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segunda-feira, 16 de março de 2026

Vendo filmes (XXXIV)



Refeição Cultural

A EFEMERIDADE DA VIDA HUMANA


Quatro filmes me deixaram pensativo nesses dias, quatro filmes muito diferentes em suas temáticas e enredos, mas que me chamaram a atenção para uma questão: a efemeridade da vida humana. 

As histórias do professor Marcelo ("O agente secreto"), do lenhador Robert ("Sonhos de trem") e do autor de peças teatrais William ("Hamnet") são histórias de todos nós, homens e mulheres do mundo, de hoje e de ontem. 

A história do andarilho Chris McCandless ("Na natureza selvagem") é a história de pessoas que não se encaixam na sociedade humana dominada pela lógica da posse supérflua de coisas, coisas e mais coisas, mercadorias inúteis do fetiche capitalista. 

Uma história se passa nos anos setenta, durante a ditadura no Brasil, outra se passa um século antes, ainda na expansão para o Oeste, nos Estados Unidos, e uma terceira se passa lá na Inglaterra, séculos atrás. 

A história do jovem McCandless é a mais recente, é do tempo da minha adolescência, no início dos anos noventa do século XX. 

O que é a vida humana se a compararmos com a natureza e seus elementos? 

Podemos existir por muito ou pouco tempo, fazer coisas grandes e importantes ou nada de relevância histórica, nossa lembrança pode permanecer por um breve tempo ou por um pouco mais de tempo. No entanto, estamos fadados ao esquecimento, ao desaparecimento. 

A vida e a existência são assim mesmo. E tudo bem. Quer dizer, tudo bem nada! O difícil é aceitar essa nossa pequeneza diante do mundo, da natureza em si.

Ainda estou bolado, pensando nessa questão da efemeridade natural da vida, a partir das histórias das personagens dos filmes. 

Sabedores dessa realidade, deveríamos viver de maneira mais consciente, sorvendo o que importa sem desvios de atenção para coisas irrelevantes. 

E o pior é que não fazemos isso. E a vida passa e não fizemos ou sentimos o que poderia ser feito ou sentido...

A vida é breve, é um instante, mesmo quando se vive algumas décadas... um instante. 

E como estamos vivendo? O que temos priorizado na vida? Já fizemos algo hoje que valha a pena?

Nunca se sabe se ao sair de casa um galho vá cair em nossa cabeça e o fim seja aquele instante. 

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FILMES


O agente secreto (2025)

Direção: Kleber Mendonça Filho. Com: Wagner Moura, Tânia Maria, Maria Fernanda Cândido e elenco.

Sinopse:

Ambientado no Recife, no final dos anos setenta, período de exceção da ditadura no Brasil, o filme conta a história de Marcelo, professor universitário - cujo nome verdadeiro é Armando - que retorna à terra natal após conflitos com um industrial poderoso que paga assassinos de aluguel para perseguir o professor. Marcelo quer encontrar seu filho, que está com os avós, e viver a sua vida e ser feliz.

Comentário:

A cena inicial do filme já me transportou para o passado no qual cresci: policiais bandidos e abusadores tentando receber propina dos cidadãos no cotidiano do Brasil dos anos setenta e oitenta (e ainda hoje). 

Mesmo sendo pobre de pele branca, tomei enquadro dos desgraçados da polícia desde pequeno...

Com os cidadãos afrodescendentes é mil vezes pior, a vida do pobre não vale nada para a polícia da casa-grande: matam o povo periférico mais do que se mata nas guerras. A maioria dos negros e descendentes ocupam as bases da pirâmide social. 

Gostei muito do filme! O que se passou com Armando, ou Marcelo, ser vítima de algum poderoso por qualquer motivo banal, é o retrato do Brasil do passado e do presente. 

Nossa vida pode encontrar o fim só pela casualidade de se cruzar o caminho de um fdp desses, caras do 1% ou do exército dessa casta canalha, que odeia o povo e o Brasil.

Quem nunca ouviu falar do perigo do guarda da esquina... 

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Sonhos de trem (2025)

Direção e roteiro: Clint Bentley. Com: Joel Edgerton, Felicity Jones e elenco.

Sinopse:

O filme conta a história de Robert Grainier, um lenhador do início do século XX nos Estados Unidos, desde sua adolescência, união com Gladys Olding, com quem constitui família, e suas jornadas e ausências de casa para ganhar o sustento cortando árvores centenárias para a construção de trilhos de trem rumo ao Oeste.

Comentário:

De todos os filmes dos quais teço impressões, "Sonhos de trem" é o de maior temática sobre a brevidade da vida, na minha opinião. 

Num instante, estamos e não estamos mais aqui, somos e não somos mais. 

Num instante, uma árvore com centenas de anos de existência perde a vida, morta por uns minúsculos seres com ferramentas cortantes lá no rés do chão. 

Num instante, um galho de uma árvore centenária cai na cabeça de um ser minúsculo lá no rés do chão e lá se vai a vida, num instante. 

Num instante, um incêndio pode por fim a inumeráveis formas de vida... e das cinzas novas formas de vida podem surgir. Outras vidas nunca mais serão as mesmas após um grande incêndio.

Somos natureza, somos seres quase invisíveis em nossas existências, assim somos nós. Robert é uma existência única, sua esposa e filha também, eu e vocês somos existências únicas. 

Todos somos passageiros do mesmo trem, o trem da vida, o trem da brevidade da vida. 

E todos temos nossos sonhos. E os sonhos nos movem por esses trilhos e caminhos...

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Hamnet: a vida antes de Hamlet (2025)

Direção: Chloé Zhao. Com: Jessie Buckley, Paul Mescal e elenco.

Sinopse:

O filme conta a história do casal Shakespeare, o nascimento dos filhos, a morte do filho Hamnet ainda pequeno, e o drama que essa perda trouxe à família. A tragédia inspirou o dramaturgo a escrever uma de suas peças mais famosas, Hamlet.

Comentário:

A interpretação brilhante de Jessie Buckley como Agnes Hathaway, esposa de William Shakespeare, rendeu a ela o prêmio de melhor atriz da Academia em 2026. Incrível sua performance, sem dúvida. O prêmio foi merecido.

No entanto, o filme me levou às lágrimas por uma questão sempre muito pessoal, naquilo que mais toca a cada um de nós: a morte e o sentido da vida. No meu caso, a lembrança do dilema dramático do personagem Hamlet, da clássica peça de Shakespeare. 

Ser ou não ser, eis a questão...

A reflexão completa do personagem é desconhecida por aqueles que ainda não conhecem a peça, Hamlet vive sob intensa dor ao saber das traições em família que levaram à morte seu pai. A dor lancinante aumenta ao ver sua mãe esposa de seu tio.

O filme me trouxe reflexões sobre a brevidade da vida, sobre o ser e estar por aqui ou não, me lembrou a difícil superação de não querer ser e estar por aqui por longos anos e pelas oportunidades surgidas por ter sido e ter estado por aqui nas últimas décadas... ser ou não ser... dormir, acordar, talvez sonhar...

Shakespeare, Hamlet, Hamnet... valem a pena!

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Na natureza selvagem (2007)

Direção: Sean Penn - Trilha sonora de Eddie Vedder

Com: Emile Hirsch (Chris), Jena Malone (irmã), Kristen Stewart ("crush"), William Hurt (pai), Marcia Gay Harden (mãe), e elenco. 

Sinopse:

Christopher McCandless, filho de pais ricos, se forma na Universidade de Emory como um dos melhores estudantes e atletas. Porém, ao invés de partir para uma carreira prestigiosa e lucrativa, ele escolhe doar suas economias para a caridade, livrar-se de seus pertences e viajar rumo ao Alasca.

Comentário:

Quando vi pela primeira vez o filme baseado na história real de Chris McCandless, dirigido por Sean Penn, a partir do livro de Jon Krakauer, fiquei impactado por muito tempo. 

McCandless nasceu um ano antes de mim e no início dos anos noventa estava em sua busca pessoal por liberdade, autoconhecimento e fuga de uma sociedade humana capitalista, toda ela baseada nas posses de coisas, coisas, coisas. Ele estava de saco cheio de relacionamentos humanos tóxicos e interesseiros e queria se isolar na natureza selvagem do Alasca. 

Na mesma idade e na mesma época, eu procurava respostas para as mesmas perguntas.

Ao rever o filme duas décadas depois, já sabendo da descoberta feita por "Alex Supertramp", o nome que McCandless adotou em seus tempos de andarilho, fiquei pensando em muitas coisas, muitas. 

A lição a respeito da felicidade verdadeira ser alcançada através dos relacionamentos humanos, algo que Chris compreendeu a partir da vivência de sua jornada e também pela leitura de grandes autores como, por exemplo, Tolstoi - e o livro "Felicidade conjugal" -, me pegou de jeito desde o instante que tomei conhecimento da história do jovem andarilho.

"Happiness only real when shared"... (é isso mesmo! é verdade isso! e nesse sentido, posso dizer que fui feliz... os momentos mais marcantes de minha vida foram ao lado de alguém)

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É isso, termina aqui mais um texto da série de comentários sobre filmes que me trazem reflexões sobre a vida.

O comentário anterior pode ser lido aqui

William Mendes 

16/03/26

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Lembranças (A busca da felicidade)


A busca da felicidade

- Me lembro que uma das coisas que mais me deixou bolado ao tomar conhecimento da história do jovem Alexander Supertramp - o pseudônimo do norte-americano Chris McCandless, que saiu cortando os Estados Unidos como andarilho com o objetivo de chegar ao Alasca - foi a mensagem que ele nos deixou ao final de sua jornada de busca pela felicidade (ele chegou ao Alasca): "happiness only real when shared". Após dois anos perambulando à margem da sociedade, McCandless descobriu que os momentos de felicidade que mais marcaram pra ele foram aqueles nos quais ele estava com outras pessoas. Na época assisti ao filme sobre sua vida - Na Natureza Selvagem (2008) -, li o livro de Jon Krakauer e ouvi por meses a fio a trilha sonora do filme, feita por Eddie Vedder. Fiquei mals por muito tempo com a história de McCandless. Sua aventura se deu entre os anos 1990 e 1992. Em 2008 eu estava perto dos 40 anos e passei um tempo avaliando minha vida, minhas tristezas e infelicidades, e procurando momentos de felicidade e percebi que Chris tinha razão. Os momentos felizes que vinham em minha memória eram momentos de felicidade compartilhada... eu estava com alguém. Estar feliz sozinho é diferente de estar feliz com alguém.

- Me lembro o tempo todo nos últimos dias da história do jovem Jesse Koz e seu fiel amigo Shurastey, seu cão da raça retriever, e também de seu fusca 1978, o Dodongo. Eu não o seguia, não o conhecia, e acabei tomando conhecimento dessa dupla incrível após a notícia do acidente que tirou a vida deles quase chegando ao Alasca, dias atrás (na segunda-feira 23/5/22). Jesse e seu amigo saíram em uma jornada em busca da liberdade e da felicidade em 2017, após o jovem de 24 anos não aguentar mais a rotina massacrante de trabalhador em loja de shopping center em Balneário Camboriú (SC). A dupla e o Dodongo saíram sem destino e assim foram parar no "fim do mundo", em Ushuaia, na Patagônia Argentina, e de lá começaram a aventura pelos Estados brasileiros e pelos países da América do Sul e Central, até que a pandemia de Covid-19 interrompeu a viagem deles. Lá em Ushuaia, Jesse havia definido seu grande objetivo e destino, o Alasca. Nos últimos meses, eles estavam nos Estados Unidos e quase chegaram ao destino final... 

"Life's a Journey, Not a Destination
And I Just Can't Tell Just What Tomorrow Brings
" (Amazing, Aerosmith)

Pois é, após ver diversos vídeos e momentos dessa jornada, a cabeça da gente lida com um turbilhão de pensamentos sobre a vida. Como diz a música da banda Aerosmith "A vida é uma jornada, não um destino...". Tudo que vi até agora me dá a impressão que esse rapaz e seu fiel amigo mostraram ao mundo do capitalismo e da futilidade de tudo o que pode ser a felicidade e a liberdade tão desejadas por quase todo mundo. A vida é a própria jornada, a própria jornada é a vida e ela pode ser feliz. O que mais vi até agora nos vídeos de Jesse e Shurastey é a felicidade pura e simples... eles foram felizes até o último instante de suas vidas, foram 5 anos de felicidade, mais de 80 mil quilômetros de felicidade. Felicidade compartilhada! Compartilhada inclusive com milhares de pessoas que os seguiam.

- Me lembro que ontem passei o dia pensando em uma forma de buscar alguma mudança na vida. Não rolou nada. Faz meses que estou lidando com uma busca por algo. Interessante que essa busca de algo já dura décadas em minha vida. Até adotei quando era jovem o lema da música "I Still Haven't Found What I'm Looking For", da banda irlandesa U2, como uma espécie de metáfora de minha vida: uma busca de algo que ainda não havia encontrado. Na verdade a gente passa a vida em busca da felicidade, da liberdade, da realização de coisas boas para a nossa vida. Olho pra trás e vejo que fiz coisas boas, e fiz coisas ruins também. Mas que foda! As décadas de existência passaram e me pego neste momento com a mesma busca de toda uma vida... e ainda não encontrei a felicidade. Cheguei a achar que havia achado um sentido, um significado para o viver. Até signifiquei mesmo o viver nas últimas décadas. Mas voltei ao início de toda a busca. Lógico que falo da felicidade sem nenhuma ilusão de uma felicidade permanente. Não estou feliz. Muita coisa faz parte desse sentimento. Não conseguiria ser feliz com a cabeça que tenho hoje, com a miséria e a destruição das pessoas e do mundo como estamos vendo neste momento da história do Brasil e do mundo. Cada um, cada um. Estou infeliz ou triste, ou os dois... mas não desisti. Sigo buscando.

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Não sonhei solução alguma para a minha mudança de estado. Aliás, sonhei com os contextos aos quais vivi e pertenci e já não pertenço mais. Jesse e Shurastey são uma das coisas mais fantásticas que poderíamos conhecer neste momento macabro do mundo e do capitalismo que coisifica tudo.


sábado, 11 de setembro de 2021

Happiness only real when shared



Refeição Cultural

Em maio de 1990, eu fui demitido do Unibanco. Eu estava meio de saco cheio daquele trabalho e daquele lugar. Mandei meu chefe à merda após ele mandar eu me mudar de mesa de trabalho. Achei que era implicância dele e me neguei a mudar de lugar. Zé Fernandes era gente boa, um cara humilde, me demitiu todo sem jeito porque eu exagerei na situação. Eu tinha 21 anos. Hoje eu tenho essa leitura, era um trabalhador assim como eu.

Em setembro de 1992, eu tomei posse de minha vaga concursada no Banco do Brasil. Depois de um período de incertezas, eu me tornava um trabalhador de empresa pública e passava a vislumbrar uma vida um pouco mais estável. Um ano antes, eu havia passado no concurso e após comemorar a conquista, o concurso foi cancelado por fraude de uns filhinhos de papai em Brasília. Só seria bancário do BB se passasse de novo no concurso com um milhão de inscritos. Deu certo. Passei de novo. Eu tinha 23 anos.

Entre a adolescência e a suposta estabilidade do emprego em empresa pública, foram anos de incertezas, revoltas, desilusões na vida. Aprendi inglês pensando em ir embora do país. Pensei o que todo jovem pensava na época, ir para o Japão, trabalhar em outro país. Tentei até trabalhar na construtora Mendes Júnior, na época, e quase fui pro Iraque, mas só tinha vagas de motoristas de caminhão. A família Bush iria bombardear o país tempos depois. Os anos oitenta e noventa foram foda para a classe trabalhadora brasileira.

Essa introdução na forma de lembranças foi para situar coisas que pensei quando conheci a história de Chris McCandless após 2007. A história social dele não tem nada a ver com a minha. Ele era filho de classe média nos Estados Unidos. Tinha caminho aberto para seguir os padrões de sucesso da sociedade capitalista. Mas era jovem contestador e queria outra forma de vida, não o acúmulo de coisas do modelo capitalista.

Um dia a companheira Deise Recoaro, do movimento sindical, me sugeriu assistir ao filme sobre o jovem americano. Quando vi o filme Na natureza selvagem (2007), dirigido por Sean Penn, quando li em seguida o livro de Jon Krakauer - Na natureza selvagem (1996) - e quando passei meses ouvindo as músicas da trilha sonora do filme, produzida por Eddie Vedder, fiquei bolado, fiquei mals, fiquei muito tempo impactado pela história do jovem andarilho Alex Supertramp. 

Ao ler o livro reportagem, me lembrei de minha busca por um lugar ao sol, um lugar na sociedade daqueles anos. McCandless estava justamente fazendo isso entre maio de 1990 e agosto de 1992, quando descobriu e escreveu num livro que "Happiness only real when shared" (a felicidade só é verdadeira/real quando compartilhada). Eu fiquei muito tempo pensando nessa mensagem de McCandless, uma mensagem refletida no meio da solidão do Alasca, preso pelas condições climáticas e sem poder voltar para a sociedade, para as pessoas.

Olhei minha vida em retrospectiva e fiquei pensando sobre os momentos felizes que a gente tem nessa vida dura e normalmente difícil ao longo da maior parte do cotidiano. Apesar de ser apaixonado pela natureza, por montanhas, rios, mato e acampamento, percebi que McCandless tinha razão. Os momentos mais felizes de minha vida tiveram pessoas ao meu lado. Não foram de solidão, não foram. 

Estou pensando muita coisa nesse instante. Revi hoje o filme. Estou emotivo, olhos úmidos. Não devo escrever a outra parte dessa refeição cultural. Ela tem sentimentos de amor, filho, família, amigos, companheirismo de lutas e trabalho. Mas são muito pessoais. 

Mas realmente a mensagem do jovem McCandless - Alex Supertramp - é uma mensagem de sabedoria. Hoje tenho isso claro. 

Felicidade mesmo só é alcançada, só é verdadeira e real quando é compartilhada, até porque somos humanos.

William


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Na Natureza Selvagem - Pais, Filhos e a Felicidade Compartilhada


Refeição Cultural

"Happiness only real when shared" (Chris McCandless)

"A verdadeira felicidade é aquela compartilhada"

Pais e filhos em 2005.
Hoje, um está com 70; 
outro, com a barba branca; 
outro é um jovem.

Neste dia 30 de agosto de 2012 meu querido pai completou 70 anos de vida. Apesar de nossas vidas distantes e complicadas, consegui vê-lo, abraçá-lo e beijá-lo. A interrupção da agenda de negociações com os bancos e a vinda forçada de meu pai a São Paulo por problemas de saúde me permitiram levá-lo ao aeroporto e estar com ele por quase duas horas.

Anteontem, ao pegar o filme Na Natureza Selvagem para meu filho levar para um professor dele, revi quase uma hora de filme e, como sempre, pensei muito na vida (e chorei também).

O jovem Chris McCandless faz (fez) toda uma crítica à sociedade de consumo, dos bens materiais serem mais importantes que tudo, dos pais que brigam e que não são o que aparentam ser. Fiquei o tempo todo vendo o meu passado, o passado do meu pai, o passado do meu filho (apesar de tão jovem).

Meu pai saiu cedo de casa e da família porque queria algo diferente pra ele que não fosse aquela roça onde moravam. Saí da casa de meus pais ainda adolescente talvez porque quisesse fugir daquela miséria também.

Mas saí de casa porque briguei com meu pai, meus pais. E eu era um problema. Fiz meus pais sofrerem muito. Felizmente, ele está vivo hoje e posso beijá-lo. Ele e minha mãe sabem o quanto eu os amo e o quanto são importantes pra mim.

Meu filho está naquela idade pela qual nós já passamos, meu pai e eu. Faz tão pouco tempo e eu já tenho saudade de quando aquele garotinho era próximo a mim. De quando brincávamos de carrinho de ferro no chão. Hoje, praticamente não nos falamos e isso não é incomum nas vidas de todos por aí.

Tive a chance de poder corrigir o que fiz com meu pai e dizer neste dia que ele completou 70 anos: PAI, EU TE AMO!

Eu desejo que meu filho tenha essa chance no futuro.

Desejo que eu tenha essa chance no futuro.


Chris McCandless na busca de sua felicidade. 
Fonte: site sobre ele.

"Happiness only real when shared" - Chris McCandless - (Alexander Supertramp) andou por mais de dois anos pelos Estados Unidos e quando descobriu essa verdade que ele nos deixou, tentou voltar e não deu certo - por uma fatalidade.

Naquela época (1990-92), enquanto McCandless perambulava pelos EUA buscando encontrar a sua verdade e a felicidade, eu também tinha uns 22 anos e já fazia uns cinco anos que havia saído da casa de meus pais. Tivemos muita sorte, meus pais e eu, de estarmos vivos hoje para entender sobre a verdadeira felicidade ser aquela compartilhada.

Se tudo der certo, pois cada dia é um dia na sobrevida atual de minha mãe e de meu pai com tantos problemas de saúde, mamãe completará dia 4 de setembro 66 anos e no dia seguinte eles completarão 48 anos de casados.

Se um dia meu filho ler estas coisas que escrevo aqui, quero que saiba que desejo a ele que tenha a sorte que tive com meus pais. Os pais de McCandless não tiveram a mesma sorte que meus pais. A vida é assim!

William Mendes

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Livro - A morte de Ivan Ilitch - León Tolstói (1886)



León Tolstói - foto da Wikipedia.

Refeição Cultural

Pois é, poderia parafrasear assim a máxima popular: "preenchendo lacunas culturais por vias tortas".

Comprei em 2008 este livro de Tolstói vendo-o por acaso sobre um dos trocentos balcões da feira de livros da FFLCH na USP.

Por acaso, também fiquei sabendo da existência deste livro através da história de Chris McCandless, personagem real inspirador do livro e do filme Na natureza selvagem. Era um dos livros que ele carregava consigo no Alaska.

"Instalado de novo no abrigo corroído do Fairbanks 142, McCandless retomou a rotina de caçar e colher. Leu A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, e O homem terminal, de Michael Crichton..." (Na natureza selvagem, de Jon Krakauer)

Por se tratar de Tolstói, é um romance bem pequeno - pouco mais de 70 páginas (na verdade podemos dizer que é uma novela). É considerado, no entanto, uma das obras mais perfeitas da literatura mundial.

Eu o achei bem triste. Profundo. Bem real. Bastante atual.

Engraçado! Estava hoje pensando na superficialidade e vazio das pessoas e das relações humanas neste mundo pós-moderno: NÃO GOSTO DO QUE VEJO AO MEU REDOR. NÃO GOSTO!

Ivan Ilitch descobriu isso em um momento crítico de sua vida. Sofreu muito com isso.

Sigo buscando o conhecimento. Tentando encontrar a sabedoria todos os dias...

William


Bibliografia:

TOLSTÓI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Boris Schnaiderman. Editora 34. 1ª Edição 2006 (1ª reimpressão 2007)

Leituras sobre Chris McCandless e Tolstói




Refeição Cultural


Ontem, terminei a leitura do livro de Krakauer sobre a aventura de Alexander Supertramp, ou seja, McCandless, o jovem da história "Na natureza selvagem".

Continuo ouvindo a trilha sonora do filme na voz de Eddie Vedder todos os dias.

Fiquei pensando nos livros que ele leu e carregou por suas andanças. Comprei hoje e estou terminando o romance de Tolstói "A morte de Ivan Ilitch", na tradução de Boris Schnaiderman, pela Editora 34.

Tudo bem! Também estou tentando me preparar para a difícil prova de Morfologia que farei em breve (o mesmo que física quântica pra mim).

Também tenho a matéria de Filologia pra fazer um trabalho nos próximos dias.

Estou focando meu objetivo de estar no início de minha caminhada na Espanha em maio do ano que vem.

William


POST SCRIPTUM (2014)

Pois é, a vida e suas surpresas... eu tive que abortar a minha peregrinação no Caminho de Compostela pela 2ª vez. Quem sabe um dia eu a faça... (enquanto isso, vou fazendo a minha caminhada em MG todo ano como fiz novamente em 2014, onde tive a grata surpresa de fazê-la na companhia de meu filho)

As matérias da faculdade em questão foram finalizadas bem. Só descobri agora que o sistema da FFLCH acusa que devo uma matéria de Literatura Portuguesa para completar as duas grades - Português e Espanhol... é mole?

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Lacunas culturais incomensuráveis as minhas...



Refeição Cultural

Lacunas culturais incomensuráveis as minhas...

Estava lendo o livro Na natureza selvagem, de Jon Krakauer, sobre a história real de Chris McCandless, e vendo alguns dos autores e livros preferidos pelo jovem. Bateu-me de novo aquele desespero da incompletude literária que carrego.

Ele lia e gostava de Dickens, H.G. Wells, Mark Twain, Jack London, H.D. Thoreau e Melville. Sem contar o livro Guerra e Paz, de Tolstói.

É impressionante ter chegado até aqui dizendo que gosto de literatura e nunca ter lido nada de tanta gente!

Ando emotivo e reflexivo

Minha digestão cultural recente tem mexido muito comigo. Digeri ou estou digerindo os dois Ensaios de Saramago - sobre a cegueira e sobre a lucidez, o filme Corporation, e agora, a história de Chris McCandless, ou melhor, Alex Supertramp - o super andarilho e a sua Natureza Selvagem.


I still haven't found what i'm looking for...


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Post Scriptum (30/3/21):

Ao reler esta postagem, este registro de um momento de minha vida, poderia refletir sobre várias coisas ocorridas nos últimos 13 anos: o Brasil sob o comando de um regime genocida e fascista após golpe de Estado; minha saída do movimento sindical e do Banco do Brasil; meu curso de Letras na USP, ao qual retornei depois de uma década e terminei agora os créditos necessários para colar grau nas duas habilitações que fiz "Português-Espanhol". Mas isso não vem ao caso.

Em termos de lacunas culturais, posso registrar que li um clássico de H. G. Wells, A guerra dos mundos (1898). Muito interessante o livro! Autor fantástico! Ler postagem aqui.

E vejam só! Estou lendo, finalmente, Moby Dick (1851), de Herman Melville. A leitura se dá durante a maior crise sanitária do último século, a pandemia do novo coronavírus (Covid-19). Já morreram 2,7 milhões de pessoas no mundo em um ano de pandemia. No Brasil, o vírus é ferramenta de governo e já morreram mais de 300 mil pessoas. Estou lendo Melville...

São lacunas culturais sendo preenchidas. Ainda não li Dickens, Mark Twain, H. D. Thoreau e não li Guerra e Paz. Quem sabe um dia... sigo lendo!

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Into The Wild - Na Natureza Selvagem


Divulgação do filme e CD,
trilha sonora de Eddie Vedder.

Refeição Cultural

Ainda estou digerindo a história de Chris McCandless, jovem que largou tudo e saiu em busca de sua felicidade. E que nos deixou uma mensagem reveladora do que poderia ser a tão sonhada e procurada felicidade.

Cismando a respeito, fico revendo a mim mesmo ao longo de minha longa jornada pessoal em busca de algo que não encontrei ainda, ou que não compreendi em todas as vezes em que talvez o tenha encontrado. Não sei bem se este algo é a PAZ ou a FELICIDADE.

Eu não gosto de ser infeliz. É evidente!

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"Happiness is only real when shared..."
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Essa pode ser a chave de minha incompreensão. De minha falta de percepção. Falta de sabedoria.

Por que sou tão infeliz? O que é a felicidade?

Será que já fui feliz e não soube? Não percebi?

Assistindo aos flashbacks de minha existência, e partindo da percepção de McCandless, preciso concordar que já fui feliz. Já senti a felicidade várias vezes. Já chorei de felicidade várias vezes em vários momentos de minha vida.

Das lembranças que tive desses flashs, não estava sozinho em nenhuma delas. Em nenhuma delas. Ou se estava, foram momentos em que alcancei objetivos, em que exigi de mim muito esforço físico ou intelectual ou de força de vontade. Por exemplo: uma chegada andada ou corrida (pois que ando e corro); um concurso passado (aprovação no BB e Fuvest).

Mas vendo a felicidade sentida ao longo desses anos, nesses flashs longínquos de minha vida, percebo que realmente ela foi partilhada, compartilhada.

Talvez seja este o sentido de tão desesperada busca que faço através dos livros, da música, dos filmes, da imagem na arte. EU BUSCO A REVELAÇÃO, O PORQUÊ.

Nos últimos tempos, tenho buscado nos bons livros, nas percepções cotidianas ao nosso redor, encontrar os porquês, os sentidos.

Enquanto respiro, enquanto como, busco...

Enquanto enxergo, tento ver, para então reparar...


William