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quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé, 30 capítulos lidos




Refeição Cultural

"Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé.
Comprida história que não acaba mais.
" ("Infância", C.D.A.)


(Contém spoiler)

Ufa! Ô vida longa essa do Robinson Crusoé! O cara passou vinte e oito anos na ilha onde naufragou. Sua história na ilha foi até a metade do livro. Agora sei que As aventuras de Robinson Crusoé vão muito além dos anos que passou na ilha.

O personagem já é um sexagenário e não perdeu seu espírito irrequieto, que não consegue ficar quieto em lugar nenhum e quando acha que vai parar em algum lugar, algo o chama para partir.

Depois de visitar sua ilha por quase um mês, saiu pelos mares do mundo de novo. Lá na ilha, alguns capítulos de seu diário trataram dos arranjos que fez para deixar todo mundo arrebanhado pela religião cristã, parte "papista" (ou seja, católicos) e parte protestante.

Andando a bordo de navio cujo capitão é um sobrinho, viajou para mares distantes e na ilha de Madagascar a tripulação se pôs em guerra com os nativos e a diferença de tecnologia armamentista a favor dos europeus foi responsável por um massacre local.

Crusoé passou um tempão acusando a tripulação de assassina e com isso foi expulso e deixado em terras distantes. As aventuras seguiram e o inglês se tornou grande comerciante naquela região do mundo.

Ufa! O cara é sexagenário e suas aventuras são de alguém no auge do vigor adulto.

Faltam 6 capítulos. 

Daqui um pouquinho terei preenchido mais uma lacuna cultural e saberei da história de Robinson Crusoé, aquela que o Eu-Lírico de Drummond cita no poema "Infância".

Sigo lendo os clássicos. Sempre lembrando de Italo Calvino: é melhor ler que não ler os clássicos.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond. Nova Reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Ulysses - Ciclope (A Taverna)



Refeição Cultural

"- Um lobo em pele de cordeiro, o cidadão falou. Isso é que ele é. Virag da Hungria! Ahas Verus é o meu nome pra ele. Amaldiçoado por Deus." (p. 541)


Lido mais um capítulo de Ulysses, de James Joyce. Capítulo longo, umas 70 páginas. Os acontecimentos se passam no final da tarde de 16 de junho de 1904, por volta de 17 horas. Diversos personagens estão reunidos na taverna, entre eles Leopold Bloom. Todos bebem, menos Bloom, que aceita um charuto no lugar da bebida.

Em linhas gerais, resumiria o capítulo assim: os caras estão bebendo e falando um monte de porcarias sobre várias coisas. Há uma predominância no final a falar mal de judeus e a falar mal de Bloom, que é judeu. Falam mal dele principalmente quando ele dá uma saída rápida da taverna. Eles acham que ele foi apostar numa corrida de cavalo, à escondida, para não dividir o prêmio com ninguém.

PRECONCEITO A JUDEUS

"Aí eles começaram a falar da pena capital e é claro que o Bloom me aparece com o por quê e o pra quê e toda a peixemortice do negócio todo e o cachorro velho cheirando a perna dele o tempo todo dizem que esses judeuzinhos têm lá um tipo de cheiro estranho pros cachorros que sai deles sobre sei lá qual efeito inibitório e por aí vai." (p. 495)

Leopold Bloom é considerado pelos demais um metido a besta, "Senhor sabetudo" (p. 509). Ele começa a explicar o que acontece quando alguém é enforcado, a questão do pênis duro etc.

CERVEJA, A PRAGA DA IRLANDA

Joyce aproveita para tecer suas críticas a respeito dos costumes irlandeses. A cerveja, por exemplo, é chamada de "a praga da Irlanda" num certo momento do capítulo (p. 504).

A DOS "SEIOS GENEROSOS"

Outro tema que não escapa aos personagens bebendo na taverna é a esposa de Bloom, Molly. Assim como já vimos nos capítulos anteriores, as falas pelas costas dele são as piores possíveis. Um exemplo do que pensam dela, seja falando, seja em fluxo de consciência dos personagens: "Casta esposa de Leopold é ela: Marion dos seios generosos." (p. 516)

BLOOM, O SÁBIO

"- Tem gente, o Bloom falou, que repara no cisco no olho dos outros mas não consegue ver a trave que está no seu próprio olho." (p. 524)

O PAI NOSSO DOS MARINHEIROS BRITÂNICOS AÇOITADOS

"Creem em Dê os Paus, todolaceroso, criador do inferno na terra e em Marujo Tristo, esse filho da luta, que foi concebido pelo escândalo tanto, nasceu da viagem marinha, padeceu o serviço completo, foi cicatrizado, exposto e bem sovado, gritou como um danado, e no terceiro dia relevantou da cama, voltou aos seus, está sentado a boreste de seu país de onde há de vir penar na vida e a postos." (p. 529)

AMOR, A VIDA DE VERDADE

"- Mas não adianta, ele falou. Força, ódio, história, isso tudo. Isso não é vida pros homens e mulheres, ódio e xingamento. E todo mundo sabe que é exatamente o contrário disso que é a vida de verdade.

- O quê? o Alf falou.

- Amor, o Bloom falou. Ou seja, o contrário do ódio." (p. 534)


AHAS VERUS

Deixei para o final da postagem, uma questão que me deixou impressionado, uma coincidência danada o que aconteceu comigo, coisas que só acontecem com quem lê, com leitores.

Dias atrás, decidi ler mais um livro de poesia em voz alta, como fiz ano passado com A rosa do povo, de Drummond. Defino quantos poemas vou ler por dia e quantos dias pra ler o livro. A cada dia, escolho um dos lidos e gravo a leitura em vídeo.

Fui até a estante e escolhi a esmo o autor que iria ler. Escolhi Castro Alves e o livro Espumas flutuantes, de 1870, uma edição velha velha que tenho. O livro está se desfazendo ao ler. Comecei a leitura dia 10 de agosto e termino o livro amanhã, dia 20.

Num dos dias, escolhi para gravar o poema "Ahasverus e o gênio" (ver aqui). Como o livro tem notas explicativas, tomei conhecimento sobre a personagem. Cito a nota da minha edição do livro:

Ahasverus: "um dos diversos nomes pelos quais é conhecido o judeu errante, condenado a errar pelo mundo, sem lugar para descansar, por ter negado descanso a Jesus na porta de sua casa, quando este caminhava ao Calvário." (ALVES, 1997, p. 163)

Ao ler dias depois um dos desafetos de Leopold Bloom chamando ele de Ahas Verus, fiquei impressionado com a coincidência! Tanto meu entendimento foi perfeito na leitura de Ulysses, quanto ficou melhor meu entendimento do poema de Castro Alves.

Fiquei muito feliz pela coincidência. A leitura nos traz conhecimento! Isso já aconteceu comigo inúmeras vezes durante as leituras.

É isso! Seguimos sobrevivendo à pandemia, à destruição trágica do Brasil após o golpe e aprendendo algo novo todos os dias, tentando ser uma pessoa melhor em todos os sentidos.

William


Bibliografia:

ALVES, Castro. Espumas Flutuantes. O Estado de São Paulo/Klick Editora, 1997.

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Retrato do artista quando jovem, James Joyce



Refeição Cultural

De maneiras distintas, planejadas ou por acaso, as leituras diárias de livros seguem acontecendo em minha vida, felizmente. Terminei a leitura de Retrato do artista quando jovem (1916), do escritor irlandês James Joyce.

Este livro não estava em meus planos de leitura atual. A edição que tenho estava lá, quietinha na estante, comprada em um sebo por 7 reais há muito tempo. Aí um amigo me convidou para lermos juntos Ulisses (1922). Eu havia lido esse clássico duas décadas atrás, na tradução de Antônio Houaiss. Topei reler o clássico joyceano. (Houaiss adotou o nome com "i" e Galindo com "y")

Meu amigo Sérgio Gouveia me deu de presente a bela edição de Ulysses, traduzida por Caetano Galindo. Começamos a ler a obra, mas como usa acontecer na leitura por prazer, às vezes as questões do cotidiano de vida nos pegam pelo caminho e não conseguimos seguir na leitura. Comigo já aconteceu isso dezenas de vezes.

Meu amigo não está conseguindo se dedicar no momento à leitura do Ulysses e com isso vou avaliar se sigo adiante ou não. Já li mais de 400 páginas da edição e provavelmente vou terminar a leitura.

Da releitura de Ulysses (uma leitura gera outras), reli alguns contos de Dublinenses (1914) e acabei pegando o livro que nos apresenta o jovem Stephen Dedalus, personagem no Ulysses de Joyce que representa Telêmaco, filho do herói Ulisses, da Odisseia de Homero, obra referência para o clássico joyceano. Leopold Bloom e Molly Bloom completam o trio moderno na reinterpretação da odisseia grega.

STEPHEN DEDALUS, ALTER EGO DE JOYCE

"- Olha aqui, Cranly - disse ele. - Tu me perguntaste o que eu faria e o que eu não faria. Vou te dizer o que farei e o que não farei. Não servirei aquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja: e vou tentar exprimir-me por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para a minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e sutileza." (p. 244)

Aí está uma coisa que realmente Joyce decidiu fazer na vida e fez: exprimiu-se de modo tão inovador e tão livremente em relação à arte literária que produziu romances com técnicas e linguagens que marcaram a literatura mundial a partir dos anos vinte do século passado.

Como disse no início da postagem, seja de forma planejada ou por acaso, da sugestão de releitura do Ulysses, acabei lendo a Odisseia em versos. Da Odisseia, li 3 clássicos gregos - Prometeu Acorrentado, Édipo Rei e Antígona. E finalmente conheci o romance - Retrato do artista quando jovem - que apresenta o jovem Dedalus, uma espécie de alter ego do próprio autor.

Seguimos lendo e buscando na cultura alguma satisfação nesse momento existencial de tanta tragédia como vivemos no Brasil, destruído por um golpe de Estado em 2016, golpe tão devastador ou mais que os efeitos da pandemia mundial de Covid. Após Temer e Bolsonaro, é como se o país tivesse sido queimado e jogado sal para que nada mais voltasse a germinar um dia. 

Espero que possamos recomeçar após a passagem desse mal no Brasil, mal causado pelo capitalismo e pelo imperialismo, mal que destruiu o nosso mundo, matou o nosso povo e tirou de nós as condições de nos refazermos para o futuro.

William



Post Scriptum (30/10/21): assisti ontem ao filme Retrato do artista quando jovem (1977), de Joseph Strick, uma adaptação ao livro de Joyce. Enfim, começo a ler e ver as diversas obras adquiridas décadas atrás e guardadas em casa. A adaptação do diretor foi bem fiel ao livro, não foi uma daquelas adaptações psicodélicas que alguns diretores fazem de obras clássicas. Novamente, causou revolta as cenas de violência contra alunos por parte do sistema educacional: ajoelhar no meio da sala, espancar as crianças com palmatória etc. Outra coisa que me chamou atenção são as cenas de pregações de religiosos aterrorizando fiéis a respeito dos pecados, dos mandos de deus e dos martírios eternos do inferno. Que foda isso! Eu me lembro perfeitamente disso em minha infância e adolescência como jovem que acreditava nessas abstrações humanas. E pensar que isso move o mundo e as sociedades desde que o homo sapiens é homo sapiens...


Bibliografia:

JOYCE, James. Retrato do artista quando jovem. Tradução de José Geraldo Vieira. Ediouro/92340, 1987.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Ulysses - Lestrigões (O Almoço)



Refeição Cultural

Depois de uma semana sem ler os três livros para os quais estou empenhado na leitura - Ulysses (James Joyce), Odisseia (Homero) e O Verdadeiro Criador de Tudo (Miguel Nicolelis) - retomei a leitura de Joyce nesta manhã de quinta-feira 27.

Durante a pausa, li obras menores, livros pequenos, alguns clássicos. Da mitologia grega, li Prometeu Acorrentado, supostamente de Ésquilo (ler postagem aqui), Antígona, de Sófocles (comentário aqui) e Édipo Rei, de Sófocles (ler aqui); li um conto belíssimo de Saramago, A ilha desconhecida (ler aqui); li duas narrativas do francês Honoré de Balzac (aqui) e li narrativas curtas de Jack Kerouac, líder da geração Beat (comentário aqui). 

De verdade, foi bem melhor ter lido isso que ler ver ouvir as merdas da política genocida de meu país. A pandemia não terá fim no Brasil - não temos vacina nem medidas restritivas - e as mortes oficiais chegam perto dos 500 mil humanos (são mais de um milhão de mortos por problemas respiratórios: Covid-19 + Síndrome Respiratória Aguda Grave, SRAG); nossas vidas não valem um tostão furado - morremos a qualquer minuto -; a CPI sobre a pandemia não vai dar em nada contra o clã miliciano e a "boiada segue passando" e não teremos mais os ecossistemas brasileiros - seremos um deserto continental - e sem empresas públicas.

2023 - Eu não acredito que Lula será presidente do Brasil em 2022 (se é que haverá eleições). Lula presidente seria possível se a política não tivesse sido destruída pelo golpe de Estado e se o processo de construção do ódio não tivesse sido um sucesso e gerado uma cultura de banalidade do mal e nazifascismo no país... a anomia, a violência e a miséria vão longe por aqui, e com apoio popular e dos manipuladores da casa-grande. 

A esquerda não compreendeu ainda o mundo paralelo no qual vive parte considerável do povo deste país. Só o regime no poder tem acesso a essa parte da população. Estamos falando de dezenas de milhões de animais humanos.

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ULYSSES

"Deteve-se de novo e comprou da velha das maçãs dois bolinhos por um tostão e partiu a massa quebrantável e jogou os fragmentos no Liffey. Está vendo? As gaivotas adejaram silenciosas, duas depois todas, de suas alturas, caindo sobre a presa. Foi-se. Cada migalhinha." (p. 293)


No capítulo que li hoje, "Lestrigões", Bloom saiu da redação do Freeman onde trabalha como publicitário e estamos na hora do almoço. O capítulo teve muito fluxo de consciência e diálogos com pessoas na rua e em ambientes internos.

Teve uma passagem com pombas que me lembrou da música dos Mamonas Assassinas... muito engraçado!

"Diante da imensa porta alta da casa do parlamento irlandês um bando de pombos voou. Sua festinha depois das refeições. Em quem é que a gente vai fazer? Eu fico com o sujeito de preto..." (p. 306)

O sujeito de preto que a pomba escolhe é o Leopold Bloom, que está assim porque esteve no funeral de Paddy Dignam às 11 horas da manhã.

Aí me lembrei dos belos versos dos Mamonas:

"As pombas quando avoam/ por incrível que pareça/ ficam sobrevoando/ com seu cu amirando/ em nossas cabeças..." (Mundo Animal)

O TEMPO NO FLUXO DE PENSAMENTO E O TEMPO LINEAR DA LEITURA

Tem uma questão interessante. Eu gastei uma hora para ler o que o Bloom diz que foram cinco minutos. Essa é uma questão dos diversos tempos das narrativas que os críticos explicam.

"O Dignam levado no carrinho. A Mina Purefoy barriga inchada numa cama gemendo pra arrancarem uma criança de dentro dela. Nasce um a cada segundo em algum lugar. Outro morre a cada segundo. Desde que eu dei comida pras gaivotas cinco minutos. Trezentos bateram as botas. Outros trezentos nasceram, lavando o sangue, todos são lavados no sangue do cordeiro, balindo méééééé." (p. 309)

Bloom alimentou as gaivotas lá na página 293. Gastei uma hora de leitura.

O capítulo foi fascinante. Bloom faz críticas a diversas coisas. Pensa a respeito da quantidade de filhos que os irlandeses fazem. Critica cardápios de comida vegetariana e nessa parte é interessante ele associar a alimentação sem carnes a maior facilidade para versejar, pensando ser impossível para um comedor de carnes brutamontes fazer versos. Na parte que cito abaixo, ele está falando da comida vegetariana dos poetas e literatos.

"A meia dela está frouxa no tornozelo. Eu detesto isso: de uma falta de gosto. Esse pessoalzinho literário etéreo todos eles são. Sonhadores, nebulosos, simbolísticos. Estetas é o que eles são. Eu não ia ficar surpreso se fosse aquele tipo de comida que produz o seu igual ondas do cérebro o poético. Por exemplo um daqueles policiais suando cozido irlandês na camisa; não dava pra espremer nem um versinho de poesia dali. Não sabem nem o que é poesia. Tem que estar num certo humor." (p. 311)


Essa parte abaixo mereceu até uma foto minha apontando o mindinho pro céu... achei legal a cena.

"Deu meiavolta e, parado entre os toldos, estendeu a mão direita com o braço esticado para o sol. Sempre quis tentar isso. É: completamente. A ponta de seu dedo mínimo apagava o disco solar. Deve ser o foco onde os raios se cruzam..." (p. 312)

Acabei comendo um pão com queijo e mostarda após ler o Bloom comendo seu lanche assim.

Bloom ainda ajuda um jovem cego a atravessar a rua.

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Como disse nas outras postagens da leitura do Ulysses, na tradução de Caetano W. Galindo, estou tendo um aproveitamento muito melhor desta vez em relação à compreensão que tive na leitura duas décadas atrás, na tradução de Houaiss.

A leitura da postagem sobre o capítulo anterior pode ser feita aqui.

Abraços, amig@s leitores.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


sexta-feira, 21 de maio de 2021

Odisseia (Homero) - Encontros no inferno (XI)



Refeição Cultural

"   Três vezes ao materno simulacro
Fui me abraçar, três vezes dissipou-se
Igual ao vento leve ou sono alado.
Mágoa pungiu-me acerba: 'A meus desejos
Te esquivas, minha mãe? Ao colo os braços,
Ambos nos deleitássemos de pranto
Pela casa Plutônica! És vácuo espectro,
Pela augusta Prosérpina enviado
Para agravar meus ais? - 'Não', contestou-me,
'Filho amado, oh!, misérrimo dos homens,
Não te engana a de Júpiter progênie;
É nossa condição depois da morte:
Os nervos carnes e ossos não mais ligam,
A fogueira os consome irresistível;
Tanto que a vida os órgãos desampara,
A alma como visão remonta e voa.
Quanto antes volve à luz, e tudo aprendas
Para à casta Penélope o narrares.'
" (LIVRO XI, v. 151-169, p. 210/211)


Hoje, li o Canto ou Livro XI da Odisseia, de Homero, na tradução de Odorico Mendes, em bela edição a cargo do Antonio Medina (Edusp), com ilustrações de Enio Squeff.

Nesta parte da epopeia de Odisseu (Odisseia), ele narra aos Feácios sua passagem pelo Hades (Inferno). Acho que ir ao inferno atrás de informações ou resolver alguma coisa deve ser complicado porque eu custei a ler o canto, foram quase duas horas. Até pesar o olho pesou. Deve ser coisas do inferno.

Odisseu (Ulisses em latim) vai em busca do adivinho tebano Tirésias para saber sobre sua volta para Ítaca. Lá encontra diversos heróis gregos como Aquiles, Agamêmnon e Ajax. Encontra também sua mãe. A cena que citei acima é muito bonita e triste.

Estava pensando enquanto lia a Odisseia, que vou ler as outras epopeias clássicas. Vou ler a Ilíada em seguida, também na tradução de Odorico Mendes. E depois da Ilíada, vou ler a Eneida, de Virgílio, na tradução de nosso maranhense também: consegui encontrar o livro e o comprei. 

Depois dessa trilogia Ilíada, Odisseia, Eneida, vou ler A divina comédia, de Dante Alighiere. Até hoje só li "O Inferno" e não li as outras duas partes da obra.

Aliás, a passagem de Ulisses pelo Hades nos lembra muito "O Inferno" de Dante.

Repito o que tenho refletido a respeito da vida e dos seres humanos que habitam o planeta Terra: essa vida sob pandemia mundial de coronavírus, sob a desgraça do bolsonarismo no Brasil e caminhando para o fim da vida na Terra sob a hegemonia do capitalismo não tem sido uma vida feliz e plena. A leitura é uma forma de achar razões para seguir, assim como as pessoas que amamos nos dão razões para viver.

Sigamos lendo, tentando não morrer de Covid-19 ou outras mortes severinas e amando as pessoas que amamos. A postagem anterior sobre a Odisseia está no link aqui.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


segunda-feira, 17 de maio de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses no Hades (X)



Refeição Cultural

"A augustíssima ninfa respondeu-me:
'Divo astuto Laércio, constranger-vos
Não quero; mas convém baixeis primeiro
De Prosérpina e Dite à feia estância
O vate a consultar cego Tirésias,
Único morto a quem a infernal Juno
O saber e o pensar tem conservado,
Não sendo os outros mais que aéreas sombras'." (LIVRO X, v. 363-370, p. 202/203)


ULISSES VAI AO INFERNO

O herói grego Odisseu (Ulisses em latim) está contando aos Feácios suas atribulações e desventuras após o fim da Guerra de Troia e de como não conseguiu retornar a sua bela Ítaca. Estou no Canto X da Odisseia, de Homero, na magnífica tradução do maranhense Odorico Mendes.

Circe sugere que Ulisses vá para o Inferno... Explico: a augusta ninfa Circe diz a Ulisses que desça ao Hades para consultar o sábio adivinho tebano Tirésias, para que o herói seja bem sucedido em sua jornada de volta para casa, Ítaca, onde o esperam a esposa Penélope e o filho Telêmaco.

O professor Medina, responsável pela edição que tenho da Odisseia, publicada pela Edusp, colocou uma nota tão importante nesta parte do canto que vou reproduzi-la abaixo. Ela ensina e esclarece muita coisa. Inclusive sobre o Ulysses, de Joyce, que estou relendo ao mesmo tempo em que leio a epopeia homérica.

É a quarta vez que me sentei para ler o clássico e postar algum comentário sobre ele. A postagem anterior pode ser lida aqui.

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TIRÉSIAS (nota do professor Antonio Medina para a Odisseia, na tradução de Odorico Mendes)

"Tirésias: adivinho tebano, que em jovem fora cegado por Atena, de quem havia revelado um segredo. Outra variante testemunha que a cegueira de Tirésias se deveu a uma vingança de Hera, que o punira porque, convidado a mediar uma discussão entre Zeus e sua esposa, Tirésias teria respondido que a mulher sente mais prazer no sexo do que o homem (Tirésias falava com saber de causa, porque sua natureza andrógina implicava o conhecimento dos dois sexos e portanto dos dois prazeres). Por favor de Prosérpina, conservou seus dons de vidente mesmo no Inferno. É uma das figuras mais vigorosas da história da literatura. Aparece também em Édipo-Rei e Antígona, de Sófocles, em As Fenícias e As Bacantes, de Eurípides, no livro III das Metamorfoses de Ovídio, em Mamelles de Tirésias, de Apollinaire, em Édipo, de André Gide, em The Waste Land de Eliot, e em muitos outros; e a Odisseia, no seu conjunto, conheceu sua mais célebre alegoria no romance Ulisses (1922) de James Joyce, onde se conta não apenas a história de Stephen, de Bloom e da cidade de Dublin em um dia. Bloom é Ulisses, Stephen é Telêmaco, Molly é Penélope (sem as virtudes desta), o Ciclope é um fanático irlandês encontrado numa taberna, Nausica é uma bela moça entrevista fugazmente na praia; algumas sugestões ultraparódicas da Odisseia, realizadas num contexto antiépico e 'irônico' estão em Os Ratos, de Dionélio Machado." (Nota 367 in: Odisseia, Edusp, p. 203)


Amig@s leitores, só lendo muito para suportar a tristeza que sinto perante a realidade brasileira. Eu não tenho como perdoar meus conterrâneos após o advento do bolsonarismo. Não tenho. Sei que sou um ser social, animal homo sapiens etc, mas quase que poderia afirmar que não quero mais saber dos seres humanos. Poucos valem a pena.

Ler é fundamental, ler é uma forma de resistência, é uma forma de sobreviver. Tenho tantas obras pra ler que gostaria de seguir vivendo.

William


Post Scriptum: até esta postagem eu não conhecia os clássicos dramáticos de Sófocles. Agora já conheço alguns. Li Édipo Rei e Antígona. Mais duas lacunas culturais preenchidas.


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


sábado, 15 de maio de 2021

Ulysses - Calipso (A Casa)



(*atualizado às 13h, 17/5/21)

Refeição Cultural

"   Abriu num chute a porta torta da casinha. Melhor cuidar pra não sujar essa calça pro enterro. Ele entrou, curvando a cabeça sob o lintel baixo. Deixando a porta entreaberta, em meio ao fedor da barrela mofada e a teias murchas ele soltou os suspensórios. Antes de sentar espiou por uma frincha as janelas do vizinho. O rei estava em sua tesouraria. Ninguém.
     Acocorado no tamborete ele desdobrou seu jornal virando as páginas em cima dos joelhos nus. Alguma coisa nova e fácil. Sem grandes pressas. Segurar um pouquinho (...)
     Tranquilamente leu, contendo-se, a primeira coluna e, cedendo mas resistindo, começou a segunda. A meio caminho, cedendo suas últimas resistências, ele deixou o intestino se aliviar tranquilamente enquanto lia, lendo ainda paciente, bem curada aquela constipaçãozinha de ontem. Espero que não seja grande demais fazer voltar as hemorroidas...
" (JOYCE, 2012, p. 181/182)


Um simples ato de um mortal humano, uma etapa básica de um dos sistemas constitutivos do organismo do homo sapiens: ingerir, triturar, digerir, defecar. Todo ser humano passa por essas etapas das funções do sistema digestório. Engraçado, a burguesia adora falar filmar divulgar a etapa do comer (o que chega a ser uma afronta em meio a tanta fome no mundo)... e essa mesma burguesia acha coisa de outro mundo a etapa seguinte, quando termina o processo da digestão. Culturas. Abstrações humanas.

Joyce fez seus personagens de ficção mais humanos que os humanos, os mortais humanos. Quase ninguém atenta para seus próprios pensamentos, seus fluxos de consciência. Que dirá contar eles para os outros... a gente pensa tanta merda durante nossas horas de vida. Joyce mostrou para seus leitores os pensamentos de seus personagens. As coisas mais comezinhas do pensar de seus personagens ao longo do dia. Essa é a aventura em Ulysses. É uma leitura diferente, exigente, mas seus personagens são nossa imagem e semelhança. São universais.

Estou relendo o clássico de Joyce após duas décadas da primeira aventura. Está vez, bem interessante e diferente, porque somos outros, eu, o tempo, a tradução, o contexto, tudo. 

Para fazer a aventura mais interessante ainda estou aproveitando para ler em poesia a Odisseia de Homero, na tradução fantástica do maranhense Odorico Mendes, eu só havia lido em prosa, e estou mexendo também com os outros joyces que tenho, relendo os Dublinenses, que já li diversas vezes, e quem sabe eu vá ler também o Retrato do artista quando jovem, que nos apresenta o jovem Stephen Dedalus, o Telêmaco do Odisseu irlandês de Joyce.

Na sequência dos capítulos, já passei por "Telêmaco", "Nestor", "Proteu", "Calipso" e "Lotófagos". São as relações que Joyce faz com a Odisseia grega.

Se eu não estivesse lendo a Odisseia nem saberia por que Joyce nomeou o capítulo segundo de "Nestor". Na epopeia homérica, Nestor é um velho sábio, guerreiro aqueu que lutou ao lado de Ulisses (Odisseu) em Troia e conseguiu voltar são e salvo para sua terra, Pilos. Na Odisseia, Telêmaco sai em busca de seu pai e o primeiro lugar no qual para em busca de informações é em Pilos, terra de Nestor. Como Nestor não tinha informações sobre Ulisses, Telêmaco segue até a terra dos feácios.

Stephen Dedalus já passou pela escola onde leciona, teve aquele diálogo com o reitor que lhe falou o que pensa sobre os judeus; depois Dedalus caminhou pela praia e lidamos com o difícil monólogo interior do personagem. Depois fomos para a casa dos Bloom.

Enfim, seguimos na leitura, seguimos na epopeia da vida, enquanto viajo por Dublin, pela Grécia antiga, viajo pela nossa existência ameaçada pelas diversas formas de mortes severinas, até por um reles vírus ao qual estamos expostos sem vacina, que já existe, mas que não tomamos porque estamos sob um regime político genocida, de homens maus, de bandidos, governantes que optaram por não comprar vacina para o povo, que deve se virar sozinho, sem auxílio de deuses nem de reis (porque nossos conhecidos colocaram eles lá no poder, os canalhas).

William


*Post Scriptum

Achei melhor mudar o título, coloquei "Calipso" no lugar de "Nestor" porque é mais adequado. A sequência da leitura após essa postagem está aqui.


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


segunda-feira, 10 de maio de 2021

Odisseia (Homero) - Ciclope Polifemo (IX)



Refeição Cultural

"    Renovo a taça ardente, que três vezes
Néscio esgotou. Sentindo-o já toldado,
Brando ajunto: 'Ciclope, não me faltes
À promessa. Meu nome tu perguntas?
Eu me chamo Ninguém, Ninguém me chamam
Vizinhos e parentes'. O ímpio e fero
Balbuciou: 'Ninguém, depois dos outros
Último hei de comer-te; eis meu presente'.
" (LIVRO IX, v.276-283, p. 183)


Manhã de segunda-feira, 10 de maio. Antes de lidar com as coisas do cotidiano de uma vida obreiro-retirada brasileira, daqui de minha Osasco-Ítaca, leio o Canto IX da Odisseia, de Homero.

Nos primeiros quatro cantos da epopeia homérica, a "Telemaquia", tomamos conhecimento do que se passa em Ítaca, terra de Odisseu (Ulisses em latim), guerreiro grego que enfrentou os troianos e muitos anos após a vitória ainda não havia retornado para sua esposa Penélope, seu filho Telêmaco e seu reino. Telêmaco sai em busca de notícias de seu pai. Ver postagem sobre essa leitura aqui.

Nos cantos seguintes, de V a VIII, soubemos de Ulisses, cativo da ninfa Calipso. Em uma assembleia dos deuses do Olimpo, decide-se que a ninfa deve deixar o grego partir. Em uma jangada ele parte, Netuno (Poseidon) fica puto com tudo isso e dificulta as coisas para o herói. Mas ele é salvo de novo pela deusa Palas Atena (Minerva). O herói vai parar na ilha dos Feácios, donde está agora nos cantos que começo, do IX adiante. Fiz uma postagem sobre essa leitura: ver aqui.

O canto IX é uma das passagens mais empolgantes da Odisseia porque os gregos irão enfrentar o gigante ciclope Polifemo. A coisa é violenta e sanguinária. As cenas nada ficam a dever em relação ao anime Ataque dos Titãs (Shingeki no Kyojin). Esse ainda não assisti, mas está na fila dos animes a ver.

As cenas são fortes... (tirem as crianças da frente da postagem).

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"Ei-lo, sevo e em silêncio, a dois agarra,
No chão como uns cãezinhos os machuca,
E o cérebro no chão corre espargido;
Os membros rasga, e lhes devora tudo,
Fibra, entranha, osso mole ou meduloso,
Qual faminto leão...
" (LIVRO IX, v.218-223, p. 181)

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É forte a cena, heim! (No vídeo, no final, eu confundi e falei "Canto V", mas na verdade é Canto IX, sorry!)

Depois, quando Ulisses usa de suas artimanhas para enfrentar o gigante, vamos ver outra cena forte. O ciclope ficou bêbado após Ulisses lhe oferecer vinho e ao dormir assim chapadão soluça e vomita pedaços dos guerreiros comidos. Amig@s, isso foi escrito há milhares de anos!

Enfim, estou lendo a Odisseia em versos, na tradução fantástica do maranhense Odorico Mendes, em edição belíssima a cargo do professor Medina, da FFLCH, mestre já falecido, mas que tive o privilégio de ser aluno nas aulas de literatura grega.

Leiam, amigas e amigos leitores, porque leitura é uma forma de alimento d'alma, de nosso ser, já que nossa essência está na absorção das experiências que acumulamos ao longo da vida. Minha leitura da Odisseia é motivada pela minha releitura de Ulysses, de James Joyce, já que o clássico da Literatura Irlandesa tem como referência o clássico grego.

William



Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).

sábado, 8 de maio de 2021

Ulysses - Telêmaco (A Torre)



Refeição Cultural

"- Quanto, senhor? perguntou a velha.
- Um quartilho, Stephen disse.
Ele a observou que vertia na medida e dali para a jarra gordo leite branco, não seu. Peitos velhos mirrados. Verteu de novo uma medida e uma quebra. Secreta e velha, entrara vinda de um mundo matinal, quem sabe uma mensageira. Louvava a virtude do leite, vertendo. Agachada ao lado de uma vaca paciente na aurora do campo opulento, uma bruxa em seu cogumelo, velozes os dedos enrugados nas tetas que espirravam. Mugiam em volta dela, sua conhecida, gado sedosorvalhado. Seda da grei e pobre velhinha, nomes que ganhara nos tempos antigos. Uma velhusca errante, forma rebaixada de um imortal servindo seu conquistador e seu alegre traidor, ambos adúlteros seus, ela, núncio da manhã secreta. Servir ou vergastar, ele não sabia dizer qual: mas desdenhava implorar seu favor.
" (p. 111)


Neste sábado, iniciei minha epopeia joyceana e embarquei no clássico Ulysses (1922). Começamos a vivenciar o dia 16 de junho de 1904 em Dublin, Irlanda, às 8 horas da manhã, junto a Stephen Dedalus, Leopold Bloom e Molly Bloom.

A cena inicial é na torre, vendo a baía de Dublin lá embaixo. Aparecem os personagens Buck Mulligan, Stephen Dedalus e Haines. O último deles, um inglês, curioso com os seus colonizados. Mulligan cita a famosa cena da mãe de Dedalus, que morreu sem ter seu pedido atendido pelo filho, de ajoelhar e rezar junto ao seu leito de morte. Após o café da manhã, sorvido com o bom leite gordo da cena que citei acima, Dedalus vai para seu trabalho, para a escola onde leciona.

Na escola, uma cena chama a atenção dos leitores: a questão judaica, o preconceito e a raiva evidente que se têm dos judeus, vistas durante o diálogo entre Dedalus e o diretor Deasy. (basta lembrarmos que Joyce escreveu Ulysses na década de 1910. A Europa viveu no período o morticínio da 1ª Guerra e a questão antissemita era um forte traço da época e do mundo ocidental)

Que dizer então do preconceito contra as mulheres? A fala de Deasy sobre as mulheres é pavorosa! Todos os males da humanidade seriam por culpa delas.

"O senhor Deasy baixou a cabeça e segurou por um momento as narinas beliscadas entre os dedos. Erguendo novamente os olhos ele as libertou.
- Eu sou mais feliz do que o senhor, ele disse. Nós cometemos muitos erros e muitos pecados. Uma mulher trouxe o pecado ao mundo. Por uma mulher que não valia um merréis de mel coado, Helena, a esposa fujona de Menelau, por dez anos os gregos guerrearam contra Troia. Uma mulher infiel trouxe os primeiros estrangeiros aqui às nossas praias, a esposa de MacMurrough e seu amásio O'Rourke, príncipe de Breffni. Uma mulher também derrubou Parnell. Muitos erros, muitos fracassos mas não o único pecado. Eu sou um lutador já no fim dos meus dias. Mas vou lutar pelo que é certo até o fim.
" (p. 138)

Parei a leitura da manhã para descansar um pouco e tomar um café. Vou terminar ainda neste sábado à tarde o capítulo 3 - "Proteu" - com o monólogo de Stephen na praia. Já li o capítulo 2 - "Nestor" - que se passa na escola.

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Terminei a leitura do Capítulo 3 por volta das 16 horas. O monólogo interior de Stephen Dedalus foi a parte mais difícil da leitura. 

"Será que eu estou caminhando para a eternidade pela praia de Sandymount? Esmaga, esmigalha, estraga, estrala..." (p. 141)

De fato, ao sair para dar uma corrida, fiquei tentando perceber tudo o que pensamos e é uma loucura, desde o momento em que começamos a prestar atenção até o momento em que não conseguimos acompanhar mais o próprio fluxo de pensamento. Nós somos uns bichos muito esquisitos.

"Que saco essa máscara e esses óculos embaçados. Mas elevador é um dos locais com maior risco de se contrair o vírus maldito... Está friozinho... Não acho que vai chover. Vamos pro lado do Parque... Puta trânsito! Meu, e pensar que já estava correndo 15K e agora voltei a custar correr 5K, que merda isso..."

Dedalus anda pela praia, observa o que acontece ao redor, pensa em eventos do trabalho (a carta do diretor), da família (indo à casa da tia Sara), pensa em si próprio. 

Fiquei pensando também na questão do tempo na literatura. O primeiro capítulo se passa a partir das 8 horas da manhã. Stephen toma café, sai para a escola, dá aula, conversa com o diretor e recebe seu pagamento, e anda pela praia. Iria à casa da tia, mas quando dá por si, já tinha passado do ponto andando pela praia, divagando em seus pensamentos.

Em literatura temos técnicas que aceleram e que retardam o tempo nas narrativas, temos cenas e sumários, temos reminiscências etc. E temos autores que inovam em técnicas narrativas. O monólogo interior ou fluxo de pensamento é uma técnica bastante sofisticada.

"Depositou a meleca seca retirada da narina em uma ponta de pedra, cuidadosamente. De resto olhe quem quiser." (p. 159)

Enfim, o capítulo termina com Stephen tirando meleca do nariz. E disse que não ligava se alguém visse, mas olha imediatamente pra trás preocupado com alguém ver o que acabara de fazer.

Odisseia em andamento (a minha), já que as duas odisseias estão em andamento, a do Odisseu grego (Ulisses) e a do Odisseu irlandês.

William


Post Scriptum: a sequência da leitura está na postagem aqui.


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


quarta-feira, 5 de maio de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses e os Feácios (V a VIII)



Refeição Cultural

"   'Despede-o já', replica-lhe Mercúrio;
'Nunca irrites a Júpiter, nem queiras
Irado experimentá-lo.' Disse, e foi-se.
     Dócil, a ninfa se dirige à praia
Onde Ulisses longânimo gastava
A doce vida, os olhos nunca enxutos,
Saudoso e enfastiado, pois com ela
Por comprazer dormia constrangido.
E gemebundo, o ponto contemplando,
Passava o dia em litoral penedo.
Rosto a rosto lhe fala a deusa augusta:
'Cesse o pranto, infeliz, não te consuma
Parte, consinto. Abate a bronze troncos
De alto soalho ajeita ampla jangada,
Em que o sombrio páramo atravesses:
De pão te hei de prover e de água e vinho,
De agasalhada roupa; auras favônias
Te levarão seguro à terra cara,
Se esta for dos Supremos a vontade,
Que em saber e juízo me superam'.
" (LIVRO V, v.108-127, p. 128/129)


Nesta quarta-feira, dediquei minhas horas de leitura ao clássico de Homero, a Odisseia. Depois dos primeiros 4 cantos (ler comentário aqui), a "Telemaquia", desta vez li os cantos de V a VIII, que tratam do contato e recepção dos Feácios a Ulisses, após este partir da ilha de Calipso, onde estava retido.

Ao ler a passagem acima, me lembrei da "Introdução" ao Ulysses, de James Joyce, um texto magnífico do intelectual Declan Kiberd, texto que abre a edição que ganhei de meu amigo Sérgio Gouveia. Vamos começar a leitura nos próximos dias. 

O Ulisses grego é o dócil herói que Joyce decidiu ter por modelo para o seu Bloom, um "homem feminil" como diz Kiberd. Nestes cantos que li hoje o Ulisses é um "chorão", alguém emotivo e saudoso de sua bela Penélope, seu filho Telêmaco e sua Ítaca.

À medida que vou lendo o clássico homérico vou me lembrando das aulas que tive na universidade. O papel das narrativas épicas na cultura do povo grego é muito interessante: a forma como os gregos lidavam com os mitos, os deuses gregos com suas características humanas (antropomorfismo), as tradições e costumes, enfim, tudo volta à memória com a leitura da epopeia.

A leitura do clássico grego ao tempo em que vou ler o Ulysses de Joyce é uma estratégia que tende a enriquecer ambas as leituras e torná-las muito mais agradáveis e cheias de sentido.

É isso. Viajar nos clássicos enquanto não podemos viajar na vida real é uma forma de resistência ao momento em que vivemos: um mundo sob pandemia mundial de Covid-19 e o Brasil sob uma pandemia trágica de bolsonarismo, a banalidade do mal.

Se tiverem que preencher seus tempos ociosos, leiam os clássicos, dividam seus tempos dedicados a outras formas de cultura deixando um bocadinho para a leitura de obras que impactaram e influenciaram a história da cultura humana.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


sexta-feira, 30 de abril de 2021

Odisseia (Homero) - Telemaquia, Livro I a IV



Refeição Cultural

"Já farta a vista, em limpa cuba os lavam
E ungem de óleo as escravas, que, em felpudos
Albornozes, e túnicas macias,
Do soberano a par os apoltronam.
De gomil de ouro às mãos verte uma delas
Água em bacia argêntea, a mesa lustra,
Que enche a modesta afável despenseira
De pães e das presentes iguarias;
Escudelas de várias novas carnes
O trinchante apresenta e copos de ouro.
Dá-lhes a destra e fala Menelau:
'Comei, saboreai; depois da ceia,
Saberemos quem sois. De escura estirpe
Certo não vindes, mas de heróis cetrados:
Gérmen vil não rebenta em plantas nobres'.
" (LIVRO IV, v.36-50, p. 104)


Nesta quinta-feira, 29 de abril, comecei a leitura da Odisseia, de Homero. Estou centrado na leitura dos clássicos da literatura mundial e esta obra atribuída ao aedo Homero podemos considerá-la como o clássico dos clássicos. Deu um trabalhão chegar aonde queria chegar na leitura do dia - os 4 primeiros cantos ou livros, também chamados "Telemaquia" -, mas cheguei. Estou focado nos meus objetivos literários.

A escolha da Odisseia como uma das leituras da vez teve um contexto, como quase tudo na vida. Um acaso que leva a outro, veredas que escolhemos e seguimos. 

Quando li Moby Dick, nas últimas seis semanas, um amigo decidiu ler o clássico de Melville também. Ao terminarmos, ele me propôs lermos Ulisses, de Joyce. Topei. Vamos viajar por Dublin e pela linguagem joyceana nas próximas semanas. Para incrementar minha releitura de Ulisses, resolvi ir à fonte de referência e inspiração do escritor irlandês: a Odisseia. E em versos, que não é tarefa fácil. Eis porque Homero foi o desafio linguístico do dia e dos próximos dias.

Desde que passamos a viver sob a condição de isolamento social e perda da normalidade no cotidiano de nossas vidas, com a pandemia mundial de Covid-19, passei a perseguir com um pouco mais de firmeza o meu desejo de ler uma centena de obras clássicas. A primeira leitura de peso dessa fase pandêmica foi a leitura do Decameron, de Giovanni Boccaccio, de 1353. Foram mais de 800 páginas. Li uma narrativa por dia, em cem dias. Depois fui lendo outros clássicos e não clássicos. E aqui estou com mais uma empreitada literária.

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ODISSEIA

Li os 4 primeiros cantos da Odisseia na tradução de Odorico Mendes e numa edição especialíssima da Edusp a cargo do professor Antonio Medina Rodrigues. Poderia dizer que li a "transcriação" do nosso tradutor maranhense, como diz o crítico e poeta Haroldo de Campos. O professor Medina nos diz que os 4 cantos iniciais podem ser chamados de "Telemaquia" porque têm o jovem Telêmaco como objeto. Telêmaco vai voltar lá no Canto XV.

A leitura não é fácil. É um tremendo exercício para meus 86 bilhões de neurônios que atuam em conjunto dentro do cérebro - O verdadeiro criador de tudo -, como nos explica em livro o neurocientista Miguel Nicolelis (estou lendo o livro).

Uma das coisas que me chamam a atenção desde a época das aulas sobre a cultura grega é a forma de tratamento aos forasteiros, aos outros. Primeiro, as pessoas eram acolhidas em casa, tinham suas mãos e pés lavados, eram alimentadas e só depois disso é que se perguntava aos forasteiros quem eram, de onde vinham, o que queriam, como se poderia ajudá-los. Na Odisseia esse traço cultural aparece a todo momento (veja na citação acima).

CAVALO DE TRÓIA

O herói Ulisses (Odisseu no original em grego) será imortalizado na cultura mundial, assim como outros heróis gregos (Ajax, Aquiles etc). Uma passagem bastante clássica é uma referência sobre o Cavalo de Tróia, uma ideia do nosso herói Ulisses, o "engenhoso". Nesta passagem abaixo, Menelau fala com a esposa, Helena, sobre o engenho de Ulisses. Helena é aquela tida como responsável pela guerra entre gregos e troianos.

"O marido aplaudiu-a: 'Sim, consorte,
Muito hei peregrinado, heróis vi muitos;
Paciente, engenhoso, e forte e sábio,
Quando ideou, quanta mostrou constância,
No cavalo artefato, em que os melhores
Clade e exício aos Trojúgenas levamos!...
" (LIVRO IV, v.210-216, p. 109)

A linguagem poética não é simples porque não é prosaica e por diversos outros motivos. Mas com um pouco de esforço, os leitores conseguem vencer a barreira linguística e seguir adiante. Muitos livros têm notas explicativas que ajudam bastante. Esta edição a cargo do professor Medina tem notas muito boas.

Demorei quase uma hora por canto ou "livro", sério mesmo! Mas fiz a leitura do jeito que acho ideal. Lia em voz alta, relia. Só o Canto IV foi mais truncado, porque o dia avançava e tive muitas interrupções, aí ficou mais difícil.

Enfim, seguimos nas leituras clássicas.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).