar no Estado de Vitória uma consciência clara de que só a industrialização poderia resolver o problema estrutural da região..." (p. 89)

E VEJAM O QUE SERIA DA AUSTRÁLIA SE LÁ PREVALECESSE AS IDEIAS LIBERAIS DOS CARAS DO AGRO "POP":

"Tivesse o país permanecido sob a influência exclusiva dos grupos exportadores de lã, e a predominância das ideias liberais teria impedido qualquer política de industrialização por essa época." (p. 90)

Furtado termina o capítulo explicando as consequências da desarticulação do sistema de mineração no Brasil. O povão vai se espalhar e produzir em regime de subsistência.

"Em nenhuma parte do continente americano houve um caso de involução tão rápida e tão completa de um sistema econômico constituído por população principalmente de origem europeia." (p. 90)

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É isso. Por mais triste que tudo possa parecer hoje num país destruído pelo golpe de 2016 e dominado pelo crime organizado desde o governo até os órgãos do Estado, acho importante conhecer a história, a nossa história nesse caso.

William


Leiam aqui os comentários do capítulo seguinte.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.


sábado, 25 de junho de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (XIV)

Terceira parte

Economia escravista mineira (século XVIII)

XIV. Fluxo de renda

Ehh, amig@s leitores... é difícil não se indignar e não se incomodar ao ler nossa história de exploração brasileira em benefício dos países do Norte, em benefício de portugueses, ingleses e outros tipos... foram séculos de uso de nossas riquezas para construir toda aquela riqueza europeia que a elite vira-latas daqui vai lá pra pagar pau em passeios de férias... belas construções, muito ouro em tudo, muita fartura e cultura, tudo à base de séculos de espoliação de nossas riquezas brasileiras e sul-americanas. Que merda tudo isso!

E após cinco séculos, após o golpe de Estado em 2016, a volta ao mesmo início, aos mesmos vícios de origem... viramos um pasto continental para enviar commodities pra encher as burras de poucos filhos da puta daqui, tipo os latifundiários do agro "pop", e alimentar os porcos, peixes e animais de outros países com a nossa ração... bem-estar pra eles e miséria pra nós... caraca! Que foda!

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Algumas citações do capítulo desse "esboço" de Furtado, como ele diz na introdução, servem pra ilustrar o que comentei acima...

No começo do capítulo, Furtado explica que a economia mineira (de mineração) trazia alguns benefícios internos melhores do que a economia açucareira trazia. A renda média era menor, mas ela estava menos concentrada. No entanto, a criação de uma economia interna era dificultada pela falta de capacidade técnica de mão de obra para produzir manufaturas aqui. Éramos ignorantes nas técnicas manufatureiras...

- "Se se tem em conta que a população livre da região mineira não seria inferior, por essa época, a 300 mil pessoas, se depreende que a renda média era substancialmente inferior à que conhecera a economia açucareira na sua etapa de grande prosperidade." (p. 84)

- "Por outro lado - e isto constitui o aspecto principal do problema - a renda estava muito menos concentrada, porquanto a proporção da população livre era muito maior." (idem)

- "Por último, a grande distância existente entre a região mineira e os portos contribuía para encarecer relativamente os artigos importados. Esse conjunto de circunstâncias tornava a região mineira muito mais propícia ao desenvolvimento de atividades ligadas ao mercado interno do que havia sido até então a região açucareira." (idem)

- "Entretanto, o decreto de 1785 proibindo qualquer atividade manufatureira não parece haver suscitado grande reação, sendo mais ou menos evidente que o desenvolvimento manufatureiro havia sido praticamente nulo em todo o período anterior de prosperidade e decadência da economia mineira. A causa principal possivelmente foi a própria incapacidade técnica dos imigrantes para iniciar atividades manufatureiras numa escala ponderável." (idem)

Uma das poucas áreas que teve algum processo de manufatura interna foi na área da metalurgia porque os escravos africanos conheciam a técnica da produção de ferraduras, por exemplo.

- "Exemplo claro disso é o ocorrido com a metalurgia do ferro. Sendo grande a procura desse metal numa região onde os animais ferrados existiam por dezenas de milhares - para citar o caso de um só artigo - e sendo tão abundantes o minério de ferro e o carvão vegetal, o desenvolvimento que teve a siderurgia foi o possibilitado pelos conhecimentos técnicos dos escravos africanos." (p. 85)

O OURO PRA ENCHER AS BURRAS DOS INGLESES

Como já dito em outro capítulo, a extração de ouro no Brasil serviu para encher os cofres dos bancos ingleses, só.

Através de acordos (Methuen), portugueses e ingleses comercializavam vinhos e tecidos, com enorme déficit para os portugueses, lógico. A diferença foi paga com todo o ouro que se extraiu do Brasil. Ficaram os portugueses sem desenvolver indústria alguma, sem produtos com valor agregado, e o Brasil seguiu nessa toada para sempre...

- "Ora, cabe ao ouro do Brasil uma boa parte da responsabilidade pelo grande atraso relativo que, no processo de desenvolvimento econômico da Europa, teve Portugal naquele século (...) Houvesse Portugal acumulado alguma técnica manufatureira, e a mesma ter-se-ia transferido ao Brasil, malgrado disposições legislativas em contrário, como ocorreu nos EUA." (p. 85)

E, por fim, viramos pasto da potência da época, a Inglaterra... (hoje, somos pasto do mundo todo, enquanto a fome, a miséria e o atraso imperam por aqui)

"A inexistência desse núcleo manufatureiro, na etapa em que se transformam as técnicas de produção no último quartel do século, é que valeu a Portugal transformar-se numa dependência agrícola da Inglaterra." (p. 87)

Mudaremos isso algum dia?

William


Leiam aqui os comentários do capítulo seguinte.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.


quinta-feira, 23 de junho de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (XIII)

Terceira parte

Economia escravista mineira (século XVIII)

XIII. Povoamento e articulação das regiões meridionais

Vimos com Celso Furtado o cenário da colônia portuguesa durante os primeiros duzentos anos. Sem encontrarem ouro e prata como os espanhóis na meseta mexicana e na região andina, os portugueses desenvolveram a atividade da monocultura da cana-de-açúcar em larga escala. Além dessa atividade econômica, outras duas foram centrais nos dois primeiros séculos: a venda de seres humanos capturados no Brasil - povos originários - e a criação de gado, tanto para movimentar moendas e cargas quanto para subsistência.

No século seguinte, o XVIII, se desenvolve a atividade de mineração e ela tem características bem distintas em relação às outras. Na produção de açúcar era necessário muito recurso financeiro porque a produção era em larga escala, então havia pouca migração de europeus pra cá. Na mineração, sem a necessidade de altos investimentos, ocorreu uma grande migração de europeus pra cá, principalmente de portugueses.

"Com efeito, tudo indica que a população colonial de origem europeia decuplicou no correr do século da mineração. Cabe admitir, demais, que o financiamento dessa transferência de população em boa medida foi feito pelos próprios imigrantes, os quais eram pessoas de pequenas posses que liquidavam seus bens, na ilusão de alcançar rapidamente uma fortuna no novo eldorado." (p. 78)

A nota 69 dá conta dos números da população no Brasil em 1600 (100 mil), em 1700 (300 mil) e em 1800 (3,25 milhões). Nos primeiros dois séculos, 1/3 era de europeus. Furtado estima que cerca de 300 mil a meio milhão de europeus (maioria portugueses) migraram pra cá no século da mineração. 

Furtado explica que na mineração eram maiores as chances de colonos brancos sem grandes propriedades obterem êxito e se darem bem. Inclusive escravos conseguiam comprar sua liberdade quando trabalhavam na lavra para um senhor de escravos.

"Ao estagnar-se a economia açucareira, as possibilidades de um homem livre para elevar-se socialmente se reduziram ainda mais. Em consequência, começou a avolumar-se uma subclasse de homens livres sem possibilidade de ascensão social, a qual em certas épocas chegou a constituir um problema. Na economia mineira, as possibilidades que tinha um homem livre com iniciativa eram muito maiores." (p. 79)

COMENTÁRIO MEU: alguns "empreendedores" se deram bem e viraram proprietários e comerciantes (tipo Paulo Honório, do romance São Bernardo, de G. Ramos), as maiorias não. Esses homens livres e sem posses seriam os futuros jagunços e capitães do mato, seriam agregados das casas-grandes, seriam os macunaímas nos séculos seguintes... Seriam brancos pobres tipo Cândido Neves, do conto machadiano "Pai contra Mãe". 

Características da economia mineira: "A combinação desses dois fatores - incerteza e correspondente mobilidade da empresa, alta lucratividade e correspondente especialização - marcam a organização de toda a economia mineira." (p. 79)

Furtado fecha o capítulo destacando que a economia mineira deu grande contribuição para aquele período integrando as diversas regiões e atividades econômicas de criação de gado, de mulas e burros para transporte e de subsistência.

"A economia mineira abriu um novo ciclo de desenvolvimento para todas elas. Por um lado, elevou substancialmente a rentabilidade da atividade pecuária, induzindo a uma utilização mais ampla das terras e do rebanho. Por outro, fez interdependentes as diferentes regiões, especializadas umas na criação, outras na engorda e distribuição e outras constituindo os principais mercados consumidores. É um equívoco supor que foi a criação que uniu essas regiões. Quem as uniu foi a procura de gado que se irradiava do centro dinâmico constituído pela economia mineira." (p. 81)

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Comentário final

Repito comigo mesmo ao final de cada capítulo: como fica fácil compreender o Brasil do bolsonarismo ao estudar nossa história e nossas origens...

A base da dominação aqui é a violência e a ignorância crassa do povo...

Alguém acha que os dominadores vão aceitar mudanças sem violência pra tomar o poder deles? Eu não acredito nisso!

Somos nós o povão ou eles... não existe a menor chance de conciliação...

William


Leiam aqui os comentários do próximo capítulo.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.


quarta-feira, 22 de junho de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (XII)

Segunda parte

Economia escravista de agricultura tropical (séculos XVI e XVII)

XII. Contração econômica e expansão territorial

Com a leitura desse capítulo, termina a segunda parte do livro de Celso Furtado. 

A 1ª parte apresentou os fundamentos econômicos da ocupação territorial da colônia portuguesa. Não encontrando ouro e metais preciosos de cara, como ocorreu na porção espanhola das Américas, os portugueses tiveram que optar pela monocultura da cana-de-açúcar por aqui. Tudo deu certo enquanto o monopólio dessa commodity não sofreu a concorrência do açúcar antilhano, que se desenvolveu após a expulsão dos holandeses do Nordeste brasileiro (meados do século XVII).

Na 2ª parte, Furtado nos apresenta as bases da economia escravista de agricultura tropical monocultora de exportação de açúcar e de subsistência baseada na criação de gado. Vimos a expansão para o interior do continente. Os paulistas de São Vicente se estabeleceram como caçadores e vendedores de seres humanos: os povos indígenas brasileiros. Depois da escravidão dos povos originários foi que os portugueses vieram com escala industrial de comércio de seres humanos sequestrados no continente africano e vendidos como escravos aqui nas Américas.

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VENDA DE GENTE - A caça e venda de homens, mulheres e crianças sempre foi uma atividade econômica por parte dos povos brancos invasores do Norte, os europeus. A exploração dos outros povos do mundo sempre foi uma característica dos europeus. Isso não mudou até hoje, é minha opinião após 53 anos de vida e estudo da vida e do viver.

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Nesse capítulo XII aparece também a importância dos jesuítas, que ao longo de suas relações com os indígenas alternaram um papel de proteção deles contra a caça e violência e manipulação ideológica cooptando os indígenas para servirem de forma pacífica aos invasores a troco de quase nada. Vejam abaixo um exemplo do uso da mão de obra indígena na região amazônica do Maranhão: 

"Coube aos jesuítas encontrar a solução adequada para esse problema. Conservando os índios em suas próprias estruturas comunitárias, tratavam eles de conseguir a cooperação voluntária dos mesmos. Dado o reduzido valor dos objetos que recebiam os índios, tornava-se rentável organizar a exploração florestal em forma extensiva, ligando pequenas comunidades disseminadas na imensa zona." (p. 69)

Por fim, a decadência da economia açucareira também contribuiu para a ocupação e expansão na região sul do Brasil.

"A penetração dos portugueses em pleno estuário do Prata, onde em 1680 fundaram a Colônia do Sacramento, constitui assim outro episódio da expansão territorial do Brasil ligada às vicissitudes da etapa de decadência da economia açucareira." (p. 70)

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COMENTÁRIO

É isso. Mais um capítulo de nossa história econômica de invasão e exploração monocultora baseada em destruir e matar tudo que havia nesta terra chamada pelos invasores de "Brasil" em benefício dos exploradores brancos vendedores de gente há séculos. 

Não mudou nada ainda hoje... mas os povos explorados seguem na luta, a história não acabou.

William

Leia aqui os comentários do capítulo seguinte.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.


terça-feira, 21 de junho de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (XI)

Segunda parte

Economia escravista de agricultura tropical (séculos XVI e XVII)

XI. Formação do complexo econômico nordestino

Nesse capítulo, Furtado explica as origens dos fundamentos econômicos na região nordestina. Entre o final do século XVII, todo o século XVIII e começo do XIX houve uma decadência paulatina da economia baseada na produção da cana-de-açúcar e o que manteve a economia da região foi a expansão da atividade de criação de gado, que acabou virando atividade de subsistência.

"Tudo indica que no longo período, que se estende do último quartel do século XVII aos começos do século XIX, a economia nordestina sofreu um lento processo de atrofiamento, no sentido de que a renda real per capita de sua população declinou secularmente." (p. 65)

Ou seja, por um século e meio a atividade açucareira perdeu produtividade por causa da concorrência com o açúcar antilhano e pela redução dos preços no mercado consumidor externo. Também houve consequências por causa do aumento do preço dos escravos e pela concorrência de mão de obra escrava para a atividade de mineração.

"No Nordeste brasileiro, como as condições de alimentação eram melhores na economia de mais baixa produtividade, isto é, na região pecuária, as etapas de prolongada depressão em que se intensificava a migração do litoral para o interior teriam de caracterizar-se por uma intensificação no crescimento demográfico. Explica-se assim que a população do Nordeste haja continuado a crescer - e possivelmente haja intensificado o seu crescimento - em todo o século e meio de estagnação da produção açucareira a que fizemos referência." (p. 66)

Enquanto a redução do preço do açúcar fez a população excedente das Antilhas migrar para os Estados Unidos, os brancos europeus, no Nordeste brasileiro houve a expansão da atividade criatória que manteve a população indo para o interior do continente e se mantendo com crescimento vegetativo porque a produção de carne também foi de alimentação, além de comércio de couro e gado de tiro.

Os materiais de couro substituíram quase tudo que era manufaturado e importado da metrópole. 

Fecho o capítulo dessa série de minha estanteflix com mais uma citação: "Dessa forma, de sistema econômico de alta produtividade a meados do século XVII, o Nordeste se foi transformando progressivamente numa economia em que grande parte da população produzia apenas o necessário para subsistir." (p. 66)

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COMENTÁRIO FINAL

Estou sem pique algum para fazer algum comentário irônico explicando o Brasil de hoje através do estudo de nossas origens econômicas.

Nesta semana que mal começou já tivemos uma "juíza" negando o pedido de aborto para uma vítima de estupro de onze anos de idade; notícias na imprensa dizem que ela deixou o caso (após a repercussão)... porque foi promovida. 

O vereador Renato Freitas*, uma liderança do movimento negro de Curitiba, foi cassado por puro racismo (caçado!) em uma casa legislativa (de brancos) na qual o histórico demonstra que foram mantidos no poder até hoje todo tipo de corrupto que por lá passou. 

O clã de milicianos no poder já fez das suas nesta semana como o "presidente" dizer que Jesus Cristo só não tinha uma pistola porque não havia pistola na época... os corruptos do Congresso seguem torrando o "orçamento secreto" para se reelegerem e enriquecerem, são bilhões bilhões bilhões no segredo para eles...

O gabinete do ódio de milhões e milhões de dinheiros financiando fake news e manipulando os mortais dessa terra miserável e a mídia parcial dos bilionários brasileiros (PIG - Partido da Imprensa Golpista, liderados pela Globo) estão ganhando adeptos do ódio ao Lula e a nós da esquerda. Um familiar muito querido, em questão de semanas, passou de crítico de Bolsonaro a retransmissor de páginas do "fechado com Bolsonaro" o dia inteiro... difícil, viu!

Sem comentários... se eu tivesse que fazer um único pedido a um gênio da garrafa, um pedido, pediria uma revolução popular que "justiçasse" toda essa gente da casa-grande que desgraça esse país diariamente há séculos, só os donos da casa-grande, os grandões. Os agregados iam ter que cair na real e teriam que voltar pro lugar deles entre o povão.

William

Leia aqui os comentários do capítulo seguinte.


*Post Scriptum (10/10/22): pelo menos uma boa notícia: o cidadão e liderança do movimento negro Renato Freitas (PT) teve seu mandato de vereador restituído por decisão do STF. Além disso, foi candidato a deputado estadual e foi eleito com boa votação (58 mil votos). Que boa notícia. A luta continua!

Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.


segunda-feira, 20 de junho de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (X)

Segunda parte

Economia escravista de agricultura tropical (séculos XVI e XVII)

X. Projeção da economia açucareira: a pecuária

Nesse capítulo, Furtado nos apresenta como num roteiro de filme os acontecimentos que fazem com que tenhamos uma compreensão melhor da história, tanto do Brasil quanto de outros países das Américas.

A economia açucareira é um mercado de dimensões grandes. Os produtores não desviam o foco de seus fatores de produção pra nada. Quem planta cana ocupa toda a terra pra isso. Nasce, então, oportunidades para outros mercados.

"A própria produção de alimentos para os escravos, nas terras do engenho, tornava-se antieconômica nessas épocas. A extrema especialização da economia açucareira constitui, na verdade, uma contraprova de sua rentabilidade." (p. 57)

Furtado compara o desenvolvimento de São Vicente (SP) com a Nova Inglaterra (EUA), considerando a paulista como uma colônia de povoamento, já que não deu certo a cana-de-açúcar.

Assim como os colonos do norte (EUA) foram se desenvolvendo com atividades de subsistência como a pesca e o comércio de alimentos e madeira para a região das Antilhas (de produção monocultora de açúcar), São Vicente passou a se virar em outras atividades: caça e venda de indígenas como escravos para exportação.

Os colonos paulistas adentraram o continente pra caçar humanos e escravizá-los... seriam os "adoráveis" bandeirantes que a burguesia paulista enaltece até hoje...

Regiões como São Vicente passaram a viver de comércio de escravos, madeira e animais de tiro para os engenhos e carne como alimento. Animais de tiro passaram a ser necessários para adentrar o continente devastando as florestas também.

A separação das atividades econômicas - açucareira e de criação de gados - fez com que surgissem novas ocupações ao Sul e para dentro do continente. Tenhamos claro que essa nova atividade - criação de gado - foi um reflexo da atividade econômica principal na colônia: a açucareira.

O capítulo termina já dando um panorama da virada do século XVII para o XVIII em relação às atividades econômicas na colônia portuguesa. A atividade criatória de gado é de baixa produtividade à medida que o gado vai se afastando dos litorais. O gado do Sul terá importância para a atividade de mineração na região Sudeste.

Um resumo sobre a atividade pecuária pra fechar o capítulo: "Observada a economia criatória em conjunto, sua principal atividade deveria ser aquela ligada à própria subsistência de sua população. Para compreender este fato, é necessário ter em conta que a criação de gado também era em grande medida uma atividade de subsistência, sendo fonte quase única de alimentos, e de uma matéria-prima (o couro) que se utilizava praticamente para tudo. Essa importância relativa do setor de subsistência na pecuária será um fator fundamental das transformações estruturais por que passará a economia nordestina em sua longa etapa de decadência." (p. 62)

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COMENTÁRIO FINAL

Celso Furtado nos apresenta esse livro em meados do século passado como um "esboço do processo histórico de formação da economia brasileira". 

Cara, como esse esboço é esclarecedor de nossa realidade em 2022 no século XXI! Ao olharmos ao nosso redor e vermos os atores que lideram a destruição de nosso mundo, nosso país, nossas vidas, os caras do agro "pop" e da casa-grande, fica claro como a água os interesses que sempre prevaleceram na ocupação do território brasileiro. 

Esses coronéis seculares precisam ser derrotados por nós, o povo brasileiro vítima deles. Até o povo colombiano tomou a decisão de dizer um basta a esses colonizadores (eleição de Petro e Francia à presidência neste fim de semana)... e nós, será que faremos o mesmo em outubro elegendo Lula?

William

Leia aqui os comentários do capítulo seguinte.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.


domingo, 19 de junho de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (IX)

Segunda parte

Economia escravista de agricultura tropical (séculos XVI e XVII)

IX. Fluxo de renda e crescimento

Li duas vezes esse capítulo. Furtado nos dá uma aula de fundamentos econômicos: fatores de produção. Me lembrei dos meus tempos de estudos de economia.

A linguagem econômica usada por Furtado chega a nos incomodar ao falar dos "empresários" e seus escravos como "fatores de produção", mas a realidade é assim: materialismo histórico.

- "O empresário açucareiro teve, no Brasil, desde o começo, que operar em escala relativamente grande." (p. 51)

- "Uma vez instalada a indústria, seu processo de expansão seguiu sempre as mesmas linhas: gastos monetários na importação de equipamentos, de alguns materiais de construção e de mão-de-obra escrava." (p. 51)

FLUXO DE RENDA MONETÁRIA

"Numa economia industrial a inversão faz crescer diretamente a renda da coletividade em quantidade idêntica a ela mesma. Isto porque a inversão se transforma automaticamente em pagamento a fatores de produção. Assim, a inversão em uma construção está basicamente constituída pelo pagamento do material nela utilizado e da força de trabalho absorvido. A compra do material de construção, por seu lado, não é outra coisa senão a remuneração da mão-de-obra e do capital utilizados em sua fabricação e transporte. Estes pagamentos a fatores, que são uma criação de renda monetária ou de poder de compra, somados, reconstituem o valor inicial da inversão." (p. 52)

COMENTO: durante os governos do PT no Brasil isso foi o que ocorreu em grande medida e por isso o Brasil teve consumo interno e a economia se manteve ativa e gerando fluxo de renda interna mesmo após a crise do subprime a partir de 2008.

ECONOMIA EXPORTADORA ESCRAVISTA NÃO GERA FLUXO DE RENDA MONETÁRIA COMO NAS ECONOMIAS COM MÃO DE OBRA REMUNERADA

"A inversão feita numa economia exportadora-escravista é fenômeno inteiramente diverso. Parte dela transforma-se em pagamentos feitos no exterior: é a importação de mão-de-obra, de equipamentos e materiais de construção; a parte maior, sem embargo, tem como origem a utilização mesma da força de trabalho escravo. Ora, a diferença entre o custo de reposição e de manutenção dessa mão-de-obra, e o valor do produto do trabalho da mesma, era lucro para o empresário. Sendo assim, a nova inversão fazia crescer a renda real apenas no montante correspondente à criação de lucro para o empresário. Esse incremento da renda não tinha, entretanto, expressão monetária, pois não era objeto de nenhum pagamento." (idem)

Furtado explica em seguida que a mão de obra escrava era semelhante às instalações de uma fábrica: custo fixo. Mas os escravos traziam uma vantagem: realizavam todas as demais tarefas do dia a dia, em todas as áreas.

"Tais tarefas vinham a ser obras de construção, abertura de novas terras, melhoramentos locais etc. Estas inversões aumentavam o ativo do empresário, mas não criavam um fluxo de renda monetária, como no anterior." (p. 53)

Furtado segue com explicações técnicas ao longo do capítulo. Um resumo bem fuleiro de minha parte seria dizer que o lucro do escravocrata seria a diferença entre as exportações de açúcar e as importações dos fatores de produção. Era um lucro e um acúmulo de capital fenomenal, acreditem.

Mesmo quando o mercado consumidor de açúcar tinha quedas como no caso da concorrência com o açúcar antilhano os caras continuavam se dando bem, porque seus escravos trabalhavam na manutenção da vida nos latifúndios e casas-grandes.

Furtado explica que esse sistema colonial de produção de açúcar não se compara com os sistemas feudais, é o contrário. No feudalismo a produção é pra dentro e na monocultura de exportação é pra fora.

O sistema se manteve ao longo de séculos, com altos e baixos. Fecho com mais um resumo do modelo:

"Se ocorria uma redução ao ritmo da atividade produtiva para exportação, reduziam-se os lucros do empresário, mas ao mesmo tempo se criava uma capacidade excedente de trabalho, a qual podia ser utilizada na expansão da capacidade produtiva. Se não havia interesse em expandir essa capacidade produtiva, o potencial disponível de inversão podia ser canalizado para obras de construção ligadas ao bem-estar da classe proprietária ou outras de caráter não-reprodutivo." (p. 55)

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COMENTÁRIO FINAL

O golpe de 2016, "com o Supremo com tudo", teve o objetivo de devolver o Brasil a esse período descrito por Celso Furtado, os séculos em que éramos colônia de monoculturas de exportação em benefício de alguns filhos da puta proprietários de tudo.

Os latifúndios de antes são o agro "pop" de hoje (gente de "bens", tudo bolsonarista). Uma diferença é o fator de produção "mão de obra", porque a tecnologia permitiu que tudo seja feito de forma mecânica. Não à toa, os desgraçados das casas-grandes, a elite do atraso, pouco se importa com mais de 100.000.000 de pessoas passando fome. É gente descartável na atualidade tecnológica.

Sem mudar essa realidade brasileira, seremos os eternos miseráveis descritos por Victor Hugo lá no século XIX, miseráveis famintos em meio a uma burguesia que desfila e flana pelas ruas com suas modas e chiliques grã-finos.

William

Post Scriptum - Enquanto escrevia essa postagem, desci na portaria do prédio para receber uma entrega a domicílio e o trabalhador - um motoboy conhecido - me contou que foi assaltado ontem por uns miseráveis de moto. Roubaram dele até o dinheiro do aluguel que iria pagar amanhã... fiquei arrasado com a história do rapaz. Se não mudarmos essa realidade que os capitalistas nos colocaram após o golpe, Lava Jato e Bolsonaro, seremos essa terra miserável de gente miserável, uns contra os outros, enquanto a elite vive no paraíso. Que foda! 

Post Scriptum II: Deixei as citações do Furtado com o português da edição do livro: "mão-de-obra". Inventaram novas regras de Língua Portuguesa e hoje é uma confusão só com esse negócio de usar ou não usar hífen, juntar palavra ou separar etc. Eu não gosto dessas regras, acho isso um saco, mas... quando tenho paciência, pesquiso, quando não tenho, escrevo do jeito que sabia antes (ou não sabia).

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Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.