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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

51. Manifesto do Partido Comunista - Marx e Engels



Refeição Cultural - Cem clássicos

Osasco, 27 de fevereiro de 2023. Segunda-feira.


Reli o Manifesto do Partido Comunista (1848), de Karl Marx e Friedrich Engels, nesta semana que passou, quando o Manifesto completou 175 anos de existência. 

Que documento atual! Ao longo da leitura, cada parágrafo, cada afirmativa, cada diagnóstico da condição da classe trabalhadora é como se o Manifesto tivesse sido feito a partir da condição atual de nossa classe.

O Manifesto é dividido em 4 partes: I. Burgueses e proletários, II. Proletários e comunistas, III. Literatura socialista e comunista, IV. Posição dos comunistas diante dos diversos partidos de oposição.

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O FANTASMA DO COMUNISMO

"Um espectro ronda a Europa: o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa se uniram em uma santa campanha difamatória contra ele: o papa e o tsar, Metternich e Guizot, radicais franceses e policiais alemães."

Que começo empolgante, não é?! Se os autores à época viam realmente o que afirmam sobre uma união geral das classes dominantes para combater os comunistas, hoje vemos uma extrema-direita organizada internacionalmente para combater qualquer avanço social em benefício das classes proletárias e subalternas.

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UMA VERDADE INQUESTIONÁVEL

"A história de todas as sociedades até agora tem sido a história das lutas de classe."

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O ESTADO BURGUÊS

"O poder do Estado moderno não passa de um comitê que administra os negócios da classe burguesa como um todo."

Nós já conhecíamos como operavam os caras da casa-grande nos governos brasileiros antes do golpe de 2016, mas com Temer e Bolsonaro isso foi elevado à enésima potência...

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BURGUESIA REVOLUCIONÁRIA

"A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção, e por conseguinte todas as relações sociais."

Essa afirmação segue muito assertiva. Basta vermos a capacidade da burguesia de alterar em seu favor as relações de trabalho. A uberização e o fim dos direitos sociais no mundo hegemonizado pelo capitalismo é notória.

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NOVOS MERCADOS SEMPRE

"A necessidade de mercados sempre crescente para seus produtos impele a burguesia a conquistar todo o globo terrestre. Ela precisa estabelecer-se, explorar e criar vínculos em todos os lugares."

A atual situação da disputa de hegemonia global por mercados segue idêntica à de séculos atrás. Os Estados Unidos, através da Otan, estão por trás da guerra por procuração entre Ucrânia e Rússia, e a Europa inteira deixou de consumir produtos russos para consumir produtos norte-americanos. EUA x Rússia x China, nova Rota da Seda etc.

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OS EMBARGOS ECONÔMICOS ATUAIS

"Sob a ameaça da ruína, ela obriga todas as nações a adotarem o modo burguês de produção; força-as a introduzir a assim chamada civilização, quer dizer, se tornarem burguesas. Em suma, ela cria um mundo à sua imagem e semelhança."

Os embargos econômicos nada mais são do que uma forma de causar a ruína de países não alinhados e adestrados à burguesia imperialista. É como funciona o capitalismo nesses quase dois séculos de Manifesto e segue assim.

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BURGUESIA AGLOMERA POPULAÇÕES E CENTRALIZA O PODER

"Ela aglomerou as populações, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos. Resultou daí a centralização do poder político."

Vejam essa verdade 175 anos depois da enunciação... os despossuídos se aglomeram nas periferias e encostas das cidades em condições desumanas e 1% de seres humanos capitalistas detêm 70% da riqueza produzida pela humanidade. 

Com o aquecimento global, efeito do modo de produção capitalista, as tragédias aparecem na forma de desmoronamentos dos morros nas fortes tempestades...

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A MENTIRA DA LIVRE CONCORRÊNCIA

"No seu lugar apareceu a livre concorrência, com sua organização social e política correspondente, sob a dominação econômica e política da classe burguesa."

Os capitalistas inviabilizam qualquer forma de concorrência para depois sob a forma de grandes monopólios construírem narrativas de empreendedorismo e livre concorrência... são uns fdp. Quando quebram, roubam os recursos do Estado e do povo explorado.

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NAS CRISES CAPITALISTAS, SÓ O POVO SE FERRA

"Há décadas a história da indústria e do comércio se restringe à revolta das modernas forças de produção, contra as relações de propriedade que constituem as condições vitais da burguesia e de seu domínio. Basta mencionar as crises comerciais que, repetidas periodicamente e cada vez maiores, ameaçam a sociedade burguesa. Nessas crises, grande parte não só da produção, mas também das forças produtivas criadas, é regularmente destruída. Nas crises irrompe uma epidemia social que em épocas anteriores seria considerada um contrassenso - a epidemia da superprodução. A sociedade se vê de repente em uma situação de barbárie momentânea: a fome e uma guerra geral de extermínio parecem cortar todos os suprimentos de meios de subsistência, a indústria e o comércio parecem aniquilados, e por quê? Porque a sociedade possui civilização demais, meios de subsistência demais, indústria e comércio demais..."

E como resolver uma crise capitalista?

"Como a burguesia consegue superar as crises? Por um lado, pela destruição forçada de grande quantidade de forças produtivas; por outro, por meio da conquista de novos mercados e da exploração mais intensa de mercados antigos."

Amig@s leitores, é atual demais esse Manifesto de Marx e Engels...

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TRABALHADORAS E TRABALHADORES SÃO MERAS MERCADORIAS

"Esses trabalhadores, que são forçados a se vender diariamente, constituem uma mercadoria como outra qualquer, por isso exposta a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as turbulências do mercado."

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O CUSTO DA MÃO DE OBRA É O DA SUBSISTÊNCIA DESSA MÃO DE OBRA... QUANDO A TECNOLOGIA FAZ A MÃO DE OBRA CUSTAR MAIS QUE SUA SUBSISTÊNCIA... (DÁ MERDA)

"Os custos do trabalhador se resumem aos meios de subsistência de que necessita para se manter e se reproduzir. O preço de uma mercadoria, portanto também do trabalho, é igual aos seus custos de produção."

Só que temos um problema atual: essa mercadoria está com superprodução. O que o capitalismo faz nessas horas? Citei ali em cima: "destruição forçada de grande quantidade de forças produtivas"... 

Ou seja, para os capitalistas, é preciso destruir uma quantidade de seres humanos, essa mercadoria em excesso...

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A EXPLORAÇÃO DE MULHERES E CRIANÇAS É DA ESSÊNCIA DO CAPITALISMO

"Quanto menos destreza e força exige o trabalho manual, isto é, quanto mais a indústria moderna se desenvolve, tanto mais o trabalho dos homens é substituído pelo das mulheres e crianças. Diferenças de sexo ou de idade não têm mais qualquer relevância social para a classe trabalhadora. Só há instrumentos de trabalho, cujo preço varia conforme a idade e o sexo."

Pagar menos para certos segmentos sociais é uma escolha, uma decisão, uma arbitrariedade do capital na atualidade, por isso paga-se menos para mulheres, pessoas de pele preta, crianças, grupos que sofrem algum tipo de preconceito.

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A ATUALIDADE DO MANIFESTO COMUNISTA

Tenho diversas partes destacadas ainda e a postagem já está enorme. Vamos ver se registro uma segunda parte.

Será que os sindicatos, partidos de esquerda e movimentos sociais do nosso lado da classe fizeram esse trabalho de reler o Manifesto nesta data de comemoração de seu lançamento?

Será? Quem leu ou releu o Manifesto nesses seus 175 anos? Algum companheiro ou companheira do Partido dos Trabalhadores ou do movimento sindical leu?

Para mim, esse sim é um clássico dos clássicos!

William


Bibliografia:

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich Engels. Manifesto do Partido Comunista. 1ª edição. Editora Expressão Popular: São Paulo, 2008.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Diário e reflexões (22/02/23)



Refeição Cultural

Osasco, 22 de fevereiro de 2023. Noite de Quarta-feira de Cinzas.


Estava relendo o Manifesto do Partido Comunista, escrito por Karl Marx e Friedrich Engels, publicado há 175 anos, em 1848. É impressionante a atualidade do manifesto! É impressionante! Os diagnósticos das questões sociais presentes naquele momento do mundo capitalista e da luta de classes se encaixam tão perfeitamente no mundo capitalista e na luta de classes do dia 22 de fevereiro de 2023 que fico até com vergonha de não termos mudado a realidade da classe trabalhadora mundial... Como pode ainda estarmos no mesmo cenário 175 anos depois de nos ter sido apresentadas as causas de nossas misérias e infelicidades enquanto classe? Que vergonha!

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No Brasil, o presidente Lula segue trabalhando intensamente para unir e reconstruir o país depois da catástrofe do período Temer e Bolsonaro, após o golpe de Estado em 2016. O governo Lula constituiu um bom grupo de ministros e ministras para a tarefa de dialogar com a diversidade social característica do país mais desigual do mundo, um país cujo povo é carente de tudo, inclusive de formação política, um povo manipulado por séculos, e Lula sabe que é necessário governar para toda essa diversidade. O governo está muito focado em refazer e criar direitos sociais, preservar os biomas naturais, trazer a paz social e oportunidades para todas as pessoas e recolocar o Brasil no mundo, inclusive defendendo o combate à fome e ao aquecimento global e propondo a paz mundial e não a guerra. Lula está hoje mais à esquerda que os movimentos sociais que o apoiam, isso está claro! Que orgulho eu sinto do presidente Lula e de várias lideranças desse governo!

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Eu sigo estudando todos os dias alguma coisa sobre Cuba e o povo cubano, esse foi um dos objetivos que propus a mim mesmo para os primeiros meses do ano. Já sei um pouco mais sobre esse país e povo maravilhosos em relação ao que sabia antes. Peguei alguns livros para ler de autores cubanos ou sobre a história de Cuba. Já li algumas centenas de páginas. No entanto, quanto mais leio, mais fica claro o quanto não sei nada de quase nada. Sei que estudar é assim mesmo, a gente estuda para saber que não sabe nada e com isso se conscientiza de que é necessário combater a ignorância estudando mais ainda. No livro sobre a amizade de Fidel Castro e Che Guevara é notável ver o quanto os dois eram apaixonados pela leitura e pelos estudos, pelo saber. Que orgulho desses dois líderes mundiais de nossa classe trabalhadora! Aliás, ainda em relação a estudar e aprender algo novo diariamente, às vezes supero até o banzo que sinto em alguns momentos e pego algo pra ler e aprender para não passar o dia sem alimentar meu cérebro, meu eu. O que cheguei a ser até agora é o resultado de um amontoado de acasos e sortes somado a um esforço honesto de tentar ser uma pessoa melhor, e o esforço em estudar faz parte dessa construção do ser humano que consegui ser.

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Feito o registro deste diário virtual e público... meu blog de cultura vai mudando ao longo do tempo... é assim mesmo.

William


sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (III) - Daniel Defoe



Refeição Cultural

"DIÁRIO: 30 de setembro do ano de 1659...", assim começa o diário do náufrago Robinson Crusoé. 

O capítulo V é o primeiro organizado na forma de um diário, enquanto técnica narrativa do personagem. Nos capítulos anteriores, nós leitores externos à obra conhecemos aquelas questões básicas de uma narrativa: quem, onde, quando, porque, o quê, como etc.

No capítulo V, Crusoé organiza seu diário e acrescenta novidades ao que já sabíamos. Nomeia a ilha onde está - Ilha do Desespero - e tem avanços e regressos em sua condição de náufrago perdido numa ilha. 

Uma série de terremotos colocou sua vida em risco e serviu de alerta para o fato de que poderia morrer soterrado em sua "fortaleza", construída durante meses. A novidade foi descobrir que uns restos de trigo e outros cereais que deixou cair no solo germinaram e isso poderia alterar sua condição de sobrevivência na ilha.

FILOSOFADAS

Anotei duas reflexões do personagem que nos fazem pensar na vida e na natureza.

"o tempo, a necessidade, e a prática habilitaram-me muito bem na mecânica; e eu acredito que qualquer homem nas minhas circunstâncias se aperfeiçoaria como eu, sob a direção daqueles três grandes mestres" (p. 77)

De fato, o tempo, a necessidade e a prática são grandes mestres dos seres humanos que souberem se aproveitar dos ensinamentos que eles nos dão.

"Outra coisa que me faltava com grande incômodo meu eram velas para me alumiar, o que me forçava a me recolher à cama logo que era noite fechada, comumente às sete horas." (p. 82)

Sem tecnologia o homem não domina a natureza, ele tem que se submeter a ela. Isso é fato, para o bem e para o mal, inclusive em relação ao uso que fazemos da tecnologia que inventamos.

RELIGIÕES E MITOS

"Na disposição em que estava de crer que era a Providência quem me mandava esses brindes..." (p. 83)

Somos uns bichos diferentes dos demais bichos que vivem no planeta. Crusoé diz que não ligava muito para religião e todos os dogmas inventados com ela. 

"Até então não pautara o meu viver pela religião, nem, para falar com franqueza, tinha cabida no meu espírito." (p. 82)

A condição de desespero e encantamento com casualidades e fatos ocorridos naquela situação na qual se encontrava fez com que ele desenvolvesse uma certeza de que a Providência teria agido em favor ou desfavor dele. Tá aí o mito, o deus e a certeza de que eles existem e justificam tudo.

"A produção daquelas poucas espigas deu novo curso e fervor às minhas ideias. Trigo sem sementes sãs e numa região que pelo clima não lhe era propícia! Só por milagre de Deus, o qual na sua bondade operou tal prodígio para dar-me subsistência e alimentação nesse horroroso deserto." (p. 83)

Não é!? Vai questionar esses milagres com ele ou com um pentecostal desses manipuladores da fé das pessoas...

FREUD EXPLICA - Me lembrei de um dos textos de Freud que lemos durante uma disciplina do curso de Letras. Freud explica num texto de 1919 "Das unheimlich" (o estranho, o inquietante) de onde vem essa questão das crenças que criamos a partir de acontecimentos "estranhos", coincidências e outras casualidades que nos levam à necessidade de buscar uma explicação para além da compreensão que temos dos fenômenos até aquele momento. 

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DIÁRIO: 26 de novembro de 2021. (Brasil de Temer, Bolsonaro, Mourão, Moro, Dória, Ciro, Mandetta, Merval et caterva)

Além de Freud, outra linha de pensamentos que nos ajuda a compreender por que e como as coisas acontecem nas sociedades humanas é o materialismo científico ou histórico, ciência filosófica que tem em Karl Marx e Friedrich Angels dois pilares importantes.

Estamos sob uma crise sanitária mundial, uma pandemia causada por um tipo de vírus, o coronavírus Sars-Cov-2 (Covid-19), que acentuou de forma exponencial os efeitos da atual crise do sistema capitalista. 

O 1% ficou mais rico e dono de tudo e os 99% ficaram mais miseráveis e sem nada. A escravidão legal voltou com outros nomes - uberização, terceirização, empreendedorismo, pejotização etc. A destruição do planeta e das formas de vidas se acelera, mas os caras do 1% não estão nem aí. Acham que a vida acaba depois da vez deles viverem, então pensam: fodam-se os outros.

Medidas de contenção ao avanço do vírus foram definidas. Certas sociedades e políticas de Estado seguiram as medidas, outras não. Milhões de pessoas morreram (mais onde não se seguiram as medidas). Vacinas foram criadas. A pandemia não acabou. Novas ondas estão pipocando por aí. Novas cepas e variantes vêm aí. A "B.1.1.529" (Ômicron) pode escapar aos efeitos das vacinas... A Delta, mais contagiosa, chegou chegando e dominou o mundo. Agora é a vez da B.1.1.529...

No Brasil de Bolsonaro e do bolsonarismo disfarçado de mercado, morismo, tucanalha, conservadorismo, liberalismo, neopentecostalismo et caterva já está dado que não haverá medidas de contenção da pandemia. O vírus é estratégico para o regime no poder, como já falei aqui zilhões de vezes. Autoridades do regime no poder defendem que não haja nenhum controle na chegada do vírus com cepas novas. Vamos conviver com ele. (provavelmente "vamos conmorrer com ele")

Estamos fodidos. Sobrevivemos até aqui, mas as expectativas de vida de nós todos brasileiros e brasileiras é bem menor que antes do golpe de 2016. É isso. Estamos vivos hoje. Na minha opinião, isso tudo não tem nada que ver com deuses, demônios, Providência, Fortuna, Fatalidade e outras deusas e deuses.

Quando comecei a leitura do Decamerão (1353) - de Boccaccio, no início da pandemia de Covid-19, lá em março de 2020, torcia diariamente para sobreviver até o fim da leitura das 100 narrativas do século XIV. Agora torço para sobreviver para ler a longa narrativa de Robinson Crusoé (1719), feita por Defoe lá no início do século XVIII. A leitura, se lida até o fim, vai durar a próxima onda de Covid-19, se houver.

As condições de vida são aquelas reais que conhecemos, mas vamos brincar de torcer para que a Providência esteja do nosso lado nesta empreitada de leitura.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

O Capital, de Marx, apresentado por Engels




Refeição Cultural

"'O que fazer com os desempregados?' Enquanto se avoluma, a cada ano, o número deles, não há ninguém para responder a essa pergunta; e quase podemos prever o momento em que os desempregados perderão a paciência e encarregar-se-ão de decidir seu destino, com suas próprias forças'." (Engels, no prefácio à edição inglesa de O Capital, 1886)


Os prefácios e posfácios das edições de O Capital (publicado em 1867), nas palavras de Karl Marx enquanto estava vivo, e depois de sua morte nas apresentações de Friedrich Engels, nos dizem muita coisa a respeito do próprio filósofo e autor e da obra que o leitor vai ler e estudar.

Marx justifica na 1ª edição de O Capital um grande intervalo entre a obra anterior e esta, que diz ser continuação daquela, por ter sido acometido por enfermidade por um longo período.

"Entrego hoje ao público o primeiro volume da obra que continua meu livro 'Contribuição à crítica da economia política', editado em 1859. Houve este grande intervalo entre as duas publicações em virtude de enfermidade que me acometeu durante muitos anos, interrompendo frequentemente meu trabalho." (Prefácio à 1ª edição em 1867)

Temos aqui um estudioso obstinado da história das sociedades e dos sistemas econômicos e de produção humana, mas um ser de carne e osso. Como um leitor que vai encarar a leitura desta obra que influenciou a história humana, eu não encaro Marx como um deus, um mito, alguém acima de qualquer suspeita. Pretendo fazer uma leitura como leitor crítico.

Depois da publicação em alemão - uma edição em 1867 e outra em 1873 -, Marx edita a obra em francês, e diz no prefácio de 1872 que a fará em fascículos, respondendo a um cidadão: "Concordo com sua ideia de publicar a tradução de O Capital por fascículos. Desta forma, a obra será mais acessível à classe trabalhadora, e para mim importa mais este motivo que qualquer outro". 

E no posfácio da edição francesa diz que fez acréscimos importantes na revisão da tradução. Vale dizer que Marx e Engels têm muita preocupação com a manutenção dos conceitos desenvolvidos nos estudos da economia política por causa das dificuldades de tradução dos conceitos em alemão para outras línguas: "Deste modo, esta edição francesa, quaisquer que sejam seus defeitos literários, possui valor científico próprio, independente do original, e interessa mesmo aos leitores que dominam a língua alemã." (Posfácio da edição francesa, 28 de abril de 1875)

Na 3ª edição alemã, em 1883, uma década depois da 2ª edição, Engels anuncia a morte de Marx e fala a respeito da obra: "Marx não logrou a satisfação de preparar, para ser impressa, esta terceira edição. O estupendo pensador, diante de cuja grandeza até os adversários agora se inclinam, morreu no dia 14 de março de 1883".

PREFÁCIO DA EDIÇÃO INGLESA

Engels inicia o prefácio justificando a demora em sair uma versão da obra O Capital em inglês, lembrando que a primeira edição em alemão é de 1867 e a edição inglesa só aparece em novembro de 1886, quase vinte anos depois. As questões de tradução imperam, novamente. Foram necessários mais de um tradutor para o inglês e coube a Engels a responsabilidade de alinhavar tudo.

Conceitos novos na ciência econômica: "Persiste uma dificuldade, e dela não podemos livrar o leitor: o emprego de certas expressões em sentido diferente do usual na vida quotidiana e do consagrado no domínio da economia política. Isto era inevitável. Cada concepção nova de uma ciência acarreta uma revolução nos termos especializados dessa ciência".

A questão da mais-valia não existia dentro da lógica da economia política:

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"Assim, a economia política clássica - embora tivesse consciência plena de o lucro e a renda serem apenas subdivisões, frações da parte não paga, saída do produto que o trabalhador tem de fornecer ao patrão (o primeiro que dela se apropria, ainda que não seja seu último e exclusivo dono) -, apesar disso, nunca chegou a ultrapassar as ideias usuais de lucro e renda, nunca examinou esta parte não paga do produto (chamada, por Marx, de mais-valia), em seu conjunto, como um todo, e, por isso, nunca atingiu uma compreensão clara, nem de sua origem e natureza, nem das leis que regem a posterior distribuição de seu valor."
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MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA: "ESTÁGIO TRANSITÓRIO"

Outro conceito importante que Engels destaca no prefácio à edição inglesa é que a obra O Capital entende o modo de produção capitalista como mais uma etapa da história econômica da humanidade e não o modo de produção final, definitivo das sociedades humanas.

"Uma teoria que considera a moderna produção capitalista mero estágio transitório da história econômica da humanidade tem, naturalmente, de utilizar expressões diferentes daquelas empregadas por autores que encaram esse modo de produção como imperecível e final."

A NECESSIDADE DE SEMPRE AUMENTAR A PRODUÇÃO E CONSEGUIR MAIS MERCADOS CONSUMIDORES

"(...) O funcionamento do sistema industrial da Inglaterra - impossível sem permanente e rápida expansão da produção e, portanto, dos mercados - está emperrado (...) Enquanto a produtividade cresce em progressão geométrica, a expansão dos mercados, na melhor das hipóteses, se realiza numa progressão aritmética..."

E então, Engels faz a pergunta que é mais atual que nunca, apesar de ter sido feita em 1886, há 133 anos: "O que fazer com os desempregados?"

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Amig@s leitores e leitoras, neste momento da história humana, vamos tentar ler O Capital com parcimônia, com olhar crítico, e sobretudo, atento à necessidade de entender porque as coisas estão como estão nesta quadra da história da humanidade.

Abraços e se gostarem das postagens e dos comentários de minha leitura, compartilhem com aquel@s que tiverem a mesma curiosidade e necessidade de compreensão de nossa realidade.

William
Um leitor


Post Scriptum:

Já fiz duas postagens sobre os prefácios feitos pelo próprio Marx nas edições alemãs. Ler AQUI sobre a 1ª edição e AQUI sobre a 2ª edição.

sábado, 1 de outubro de 2011

Manifesto do Partido Comunista - 1848 (III)

DEMOCRACIA

"O primeiro passo da revolução dos trabalhadores é a ascensão do proletariado à situação de classe dominante, ou seja, a conquista da democracia"


Capa do Manifesto do Partido Comunista
A afirmaçao acima é de uma clareza grande quando pensamos sobre vários problemas históricos e também contemporâneos envolvendo a luta de classes.

Venho tentando ler um pouquinho sobre princípios norteadores do que defendo diariamente, para não perder o prumo quando saio de casa para a luta por mudanças no mundo.

Estamos vivendo nestes dias uma greve da categoria bancária e mesmo tendo reivindicações justas e ser uma afronta dos banqueiros e governo a proposta ridícula feita por eles, fiquei muito puto com bancários de agências que conheço e que furaram a greve na maior cara-de-pau e estão ajudando o banco a derrotar os bancários, ou seja, eles mesmos. Mas sei que devo analisar o que ocorre e buscar envolvê-los melhor na luta nos próximos dias da batalha.

Deixe-me postar aqui mais um pouco do Manifesto de 1848 porque ele é tão atual que suas palavras são autoexplicativas.

Parte II
Proletários e comunistas

(...)
A revolução comunista é a ruptura mais radical com as relações de propriedade remanescentes; não é de se espantar que, em seu desenvolvimento, rompa-se de modo mais radical com as ideias do passado.

Deixemos de lado as objeções da burguesia ao comunismo.

Já vimos que o primeiro passo da revolução dos trabalhadores é a ascensão do proletariado à situação de classe dominante, ou seja, a conquista da democracia.

O proletariado vai usar seu predominio político para retirar, aos poucos, todo o capital da burguesia, para concentrar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado - quer dizer, do proletariado organizado como classe dominante - e para aumentar a massa das forças produtivas o mais rapidamente possível.

Naturalmente, isso só pode ocorrer, de início, por meio de intervenções despóticas no direito de propriedade e nas relações burguesas de produção; através, portanto, de medidas que talvez pareçam insuficientes e insustentáveis do ponto de vista econômico, mas que tragam resultados para além de si mesmas e sejam indispensáveis para revolucionar todo o modo de produção.
(...)

Bibliografia:
MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Expressão Popular. 1a edição, 2008.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Causas da 1ª Guerra Mundial - Artigo prof. Osvaldo Coggiola

Não tenho conseguido postar muitos textos neste Refeitório Cultural, mas vou incluindo textos de qualidade quando aqui venho.

Assisti hoje a um dos vídeos da coleção "Grandes dias do século XX". Vi o vídeo sobre a 1ª GM com imagens originais. A coleção é muito boa para aqueles que gostam de história.

No encarte há um texto do professor Coggiola - da FFLCH/USP - texto que é o mais claro que já li sobre as prováveis causas daquele conflito mundial. Reproduzo-o abaixo em nome do livre conhecimento (2 horas e 1/2 de digitação).


IMPÉRIOS EM ROTA DE COLISÃO

por Osvaldo Coggiola

A disputa pelo controle dos mercados mundiais a partir da segunda metade do século XIX acirrou as rivalidades entre as potências europeias. O jogo pela dominação global terminaria de forma trágica em 1914

Há muito tempo, pesquisadores se esforçam para explicar os motivos que levaram à eclosão da Primeira Guerra Mundial. Ao longo dos últimos 90 anos, eles recorreram às mais variadas explicações, desde as que enfatizam as questões diplomáticas até as que se concentram nos aspectos propriamente militares. Nenhuma delas, no entanto, conseguiu oferecer uma interpretação global do fenômeno que articulasse crise econômica, expansão colonial, exportação de capitais, auge do nacionalismo expansivo e do racismo, disputas geopolíticas e conflito global.

As raízes da Primeira Guerra Mundial se encontram na segunda metade do século XIX. Depois de viver um período de forte crescimento econômico e abertura comercial ao longo das décadas de 1850 e 1860, as economias europeias enfrentaram um período de relativa depressão nos negócios na década de 1870.

Nesses anos de crise, o protecionismo econômico ganhou força. Com exceção da Grã-Bretanha, os demais países levantaram barreiras à importação para fortalecer a produção nacional. Ao mesmo tempo, desenvolveu-se um novo surto de conquista colonial, que agora tinha como alvos a Ásia e a África. Esses dois fenômenos estavam relacionados, como disse o filósofo alemão Friedrich Engels no final do século XIX: "A colonização é hoje efetiva filial da bolsa, no interesse da qual as potências europeias partilharam a África, entregue diretamente como butim às suas companhias".

Essa não era uma colonização igual àquela dos séculos XVI, XVII, XVIII. O objetivo agora era garantir o controle sobre novos territórios, nos quais os empresários pudessem investir um excedente de capital que os mercados europeus não eram mais capazes de absorver.

A África se tornou palco principal da nova expansão. Em 1884, os dirigentes das grandes potências se reuniram na Conferência de Berlim para definir as regras da partilha do continente negro. Segundo Charles Faure, a corrida pelas colônias seria vencida por "aquele que primeiro chegasse e hastiasse a bandeira de seu país em qualquer lugar da costa da África que ainda não estivesse sob dominação de uma nação europeia".

Esse processo era consequência da maturidade atingida pelo capitalismo nas metrópoles europeias, onde se tornara o modo de produção dominante no final do século XIX. A partir do Velho Continente, ele penetrou também nas colônias na África e Ásia, além de países com escasso desenvolvimento industrial, mas que conservaram sua soberania nacional, como a Rússia e a maior parte da América Latina.


Caricatura do fim do século XIX mostra Inglaterra, Alemanha, Rússia, França e Japão (da esq. para a dir.) repartindo a China. (Torta chinesa, caricatura, Henri Meyer, 1898

O desenvolvimento do comércio mundial, cujo volume decuplicou entre 1848 e 1914, fez com que o novo modo de produção se instalasse de forma desigual em cada lugar: nos países centrais, sua consolidação promoveu o desenvolvimento da indústria, o aumento da renda nacional e a aceleração do processo de urbanização. Nos outros países também houve "modernização" mas em ritmo mais lento. O fosso econômico entre a periferia e o centro do capitalismo aumentou muito e, em alguns casos, as economias dos países menos desenvolvidos estagnaram ou até regrediram. E eles eram a maioria: no alvorecer do século XX, mais da metade da superfície e mais de um terço da população do planeta se encontrava nas colônias.

Dentro da Europa, o velho monopólio industrial da Inglaterra passou a ser ameaçado por outros países, no último quarto do século XIX. Defendendo-se por meio de políticas alfandegárias protecionistas, diversas nações tinham se transformado em Estados capitalistas independentes. O aumento da concorrência se refletiu nas exportações que chegavam ao Velho Continente, vindas da periferia: em 1860, metade do total das exportações da Ásia, África e América Latina se dirigiu a um só país, a Grã-Bretanha. Por volta de 1900, a participação britânica caíra a um quarto, e as exportações periféricas para outros países da Europa ocidental já superavam as destinadas à Grã-Bretanha.

O próprio capitalismo estava se transformando: ele já não era mais pautado pela livre concorrência, mas sim pelo monopólio. Essa mutação foi sintetizada por Lenin em um texto publicado em 1916: "O que caracterizava o velho capitalismo, no qual dominava plenamente a livre concorrência, era a exportação de mercadorias. O que caracteriza o capitalismo moderno, no qual impera o monopólio, é a exportação de capital".

No alvorecer do século XX, as economias dos países capitalistas desenvolvidos eram dominadas por grupos monopolistas, e alguns poucos países ricos concentravam a acumulação do capital, que alcançara proporções gigantescas. O capitalismo gerara uma enorme "poupança excedente". Os donos de fábricas, bancos e empresas em geral tinham mais dinheiro do que podiam investir em seus próprios países, pois não havia compradores suficientes para novos produtos.

Diante dessa situação, os grandes investidores tinham três alternativas: aumentar os salários reais para ampliar o mercado interno, fazendo cair ainda mais a taxa de lucro; manter os salários iguais e canalizar toda a acumulação para o progresso técnico, aumentando o investimento na própria empresa; ou investir no exterior, onde a taxa de lucro do capital era maior.

A terceira alternativa era a melhor para os capitais excedentes nas metrópoles, pois significava investir em espaços econômicos vazios, com mão de obra e matérias-primas baratas e em abundância. A tendência do movimento do capital foi definida pela diferença da taxa de lucro de região para região, até que a partilha econômica e política do mundo finalmente se completou, incluindo as últimas zonas não ocupadas. Começou então a luta pela sua redistribuição entre os grupos monopolistas e seus Estados, na procura de novos mercados e fontes de matérias-primas: "As etapas de repartição pacífica são sucedidas pelo impasse em que nada resta para distribuir. Os monopólios e seus Estados procedem, então, a uma repartição pela força. As guerras mundiais interimperialistas se transformam em uma componente orgânica do imperialismo", explicou Lenin.

UM NOVO CAPITALISMO

Em 1902, o economista liberal John A. Hobson publicou em livro seminal chamado O imperialismo, no qual destrinchou a nova dinâmica de funcionamento do capitalismo. Segundo Hobson: "Nação atrás de nação entra na máquina econômica e adota médotos industriais avançados e, com isso, se torna mais e mais difícil para seus produtores e mercadores venderem com lucro seus produtos. Aumenta a tentação de pressionar seu governos para lhes conseguir a dominação de algum Estado subdesenvolvido distante. Em toda parte há excesso de produção, excesso de capital à procura de investimento lucrativo. Todos os homens de negócios reconhecem que a produtividade em seus países excede a capacidade de absorção do consumidor nacional, assim como há capital sobrando que precisa encontrar investimento que o remunere além-fronteiras. São essas condições econômicas que geram o imperialismo".

A demanda de bens de consumo caía em função da distribuição desigual e da acumulação crescente de capital. Parte do lucro acumulado não podia ser reinvestido, o que o tornava improdutivo e fazia cair a taxa de expansão do capital. Para fazer frente à superprodução derivada do consumo insuficiente era preciso conquistar mercados externos, motivando a expansão imperialista.

Em um relatório da época, o cônsul austro-húngaro em São Paulo explicava como isso funcionava na prática, informando que "a construção das estradas de ferro brasileiras realiza-se, na sua maior parte, com capitais franceses, belgas, britânicos e alemães". O novo capital financeiro estendia assim as suas redes por todos os países do mundo, o que explica o papel central desempenhado pelos bancos das metrópoles e suas filiais "coloniais".

Os países europeus não eram mais o destino dos grandes investimentos externos. Eles perdiam terreno diante dos investimentos nas regiões periféricas ou nas colônias: por volta de 1850, Europa e Estados Unidos recebiam cerca de metade das exportações de capital inglês. Entre 1860 e 1890, os investimentos externos para a Europa caíram sensivelmente (de 25% para 8%) e o investimento nos EUA começou a declinar até sofrer uma queda importante durante a guerra (de 19% para 5,5%). O capital financeiro passava a comportar-se como um agiota internacional, criando um sistema de dívidas cada vez maior.

A principal consequência do imperialismo foi acirrar as disputas entre as potências europeias. Ganhou força a ideia de que cada país devia transformar-se em uma potência mundial, cujo prestígio dependia do grau de influência que podia exercer no mundo. Desde 1870, quando Itália e Alemanha concluíram seus processos de unificação nacional, a concorrência internacional e as relações entre os países se tornaram mais complexas.

Surgiram grandes blocos de poder. Os Estados, levados a uma concorrência política crescente com os vizinhos, estabeleceram alianças para evitar o isolamento. A primeira foi a que uniu a Alemanha e o Império Autro-Húngaro em 1879. Três anos depois, ela seria expandida com a entrada da Itália, dando origem à Tríplice Aliança em 1882. A França, isolada, buscou seus próprios aliados: primeiro a Rússia, com a qual firmou uma aliança em 1894, e em seguida a Grã-Bretanha, com quem se associou em 1904. Finalmente, o acordo anglo-russo de 1907 deu origem à Entente Cordiale, também conhecida como Tríplice Entente. Assim nasceram os blocos que se enfrentariam na Primeira Guerra Mundial.

A formação de um império colonial por parte de um país era vista como instrumento de força e prestígio que podia romper o equilíbrio entre as potências. Já as potências chegadas tardiamente à corrida colonial utilizaram a ideia de sua superioridade nacional como instrumento político e ideológico contra seus rivais.

A Alemanha foi um caso exemplar de como a ideologia nacionalista serviu de base para o expansionismo territorial. Em 1894 criou-se a Liga Pan-Germânica (Alle-Deutscher Verband), que começou reivindicando os territórios onde se falava alemão, ou algum dialeto germânico, e em seguida passou a defender a anexação de territórios que no passado tinham sido "alemães" (teoria da "Grande Alemanha"). Até mesmo a ideia da raça eleita já começava a se manifestar. Em 1897, Fritz Sely publicava seu Die Weltstellung des Deutschtums (A situação mundial do poder alemão), livro no qual exaltava as qualidades dos alemães como "o povo mais capaz em todos os domínios do saber e das belas-artes".

RIVALIDADES IMPERIAIS

A alteração sofrida pelo conceito de Estado conciliador, baseado no ideário liberal, acompanhou o fim do capitalismo da livre concorrência. No capitalismo monopolista, a ideologia que prevalecia era a que assegurava à própria nação o domínio internacional. A expansão do capital era justificada ideologicamente pelo desvio conceitual da ideia de nação, onde uma poderia sobrepujar outras por considerar-se "eleita" entre as demais.

Neste contexto era natural que se acirrassem rivalidades entre as nações. Ingleses e franceses disputaram o controle da Indochina durante as últimas décadas do século XX, e a briga só foi resolvida pelos acordos de 1896 e 1907, que estabeleceram áreas de influência na região.

A rivalidade anglo-russa, por sua vez, tinha sido uma constante no embate entre as potências europeias pelos despojos do decadente Império Otomano. Essa rivalidade também se manifestou na competição pelo controle da Ásia central na década de 1880, que quase levou a uma guerra entre as duas potências.

A rivalidade russo-japonesa pela supremacia na bacia do Pacífico levou à guerra de 1905. O conflito foi vencido pelo Japão e terminou com a assinatura do Tratado de Portsmouth, em 5 de agosto de 1905, com a mediação dos EUA. O episódio mostrou para o mundo que americanos e japoneses estavam definitivamente entrando para o clube das superpotências.

Enquanto isso, na Europa, a França preparava a opinião pública para uma guerra contra a Alemanha, ao reivindicar a região da Alsácia-Lorena, que havia sido anexada pelos germânicos em 1870. A Inglaterra pretendia manter sua condição de principal potência colonial preservando o equilíbrio de poder no continente e apresentando-se como defensora da paz (britânica). A Rússia se arrogava o papel de protetora dos povos eslavos que permaceciam sob domínio otomano. A Itália, potência menor, reivindicava territórios do decadente Império Austro-Húngaro e alguns despojos do próprio Império Otomano.

A perspectiva de uma guerra europeia (e, pela extensão dos interesses coloniais das potências, mundial) era já visível no final do século XIX. Em 1914, quando a guerra de fato explodiu, não era sobre terreno virgem que Lenin se apoiava para afirmar: "A guerra europeia, preparada durante dezenas de anos pelos governos e partidos burgueses de todos os países, começou. O crescimento dos armamentos; a exacerbação da luta pelos mercados no atual estágio imperialista de desenvolvimento dos países capitalistas avançados; os interesses dinásticos das monarquias mais atrasadas - as da Europa oriental - tinham de, inevitavelmente, conduzir à guerra, e conduziram". A Primeira Guerra Mundial só poderia ser entendida, portanto, como revolta das forças produtivas sociais contra o quadro, tornado historicamente estreito, das relações capitalistas e dos Estados nacionais.


O ESTOPIM DA GUERRA

Desde o fim do século XIX, a Rússia e o Império Autro-Húngaro disputavam o controle das províncias otomanas na região dos Bálcãs. Em 1878, Romênia, Sérvia e Montenegro se tornaram independentes, e a Bósnia-Herzegóvina passou a ser administrada pelo Império Austro-Húngaro. A Sérvia independente, respaldada pela Rússia, passou a apoiar movimentos nacionalistas em regiões de maioria eslava.

No dia 28 de junho de 1914, o bósnio Gavrilo Princip assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro. Ciente do apoio da Sérvia aos nacionalistas bósnios, o governo de Viena enviou um ultimato a Belgrado exigindo a punição dos responsáveis. A recusa dos sérvios em atender a todas as exigências de Viena desencadeou uma reação em cadeia que levou à guerra:

28/07/1914
Império Austro-Húngaro declara guerra à Sérvia

31/07/1914
Mobilização geral das tropas russas

1º/08/1914
Alemanha declara guerra à Rússia

2/08/1914
França mobiliza suas tropas em apoio à Rússia

3/08/1914
Alemanha declara guerra à França

4/08/1914
Inglaterra declara guerra à Alemanha


OSVALDO COGGIOLA, professor de história contemporânea da Universidade de São Paulo (In: História Viva)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Manifesto do Partido Comunista - 1848 (II)




(LEITURAS - excertos)


Karl Marx
Friedrich Engels

"I - Burgueses e proletários

A história de todas as sociedades até agora tem sido a história das lutas de classe.

Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, membro das corporações e aprendiz, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em contraposição uns aos outros e envolvidos em uma luta ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta, que terminou sempre com a transformação revolucionária da sociedade inteira ou com o declínio conjunto das classes em conflito.

Nas épocas anteriores da história, em quase todos os lugares, encontramos sociedades estruturadas em vários segmentos, em uma hierarquia diferenciada das posições dos indivíduos. Na Roma antiga, temos patrícios, guerreiros, plebeus e escravos; na Idade Média, senhores feudais, vassalos, membros de corporações, artesãos e servos; além disso, em quase todas essas classes, novas subdivisões.

A moderna sociedade burguesa (lembrar que eles estão em 1848), que surgiu do declínio da sociedade feudal, não aboliu as contradições de classe. Ela apenas colocou novas classes, novas condições de opressão e novas formas de luta no lugar das antigas.

Nossa época - a época da burguesia - caracteriza-se, contudo, por ter simplificado os antagonismos de classe. Toda a sociedade se divide, cada vez mais, em dois grandes campos inimigos, em duas grandes classes diretamente opostas: a burguesia e o proletariado.

Dos servos da Idade Média nasceram os burgueses livres das primeiras cidades; a partir destes, desenvolveram-se os primeiros elementos da burguesia.

A descoberta da América e a circunavegação da África abriram um novo campo de ação para a burguesia nascente. Os mercados da Índia e da China, a colonização da América, o comércio com as colônias, o aumento dos meios de troca e do volume das mercadorias em geral trouxeram uma prosperidade até então desconhecida para o comércio, a navegação e a indústria e, com isso, desenvolveram o elemento revolucionário dentro da sociedade feudal em desintegração.

A forma tradicional, feudal ou corporativa, de funcionamento da indústria não permitia atender às necessidades crescentes, decorrentes do surgimento de novos mercados. Em seu lugar aparece a manufatura. O mestre das corporações é deslocado pelo pequeno industrial; a divisão do trabalho entre as diversas corporações desaparece diante da divisão do trabalho no interior das oficinas.

No entanto, os mercados continuaram crescendo e as necessidades aumentando. Também a manufatura não dava conta. Então, o vapor e a maquinaria revolucionaram a produção industrial. No lugar da manufatura surgiu a grande indústria moderna, no lugar dos pequenos produtores, os industriais milionários, os chefes de exércitos industriais inteiros, os burgueses modernos.

A grande indústria criou o mercado mundial, preparado pela descoberta da América. O mercado mundial promoveu um desenvolvimento incomensurável do comércio, da navegação e das comunicações. Esse desenvolvimento, por sua vez, voltou a impulsionar a expansão da indústria. E na mesma medida em que indústria, comércio, navegação e estradas de ferro se expandiram, desenvolvia-se a burguesia, os capitais se multiplicavam e, com isso, todas as classes oriundas da Idade Média passavam a um segundo plano.

Vemos, assim, como a burguesia moderna é ela mesma o produto de um longo processo, moldado por uma série de transformações nas formas de produção e circulação..."


Bibliografia:

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Expressão Popular. 1a edição, 2008.


COMENTÁRIOS:


No século XXI, segue sendo extremamente atual essa separação no interior das sociedades em duas grandes classes antagônicas - a burguesia e o proletariado, exploradores e explorados.

William Mendes

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Manifesto do Partido Comunista - 1848




(LEITURAS - excertos)

Karl Marx

Friedrich Engels

"Um espectro ronda a Europa: o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa se uniram em uma santa campanha difamatória contra ele: o papa e o tsar, Metternich e Guizot, radicais franceses e policiais alemães.


Qual o partido de oposição não foi qualificado de comunista por seus adversários no poder? Qual partido de oposição, por sua vez, não lançou de volta a acusação de comunista, tanto a outros opositores mais progressistas quanto a seus adversários reacionários?


Duas conclusões decorrem desse fato.


O comunismo já é reconhecido como força poderosa por todas as potências europeias.


Já é tempo de os comunistas exporem abertamente sua visão de mundo, seus objetivos e suas tendências, contrapondo assim um manifesto do próprio partido à lenda do espectro do comunismo.


Com este objetivo, reuniram-se em Londres comunistas de várias nacionalidades e esboçaram este Manifesto, que será publicado em inglês, francês, alemão, italiano, flamengo e dinamarquês..."



Bibliografia:


MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Expressão Popular. 1a edição, 2008.



COMENTÁRIO:


Nesta década, aprendi a ser sindicalista. Virei sindicalista após os trinta anos de idade.


Me incomoda todo mundo no movimento falar que é marxista, marxiano, leninista, trotskista, ou coisa do gênero, quando, na verdade, me parece que muita gente fala que é isso ou aquilo sem nunca ter lido ou estudado com dedicação tal referência que usa.


Eu não posso dizer que sou nada disso, pois não tenho conhecimento sobre esses líderes e suas doutrinas para me dizer um seguidor deles.


Ao longo de oito anos, estudei a origem da Central Única dos Trabalhadores (CUT), estudei um pouco da origem do Partido dos Trabalhadores (PT) e estudei a origem da Articulação Sindical e pertenço a estas formas de organização partidária e sindical. SOU SINDICALISTA CUTISTA e da ARTICULAÇÃO SINDICAL. Sou PETISTA.


Pelo pouco que já li e reflito a respeito, tenho a impressão de que compartilho muita coisa com o Comunismo. Penso que minhas divergências com os comunistas sejam sobre a estratégia e as táticas para se alcançar esta forma de sociedade.


William Mendes

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Marxismo e o Século XXI




Carta Maior lança debate: o Marxismo e o Século XXI

A Carta Maior lança a partir de hoje um seminário virtual sobre a obra de Karl Marx e os problemas que afetam a humanidade neste início do século XXI. Diante da grave crise econômica, política e social, decorrente das políticas do modelo neoliberal implementado nas últimas décadas no mundo, o pensamento do autor alemão voltou à ordem do dia. A nova editoria terá a curadoria do professor Francisco de Oliveira, que escreverá e convidará, mensalmente, intelectuais para abordar o tema num debate que se estenderá até o final do ano e procurará oferecer respostas à pergunta: o que Marx tem a dizer sobre os problemas do século XXI?


Francisco de Oliveira - Texto de apresentação

Data: 01/04/2009

O marxismo seguramente foi a doutrina mais importante do século XX, no amplo sentido de um “campo” (Bourdieu) ou ainda no sentido de ideologia (Gramsci) e não no dos próprios Marx e Engels. (como doutrina dominante da classe dominante.) A tal ponto que se pode dizer que o século XX foi o século do marxismo.

A partir das formulações originais da dupla Marx-Engels, o marxismo foi se constituindo numa concepção de história, numa visão de mundo, numa prática de luta, numa política, diretamente na crítica ao capitalismo, seu inimigo figadal. Desde o século XIX, formações partidárias nitidamente operárias criaram-se inspiradas nas ideias da dupla, tais como o prestigioso Partido Social-Democrata alemão, do qual o próprio Engels foi militante e dirigente, e o Partido Socialista Operário Espanhol. Todos os demais partidos de origem operária na Europa Ocidental, e mesmo na Índia, tinham o marxismo como sua orientação teórico-prática mais consistente.

Deve-se dizer, sem apologia acrítica, que esse vasto campo construiu-se cheio de contradições, que fizeram sua riqueza, até que a mão pesada do Partido Bolchevique, vitorioso na Revolução de 1917, em seguida Partido Comunista da URSS, converteu o marxismo num dogma, e matou, em grande medida, sua capacidade criadora, que requer, antes de tudo, sua própria autocrítica. O marxismo havia chegado à Rússia pelas mãos de teóricos do calibre de Plekhanov, e deu origem imediatamente a um movimento político que tomou explicitamente a forma de partido lutando pela Revolução e pelo poder, com seus dirigentes que se transformaram em condotiere mundiais, Lênin e Trotsky, para citar apenas estes.

Todos os partidos de origem operária o tinham como sua referência principal, salvo, talvez, e ironicamente, o Partido Trabalhista britânico onde o fabianismo e a rejeição à revolução logo dominaram a cena trabalhista inglesa, na contramão de Marx que havia pensado que o crescimento do operariado faria aparecer um pensamento e uma prática revolucionárias. Mas nunca deixou de haver não só uma fração de trabalhistas ingleses marxistas, como uma tradição teórica sobretudo na área da História, como o prova até hoje, Hobsbawm, e ontem, Laski, na teoria política. Mas a contribuição do velho Labour para a formação das políticas do Estado do Bem-Estar talvez tenha sido a mais importante. Esse vasto movimento chegou até às ex-colônias. O Brasil conheceu a formação de seu Partido Comunista já em 1922.

Mesmo refluindo das posições revolucionárias, os partidos de origem social-democrata mais que influenciar, de fato, inseriram as lutas sociais para sempre na política. Todo o vasto movimento do Estado do Bem-Estar radicou na capacidade de operação dos partidos de origem operária, a socialização da política a que aludia Gramsci, o que elevou o nível de vida nos países do Ocidente capitalista a níveis que deixaram o programa inicial de Lênin como mero exercício teórico. Aliás, o “pequeno grande sardo” é um dos marxistas mais originais e criativos, que contribuiu poderosamente para que o próprio marxismo entendesse e explicasse as democracias ocidentais.

Recusando-se a fazer da política uma dedução da economia – o que, infelizmente, ocorre hoje – Gramsci, nos cárceres do fascismo mussolinista, deu as diretrizes que tornaram o então Partido Comunista Italiano o mais original e o mais capacitado a dirigir a nova Itália democrática. Aqui, mais uma vez, a história pregou uma peça: o progresso italiano, de que o partido de Gramsci foi o avalista em parceria – o “compromisso histórico” – com os cristãos do Partido da Democracia Cristã, terminou por solapar as bases sociais de ambos, e o PCI mergulhou numa longa decadência da qual há apenas vestígios em meio às ruínas das grandezas de Roma.

Mas o marxismo carrega nas costas o pesado fardo do estalinismo e do terror soviético, sem que os marxistas tenham, até hoje, revelado a capacidade de explicar, marxisticamente, a tragédia em que desembocou a revolução mais radical da era moderna. Não é suficiente a explicação materialista-vulgar de que todas as grandes revoluções comeram seus próprios filhos; tampouco justificar a cruel ditadura do georgiano – que na verdade já se ensaiava sob Lênin - pelas realizações técnico-científicas da ex-URSS: todos os marxistas nunca deveriam esquecer a lição do próprio Marx e dos frankfurtianos de que “progresso e barbárie” sempre formaram na história universal uma terrível unidade.

A partir de certo momento, ficou muito evidente que o “marxismo soviético” (a expressão é de Marcuse) não era outra coisa senão uma doutrina de grande potência arrogantemente usurpadora das tradições marxistas. Mesmo a crítica trotskysta, que cedo viu a “degeneração burocrática” do Partido, e a também ainda mais precoce crítica de Rosa Luxemburgo, junto com a postura de Kautsky, não foram suficientes – nem o poderiam ser, já que o terror estalinista mal havia mostrado suas garras já sob a criação da temível e terrível Cheka sob Lênin.

Nos fins do século que acabou, talvez nas pegadas da explicação de Perry Anderson para o que ele chamou de “marxismo ocidental”, a combinação da desestruturação produtiva, com a revolução técnico-científica e paradoxalmente o próprio progresso levado a cabo pelo Estado do Bem-Estar desbarataram a própria classe operária e seus partidos social-democratas e comunistas; o “marxismo ocidental” descolou a reflexão teórica da perspectiva revolucionária. Deixou de influenciar a política e, pois, a luta de classe organizada, e refugiou-se nos trabalhos acadêmico-científicos. Mesmo assim, na universidade, que apenas durante um curto período – uns 40 anos, se tanto – abriu-se para o marxismo, o movimento também refluiu.

Mas, surpreendentemente, a força criadora do marxismo abriu novas fronteiras, mesmo em terrenos que lhe eram anteriormente hostis e com os quais, ele mesmo, teve relações conflitivas e lhes dirigiu anátemas dogmáticos. É o caso das religiões- antes o “ópio do povo”, da psicanálise, - uma ciência do inconsciente da justificação burguesa dos seus próprios crimes -, da própria literatura (nos caminhos já originalmente pensados por Lukacs), na crítica da cultura e da modernidade – os frankfurtianos – da hegemonia norte-americana, Gramsci e seu “americanismo e fordismo”. Esses terrenos todos foram imensamente fecundados pelo marxismo, que lhes ampliou os horizontes.

A pergunta que essa curadoria quer fazer é direta: e o século XXI e no século XXI? O que o marxismo pode vir a ser, o que o marxismo tem a dizer? O século abriu-se com a maior crise econômica, mundial, global, desde os dias da Grande Depressão de Trinta. Mesmo sobre esta, o que o marxismo disse “no calor da hora” não honrou muito as tradições da economia política marxista, que é seu terreno e sua certidão de nascimento. Economistas como Ievguin Varga passaram a certidão de óbito do capitalismo na crise de 1929. E agora, que crise é esta? François Chesnais tem dado orientações teóricas muito férteis, sobre a transição para um regime de acumulação à dominância financeira. E que mais?

Não há marxismo sem marxistas; estes não são muitos, hoje, no Ocidente. No Brasil, às vezes tem-se a impressão de que o marxismo floresce sobretudo na universidade, na área de humanas, e ilumina muitos nichos da crítica. Mas nos partidos de esquerda, o marxismo é quase sempre um indesejado e no operariado ele é mais, é desconhecido. Operariado aliás, hoje multifacetado, reduzido nos locais produtivos, abundante nos locais de serviço, milhões nos trabalhos informais, uma grande classe não-classe. Será possível combinar reflexão criadora, novas interpretações do mundo, descoladas do trabalho?

As explorações sobre essas intrigantes questões não se farão com um marxismo ensimesmado, sectário e doutrinário; mas não se trata de proclamar um ecletismo despolitizado: as interrogações partem da tomada de posição de que o marxismo pode ainda alimentar as lutas pela transformação social e política, senão com a transcendência e abrangência mostradas no século XX, pelo menos com uma postura crítica que não se deixará seduzir nem pelo apocalipse nem pelo conformismo. Em suma, um marxismo dialógico e dialético.

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Karl Marx - Maltratado pelo Almanaque Abril



A escola de meu filho sugeriu aos alunos comprarem (para o ano letivo 2009) o Almanaque Abril 2009 para consultas cotidianas. QUE DESGRAÇA!!

Comprei o lixo para que não ficasse só ele sem o dito cujo.

Fui fazer um teste. Procurei por "Karl Marx".

Cara, tem espaço destacado com foto e tudo para Adam Smith, o "pai da economia", para "Keynes", e pro diabo a quatro...

Não tem o coitado do Marx, nem na seção das Referências.

Consegui achar o termo "marxismo" com um textinho tão ridículo que faz qualquer criança achar o tema e o pensador uma tremenda babaquice. É FODA!!

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Segue abaixo MARXISMO, by Almanaque Abril 2009:


"Doutrina formulada pelos alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), segundo a qual o cerne de qualquer sociedade está no modo de produção, que, variando de acordo com o período histórico, determina as relações sociais. Para os marxistas, a história é o resultado da luta de classes decorrente do desequilíbrio na relação entre o capital e o trabalho: a burguesia concentra o capital e os meios de produção, explorando o trabalho do proletariado. Por estar baseado nessa característica contraditória - a de explorar o próprio alicerce, a classe trabalhadora -, o capitalismo estaria fadado à destruição. Esse conflito de classes só desapareceria com a instalação da sociedade comunista, concebida como igualitária e justa."


Viram só que profunda a pesquisa do aluno de 9° ano, baseada no tal Almanaque Abril?