Mostrando postagens com marcador Espanha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Espanha. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (7)


Eu com Cervantes em Toledo, 2009


Refeição Cultural

"Pagan a las veces justos por pecadores" (El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1, Miguel de Cervantes)


Tive o privilégio de ler o clássico de Miguel de Cervantes no início dos anos dois mil, eu havia entrado na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo naquele momento. Li uma edição comemorativa da Alfaguara na ocasião dos 400 anos de lançamento da obra.

Foi uma das maiores aventuras literárias de minha vida. Ri e chorei enquanto lia as aventuras e desventuras de Dom Quixote e de seu fiel escudeiro Sancho Pança.

Pegar e ler qualquer capítulo dos dois volumes é um ato de prazer, de satisfação e de comemoração à capacidade humana para a construção de coisas grandiosas quando os humanos se dedicam a fazer coisas boas. Miguel de Cervantes nos legou Dom Quixote e Sancho Pança. Só temos a agradecer a ele por isso.

---

CAPÍTULO 7

"De la segunda salida de nuestro buen caballero don Quijote de la Mancha"


Os "amigos inquisidores" de nosso aficionado leitor, Alonso Quijana, ainda estavam expurgando os livros de sua biblioteca, alimentando a fogueira no quintal com volumes de cavalarias, poesia, novelas e quase tudo que o ancião tinha, quando o acamado cavaleiro começou seus delírios e chamou a atenção do cura e do barbeiro.


Aquella noche quemó y abrasó el ama cuantos libros había en el corral y en toda la casa; y tales debieron de arder, que merecían guardarse en perpetuos archivos; mas no lo permitió su suerte y la pereza del escrutiñador, y así se cumplió el refrán en ellos de que pagan a las veces justos por pecadores.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por “Miguel de Cervantes”)


Nosso cavaleiro andante encontra seu fiel escudeiro Sancho Pança:


En este tiempo solicitó don Quijote a un labrador vecino suyo, hombre de bien (si es que este título se puede dar al que es pobre), pero de muy poca sal en la mollera. En resolución, tanto le dijo, tanto le persuadió y prometió, que el pobre villano se determinó de salirse con él y servirle de escudero.” (ibidem)


Sancho Pança aceita convite do vizinho Alonso Quijana, agora cavaleiro andante:


Con estas promesas y otras tales, Sancho Panza (que así se llamaba el labrador) dejó su mujer e hijos, y asentó por escudero de su vecino.


Poderia um honrado cavaleiro ter ao seu lado um escudeiro montado num burrico?


En lo del asno reparó un poco don Quijote, imaginando si se le acordaba si algún caballero andante había traído escudero caballero asnalmente; pero nunca le vino alguno a la memoria; mas con todo esto determinó que le llevase, con presupuesto de acomodarle de más honrada caballería en habiendo ocasión para ello, quitándole el caballo al primer descortés caballero que topase.


E então, cavaleiro andante e fiel escudeiro tomaram as veredas do Campo de Montiel em busca de aventuras e ilhas a serem conquistadas:


Acertó don Quijote a tomar la misma derrota y camino que él había tomado en su primer viaje, que fue por el Campo de Montiel...


Sancho gostaria de ser rei para que sua companheira, Juana Gutiérrez, fosse rainha e os filhos infantes, mas ele não acreditava que isso pudesse acontecer:


- Yo lo dudo - replicó Sancho Panza-, porque tengo para mí que, aunque lloviese Dios reinos sobre la tierra, ninguno asentaría bien sobre la cabeza de Mari Gutiérrez. Sepa, señor, que no vale dos maravedís para reina; condesa le caerá mejor, y aun Dios y ayuda.


---

Os comentários do capítulo anterior podem ser lidos aqui.

Sigamos lendo e nos mantendo humanos.

William

sábado, 17 de maio de 2025

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (6)


Dom Quixote, de Gustave Doré.


Refeição Cultural

"Causó risa al licenciado la simplicidad del ama, y mandó al barbero que le fuese dando de aquellos libros uno a uno, para ver de qué trataban, pues podía ser hallar algunos que no mereciesen castigo de fuego." (El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1. Miguel de Cervantes)


Nosso valoroso e bem-intencionado Alonso Quijana, um aficionado leitor de livros de cavalaria da região castelhana de La Mancha (no ano 1605), está dormindo em sua cama, após sofrer as primeiras desventuras como cavaleiro andante. Ele foi encontrado por um vizinho, Pedro Alonso, após uma surra que levou de mercadores de Toledo (leitura anterior aqui).

Enquanto dorme e se recupera, seus amigos - o sacerdote Pero Pérez (el cura) e o barbeiro maese Nicolás -, e sua ama e sobrinha, decidem queimar os livros do fidalgo leitor. Vão seguir a cartilha da "santa inquisição" e meter no fogo tudo o que cause transtorno à ordem vigente, no caso, os livros que mexeram com as ideias do pacato leitor.

A cena é perturbadora. Enquanto o leitor apaixonado por seus livros dorme e se recupera de suas aventuras com pauladas, socos e pontapés, as pessoas de sua confiança tacam fogo em seu bem mais precioso: sua biblioteca.

---

CAPÍTULO 6

"Del donoso y grande escrutinio que el cura y el barbero hicieron en la librería de nuestro ingenioso hidalgo"


O escrutínio dos livros de nosso fidalgo leitor começa por "Los cuatro", de Amadís de Gaula, o primeiro livro do gênero de cavalarias impresso na Espanha. O inquisidor - o cura - o condenou ao fogo... e o salvou da fogueira o auxiliar do "licenciado", o barbeiro, que clamou pela vida do livro de Amadís.

Na inquisição dos livros de Alonso Quijana, tem uma passagem interessante: o cura fala sobre a questão da tradução, ao falar das obras do poeta italiano Ludovico Ariosto (1474-1533), afirmando que só salvará da fogueira os livros dele na língua original, pois a versão para outro idioma como, por exemplo, o castelhano, "tirava muito do valor natural da obra".

“y aquí le perdonáramos al señor capitán que no le hubiera traído a España y hecho castellano, que le quitó mucho de su natural valor; y lo mesmo harán todos aquellos que los libros de verso quisieron volver en otra lengua; que, por mucho cuidado que pongan y habilidad que muestren, jamás llegarán al punto que ellos tienen en su primer nacimiento.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por Miguel de Cervantes)

O que os leitores verão é que poucos livros de cavalaria se salvarão da condenação à fogueira. Os de poesia terão o mesmo destino, tirando um ou outro que os inquisidores vão pegar para si mesmos (roubo, né?), privando o senhor Alonso de sua biblioteca.

---

LA GALATEA se salvou...

“- La Galatea, de Miguel de Cervantes - dijo el barbero. 

- Muchos años ha que es grande amigo mío ese Cervantes, y sé que es más versado en desdichas que en versos. Su libro tiene algo de buena invención, propone algo, y no concluye nada; es menester esperar la segunda parte, que promete; quizá con la enmienda alcanzará del todo la misericordia que ahora se le niega; y entre tanto que esto se ve, tenedle recluso en vuestra posada.”

Cervantes tinha uma obra publicada ainda no século anterior, o XVI. A novela pastoril "Primera parte de la Galatea", que foi publicada em 1585, em Alcalá de Henares (Wikipedia). 

A professora Maria Augusta da Costa Vieira, da FFLCH, diz que a publicação é de 1581, logo após Cervantes retornar dos 5 anos de cativeiro em Argel. Fui aluno dela na Letras.

O inquisidor, o sacerdote Pero Pérez, disse ser amigo do escritor Cervantes e livrou La Galatea do expurgo e da fogueira por acreditar que a segunda parte da obra, nunca publicada, poderia salvá-la da danação. (A novela pastoril é inacabada)

---

COMENTÁRIO FINAL

As aventuras e desventuras do engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha estão entre nós há mais de quatro séculos. Elas nos inspiram há muito tempo.

O livro e os personagens começaram como uma crítica aos livros de cavalaria, os best sellers da época, e foram ganhando outras leituras ao longo de sua história de vida, de leituras e de leitores.

Ao ler qualquer capítulo dos dois volumes de Dom Quixote, e a qualquer tempo, a leitora e o leitor acabam por encontrar acontecimentos, conceitos e reflexões que valem para si e que podem contextualizar o momento da leitura. Essa é a magia de uma obra universal!

Ao longo de quatro séculos, livros foram expurgados e lançados ao fogo. 

Ao longo desses últimos quatro séculos, pessoas idealizaram e saíram por aí para desfazer injustiças e mudar o mundo para honra de si próprias e para o bem de suas comunidades.

O personagem Dom Quixote de La Mancha inspira seres humanos há mais de quatro séculos.

Leiam, leiam, amigas e amigos leitores, se desconectem por algumas horas das redes das big techs e salvemos a humanidade.

William


terça-feira, 4 de março de 2025

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (5)


Don Quijote em Toledo, Espanha.


Refeição Cultural

“-Yo sé quién soy - respondió don Quijote-, y sé que puedo ser no sólo los que he dicho, sino todos los Doce Pares de Francia y aun todos los nueve de la Fama, pues a todas las hazañas que ellos todos juntos y cada uno por sí hicieron, se aventajarán las mías.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por “Miguel de Cervantes”)


Sigo na aventura de acompanhar nosso cavaleiro andante em suas primeiras façanhas. Após os incidentes da primeira saída de Dom Quixote, já é dado a ele a primeira alcunha: "El herido Caballero del Bosque".

Depois de "salvar" o pobre Andrés do açoite (no capítulo anterior: aqui), Dom Quixote quis que um grupo de mercadores de Toledo enaltecesse a beleza sem igual de sua amada Dulcinea del Toboso.

Ele se deu mal no confronto com a turba (os mercadores) porque Rocinante escorregou no caminho. Levou muita pancada e não conseguiu mais se levantar.

Neste capítulo, o senhor Alonso Quijana é encontrado nessa situação por um vizinho, caído e todo moído de levar pauladas de um servo dos mercadores.

O bondoso conhecido - Pedro Alonso - vai levá-lo de volta pra casa.

-

CAPÍTULO 5

"Donde se prosigue la narración de la desgracia de nuestro caballero"


Através de alguns trechos do capítulo 5 é possível compreender a criatividade e engenhosidade de Miguel de Cervantes no trato com seus leitores. 

Ele se mantém fiel ao que contratou com os leitores no "Prólogo", mas aos poucos nós leitores já vamos esquecendo o senhor Alonso Quijana e vamos nos envolvendo emocionalmente com Dom Quixote. 

Já vivi a experiência de ler os dois volumes do clássico cervantino. Depois que Dom Quixote sair novamente, a 2ª saída, já acompanhado de seu fiel escudeiro Sancho Pança, não nos lembraremos mais do senhor Quijana.

Seremos todos Dom Quixote.

---

EXCERTOS

Senhor Alonso Quijana é encontrado pelo vizinho Pedro Alonso:

“Y quiso la suerte que, cuando llegó a este verso, acertó a pasar por allí un labrador de su mesmo lugar y vecino suyo que venía de llevar una carga de trigo al molino, el cual, viendo aquel hombre allí tendido, se llegó a él, y le preguntó que quién era, y qué mal sentía, que tan tristemente se quejaba. Don Quijote creyó sin duda que aquél era el marqués de Mantua, su tío, y así, no le respondió otra cosa sino fue proseguir en su romance, donde le daba cuenta de su desgracia y de los amores del hijo del emperante con su esposa, todo de la misma manera que el romance lo canta.”

O engenhoso cavaleiro andante está caído ao solo e segue esperando por um sábio ou sábia com alguma poção que o cure das feridas em batalha...

“-Señor Quijana - que así se debía de llamar cuando él tenía juicio y no había pasado de hidalgo sosegado -a caballero andante-, ¿quién ha puesto a vuestra merced desta suerte?”

Dom Quixote segue com suas lamúrias descrevendo cavaleiros e feiticeiros enquanto rola pelo chão todo moído. Ele entende que seu vizinho é um dos personagens que idealiza em sua cabeça. O vizinho insiste:

“-Mire vuestra merced, señor, ¡pecador de mí!, que yo no soy don Rodrigo de Narváez ni el marqués de Mantua, sino Pedro Alonso, su vecino; ni vuestra merced es Valdovinos, ni Abindarráez, sino el honrado hidalgo del señor Quijana.”

Nosso "Ferido Cavaleiro do Bosque" responde de forma convicta ao seu vizinho:

“-Yo sé quién soy - respondió don Quijote-, y sé que puedo ser no sólo los que he dicho, sino todos los Doce Pares de Francia y aun todos los nueve de la Fama, pues a todas las hazañas que ellos todos juntos y cada uno por sí hicieron, se aventajarán las mías.”

DE VOLTA AO LAR (fim da 1ª saída)

O vizinho chega com o senhor Alonso e encontra reunidos a ama e a sobrinha, o licenciado Pero Pérez - o cura - e o barbeiro senhor maese Nicolás, amigos do antes honrado fidalgo Alonso Quijana, leitor voraz de romances de cavalaria. Comentam que aquele tipo de leitura é coisa do demônio.

“Encomendados sean a Satanás y a Barrabás tales libros, que así han echado a perder el más delicado entendimiento que había en toda la Mancha.”

A sobrinha afirma:

“Mas yo me tengo la culpa de todo, que no avisé a vuestras mercedes de los disparates de mi señor tío, para que lo remediaran antes de llegar a lo que ha llegado, y quemaran todos estos descomulgados libros, que tiene muchos, que bien merecen ser abrasados, como si fuesen de herejes.”

Eles conversavam sobre as consequências da leitura daquelas histórias sem pé nem cabeça contadas nos livros de cavalaria, tão populares à época. 

Cervantes apresenta aqui a questão de se lançar os livros à fogueira, algo comum ao longo dos séculos e séculos, em um mundo dominado pela igreja e pelos monarcas.

O senhor Quijana segue sendo Dom Quixote e intervém na conversa ao redor dele, culpando o pobre pangaré nominado Rocinante:

“-Ténganse todos, que vengo mal ferido por la culpa de mi caballo: llévenme a mi lecho, y llámese, si fuere posible, a la sabia Urganda, que cure y cate de mis feridas.”

E vamos caminhando para o final do capítulo.

“Hiciéronle a don Quijote mil preguntas, y a ninguna quiso responder otra cosa sino que le diesen de comer y le dejasen dormir, que era lo que más le importaba. Hízose así, y el cura se informó muy a la larga del labrador del modo que había hallado a don Quijote. El se lo contó todo, con los disparates que al hallarle y al traerle había dicho, que fue poner más deseo en el licenciado de hacer lo que otro día hizo, que fue llamar a su amigo el barbero maese Nicolás, con el cual se vino a casa de don Quijote.”

---

Amigas e amigos leitores, que romance extraordinário! A leitura de Dom Quixote foi uma das maiores aventuras literárias de minha vida.

William

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Vendo filmes (XXVII)


Cena do filme "Má educação".

Refeição Cultural

O universo de Pedro Almodóvar (III)


ANOS 2000

O intuito dessas postagens que fiz sobre os filmes de Pedro Almodóvar e que faço aqui no blog sobre filmes, literatura, e grandes personalidades do mundo da cultura é compartilhar conhecimento de forma gratuita e sugerir que as leitoras e leitores vivenciem também as experiências que essas culturas me proporcionaram.

Nunca tinha feito essa experiência de assistir a uma quantidade grande de filmes de um mesmo diretor e roteirista, em ordem cronológica de lançamento, para ir vendo a poética e o estilo do diretor se desenvolvendo. 

Vi doze filmes de Almodóvar nos últimos dias e preferi fazer comentários dividindo os filmes em anos 80 (aqui), anos 90 (aqui) e este texto sobre os anos 2000.

Confesso a vocês que deu um trabalhão produzir as três postagens. Para fazer textos minimamente corretos e com opinião honesta foi preciso ler e pesquisar sobre cada um dos filmes. Neste blog, sempre tentei acrescentar algo a mais à pessoa que lê meus textos.

Enfim, sobre os filmes "Fale com ela", "Má educação" e "Volver", percebi uma evolução de Almodóvar, mesmo ele tendo trabalhado com temáticas parecidas ao longo das três décadas: a condição das mulheres e a situação cotidiana de pessoas e grupos periféricos compõem o universo do diretor.

A experiência de ver doze filmes de Almodóvar me agradou bastante, foi diferente para mim. E mesmo estando em um período complexo para produzir meus textos e compartilhar o que sinto e aprendo, foi um esforço que avalio que valeu a pena.

É isso! Segue abaixo o comentário sobre os filmes.

---

FILMES


Fale com ela (Hable con ella), de 2002.

SINOPSE:

Benigno Martín (Javier Cámara) vive em Madri, ele é enfermeiro e mora num apartamento que fica em frente da academia de balé de Katerina Bilova (Geraldine Chaplin). De sua janela, Benigno espiava a jovem bailarina Alicia Roncero (Leonor Watling) até que ela sofre um acidente e entra em coma. Benigno será destacado para ser o enfermeiro responsável por ela no hospital. Marco Zuluaga (Darío Grandinetti) vai até o hospital para visitar sua namorada Lydia González (Rosario Flores), toureira famosa que está em coma após ser ferida gravemente em um espetáculo. Benigno e Marco se tornam amigos e suas histórias serão contadas aos espectadores.

COMENTÁRIO:

Este filme de Almodóvar cativa a gente pelas imagens. Muitas cenas ficaram em minha memória.

No meu caso em particular, as cenas da toureira Lydia me fizeram voltar ao dia em que entrei na Praça de Touros Las Ventas, em Madri, no ano de 2009. Eu não me senti à vontade com essa tradição cultural dos espanhóis - confesso que torci pelo touro. No filme, Lydia é uma grande toureira e proporciona espetáculos vibrantes aos espectadores.

Uma das cenas mais hilárias do filme é quando descobrimos que a toureira Lydia também tem suas fraquezas quando se trata de espécies do reino animal.

As cenas sensuais são espetaculares. Uma parte alucinante do filme é quando um personagem sonha que está com sua amada em uma cama, ele é um ser pequeno, do tamanho de uma mão, e vai encontrar uma forma de dar prazer à sua amada...

Almodóvar alinhava as histórias das personagens como é hábito do diretor. Gostei demais do filme.

---


Má educação (La mala educación), de 2004.

SINOPSE:

Dois meninos, Ignacio (Nacho Pérez) e Enrique (Raúl García), conhecem o amor, o cinema e o medo num colégio religioso no início dos anos sessenta. Enrique Goded (Fele Martínez) no presente é um cineasta famoso e recebe a visita de alguém que diz ser Ignacio, mas que agora quer ser chamado de Ángel Andrade (Gael García Bernal), e se oferece para trabalhar para Enrique como ator e também pede que ele leia um roteiro que fez sobre a infância deles num internato católico. No roteiro, nos é revelado que o professor e responsável pelo internato, padre Manolo (Daniel Giménez Cacho), abusava do garoto Ignacio e era apaixonado por ele. A trama é bem mais complexa do que parece e vamos descobrir as outras personagens e as histórias delas ao longo do filme. 

COMENTÁRIO:

O enredo deste filme é um dos mais complexos que vi de Almodóvar. Se trata de uma história dentro da história. Muito interessante. É filme para se ver mais de uma vez.

Gael García interpreta Juan Rodríguez, que é na verdade irmão mais novo de Ignacio Rodríguez, por quem o garoto Enrique e o padre Manolo se apaixonaram no passado, no colégio interno.

O padre Manolo (Daniel Giménez Cacho) acabou abandonando depois o sacerdócio.

O cineasta Enrique acaba descobrindo que Juan não é Ignacio, e decide fazer de conta que está sendo enganado pelo caçula de seu antigo amor.

Tudo isso que descrevo não seria um spoiler porque muita água vai rolar nesse moinho e o final não foge aos finais de filmes almodovarianos.

O ator Javier Cámara, que foi personagem central em Hable con ella (Benigno), interpreta no filme Paca (Paquito), personagem engraçada, amiga de Ignacio no filme rodado por Enrique.

Como disse, é filme para se ver mais de uma vez. Eu revejo sem pestanejar.

---


Volver (Volver), de 2006.

SINOPSE:

O filme aborda a história de uma excêntrica família de mulheres de região assolada pelo vento ao sul de Madri. Raimunda (Penélope Cruz) é uma mulher da classe trabalhadora, que faz de tudo para manter a casa e proteger sua filha Paula (Yohana Cobo), uma adolescente de 14 anos. Raimunda é casada com Paco (Antonio de la Torre), que acaba de perder o emprego. A cena inicial se passa no cemitério da cidade natal da família. Raimunda e sua irmã Sole (Lola Dueñas) estão limpando a lápide do túmulo de seus pais, mortos num incêndio. Na cena, aparece também Agustina (Blanca Portillo) vizinha e amiga da família. É ela que tem cuidado da tia Paula (Chus Lampreave) desde que Irene, a mãe delas, faleceu (Carmen Maura). A cidade é de gente muito supersticiosa e a história se desenvolve a partir do aparecimento do espírito de Irene, primeiro para tia Paula e depois para Lola. Irene tem coisas a resolver e explicar para suas filhas, principalmente Raimunda, e também para a vizinha Agustina, que espera notícias de sua mãe há anos. 

COMENTÁRIO:

Filme encantador! A história dessa geração de mulheres é bem típica do universo almodovariano. As mulheres só têm a elas mesmas para se protegerem e resolverem qualquer tipo de problema que apareça no caminho delas.

A trama traz as revelações brutais das vidas das personagens e espelha um mundo patriarcal e misógino, violento e que precisa ser superado com todas as armas que as mulheres tiverem ao seu alcance, seja essa expressão de forma simbólica ou de forma real.

Eu me emocionei muito ao ver Raimunda (Penélope Cruz) interpretando a canção "Volver"... é de chorar e arrepiar!

E Carmen Maura, interpretando Irene, está magnífica! Agora que a conheço desde seus primeiros papéis em filmes de Almodóvar nos anos oitenta, me sinto à vontade para enaltecer essa grande atriz.

Revejo esse filme sempre que tiver oportunidade!

---

Comentário final

Após conhecer melhor a obra de Pedro Almodóvar, ficou em mim o desejo de ver os filmes que ainda não conheço do diretor e revejo com tranquilidade os filmes que vi e comentei. Rever é ótima oportunidade para perceber detalhes que nos escapam da primeira vez.

Como disse em outros comentários, as sinopses que faço são baseadas em textos de Wikipedia e outros sites, mas adaptados por mim, então são novos textos a partir das referências que li.

William


domingo, 16 de fevereiro de 2025

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (4)


Dom Quixote, do Centro
Fidel Castro Ruz, Cuba.

Refeição Cultural

“Y desta manera deshizo el agravio el valeroso don Quijote, el cual, contentísimo de lo sucedido, pareciéndole que había dado felicísimo y alto principio a sus caballerías, con gran satisfacción de sí mesmo iba caminando hacia su aldea, diciendo a media voz:

- Bien te puedes llamar dichosa sobre cuantas hoy viven en la tierra, ¡oh sobre las bellas bella Dulcinea del Toboso!...” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por “Miguel de Cervantes”)


CAPÍTULO 4

"De lo que le sucedió a nuestro caballero cuando salió de la venta"


Seguindo na releitura de nosso cavaleiro andante Dom Quixote de La Mancha, em verdade o senhor Alonso Quijano, que depois de uma aventura futura será também conhecido como Cavaleiro da Triste Figura, neste capítulo vamos ver a primeira aventura do herói.

“No había andado mucho, cuando le pareció que a su diestra mano, de la espesura de un bosque que allí estaba, salían unas voces delicadas, como de persona que se quejaba; y apenas las hubo oído, cuando dijo:”

Mal saiu da espelunca na qual foi sagrado cavaleiro pelo vendeiro, Dom Quixote e seu potente cavalo Rocinante (um pangaré, na verdade) vivenciam sua primeira chance de desfazer agravos e injustiças: encontram no caminho o jovem Andrés sendo açoitado por um vilão, sendo o vilão um lavrador de ovelhas que aplica um corretivo em seu empregado por ser displicente e perder uma ovelha por dia.

“-Gracias doy al cielo por la merced que me hace, pues tan presto me pone ocasiones delante, donde yo pueda cumplir con lo que debo a mi profesión, y donde pueda coger el fruto de mis buenos deseos. Estas voces, sin duda, son de algún menesteroso o menesterosa, que ha menester mi favor y ayuda.”

Dom Quixote agradece aos céus pela oportunidade e intervém naquela cena. Manda o vilão parar com o açoite, pergunta por que o rapaz estava apanhando e após a explicação de cada um deles - o lavrador explica os danos que Andrés lhe causa com o rebanho e Andrés diz que o lavrador não lhe paga sequer o salário em dia -, o cavaleiro fica do lado do mais fraco.

“Y si queréis saber quién os manda esto, para quedar con más veras obligado a cumplirlo, sabed que yo soy el valeroso don Quijote de la Mancha, el desfacedor de agravios y sinrazones; y a Dios quedad, y no se os parta de las mientes lo prometido y jurado, so pena de la pena pronunciada.” 

Nosso herói escolhe a versão de Andrés, dá uma lição de moral no lavrador, que se chama Juan Haldudo, se apresenta como o famoso cavaleiro que é e manda que o lavrador pague o que deve ao rapaz.

Após o êxito de sua missão de desfazer agravos e injustiças, sobe em Rocinante e vai embora...

E aí? Sabem o que aconteceu depois com o pobre Andrés?

---

PELA HONRA DA BELA DULCINEA DEL TOBOSO

“Y habiendo andado como dos millas, descubrió don Quijote un gran tropel de gente, que, como después se supo, eran unos mercaderes toledanos que iban a comprar seda a Murcia. Eran seis, y venían con sus quitasoles, con otros cuatro criados a caballo y tres mozos de mulas a pie. Apenas los divisó don Quijote, cuando se imaginó ser cosa de nueva aventura; y por imitar, en todo cuanto a él le parecía posible, los pasos que había leído en sus libros, le pareció venir allí de molde uno que pensaba hacer; y así, con gentil continente y denuedo, se afirmó bien en los estribos, apretó la lanza, llegó la adarga al pecho, y, puesto en la mitad del camino, estuvo esperando que aquellos caballeros andantes llegasen (que ya él por tales los tenía y juzgaba);”

No capítulo, ainda tem a aventura seguinte, Dom Quixote encontra no caminho de volta a sua aldeia um grupo de mercadores de Toledo, exige que eles reconheçam a beleza sem igual de sua amada Dulcinea del Toboso e após um gozador do grupo perceber que o ancião é doido, tira um sarro da cara dele e enfurece o nosso herói.

Ao atacar os vilões, Rocinante escorrega e os dois rolam ladeira abaixo. Um dos empregados dos mercadores aproveita a condição do caído senhor Alonso Quijano e dá-lhe pauladas sem dó... 

O moço quase o mata de pancada, mesmo com os mercadores dizendo que não fizesse aquilo por se tratar de um idoso sem juízo.

Essas foram as primeiras aventuras de Dom Quixote, conhecidas como a primeira saída de nosso cavaleiro andante.

---

COMENTÁRIO

Enquanto lia as desventuras do senhor Alonso Quijano, nosso eterno cavaleiro Dom Quixote de La Mancha, cavalgando pela Espanha em busca de oportunidades para desfazer agravos e situações injustas, ouvia as notícias políticas da semana no Brasil e no mundo.

A grande mídia divulgou nesta semana uma pesquisa que aponta queda expressiva na popularidade de nosso querido presidente Lula, uma das figuras mais importantes da história do Brasil e da classe trabalhadora brasileira. 

Lula está em seu terceiro mandato presidencial, após ter sofrido um lawfare criminoso que o deixou preso numa masmorra por 580 dias sem crime algum. Lula é odiado pela casa-grande e seus ideólogos por querer melhorar a condição de vida do povo pobre e trabalhador do Brasil.

Fiquei pensando nas personagens Dom Quixote, o jovem Andrés e o patrão que açoitava o empregado displicente. E a forma como se deu a "solução" quixotesca daquela desventura. Pensei no governo Lula no contexto atual.

Dom Quixote teve uma atitude correta, na minha leitura. Ao ver um homem açoitando um rapaz sem camisa, mesmo após o patrão justificar que estava dando um corretivo porque seu empregado estava lhe dando prejuízo, mandou que as chicotadas fossem interrompidas imediatamente.

O cavaleiro estava de passagem, ouviu as duas partes, ficou do lado do mais fraco, mandou que o senhor pagasse o que devia ao empregado, e seguiu seu caminho em busca de mais injustiças a corrigir. 

Dom Quixote confiou "no sistema", na palavra do dono do rebanho de ovelhas ("empresário"), que teria que cumprir com sua promessa. Era uma questão de honra cumprir o apalavrado. Assim mandavam os costumes da cavalaria andante. Eram as regras.

Acontece que assim que virou as costas, o patrão se viu novamente na condição anterior, secular, da lei dos mais fortes e dos donos do poder, ele e o rapaz achariam a solução entre os dois (a livre iniciativa), e Juan Haldudo deu uma sova tão grande no pobre Andrés que este quase morreu... 

Me digam se essa não é a realidade em cada esquina do nosso imenso Brasil. 

De que adianta hoje um governo simpático ao povo trabalhador, que tenta conciliar as relações entre capital e trabalho, um governante que me parece um cavaleiro andante solitário tentando desfazer agravos e injustiças num mundo dominado por um Congresso todo de representantes dos patrões, dos caras das bancadas da bala, do boi e da bíblia, e do agro, sem sensibilidade alguma para os milhões de Andrés? O povo tem conseguido perceber melhorias em sua vida? Como reduzir o preço dos alimentos?

E os milhões de Andrés, como bem explica o sociólogo Jessé Souza, em sua tese sobre o Coringa e a vingança dos humilhados, são os miseráveis ressentidos que só sabem que estão se f... e que querem se vingar das injustiças do sistema que os humilha e derruba... presas fáceis para os manipuladores que conseguem impor suas versões das causas da realidade miserável...

Andrés, o personagem, vai culpar o Quixote por seus infortúnios. Tá na cara isso!

Assim estamos no mundo, independente dos acertos e erros de nosso governo. Temos avanços importantes para o povo e mesmo os avanços não são percebidos porque tem muita sacanagem dos poderosos contra nós. A vida em cada esquina tá uma merda! Estamos sozinhos contra esses fdp da casa-grande e sua violência tanto física quanto psicológica.

Eu tenho escrito sobre minhas impressões de mundo atual pós advento das plataformas das big techs e sua capacidade de manipular sentimentos e comportamentos humanos. Fomos alterados por essas máquinas, não somos mais os mesmos. Pioramos como seres humanos. Pioraram a gente. Para o lucro dos donos das big techs.

Mesmo que Lula entregasse avanços e conquistas como política de governo, a população será levada a sentir-se como se no Haiti estivesse. As plataformas têm poder para isso. Ouçam o que estou dizendo faz tempo! É a pós-verdade!

É isso. É uma leitura minha de leitor e de político.

Faz anos defendo que os países e os governos progressistas criem suas próprias plataformas nacionais de comunicação e também defendo que Lula fale diretamente com o povo diariamente, como AMLO e Claudia Sheinbaun no México.

Nosso governo e a esquerda precisam fazer algo diferente do que faziam antes, os tempos e as condições são outras.

Por fim, precisamos de unidade na esquerda! Unidade! Os inimigos são poderosos! E não estão para brincadeira.

William


Post Scriptum: o texto anterior sobre Dom Quixote pode ser lido aqui.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Vendo filmes (XXVI)


Cena de "A flor do meu segredo", de 1995.


Refeição Cultural

O universo de Pedro Almodóvar (II)


ANOS 90

Após o mergulho nos primeiros filmes do ator, roteirista e diretor Pedro Almodóvar, tendo visto quatro filmes dos anos oitenta (comentário aqui), embarquei na incrível viagem das personagens almodovarianas dos anos noventa... e que viagem foi essa!

Fiquei impressionado com as histórias dramáticas e muitas vezes engraçadas que Pedro Almodóvar nos conta através de seus filmes. 

Cada filme citado abaixo trata diversos temas ao mesmo tempo, tendo como centro o universo feminino e das pessoas LGBT.

Assisti aos filmes "De salto alto" (1991), "Kika" (1993), "A flor do meu segredo" (1995), "Carne trêmula" (1997) e "Tudo sobre minha mãe" (1999). Todos eles muito bons!

Difícil escolher quais gostei mais desta sequência de filmes. Pela emoção, diria que Carne Trêmula e Tudo sobre minha mãe me emocionaram muito. Victor e Manuela são personagens universais entre as classes populares, é gente como a gente lutando pela sobrevivência neste mundo cão.

---

FILMES


De salto alto (Tacones lejanos), de 1991

SINOPSE: 

Filha de cantora famosa aguarda no aeroporto a volta de sua mãe após 15 anos vivendo no exterior. Rebeca (Victoria Abril) é âncora em um programa de notícias e sua mãe é Becky del Páramo (Marisa Paredes). Rebeca está casada com Manuel (Féodor Atkine), dono da TV e ex-amante de Becky. Na primeira noite de reencontro, os três vão a uma apresentação da transformista Femme Letal (Miguel Bosé), que tem como repertório central a imitação de Becky del Páramo. Rebeca ama sua mãe, esperou 15 anos por ela, mas guarda mágoa pelo abandono. O reencontro trará acontecimentos inesperados na vida de todos os personagens. 

COMENTÁRIO:

Roteiro impecável! Gostei muito do filme. 

Além das belas interpretações musicais das personagens Becky del Páramo e Femme Letal, o enredo nos aproxima por empatia à filha carente Rebeca.

A amarração da trama e a forma como termina a história são geniais. Não dá pra dar spoiler aqui.

Lógico que no filme estão todas as questões tratadas por Almodóvar: a condição das mulheres, traição, paixão, abandono, drogas, personagens do mundo periférico e toda a hipocrisia da sociedade humana. 

Revejo o filme tranquilamente. 

---


Kika (Kika), de 1993

SINOPSE: 

Kika (Verónica Forqué) é uma maquiadora ingênua contratada pelo padrasto de Ramón (Àlex Casanovas) para maquiar o rapaz morto. Ela o desperta porque ele não estava morto e sim num estado catatônico. Kika havia dado seu cartão ao escritor estrangeiro Nicholas Pierce (Peter Coyote) por ter se interessado por ele. Após "ressuscitar" Ramón, ela acaba ficando com o fotógrafo. Ramón suspeita que Nicholas é responsável pela morte de sua mãe. Ramón é um fotógrafo com hábito de espiar pessoas; Nicholas está escrevendo um romance sobre um assassino de mulheres; e tem ainda na trama uma apresentadora de programa de TV que é doida de doer, Andrea Caracortada (Victoria Abril), que foi psicóloga e amante de Ramón, se automutilou por ele e ainda o persegue.

COMENTÁRIO:

O filme é uma comédia misturada a outros gêneros, pois temos crimes a serem esclarecidos, amores e traições, traumas psicológicos das personagens e psicopatias sérias no enredo. 

A amarração de Almodóvar é muito boa e da mesma forma que nos filmes anteriores, o final surpreende o espectador. 

Os papéis desempenhados por Santiago Lajusticia (personagem Paul Bazzo, maníaco sexual e ex-ator pornô) e Rossy de Palma (personagem Juana, empregada de Kika), irmãos na história, impressionam a gente. Imagino ainda em 1993 o choque das cenas protagonizadas pelo estupro de Kika.

Bom filme!

---



A flor do meu segredo (Flor de mi secreto), de 1995

SINOPSE: 

A escritora de romances de amor, Leo Macías (Marisa Paredes), que escreve sob o pseudônimo de Amanda Gris, está passando por crise conjugal e não quer mais escrever aquele gênero literário. Só que ela tem contrato para escrever cinco romances por ano e sem poder falar de questões sociais, políticas e politizantes (tipo o "sertanejo universitário" bancado pelo agro no Brasil). Seu marido militar, Paco (Imanol Arias), quer o divórcio e sua amiga principal, Betty (Carme Elías), é amante dele. Para completar a trama, Leo conhece o editor Ángel (Juan Echanove), do jornal El País, que a quer como crítica literária. Ela lhe entrega uma cópia de seu novo romance, e ele quer publicá-lo, só que o romance aparece no mundo literário antes: quem plagiou? Como termina esta história?

COMENTÁRIO:

Neste filme de Almodóvar, a comédia dramática dá lugar ao melodrama. 

As crises diversas da vida cotidiana dominam o enredo. Até as cenas de briga entre a irmã Rosa (Rossy de Palma) e a mãe da protagonista (Chus Lampreave) nos fazem lembrar de nosso cotidiano familiar, inescapável!

A escritora quer mudar o estilo de texto e não pode porque é paga para fazer romances água com açúcar, que não quer mais... mas o sustento dela e de seus dependentes vem daquela forma de escrever antiga.

Gostei dos temas e da amarração da história. Faz a gente pensar. Final redentor.

Genial - Muito interessante em um filme de 1995 a personagem descrever uma história que só viria ao mundo uma década depois ("Volver"). Numa discussão entre a escritora e sua equipe editorial, a editora critica uma história cuja filha mata o pai, que tentou violá-la, a mãe coloca o corpo do marido em um refrigerador etc. A editora diz que isso não é uma história de amor, tema previsto no contrato. A escritora discorda, dizendo que nada é mais forte do que essa cena, o amor de mãe... Cara, muito legal!

---


Carne trêmula (Carne trémula), de 1997

SINOPSE: 

Janeiro de 1970, Madri. A cena inicial do filme se passa na Espanha franquista, sob estado de exceção. Uma jovem pobre (Penélope Cruz) tem um filho dentro do ônibus e lhe dá o nome de Victor. Vinte anos depois, agora adulto, Victor (Liberto Rabal) desce de um ônibus em busca de Elena (Francesca Neri) que conheceu num rolê, eles transaram e Victor ficou apaixonado pela jovem (foi a primeira transa dele). Elena não quer nada com o rapaz, e como ele entrou em seu apartamento, ela o ameaça com uma arma. Na discussão, aparecem dois policiais, David (Javier Bardem) e Sancho (José Sancho). Na confusão, David toma um tiro e fica paraplégico. Victor pega seis anos de prisão. Elena casa com David. Sancho é alcoólatra e é casado com Clara (Ángela Molina), que é espancada por ele com frequência. Victor é solto e vai prestar homenagem a sua falecida mãe no cemitério da cidade. Ela morreu de câncer, deixando pra ele uma pequena quantia de herança: ela era prostituta. Estando no cemitério, ele vê o enterro do pai de Elena, e vai até ela cumprimentá-la. Após a cerimônia funeral, Clara pede ajuda a Victor para sair do cemitério, está perdida. Eles se tornam amantes. Daí adiante, as vidas das personagens vão se cruzar de forma dramática.

COMENTÁRIO:

Achei o filme extraordinário! Surpreendente enredo e final eletrizante. Foi um dos melhores filmes que vi de Almodóvar até agora.

Nada é tão simples como parece ser. Essa é a chave do enredo. Davi é o mocinho da história? Dá pra dizer que no casamento de Sancho e Clara tem algum culpado pelo fim da relação? Victor é um stalker obcecado por Elena? Na vida real das pessoas comuns o cotidiano é complexo. Todo mundo tem que dar seus pulos pra sobreviver.

E não poderia faltar as cenas de sensualidade numa história de Almodóvar, só que o diretor caprichou neste filme!

Demais! A mensagem final numa Espanha liberta do obscuro fascismo de Franco emociona a gente.

---


Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre), de 1999

SINOPSE: 

Manuela (Cecilia Roth) é uma enfermeira que supervisiona o sistema de transplantes de órgãos. Ela é mãe solteira de Esteban (Eloy Azorín), garoto que quer ser escritor e passa o tempo todo com seu caderno de anotações. No dia do aniversário de 17 anos de Esteban, eles vão comemorar assistindo a uma peça clássica de teatro "Um bonde chamado desejo". A atriz principal é Huma Rojo (Marisa Paredes), que na saída do teatro, sob forte chuva, vê um garoto bater no vidro do carro pedindo um autógrafo. Ela não o atende. Ele sai correndo atrás do táxi e morre atropelado. Assim começa a trama, com Manuela chorando a morte do filho sob chuva no dia de seu aniversário. Minutos antes, ela havia prometido contar a ele quem era seu pai e sua história... 

COMENTÁRIO: 

Um filme essencial para conhecer e compreender o universo de Almodóvar. Filme belíssimo. Difícil não se comover com as histórias das personagens criadas por ele.

O filme trata temas centrais do complexo mundo humano das últimas décadas: a Aids, a dependência das drogas, as questões de identidade de gênero, a condição da mulher, as diversas formas de fé e religiosidade, e por que não dizer as questões existencialistas da vida.

Tudo sobre minha mãe foi considerado um dos melhores filmes do ano de 1999 e um dos melhores filmes espanhóis do século XX. Aliás, 1999 foi um ano excepcional no lançamento de grandes histórias do cinema.

A grandeza da personagem Manuela é algo tão cativante, que toca o coração da gente. Em meio a tragédias cotidianas, ela não titubeia em ajudar cada pessoa que precisa dela naquele momento. Que figura incrível!

Outra personagem apaixonante é Agrado (Antonia San Juan), uma trans trabalhadora do sexo que traz uma leveza incrível em um enredo dramático.

Adorei o filme. É de arrepiar!

---

Comentário final

Ufa! Agora falta a postagem sobre alguns filmes que vi dos anos dois mil. Já sou fã de carteirinha de Pedro Almodóvar!

O texto anterior desta série pode ser lido clicando aqui.

William


sábado, 8 de fevereiro de 2025

Vendo filmes (XXV)


"Sudário" alternativo de Almodóvar
(em Maus Hábitos, de 1983)


Refeição Cultural 

O universo de Pedro Almodóvar (I)


ANOS 80

Já tinha visto filmes de Almodóvar no passado. Me agradou à época a poética do diretor espanhol. Gostei bastante de "Volver" (2006) quando o vi pela primeira vez. 

No entanto, minha relação com filmes era diferente da condição atual. Assistia a filmes e raras vezes ficava impactado a ponto de ficar pensativo por um tempo. Quase não me lembro dos finais de filmes que vi faz tempo.

De cada dez que via, acho que um ou outro me pegava de jeito, do tipo "Natureza selvagem", do ator e diretor Sean Penn (2007), "Uma história real", dirigido por David Lynch (1999), "Tomates verdes fritos", de Jon Avnet (1991), e outros. 

Depois que passei a escrever comentários e impressões sobre alguns filmes que vejo, minha sensibilidade melhorou em relação a esta forma de cultura e arte.

Ao verificar a lista de filmes de Pedro Almodóvar que iriam sair do streaming que assino, a Netflix, decide assistir a alguns deles. Eram muitos filmes, então tentei ver por ordem cronológica de produção do diretor.

Pedro Almodóvar 

O espanhol é um artista completo. Seus filmes são escritos, roteirizados e dirigidos por ele mesmo. Almodóvar tem uma criatividade impressionante! Suas obras são bastante autorais.

Ele faz parte da geração de artistas que surgiu após a queda de Franco na Espanha. O país viu nascer um movimento de libertação e contracultura desde meados dos anos setenta e com o auge nos anos oitenta, a "Movida Madrilenha".

Transgressão - a palavra que poderia resumir bem o movimento e a contracultura espanhola do período seria "transgressão". É o que vemos nos primeiros filmes de Pedro Almodóvar. 

São frequentes em seus filmes: o uso de drogas em todos os cenários, mulheres e gays na luta por seus lugares ao sol, a denúncia do uso da fé e das religiões para enganar pessoas e manter privilégios.

Enfim, diria que os filmes da primeira década de Almodóvar seguem bastante atuais, as temáticas foram e voltaram ao longo do tempo como pautas e agendas em todos os espectros políticos da sociedade humana.

Neste quarto de século XXI, o mundo vive uma nova disputa global entre progressistas de um lado e conservadores e reacionários de outro.

Cultura e educação podem nos salvar. A arte é uma forma de nos fazer pensar e sentir, até quando a técnica é chocar e causar espanto.

---

FILMES 


Maus hábitos (Entre tinieblas), de 1983 

SINOPSE: 

Yolanda Bell (Cristina Sánchez Pascual), uma jovem cantora e prostituta (diz a personagem no filme), leva uma vida cheia de drogas, exageros e ambiguidades, até que assiste a seu namorado morrer de overdose de heroína. Apavorada, ela busca refúgio no convento das "redentoras humilhadas", que se dedica a salvar jovens moças da "perdição".

COMENTÁRIO: 

Um dos primeiros longas de Almodóvar, o filme deve ter causado o furor da igreja católica e de autoridades públicas e privadas na Espanha. 

O convento tem a Madre Superiora (Julieta Serrano) viciada em cocaína e heroína, a monja Sor Rato de Rua (Chus Lampreave) que escreve romances sob pseudônimo, a monja Esterco (Marisa Paredes) que se martiriza de formas horríveis, a monja Sor Perdida (Carmen Maura) meio doida e que cuida de um tigre, e outras monjas nada convencionais.

A Espanha vivia um novo momento político após o fim do franquismo, e a poderosa autoridade da igreja católica agora era alvo de questionamentos e denúncias. 

Almodóvar vai na raiz da questão da hipocrisia representada pelas autoridades religiosas associadas ao Estado com esse filme. Achei bem interessante. 

Já se vê que as mulheres e pessoas periféricas e excluídas serão o universo retratado em seus filmes.

---


O que fiz eu para merecer isto? (¿Qué he hecho yo para merecer esto?), de 1984

SINOPSE: 

A diarista Gloria (Carmen Maura) divide o minúsculo apartamento com o marido Antonio, motorista de táxi (Ángel de Andrés López), e os filhos desajustados. Glória é viciada em anfetaminas, o marido é apaixonado por uma cliente alemã e os filhos consomem e traficam drogas. Tem ainda a sogra (Chus Lampreave) em casa, parceira do filho mais velho. Nesse universo, se cruzam ainda a vizinha prostituta (Verónica Forqué), um policial com disfunção erétil e uma criança paranormal. Um lagarto é personagem também.

COMENTÁRIO: 

Almodóvar mescla em uma comédia dramática os percalços da vida real de uma mulher das classes populares que faz de tudo para sobreviver e manter uma casa na qual ninguém faz nada para que aquilo seja um "lar". O marido é um machista de merda, que vive de arrotar lições morais, mas é um fdp.

O cenário eu conheço bem, apesar de ter vivido os anos oitenta no Brasil. A Espanha saía do período franquista, no qual a igreja católica era mancomunada com o poder estatal. O povo era massa de manobra das superstições e a hipocrisia era a lei.

O bairro pobre onde Gloria morava com a família não era muito diferente do bairro Marta Helena onde vivi nos anos oitenta, em Minas Gerais.

O mais interessante do filme de Almodóvar é que passadas quatro décadas do lançamento, o enredo continua atual.

O mundo segue dominado pelas drogas, que só mudaram de características com o passar do tempo. O machismo continua o mesmo, apesar de décadas de lutas das mulheres para ocuparem seu legítimo espaço social (o lugar da mulher é onde ela quiser). As religiões e superstições que dominam as massas seguem mancomunadas com a política: vejam as igrejas neopentecostais com seus projetos de poder estatal.

O filme é uma denúncia sobre a condição da mulher, sempre submetida à violência da sociedade dos homens e do capital.

---


A lei do desejo (La ley del deseo), de 1987

SINOPSE: 

O cineasta Pablo Quintero (Eusebio Poncela) começa um relacionamento com Antonio Benítez, fã obcecado por ele (Antonio Banderas), após terminar relação com outro jovem - Juan Bermúdez (Miguel Molina) - que decide ir embora. Pablo é apaixonado por Juan. Tina Quintero (Carmen Maura), irmã transsexual de Pablo, é atriz e será protagonista da próxima obra de Pablo. Ela cuida da garota Ada (Manuela Velasco) como se fosse sua filha. Antonio não aceita a ideia de Pablo ser apaixonado por Juan e isso trará consequências trágicas na vida de todos.

COMENTÁRIO: 

O filme é forte na temática de gênero e orientação sexual. E lembro aqui que Almodóvar está em sua primeira década de longas-metragens nos anos oitenta. O tema era muito sensível para os conservadores e reacionários.

Os primeiros minutos do filme já chocam os espectadores. Um homem jovem nu recebe ordens de um outro homem para tirar as roupas e encenar cenas eróticas na cama.

É de se admirar a ousadia e a capacidade de Almodóvar de pautar já naquela época as questões mais comezinhas do cotidiano das pessoas "caídas" ou periféricas: a condição da mulher; a violência e a intolerância contra a liberdade sexual e a questão LGBT; o mal causado pelo mundo das drogas e a hipocrisia na forma como a questão é tratada pelas elites e pelas autoridades estabelecidas; e a questão da religião misturada à política estatal.

Interessante ver filmes de Almodóvar como estou fazendo, porque é possível perceber a evolução do ator e diretor e a forma como ele vai pautando os temas centrais da vida das pessoas comuns.

Lógico que seu estilo com cores fortes nos cenários, o vermelho principalmente, vai se impondo a cada filme. A forma teatral como se desenha as histórias, idem. Estou gostando bastante dos filmes.

---


Mulheres à beira de um ataque de nervos (Mujeres al borde de un ataque de nervios), de 1988

SINOPSE: 

O filme conta a história de Pepa Marcos (Carmen Maura), dubladora que tenta desesperadamente contatar seu amante Ivan (Fernando Guillén) que decide deixá-la. Ele é casado com Lucía (Julieta Serrano), e Ivan já atuou em vários trabalhos com Pepa. Durante dois dias, a história vai apresentando mais personagens como, por exemplo, o filho de Ivan, Carlos (Antonio Banderas), e sua noiva Marisa (Rossy de Palma). Também conhecemos Candela (María Barranco), amiga de Pepa que acha que está sendo perseguida pela polícia por ter tido um caso com um líder terrorista que promete fazer um atentado em Madri. Ao deixar tanto a amante Pepa quanto a esposa Lucía, Ivan será o catalisador de todos os eventos da história.

COMENTÁRIO: 

Filme muito engraçado, apesar das situações das personagens serem dramáticas. Uma mulher que busca uma resposta do amante para o seu abandono. Outra mulher apaixonada por um homem xiita que a usou para seus objetivos em Madri. Um taxista nos anos oitenta que já apontava o que seria o futuro dos serviços de aplicativos da atualidade, com um carro que vendia de tudo para os passageiros.

Pepa está grávida de Ivan, e seus sentimentos estão à flor da pele. Apesar do abandono, ela demonstra ser uma pessoa de grande coração, pois no meio da bagunça daqueles dois dias de encontros e desencontros é ela quem ajuda cada personagem com o seu problema pessoal. Pepa é a grande mulher da história.

---

Comentário final

Vamos ver mais alguns filmes de Almodóvar e apreciar o talento incrível desse ator, roteirista e diretor espanhol. Sem dúvidas, ele é um dos grandes de nossa época!

Nas sinopses, adaptei textos da Wikipédia, Netflix e outras fontes modificando a descrição ao meu gosto.

William


Post Scriptum: o texto anterior desta série sobre filmes pode ser lido aqui.


domingo, 2 de fevereiro de 2025

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (3)


Dom Quixote em Toledo, Espanha.

Refeição Cultural

“Contó el ventero a todos cuantos estaban en la venta la locura de su huésped, la vela de las armas y la armazón de caballería que esperaba.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por “Miguel de Cervantes”)

---

CAPÍTULO 3

"Donde se cuenta la graciosa manera que tuvo don Quijote en armarse caballero"


Na sequência da leitura sobre as aventuras do senhor Alonso Quijano, que ficou meio doido de tanto ler livros de cavalarias, lá na longínqua Espanha de 1605, Miguel de Cervantes segue nos contando a história (estória) mantendo-se fiel ao contrato que fez com os leitores no Prólogo da obra.

O livro se trata de uma "invectiva" contra os livros de cavalaria, tão em moda na época. Uma invectiva é uma espécie de repreensão, crítica, insulto.

A essa altura do livro, ainda no início, alguns leitores já vão se apegando ao senhor de uns cinquenta anos que decidiu incorporar o espírito de um cavaleiro andante para sair pelo mundo consertando as coisas tortas e injustas em benefício de sua república e de si mesmo, ganhando com isso fama e o amor da amada Dulcinea del Toboso, outra idealização.

Neste capítulo, Dom Quixote pede ao dono da espelunca (vendeiro) que o abençoe como cavaleiro, realizando a cerimônia tradicional que todo mundo conhece porque está descrita nos livros de cavalaria. O senhor Quijano acha que está em um castelo e o proprietário já percebeu que ele está doido.


“El ventero, que vio a su huésped a sus pies, y oyó semejantes razones, estaba confuso mirándole, sin saber qué hacerse ni decirle, y porfiaba con él que se levantase; y jamás quiso, hasta que le hubo de decir que él le otorgaba el don que le pedía.” 


O capítulo é tão claro nos passos que vão acontecendo, que o dono da espelunca avisa a todos os fregueses que o idoso está doido e pergunta ao senhor Quijano se ele tem dinheiro porque tudo tem custo ali.


“Preguntóle si traía dineros; respondió don Quijote que no traía blanca, porque él nunca había leído en las historias de los caballeros andantes que ninguno los hubiese traído.” 


Nosso ilustre cavaleiro estranha a pergunta porque nunca leu que cavaleiros tinham que pagar as coisas.

O vendedor esperto passa a lábia no velhinho e explica que isso era coisa básica. Poderíamos dizer que a cena clássica de quatro séculos atrás não é diferente do que acontece hoje com os manipuladores e seus manipulados.


“y así, tuviese por cierto y averiguado que todos los caballeros andantes (de que tantos libros están llenos y atestados), llevaban bien herradas las bolsas, por lo que pudiese sucederles; y que asimesmo llevaban camisas y una arqueta pequeña llena de ungüentos para curar las heridas que recebían, porque no todas veces en los campos y desiertos donde se combatían y salían heridos, había quien los curase, si ya no era que tenían algún sabio encantador por amigo, que luego los socorría trayendo por el aire, en alguna nube, alguna doncella o enano con alguna redoma de agua de tal virtud, que, en gustando alguna gota della, luego al punto quedaban sanos de sus llagas y heridas, como si mal alguno hubiesen tenido; mas que, en tanto que esto no hubiese, tuvieron los pasados caballeros por cosa acertada que sus escuderos fuesen proveídos de dineros y de otras cosas necesarias, como eran hilas y ungüentos para curarse; y cuando sucedía que los tales caballeros no tenían escuderos (que eran pocas y raras veces), ellos mesmos lo llevaban todo en unas alforjas muy sutiles, que casi no se parecían, a las ancas del caballo, como que era otra cosa de más importancia; porque, no siendo por ocasión semejante, esto de llevar alforjas no fue muy admitido entre los caballeros andantes; y por esto le daba por consejo (pues aún se lo podía mandar como a su ahijado, que tan presto lo había de ser), que no caminase de allí adelante sin dineros y sin las prevenciones referidas, y que vería cuán bien se hallaba con ellas cuando menos se pensase.”


O interessante é que das explicações que o sacana do vendeiro dá, ele diz que cavaleiros andantes precisam ter um ajudante (um escudeiro) e isso nos dará a oportunidade de conhecer depois Sancho Pança.

Enfim, talvez por isso os leitores vão aos poucos ampliando a empatia com o famoso cavaleiro andante. 


“Hechas, pues, de galope y aprisa las hasta allí nunca vistas ceremonias, no vio la hora don Quijote de verse a caballo y salir buscando las aventuras; y ensillando luego a Rocinante subió en él, y abrazando a su huésped le dijo cosas tan extrañas, agradeciéndole la merced de haberle armado caballero, que no es posible acertar a referirlas. El ventero, por verle ya fuera de la venta, con no menos retóricas, aunque con más breves palabras, respondió a las suyas, y sin pedirle la costa de la posada, le dejó ir a la buen hora.”


Ao final do capítulo, nosso ilustre Dom Quixote está armado cavaleiro e já está apto a enfrentar todos os desafios e agravos que aparecerem diante de si.


“-Dios haga a vuestra merced muy venturoso caballero y le dé ventura en lides.”


Amigas e amigos leitores, se tiverem oportunidade, leiam o clássico de Cervantes.

William

02/02/25


sábado, 6 de julho de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 6 de julho de 2024. Sábado.


GUERRA CIVIL ESPANHOLA - PRELÚDIO DA TRAGÉDIA

Estou me dedicando a conhecer os materiais de conhecimentos gerais que acumulei ao longo da vida e para os quais nunca pude me dedicar integralmente, ou seja, ler as dezenas de livros, ver as coleções de mídias, ler recortes e materiais impressos sobre temas variados que guardei durante os dias de venda de minha força de trabalho.

A Coleção História Viva com doze DVDs é extraordinária! Hoje assisti ao 4º episódio dessa série "Grandes dias do século XX". Esse documentário sobre a Guerra Civil Espanhola eu já havia visto antes. Revendo ele agora fico mais admirado ainda em relação à primeira vez. 

Uma característica da época contribuiu muito para poder ver os eventos que mudaram o mundo como nós o conhecíamos durante séculos: havia uma estética dos movimentos da primeira metade do século XX e muita coisa foi filmada. Os filmes, as imagens e sons, foram amplamente usados como meios de manipulação de massas.

Repito o que disse nas postagens anteriores: as imagens de época, das batalhas e dos combatentes, são impressionantes.

-------------------------

Sinopse:

Em fevereiro de 1936, a Frente Popular, uma coalização de esquerda, ganha as eleições na Espanha. A oposição conservadora se organiza em torno da Falange, graças ao ímpeto do jovem Primo de Rivera. Em 18 de julho daquele mesmo ano, o general Francisco Franco lidera um levante militar que lança o país em uma sangrenta guerra civil. A Espanha fica dividida por três anos. As democracias ocidentais permanecem passivas, mas os nazistas alemães e os fascistas italianos apoiam Franco incondicionalmente, em um ensaio do que viria a ser a Segunda Guerra Mundial.

O episódio se divide nos seguintes capítulos: "A destruição da Espanha", "No pasarán!", "A nova Espanha" e "Espanha como exemplo".

-------------------------


BOMBARDEAR CIDADES E MATAR CIVIS, A NOVA FORMA DE GUERRA

Num determinado momento da guerra civil, após os nacionalistas conquistarem praticamente todo o território espanhol, o general Franco decide que vai bombardear a cidade de Madri, e que se danem os civis que morrerão lá. 

Antes, os aviões alemães nazistas haviam bombardeado a cidade de Guernica. A Espanha serviu de experimento para o novo formato de guerra que passaria a vigorar dali adiante: guerras que fariam mais vítimas civis que militares. É assim até hoje. Vejam o que os sionistas do Estado de Israel estão fazendo com os palestinos na Faixa de Gaza.

---

AS NARRATIVAS E INVENÇÕES PARA JUSTIFICAR A ELIMINAÇÃO DO OUTRO

Na Espanha dos anos trinta, tínhamos de um lado os nacionalistas, que eram os monarquistas, os carlistas e os falangistas e o apoio da igreja católica e do outro o governo eleito, os republicanos. Do lado dos republicanos, durante o conflito, tínhamos socialistas, comunistas, anarquistas e os republicanos mesmo, e as brigadas internacionais, já durante a guerra.

A narrativa ideológica do lado dos nacionalistas era um discurso que resgatava as cruzadas da idade média, quando os cristãos expulsaram os mouros infiéis do país. Nos anos trinta, igreja, burguesia e militares se juntaram para combater os infiéis comunistas, rebeldes ateus republicanos.

O ÓDIO era o principal combustível para todos os grupos que se digladiavam, ódio e intolerância, o ódio como catalisador das violências extremadas que levaram o povo espanhol a se matar uns aos outros.

---

LIÇÕES QUE NÃO APRENDEMOS COM A HISTÓRIA

Sempre que estudo a Guerra Civil Espanhola fico com os neurônios em choque, com cargas elétricas indo e voltando e o cérebro quase pegando fogo. Não aprendemos nada com a história.

O mesmo ódio que foi instrumento daqueles dias que abalaram o mundo é o ódio que serve hoje de ferramenta para unir toda a direita e extrema-direita, conservadores e reacionários, os capitalistas e manipuladores da fé alheia, os donos dos meios de comunicação de massa - essa gente toda - contra nós, os "comunistas", os "infiéis", os lulistas e ou petistas, a esquerda toda dividida (como sempre) e cancelando uns aos outros por divergências de táticas e estratégias e até de objetivos como se digladiaram na Espanha dos anos trinta republicanos, socialistas, comunistas e anarquistas. No final, venceu o autoritarismo nazifascista, que une o capital, o exército e a igreja. Lá, foram 40 anos de franquismo...

É ou não é foda?

---

El Alcázar, foto de William Mendes.

EL ALCÁZAR, EM TOLEDO

Estive na Espanha em 2009, fui a trabalho. Por uma semana, conheci pontos turísticos e históricos em Madri. Um dos locais que visitei e que me impressionaram muito foi a cidade de Toledo. 

A fortaleza El Alcázar foi palco de uma luta violenta entre republicanos e nacionalistas. Quando vi aquela maravilha arquitetônica, eu não tinha ideia que ela havia sido cenário de batalha na guerra. Para ler mais a respeito, clique aqui.

Outro momento ímpar em minha vida, foi estar diante do quadro Guernica, de Pablo Picasso, no Museu Reina Sofia. Foi uma catarse.

Sigamos estudando e compartilhando os conhecimentos.

William