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terça-feira, 26 de novembro de 2024

Diário e reflexões - Ushuaia (ARG)


Vista aérea.

Refeição Cultural

Ushuaia (ARG), 26 de novembro de 2024. Terça-feira.


Impressões

Escrever sobre um lugar que se está conhecendo enquanto a viagem está em curso não é um trabalho simples para mim. Em geral, prefiro estudar um pouco a respeito da geografia do local, da cultura de seu povo e da história daquela comunidade para me sentir mais confiante em não escrever bobagem.

Extremo Sul da Argentina.

Estamos em Ushuaia, na Argentina, a cidade mais austral do país e do continente americano. Mais "austral" significa mais ao Sul. Pelo que ouvimos por aqui, estamos a cerca de mil quilômetros da Antártida. Como estamos em novembro, não está em período de neve, porém, faz frio diariamente. Nesta semana, a temperatura está entre 4 e 5º e chegando a 13º. Anoitece depois das 22h e amanhece lá pelas 5h da manhã. O vento é muito gelado.

Paisagem da janela.

Saímos de São Paulo no sábado de noite e após dois voos ao longo da noite, chegamos a Ushuaia pouco depois das 10h da manhã. Viemos pela companhia aérea Aerolineas Argentinas. Não houve atrasos e correu tudo bem nos voos. São umas três horas até Buenos Aires e mais três horas e pouco até a "Terra do fim do mundo", um dos simpáticos apelidos da cidade. Os assentos dos voos são muito apertados, alguém maior que nós sofreria muito.

Calle San Martín.

Tudo aqui é muito caro, ao fazer o pacote de viagem já sabíamos disso. Achamos melhor contratar os passeios que faríamos com nossa agente de viagem. Querem exemplos de valores em reais na conversão ao pagar com cartão de crédito? Dois pratos de macarrão com refrigerante num mercadinho local: 162 reais (26.800 pesos). Duas garrafas de 1,5L de água: 30 reais (4.800 pesos). Uma refeição pode custar de 10.000 a 35.000 pesos, ou seja, de 60 a 200 reais, uma refeição! Sabem quanto custam duas entradas no museu local? 36.000 pesos cada (uns 450 reais o casal).

Hotel Albatros.

Apesar de apontar essa primeira impressão sobre os preços das coisas e os perrengues comuns de voos como, por exemplo, assentos apertados, a viagem para conhecer a cidade de Ushuaia está valendo muito a pena. É evidente que há nos preços locais um componente relativo às características da cidade: distante de tudo e foco no turismo. 

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Comendo uma pizza.

Viajar é uma experiência incrível e conhecer lugares e culturas diferentes da nossa é algo que nos marca para sempre.

Se conseguir, vou fazer algumas postagens sobre a experiência cultural ao se visitar o "fim do mundo". 

Na extensão do Blog Refeitório Cultural, dedicada a fotos, farei postagens com imagens que tenha gostado (ver aqui).

William Mendes

26/11/24


domingo, 3 de novembro de 2024

Serra da Bodoquena - Encontro de culturas, histórias, biomas e ecossistemas



Refeição Cultural 

Livro editado pelo Instituto das Águas da Serra da Bodoquena - IASB (2015)

Autores:

Franciéle Pereira Maragno

Jeferson Aparecido Almeida da Silva

Liliane Lacerda


Tive a oportunidade de visitar a região da Serra da Bodoquena duas vezes, com um intervalo de vinte anos. Fui a Bonito nos anos noventa e em 2018.

É um dos locais mais bonitos do Brasil, um paraíso de águas cristalinas em todos os rios da região. Ê um lugar de grande biodiversidade também. 

Em termos turísticos, dizemos que viajamos para a cidade de Bonito, Mato Grosso do Sul. 

Se estudarmos um pouco mais a ida a Bonito, veremos que os atrativos turísticos - os rios de águas cristalinas - estão situados em uma área do Planalto da Bodoquena, e os passeios se dão nos municípios de Bonito, Bodoquena, Jardim, Porto Murtinho e outros, dependendo da escolha da atividade.

Gruta do Lago Azul.
Foto: William Mendes.

São vários rios com passeios: Rio Formoso, Rio da Prata, Rio Sucuri, Rio Salobra, Rio Aquidabã, Rio Miranda - mais conhecido pela pesca -, dentre outros. Sem contar outras atrações da região, por exemplo, as grutas e cavernas como a "Gruta do Lago Azul" e dolinas como o "Buraco das Araras".

A leitura do livro "Serra da Bodoquena" e as duas aulas de Geografia do Brasil (que vi no ICL) sobre formação de relevos contribuíram muito para a minha compreensão sobre a riqueza daquele bioma e as ameaças à sua existência por parte dos humanos. 

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O AGRO VAI PRESERVAR O BIOMA DA SERRA DA BODOQUENA?

Tive a curiosidade de pesquisar os resultados das eleições municipais recentes (2024) nas cidades de Bodoquena, Bonito, Jardim e Porto Murtinho: 

Todas as cidades eram e seguirão governadas pela direita e extrema-direita e as câmaras de vereadores são compostas com praticamente todas as representações de partidos políticos do mesmo segmento. Vi uma representação de esquerda em Bonito (do PT) e uma em Porto Murtinho (do PT). Só. 

Vocês acham que os interesses que prevalecerão nessas cidades serão os dos preservacionistas ou os dos coronéis do agro, que plantam soja e põem gado em cada palmo de terra disponível?

Em 2018, uma das questões que mais preocupavam os guias turísticos eram ligadas ao assoreamento dos rios por causa das lavouras de soja, e a turbidez das águas por causa das plantações e destruição das matas ciliares.

Imaginem como não deve ter sido o efeito após quatro anos de bolsonarismo...

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Enfim, a leitura sobre a Serra da Bodoquena, um bioma espetacular, foi muito esclarecedora para mim. O conhecimento é fundamental para que possamos tomar as decisões mais adequadas na vida.

William 


ICL - Estudando Geografia do Brasil (2)



Refeição Cultural

AGENTES EXÓGENOS NA FORMAÇÃO DO RELEVO


Vivemos numa época na qual boa parte do conhecimento humano está disponível a um clique. No entanto, talvez nunca tenhamos vivido numa época com tanta ignorância e desconhecimento humano de forma proposital. É como se houvesse um incentivo à ignorância por parte das autoridades constituídas em uma determinada comunidade. Dureza, isso!

O Instituto Conhecimento Liberta (ICL) tem como propósito oferecer uma gama enorme de cursos nas mais diversas áreas do saber para que as pessoas possam acessar esses conhecimentos. O investimento é equivalente a um lanche em um shopping center ou numa noite de rolê: cerca de 60 reais.

Assisti à segunda aula do professor Hugo Anselmo - Geografia do Brasil - e a didática utilizada é incrível, é uma aula leve, de fácil compreensão e ao final a pessoa sai com boas noções do tema abordado.

INTEMPERISMO E EROSÃO

Intemperismo: são os processos de degradação das rochas, processos químicos (água), físicos (quebras das rochas por variação de temperatura - termoclastia) e biológicos (por ação de seres vivos, tipo raízes e microorganismos).

Erosão: são processos de transporte de sedimentos: pluvial (ação da água da chuva), fluvial (água dos rios), eólica (ação dos ventos), marítima (ação das ondas e glacial (abrasão do gelo).

As referências reais deixam muito claros para os leitores os fenômenos explicados antes. Fiordes, por exemplo, ocorrem pela ação do gelo ao longo de milhões de anos. O Grand Canyon é uma grande erosão fluvial, do rio Colorado.

ROCHAS

Rochas são associações naturais de dois ou mais minerais.

Depois nos são apresentadas as características de distintas rochas de acordo com as suas origens: magmáticas/ígneas, sedimentares e metamórficas. Não sabia, por exemplo, que ardósia vem da argila.

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SERRA DA BODOQUENA - MATO GROSSO DO SUL

Estou terminando a leitura de um pequeno livro que trouxe de uma viagem a Bonito (MS), e com as duas aulas de Geografia que vi na plataforma do ICL a leitura ficou muito mais clara para mim. 

Vários conceitos abordados nas aulas foram citados na caracterização da região onde se localiza Bonito e outras cidades que compõem aquela maravilha de fauna e flora do Brasil.

Sigamos estudando e aprendendo coisas novas todos os dias, pois só o conhecimento liberta, como disse José Martí.

William


Post Scriptum: os comentários sobre a primeira aula de Geografia do Brasil podem ser lidos aqui.


quinta-feira, 3 de outubro de 2024

ICL - Estudando Geografia do Brasil (1)



Refeição Cultural

AGENTES ENDÓGENOS DO RELEVO

É sempre motivador sair de uma aula tendo mais noções sobre as coisas do que antes de ter contato com aquele conhecimento temático. 

Quando era dirigente sindical e secretário de formação explicava isso aos trabalhadores, que todas as pessoas precisam ter noções das coisas, de forma a sermos menos ignorantes, ou seja, ignorarmos completamente algo.

Ao assistir à aula de Geografia do professor Hugo Anselmo na plataforma do ICL, mesmo estando sem grandes pretensões, percebo o quanto adquiri de noções sobre formação de relevos no planeta Terra. 

Nosso relevo tem impactos em sua forma e composição a partir de eventos como o tectonismo, vulcanismo, abalos sísmicos etc (agentes endógenos) e também através da ação das chuvas, vento, gelo, ondas etc (agentes externos).

Me lembrei das explicações que já sabia sobre a Teoria da Deriva Continental, que nos conta sobre o tempo em que as superfícies terrestres estavam reunidas na Pangeia. 

O planeta é composto de placas tectônicas que se movem de forma convergente, divergente e horizontal. A consequência desses movimentos é sentida por nós quando ocorrem terremotos, maremotos etc.

Amigas e amigos leitores, estudar é muito gostoso! É muito legal saber um pouco mais a cada dia de nossas existências. 

Como nos lembra o ICL, a partir de um conceito de José Martí, só o conhecimento liberta.

William


Post Scriptum: esse meu desejo de estudar até morrer às vezes me faz praticar ações que não serão concluídas. Fiz inscrição na Fuvest neste dia e paguei 211 reais. Queria fazer outra graduação, dessa vez em História. Por motivos diversos, não fiz as provas. Vida que segue.


domingo, 30 de agosto de 2020

300820 (d.C.) - Diário e reflexões



Domingo, 30 de agosto, depois do aparecimento da Covid-19 (d.C.).

Hoje é aniversário de meu pai. Meus parabéns, pai! 78 anos! Sei que a vida não está fácil. Estamos vivos e isso já é alguma coisa. Resistimos até aqui ao coronavírus, mesmo com os abusos que cometemos em relação ao isolamento social: estamos o tempo todo na rua, apesar dos cuidados recomendados. Resistimos até aqui, mesmo com os abusos que cometem cotidianamente contra nós, cidadãos comuns desse país sob golpe de Estado e regime fascista, regime baseado na mentira e privilégio dos ricos. 

Sobrevivemos até aqui aos infartos, aos derrames e acidentes vasculares, depressões, cânceres, raivas e frustrações e outras merdas que nos matam de morte morrida. Que bom que estamos vivos, pois a vida é única e viver é uma oportunidade diária de acontecimentos bons para amenizar a dureza da existência. Ontem vi o nascer do sol. Hoje vi um lindo ipê branco no dia de seu desabrochar. Pai, desejo ao senhor a saúde possível, já que o senhor tem diversos desgastes da passagem do tempo. Também já tenho os meus aos 51 anos. Amo vocês, pai, mãe, irmã e sobrinhos. Se cuidem aí. A pandemia impediu que nos víssemos este ano. Mas estamos por aqui. Saudades de vocês!

Por falar em coronavírus, a pandemia mundial já infectou 25 milhões de pessoas no mundo, sendo 3,8 milhões no Brasil. Já morreram 843.826 pessoas, sendo 120.462 brasileiras e brasileiros. O inumano no poder, seus asseclas e apoiadores nazifascistas afirmam que a Covid-19 é uma "gripezinha". Além disso, o sujeito no poder por fraude e golpe diz que não é coveiro, que todo mundo vai morrer um dia e a posição do governo sobre a situação das mortes pela pandemia é "E daí?". (informações sobre a pandemia: Johns Hopkins University)

Estou às voltas com minhas coisas guardadas, materiais que acumulei para estudar e ter mais conhecimentos em diversas áreas. Nunca pude ler os materiais porque a vida de um proletário se gasta no próprio viver de jornadas de manhãs, tardes e noites na sobrevivência cotidiana. Não tenho coragem de jogar fora, a gente tenta se desfazer e fica com pena de tanta informação e conhecimento nas revistas, nas apostilas, nos livros diversos, nas mídias de cultura. E no fundo, a questão é sobre a utilidade de tudo isso para mim hoje. O que aprendi serviu para o momento que já vivi, para o que eu já fui como ator social. Meu tempo passou para a maioria dos materiais que acumulei, e as coisas são assim mesmo. O que fazer com esse conhecimento à disposição de quem queira conhecimento? Os tempos são de se enaltecer a ignorância, a força bruta, a violência das armas.

Os materiais são fascinantes. Não sei se teria agido melhor como representante de classe se tivesse lido tudo isso, mas a leitura agora tem qual sentido para a minha vida neste mês? Neste ano e nos próximos que eu possa me pegar vivendo? É tudo esquisito.



Li algumas matérias de um jornal de setembro do ano passado - A VERDADE -, que me trouxeram conhecimento novo. Gostei da matéria sobre "Milton Santos, cientista negro, latino-americano". Vi pelo texto que não conhecia absolutamente nada do professor Milton Santos. Eu só sabia que ele era um dos maiores geógrafos do país. Não sabia que ele era natural da Bahia, descendente de escravos emancipados. Formado em Direito e Doutor em Geografia pela Universidade de Estrasburgo, França. Na ditadura civil-militar de 1964, foi demitido da Universidade Federal da Bahia, onde lecionava, foi preso por 60 dias e se exilou por muito anos. O texto me deu muito orgulho de saber quem foi Milton Santos.

Também li uma matéria grande sobre "Ludwig Feuerbach, filósofo da libertação". Gostei muito da matéria. O filósofo foi referência para Marx e Engels; foi aluno de Hegel e depois se tornou um crítico dele. Em sua obra "Reflexões sobre a morte e a imortalidade", de 1830, ele se opõe à crença na imortalidade e rompe com o cristianismo. Sua principal obra "A essência do cristianismo" (1841) afirmou que Deus seria a projeção das principais qualidades humanas. Mas "Ao se projetar em Deus, porém, o homem não se reconhece mais nele. Deus é encarado como um ser externo, independente do homem e com vida própria. Embora Feuerbach não utilize este termo, ele opera aqui com o conceito hegeliano de alienação (Entfremdung), que também seria apropriado por Marx no contexto de sua crítica ao capitalismo...". Vejam quanta coisa interessante se conhece ao ler, ao estudar materiais que temos em casa.

Enfim, enquanto estamos vivos, temos que buscar ser melhores que antes. Melhores para nós mesmos, melhores para os outros, melhores para o entorno social ao qual vivemos.

William


Fonte da citação: A VERDADE, edição de 05 de agosto a 05 de setembro de 2019, nº 219, ano 19.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

070520 (d.C.) - Diário e reflexões





Hoje é quinta-feira, do mundo pós-Covid-19. Do mundo pós-bolsonarismo.

Estou desmotivado para estudar. Tá muito sem sentido estudar alguma coisa. A vida está sem graça hoje, mas tá sem perspectiva pra amanhã (aí que está o problema). E se está assim pra mim que sou um agraciado pelo destino por ter casa, comida, uma renda certa e pessoas que consideram a gente, imagina para a ampla maioria que não tem alguma dessas coisas ou não tem nenhuma delas.

Eu não escolheria viver num mundo com bombas caindo sobre nossas cabeças. Não escolheria viver num mundo com epidemias. Não gostaria de viver num mundo com milícias e paramilitares e bandidos e cartéis e máfias decidindo quem vive e quem morre se não se submeter ao chefão local. Não escolheria viver num mundo com misérias aviltantes ao seu redor, com carências de tudo.

São por essas e outras que as pessoas fogem, se exilam, mudam de lugar, migram ou tentam a vida em outro lugar. E os outros lugares podem aceitar ou rejeitar os migrantes. Podem acolhê-los ou barrar todos eles e tratá-los com ódio, desprezo e violência. 

Eu não gostaria de viver em outro país, que não o que nasci. Não gostaria de ver o país em que nasci se tornar um lugar onde a vida corre risco o tempo todo se você não for da banda dos bandidos no poder. Não gostaria de viver num país onde injustiça, desigualdade, coisas impensáveis de acreditar como gente defendendo tortura, extermínio, exploração... onde essas merdas todas fossem normais, coisa normal.

Não sei se gostaria de viver num mundo no qual pra sair de casa temos que nos vestir de tuaregue, se mascarar pra ir a qualquer lugar que seja permitido. Uma coisa é suportar isso algumas semanas, outra é isso virar o normal. Como seria a vida se a gente tiver que transformar a rotina chata e quase insuportável da higienização pela pandemia do Covid-19 em normal do dia a dia?

Nossa! Não tô a fim de nada! E por dentro do corpo, sinto que algo me corrói... seria psicológico, biológico, físico, químico, metafísico, bioquímico, melancolíte, estomatite, nó nas tripas, abdomenite, ite, ite, ice, isse, chatice, putisse...

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sábado, 12 de dezembro de 2015

Lendo: Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado



Quando possível, é beber na fonte para ser menos ignorante.
Há que se conhecer para compreender o porquê das coisas.

CANTO TERCEIRO

5

"Além disso, o que a tudo enfim me obriga
É não poder mentir no que disser,
Porque de feitos tais, por mais que diga,
Mais me há-de ficar inda por dizer.
Mas, porque nisto a ordem leve e siga,
Segundo o que desejas de saber,
Primeiro tratarei da larga terra,
Despois direi da sanguinosa guerra."

(Os Lusíadas, Luís de Camões)



TERCEIRA PARTE DO LIVRO

Economia escravista mineira (século XVIII)

XIII. Povoamento e articulação das regiões meridionais


COMENTÁRIO DO BLOG

Com a concorrência dos produtos tropicais franceses e ingleses, Portugal busca saída na extração de minerais

No final do século XVIII, Portugal se perguntava o que fazer com a colônia sul-americana, Brasil, para que ela se autofinanciasse e valesse a pena, já que a produção em monocultura de cana-de-açúcar já enfrentava forte concorrência das colônias francesas e inglesas nas Américas e Caribe.

Definiu-se que era necessário encontrar metais preciosos em terras brasileiras.

"O estado de prostração e pobreza em que se encontravam a Metrópole e a colônia explica a extraordinária rapidez com que se desenvolveu a economia do ouro nos primeiros decênios do século XVIII. De Piratininga a população emigrou em massa, do Nordeste se deslocaram grandes recursos, principalmente sob a forma de mão-de-obra escrava, e em Portugal se formou pela primeira vez uma grande corrente migratória espontânea com destino ao Brasil. O facies da colônia iria modificar-se fundamentalmente." (pág. 77)


COM A MINERAÇAO, HOUVE GRANDE IMIGRAÇÃO PORTUGUESA

"Com efeito, tudo indica que a população colonial de origem europeia decuplicou no correr do século da mineração". (pág. 78)

Furtado nos informa que afora os grandes senhores de engenhos ou terras, os homens livres* não conseguiam nenhuma expressão social. Era miséria pura.

"Ao estagnar-se a economia açucareira, as possibilidades de um homem livre para elevar-se socialmente se reduziram ainda mais. Em consequência, começou a avolumar-se uma subclasse de homens livres sem possibilidade de ascensão social, a qual em certas épocas chegou a constituir um problema". (pág. 79)

COMENTÁRIO DO BLOG

* Mais tarde, nos séculos XIX e XX, essa multidão de homens livres e sem posses, seriam os macunaímas, os jagunços e os agregados nos entornos das cidades, nos sertões e nas casas grandes.


Com o avanço da mineração, cresce o comércio da carne, favorecendo a pecuária da região Sul do país. Outro fator econômico que aparece fortemente é o mercado para animais de carga, pelo fato da região mineradora ser montanhosa e longe do litoral brasileiro.


ETAPA MINEIRA FAVORECE DE FORMA INDIRETA MAIS AO SUL QUE AO NORDESTE

"Se se considera em conjunto a procura de gado para corte e de muares para transporte, a economia mineira constituiu, no século XVIII, um mercado de proporções superiores ao que havia proporcionado a economia açucareira em sua etapa de máxima prosperidade. Destarte, os benefícios que dela se irradiam para toda a região criatória do sul são substancialmente maiores do que os que recebeu o sertão nordestino. A região rio-grandense, onde a criação de mulas se desenvolveu em grande escala, foi, dessa forma, integrada no conjunto da economia brasileira". (pág. 80/81)


SÃO PAULO CONCENTRAVA E DISTRIBUÍA BURROS E BESTAS

"Cada ano subiam do Rio Grande do Sul dezenas de milhares de mulas, as quais constituíam a principal fonte de renda da região. Esses animais se concentravam na região de São Paulo onde, em grandes feiras, eram distribuídos aos compradores que provinham de diferentes regiões..." (pág. 80)


PROCURA POR GADO INTEGROU REGIÕES

"A economia mineira abriu um novo ciclo de desenvolvimento para todas elas. Por um lado, elevou substancialmente a rentabilidade da atividade pecuária, induzindo a uma utilização mais ampla das terras e do rebanho. Por outro, fez interdependentes as diferentes regiões, especializadas umas na criação, outras na engorda e distribuição e outras constituindo os principais mercados consumidores. É um equívoco supor que foi a criação que uniu essas regiões. Quem as uniu foi a procura de gado que se irradiava do centro dinâmico constituído pela economia mineira". (pág. 81)


COMENTÁRIO FINAL DO BLOG

É sempre bom pegar em leituras um pouco mais engajadas, que nos lembram quem somos, de onde viemos e por que as coisas são como são em nosso querido Brasil: uma terra que, apesar das condições naturais ideais, na conformação social é eivada de injustiça, iniquidades, exploração das massas trabalhadoras, com povos com pouco acesso a escolarização e com ignorâncias incentivadas pela elite dominante.

Há que se posicionar e combater sempre isso. É dever de homens e mulheres de bem e que defendem um mundo melhor, mais justo, equânime e solidário se engajarem nas causas sociais em nosso país.

William

sábado, 18 de julho de 2015

Formação Econômica do Brasil - Economia escravista séc. XVI e XVII





Refeição Cultural
Comecemos a saga da colonização portuguesa em nossas terras com uma estrofe do épico poema português Os Lusíadas, de Luís de Camões.


CANTO SEGUNDO

111

"E não menos co'o tempo se parece
O desejo de ouvir-te o que contares;
Que quem há que por fama não conhece
As obras portuguesas singulares?
Não tanto desviado resplandece
De nós o claro Sol, para julgares
Que os Melindanos têm tão rudo peito,
Que não estimem muito um grande feito."


SEGUNDA PARTE DO LIVRO

Economia escravista de agricultura tropical (séculos XVI e XVII)


XII. Contração econômica e expansão territorial

Alguns excertos e comentários do capítulo que fecha a segunda parte do livro.

Com a queda da comercialização da produção açucareira, pela quebra do monopólio português, amenizada pelo aumento da produção pecuária de subsistência no Nordeste, outros fatos vieram a ampliar os problemas da metrópole portuguesa em relação à sua colônia: as invasões holandesas.

"A administração holandesa se preocupou em reter na colônia parte das rendas fiscais proporcionadas pelo açúcar, o que permitiu um desenvolvimento mais intenso da vida urbana." (pág. 67)


POVOAMENTO PORTUGUÊS NO MARANHÃO

"A ocupação foi seguida de decisões objetivando a criação de colônias permanentes. Ao Maranhão foram enviados de uma feita - no segundo decênio do século XVII - trezentos açorianos. Ao iniciar-se a etapa de dificuldades políticas e econômicas para o governo português, essas colônias da região norte ficaram abandonadas aos seus próprios recursos e as vicissitudes que tiveram de enfrentar demonstram vivamente o quão difícil era a sobrevivência de uma colônia de povoamento nas terras da América". (pág. 68)

A produção de açúcar não deu certo no Maranhão: "Os solos do Maranhão não apresentavam a mesma fecundidade que os massapês nordestinos para a produção de açúcar". (pág. 68)

A situação na segunda metade do século XVII e a primeira do XVIII foi dramática para os colonos daquela região. Até para produção de subsistência, houve grande dificuldade com o abandono da metrópole.

Novamente alega-se ser a escravidão uma questão de sobrevivência (dos portugueses): "A inexistência de qualquer atividade que permitisse produzir algo comercializável obrigava cada família a abastecer-se a si mesma de tudo, o que só era praticável para aquele que conseguia por as mãos num certo número de escravos indígenas. A caça ao índio se tornou, assim, condição de sobrevivência da população". (pág. 69)


JESUÍTAS ATUAM PARA FAZER ÍNDIOS TRABALHAREM

"Na primeira metade do século XVIII a região paraense progressivamente se transforma em centro exportador de produtos florestais: cacau, baunilha, canela, cravo, resinas aromáticas. A colheita desses produtos, entretanto, dependia de uma utilização intensiva da mão-de-obra indígena, a qual, trabalhando dispersa na floresta, dificilmente poderia submeter-se às formas correntes de organização do trabalho escravo". (pág. 69)


ATUAÇÃO DA IGREJA NO PAPEL DA ESCRAVIDÃO DO ÍNDIO FOI IMPLACÁVEL

"Não se dependia de nenhum sistema coercitivo. Uma vez suscitado o interesse do silvícola, a penetração se realizava sutilmente, pois, criada a necessidade de uma nova mercadoria, estava estabelecido um vínculo de dependência do qual já não podiam desligar-se os indígenas". (pág. 69).

COMENTÁRIOS: 

- entra século, sai século, e o papel da religião é sempre o mesmo, apesar de haver exceções em relação à fé pessoal. A promiscuidade das várias igrejas com a política e os Estados sempre foi forte no sentido de "pacificar" a massa explorada pelos donos do poder.

- os jesuítas foram a semente da manipulação no colonialismo que seria o neoliberalismo do século XXI, cuja técnica da criação do desejo, do fetiche imbecilizante e domesticável, segue desde então até os dias atuais.


CRISE DO FIM DO MONOPÓLIO DA CANA DE AÇÚCAR TAMBÉM TRAZ REPERCUSSÕES NA REGIÃO SUL

"O empobrecimento da região açucareira, ao reduzir o mercado de escravos da terra, repercutiu igualmente na região sulina, escassa de toda mercadoria comercial. Os couros, que de há muito se exportavam também pelos portos do sul, aumentaram então sua importância relativa e os negócios de criação passaram a preocupar os governantes portugueses em forma crescente" (pág. 70)

Colônia do Sacramento: "A penetração dos portugueses em pleno estuário do Prata, onde em 1680 fundaram a Colônia do Sacramento, constitui assim outro episódio da expansão territorial do Brasil ligada às vicissitudes da etapa de decadência da economia açucareira. A Colônia do Sacramento, que esteve em mãos portuguesas com interrupções durante quase um século, permitiu a Portugal reforçar enormemente sua posição nos negócios do couro, demais de constituir um entreposto para o contrabando com um dos principais portos de entrada da América espanhola, numa etapa em que a Espanha perdera praticamente a sua frota e persistia em manter o monopólio do comércio com suas colônias" (pág. 70)

O aumento do câmbio arrebentou as regiões de pouca exportação e que careciam muito das importações para sobreviverem.

Celso Furtado termina assim a segunda parte do livro: "o encarecimento das manufaturas importadas chegou a extremos e nas regiões mais pobres, como Piratininga, uma simples roupa de fazenda importada ou uma espingarda podiam valer mais que uma casa residencial"

E por fim:

"Esses fatores contribuíram para a reversão cada vez mais acentuada a formas de economia de subsistência, com atrofiamento da divisão do trabalho, redução da produtividade, fragmentação do sistema em unidades produtivas cada vez menores, desaparição das formas mais complexas de convivência social, substituição da lei geral pela norma local etc". (pág. 71)


COMENTÁRIO FINAL

Quando olhamos a história de nosso país, olhando qualquer de nossas regiões como o Estado do Maranhão, tão pobre e tão sem políticas públicas universalizantes; o Nordeste inteiro que foi quase que grandes capitanias hereditárias até bem entrado o século XX; o Sul com sua cultura típica; o Estado de São Paulo, onde impera uma ideia (ideologia) que afirma haver um "espírito bandeirante"... enfim, vemos como é importante conhecer a história de nosso povo, nossa terra, nossa cultura, para inclusive desfazer mitos e construir estradas para um futuro mais equânime e solidário para todo o povo tão igual e tão diferente, o povo brasileiro.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. In: Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro. Publifolha 2000.

domingo, 12 de julho de 2015

Formação Econômica do Brasil - Economia escravista séc. XVI e XVII





Refeição Cultural



Comecemos citando nosso poeta português, que tanto enalteceu os feitos da gente portuguesa com a conquista do mundo pelos mares nunca dantes navegados. De propósito, cito uma estrofe que considero bonita nas palavras, mas incorreta nos atos portugueses - seria verdade o que os versos nos dizem? Que fizeram em terras africanas, asiáticas e americanas?

CANTO SEGUNDO

80

"Não somos roubadores, que, passando
Pelas fracas cidades descuidadas,
A ferro e a fogo as gentes vão matando,
Por roubar-lhes as fazendas cobiçadas;
Mas, da soberba Europa navegando,
Imos buscando as terras apartadas
Da Índia grande e rica, por mandado
De um rei que temos, alto e sublimado."

(Os Lusíadas, Luís de Camões)


SEGUNDA PARTE DO LIVRO

Economia escravista de agricultura tropical (séculos XVI e XVII)

X. Projeção da economia açucareira: a pecuária

Excertos do capítulo e comentários, quando necessários.

Como a economia na colônia era de elevadíssimo coeficiente de importações, a produção de alimentos inclusive para os escravos, em terras de engenhos, tornava-se antieconômica naquele período.

Como a utilização da colônia era para a produção monocultora de açúcar, para exportação, além de não ser interessante ocupar a terra para plantar alimentos, a metrópole não queria concorrência alguma de produção para atrapalhar o comércio do império.

"Pode-se admitir, como ponto pacífico, que a economia açucareira constituía um mercado de dimensões relativamente grandes, podendo, portanto, atuar como fator altamente dinâmico do desenvolvimento de outras regiões do país (...). Em segundo lugar estava a preocupação política de evitar o surgimento na colônia de qualquer atividade que concorresse com a economia metropolitana".

COMENTÁRIO: isso sempre foi uma tragédia econômica para o nosso país.

DIFERENÇAS NA COLONIZAÇÃO EM SÃO VICENTE E NOVA INGLATERRA

"Em São Vicente, onde a escassez de mão-de-obra resultou ser maior do que na Nova Inglaterra - o excedente de população nas Ilhas Britânicas tornou possível importar mão-de-obra europeia em regime de servidão temporária - a primeira atividade comercial a que se dedicaram os colonos foi a caça do índio. Dessa forma, voltaram-se para o interior e se transformaram em sertanistas profissionais."

PECUÁRIA, EXCEÇÃO À MONOCULTURA DA CANA

"O único artigo de consumo de importância que podia ser suprido internamente era a carne, que figura na dieta mesmo dos escravos, como observa Antonil."

"A criação de gado - na forma em que se desenvolveu na região nordestina e posteriormente no sul do Brasil - era uma atividade econômica de características radicalmente distintas das da unidade açucareira. A ocupação da terra era extensiva e até certo ponto itinerante. O regime de águas e distâncias dos mercados exigiam periódicos deslocamentos da população animal, sendo insignificante a fração das terras ocupadas de forma permanente".

A economia de criação de gados se transformou num fator fundamental de penetração e ocupação do interior brasileiro.

Como a atividade de criação de gado tinha mais atrativos que a açucareira, inclusive por causa da relação de investimentos necessários entre uma e outra, "aquele que não dispunha de recursos para iniciar por conta própria a criação tinha possibilidade de efetuar a acumulação inicial trabalhando numa fazenda de gado".

"Tudo indica que essa atividade era muito atrativa para os colonos sem capital, pois não somente da região açucareira, mas também da distante colônia de São Vicente, muita gente emigrou para dedicar-se a ela", conclui Furtado.

PECUÁRIA TERÁ IMPORTÂNCIA NA REGIÃO NORDESTINA MESMO EM DECADÊNCIA

Celso Furtado finaliza o capítulo, após explicar a dispersão da pecuária para diversas regiões, nos informando que "essa importância relativa do setor de subsistência na pecuária será um fator fundamental das transformações estruturais por que passará a economia nordestina em sua longa etapa de decadência".

COMENTÁRIO: até o século XVII a expansão da cana de açúcar no Nordeste fez a pecuária se estender sertão adentro. No século XVIII, com a mineração na região Sudeste, a expansão da pecuária se dá mais no Sul do país.

XI. Formação do complexo econômico nordestino

Os dois sistemas da economia nordestina - o açucareiro e a pecuária -, vão entrar em decadência a partir da segunda metade do século XVII.

O modelo de crescimento era sem tecnologia: "o crescimento era de caráter puramente extensivo, mediante a incorporação de terra e mão-de-obra, não implicando modificações estruturais que repercutissem nos custos de produção e portanto na produtividade".

No século XVIII a situação econômica dos produtores piora "em razão do aumento nos preços dos escravos e da emigração da mão-de-obra especializada, determinados pela expansão da produção de ouro".

NORDESTE TEM QUEDA DE RENDA PER CAPITA SECULAR

Autor nos diz que desde o século XVII até começos do século XIX (e podemos dizer até o final dos anos noventa do século XX) "a economia nordestina sofreu um lento processo de atrofiamento, no sentido de que a renda real per capita de sua população declinou secularmente".

Com estagnação da produção açucareira no Nordeste: "Não havendo ocupação adequada na região açucareira para todo o incremento de sua população livre, parte desta era atraída pela fronteira móvel do interior criatório. Dessa forma, quanto menos favoráveis fossem as condições da economia açucareira, maior seria a tendência imigratória para o interior. As possibilidades da pecuária para receber novos contingentes de população - quando existe abundância de terras - são sabidamente grandes, pois a oferta de alimentos é, nesse tipo de economia, muito elástica a curto prazo".

Com as mudanças ocorridas com a redução da produção açucareira e com a produção pecuária sendo basicamente para subsistência, "No Nordeste brasileiro, como as condições de alimentação eram melhores na economia de mais baixa produtividade, isto é, na região pecuária (...) explica-se assim que a população do Nordeste haja continuado a crescer - e possivelmente haja intensificado o seu crescimento - em todo o século e meio de estagnação da produção açucareira a que fizemos referência".

ENFIM: menor produção de açúcar, maior produção criadora e de subsistência, aumento da população nordestina no período.

COMENTÁRIO FINAL

Lá no futuro, no século XXI, um determinado povo da região Sudeste, vai alimentar forte discriminação contra o povo nordestino. É de uma estupidez incrível, porque o povo nordestino mostrou ao longo de séculos que é um povo bravo, resistente e sobrevivente, mesmo em situações de crises econômicas causadas pelas diversas formas de capitalismo predatório das classes dominantes.

Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. In: Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro. Publifolha 2000.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Leitura: Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado



Estudar nas horas vagas, um ato de prazer! (2015)

Iniciamos a leitura da segunda parte do livro de Furtado com Os Lusíadas, de Camões, porque estamos assistindo em panorama à Formação Econômica do Brasil, que tem relação umbilical com a nação portuguesa e os feitos iniciados com as grandes navegações.


CANTO SEGUNDO

32

"E, se se move tanto a piedade
Desta mísera gente peregrina,
Que, só por tua altíssima bondade,
Da gente a salvas pérfida e malina,
Nalgum porto seguro de verdade
Conduzir-nos já agora determina,
Ou nos amostra a terra que buscamos,
Pois só por teu serviço navegamos."

(Os Lusíadas, Luís de Camões)


Reli toda a segunda parte e a sensação foi a mesma da primeira leitura em 2009. Celso Furtado descreve como num filme, dois séculos brasileiros. Vemos a monocultura do açúcar nas regiões litorâneas, principalmente do Nordeste, vemos o início e avanço da pecuária para dentro do continente. Vamos comparando e observando as diferentes formas e consequências da colonização nas Américas por parte de portugueses, espanhóis, ingleses, franceses, holandeses.

Um aviso que acho importante. Furtado é um intelectual progressista e sua vida foi voltada para a busca de soluções econômicas e políticas para amenizar as agruras e misérias de seu povo brasileiro e sul-americano. Ao lermos os capítulos descrevendo a escravidão de índios e africanos, ficamos chocados com a descrição fria de números e modus operandi do processo econômico na colônia portuguesa. Mas não recrimino Furtado porque seu papel aqui é descrever os fatos históricos e econômicos.

Após a leitura, fiquei um instante na janela da sala, olhando para as árvores lá fora, e refleti que a formação ética, social e política dos cidadãos necessita de matérias voltadas para isso. Se lermos somente amontoados de leituras, com descrição da história mundial, dos povos, guerras, conquistas, massacres etc e não formos colocados a pensar a respeito das opções tomadas nesses episódios, algo estará faltando na formação política e ética das pessoas.


SEGUNDA PARTE

Economia escravista de agricultura tropical (séculos XVI e XVII)


VIII. Capitalização e nível de renda na colônia açucareira


Excertos e, quando necessário, alguns comentários.

"O rápido desenvolvimento da indústria açucareira, malgrado as enormes dificuldades decorrentes do meio físico, da hostilidade do silvícola e do custo dos transportes, indica claramente que o esforço do governo português se concentrara nesse setor".


ESCRAVIDÃO "JUSTIFICADA"

"A escravidão demonstrou ser, desde o primeiro momento, uma condição de sobrevivência para o colono europeu na nova terra. Como observa um cronista da época, sem escravos os colonos 'não se podem sustentar na terra' (Gandavo)."


ESCRAVIDÃO INDÍGENA

"O fato de que desde o começo da colonização algumas comunidades se hajam especializado na captura de escravos indígenas põe em evidência a importância da mão-de-obra nativa na etapa inicial de instalação da colônia".


RENDA DO SISTEMA FICAVA COM PROPRIETÁRIOS E COMERCIANTES

"Tudo indica, destarte, que pelo menos 90 por cento da renda gerada pela economia açucareira dentro do país se concentrava nas mãos da classe de proprietários de engenhos e de plantações de cana."

Porém, após Furtado compreender a importância central das etapas comerciais para colocar o produto açúcar nos mercados mundiais, evitando superproduções e esgotamento das demandas, ele revê sua tese dos 90 por cento da renda para os proprietários e afirma que parte da renda deva ter ficado com os comerciantes não residentes na colônia.

"Sendo assim, que não se haja repetido a dolorosa experiência de superprodução que tiveram as ilhas do Atlântico, confirma que houve excepcional habilidade na etapa de comercialização, e que era desta última que se tomavam as decisões fundamentais com respeito a todo o negócio açucareiro."

E conclui sobre a repartição das rendas entre proprietários e comerciantes:

"A explicação mais plausível para esse fato talvez seja que parte substancial dos capitais aplicados na produção açucareira pertencesse aos comerciantes. Sendo assim, uma parte da renda, que antes atribuímos à classe de proprietários de engenhos e de canaviais, seria o que modernamente se chama renda de não-residentes, e permanecia fora da colônia."


IX. Fluxo de renda e crescimento

Neste novo capítulo, o autor nos informa que desde o início da colonização de exploração em nosso país, "o empresário açucareiro teve, no Brasil, desde o começo, que operar em escala relativamente grande" e que "nas primeiras fases da operação, muito provavelmente coube ao trabalho indígena um papel igualmente importante".


FLUXO DE RENDA MONETÁRIA (uma aula de economia)

"Numa economia industrial a inversão faz crescer diretamente a renda da coletividade em quantidade idêntica a ela mesma. Isto porque a inversão se transforma automaticamente em pagamento a fatores de produção. Assim, a inversão em uma construção está basicamente constituída pelo pagamento do material nela utilizado e da força de trabalho absorvido. A compra do material de construção, por seu lado, não é outra coisa senão a remuneração da mão-de-obra e do capital utilizados em sua fabricação e transporte. Estes pagamentos a fatores, que são uma criação de renda monetária ou de poder de compra, somados, reconstituem o valor inicial da inversão".

E nos explica que "A inversão feita numa economia exportadora-escravista é fenômeno inteiramente diverso..."


ENTENDO PORQUE PARTE DA BURGUESIA TUPINIQUIM É TÃO RIDÍCULA

A elite brasileira, que considero uma das mais vira-latas do planeta, tem uma razão de ser. É a origem também vira-latas que ela tem.

"Vejamos agora, em seu conjunto, o funcionamento dessa economia. Como os fatores de produção em sua quase totalidade pertenciam ao empresário, a renda monetária gerada no processo produtivo revertia em sua quase totalidade às mãos desse empresário. Essa renda - a totalidade dos pagamentos a fatores de produção mais os gastos de reposição do equipamento e dos escravos importados - expressava-se no valor das exportações. É fácil compreender que, se a quase totalidade da renda monetária estava dada pelo valor das exportações, a quase totalidade do dispêndio monetário teria de expressar-se no valor das importações".

E explica uma possível vinculação até hoje dessa mania de relação com as metrópoles que a parte vira-latas da burguesia brasileira tem.

"O fluxo de renda se estabelecia, portanto, entre a unidade produtiva, considerada em conjunto, e o exterior. Pertencendo todos os fatores a um mesmo empresário, é evidente que o fluxo de renda se resumia na economia açucareira a simples operações contábeis, reais ou virtuais."


COMENTÁRIO:

A despeito das tentativas de industrialização, produção de valor agregado aos produtos brasileiros, as poucas tentativas de sair do estágio de exportador de commodities, tentativas estas realizadas em sua amplíssima maioria com Getúlio Vargas e Lula da Silva, criando um processo de distribuição de renda a partir do trabalho assalariado e o fortalecimento de um mercado interno no país, quase sempre, o que predomina no Brasil, é a visão tacanha de importar tudo de fora dos Estados Unidos e Europa, e mais recentemente da China, ao invés de valorizar o produto nacional.
NÃO HOUVE FEUDALISMO BRASILEIRO

Já li em diversos estudos, leituras diferentes entre estudiosos e historiadores, sobre ter havido ou não no Brasil algo como o feudalismo. Celso Furtado dá a opinião dele.

"O feudalismo é um fenômeno de regressão que traduz o atrofiamento de uma estrutura econômica (...). Ao inverso da unidade feudal, ela (a unidade escravista) vive totalmente voltada para o mercado externo. A suposta similitude deriva da existência de pagamentos in natura em uma e outra. Mas ainda aqui existe um total equívoco, pois na unidade escravista os pagamentos a fatores são todos de natureza monetária, devendo-se ter em conta que o pagamento ao escravo é aquele que se faz no ato de compra deste. O pagamento corrente ao escravo seria o simples gasto de manutenção, que, como o dispêndio com a manutenção de uma máquina, pode ficar implícito na contabilidade, sem que por isso perca sua natureza monetária".


ECONOMIA ESCRAVISTA AÇUCAREIRA RESISTIU ECONOMICAMENTE POR SÉCULOS

"A renda monetária da unidade exportadora, praticamente constituíam os lucros do empresário, sendo sempre vantajoso para este continuar operando qualquer que fosse a redução ocasional dos preços (...). A unidade exportadora estava assim capacitada para preservar a sua estrutura. A economia açucareira do Nordeste brasileiro, com efeito, resistiu mais de três séculos às mais prolongadas depressões, logrando recuperar-se sempre que o permitiam as condições do mercado externo, sem sofrer nenhuma modificação estrutural significativa".


COMENTÁRIO:

Com custo fixo baixo é que o sistema escravista se perpetuou por tantos séculos. Hoje, com processos de terceirização e uso de mão-de-obra quase escrava, empresas globais fazem exatamente o mesmo. tem empresa que produz tênis de marca por 1 (um) dólar e vende por centenas de vezes o valor de custo.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. In: Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro. Publifolha 2000.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Formação Econômica do Brasil, Celso Furtado





CANTO PRIMEIRO

106

"No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?"

(Os Lusíadas, Luís de Camões)


PRIMEIRA PARTE

Fundamentos econômicos da ocupação territorial

VII. Encerramento da etapa colonial

Alguns excertos do capítulo:

"A neutralidade em face das grandes potências era impraticável. Portugal compreendeu, assim, que para sobreviver como metrópole colonial deveria ligar o seu destino a uma grande potência, o que significaria necessariamente alienar parte de sua soberania. Os acordos concluídos com a Inglaterra em 1642-54-61 estruturaram essa aliança que marcará profundamente a vida política e econômica de Portugal e do Brasil durante os dois séculos seguintes".

A consequência desses acordos foi que "Portugal became virtually England's commercial vassal" (Alan K. Manchester)

Nessas trocas de favores "Com respeito às Índias Orientais, por exemplo, Portugal cedeu Bombaim permanentemente e a Inglaterra prometeu utilizar sua esquadra para manter a ordem nas possessões lusitanas".


PORTUGAL ABRE MÃO DE DESENVOLVIMENTO MANUFATUREIRO

"(...) o acordo comercial, celebrado com a Inglaterra em 1703, desempenhou papel básico no curso tomado pelos acontecimentos. Esse acordo significou para Portugal renunciar a todo desenvolvimento manufatureiro e implicou transferir para a Inglaterra o impulso dinâmico criado pela produção aurífera no Brasil".


CONFERÊNCIA DE UTRECHT

Com o acordo celebrado com a Inglaterra, o Brasil conseguiu boas posições em relação a formação de seu território.

"Aí conseguiu o governo lusitano que a França renunciasse a quaisquer reclamações sobre a foz do Amazonas e a quaisquer direitos de navegação nesse rio. Igualmente nessa conferência Portugal conseguiu da Espanha o reconhecimento de seus direitos sobre a colônia do Sacramento. Ambos os acordos receberam a garantia direta da Inglaterra e vieram a constituir fundamentos da estabilidade territorial da América Portuguesa"


RELAÇÃO COM A ECONOMIA INGLESA

"O ciclo do ouro constitui um sistema mais ou menos integrado, dentro do qual coube a Portugal a posição secundária de simples entreposto. Ao Brasil o ouro permitiu financiar uma grande expansão demográfica, que trouxe alterações fundamentais à estrutura de sua população, na qual os escravos passaram a constituir minoria e o elemento de origem europeia, maioria".


TUTELAGEM INGLESA SEGUE APÓS INDEPENDÊNCIA DE 1822

"Com efeito, se bem haja conseguido separar-se de Portugal em 1822, o Brasil necessitou vários decênios mais para eliminar a tutelagem que, graças a sólidos acordos internacionais, mantinha sobre ele a Inglaterra"

"(...) Pelo tratado de 1827, o governo brasileiro (o tratado foi firmado pelo Imperador, independentemente de quaisquer consultas às Câmaras) reconheceu à Inglaterra a situação de potência privilegiada, auto limitando sua própria soberania no campo econômico (O novo acordo não reconheceu, entretanto, tarifa preferencial à Inglaterra. Em razão de cláusula de nação favorecida, o Brasil concederia a vários outros países, posteriormente, a mesma tarifa de 15% ad valorem)"


COM O CAFÉ, RELAÇÃO COMERCIAL SE VOLTA PARA EUA

"Na medida em que o café aumenta sua importância dentro da economia brasileira, ampliam-se as relações econômicas com os EUA. Já na primeira metade do século esse país passa a ser o principal mercado importador do Brasil".


DE 1500 A 1850, POUCA ALTERAÇÃO HOUVE NA ESTRUTURA ECONÔMICA

Podemos concluir que pouca alteração houve nos 3 séculos e meio de Brasil colônia e imperial.

"O passivo político da colônia portuguesa estava liquidado. Contudo, do ponto de vista de sua estrutura econômica, o Brasil da metade do século XIX não diferia muito do que fora nos três séculos anteriores. A estrutura econômica, baseada principalmente no trabalho escravo, se mantivera imutável nas etapas de expansão e decadência. A ausência de tensões internas, resultante dessa imutabilidade, é responsável pelo atraso relativo da industrialização".


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. In: Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro. Publifolha 2000.