Mostrando postagens com marcador Pandemia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pandemia. Mostrar todas as postagens

domingo, 30 de novembro de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 30 de novembro de 2025. Domingo. 


NOVEMBRO 

O que poderia registrar sobre o mês de novembro? Quais fatos e acontecimentos marcaram o meu mês de novembro e o mundo onde habito?

---

O MUNDO, MUNDO, VASTO MUNDO

Sobre o mundo eu não sinto vontade de registrar nada em especial. Posso tecer alguns comentários, entretanto.

Os Estados Unidos seguem ameaçando com guerras e mortes os países e governos que não se submetem a eles. Querem derrubar o governo de Maduro na Venezuela, estão f... a Ucrânia por não precisarem mais do país para suas guerras por procuração. Voltaram atrás em questões de tarifas contra o governo Lula porque a decisão estúpida estava f... o povo norte-americano: It’s the economy, stupid!

O meu governo, o 3º governo Lula, que ajudei a eleger, segue fazendo o possível para entregar ao povo brasileiro alguns dos compromissos que Lula assumiu ao colocar seu nome à disposição do Partido dos Trabalhadores nas eleições presidenciais em 2022, contra o genocida e corrupto que estava no poder. 

As correlações de forças não ajudam muito o governo Lula, pois a política foi destruída durante a longa noite de Temer e Bolsonaro.

Lula conseguiu a aprovação da isenção do Imposto de Renda para os trabalhadores que ganham até cinco mil reais por mês naquele Congresso Nacional corrupto e de lacaios da casa-grande. O presidente conseguiu beneficiar dezenas de milhões de pessoas das classes populares e com menos acessos aos direitos da cidadania. Grande feito melhorar a vida do povo!

O 3º governo Lula também está entregando realizações surpreendentes na área da saúde, com o trabalho do ministro Padilha: o SUS avança. Milhões de brasileiras e brasileiros estão passando a ter acesso a medicamentos e materiais médicos de forma gratuita através do programa Farmácia Popular, quase extinto no governo passado, do genocida que foi acusado na CPI da Pandemia de praticar nove crimes diferentes, inclusive contra os direitos humanos.

Um acontecimento marcou o mês de novembro de 2025: a condenação definitiva do ex-presidente Bolsonaro e de alguns militares de alta patente. O sujeito que estimulou o contágio por Covid-19 e zombou de pessoas que morreram por não conseguirem respirar durante a pandemia não foi condenado por essas mortes (ainda), e nem pelas acusações de roubo, mas começou a cumprir sua pena de 27 anos de prisão por tentativa de Golpe de Estado. Sujeito desprezível!

O Brasil sediou a COP30 em Belém do Pará e considero válido o esforço feito pelo governo Lula de tentar envolver os países do mundo em uma busca conjunta sobre as questões da emergência climática. 

Francamente, sem discutir o fim do capitalismo, do lucro, da mais-valia, da produção de mercadorias desnecessárias aos povos do mundo, do uso responsável dos recursos naturais como a água, não estaremos no planeta nas próximas décadas, não falo séculos, falo décadas. Porém, a culpa da questão climática não é do presidente Lula, esse político estadista é sincero em suas intenções de preservação dos biomas e da vida humana.

A imprensa comercial, o jornalismo venal dos donos do poder secular, nunca foi tão criminosa como na atualidade. Nunca! A violência contra as mulheres virou uma epidemia no Brasil e a mídia canalha em todos os seus meios aliena a população brasileira escondendo o motivo central da violência: a pregação dos líderes políticos que ela apoia, apoiou e mantém no poder, ou seja, a extrema-direita e a pequena elite do 1% de privilegiados. Essa é minha leitura e opinião. A mídia deu espaço a todo o lixo pregado por Bolsonaro e pelo bolsonarismo. Está aí o resultado!

---

ESTE SER QUE HABITA O MUNDO


“That one last shot’s a permanent vacation
And how high can you fly with broken wings?
Life’s a journey, not a destination
And I just can’t tell just
What tomorrow brings, yeah

You have to learn to crawl
Before you learn to walk
But I just couldn’t listen
To all that righteous talk, oh yeah
Well, I was out on the street
Just tryin’ to survive
Scratchin’ to stay alive…”

(Amazing, Aerosmith)

Não tendo grandes buscas filosóficas como tive ao longo da vida, minha busca de sentidos hoje é diferente das etapas vencidas. Compreendi a vida, agora é achar sentidos para seguir vivendo.

Olhando para trás, poderia tranquilamente dizer que aprendi a rastejar antes de caminhar e hoje sei mais que nunca que a vida é uma jornada e não um destino. Nunca se sabe o que o amanhã nos trará...

Estando retirado das lutas sindicais que me formaram como pessoa e cidadão brasileiro durante minha vida de bancário e, principalmente, após os trinta anos de idade, quando virei sindicalista, hoje estou mais concentrado em sistematizar o percurso que percorri nessas quase três décadas após assumir uma representação política na categoria na qual trabalhei a maior parte da vida.

Escrevi durante a pandemia mundial de Covid, em meu blog sindical, memórias que depois foram reunidas em um livro chamado “Memórias de um trabalhador politizado pelos bancários da CUT”. O livro vem ganhando o mundo. Não é um livro comercial, é uma espécie de depoimento de alguém que acredita na educação e na formação política porque o autor é fruto dessa experiência.

Em novembro, consegui presentear mais algumas pessoas com o livro. Seguirei fazendo isso. Alguns textos ou temas tratados no livro podem não ter muito sentido para todos os tipos de públicos, mas alguns capítulos podem ser interessantes para qualquer tipo de público, seja dirigente sindical, seja militante de esquerda, seja trabalhador da categoria bancária. É também um livro para as pessoas que me conhecem hoje ou que já conviveram comigo.

As reflexões contidas nos textos do livro, todos independentes, descrevem as concepções e práticas políticas que me politizaram e isso se deu com a militância da Central Única dos Trabalhadores (CUT), principalmente através do Sindicato de minha base de trabalho e da corrente política que me influenciou como dirigente de centenas de milhares de bancários por cerca de duas décadas.

---

SISTEMATIZAÇÃO DOS TEXTOS DOS BLOGS

O trabalho de leitura, diagramação e encadernação de milhares de textos escritos em meus blogs ao longo de duas décadas está em andamento e não sei quando vou conseguir terminar essa sistematização. Mas tenho que terminar esse trabalho.

O personagem que registrou todas aquelas histórias da categoria bancária, que viveu e sentiu tudo que está escrito nas páginas dos blogs de cultura e sindical é um brasileiro que escolheu fazer esses registros e compartilhar esses textos abrindo mão de outras coisas na vida. 

O material histórico pode não ter importância para muita gente deste momento do mundo, mas como estudioso da sociedade humana, sei que o material tem sua importância histórica.

Enfim, sigamos fazendo as coisas que entendo que devem ser feitas.

Entendo que partilhar o que sei é a minha função no mundo até que eu não exista mais ou até que minha essência, meu ser, não possa mais fazer isso.

Por fim, visitei meus familiares em Uberlândia neste mês, fiz o que pude por eles, li o que foi possível, e tive minha rotina alterada após a edição do livro, pois estou encontrando pessoas do mundo político neste período de distribuição de minhas memórias.

William Mendes


terça-feira, 2 de setembro de 2025

Instantes (19h24)



Refeição Cultural

AMARGO

Acordei com a notícia do falecimento do jornalista Mino Carta, aos 91 anos de idade. Fiquei triste, amargo.

Nesses dias, faleceram Luis Fernando Verissimo e Jaguar. Três grandes jornalistas, escritores, pintores e cartunistas brasileiros. 

Essas perdas me fizeram pensar na morte como uma realidade inevitável a todos nós. Num momento, estamos aqui, noutro, não existimos mais. 

Após a notícia triste, não havia outra coisa a fazer que não fosse fazer a minha parte para alongar a minha permanência na Terra. Fazer uma atividade aeróbica para retardar a bomba-relógio de minha genética. 

(Fazer, fazer, fazer... a aliteração pode ser uma estilística, mas não uma solução...)

Durante a caminhada acelerada, pensei tanta coisa, mas tanta coisa, que nem poderia registrar! Deve ter sido a boa oxigenação no cérebro...

Aí, pensando a respeito da morte, tenho que engolir o fato repugnante de que aquele verme genocida está sendo julgado hoje por outro de seus crimes, por tentativa de golpe de Estado, e não pelo genocídio planejado de centenas de milhares de brasileiros... é muito injusto isso!

Bolsonaro não tem nenhum processo pela morte planejada de centenas de milhares de pessoas ao longo de sua gestão como presidente do Brasil durante a pandemia de Covid-19. O cara nem é mais lembrado por isso, pelos 700 mil mortos sob sua regência...

Amargo... estou amargo.

Todos os corruptos se dão bem no mundo! Todos, com raras exceções. Um tá cumprindo pena num apto de 600 m2. A canalha responsável pelo suicídio do reitor de Santa Catarina está aposentada com proventos integrais de 50 mil dinheiros...

Só pobre, pretos, miseráveis que se fodem nessa sociedade humana de merda!

Tô amargo pra caralho!

Aí quando vejo a notícia da morte do Mino Carta, fiquei pensando no livro dele na estante de casa que queria porque queria ter lido com o autor ainda vivo...

É aquela culpa que carrego como um pecado original por não ter lido um monte de livros e autores que gostaria de ter lido e não li... porra, quando foi pra ser leitor de dezenas de livros, optei por aceitar a missão de ser sindicalista... caralho! Não podia fazer de conta que era sindicalista, tinha que ser de verdade, aí o curso de Letras foi pro saco, pro inferno.

Fazer, fazer, fazer... fiz o que tinha que ser feito. Mas hoje não sou porra nenhuma! Não sou professor, não tenho profissão nenhuma. E como não sou mais sindicalista, não sou nada!

Estou amargo hoje. É muita gente que admiro morrendo, gente que ensinou, educou, politizou, transmitiu valores que estão se perdendo. Fico triste de ver partir intelectuais que dedicaram a vida a evoluir a espécie humana e a sociedade. 

Mino Carta, Verissimo, Jaguar, sempre presentes! Obrigado por tudo! Vocês melhoraram o mundo!

William 

02/09/25

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Diário e reflexões


Foto feita por Sandro Sedrez, adaptada por mim.


Refeição Cultural

Osasco, 5 de dezembro de 2024. Quinta-feira.


Estamos nos aproximando do fim de mais um ano em nossas vidas. Que poderia registrar nesta página pública de pensamentos, reflexões e troca de informações entre o autor do blog e seus leitores e leitoras?

---

OS VÍRUS ESTÃO POR AÍ

Poderia começar falando a respeito de saúde e prevenção de doenças. Estamos todos em casa com Covid-19, apesar de só termos feito o teste em um de nós. Todos estão com os sintomas, cada um com seu efeito corporal. Felizmente, nossa família não é negacionista e desde o início da pandemia mundial tomamos cinco doses de vacina.

Provavelmente, eu fui o primeiro que contraiu o vírus no voo de ida para Ushuaia, Argentina. O passageiro atrás de mim espirrou sem parar. No segundo dia, lá na Terra do Fogo, comecei a ter coriza e espirrar muito e tive uma crise de rinite. Achei que era coisa do quarto do hotel. 

A forma como se contrai o coronavírus é sempre incerta, é uma hipótese ou suposição. O certo são os resultados dos exames, e deu positivo quando minha esposa fez o teste ontem, pois ela havia perdido o olfato.

Ela passou a ter os mesmos sintomas que tive uns três dias depois de mim, ainda em Ushuaia. Eu ferrei minha audição nos voos de volta por estar com as fossas nasais constipadas, estou meio surdo até hoje. Minha companheira veio achando que estava gripada. Chegando em casa, o filho começou com os mesmos sintomas. Feito o teste ontem, deu positivo para Covid.

Ninguém fala mais sobre a pandemia. Quase ninguém usa máscara. Eu sempre uso quando pego transporte público com muita gente. Infelizmente, não usei no avião: vacilo e preguiça. E nos passeios lá em Ushuaia, cheios de estrangeiros de tudo quanto é lugar, também não usei. Mas as cepas dos vírus de Covid continuam entre nós. Fiquem atentos a lugares com grandes aglomerações.

---

SÓ O CONHECIMENTO LIBERTA

Aqui no blog falo sempre de educação, cultura, de compartilhamento de conhecimento. Paulo Freire diz que só se educa gente. Temos que educar as pessoas, temos que achar uma forma de fazer o que Frei Betto está dizendo faz tempo, e quase toda semana, que temos que desenvolver um projeto nacional de educação política e libertadora para o povo brasileiro. O dominicano disse recentemente que temos que tirar Paulo Freire da gaveta se quisermos salvar o Brasil e evitar o pior nas eleições de 2026.

Durante dezesseis anos como dirigente da classe trabalhadora, procurei fazer a minha parte neste projeto emancipador de educar e politizar as pessoas, no meu caso, eu estudava todos os dias - todos os dias - e trocava informações e conhecimentos com os bancários e bancárias que eu representava nos mandatos políticos que exercia. Se era negociador, estudava tudo sobre o banco onde trabalhava; se fosse falar de história das lutas, comia História antes. Quando fui gestor de autogestão em saúde, estudei até quase secar os miolos, como o senhor Alonso Quijana que virou Dom Quixote.

Na época que representei, inovei na comunicação virtual para somar a nova ferramenta de comunicação - blogs - ao trabalho presencial que fazia. Vejo os registros de meus diários e ainda me surpreendo ao ler o quanto eu trabalhava para cumprir agendas diversas, pois ao mesmo tempo que um sindicalista tem atividades práticas nas bases - paralisações, reuniões políticas etc - eu estudava tudo que entendia ser necessário para ser um bom representante dos trabalhadores.

No filme "Eles não usam Black-tie" (1981), de Leon Hirszman, com Gianfrancesco Guarniere e Fernanda Montenegro, o personagem explica ao filho o que é ser um bom representante sindical e liderança dos trabalhadores. Diz ao filho que havia furado uma greve que ele tinha que estudar e ser bom no trabalho que fazia, e não ser um pelego e puxa-saco de patrão. O pai era líder porque era bom funcionário, além de ser um bom companheiro de seus colegas na luta.

Enfim, eu ainda quero aprender coisas novas todos os dias. E quero compartilhar conhecimento com as pessoas para melhorarmos o mundo, melhorando as pessoas.

Leiam, estudem, façam o mundo um lugar melhor para a coletividade e não só para o seu umbigo.

Além de meus estudos diários, de linguagem, de literatura, de história e política etc, estou estudando temas diversos como associado do Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Acredito no potencial do projeto que o ICL significa. É revolucionário quando penso que é quase gratuito tudo o que há disponível na plataforma do instituto.

---

MEUS BLOGS CONTÊM CULTURA, HISTÓRIA E PERCEPÇÕES DA SOCIEDADE HUMANA

Estou trabalhando na revisão e organização de meus blogs: são mais de cinco mil postagens das mais variadas temáticas da vida humana.

Modéstia à parte, ao reler textos e temáticas antigas no blog, às vezes me pego pensando como foi que fiz aqueles textos... alguns são bons e envelheceram bem. Interessante isso.

Eu sonhei em ser professor. Não fui. As veredas pelas quais andei me levaram para outros destinos. Escrever com honestidade o pouco que sei e que aprendi em algum estudo é uma forma de passar adiante conhecimento. É minha contribuição ao estilo "wiki" (What I Know Is...)

Fico por aqui.

William Mendes


Post Scriptum (dia seguinte): li no ICL que os testes positivos para Covid subiram de 9 para 17,5% em um mês no Brasil. Tem uma nova cepa circulando, uma tal XEC, identificada primeiro na Alemanha. Se cuidem.


quinta-feira, 21 de março de 2024

Artigo: A cultura da impunidade dos poderosos



Refeição Cultural

Osasco, 21 de março de 2024. Quinta-feira.


OPINIÃO

Em 2019, comprei uma revista sobre bilionários brasileiros para dar uma olhada no conteúdo daquela coisa asquerosa. Senti nojo até para pôr a mão naquilo porque o que sinto sobre essa pequena parcela de animais humanos que desgraçam o mundo vem desde a minha infância. Não era politizado, mas sentia que tudo que havia de mal na sociedade humana tinha o dedo dessa gente por trás.

Era o primeiro ano do regime de extrema-direita do amante de torturadores no Brasil. Alguns meses depois da publicação da revista viria a maior pandemia que a humanidade enfrentou em um século de pandemias: a Covid-19. Milhões de pessoas morreram e o mundo parou por um tempo. 

Foram tempos difíceis para a imensa maioria do povo brasileiro. Tivemos uma conjugação histórica desfavorável durante a pandemia que matou oficialmente 700.000 pessoas: o regime negacionista e corrupto no poder e um grupo de apoiadores dessa gente bilionária que usou o regime extremista para acelerar seus ganhos e aumentar seu patrimônio às custas da desgraça de toda uma nação. Foi um azar danado o nosso!

---

IMPUNIDADE: NÃO PEGA NADA PARA OS RICOS

Nesta semana, as mulheres e os homens que comemoravam a condenação de um ex-jogador de futebol à prisão por estupro na Espanha receberam a notícia que colocou "ordem na casa" e devolveu à realidade como o mundo humano está organizado sob a hegemonia do dinheiro e do capitalismo: o sujeito já conseguiu a liberdade ao custo de mais um milhão de euros, pagos por um "parça" segundo informa a mídia. A pena já havia sido reduzida por mais um montante de dinheiro pago pelo mesmo parça.*

Para os ricos não pega nada!

Os inúmeros golpes de Estado no Brasil sempre tiveram os caras do dinheiro por trás, desde o primeiro golpe que pôs fim ao reinado de D. Pedro II por causa do prejuízo que os proprietários tiveram com a Lei Áurea, que "libertou" milhões de pessoas negras escravizadas após sequestro no continente africano. De lá adiante, sempre golpes de Estado tiveram o apoio político e os recursos dos milionários por trás, agora "bilionários".

Da minha geração até hoje, o que sei e vivi foi que nasci sob o domínio do AI.5 (1968), da ditadura implantada com o golpe de Estado de 31 de março de 1964. Depois vi a Rede Globo e a mídia dos ricos esconderem as "Diretas Já" enquanto deu e disfarçarem que apoiavam a volta da democracia. Vi manipularem debates entre Collor e Lula em favor do "caçador de marajás". 

Fui vendo as merdas em favor dos ricos ao longo da vida: a compra da reeleição para beneficiar o próprio presidente em mandato (FHC). Vi a tentativa de derrubar Lula já nos primeiros anos de mandato com a invenção do "mensalão" (hoje sabido como sendo uma operação lesa-pátria). Vi o golpe de Estado contra uma presidenta honesta, "com o Supremo com tudo". A prisão de Lula para colocar no poder a máfia em 2018. Vi muita merda ao longo de uma vida adulta no Brasil.

Eu era criança nos anos setenta e oitenta. Meus pais eram da classe trabalhadora explorada que tentava sobreviver naquelas décadas. No início dos anos oitenta, passei a odiar qualquer rico que via pela frente nas mansões onde batia para pedir para lavar o carro deles, ou nas casas enormes onde trabalhava de ajudante de encanador, ou ainda os que via na televisão esnobando aquele luxo todo.

Vejo a cultura da impunidade dos poderosos há décadas...

---

BILIONÁRIOS AUMENTAM NO BRASIL... (QUE MERDA!)

Dei uma folheada na revista de 2019, vi as propagandas de carros caríssimos, iates, jatos, joias com belas mulheres, artigos ridículos, reportagens anunciando a provável derrota de Macri na Argentina e a matéria principal anunciando que o Brasil ganhava mais 26 bilionários naquele ano, agora somando 206 pessoas donas de quase tudo no país.

O mais novo incluído na lista de bilionários era o empresário mais próximo do regime de extrema-direita que governava o país, o sujeito que andava como um papagaio de verde e amarelo. A revista era só elogios, nem uma palavra sobre os processos e os problemas que ele teve por décadas com os governos por não pagar os impostos, nem uma linha.

Outros bilionários citados seriam protagonistas um tempinho depois de uma operação contábil de fraude bilionária que afetaria uma das maiores redes de lojas do país, causando milhares de demissões e desemprego de muitas famílias brasileiras... sem problema! Os caras seguem frequentando os fancy restaurants com gente em volta paparicando eles.

Para os ricos não pega nada!

---

31/3/64 - 60 ANOS DO GOLPE

GOVERNO DECRETA SILÊNCIO A FAVOR DA IMPUNIDADE DAQUELES QUE DESGRAÇARAM O PAÍS E OS BRASILEIROS

Para finalizar as reflexões sobre a cultura da impunidade dos poderosos, fico olhando a revista dos caras que são inimputáveis, os caras que podem tudo, que nada pega contra eles, os caras que destroem a natureza, que ficam com mais da metade do PIB do país sem produzirem nada, dos caras que não pagam impostos e tributos, os caras causadores da miséria de milhões de pessoas, os caras que tiram sarro da nossa cara todos os dias... fico olhando a revista e pensando na tal conciliação de classes.

Passei as últimas décadas estudando - sempre que possível - sobre a política brasileira, nossa história, os movimentos organizados e as lutas da classe trabalhadora. Ao me tornar representante eleito de uma importante categoria profissional no início dos anos dois mil, estudei a história do Novo Sindicalismo, da criação do PT e da CUT e com o tempo fui entendendo melhor quem eu era como dirigente sindical daquele movimento.

Lula sempre foi um grande político, um líder extraordinário, um homem sábio. Ao longo das últimas seis décadas as causas populares tiveram Lula como um dos protagonistas à frente de todas as lutas por um mundo do trabalho mais justo e um país mais democrático e solidário. Isso é inegável! 

Um tempo depois que passei a estudar o movimento ao qual pertencia, entendi o que era a corrente política à qual eu militava, a Articulação Sindical. Então, afirmo que compreendo a maior parte de tudo que aconteceu em nosso campo nas últimas décadas. Nunca fomos revolucionários, sempre atuamos pela conciliação de classes.

POR QUÊ?

O que me intriga neste exato momento da história, o 3º mandato do presidente Lula, após nova tentativa de golpe de Estado há pouco mais de um ano, sabido por todo mundo até o mundo mineral, como diz Mino Carta, da participação dos militares no novo golpe, e da participação de muitos desses endinheirados de merda enaltecidos por revistas como essa que folheei, o que me intriga é por que Lula está indo contra todos nós do próprio campo político aceitando a imposição de silêncio sobre os 60 anos do golpe de 1964.

Alguns analistas políticos tentam achar alguma explicação em alguma estratégia de Lula para tamanha decisão contra o seu próprio lado, o das vítimas do golpe de 31 de março de 1964, e que evidentemente tem na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 os mesmos grupos que sempre organizam golpes no país. Por que diabos o nosso presidente está decretando silêncio absoluto do lado do Estado golpeado em 1964?

Eu tento entender como alguém que foi aculturado dentro de um movimento organizado que defende a conciliação de classes há décadas. Tento entender... mas não entendo! 

ACABARAM AS CONCILIAÇÕES DE CLASSE!

Não entendo porque desde o golpe contra a presidenta honesta Dilma Rousseff, desde a prisão por 580 dias do nosso estadista maior, prisão sem provas de crimes, desde as fraudes absurdas feitas para colocar no poder e manter aquela figura inominável na presidência da república de um dos maiores países do mundo, desde tudo isso, é sabido que a era da conciliação de classes acabou nesta nova fase do capitalismo global.

A conciliação de classes acabou! A nova fase é muito mais violenta, desumana e genocida que as fases anteriores desde o fim da 2ª Guerra Mundial e do mundo bipolar entre capitalismo e socialismo. 

Não há mais disfarces por parte dos donos do poder, esses caras agora não tergiversam em tomar decisões e mandar realizar ações que matam as pessoas do nosso lado da classe. Matam de fome, com balas e bombas, nos matam!

Eu gostaria de entender, mas ainda não consegui.

A nova fase do capitalismo e do dinheiro é a fase do cinismo e do sarcasmo de jogar na nossa cara que a cultura da impunidade dos poderosos é a que deve vigorar e quem não quiser que se lixe com isso...

E aí, vamos só nos lixar pra essa impunidade toda por aí!?

William

*Post Scriptum: ao final do dia da postagem, em busca de mais informações, soube que o jogador na Espanha, Daniel Alves, não havia pago a fiança dentro do horário definido para a soltura. E o pai de jogador famoso que deu dinheiro da primeira vez publicou em redes sociais informação dizendo que desta vez não iria dar o milhão de euros para soltar o amigo do filho. Vamos ver o que vai acontecer nos próximos dias. Na noite deste mesmo dia 21/3, no Brasil, foi preso o outro ex-jogador condenado por estupro na Itália, Robinho. Ambos jogadores foram da seleção brasileira de futebol.

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Vendo filmes (XII)



Refeição Cultural

Filmes que retratam guerras diversas, guerras contra pandemias causadas por algum tipo de vírus ou bactéria ou mesmo guerras causadas por pandemias de ódio e intolerância são filmes que podem nos pôr a refletir sobre a condição humana.

Nossa espécie se julga superior às demais espécies do planeta, sendo a Terra um pontinho de nada na imensidão do universo que conhecemos até o momento. Será que somos mesmo superiores às demais formas de vida?

Os dois filmes desta postagem me colocaram a pensar sobre nossa natureza humana. 

Filmes que retratam guerras sanguinolentas dentro de nossa espécie animal me fazem desacreditar na inteligência humana. Que diacho de espécie racional é essa que cria as coisas mais fantásticas e não consegue conviver em paz?

Já os filmes sobre pandemias e riscos à espécie humana nos fazem acordar para a realidade de nossa fragilidade. A vida é algo frágil e por isso deve ser protegida e comemorada. Viver é muito perigoso, como dizia o personagem Riobaldo Tatarana, do Grande sertão: veredas.

Gostei dos dois filmes que comento abaixo.

---

FILMES

Anne Frank, minha melhor amiga (2021) - Direção: Ben Sombogaart. Roteiro: Paulo Ruven. Com Aiko Beemsterboer (como Anne Frank) e Josephine Arendsen (como Hannah). Filme conta a história verdadeira da amizade entre Anne Frank e Hannah Goslar, meninas com origens sociais diferentes, sendo Goslar considerada cidadã alemã. Elas passaram a infância juntas, se separaram quando a família de Anne Frank se escondeu e depois acabaram se reencontrando no campo de concentração de Auschwitz.

COMENTÁRIO: quando li anos atrás os diários de Anne Frank, fiquei muito impactado. À época, sendo ainda um adulto jovem, experimentava os primeiros contatos com as questões da 1ª e 2ª Guerra Mundial, Nazismo, Fascismo e demais totalitarismos. Com o tempo, fui me politizando como cidadão brasileiro bancário, virei dirigente da classe trabalhadora e estudei muita coisa nas últimas décadas. 

Hoje, tenho sentimentos difusos ao ver um filme que retrata nos anos quarenta todo aquele sofrimento imposto ao povo judeu - crianças, mulheres, idosos e civis - pelos alemães nazistas num momento (2023/24) em que os judeus sionistas impõem um sofrimento semelhante a crianças, mulheres, idosos e demais seres humanos palestinos ao vivo e a cores e, ao invés do mundo "civilizado" se colocar contra o novo genocídio de pessoas, os países ocidentais se colocam na posição de "neutralidade" ou apoiam na cara dura o líder de extrema-direita dos sionistas praticar a limpeza étnica na terra palestina. É estranho, é um sentimento difuso... 

Que somos nós? Que esperar do amanhã?

---

Guerra mundial Z (2013) - Direção: Marc Forster. Com Brad Pitt e Mireille Enos. Uma doença misteriosa se espalha pelo mundo rapidamente, transformando as vítimas em espécies de zumbis. Um investigador da ONU, Gerry Lane (Brad Pitt), é escalado à força - para salvar mulher e filhas - para uma missão de investigação para decifrar a origem da pandemia e uma provável cura para ela.

COMENTÁRIO: No começo, eu achava as estórias de zumbis muito ruins, sem verossimilhança alguma e não via filmes de mortos-vivos. Hoje, vejo a questão dos zumbis como uma metáfora e já me disponho a ver algumas dessas estórias. Melhor ainda quando se associa contaminação por algum tipo de agente patológico ou engenho externo à condição de uma pessoa se tornar uma espécie de morto-vivo, um corpo sem consciência, aí é que acho a estória mais verossimilhante com a realidade do mundo atual.

No filme, as vítimas da pandemia de zumbis são infectadas por mordidas, por contato entre um infectado e uma pessoa sã. Tenho prestado mais atenção em filmes com o ator Brad Pitt porque passei a considerá-lo um bom ator depois que vi algumas de suas interpretações.

Quanto aos zumbis dos filmes, sejam eles zumbis lentos, ou zumbis rápidos como os dessa estória, a metáfora de humanos como zumbis me parece cada dia mais factível. 

Sob certos pontos de vista, poderia até dizer que já estamos vivendo num mundo de zumbis, corpos que andam por aí tomados por alguns agentes externos como parasitas que comandam corpos hospedeiros. Ideias, abstrações, são vírus informacionais. 

Uma aglomeração de bolsonaristas alucinados por cantos e orações para extraterrestres e adorando pneus no meio da rua não seria uma cena de zumbis?

Sei lá!

---

É isso, amigas e amigos leitores.

O texto anterior sobre filmes que vi e refleti pode ser lido aqui.

William


terça-feira, 7 de junho de 2022

Diário e reflexões (07/06/22)


Refeição Cultural

Osasco, 7 de junho de 2022. Noite chuvosa de terça-feira. 


As lições que aprendi com a militância da esquerda sustentaram a minha existência até aqui

Graças ao Sistema Único de Saúde previsto em nossa Constituição Federal de 1988, tomamos a 4ª dose de vacina contra o Covid-19 e tomei a vacina contra o vírus Influenza por ser hipertenso. Não pagamos por essa proteção vacinal no posto de saúde de nosso bairro, fomos beneficiados por existir ainda neste país um sistema público de cuidados e acolhimento da população que aqui vive. Esse direito só existe porque existem pessoas do campo da esquerda e que defendem direitos universais e um Estado que proveja direitos aos cidadãos. 

Se dependêssemos do que pensam e defendem os capitalistas, liberais e direitistas não haveria direito algum e nada seria público, tudo seria serviços e produtos para quem pudesse comprar e pagar. No entanto, os liberais e direitistas também estavam lá no posto de saúde para tomar as vacinas. São uns filhos da puta hipócritas! Isso sim!

---

Dias atrás escrevi um texto onde afirmo que o Mal é a base da cultura do lugar onde nasci (ler aqui). Nele, teço minha opinião pessimista em relação ao presente e ao futuro, falo sobre o ser humano e sobre a história de exploração de nosso país continental. Um colega bancário aposentado me sugeriu em comentário que eu colocasse um pouco de dialética nos textos que faço. Pensei a respeito e ele tem razão. 

Eu deveria ao menos alternar textos onde confesso minha descrença com as coisas com textos que estimulassem os leitores que tenho a terem mais esperança e ânimo para se engajarem nas lutas sociais que caracterizam a nossa espécie. Afinal de contas, enquanto houver humanos, haverá história e a certeza que temos é que a mudança é a realidade material: tudo muda e nada é para sempre.

A grande lição de minha vida foi a convivência com os movimentos sociais e com cada militante de esquerda que trombei nessa vida. Sem essa convivência e aprendizado eu não teria chegado vivo até aqui na jornada de minha vida. Não teria. Por mais que tenha tido meus momentos de felicidade compartilhada antes dos trinta anos, amores, carinhos, amizades, a forma como via a existência não me permitiria chegar vivo até aqui. A esquerda me deu uma ética da vida, da luta, do esperançar. A esquerda me deu um como-fazer, uma prática de viver. E sou grato por tudo isso.

Ou seja, posso até fazer diagnósticos das situações miseráveis e bárbaras que preenchem o nosso mundo atual, mas a lição da esquerda é que além dos diagnósticos, temos que pensar propostas de mudanças e temos que nos envolver de alguma forma nessas buscas por mudanças. Atitude, essa é a lição da esquerda e dos movimentos sociais. Atitude! Essa é A Lição!

---

JESSE & SHURASTEY: INSPIRAÇÃO!

Termino esse registro de reflexões falando sobre o jovem Jesse e seu cãopanheiro Shurastey e seu fusca cascudo Dodongo. Eles deixaram para nós uma história inspiradora, de busca da felicidade e da liberdade. E aqui peço licença para deixar a minha opinião sobre uma das principais lições de Jesse: Atitude! Que rapaz de atitude!

Acabei de assistir a primeira temporada da viagem deles, editada por Jesse em seu canal do YouTube. Foram dez vídeos com os melhores momentos de suas aventuras desde a saída de Balneário Camboriú, com destino a Ushuaia, na Patagônia argentina, e depois a volta passando por Chile, Argentina de novo e Paraguai. Que loucura! Que loucura invejável! Estou apaixonado por eles, pelo que eles significaram no mundo! É tudo muito louco, mas tudo muito feliz, de muita liberdade... e muita sorte!

O coração fica apertado, os olhos marejados, a garganta entalada... vinte e poucos anos... um rapaz e seu golden retriever e um fuca 1978...

O tempo todo fico lembrando meus vinte e poucos anos... motos, viagens, acampamentos, estradas, cavernas, cachoeiras, rapel, saltos de paraquedas... 

A felicidade simples e pura, bruta, desses dois, Jesse e Shurastey, são demais! Não quero falar do fim da jornada deles. Quero falar da jornada deles!!! Meus sentimentos aos familiares e amig@s. Jesse, Shurastey, amo vocês!

William


sábado, 30 de abril de 2022

Mais um outono



Refeição Cultural

Osasco, 30 de abril de 2022. Fim de noite de sábado.


Abril se foi. Mês no qual completei mais um outono. Já são 53 outonos. Ao refletir sobre a existência que tive, só poderia concluir que tive muita sorte. Pensando nas desgraças e misérias do povo do lugar que vivo, sinto até um peso incômodo pela bem-aventurança que me coube neste país desafortunado pelos donos do poder que temos aqui desde que o continente foi invadido pelos povos europeus há cinco séculos. Tenho sentido sentimentos que me deixam amuado, arredio, nervoso, envergonhado. Ser brasileiro e ver os brasileiros ao meu redor me dá um grande desacorçoo de ser um ser humano. Até uma década atrás seria impensável imaginar um sentimento desses em relação ao povo ao qual pertenço.

Imaginem que sobrevivi aos dois anos de pandemia de Covid no Brasil. Meus familiares mais próximos, do núcleo familiar, sobreviveram a essa pandemia desgraçada ampliada e exponenciada pelo genocida no poder deste país em estado de exceção desde 2016. Tomamos vacina muito depois do que poderíamos ter tomado por causa da corrupção do regime no poder, e também por causa do negacionismo por parte dessa gente criminosa e psicopata que colocaram no poder após o golpe. Atrasaram as vacinas no Brasil por causa de propinas, foi o que apontou a CPI feita sobre o tema no Congresso Nacional (CPI que não deu em nada, como os crimes diários dos milicianos no poder). Vi morrer dezenas de pessoas conhecidas e amigos do convívio com o movimento sindical. Mais da metade dos quase 700 mil mortos poderia estar entre nós e com suas famílias. Eu e os meus poderíamos estar entre as estatísticas dos mortos pela pandemia de mortes do bolsonarismo. Sou um cara de sorte.

Para os padrões do século no qual estamos, posso ser considerado jovem. Para meus padrões de sentimento, posso me considerar velho. Outono. Me sinto no outono. É como se estivesse num eterno outono desde ao menos o golpe de Estado no Brasil em 2016. A sensação é de viver num constante outono inverno outono inverno outono e assim sucessivamente. As folhas amarelecem, o tempo fica um pouco mais seco, as folhas caem, as árvores na vegetação ficam mais esgalhadas e menos verdes. A estiagem aumenta. Tempo mais seco. Vento. Outono. Outono no coração da gente. Sinto mais as dezenas de outonos que as primaveras. E mesmo assim, tenho sorte pacas! Muita sorte!

Outono. É impressionante as diferenças que senti na árvore de minha existência nesse período do outono permanente no nosso país. E a sorte que tenho dá aquele sentimento constrangedor de saber que do lugar de onde vim as pessoas estão passando um perrengue danado pra sobreviver. Tenho acesso a assistência médica. Não fuço nos problemas de saúde que estou sentindo porque não quero ou porque procrastino. Talvez receio de descobrir que algo ruim está me comendo a raiz. Não seria bom deixar na mão pessoas que dependem de mim. Tenho renda mensal certa, coisa que a imensa maioria do povo de meu país não tem. Casa pra morar. Conforto e acesso aos fetiches e exageros do consumismo capitalista. Quando olho para trás, minha infância, adolescência, vida adulta... quanto ódio, quanta raiva, quanta necessidade justa e também desnecessária... quanta dor... e cá estou até hoje. Sorte da porra!

Estou me sentindo meio natureza no outono de meu mundo. Amarelecido. Folha ao vento. Tronco de árvore recolhido e ressequido. No entanto, até a porra da sorte que tive me colocou num caminho em certo momento da vida que me trouxe um aprendizado que fortaleceu a seiva que corria em mim. Me fez chegar até aqui.

William

(Post Scriptum à 1h08 da madrugada de domingo: as coincidências da existência... após uma hora escrevendo e ouvindo as músicas de minha época, as de sempre, na forma aleatória, fui terminar o momento ouvindo a derradeira música que tocou... "Lucky Man", do The Verve. Do caralho essas coisas! Durante a escrita, já havia ouvindo "Sujeito de sorte", de Belchior, interpretada por Silvero Teixeira no "Altas horas". Silvero é o Lunga de Bacurau)


quarta-feira, 6 de abril de 2022

060422 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 6 de abril de 2022. Quarta-feira. 19h19.


Escrevo com regularidade há mais ou menos duas décadas, antes em diários e depois em blogs e nas produções textuais do movimento sindical bancário. Neste momento não sinto mais vontade de escrever, não vejo mais sentido nisso. Não sei ainda o que vou fazer a respeito disso. Desacorçoei, perdi a confiança na humanidade. Ainda acredito na educação e na formação, mas elas estão vetadas, inviabilizadas neste momento da história humana.

PANDEMIA MUNDIAL

Convive-se com a pandemia mundial de Covid-19 como se ela não existisse mais. Os dados científicos demonstram o contrário. Nos últimos 28 dias se contaminaram com o vírus 44 milhões de pessoas no mundo, tendo falecido 148.736 pessoas (já morreram 6,16 milhões de pessoas). Nos Estados Unidos morreram 19.910 pessoas nesse período. Na Rússia 12.400 mortos; Na Coréia do Sul 8.593 e no Brasil 7.652 mortos. (Fonte: Johns Hopkins University)

Os políticos "acabaram" com a pandemia na canetada. Agora, somos obrigados a entrar em locais fechados como elevadores e estabelecimentos comerciais lotados de gente sem máscara. Que foda! Estamos por conta da sorte e da precaução quando possível. Vale lembrar que as pessoas vacinadas não estão imunes ao vírus, estão com anticorpos para atenuar os efeitos mortais do vírus, mas podem ter sequelas graves, mesmo sendo assintomáticas.

GUERRAS E FIM DAS INSTITUIÇÕES NACIONAIS E MULTILATERAIS

A guerra na Ucrânia entre os Estados Unidos e a Rússia já dura algumas semanas. É difícil dizer algo a respeito da guerra porque a sociedade mundial está perdendo todas as referências que embasavam a vida humana por causa das ferramentas de desinformação em massa. Já que as instituições e os acordos internacionais não são mais respeitados, por exemplo, a ONU e o Conselho de segurança, como as pessoas podem confiar em algum tipo de informação sobre uma guerra como essa? Os Estados Unidos, a Otan, a Rússia, aquele palhaço do presidente da Ucrânia... difícil crer em qualquer informação.

Fake news e pós-verdade - Quando os conhecimentos históricos e científicos não são mais a referência sobre qualquer coisa e o negacionismo e o achismo pessoal se impõem como pós-verdade, a vivência em sociedade se torna algo meio que irrespirável, sem sentido. As vacinas são questionadas, a astronomia e a geografia idem, a ciência, a história... enfim, qual a referência para a convivência em sociedade?

As democracias liberais inventadas pelos Estados burgueses acabaram. Acabaram. O uso da força e da violência voltou a ser a forma definidora do estabelecimento do poder político. Eu não acredito nem um minuto na possibilidade de termos no Brasil neste ano um processo eleitoral sem violência, golpe, ações fascistas e milicianas e mortes e caos. E nós que somos a grande maioria da população que não concorda e não apoia os fascistas e a extrema direita não estamos armados como eles. Vai ser foda. 

O mundo no qual voltamos a viver é um mundo antes da política, é o mundo da violência explícita e de imposição de poder. Os bolsonaristas e militares e milicianos não vão entregar o poder sem violência. Não vão! Os caras ameaçam até o presidente Lula com arma em vídeos e nada acontece porque as instituições NÃO estão funcionando desde o golpe de 2016! Porra, qualquer anta deveria saber disso!

Chega de registro do que penso para o momento. Estou de muito saco cheio, cheio dos seres humanos, cheio de redes sociais, saco cheio de algoritmos e mentiras, de hipocrisia, cheio de ver os abusos do regime miliciano no poder, cheio de perceber que as instituições do Estado já foram dominadas pelo crime organizado e parceiro da casa-grande e a esquerda e os democratas podem ser vítimas severas do que vem por aí.

Saco!

William (20h26)


segunda-feira, 14 de março de 2022

140322 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 14 de março de 2022. Segunda-feira de chuva.


OPINIÃO

TEMPOS DE MORTES, DESTRUIÇÃO DE DIREITOS E IMPUNIDADE PARA OS DONOS DO PODER

Marielle e Anderson foram assassinados há exatos 4 anos. Os mandantes estão livres e seguros da impunidade. Os assassinatos de lideranças populares são os atos mais extremos praticados para interromper ou frear mudanças sociais em andamento através das lutas coletivas da classe trabalhadora organizada. 

Vários especialistas das áreas de investigação criminal dizem que hoje é quase impossível não desvendar um crime com todas as ferramentas que existem... então o que acontece que não apresentam os mandantes do crime no Rio de Janeiro?

LAWFARE

Mais recentemente os donos do poder, os capitalistas, desenvolveram novas estratégias para interromper processos de lutas sociais dos trabalhadores organizados: os processos de lawfare - máquinas burocráticas do Estado ou de empresas públicas ou privadas montam processos contra lideranças populares de forma a destruírem essas pessoas e suas vidas.

Lula é o maior exemplo de liderança popular vítima dessas máquinas de lawfare para destruírem pessoas e suas vidas. As consequências dos processos de lawfare extrapolam o alvo a ser destruído. No caso do lawfare contra Lula, o Partido dos Trabalhadores e as lideranças do partido, a destruição atingiu a economia do Brasil e consequentemente os pactos sociais existentes antes da Lava Jato.

O impeachment sem crime da presidenta Dilma Rousseff em 2016 é outro exemplo de máquinas de lawfare. O processo contou com a invenção de um crime de responsabilidade que depois deixou de ser crime de responsabilidade. Contou com um sujeito que votou pelo impeachment de Dilma conclamando a memória do torturador dela durante a ditadura brasileira de 1964-85. O sujeito não saiu preso, não respondeu processo e depois colocaram ele no lugar da presidenta através de diversas fraudes no ano de 2018, inclusive o impedimento do candidato que ganharia as eleições.

As vítimas dessas máquinas de lawfare são inumeráveis. Alguns operadores dessas máquinas, pessoas que estão em posição de praticarem os maiores abusos possíveis contra pessoas físicas e ou jurídicas, se sentem deuses e deusas, reis e rainhas, acima de qualquer limite para praticarem suas arbitrariedades. O caso do suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier, da Universidade Federal de Santa Catarina, é mais um exemplo extremado dos efeitos dessas máquinas de lawfare.

Tempos duros esses que estamos vivendo. Eu mesmo fui vítima de um processo inventado, sem pé nem cabeça, no final de nosso mandato eletivo de diretor de saúde da autogestão dos funcionários do Banco do Brasil. A verdade prevaleceu (tempos depois...) por causa da transparência e legalidade de nossos atos. Todas as mentiras que inventaram contra mim foram desmentidas por nossos advogados, pelos companheir@s na gestão e com o auxílio de meu blog de prestação de contas do mandato. Os desgraçados me acusaram de "não trabalhar" até nos dias em que eu estava ministrando palestras na própria autogestão... vocês não imaginam os absurdos que passei.

Qualquer coisa valia e vale para se iniciar processos espúrios de lawfare contra lideranças populares. Fizeram uma cartinha anônima mequetrefe dizendo horrores a meu respeito e desse papelzinho iniciaram um processo de assédio moral e humilhações indescritíveis a mim. Foi duro! A injustiça foi tão grande que realmente a gente pensa em fazer uma besteira por passar por aquilo. Ao final, conseguido o que queriam, o processo teve que ser arquivado depois que saí da autogestão porque não havia fundamento legal para fazer o que fizeram comigo.

DESMONTE DA CASSI - Ao ver o desmonte da Caixa de Assistência naquilo que mais lutamos para fortalecer e preservar, o modelo assistencial de Estratégia de Saúde da Família (ESF), baseado em uma estrutura própria de Atenção Primária - as CliniCassi e as Unidades Cassi nos Estados - e ver o custeio solidário ser todo alterado, cobrando mais daqueles que mais precisam de atendimento médico, fica claro porque tínhamos que ser atacados e eliminados pelos setores que representam a ideologia do mercado e da casa-grande. Agora a opção é terceirizar e contratar tudo do deus mercado... (isso vai acabar mal para os associados e usuários do sistema)

Fico muito triste ao saber que vão fechar as unidades da Cassi em vários Estados como ouvi dizer em redes sociais: Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins. Conheço cada unidade e sei o quanto são importantes para a população local da autogestão. Os grupos no poder estão desfazendo uma estrutura de saúde que gastamos décadas para conquistar e cujos resultados de eficiência do modelo próprio provamos durante o nosso mandato na diretoria de saúde e rede própria de atendimento. Muito triste tudo isso!

Enfim, os tempos são de destruição de direitos sociais do povo, são tempos de desagregação social, inclusive dos organismos que deveriam estar unidos para defenderem a classe trabalhadora, são tempos de mortes e exílios, basta ver a guerra na Ucrânia, entre os Estados Unidos e a Rússia, as vítimas são as de sempre: o povo e a classe trabalhadora.

PANDEMIA DE COVID-19 

E ainda temos a pandemia mundial de Covid-19. Eu sugiro aos interessados que acompanhem o que o professor e cientista Miguel Nicolelis tem postado a respeito da pandemia. Novas cepas e variantes estão sendo descobertas e preocupam o mundo. Após a Ômicron, que diziam ser menos problemática que as cepas anteriores (não foi), agora temos as variantes B.A.1, B.A.2 e B.A.2.2, que podem ser as variantes dominantes na próxima onda.

Os donos do poder estão definindo na canetada que a pandemia acabou. Parte importante das pessoas da ciência diz que não é verdade isso. Os capitalistas e donos das máquinas de manipulação sabem que as pessoas estão cansadas do sofrimento advindo com a crise capitalista e com a pandemia (só os bilionários ficaram mais bilionários ainda)... então vão publicar em suas agências que a pandemia acabou e vamos de pão e circo para desviar a atenção do povão.

As mortes dos pobres e dos 99% estão cada dia mais invisíveis, mortes severinas. Nicolelis publicou em seu perfil no Twitter (14/3/22) que as mortes totais de brasileiros em fevereiro de 2021 e 2022 foram de 126.210 e 126.078, respectivamente. Ou seja, dizem que as mortes por Covid-19 caíram entre o ano passado antes das vacinas e agora, mas o fato é que as mortes de brasileiros seguem em alta. Diminuiu a confirmação de mortes por Covid-19, mas aumentaram mortes por questões respiratórias... 

E agora é aglomeração por aí sem máscaras e tal... Que risco enorme de morte e adoecimento crônico por Covid-19!

Essas são minhas impressões sobre os acontecimentos e os tempos atuais.

William


sábado, 5 de março de 2022

050322 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 5 de março de 2022. Sábado. 11h33 (início).


"Para todas as pessoas que vivem pacificamente e felizes em seus países independentes, eu digo estas palavras: lembrem-se, quando estiverem comendo, de que há centenas de crianças que morrem de fome porque são palestinas. Lembrem-se, quando forem beber água, de que há centenas de crianças que bebem a água suja da sarjeta porque são palestinas. Lembrem-se, quando forem dormir, de que há centenas de crianças sem teto que dormem sem nada para vestir só porque são palestinas." (Mary Masrieh Hazboun, in: Vozes roubadas - Diários de guerra. Cia das Letras, 2008)


O mundo sob a hegemonia do capitalismo segue sendo destruído rapidamente e inviabilizado para a vida humana e para as diversas formas de vidas existentes hoje. Os capitalistas destroem tudo porque podem, é o que eles dizem. Quem não gostou que pare eles. Ninguém os impediu de fazer o que fazem.

A principal guerra noticiada pela imprensa comercial manipuladora segue em seu 10º dia, falo da guerra na Ucrânia, entre os Estados Unidos e a Rússia. E no Brasil seguimos em 2016, com o crime organizado no poder e com representações em todas as instituições do Estado nacional. O crime organizado tem cerca de um terço do eleitorado com ele. É uma potência! É uma lástima!

E ainda temos a pandemia de Covid-19, que mata centenas de pessoas por dia no Brasil e em diversos países do mundo. Aqui, as mortes por Covid-19 foram incorporadas à normalidade assim como as chacinas diárias de gente periférica. As pessoas cansaram da Covid-19 e decidiram acreditar que ela não existe mais (é o foda-se). Seguem as mortes severinas "normais" dessa terra de casas-grandes e coronéis e senzalas.

---

Que registros valem a pena anotar aqui no meu caderno ou diário virtual de reflexões e memórias? 

Coisas que me deixaram pensando muito: 

- O filme Uma noite de 12 anos (2018), dirigido por Álvaro Brechner, que conta a história de José Pepe Mujica e seus companheiros, metidos em calabouços sob tortura e solidão pelo regime ditatorial no Uruguai nos anos setenta e oitenta; 

- A história das jovens Shiran Zelikovich e Mary Masrieh Hasboun, uma jovem de Israel e outra da Palestina, respectivamente. Li trechos dos diários delas, escritos entre os anos de 2002 e 2004, publicados no livro Vozes Roubadas - Diários de guerra (2008), um livro organizado por Zlata Filipovic e Melanie Challender.

- O manuseio e seleção e às vezes leitura das minhas pilhas de materiais guardados ao longo da vida, montanhas de papéis, revistas, jornais, cadernos etc. Sem contar os livros. Ao lidar com tudo aquilo, me impressiono com a nossa história, com o quanto já fomos capazes ao enfrentarmos os capitalistas. Ainda somos capazes, acredito, basta sabermos quem somos, conhecermos nossa história, e termos objetivos claros pelos quais lutar e unidade pra derrotarmos os capitalistas e seus lacaios a soldo. 

HISTÓRIA

"Amo o meu país e acho uma pena que estejamos em guerra. Não posso dizer que me sinto segura, na verdade é bem o contrário, mas faço um esforço para sentir-me assim. Quando ficar mais velha, quero ajudar meu país a combater esses terroristas horríveis." (Shiran Zelikovich, inVozes roubadas - Diários de guerra. Cia das Letras, 2008)


Coisas que me fizeram pensar muito na vida e no sentido das coisas. Também fiquei me lembrando o tempo todo da ideia de controle do mundo lançada por George Orwell no distópico 1984 (publicado em 1949).

"Quem controla o passado, controla o futuro;
Quem controla o presente, controla o passado.
"

É uma assertiva impressionante! Os ideólogos dos poderosos sabem disso e essa ideia de controle do passado no presente para controlar o futuro está em andamento sob nossos olhos. É só vermos o que foi e segue sendo o regime no poder desde o golpe de 2016 no Brasil.

Enquanto eu assisto a um filme que nos remete à história de personagens importantes da história e da vida cultural do Uruguai, enquanto leio diários de duas jovens retratando momentos de dor e sofrimento num mundo em guerra por um pedaço de terra e por dogmas religiosos, enquanto leio a história dos bancários brasileiros e a minha participação nela, o regime bolsonarista apaga a história das conquistas e lutas do povo brasileiro, destrói o espaço físico e o mundo cultural brasileiro, e atua para reescrever o passado e se estabelecer no futuro.

A história ainda tem importância? Quem se importa com a história na atualidade? Por que tentar preservar a história? Não só a história, a cultura tem importância?

Conforme separo documentos que retratam a origem de direitos sociais, políticos e civis dos trabalhadores brasileiros ao longo dos últimos dois séculos, sim porque o Banco do Brasil e seus trabalhadores estão nas lutas sociais do país desde 1808 e os da Caixa Federal há mais de 150 anos e alguns sindicatos nossos estão na luta há quase um século, e nossa Caixa de Previdência já é secular... enfim, enquanto separo documentos históricos por dó de jogar fora, percebo o quanto faz falta à coletividade saber minimamente a nossa história. 

Francamente, as pessoas ao nosso redor não têm a menor noção das coisas. E vivemos hoje o elogio da ignorância... e só perdemos com isso, e a casa-grande e seus ideólogos só ganham com isso. Como é fácil com as ferramentas de hoje nos fazer de idiotas e nos manipular ao bel-prazer.

As histórias de José Pepe Mujica, Mauricio Rosencof (o russo), Eleuterio Huidobro (o Nhato) e seus companheiros têm importância para nós que lutamos por um mundo melhor, mais justo e igualitário, sustentável e solidário. 

As histórias de Lula, de Dilma Rousseff, de José Genoino, de Gushiken e tantas outras lideranças do povo brasileiro têm importância para nós. As histórias de nosso movimento sindical têm importância para nós. Pergunto: estamos preservando nossa história e compartilhando ela com as gerações que pertencem ao nosso lado, todos aqueles que não pertencem à casa-grande, ao 1% que domina e destrói tudo? Tenho minhas dúvidas.

Chega de registro e reflexões. Já fiz textos bons e relevantes, já fiz. Quando olho minha produção como dirigente sindical e como gestor de saúde eleito, vejo que produzi conhecimento de qualidade. Mas isso é passado e tenho consciência disso. 

O que fazer para que jovens como Mary, da Palestina, e Shiran, de Israel, não tenham que seguir denunciando a fome e a miséria de um povo e a manutenção do ódio uns pelos outros por motivos políticos e ideológicos?

Uma coisa se percebe facilmente. Em praticamente todas as guerras nos últimos dois séculos temos por trás delas os Estados Unidos da América. Todas! Nos golpes no Brasil como o que vivemos hoje. Na questão entre Israel e Palestina. Na ditadura civil-militar que colocou Mujica e o povo uruguaio nas longas noites que duraram anos. Na guerra na Ucrânia.

Fim desses registros de memórias e reflexões sobre o viver.

William (15h05)


Bibliografia:

FILIPOVIC, Zlata e CHALLENGER, Melanie. Vozes roubadas - Diários de guerra. São Paulo, Cia. das Letras, 2008.


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Instantes



Osasco, 31 de março. Quinta. 2022. 12h20.

E nesse instante? Que sinto, que penso, que postura ter frente à vida?

Sinto um cansaço imenso, talvez cansaço da vida, por não ter ilusões em relação à sociedade humana. Penso que nunca haverá paz e fraternidade humana, não é da nossa característica histórica. Perante a vida, não vejo outra alternativa ética além da postura de me esforçar para viver de forma satisfatória em relação a mim mesmo e às pessoas que de alguma forma se relacionam comigo ou dependem de mim. 

Em relação à postura perante a vida do ponto de vista do cidadão que sou já que existo num determinado tempo e lugar, devo continuar tentando encontrar uma forma de contribuir para melhorar a sociedade humana. O período de minha existência no qual eu efetivamente contribuí para construir um mundo melhor para todos foi durante o tempo em que fui dirigente eleito da classe trabalhadora. Essa contribuição ao mundo acho que não vai se repetir, isso foi uma oportunidade que a vida me apresentou, não fui eu que corri atrás disso. 

No entanto, minha ética me cobra o tempo inteiro que eu faça algo de útil para a coletividade. Não encontrei o que fazer ainda desde que deixei de atuar na militância sindical. Não é suficiente num mundo tão miserável apenas não fazer o mal a ninguém. Isso é uma espécie de canalhice pequeno burguesa. Zilhões de isentões vivem dessas manobras psicológicas e rezas etc. Viver assim nos últimos anos tem me matado. Mas sou um pusilânime, acho que sempre fui. Sempre fui movido a projetos nos quais caí de paraquedas. E ao me pegar neles, fui bom no que fiz.

Nesse instante, me sinto um inútil para a sociedade humana. Só sou útil às relações próximas. Isso é pouco demais para viver ocupando um espaço tão disputado entre os donos do mundo e os miseráveis do mundo.

William (12h56)

---

Osasco, 24 de março. Quinta-feira. 2022. 1h35 da madrugada.

Nesse instante, imagens e eventos diversos circulam por meu cérebro na forma de energia elétrica, impulsos químicos vão e vêm através das sinapses de meus 86 bilhões de neurônios. Eu sou esse amontoado de neurônios, células, microrganismos diversos, átomos, poeira, bactérias, elementos químicos da natureza. Sou tudo e sou nada. Sou o Universo, o Universo está em mim; estou no Universo, integrado em um corpo vivo chamado William. Um ser vivo com zilhões de seres vivos dentro de mim. Só sobrevivo por causa da interação que realizo com os elementos da natureza e seres vivos fora de mim.

O Alckmin agora é socialista. O socialismo é antagônico ao capitalismo. O Alckmin agora defende o fim da propriedade privada... a propriedade coletiva dos meios de produção... o fim da exploração de um monte de humanos por alguns humanos. O Alckmin é socialista para ser candidato a vice na chapa com Lula, o metalúrgico nordestino do Partido dos Trabalhadores, maior liderança política desse país e símbolo de esperança. Se Alckmin não defende as bandeiras do socialismo, isso tudo não passa de mais uma mentira do mundo da política...

Ao vencer uma partida de xadrez jogando com uma máquina, tive a certeza de que aquilo para mim é uma perda de tempo. Jogar xadrez não é uma atividade que me acrescente algo. De verdade! Nada contra quem é apaixonado por xadrez. Pelo contrário, admiro os enxadristas. Mas aquilo não é para mim. Fiquei pensando na diferença entre mim e aquela coisa. Eu gastava um tempão para avaliar o resultado da mexida de cada pedra no tabuleiro. No segundo em que eu jogava, a máquina me devolvia a vez numa mexida rapidíssima. Ela não pensa. Eu olho pra frente, ela olha pra trás. Não existe "inteligência artificial" como nos explica o neurocientista Miguel Nicolelis. Ela é programada com zilhões de movimentos e contramovimentos. Mesmo se fosse um humano jogando do outro lado, aquele jogo não mudaria nada na minha vida, nem mudaria o mundo, na minha opinião. 

Estive no velório de dona Marlene, uma vizinha nossa do condomínio. Ela faleceu entre o domingo e a terça-feira e só foi encontrada no final da tarde de ontem porque as pessoas próximas a ela a procuraram. Ela morava sozinha e tinha quase 70 anos. Muito triste. Fiquei muito pensativo com o falecimento dela. Nos cumprimentamos dias atrás. Era uma senhora muito gente boa, muito simpática. Soube do velório em cima da hora e a cerimônia duraria somente uma hora. Troquei de roupa e fui até lá prestar minha homenagem a dona Marlene. A vida é um instante. Somos muito sensíveis, muito sensíveis. 

William (2h14)

---

Osasco, 12 de março. Sábado. 2022. 22h22.

Por vários instantes do dia e também de outros dias atrás, pensei numa coisa. Nessas décadas de existência, a parte mais... que palavra usaria para definir a coisa... a parte mais satisfatória de minha vida foi aquela na qual estive envolvido com as causas coletivas. 

Nesse instante, próximo de completar 53 anos, sigo na mesma de quase a vida toda: não estou nem triste, nem feliz. Não sou nem triste, nem feliz. Décadas depois de ir vivendo e sobrevivendo, um ser humano pode ser que acabe olhando para trás e se pegue avaliando a vida que teve. Acho que ando nessa fase.

Tive basicamente 2/5 de minha vida vivida em função absoluta das causas coletivas, me anulei pessoalmente para priorizar as causas nas quais me peguei envolvido e na maior parte do tempo como responsável por elas. Então 3/5 de minha vida vivi mais ou menos por mim mesmo. A primeira década como criança. Me lembro de forma saudosa dessa primeira infância.

Por mim mesmo, quis dizer em função de camelar para os outros para receber uns trocados para viver; nesse sentido, vivi como os capitalistas nos consideram, como um cavalo, um burro de carga. Não vivi pra mim. Foi a fase de alimentar meu ódio a um monte de coisas. Aos ricos, por exemplo.

Por mim, porque foi foda atravessar a vida trabalhando nuns trabalhos de merda, sendo explorado, sendo egoísta e só pensando em mim como um bruto maltratado que vê no maltratar a forma de se vingar da vida de merda da classe oprimida pelos ricos.

Engraçado como a vida é uma jornada e não um destino, como diz um refrão de uma música do Aerosmith. O viver é o que importa e não o destino final, um suposto objetivo final. Tudo que talvez eu tenha imaginado ser, não fui. E acabei sendo algumas coisas que jamais imaginei ou quis ser. E passamos a vida assim.

Vivi amores. Vivi amizades. Vivi momentos incríveis. Vivi dores intensas, de morte. Neste momento em que escrevo, lembro instantes vividos a cada música que toca nos meus fones. Quase todos os momentos marcantes vivi entrando num vagão sem destino certo e vivendo aquela viagem enquanto o trem andou.

Chorei inumeráveis vezes de raiva, de impotência, de tristeza. Chorei algumas vezes por estar vivendo momentos de felicidade indescritível. Chorei com lágrimas. Chorei com olhos secos. Mas esses 3/5 de vida vivida por mim, talvez pra mim algumas vezes, não foram instantes do viver com efeitos positivos para a coletividade, sequer para as pessoas ao meu redor. Nossa... como fiz gente chorar! Isso me dói até hoje. Só encontrei consolo nas palavras do professor Antonio Candido, que ensinou que:

"O que somos é feito do que fomos, de modo que convém aceitar com serenidade o peso negativo das etapas vencidas" (CANDIDO, Formação da Literatura Brasileira)

Os 2/3 que vivi para as causas coletivas parecem completamente diferentes dos instantes particulares de meu viver. E essa vida "útil" que tive... não gosto dessa palavra "útil", mas foi a que me veio para descrever minha vida envolvida nas causas coletivas... essa vida das causas coletivas começou de forma involuntária da mesma forma de tudo que eu não planejei e rolou. Por acaso. Foi por acaso como os amores, as amizades, os momentos incríveis.

Enfim, instantes vividos. (ao fuçar nas papeladas de nossa história sindical e nos momentos registrados no blog sindical vi que fiz algo importante em minha vida. Bem mais importante do que as coisas que fiz no meu entorno particular)

William (23h27)

---

Osasco, 9 de março. Quarta-feira. Noite quente de verão. 2022. 23h29.

Instantes. Impressões. A cada dia, a cada instante, fica mais difícil olhar mídias que trazem informações, verdadeiras ou falsas, sobre qualquer coisa. Não há boas notícias para a Terra, para a classe trabalhadora, para a natureza. As máquinas e meios de desinformação e mentiras dominaram a sociedade humana. Perdeu-se a referência em tudo. A sociedade humana não pode continuar assim; não vamos longe assim. 

Em que momento nos perdemos? Não há resposta para uma pergunta mal formulada como essa. Mesmo assim, olhando friamente, não me parece que o amanhã nos trará coisas boas. E fico pensando nos jovens, nas crianças, nas pessoas que têm a vida pela frente.

É grande o sentimento de impotência que acaba por se impor em muita gente, inclusive em nós que fomos linha de frente ao organizar as massas da classe trabalhadora contra os donos do mundo, os humanos que pertencem ao grupo que alguns de nós chamam de o pessoal do 1%.

No início do ano passado, 2021, morreram mais brasileiros que as médias de anos anteriores, de Covid-19 e de outras mortes, mortes severinas. Consequências do colapso no sistema de saúde e da estratégia do regime genocida de deixar os brasileiros morrerem. As mortes são em sua imensa maioria de gente pobre, preta, mestiça, "frágil" ou adoentada, das classes "inferiores". Morrer gente da casa-grande, do tal 1% e seus capitães do mato modernos, uns 4 a 5% da elite (do atraso), é uma raridade, raridade!

Neste momento, os governos estaduais se somam ao desejo do regime genocida e decidem por liberar o uso de máscaras e flexibilizar restrições criadas por causa da transmissão do vírus da pandemia. Notem que seguem morrendo centenas de pessoas por dia. Centenas! O professor e cientista Miguel Nicolelis informa que as mortes em geral no Brasil nos meses de janeiro e fevereiro de 2022 já são iguais às desses meses em 2021, período que antecedeu o pior momento de 2021 (março e abril)... Ou seja, o que justifica a canetada dizendo que a pandemia acabou?

Fora esse apoio ao vírus Sars-Cov-2, temos a guerra na Ucrânia, guerra entre os Estados Unidos e a Rússia. É o jogo no Tabuleiro de War em disputa pelas potências nucleares e econômicas, e pessoa física é nada nesse jogo. Nada! Só importam as pessoas jurídicas.

E no Brasil temos o presidente genocida crescendo nas pesquisas eleitorais. O meu lado da classe, a parte militante, acha que Lula pode ser presidente no ano que vem. Eu não acredito que isso vá acontecer. Infelizmente! Nada vai mudar sem guerra. Que pena! E se tiver guerra, nós dos 99% ou 95% vamos nos foder. Nem armados estamos. Que foda!

Chega!

William (00h00, mais um dia começa... pra mim é fácil, se for comparar aos meus pares da classe trabalhadora, não tenho falta de nada, sou um privilegiado. Essa é a verdade!)

---

Osasco, 7 de março. Segunda-feira. Calor da porra! 2022. 11h54.

Instantes quentes. Estava pensando no quanto aumentou o risco de morte das pessoas nos últimos anos. Mortes severinas, mortes matadas e mortes morridas. Mortes evitáveis.

Pessoalmente, não tenho problema em morrer. No instante seguinte da morte não terei mais sensação alguma, não serei nada, não existirei em lugar algum inventado pela mente humana. Tenho clareza disso, fui ganhando a noção clara da realidade existencial com a vivência. Querer que se lembrem da gente, por exemplo, tem relação com a vaidade, uma abstração humana.

Porém, a morte tem um efeito social porque não somos sozinhos no mundo, mesmo aquelas pessoas que estão sozinhas não são tão sós que sua morte não vá causar efeitos sociais. Até nosso corpo está aqui no mundo e o mundo vai ter que lidar com nosso corpo morto. Nossa morte altera de forma permanente a condição das pessoas que estão em nosso meio. Altera.

Quando penso na realidade da morte, tenho umas preocupações, uns lamentos. Se eu deixar de existir, algumas pessoas sentirão minha ausência porque temos relações marcadas por sentimentos humanos ancestrais como amor, carinho, amizade. Essas dores que as pessoas sentirão, essa ausência, essa saudade, nos comove, nos dá uma sensação de lamento.

Todo ser humano precisa de outros seres humanos, somos seres sociais, e temos relação de dependência com outras pessoas. Se eu deixar de existir, talvez algumas pessoas tenham dificuldades para encontrar uma forma de manutenção da condição de existência que a vida nos permitiu até aqui. Isso preocupa muito a qualquer um de nós humanos. Nos causa dor em vida a preocupação com a continuidade da vida das pessoas de nossas relações.

Por causa dessas preocupações com as pessoas de nossas relações é que nos preocupamos com a realidade que aumentou tanto as possibilidades de nossas mortes. 

Se ficar vivo mais um tempão, décadas por exemplo, eu arranjaria o que fazer tranquilamente. Ler e escrever seria uma possibilidade. Morrendo por esses tempos, altero vidas queridas.

Não acho que sou eu que estou com mania de pensar nessa realidade humana, a morte. É a realidade material do mundo capitalista em crise que nos faz pensar nas possibilidades da morte nos pegar e alterar drasticamente a vida e a realidade de diversas pessoas das relações dos mortos. 

Pensem nos riscos de morte dos ucranianos neste momento de guerra em seu território entre os Estados Unidos e a Rússia. Pensem nas outras regiões em guerra neste momento, as guerras na África que a mídia comercial não fala porque não interessa. 

Pensem na guerra no Brasil após o golpe de 2016. 100.000.000 de pessoas aqui não sabem se vão comer hoje ou amanhã. As pessoas estão morrendo de fome, de doenças evitáveis. E o 1% da casa-grande daqui e de outros países não liga a mínima pra isso.

Vocês já pararam pra refletir o quanto estamos sendo envenenados após os brasileiros e as agências americanas terem colocado o crime organizado nas instituições de poder do Brasil após 2016? Estamos envenenados de todas as formas. Só os venenos que passaram a compor tudo o que comemos... o agro é veneno! Eu sei que ao comer uma fruta, um legume, os cereais, as bebidas prontas, estou sendo envenenado... mas essas mortes por veneno não são classificadas como mortes matadas. São mortes morridas, mortes severinas (morreu de câncer, coitado...).

A maior parte de nós morre e morrerá de morte evitável. Morte severina!

Chega por hoje.

William (12h35)

---

Osasco, 1º de março. Terça-feira. Feriado de Carnaval. 2022. 17h16

O instante é de muito calor. Mais de 30º. Ontem, encontrei alguns amigos dos tempos de movimento sindical. Refletimos sobre diversos temas como usávamos fazer antes. Quando fui me despedir de um dos amigos, ele me fez aquela tradicional pergunta a respeito do que a pessoa anda fazendo. Os temas da conversa foram tão variados que não havíamos falado sobre isso no bate-papo. Lendo e escrevendo em meus blogs, foi o que disse. Falei também que estava escrevendo uma espécie de "memórias" sobre os tempos de militância no movimento sindical bancário. O amigo me perguntou por que estava escrevendo sobre aquilo. Meio sem entender o motivo da pergunta, respondi que escrevia memórias porque aquilo fez parte da minha vida. "Aquilo" seria algo como a participação na luta do movimento sindical brasileiro. Fiquei pensando o porquê da pergunta. Avalio que a pergunta poderia ser uma espécie de preocupação do amigo por ele ter consideração por mim. Ele sabe de vários perrengues que passei durante os mandatos de representação eletiva. Vivemos juntos alguns momentos difíceis, de rachas no movimento e esgarçamento no tecido sindical bancário.

Tem um episódio da antiga série Arquivo X que me marcou bastante na época que o vi. O episódio (7º da 9ª temporada: Amnesia) começou com um dos agentes da série, Dogget, meio dopado dentro de um galpão numa cidade desconhecida, no México, se não me engano. Ele não tinha a menor ideia de como foi parar lá. Na trama do episódio, uma espécie de curandeiro ou feiticeiro apagou as memórias do agente. Quando Dogget se vê cara a cara com o curandeiro exigindo que ele devolvesse sua memória, o curandeiro é perverso com o agente e começa a lhe devolver justamente as lembranças amargas da morte de seu filho, um garoto ainda. O episódio é muito forte, mexe com o telespectador. A trama se desenvolve e, no final, Dogget diz ao curandeiro que ele não tinha direito de lhe tirar a memória... porque por mais dura e triste que fosse a lembrança da morte e perda de seu filho, era a memória dele e ninguém tinha o direito de lhe tirar aquilo, era a vida dele... Forte isso!

William (17h44)

---

Osasco, 26 de fevereiro. Sábado de Carnaval sem Carnaval. 2022. 13h57

Acordei depois das onze horas da manhã. Havia ido dormir depois das quatro horas da manhã. Estava sonhando com algo estranho, que incomodava. Eu não me lembro bem de sonhos. Na verdade, pelo conteúdo incômodo, é como se fosse um bad dream, um pesadelo. Alguns capas (pessoas de poder) da corrente política na qual militei a vida toda insinuavam que eu estava afastado da base (que horror!). Passei a vida toda de representação eletiva muito atento a nunca descuidar do trabalho de base, mesmo quando me enfiaram em funções de burocracia e de estrutura de poder. Fui dando um jeito de responder pelas obrigações burocráticas e fui fazendo base durante os 16 anos de mandatos. Essa atitude ideológica e de concepção e prática sindical teve um preço alto, inclusive em minha saúde. Mas faria do mesmo jeito hoje. Só sei fazer política com a intensidade militante que a política da esquerda exige. A política é uma coisa complicada de se lidar quando estamos dentro dela e de se entender quando estamos fora dela. É muito compreensível os motivos pelos quais o povo cai fácil nas construções de ódio à política.

Enfim, tinha outros instantes para registrar nesta tarde de sábado, mas deixa pra lá. Uma coisa que está martelando em minha cabeça desde ontem quando a ouvi através de um youtuber (Henry Bugalho), dita por causa da questão Rússia, Ucrânia, Otan e EUA, o evento com bombas e fuga de civis de suas casas, é a questão sobre o que uma pessoa levaria de casa se tivesse que sair às pressas e deixar tudo pra trás por causa de eventos políticos como esses. Além dos documentos o que mais levar à mão? O restante que ficar será toda a sua vida material pregressa. Aí fico pensando em minhas pilhas de coisas, coisas, coisas. Nas mudanças que comecei anos atrás e que não consegui terminar até agora... puta que pariu! Como a gente não se toca nessa vida!

William (14h19)

---

Osasco, 21 de fevereiro. Segunda. 2022. 22h19

Às voltas com meus processos internos, com as coisas de meu mundo doméstico, fico me perguntando por que a gente guarda tanta coisa, por que a gente tira tanta foto de tudo quanto é coisa e lugar e ocasião; por que a gente faz o que faz, eis a questão! Vaidade? Pra matar saudades? Pra registrar algo bom ou ruim ou curioso? Por não confiar na memória própria? Vai saber...

A problemática ao guardar grande volume físico ou virtual de coisas é que com o passar do tempo o espaço acaba - físico e virtual. Outra coisa: o que fazer com tudo aquilo? Ao começar a fuçar nas coisas guardadas, no espaço físico e no virtual, a gente pode realmente experimentar sentimentos de vaidade, saudades, tristeza ou alegria ou curiosidade ao rever aquelas coisas. Histórias da vida privada, da vida pública, eventos que marcaram a vida e vidas diversas.

Uma das coisas que fico pensando é a respeito da utilidade daqueles guardados. Tanto para mim quanto para outrem. Milhares de fotos de viagens a passeio... outro tanto de fotos que marcaram um mandato eletivo feito muito próximo às bases sociais que representava, uma concepção e prática sindical de raiz, "radical!", se quiser ser preciso e marcar posição política e ideológica sobre o que preservei num mandato.

Ao fuçar nas acumulações da vida sindical e profissional, a determinação de colocar a maior parte daquilo tudo num saco e mandar pra lixeira é uma determinação episódica, pusilânime, ela vem quando começo a olhar os conteúdos e desaparece depois que passei os olhos pelo que tem ali. Que difícil! Pode ser vaidade. Mas às vezes penso que pode ser amor... sim, amor. Aquilo remete à luta de classes, remete a instantes que fizeram parte do tecido histórico do que somos.

Uma pilha de Revista dos Bancários, outro tanto de Revista do Brasil, revistas Fórum, revistas Superinteressante, revistas Carta Capital...

Dezenas de quilos e pilhas de fotocópias de textos dos mais diversos autores de referência de um curso de Letras da Universidade de São Paulo... cada texto mais maravilhoso que o outro.

Matérias jornalísticas que relembram grandes lutas, grandes eventos, democracia na veia nas brigas intestinas nos congressos e encontros e assembleias que decidiam a vida de dezenas de milhares ou centenas de milhares de pessoas de uma categoria ou do mundo do trabalho.

Difícil! (22h51)

---

Osasco, 19 de fevereiro. Sábado. 2022. 13h11

O instante. Picotei mais uma agenda antiga. São tantas ainda... e com muitos registros de história pessoal e coletiva. Ontem fiz uma postagem de Memórias (ver aqui) aproveitando o fato de ter recordado momentos registrados em 2009. Vamos ver se consigo avançar em alguma obrigação doméstica procrastinada há tempos. Desanimado pra isso neste sábado quente...

Teve um instante ontem que merecia um registro, mas não tive saco pra fazê-lo. Uma participante de um plano de saúde da Cassi me pediu um auxílio para tentar resolver uma dificuldade de atendimento naquele momento. Ela está grávida, tinha um exame de rotina a ser feito em um local conveniado à Cassi, o exame estava com hora marcada, ela teve que fazer jejum de várias horas. Simplesmente após horas de espera, ela ainda não tinha conseguido realizar o exame e o prestador dizia que havia algum problema de liberação do convênio médico dela. Eu sugeri que ela ligasse no 0800 ou na telemedicina, canais comuns de atendimento de convênio médico. Uma hora depois, eu perguntei se ela havia conseguido ser atendida e ela me disse que sim. Como acontece em 99% das situações semelhantes, não era culpa da Cassi, o prestador é que estava com problemas internos e várias pessoas estavam aguardando horas para serem atendidas naquela manhã. Gestantes em jejum ficaram sofrendo para serem atendidas por um consultório médico e os capitalistas donos manipulavam as vítimas culpando os convênios delas. 

O que me tira do sério é que sempre que explico isso para alguém do universo que frequento e convivo, até pessoas próximas, a primeira coisa que as pessoas dizem é que já ouviram médica tal ou médico tal dizerem que a Cassi paga mal, que a Cassi isso, que a Cassi aquilo... que saco isso! Os capitalistas mentem e as vítimas ficam do lado deles!

Mesmo eu dizendo que não é verdade, que a Cassi não paga mal os convênios (capitalistas prestadores) e que os capitalistas chamados de médicos e profissionais de saúde fazem um monte de procedimentos desnecessários, inclusive cirurgias de alto risco e caras sem necessidade, as vítimas (pacientes) seguem defendendo os capitalistas-médicos e não o nosso plano de saúde que não visa lucro, não é ou não deveria ser "empresa" como pensa a administração atual, mas enfim, mesmo as pessoas próximas a mim e conhecidas e da comunidade Banco do Brasil preferem acreditar sempre no capitalista que vende procedimentos de saúde, mesmo os desnecessários. 

Viva o capitalismo! Parabéns aos capitalistas! O mundo é de vocês! Os detentores do saber de algumas profissões, em geral reservadas à casa-grande e seus herdeiros, se aproveitam do saber da medicina, engenharia, do meio jurídico etc para fazerem de trouxas a grande massa dos 99%. E la nave va...

---

Osasco, 16 de fevereiro. Quarta-feira. 2022. 23h43.

O instante público mostrado pela grande imprensa e pelas mídias sociais é a tragédia em Petrópolis. Forte chuva causou uma centena de mortes e desaparecidos. Dezenas de casas vieram abaixo com os deslizamentos. Milhares de pessoas tiveram suas vidas atingidas pela tragédia. Antes de Petrópolis (RJ), as chuvas castigaram nas últimas semanas as pessoas na Bahia, em Minas Gerais e São Paulo. Vidas perdidas por causa do capitalismo e dos capitalistas. As causas das mortes e da miséria daquela gente não foram naturais. O que as tornam naturais é a ideologia do capitalismo.

A grande imprensa não pautou a morte do garoto de nove anos assassinado por capangas por ser filho de um líder rural. O garoto foi executado a tiros enquanto se escondia embaixo da cama. As causas da morte foram o capitalismo e os capitalistas.

A pandemia de Covid-19 voltou a matar mil pessoas por dia no Brasil do bolsonarismo. Mas por falta de opção contra Lula, a imprensa grande manipula a pauta e direciona o povo brasileiro para outras pautas, outras causas e consequências. Bolsonaro e bolsonários e as mortes por Covid-19 no Brasil são causas e consequências do capitalismo e dos capitalistas.

A imprensa empresarial faz o povo de imbecil porque pode fazer isso. Não há ninguém nem força ou grupo político que impeça essa ditadura da imprensa da casa-grande e há técnicas para manipular o povo e o povo ainda ficar de amores com os manipuladores. Nossos conhecidos adoram os manipuladores e manipuladoras que apresentam a pauta que manipula. Difícil...

As pessoas estão nas ruas, sem moradia. Estão famintas. Tem muita comida por aí. Tem muita moradia desabitada para especular. Moradia e alimento no capitalismo não são moradia e alimento, são mercadorias. É o capitalismo e os capitalistas. E a ideologia deles nos meios de comunicação.

Que difícil!