Mostrando postagens com marcador Ano 2023. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ano 2023. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Viagem a Cuba (X)


Pôr do sol em Varadero, Cuba.

Refeição Cultural

Osasco, 14 de fevereiro de 2024. Quarta-feira.


Daqui a pouco embarco para Havana, Cuba. Aproveitei para voltar à Ilha a oportunidade de um pacote de viagem com base na 32 Feria Internacional Del Libro de La Habana, que se realizará entre os dias 15 e 25 de fevereiro, na capital do país socialista.

Ano passado, fomos a Cuba entre abril e maio, um grupo de oito brasileiras e brasileiros, e a viagem foi a melhor possível. Tudo deu certo. Além do grupo ser organizado pela companheira Miriam Shibata, contamos com o apoio essencial da professora Maria Leite para sugestões de roteiros e dicas muito importantes, e o suporte da Casa de Isabel em Havana, de Isabel e Luis, ou seja, um time de seres humanos que nos fazem acreditar que um mundo melhor é possível.

Fiz algumas postagens retratando a viagem, expressando algumas opiniões e impressões. Pretendia abarcar toda a viagem de 2023, mas não consegui. Faltaram umas duas ou três postagens para completar o roteiro cultural que fizemos.

Verde e azul são cores tanto da paisagem
cubana, quanto da nossa bandeira...

Finalizo nesta postagem, a nossa passagem por Varadero, um dos locais com as praias e mares mais impressionantes que vi na vida.

Como disse nas postagens anteriores (ver aqui a de nº IX), nosso grupo passou a primeira semana em Havana, depois viajamos para Trinidad, depois passamos o dia em Santa Clara e, por fim, ficamos em Varadero, para de lá voltarmos a Havana e embarcarmos para o Brasil.

Segue abaixo, um registro leve de Varadero. Visitem Cuba e vocês terão a oportunidade de conhecer um país e um povo diferentes do que estamos acostumados em viagens por países capitalistas.

---

Varadero, te quiero!!!

Em Varadero, ficamos em uma residência familiar indicada pela Casa de Isabel. Fomos acolhidos com todo o carinho e a estadia foi ótima.

Ônibus de turismo circular por 5 dólares.

Para andar pela cidade, uma das opções mais em conta é o ônibus de turismo circular, que vai de uma ponta a outra ao longo do dia, passando por locais turísticos como hotéis, restaurantes, praias e outras atrações.

Céu e mar da Ilha no Caribe. Fala sério
sobre essa lindeza!

As praias que não estão sob controle de hotéis são mais selvagens, sem estrutura para os turistas. Nós estivemos numa praia assim.

Tem locais com estrutura para os turistas.

Também tem a alternativa de passar o dia em locais da praia onde se paga uma taxa e o consumo ao final do passeio.

Olha nós aí...

Para almoçar e jantar são diversas opções na cidade.

Trocando uma ideia com o Quijote.

Eu, particularmente, já estava tão extasiado com tanta cultura e informação sobre a história de Cuba e dos cubanos, as lutas por independência, a revolução e a vitória em 1959, que só relaxei em Varadero.

Momentos de rolê, pra relaxar...

Compreendi um pouco o sentido da cubanidad e cubanía do povo, um povo com amor-próprio, conceitos que aprendi no livro da professora Maria Leite.

Até os lagartos socialistas
estão de prontidão...

Varadero para mim foi para fechar de forma descontraída o período de aprendizagem que vivenciamos na República Socialista de Cuba.

Adoramos Varadero e Cuba.

Depois de alguns dias em Varadero, voltamos a Havana.

Finca de Hemingway.

Ainda pudemos conhecer a Finca onde viveu o escritor Ernest Hemingway e a Fusterlandia, uma experiência de arte e comunidade muito interessante. E o Memorial de la Denuncia... forte demais a emoção ali!

Fusterlandia...

Agora, volto para Cuba, estarei em Havana nesta quinta-feira, início da Feira Internacional do Livro.

Abraços socialistas a todas e todos!

William


Post Scriptum: a postagem anterior desta série pode ser lida aqui. A sequência, sobre a segunda viagem a Cuba, pode ser lida a partir desta postagem aqui.


terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Viagem a Cuba (IX)


Trinidad, centro histórico.

Refeição Cultural

Osasco, 13 de fevereiro de 2024. Terça-feira de Carnaval.


Embarco nesta semana para Havana. Será minha segunda visita à República Socialista de Cuba, na região do Caribe.

Em 2023, realizei um desejo antigo de conhecer a Ilha e o povo cubano. A oportunidade surgiu quando vi uma companheira aposentada do Banco do Brasil, Miriam Shibata, organizando um pequeno grupo para viajar por duas semanas a Cuba. Foi uma viagem inesquecível. Meu filho foi conosco, o que alegrou muito minha experiência.

Mário e o falcão...

Quando voltamos, fiz algumas postagens sobre a nossa experiência e impressões que tivemos. A intensão era fazer postagens de todas as etapas da viagem, mas não fiz todos os textos que queria, acabei fazendo sobre a primeira semana que passamos em Havana e fiz uma sobre a visita à Santa Clara. Faltaram postagens sobre os demais dias e locais que visitamos: Trinidad, Varadero e os últimos dias em Havana.

Ruas cubanas...

Nesta postagem de hoje, vou falar sobre nossa experiência ao visitar a cidade de Trinidad de Cuba, uma das mais antigas do Caribe (1513/14) e distante de Havana uns 300 Km, estando ao Sul da ilha. 

Vivenciamos as comemorações do 1º de Maio de 2023 por lá, porque houve forte tempestade na região de Havana no dia 1º e o governo transferiu os atos para o dia 5 de maio em todo o país.

Torre Manaca-Iznaga, Trinidad.

Para ver as postagens sobre a viagem e impressões de viagem a Cuba, a leitora e o leitor podem clicar aqui para ver a 8ª e nela está o link para o texto anterior e assim sucessivamente.

---

Centro histórico de Trinidad.

TRINIDAD

Saímos bem cedo de Havana para Trinidad, fomos de van. São cerca de 300 Km e no caminho paramos na estrada para esticar as pernas.

Las calles, Plaza Mayor.

Chegamos à cidade na parte da tarde, pouco depois das 16 horas. Nos hospedamos em duas residências - casas de famílias cubanas -, pois nosso grupo era composto por 8 pessoas - bancári@s aposentad@s, professoras e um estudante.

El pueblo de Trinidad.

As ruas de calçamento da cidade me trouxeram lembranças de quando estive em uma cidade bem conhecida dos brasileiros, São Tomé das Letras (MG).

Local dos "rolês", entorno da Plaza Mayor.

Fizemos um primeiro passeio pelos arredores, fomos à Plaza Mayor, centro histórico da cidade, e Miriam e eu subimos à torre de uma das construções locais, no Museo Nacional de la lucha contra los bandidos

Torre del Museo de la lucha
contra los bandidos
.

Como já passavam das 17 horas, todos os locais de visitação para os turistas estavam fechados. O responsável pelo museu foi gentil e deixou duas pessoas do grupo entrarem rapidamente enquanto a turma esperava lá fora.

Grupo querido aguardando
dupla na torre do museu.

Após um primeiro passeio, fomos para as hospedagens, vimos o pôr do sol quase às 21 horas e saímos para um rolê nas escadarias ao lado da Plaza Mayor.

Entardecer em Trinidad de Cuba.

A cidade é uma delícia à noite e tem música ao vivo ao lado da Plaza Mayor, nas escadarias.

Casa de la Música.

No dia seguinte pela manhã, saímos para conhecer o Valle de los Ingenios, região de fazendas de produção de açúcar com mão de obra escravizada por séculos.

Valle de los Ingenios.

Primeiro fomos a El mirador, um ponto estratégico para se ver todo o vale em Trinidad.

El mirador.

Depois visitamos uma das estruturas de produção de açúcar da época - El Ingenio San Isidro. Lá, pudemos ouvir explicações sobre o processo de produção do açúcar e ver as bases estruturais de construções que abrigavam os escravizados.

Torre del Ingenio San Isidro.

A visita seguinte foi à Torre Manaca-Iznaga, de estrutura imponente. A torre era utilizada pelos senhores das terras para vigiar as plantações e os escravizados.

Torre Manaca-Iznaga e feira.

Ao redor da torre, há uma grande concentração de comércio de tecidos e artesanatos.

Almoço em Trinidad de Cuba.

Ao final do passeio de visitas às construções históricas da cidade de Trinidad, almoçamos e andamos um pouco pelas ruas da região próxima de nossas hospedagens.

Pai e filho no 1º de Maio cubano.

No dia seguinte, a sexta-feira 5, dia nacional para as comemorações do 1º de Maio, acordamos bem cedo e nos unimos à grande mobilização na cidade.

Povo cubano no 1º de Maio.

O evento do 1º de Maio em Trinidad nos surpreendeu bastante. Não imaginávamos que a participação do povo seria tão intensa como vimos.

Brasileiros e cubanos unidos no 1º de maio.

Diversas categorias de trabalhadores saíam de locais diferentes da cidade para a concentração numa área mais aberta onde havia um palco para as manifestações.

Mejor sin bloqueo.

Por toda a manhã, milhares de pessoas se manifestaram com cartazes, músicas, danças, expressões diversas da cultura cubana, e a nossa participação com as camisas feitas para o 1º de Maio chamaram a atenção.

Heróis cubanos.

Foi um evento de 1º de Maio inesquecível para todos nós! O Brasil havia se livrado do regime fascista e miliciano poucos meses antes de nossa viagem a Cuba e os cubanos comemoraram com alegria a chegada de Lula à presidência do Brasil.

Unidos hacemos Cuba!

Os autofalantes do evento chegaram a declarar a alegria de nos ver nas manifestações e informar sobre nosso grupo no evento e ao final da fala, disseram "Viva Lula, viva Lula do Brasil!". Foi bem legal!

E deu praia em Trinidad, Cuba.

Na parte da tarde, nosso grupo de dividiu para os passeios e nós fomos para a praia em Trinidad, local maravilhoso, com aquela cor de mar do Caribe de beleza indescritível.

Viva Cuba! Viva o Brasil!

Nossa companheira Miriam, prevenida e organizada como a conhecemos, registrou nosso momento histórico com a nossa bandeira nacional, agora liberta dos fascistas e extremistas que usurparam nosso símbolo pátrio durante o golpe e o regime dos milicianos.

A lindeza das praias caribenhas.

No dia seguinte, iríamos para Santa Clara, cerca de 100 Km de Trinidad. Lá, viveríamos uma das maiores emoções de nossa viagem, a visita aos monumentos nacionais em homenagem a Ernesto Che Guevara (ver postagem aqui).

É isso!

Viva Cuba! Viva o povo cubano!

William


Post Scriptum: a postagem anterior desta série pode ser lida aqui. A seguinte, a de nº10, está disponível aqui.


quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Leituras capitais (2023)



Refeição Cultural - CartaCapital nº 1291, 27/dez/2023


LULA III, ANO I

A leitura desta edição especial da revista comandada por Mino Carta e sua equipe foi uma leitura de fôlego, demorou um pouco, porém foi feita com atenção. Ela traz artigos e entrevistas com pessoas da melhor qualidade dando suas opiniões a respeito do primeiro ano do governo Lula neste conturbado momento da história do Brasil e do mundo.

Se prestarmos atenção no índice da revista, veremos que os temas e as chamadas das matérias fazem uma boa síntese do que aconteceu ou não aconteceu no ano de 2023 nas mais diversas questões da vida nacional. O que gosto em CartaCapital é saber que a revista tem uma transparência incomum nos dias atuais ao se apresentar aos leitores como apoiadora do governo Lula sem deixar de tecer todas as críticas que entender necessárias.

Como ser político, gostei da abordagem dos articulistas e entrevistados nas temáticas desenvolvidas na revista. Sei quase nada das coisas porque não sou especialista de coisa nenhuma. Entretanto, pela experiência de vida, tenho noções boas de algumas coisas.

Durante minha vida de representação política da classe trabalhadora acabei lidando com alguns temas que me fizeram conhecer um pouco mais que a média das pessoas áreas como comunicação, economia, educação, saúde e política. Fui gestor de secretarias de imprensa e formação, negociador nacional de direitos trabalhistas, e gestor de saúde.

---

EDUCAÇÃO

A herança maldita de Temer e Bolsonaro na educação - Otaviano Helene

Essa matéria, por exemplo, me deu uma amargura imensa na alma, por ter a noção exata do que o articulista aponta. Se o governo Lula seguir com sua posição de não desfazer a destruição da educação em andamento desde a reforma do desgraçado do Temer - "Uma Ponte para o Futuro" -, o Brasil não terá chance de libertar seu povo da absoluta ignorância na qual está enfiado de forma consciente por parte das classes dominantes. A ignorância do povo é projeto no país.

Nestes dias de descanso na Colônia do Sinpro São Paulo, tive a oportunidade de conversar com professoras e professores que sentem na pele diariamente o que significa o projeto de emburrecimento geral das crianças e jovens brasileiros, o Novo Ensino Médio (NEM). Por fim, aborda a Lei 13.800, que permite que instituições privadas possam definir atividades curriculares em instituições públicas.

--------------------

Recomposição de receitas, o fim do Novo Ensino Médio, interferências privadas. Há muito a corrigir

--------------------

Otaviano Helene começa descrevendo as reduções drásticas de orçamento nas áreas de pesquisa científica e tecnológica, orçamento das universidades públicas, e depois enumera a tragédia ocorrida com a mudança da lei da educação, implantando o NEM. 

Amig@s leitores, é foda! Lula não comprou a briga com os canalhas por trás deste projeto de emburrecimento dos jovens da classe trabalhadora, seu ministro é porta-voz dessa gente da casa-grande... aí fica difícil!

Durante 2023 estudei um pouco sobre Cuba e o povo cubano e se tem uma coisa que concluí dos estudos, inclusive após visitar a Ilha por duas semanas, é que a educação cubana baseada em princípios e valores que vêm desde José Martí, no século XIX, é a responsável por manter acesa a chama libertária, ativa e altiva do povo em relação aos países imperialistas do mundo.

Sem educação, nunca teremos um povo, uma pátria, patriotas de verdade!

---

HUMANIZAR O CAPITALISMO?

No mundo, caminhamos para um Estado de Mal-Estar Social - Luiz Gonzaga Belluzzo

Outra matéria que ilustra bem o que tenho escrito no blog é a questão da tendência atual de desfazimento da sociabilidade humana por causa do capitalismo, esse sistema organizador de um mundo para poucas pessoas com tudo e o restante sem nada.

Belluzzo pergunta:

"Estamos nós e Luiz Inácio, o Lula, a sofrer no mundo uma crise que nega os princípios fundamentais que regem a vida civilizada e democrática? Se isso for verdade, quanto tempo mais a humanidade suportará tamanha regressão?

O articulista começa suas reflexões agradecendo ao capitalismo a aceleração da criação de bens materiais em larga escala, dominando a natureza para isso (e destruindo a natureza, digo eu). No entanto, Belluzzo conclui que mesmo com toda a riqueza produzida, estamos sob uma "escassez de bem-estar" por nossa escolha política "na escassez de comida, de transporte, de saúde, de moradia, de segurança contra a velhice etc" para o conjunto das pessoas no mundo.

O que achei interessante, mas não é surpresa, é que Belluzzo desenvolve no texto o histórico de como chegamos ao "Estado de Bem-Estar Social" após a 2ª GM, mas não cita o Socialismo real que um terço da humanidade escolheu como forma de organização do Estado como o fator que contribuiu naquelas décadas para forçar os países capitalistas a repartir a riqueza com os trabalhadores através de direitos sociais universais. Nesse sentido, ele me pareceu a Globo contando suas narrativas e omitindo os responsáveis pelas coisas.

Belluzzo fala que a partir dos anos setenta o ideário liberal se impõe e a ética da solidariedade é substituída pela ética da concorrência. Depois cita a questão do 1% versus os 99%... mas nosso professor de economia não aponta o capitalismo como o problema. Seria pedir demais!

Solução? O professor termina o texto da forma como tenho visto as discussões no campo dos partidos como o PT e o próprio governo Lula: cita de novo os avanços do capitalismo ao "controlar" a natureza para a produção de bens materiais, mas não aponta solução que questione o próprio sistema causador da miséria dos 99%... 

Opinião minha: com essa postura de não termos coragem de nos levantarmos contra o capitalismo, seguiremos como gado na fila do abatedouro para o fim da vida humana e do planeta Terra.

---

SAÚDE

Fortalecer o Complexo Industrial da Saúde é estratégico para o País - José Gomes Temporão

Para finalizar meus comentários sobre a retrospectiva do primeiro ano do terceiro governo Lula, e um balanço de nosso país e de nossa vida nele, comento sobre outro tema que conheço um pouquinho a mais que a média das pessoas, a área de gestão de saúde.

O ex-ministro da saúde, Temporão, definiu o ano como sendo de reconstrução de políticas públicas na área, o que concordo.

É boa notícia o foco do governo em investir no fortalecimento do Complexo Industrial da Saúde, serão 42 bilhões em quatro anos. Não é admissível um país de 200 milhões de pessoas, um dos maiores do mundo, com o SUS sendo um grande comprador, ter que importar absolutamente tudo na área da saúde. 

--------------------

Opinião minha: essa terceirização insana da área da saúde é estúpida, burra e quem faz gestão em saúde terceirizando e apostando no "mercado" não é um gestor que mereça a confiança da classe trabalhadora e do povo brasileiro.

--------------------

A falta de visão soberana de nossos "administradores" da saúde é tão grande que Temporão cita o caso da exportação brasileira de plasma para importar medicamentos a custo infinitamente maior, baseados em derivados de plasma.

Vejam o poder do SUS caso o Brasil apostasse na produção nacional através de leis como ocorre nos países que têm amor-próprio e soberania:

"No Brasil, o SUS atende 150 milhões de pacientes em todas as suas necessidades de saúde. O Poder Público representa metade do mercado de reagentes para testes diagnósticos, 40% do mercado farmacêutico, 95% do mercado de imunizantes. O país pode usar o imenso poder de compra do SUS para obter acordos de transferência de tecnologia."

Temporão diz que a internalização da produção industrial na área da saúde não se dá no Brasil por causa das visões ideológicas antagônicas.

"De um lado, os economistas ortodoxos, que veem o Brasil como um grande produtor de alimentos e ponto. De outro, há os que acreditam no potencial industrial do País."

Entenderam? Uns querem que o país seja um fazendão - tipo agro pop - com a riqueza ficando concentrada na mão de meia dúzia de pessoas, outros que a gente seja soberano e tenha produção com valor agregado e com produção de empregos de qualidade.

Até os anos 1980, produzíamos 50% dos princípios ativos usados na fabricação de medicamentos, hoje produzimos 5%...

Na parte final da entrevista, Temporão fala da importância da retomada dos programas Mais MédicosFarmácia Popular. A questão do envelhecimento da população brasileira é séria e isso terá consequências nos sistemas de saúde - públicos e privados. Estamos preparados para isso?

"Hoje, o câncer é a segunda maior causa de mortes no Brasil, atrás apenas das doenças cardiovasculares e cerebrovasculares, mas rapidamente se tornará a primeira."

Temporão termina tecendo críticas à redução de 20 bilhões do orçamento da saúde em 2023 através do "jeitinho brasileiro" e achou "lamentável" essa questão.

--------------------

E A CASSI/BB? Como disse, entendo um pouquinho de gestão de saúde, fui gestor da diretoria de saúde da autogestão dos funcionários do BB. A associação era focada em um modelo de atenção primária baseada na Estratégia de Saúde da Família com estrutura própria de atendimento primário, as CliniCassi. Tínhamos um modelo de distribuição de medicamentos para crônicos que contribuía para a manutenção da saúde de dezenas de milhares de doentes crônicos mesmo em áreas remotas do país. A Cassi tem o problema do envelhecimento de sua população atendida de forma exponencial em relação aos números da população atendida pelo SUS. E a ESF era um modelo extraordinário de eficiência no acompanhamento dessa população: provamos isso por estudos. Vieram gestões "liberais" e o foco hoje é o "mercado", terceirização de tudo.

Pergunto: das 3 chapas inscritas para as eleições das próximas semanas, alguma delas propõe reverter essa tragédia anunciada de terceirização de tudo, inclusive do modelo de Estratégia de Saúde da Família e as CliniCassi?

---

LEITURA CAPITAL

As 24 matérias da revista estão excelentes, valem a pena para quem ler.

Não daria para comentar muitas delas porque senão a postagem ficaria enorme.

Abraços e vamos para um ano de 2024 de grandes definições para a nossa vida e para o planeta Terra.

William


domingo, 31 de dezembro de 2023

Diário e reflexões - Retrospectiva 2023



Refeição Cultural - 2023

Osasco, 31 de dezembro de 2023. Domingo.


Para reflexão: que perspectivas de futuro teremos caso prevaleça a tendência nas gerações que estão chegando ao mundo de serem aculturadas para desejarem ser youtubers e "influenciadores digitais" sem conhecimento de nada, sem o sonho de serem pessoas educadas, formadas e cientistas?


RETROSPECTIVA E BALANÇO 

Como começo esta retrospectiva pessoal? Do fim para o início ou do início para o fim? Ou in medias res para chamar a atenção das leitoras e leitores? Talvez essa seja a melhor estratégia de narrativa do meu ano vivido.

---

VIAGENS


Praia Grande (SP) - A primeira viagem do ano foi uma das que mais gostamos na família: passamos alguns dias da segunda quinzena de janeiro na Colônia do Sindicato dos Professores de São Paulo, Sinpro, na Vila Caiçara, Praia Grande. Desta vez, levamos o Lost, amigo do filhão, e os dias foram muito legais.

---


Guarapari (ES) - Minha companheira sempre quis que eu conhecesse a cidade turística de Guarapari, no Espírito Santo. Ela ia para lá nos anos noventa e nosso filho chegou a ir também quando criança. Nossos tios ficavam numa casa bem legal no alto de uma ladeira no centrinho da cidade, entre a Praia das Castanheiras e a Praia dos Namorados. Perto também da Praia da Areia Preta. Eu não conhecia a região ainda. 

Ficamos num hotel bem de frente para a Praia dos Namorados e passamos dias bem legais, lá. Caminhei e corri quase todos os dias. Valeu a pena e vamos voltar.

---


Uma viagem ao mundo de Monet

Em março, fomos ver a exposição Monet à beira d'água, no Parque Villa Lobos. A Ione adora as obras do pintor francês. A professora tinha um projeto educacional para as crianças com obras e pintores famosos e Monet sempre estava presente. Foi uma viagem o passeio!

---


Uberlândia (MG) - Antes de viajar para Cuba, fui ver meus pais e familiares em Minas Gerais. Foi uma viagem rápida. Também fui me encontrar em minhas caminhadas e reflexões no Parque do Sabiá, lugar que amo. Na oportunidade, decidi visitar o Zoológico local. O Sabiá é um dos lugares que mais gosto no mundo. Sério mesmo!

---


Cuba - Finalmente conheci Cuba. Fui pra Cuba! Foi uma experiência interessante! E para ser mais legal a experiência, meu filho foi comigo, foi sua primeira viagem para fora do país.

Antes da viagem, procurei ler um pouco a respeito da história da Ilha e do povo cubano. Li uma obra impactante - O homem que amava os cachorros (2009), de Leonardo Padura -, impactante tanto do ponto de vista da própria história do povo cubano após a Revolução em 1959, quanto do ponto de vista da Revolução Russa e a história de Leon Trótski. Foi difícil a leitura. Mas ela me colocou em reflexões duras a respeito do mundo humano.

Conheci um pouco da história de José Martí, grande figura humana e um dos principais pensadores da história cubana, referência na educação do país. Aliás, a leitura do livro da professora Maria Leite - Cuba insurgente - Identidade e Educação (2023), leitura terminada após a viagem a Cuba, deu clareza à minha hipótese de por que até hoje Cuba resiste ao embargo e ao capitalismo. Li o livro de Fernando Morais A Ilha (1976 e 2001) e essa leitura também me deixou em alerta para quando chegasse a Cuba em abril deste ano. 

Da permanência em Cuba por duas semanas, eu tanto fiquei impressionado e me questionando como é possível a manutenção até hoje, 65 anos depois, do regime socialista na Ilha, quanto compreendi por que até hoje o regime socialista se mantém em Cuba... pode parecer estranho afirmar isso, mas tenho a impressão de que a pedagogia da educação cubana é um dos alicerces do amor-próprio que aquele povo tem. Cubanía e Cubanidad... Os revolucionários liderados por Fidel Castro nos anos cinquenta tinham noção disso, eram martianos...

---


Romaria em terras mineiras 

Em agosto, depois de alguns anos sem caminhar entre Uberlândia e Água Suja, voltei para a estrada. Antes de caminhar os quase 80 Km, fiz várias caminhadas preparatórias pela região onde nasci e vivo até hoje, Zona Oeste da Grande São Paulo. 

Antes de partir como peregrino e romeiro, tive meus momentos com a família.

---


Casório nas Minas Gerais

Em outubro, a família teve nova oportunidade de visitar meus pais e familiares em Uberlândia, para fazer parte de um momento importante de nossa sobrinha Stefani, em seu casamento. Desejamos muitas felicidades ao casal.

As viagens a casa de meus pais é sempre um momento de Carpe Diem, porque a vida é o presente. 

Para todos nós, a vida é uma oportunidade e o tempo presente é o que importa. Tenho refletido sobre o tempo passado, que de fato pode ser como o futuro, do ponto de vista pessoal. Eu não tenho o tempo que passou, nem sei se tenho o tempo que não veio ainda... não tenho! 

---


Jaboticabal (SP) - No final de outubro, visitamos a cidade que abrigou nosso filho por alguns anos no interior paulista. Lá fizemos amigos e até hoje temos um carinho especial por Jaboticabal e pelas pessoas queridas da cidade.

---


Praia dos Carneiros (PE) - Em novembro, fizemos um passeio muito especial. Fomos passar alguns dias na Praia dos Carneiros numa pousada bem tranquila e com poucos chalés. E também fomos fora de temporada, o que contribui para que os ambientes internos e a praia estejam com pouca gente, permitindo um contato mais introspectivo com as belezas naturais do local. Foi muito bom!

---

Seriemas no Parque do Sabiá. Deslumbramento!

Natal em Uberlândia (MG) - A tradicional reunião em família para a ceia de Natal foi nas Minas Gerais. Se, por um lado, os conflitos familiares enchem os nossos corações de amarguras e incertezas quanto ao futuro, por outro, este Natal foi um momento inesquecível em minha vida por causa do meu reencontro com a energia interna de meu corpo. 

Cheguei a Uberlândia tendo desistido de tentar correr a São Silvestre porque meu corpo me dava sinais de que não conseguiria percorrer os 15 Km da prova. E não é que fui três vezes ao Parque do Sabiá e realizei uma façanha incrível, trotei longas distâncias e voltei decidido a correr a prova na virada do ano. Deu tudo certo e aquele meu momento com o Sabiá me emociona demais só de recordar aqueles dias. A natureza do local me inunda e a gente se descobre ali. Obrigado Parque do Sabiá!

---

LEITURAS

Durante o ano de 2023 tive a oportunidade de ler e completar a leitura de 32 livros dos mais diversos gêneros literários e discursivos. O homem que termina o ano é uma pessoa diferente daquela que iniciou a jornada da vida em janeiro. 

O esforço para ser uma pessoa melhor continua e sei que através dos livros podemos evoluir, diminuindo aquela incompletude que Paulo Freire nos explica no livro Pedagogia da autonomia.

Livros finalizados

1. A estranha vontade de um morto (2022) - Sandro Sedrez (ver aqui)

2. Torto arado (2018) - Itamar Vieira Junior (ver aqui)

3. rio pequeno (2022) - floresta (ver aqui)

4. Diário de um bandeirante ligeiramente atrasado e totalmente desarmado (2006) - Roberto Buzzo (ver aqui)

5. Manifesto do Partido Comunista (1848) - Marx e Angels (ver aqui)

6. Os sentidos do lulismo - Reforma gradual e pacto conservador (2012) - André Singer (ver aqui)

7. O homem que amava os cachorros (2009) - Leonardo Padura (ver aqui)

8. A Ilha (1976 e 2001) - Fernando Morais (ver aqui)

9. A vida não é útil (2020) - Ailton Krenak (ver aqui)

10. O trono no morro (1987) - José J. Veiga (ver aqui)

11. O governo no futuro (1970) - Noam Chomsky (ver aqui)

12. A impureza da minha mão esquerda (2020) - Henry Bugalho (ver aqui)

13. A Quinta-Coluna (1938) - Ernest Hemingway (ver aqui)

14. A comédia dos erros (1591) - William Shakespeare (ver aqui)

15. A bíblia em crônicas livres (2023) - Roberto Buzzo (ver aqui)

16. Evocación (2007) - Aleida March (ver aqui)

17. Lawfare: uma introdução (2019) - Cristiano Zanin, Valeska Zanin Martis & Rafael Valim (ver aqui)

18. A megera domada (1594) - William Shakespeare (ver aqui)

19. La historia me absolverá (1953) - Fidel Castro Ruz (ver aqui)

20. Novos poemas (1948) - Carlos Drummond de Andrade (ver aqui)

21. Quatro anos das sombras (2022) - org. Cleusa Slaviero (ver aqui)

22. Nuestra América (1891) - José Martí (ver aqui)

23. A verdade vencerá: Lula (2018) - Ivana Jinkings (ver aqui)

24. Operários sem patrão: gestão cooperativa e dilemas da democracia (2001) - Lorena Holzmann (ver aqui)

25. Cuba insurgente: identidade e educação (2023) - Maria Leite (ver aqui)

26. Educação como prática da liberdade (1965) - Paulo Freire (ver aqui)

27. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado (1978) - Abdias Nascimento (ver aqui)

28. Banzeiro Òkóto: uma viagem à Amazônia centro do mundo (2021) - Eliane Brum (ver aqui)

29. Os sertões (1902) - Euclides da Cunha (ver aqui)

30. Os mortos vivos (1979) - Peter Straub (ver aqui)

31. Greve e negociação coletiva: dimensões complementares da luta sindical (2022) - Carlindo Rodrigues Oliveira (ver aqui)

32. O Brasil voltou (2023) - org. Cleusa Slaviero (ver aqui)

---

LEITURAS CAPITAIS

Dos livros que li, alguns me deram compreensão de muitas coisas de nossa vida em sociedade. 

Não estou desvalorizando alguns dos livros que li, mas o fato é que algumas leituras e formas de arte e filmes são para entretenimento, para curtição. Outros são para nos causar impactos marcantes, modificadores do ser e do comportamento humano e social.

---

LULISMO - O livro de André Singer sobre o conceito de "lulismo" foi um livro impactante para mim. Reforçou algum conhecimento que tinha e me ajudou a compreender por que as coisas são como são no Brasil. A tese de Singer mereceria uma leitura coletiva nos sindicatos, partidos de esquerda e nos movimentos sociais organizados.

Modéstia à parte, as postagens que fiz sobre a leitura do livro de Singer dão uma boa ideia do que o intelectual nos explica sobre o fenômeno. O ideal é sempre ler a obra, mas se os leitores fizerem a leitura de minhas postagens terão uma noção do que Singer defende (ver aqui).

---

SOCIALISMO EM CUBA, NA URSS E O "NOVO SINDICALISMO" NO BRASIL - Outro livro impactante para mim e que ao reler a postagem sobre a leitura (ver aqui) me deixou impressionado foi o livro do escritor cubano Leonardo Padura. De novo, modéstia à parte, a postagem tenta contribuir para o debate político, é um ponto de vista honesto de quem viveu duas décadas dentro do movimento sindical. Deem uma conferida nela, comentem à vontade.

Que leitura densa! Que leitura que me fez pensar toda a minha vida sindical e de representação de classe! Enquanto lia nos primeiros meses do ano e do 3º governo Lula, ia revivendo meu dia a dia na principal corrente política da CUT, a Articulação Sindical. Livrão!

CHE GUEVARA E ALEIDA MARCH - O livro Evocación da guerrilheira e companheira de Che Guevara, Aleida March (ver aqui), foi uma das leituras que mais me impactaram no ano de 2023. Foi uma descoberta! Nunca imaginei conhecer tantas informações pessoais da figura humana Ernesto Guevara como conheci através das memórias de sua esposa. Olha, na postagem comento que o livro me marcou como a leitura do livro de Miguel Nicolelis sobre o cérebro humano, um livro que me fez ver a vida de forma mais compreensível.

---

AMBIENTALISMO, EMERGÊNCIA CLIMÁTICA E A VIDA - Duas leituras que me trouxeram muita reflexão e desejo de mudança da maneira como o mundo está organizado e da própria vida foram as leituras de Ailton Krenak e de Eliane Brum. 

São leituras imprescindíveis às pessoas de boa vontade e desejosas de um mundo melhor para todas as espécies viventes no planeta Terra.

---

ENTENDI QUE SOU ESCRITOR

Edições de livros e produções textuais em andamento:

- Um livro de memórias sindicais

- Um livro sobre o balanço do mandato eletivo na gestão da Cassi (2014-2018)

BLOGS

As publicações nos blogs começam a fazer sentido para mim em 2023 como faziam à época em que era um representante da classe trabalhadora.

A temática das reflexões nos textos produzidos e a quantidade de pessoas que tem acessado os textos me fazem ter cada dia mais responsabilidade com o que escrevo.

O blog Refeitório Cultural recebeu 168 mil acessos em 2023 - média de 14 mil acessos por mês. Avalio que é muita gente que visitou o blog! Me sinto honrado com isso.

Considerando que o blog não é um ambiente da moda atual, na qual a comunicação se dá por imagem e vídeo, 168 mil é uma quantidade respeitável de acessos para um ambiente de textos sobre cultura em geral e política.

De vez em quando recebo algum retorno de leitores e leitoras dizendo que meus textos são bons e que contribuem para as reflexões deles. Isso é gratificante e dá sentido ao esforço que faço ao escrever.

Para fazer este balanço do ano de 2023, reli os textos sobre as leituras que fiz e os textos de fechamento de mês e percebi que minhas reflexões vêm amadurecendo bastante quando comparo com os textos que releio do período inicial do blog.

Talvez por isso, e por ter pessoas lendo o que escrevo no ano e os textos da história de publicações do blog, eu comece a trabalhar meu psicológico para aceitar a ideia de que eu seja um escritor, de difícil definição do estilo, mas um escritor, ou alguém que escreve com regularidade.

---

COISAS DOS HUMANOS, ANIMAIS DEMASIADAMENTE HUMANOS

Meio Ambiente

O ano de 2023 seguiu sendo de destruição do planeta Terra, da vida humana e da sociabilidade humana. Uma percepção da realidade que aprendi ao ler Eliane Brum e seu duríssimo livro Banzeiro Òkòtó: uma viagem à Amazônia centro do mundo (2021) me pareceu muito clara: o futuro será pior que o presente. Eu nunca tinha pensado nisso! Estamos destruindo rapidamente as condições de vida no planeta.

O pior é que é verdade essa questão da destruição do planeta, penso eu, mesmo não tendo leitura determinista de futuro, como nos alerta o educador Paulo Freire ao dizer que temos que problematizar o futuro e mudar as situações ruins porque elas não são "naturais", são consequências de nossas escolhas e nosso comportamento humano. A realidade pode mudar porque somos nós que fazemos a realidade. Mas no momento, e observando as tendências, a perspectiva é de um futuro pior que o presente.

Guerras

Ucrânia e Israel, guerras por procuração dos EUA - No início de 2023, convivíamos com algumas guerras no mundo. A que se desenvolvia em solos ucraniano e russo era a que chamava a atenção da pauta das mídias hegemônicas porque se tratava de uma guerra por hegemonia global, envolvendo o império decadente dos Estados Unidos. 

Terminamos o ano com dois meses de bombardeios genocidas na Faixa de Gaza, na Palestina. Seguimos na mesma. A guerra de um país só - o governo do Estado de Israel -, de um lado, contra civis palestinos, de outro. É mais uma guerra por hegemonia global e com os EUA por trás dela. Humanos, demasiadamente humanos somos nós...

---

ALGUNS OBJETIVOS E PROJETOS (TALVEZ DESEJOS)

Ao finalizar o ano de 2023 e olhar para trás e ver o que aconteceu na vida pessoal e no mundo ao redor, sinto que imaginar o amanhã é algo mais difícil que antes, o amanhã que não nos pertence, como bem nos explica o filósofo Ailton Krenak. 

Fico pensando a respeito de projetos de vida ou objetivos a perseguir e acho tudo tão estranho... quero dizer, tão instável, frágil, talvez ilusório. Não queria ter passado a vida deixando a vida me levar, e acabei passando a vida tendo a vida me levado pelos caminhos que trilhei.

Quando era um adulto jovem, tinha os objetivos básicos, à época, de ter uma casa própria, queria ter uma moto, acho que queria ter uma profissão e uma remuneração estável, queria ser erudito (algo do tipo) e queria namorar (talvez ser amado). Quase todo mundo da minha classe social tinha esses objetivos na vida. 

Me lembro de não querer trabalhar em coisas humilhantes e extenuantes, pois era essa a minha realidade na infância e adolescência sendo explorado pelos outros. Talvez por isso odiasse trabalhar e odiasse rico.

E hoje? O que uma pessoa como eu poderia esboçar mentalmente como objetivos e projetos para os próximos meses, talvez anos à frente? O que está sob meu domínio ou controle mínimo no viver cotidiano? O quê?

Percebi que não temos controle de nada, não temos. Deveria então, sabendo disso, deixar a vida me levar, com mais leveza e vivendo o momento da melhor forma possível como se não houvesse o amanhã... pois é, deveria. Mas não consigo. 

Minha natureza não facilita meu viver à toa, "gozar" essa fase da vida. Me sinto culpado por ter conseguido sair daquela condição dos trabalhos humilhantes e extenuantes. Vejo o povo de onde vim se fodendo em trabalhos humilhantes e extenuantes, explorados como escravos, e me sinto mal por isso.

Estou lendo os livros de Paulo Freire e ele fala o tempo todo sobre mudança, sobre não aceitarmos o determinismo que tentam nos vender.

Freire nos ensina que um dos papéis centrais da educação e das pessoas que lidam com a profissão de educar é perceber o mundo e mudar o mundo porque somos seres incompletos e passíveis de educação. 

A tomada de posição para mudar a realidade desfavorável das classes subjugadas e excluídas da cidadania é central na pedagogia freireana. Acho que fiz isso na fase que lutava por mim mesmo e na fase que representava pessoas de minha classe. Isso me deu um sentido no viver, mesmo olhando agora para trás, mesmo que não percebesse isso durante.

Hoje, me sinto deslocado no mundo, após todos os papéis relevantes que desempenhei como ser social, constituinte de ambientes humanos. Não sinto pertencimento em nada. Não me sinto parte de nada. Isso tem dificultado muito meu existir. E nos ambientes onde existo, não tenho influência alguma, não tenho capacidade de mudar realidades de forma dialogada.

Termino um ano calendário e entro outro ano calendário na mesma. Sem sentimento de pertencimento a algo.

Se em termos políticos tenho militado num diretório do partido no qual admiro o trabalho do presidente, o companheiro Daniel do DZ Butantã -, a realidade me lembra o tempo todo que sequer é o diretório onde me localizo pela legislação partidária. Não posso votar nas pessoas que conheço, sequer no PED, pois moro em Osasco, que dirá na vereadora Luna Zarattini e no Guilherme Boulos no ano de 2024. Não pertenço a lugar nenhum. Não tenho militância na cidade onde resido.

Imagine se for falar do movimento político que ajudei a construir por mais de duas décadas, o movimento sindical bancário. O Sindicato fez 100 anos, eu vivo o sindicato há 35 anos - sou sindicalizado desde 1988 e ainda pago mensalidade -, e sequer para um videozinho fui convidado. A Cassi fez 80 anos nestes dias e fui um dos diretores eleitos que mais defendeu a associação e os direitos dos associados, sem falsa modéstia; idem para o apagamento. A Contraf-CUT completou 18 anos, fui o responsável por apresentar a marca da nova entidade no lugar da famosa CNB e fui secretário de formação; idem ao apagamento. Alguém ou "alguéns" mandou apagar a minha foto da história dessas entidades, como ouvimos dizer na história das esquerdas no mundo.

Enfim, quais poderiam ser meus objetivos e projetos de futuro para 2024 e quiçá algum tempo mais? Ou desejos, torcida?


- Ser professor e dar aula em algum projeto voluntário em 2025, me preparar em 2024?

- Voltar a Cuba e seguir estudando experiências de sociedades não capitalistas?

- Viajar à Itália e já falar italiano quando for?

- Vai que eu descubra em mim uma forma de ainda correr uma maratona...

- Ler alguns livros, uns clássicos como, por exemplo, Os miseráveis (comecei já), Guerra e Paz, e mais alguns autores que nunca li.


De verdade, de verdade, eu tenho algumas torcidas, desejos, coisas que não dependem de mim.

Desejo que as pessoas de meus afetos tenham saúde e sobrevivam ao ano de 2024. Gostaria de ver as pessoas que amo se encontrarem, se realizarem, serem um pouco felizes. Serem humanistas e tolerantes umas com as outras.

Desejo ter saúde, não perder minha visão e não piorar minha condição de desgaste nos quadris. Gostaria de correr com regularidade. Minha vista e minhas pernas são importantes para mim. Torcer para não ter infarto, AVC e câncer.

Desejo seguir estudando e o que posso fazer neste momento para a coletividade é escrever o que aprendo e o que penso, escrever com honestidade, e tentar passar adiante o que sei de forma gratuita, porque hoje sobrevivo do meu benefício do fundo de pensão para o qual contribuí por quase três décadas.

Acho que só isso. As outras possibilidades de projetos e objetivos são referências de norte (utopia para andar adiante) não muito realizáveis, a minha vida foi sempre vivida pelos acontecimentos do dia.

Se eu conseguisse, eu esqueceria todo esse passado que sequer existe e esqueceria também tudo o que me oprime a alma e viveria a tal vida gozando o dia a dia, ligando um foda-se para os outros e para o mundo... mas isso não é da minha natureza. Gostaria de mudar isso e esquecer essa merda que me dilacera.

Mas vamos seguir o norte racional que imaginei (o lugar nenhum a se alcançar), seguir lendo e escrevendo, indo em mobilizações de rua que chamam a cidadania etc.

Ajudando quando der e não atrapalhando os outros. Mas falando o que penso, é meu dever e minha obrigação falar baseado no que conheço e penso.


William Mendes

Mais um na multidão