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segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Leitura: Memória de minhas putas tristes - G. G. Márquez



Refeição Cultural

"Comecei a ler para ela O pequeno príncipe de Saint-Exupéry, um autor francês que o mundo inteiro admira mais que os franceses. Foi o primeiro que a distraiu sem despertá-la, a ponto de eu precisar ir até lá dois dias seguidos para acabar de lê-lo..."

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"Toda sombra de dúvida desapareceu então da minha alma: eu a preferia adormecida."

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Mais uma vez desacatei a mim mesmo em minha determinação de não ler literatura neste ano enquanto não encaminhar as prioridades que tenho que resolver e não resolvo (me fazendo um perdulário) e li entre ontem e hoje o romance maduro de Gabriel García Márquez Memória de minhas putas tristes (2004). Gabo se aproximava dos oitenta anos quando escreveu esse romance.

Que delícia ler romances latino-americanos! Que delícia ler García Márquez! 

O tema é pesado: um homem de 90 anos e uma jovem menor de idade. A narrativa, no entanto, é leve e nos emociona. Um homem tipicamente latino-americano - com todas as contradições que nos moldam e que carregamos por pertencermos a esses países colonizados, explorados e embrutecidos - um homem que descobre o amor aos 90 anos de idade.

A partir dessa condição de apaixonado, o homem que sempre pagou pelo sexo se vê, pela primeira vez, fazendo coisas de pessoas apaixonadas... andar de bicicleta cantando por aí, comprar caixas de bombons para presentear a amada e ter ciúmes de uma forma que o deixa alucinado.

Ou seja, o escritor é nada mais nada menos que Gabo, que até num enredo tão complicado como esse, com temática que aborda a condição de exploração da mulher - prostituição e abuso de menores -, García Márquez consegue construir uma história que destaca o amor.

A leitura do livro foi sugestão de um jovem conhecido da família. Acho muito legal quando jovens sugerem leituras de livros que eles descobrem interessantes. Outro dia, uma filha de uma prima também me sugeriu a leitura de um romance - A hora da estrela -, de Clarice Lispector, que já havia lido e que acho muito bom. 

Enfim, seguem abaixo algumas passagens que nos fazem pensar:

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AS DORES DAS IDADES

"Aos quarenta e dois anos havia acudido ao médico por causa de uma dor nas costas que me estorvava para respirar. Ele não deu importância. É uma dor natural na sua idade, falou.

- Então - eu disse -, o que não é natural é a minha idade.

(...) E me acostumei a despertar cada dia com uma dor diferente que ia mudando de lugar e forma, à medida que passavam os anos."

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OS AMORES INFELIZES MOVEM O MUNDO

"Virei outro. Tratei de reler os clássicos que me mandaram ler na adolescência, e não aguentei. Mergulhei nas letras românticas que tanto repudiei quando minha mãe quis me forçar a ler e gostar, e através delas tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes e sim os contrariados."

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O SEXO COMO CONSOLO DA FALTA DE AMOR

"Atropelei: O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança."

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O ESCREVER APAIXONADO

"Foi como uma beberagem peçonhenta:  cada palavra era ela. Eu sempre havia precisado de silêncio para escrever porque minha mente atendia mais à música que à escrita. E então aconteceu o contrário: só conseguia escrever à sombra dos boleros. Minha vida encheu-se dela. As crônicas que escrevi naquelas duas semanas foram modelos em código para cartas de amor. O chefe da redação, contrariado com a avalanche de respostas, me pediu que moderasse o amor enquanto pensávamos num jeito de consolar tantos leitores apaixonados."

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A GENTE SE VESTE PARA ALGUÉM

"Passei uma semana inteira sem tirar o macacão de mecânico nem de dia nem de noite, sem tomar banho, sem fazer a barba, sem escovar os dentes, porque o amor me mostrou tarde demais que a gente se arruma para alguém, se veste e se perfuma para alguém, e eu nunca tinha tido para quem."

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COMENTÁRIO FINAL

A literatura e a cultura são essenciais na vida das pessoas. Desde os tempos mais imemoriais, as narrativas humanas nos mais diversos gêneros e estilos nos fornecem experiências e possibilidades que nos fazem refletir sobre o viver em sociedade e sobre nós mesmos.

Em dois momentos desse romance pensei sobre essa questão da ficção que nos traz referências de situações do viver e das sociedades humanas. 

Num deles, uma prostituta sugere ao seu velho conhecido de décadas que se ele tivesse oportunidade na vida, que não morresse sem experimentar o sexo feito com amor e com alguém que se ama: "não vá morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor".

Num outro momento, foi inevitável pensar em nosso país após o golpe de Estado e após a ascensão do regime fascista atual, o poder do crime organizado ocupando os espaços de poder do Brasil e as consequências dessa tragédia.

"Em tempos melhores, o governador tinha feito a oferta tentadora de me comprar em bloco os livros dos clássicos gregos, latinos e espanhóis para a Biblioteca Estadual, mas não tive coração para vendê-los. Depois, com as mudanças políticas e a deterioração do mundo, ninguém do governo pensava nas artes nem nas letras...".

É isso! Mais um livro lido, mais um grande romance de um grande autor, Gabriel García Márquez.

William


Bibliografia:

GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Memória de minhas putas tristes. Tradução de Eric Nepomuceno. 34ª edição, Rio de Janeiro: Record, 2022.


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Cem anos de solidão: Macondo e a pandemia



Refeição Cultural

Cem anos de solidão... O tempo de cem anos poderíamos contar como um tempo físico ou natural, cósmico, de cem movimentos de translação da Terra sobre o Sol. Mas imaginem um tempo desse na condição que o qualifica: de solidão. É um tempo psicológico duríssimo! É muita solidão!

Ao reler algumas dezenas de páginas do clássico de Gabriel García Márquez, voltei a sentir a emoção que nos abraça a cada página da história dos Buendía. A ficção nos põe a todo instante em contato com situações e contextos que espelham a nossa dura realidade num mundo de pandemia mundial de Covid-19, num mundo de ignorância e misérias impensáveis para uma época posterior a séculos de ciências e avanços nas culturas humanas.

Por mais que José Arcadio Buendía altere momentos de completa loucura e alucinações e momentos nos quais ele é o líder e a referência de toda sua aldeia - Macondo -, gostaríamos de um comportamento minimamente responsável como o dele por parte de nossos governantes no caso da pandemia do novo coronavírus, que virou disputa política e dane-se a população. O personagem teve um comportamento digno ao lidar com a peste da insônia. Infectada toda a família Buendía, e depois toda Macondo, ele tentou evitar que a peste se alastrasse para outras pessoas e outras comunidades.

"Quando José Arcadio Buendía percebeu que a peste tinha invadido a povoação, reuniu os chefes de família para explicar-lhes o que sabia sobre a doença da insônia, e estabeleceram medidas para impedir que o flagelo se alastrasse para as outras povoações do pantanal..." (MÁRQUEZ, Record-Altaya, p. 49)

Após as medidas de isolamento social e quarentena feitas pela comunidade de Macondo, foi possível que os locais tentassem retornar a sua vida cotidiana e desenvolvessem técnicas para conviver com as consequências da peste da insônia. Os forasteiros não podiam comer e beber em Macondo, para não se contaminarem e espalharem a doença para outras localidades... juro pra vocês, esse romance foi escrito e publicado em 1967 e reflete nesta passagem o que estamos enfrentando mundialmente com os piores líderes que poderíamos ter em grandes países.

"(...) Não se lhes permitia comer nem beber nada durante a sua estada, pois não havia dúvidas de que a doença só se transmitia pela boca, e todas as coisas de comer e de beber estavam contaminadas pela insônia. Desta forma, manteve-se a peste circunscrita ao perímetro do povoado. Tão eficaz foi a quarentena, que chegou o dia em que a situação de emergência passou a ser encarada como coisa natural e se organizou a vida de tal maneira que o trabalho retomou o seu ritmo e ninguém voltou a se preocupar com o inútil costume de dormir." (p. 50)

Assim são os clássicos da literatura universal.

William



Bibliografia:

MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. Tradução de Eliane Zagury. Coleção Mestres da Literatura Contemporânea. Editora Record/Altaya.

domingo, 18 de outubro de 2020

6. Cem anos de solidão - Gabriel García Márquez



"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos..." (MÁRQUEZ, Record-Altaya, p. 7)


Refeição Cultural - Cem clássicos

Uma das lembranças que mais se destacam em minhas memórias quando penso no clássico de Gabriel García Márquez, Cem anos de solidão (1967), é a ressonância que o nome da obra estabelecia dentro de mim desde muito cedo em minha vida. Acho que o nome já me impactava desde que era trabalhador braçal até uns vinte anos de idade. 

A ideia de uma solidão secular martelava dentro de minha cabeça... cem anos de solidão... eu me identificava muito com essa ideia, com esse conceito, mesmo sem saber ao certo o porquê.

Na edição que tenho está registrada a data de novembro de 1999 como data final da leitura do livro. Eu tinha 30 anos de idade. 

Me lembro de uma frase em inglês que de vez em quando vinha em minha mente quando o sentimento de solidão aparecia: "alone in the crowd". A sentença era de um livro de inglês no qual estudei na adolescência e o texto vinha ilustrado com a foto de uma mulher numa mesa de café entre diversas mesas de café em uma calçada dessas de lugares turísticos. Estar sozinho mesmo em meio à multidão...

Cem anos de solidão... o conceito é profundo! Acho que a ideia pode sintetizar o que nós latino-americanos sentimos ao longo de nossas vidas de cidadãos de países subdesenvolvidos e explorados pelos imperialismos seculares. 

Aquele tipo de solidão que significa impotência, desesperança, fundo do poço. Solidão é a coisa que poderia sintetizar aquilo que sentimos neste momento da história, vivendo sob a pandemia mundial de Covid-19 que desgraçou a vida dos mais pobres e da classe trabalhadora e vivendo sob a eterna dominação do imperialismo do Norte, que destrói há séculos a todos nós, como denuncia Eduardo Galeano em As veias abertas da América Latina.

Estamos sós, talvez como nunca antes. Não temos um Estado que nos apoie, não temos um governo que esteja ao nosso lado. As instituições do Estado, do Estado burguês, elas não funcionam mais. Tudo se desfez após o golpe de 2016. As organizações formais que deveriam nos dar alguma esperança ou noção de não estarmos sós, elas também estão burocratizadas, endurecidas, anos-luz de nós, inclusive os partidos, sindicatos e organizações coletivas. Estamos sós... parece uma solidão como o nome da obra de García Márquez.

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"Por fim, numa terça-feira de dezembro, na hora do almoço, soltou de uma vez todo o peso do seu tormento. As crianças haviam de recordar pelo resto da vida a augusta solenidade com que o pai se sentou na cabeceira da mesa, tremendo de febre, devastado pela prolongada vigília e pela pertinácia da sua imaginação, e revelou a eles a sua descoberta:

- A terra é redonda como uma laranja...

Úrsula perdeu a paciência. 'Se você pretende ficar louco, fique sozinho', gritou. 'Não tente incutir nas crianças as suas ideias de cigano'. José Arcadio Buendía, impassível não se deixou amedrontar pelo desespero da mulher que, num impulso de cólera, destroçou o astrolábio contra o solo" (p. 11)

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Como leitor e cidadão do mundo que se acaba no século XXI, só posso concordar com Úrsula ao achar que José Arcadio Buendía era louco mesmo... qualquer um hoje em dia sabe que a Terra é plana como nos ensinam os líderes de direita e as seitas que infestam o mundo físico e virtual que habitamos.

Ironias à parte, a literatura e as ficções são criações tão maravilhosas que muitas vezes autores e estórias superam temporalidades, épocas, estilos, modelos, geografias, e se perpetuam como narrativas a serem lidas para sempre (enquanto durem ou enquanto dure o mundo dos humanos).

Cem anos de solidão é uma das obras clássicas que me marcaram muito antes de ler, durante a leitura e nestes anos todos após a leitura. Gostaria de reler o clássico, inclusive tenho uma bela edição comemorativa de 40 anos da publicação, na língua original, e quem sabe um dia eu não releia essa estória fantástica.

William


Bibliografia:

MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. Tradução de Eliane Zagury.  Coleção Mestres da Literatura Contemporânea. Editora Record/Altaya.


segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Cem anos de solidão




Diários e reflexões - 291018

"O mundo terá acabado de se foder no dia que os homens viajarem de primeira classe e a literatura no vagão de carga" (Cem anos de solidão, G. G. Márquez)

Quando despertei nesta manhã de pesadelo, fiquei na cama pensando e buscando explicações de por que as coisas são como são. 

Fiquei pensando em que instante de minha vida meu destino se separou do restante da ampla maioria das pessoas de meu ambiente familiar. Por que motivo me salvei e fiquei do lado certo da história e não me transformei num pobre ou remediado ignorante apoiador do fascismo?

Eu tinha tudo para me transformar em mais um membro da classe trabalhadora imbecilizado. Não faltou em mim o ódio que cega, que tira a razão, que nos faz gado. Não faltou o medo, o medo que temos todos nós que não somos cínicos, amorais ou em menor caso, psicopatas. Não faltou a miséria, que nos desespera e nos exige a prioridade da sobrevivência à qualquer outra coisa. Eu poderia ter sido mais um deles ontem, como quase todos em minha família.

Fui até minha estante de livros e fiquei olhando para ela. Quantas histórias e estórias e conhecimento humano há ali! Já li um pouco daqueles livros, e ainda há muito por ler, se a vida me permitir.

Eu poderia ter sido mais um a ficar do lado errado da história ontem, caso eu não tivesse adentrado o mundo transformador e salvador da leitura das obras clássicas. Em especial das obras clássicas.

Os clássicos da literatura universal acabam virando clássicos e ficando ao longo de décadas e séculos em evidência porque têm algo que nos toca e transforma de maneira definitiva. A partir da leitura daquela obra, algo dentro de você vai ficar marcado como experiência, mesmo sem o leitor ter vivido aquela experiência, boa ou ruim.

A partir do acesso ao ensino superior formal, aos educadores intelectuais, mas também pelo acesso aos educadores e formadores do meu lado da classe trabalhadora, através de formação política, pude melhorar meu roteiro de leituras desde os vinte e poucos anos, porque as veredas e caminhos apresentados a mim fizeram toda a diferença em ser letrado e não ser imbecilizado, sair do analfabetismo funcional, não ser um analfabeto político como parte de nossa "classe média", este conceito pra lá de esquisito.

Acredito que ter me transformado em um leitor, mesmo com a vida me forçando a não sê-lo, por causa da prioridade da sobrevivência do pobre e remediado, deve ter sido um dos motivos de minha salvação em ter ficado do lado certo ontem e não ter optado pelo lado vencedor, lado contrário as liberdades, lado que promete calar e eliminar o que pensa diferente, lado de ultra direita e com ideais fascistas. Mas sei que não foram só as leituras que me salvaram, a criação de meus pais e outras sortes na vida também pesaram.

Com raras exceções, não me lembro de ter grandes leitores em meu ambiente familiar - de pobres e remediados -, familiares que venceram na vida com as oportunidades que o país, os deuses, os pais, tios, irmãos e primos lhes deram (eles acham que é só por meritocracia), e que foram vitoriosos ontem ao apoiarem a candidatura que escandalizou o mundo civilizado.

Espero que o destino do Brasil e do povo brasileiro não esteja traçado há séculos como foi o caso de Macondo, que viveu cem anos de solidão, como previsto pelo sábio Melquíades.

"O primeiro da estirpe está amarrado a uma árvore e o último está sendo comido pelas formigas".

Espero que o Brasil não termine como Macondo. Existem livros e filmes que passei anos com seus nomes martelando em meu cérebro desde a infância, nomes atiçando a nossa curiosidade. Este livro do colombiano García Márquez foi um deles. Esses cem anos de solidão se encaixam como uma luva para o que eu estou sentindo neste momento de minha vida e da vida de meu país. 

Que destino desgraçado o desse povo brasileiro miserável, ignorante e conciliador com a casa-grande que o devora como as formigas de Macondo!

Talvez eu tenha me salvado em estar do lado derrotado ontem, do lado certo da história, não só por ter tido a oportunidade de marcar em mim grandes passagens dos clássicos que já pude ler e me moldar um ser humano melhor, mas também pela oportunidade de conhecer o movimento social organizado, que me tirou o preconceito, os cabrestos da doutrina da casa-grande e os ódios vários que carregava em mim.

Espero que o nosso lado derrotado eleitoralmente mas vitorioso politicamente - o lado certo da história -, recomece hoje mantendo a unidade popular, intelectual e progressista que fez bonito na luta antifascista e que a educação política e libertadora seja um dos pilares da resistência.

Os clássicos da literatura mundial e as novas leituras científicas e sociais estão aí, disponíveis para libertar as pessoas da classe trabalhadora da ignorância, do ódio e do medo.

William

domingo, 26 de janeiro de 2014

Os 10 mais... livros para toda a vida




Refeição Cultural

Os 10 mais... livros para toda a vida

Em uma brincadeira sobre leitura, daquelas em que as pessoas falam sobre os dez isso ou aquilo que levariam para uma ilha, pedi a minha esposa que listasse quais os dez livros em casa que ela escolheria para me levar, caso eu fosse passar algum tempo em um local isolado e fosse ter tempo para leituras e reflexões a partir delas.

A escolha feita por ela é bem interessante. Ela se baseou em livros e ou autores que sabe que gosto, que eu já li ou que tenho vontade de ler, e ficou muito boa e eclética para a idealizada brincadeira de passar um tempo com tempo para as leituras.

É evidente que é uma sacanagem pedir a um amante de filmes, leituras, músicas ou outras formas de cultura para escolher apenas dez preferidos. Todos nós os temos de montes. Dezenas, centenas...

Segue abaixo a lista dos livros pegos por minha esposa e que seriam levados a mim. Eu estaria muito bem servido!

1-      Don Quijote de La Mancha – Miguel de Cervantes (ESP)

2-      A Montanha Mágica – Thomas Mann (ALE)

3-      Grande Sertão: Veredas – Guimarães Rosa (BRA)

4-      Cien Años de Soledad – Gabriel García Marquez (COL)

5-      Ensaio Sobre a Lucidez – José Saramago (POR)

6-      Guerra e Paz – Leon Tolstoi (RUS)

7-      Vidas Secas – Graciliano Ramos (BRA)

8-      Ulisses – James Joyce (IRL)

9-      A Odisseia – Homero (GRE)

10-   Sentimento do Mundo – Carlos Drummond de Andrade (BRA)

Eu fiz a sacanagem de pedir para alguém que me conhece escolher os livros. A escolha ficou bem legal. O difícil seria agora eu fazer uma lista com apenas dez. Porque eu levaria esses e mais um monte de autores que faltaram... lógico!

Desses dez, só não li o de Tolstoi. Cada livro desses contém ensinamentos sobre a vida, as culturas de seus países, refletem o contexto de seus tempos, bem como são atemporais porque narram situações que valem a todos os humanos, por isso universais.

Dez autores de oito nacionalidades diferentes. A área é literária, porém os temas encontrados nesses livros são multifacetados. Literaturas de qualidade que abordam filosofia, história, psicologia, sociologia, antropologia, amor e ódio, amizade, intolerância, disputa pelo poder, política, filologia e linguagem, e por aí vai...

Dessa lista, temos livros que dialogam um com os outros. O Ulisses com a Odisseia, por exemplo. Todos nos põem em profunda reflexão pela nossa capacidade de fazer guerras, de nos matarmos ao longo dos séculos. Enquanto buscamos a paz, fazemos a guerra.

E a linguagem contida neles, com suas mais variadas formas e técnicas, então? Ali temos o mundo. Ali temos as mais diversas experiências literárias, de linguagem e gênero. Ali perpassamos uns três mil anos de dramas humanos.

Olha, com o respeito aos demais cinquenta ou cem autores que faltaram, esses dez livros aí têm a capacidade de fazer qualquer leitor aberto ao conhecimento, à reflexão e às mudanças, avançar muito enquanto ser humano.

É isso!


Vamos lê-los ou relê-los?

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Crónica de una muerte anunciada - Gabriel García Márquez


Capa da edição que li.

Crónica de una muerte anunciada – Gabriel García Márquez


CLÁSSICO COLOMBIANO de 1981


Li este livro de García Márquez em 2005. Reli agora.

“El día en que lo iban a matar, Santiago Nasar se levantó a las 5.30 de la mañana para esperar el buque en que llegaba el obispo. Había soñado que atravesaba un bosque de higuerones donde caía una llovizna tierna, y por un instante fue feliz en el sueño, pero al despertar se sintió por completo salpicado de cagada de pájaros. ‘Siempre soñaba con árboles’, me dijo Plácida Linero, su madre, evocando 27 años después los pormenores de aquel lunes ingrato. ‘La semana anterior había soñado que iba solo en un avión de papel de estaño que volaba sin tropezar por entre los almendros’, me dijo. Tenía una reputación muy bien ganada de intérprete certera de los sueños ajenos, siempre que se los contaran en ayunas, pero no había advertido ningún augurio aciago en esos dos sueños de su hijo, ni en los otros sueños con árboles que él le había contado en las mañanas que precedieran a su muerte” (Fortes traços iniciais na obra de G. G. Márquez)


Antes da leitura desta obra curta, porém de forte impacto, havia lido o mais clássico dos clássicos do autor – Cem anos de solidão, de 1967.

Assim como sempre me chamou a atenção o nome de sua maior história, pois me remete a uma solidão imensa, dolorosa e profunda – e que sempre senti -, “Crônica de uma morte anunciada” também tem um nome muito chamativo.

Quantos de nós não vemos situações que, no fundo, já sabemos que o final será a morte ou evento catastrófico?

Por exemplo, quanto tempo fiquei esperando por aquele telefonema que recebi dizendo que meu pai havia sofrido um infarto? Tudo na crônica de sua vida indicava aquilo. Tudo!

Agora mesmo, a crônica da sobrevida de meu pai, e a crônica da vida cotidiana daquela casa onde meus pais vivem é algo anunciado.


Fui estudante de letras e terminei o bacharelado. Apesar disso, a crônica de minha vida torta levou-me a outros destinos que não fossem viver e apreciar o mundo das letras. Os acasos não me levaram a viver e me sustentar em função das letras.

Como leitor amador, partilho com os leitores do blog minha impressão sobre a leitura desta crônica funérea de Santiago Nasar.

O LIVRO É MUITO BOM!

A história

O narrador-personagem volta a sua cidade natal, muitos anos depois do assassinato de Santiago Nasar, para buscar informações e tentar reconstituir o crime que marcou sua infância, pois ele narrador era membro daquela comunidade que presenciou evento tão bárbaro. Mais que isso, havia relação de amizade entre a vítima e as pessoas de seu relacionamento.

Os personagens da comunidade se conhecem. Uns são meio aparentados dos outros. É fácil visualizar isso para aqueles que cresceram ou já viveram em cidades pequenas ou de interior.

Onde cresci, em Uberlândia, nos anos oitenta, vi assassinatos a facadas assim. Esses crimes de armas brancas eram comuns. É horrível a cena deste tipo de crime!

Pelo que pude averiguar, a história se trata de caso verídico ocorrido na comunidade onde viveu Gabriel García Márquez.

A técnica narrativa

O mais fascinante na obra é a forma como García Márquez reconstitui o assassinato, buscando entender e deixando pistas de que as casualidades foram determinantes para que efetivamente Santiago Nasar fosse morto pelos irmãos Vicario.

Para os estudantes de letras, com tempo e foco no estudo literário, sugiro a leitura tranquila e crítica, que permita avaliar a técnica do tempo narrativo e do formato pouco comum de história que começa do fim para o começo.

Não é qualquer escritor que alcança o objetivo de cativar o leitor já dizendo de cara o desfecho da história e, dali, começar a voltar passo a passo até finalizar no evento que já sabemos.

Essa técnica de García Márquez é demais. Alguém se lembra de como começa a saga secular da família Buendía em “Cem anos de solidão”?

“Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo…”

É isso!

Ler é uma das melhores aptidões do ser humano. É pena que seja a minoria no mundo que tenha o hábito deste prazer.


Bibliografia:

MÁRQUEZ, Gabriel García. Crónica de una muerte anunciada. DeBolsillo, 7ª edición. Editorial Sudamericana S.A. Buenos Aires, 2005.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Refeição Cultural - Ansiedade Nauseante


Capa francesa:
La Nausée by Jean-Paul Sartre

A NÁUSEA – JEAN-PAUL SARTRE, 1938
Trouxe dias atrás, alguns livros de meu primo Jorge Luiz. Ele iria desfazer-se deles e perguntou-me se não queria dar uma olhada e pegar aqueles que eu quisesse.
Dentre vários volumes que peguei por afinidade e valor afetivo, haja vista que foram livros que marcaram minha iniciação ao mundo da literatura, trouxe também alguns que nunca li, mas que os nomes ou os autores sempre ficaram a martelar em minha cabeça.
A NÁUSEA de Sartre era um deles. Como pode um livro chamar-se A Náusea! Não é possível que qualquer pessoa, mesmo que não seja amante da leitura, não fique ao menos instigada a folhear ou saber do que se trata um livro com um nome desses.
A minha história da leitura é marcada por várias situações de nomes que ficaram martelando em minha cabeça por longo tempo até o dia em que se deu o momento da apresentação entre aquele nome martelado e a minha pessoa.
Um dos nomes mais apaixonantes da minha vida foi CEM ANOS DE SOLIDÃO! Obra magistral de Gabriel García Márquez. Só de escrevê-lo aqui neste momento de enunciação, eu me arrepiei. Aliás, lembrando agora da história daquela família - os Buendía -, e de Macondo, continuo arrepiado. Essa é a típica declaração de amor à literatura. Meu corpo declara amor à literatura. Além do arrepio, meus olhos se umedeceram.
Ainda em relação aos nomes que viveram martelando em minha cabeça, assisti na sexta-feira ao filme O CÉU QUE NOS PROTEGE, de 1990, de Bernardo Bertolucci. Também é um nome que me emociona. Tanto a ideia de solidão do livro, quanto a ideia do céu que nos protege, me remetem automaticamente ao que fico pensando naquelas longas noites que passo uma vez por ano na minha caminhada de 85 quilômetros lá em Minas Gerais e que já viraram uma necessidade em minha vida. Só eu mesmo para saber a síntese da minha caminhada com a ideia daquela solidão e com aquele céu que encontro tão estrelado e, às vezes, com a Lua-sol, às vezes, no breu total.
Tenho vivido com grande dificuldade de tempo para ler. Com o passar dos anos e o avanço do tempo de existência, percebo que passei a começar vários livros que acalento o desejo de ler e leio um tanto e acabo não finalizando a leitura. É a ansiedade do tempo passando e de ver que não avancei nas leituras que sempre desejei.
A ansiedade se repetiu neste feriado. Eu poderia ter lido um livro nestes quatro dias e, no entanto, fiquei olhando na estante e nas pilhas espalhadas por todos os lados e as horas passaram, os dias passaram e iniciei várias coisas e não acabei nenhuma. 

No sábado de manhã, peguei MEMORIAL DE AIRES, de Machado de Assis. À tarde, após achar em uma banca de revistas um mangá sobre O CAPITAL, de Marx, o li de uma sentada.
No domingo, peguei FAUSTO, de Goethe, o volume antigo que trouxe de meu primo Jorge Luiz. Na segunda-feira, não li dezenas de páginas de nada, porque liguei o computador para trabalhar. Minto: à tarde, após o trabalho, achei um volume que nem me lembrava de tê-lo e comecei a ler. Tratava-se de O QUE É IDEOLOGIA, de Marilena Chauí, da coleção “Primeiros Passos”. Por fim, hoje, catei o volume de Sartre e já li mais de setenta páginas.
Essa ansiedade em ler tudo que gostaria e não conseguir, com o passar do tempo, virou um ciclo vicioso e negativo para mim.
Para finalizar essa ansiedade da minha incompletude nauseante, assisti ontem na TV à primeira parte do filme CHE, de 2009, de Soderbergh. Por sinal, tenho o DVD em minha estante, mas também nunca peguei para assistir de uma sentada só.

É isso!


Post Scriptum (31/1/16):

Interessante e triste. O drama em relação à dificuldade de leituras literárias segue exatamente o mesmo cinco anos depois. E enquanto isso, a idade da existência vai aumentando, a visão já não é mais a mesma... mas o desejo de leitura continua do mesmo tamanho, imenso!