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quarta-feira, 9 de junho de 2021

090621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Temos que desafiar a lei quando ela é injusta

Ao ler a autobiografia de Nelson Mandela, hoje pela manhã, me emocionei. Às vezes, vivemos aquelas coincidências que despertam emoção pelo inusitado do fato. 

Dias atrás, interrompi as leituras dos clássicos que estou lendo, livros de leitura demorada, e li alguns livros menores, tragédias gregas entre eles. Li Édipo Rei e Antígona, de Sófocles, e Prometeu Acorrentado, atribuído a Ésquilo. Preenchi algumas de minhas lacunas culturais.

A leitura de Mandela está numa parte difícil porque estou acompanhando os relatos do período em que ele esteve preso na ilha de Robben, cumprindo pena de prisão perpétua por lutar pela liberdade e igualdade para o povo negro sul-africano, povo humilhado e sobrevivendo na absoluta miséria por causa da minoria branca africâner e o regime racista do apartheid.

De repente, Mandela nos conta que chegou a participar de peças teatrais durante seus estudos universitários.

"Eu apareci em apenas alguns dramas, mas tive um papel memorável: o de Creonte, o rei de Tebas, na Antígona de Sófocles. Eu havia lido algumas das peças clássicas do teatro grego na prisão e as achava enormemente inspiradoras. O que eu tirei delas foi que o caráter era medido através de como as situações difíceis eram encaradas e que um herói era um homem que não cedia nem diante das circunstâncias mais difíceis." (p. 557)

Gente, eu havia acabado de ler e conhecer a história de Antígona! Foi de arrepiar! A literatura tem dessas coisas, as intertextualidades e as referências são a base da literatura mundial. As grandes obras literárias, os grandes autores e pensadores, sempre dialogam entre si ao longo dos milênios de cultura humana.

Seguindo com a descrição feita por Mandela, no parágrafo seguinte, eu comecei a temer que a identificação entre Mandela e o personagem que ele interpretou, o rei Creonte, fosse me decepcionar.

"Quando Antígona foi escolhida para ser encenada, eu ofereci os meus serviços, e me pediram que eu interpretasse Creonte, um rei idoso lutando em uma guerra civil pelo trono de sua querida cidade-estado. No início da peça, Creonte é sincero e patriótico, e há sabedoria nas suas falas iniciais quando ele sugere que a experiência é a base da liderança e que os deveres para com o povo têm prioridade sobre a lealdade a um indivíduo." (p. 557)

Ao ler a tragédia de Sófocles eu fiquei muito puto com o rei Creonte. Minha simpatia havia sido evidentemente pela figura de Antígona. Seguimos com a descrição de Mandela.

"Mas Creonte lida com os seus inimigos impiedosamente. Ele decretou que o corpo de Polinice, irmão de Antígona, que havia se rebelado contra a cidade, não merecia um funeral apropriado. Antígona se rebela com base em que há uma lei acima daquela do estado. Creonte não quer ouvir Antígona, nem ouve a ninguém a não ser os seus demônios interiores. Sua inflexibilidade e cegueira não caem bem em um líder, pois um líder deve temperar a justiça com misericórdia. Antígona era quem simbolizava a nossa luta; ela era, à sua própria maneira, uma guerreira pela liberdade, pois ela desafiava a lei por ela ser injusta." (p. 558)

Cara, meus olhos encheram d'água...

Demais!

É por isso que temos que lutar contra todas as desgraças e crimes lesas-pátrias cometidos pelos golpistas e pelos bolsonaristas após o golpe de Estado em 2016. Temos que ser guerreiros pela liberdade e lutar pelo que é justo, ou seja, lutar contra as reformas e leis que prejudicaram o povo brasileiro e a classe trabalhadora e entregaram o patrimônio público para meia dúzia de burgueses apaniguados do regime nazifascista de plantão.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


terça-feira, 25 de maio de 2021

29. Antígona - Sófocles



Refeição Cultural

"Antígona - O povo fala. Por mais que os tiranos sejam afeitos a um povo mudo, o povo sempre fala. Fala sussurrando, amedrontado, à meia luz, mas fala..." (SÓFOCLES, 2007, p. 98)


Mais um clássico lido! Agora conheço a história de Antígona, filha de Édipo e Jocasta, na versão de Sófocles. Que dramática é a narrativa do início ao fim! (li que na versão de Eurípides, Antígona tem um final diferente. Dele, eu conheço a tragédia Medeia)

Lendo as tragédias gregas fica mais fácil compreender os mitos da antiguidade clássica e as referências das tragédias de Shakespeare.

Antígona é uma das filhas de Édipo e Jocasta. Édipo é aquele que matou o pai, Laio, e ficou com sua mãe. É bom lembrar que ele não sabia disso. Tudo foi tramado pelos deuses do Olimpo, e os argumentos das tragédias de Sófocles lembram ao povo grego que ninguém foge de seu destino.

A tragédia se passa em Tebas, o rei que ocupa o trono é Creonte, irmão da falecida Jocasta e tio de Antígona e seus três irmãos - Ismênia e os irmãos Etéocles e Polinice. Os irmãos morrem em batalha um contra o outro, um defendendo o tio e Tebas e o outro tentando tirar do poder Creonte, estando ao lado de seu sogro, rei de Argos. 

Antígona quer realizar os ritos fúnebres para Polinice, mas Creonte quer que ele apodreça insepulto e comido pelos cães, enquanto ao outro irmão que defendeu Tebas, Etéocles, faz os ritos corretos. Antígona não aceita isso e está armado o barraco para a tragédia que fará cumprir-se o destino trágico a toda a descendência de Édipo.

Creonte é orgulhoso e inflexível e não atende ao clamor de seu filho Hêmon, noivo de Antígona, e sequer ouve os conselhos do sábio cego Tirésias. O tirano quer sangue! Quando volta atrás já é tarde e uma série de merdas acontecem na família.

Enfim, mais uma lacuna cultural preenchida. Esses clássicos e mitos da antiguidade me fazem lembrar dos textos críticos que li sobre a história ser linear ou cíclica, o tempo nas narrativas religiosas e mitológicas, mitos do eterno retorno etc.

Seguimos lendo, estudando, tentando dar sentido às coisas, mesmo sabendo que as coisas não têm sentido algum.

William



Bibliografia:

SÓFOCLES. Édipo Rei & Antígona. Tradução: Jean Melville. Coleção a obra-prima de cada autor. São Paulo: Martin Claret, 2007.

domingo, 23 de maio de 2021

28. Édipo Rei - Sófocles



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Por isso, não tenhamos por feliz homem algum, até que tenha alcançado, sem conhecer doloroso destino, o último de seus dias." (SÓFOCLES, 2007, p.77)


Estou nuns dias sem pique para ler os três livros que estou lendo - Ulysses, Odisseia e O Verdadeiro Criador de Tudo. Estou deprê, talvez pela certeza da desilusão com a sociedade humana, com os animais homo sapiens. Não me iludo mais com essa espécie animal.

Para perseverar na leitura de alguma coisa (estou vivo), peguei alguns livros na estante pra ver se rolava a leitura de algum deles, livros pequenos se comparados aos bichões que citei acima. 

Aí, no sábado, li o livro do Jack Kerouac, um livro com três narrativas e um poema. Nunca tinha lido esse autor norte-americano. As estórias dele me deixaram pensativo. Ele falou sobre Nova York, sobre solidão e sobre o "vagabundo americano" nas palavras dele mesmo.

Depois de umas infelicidades domésticas, além das infelicidades brasileiras e mundiais, escolhi outro dos livros que peguei, uma tragédia grega, nada mais propício ao momento. Peguei Édipo Rei, de Sófocles. Li nesta manhã de domingo. Chocante!

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ÉDIPO REI

O mito de Édipo é antiquíssimo, tem milhares de anos. Já é citado na Odisseia de Homero (928-898 a.C.), que é uns séculos mais antigo que o dramaturgo Sófocles (496-406 a.C.). Então, nem há que se falar em eventual spoiler na síntese da tragédia.

Édipo é filho de Laio e Jocasta, mas nunca soube disso. Laio era rei de Tebas e quando soube do oráculo de Apolo, em Delfos, que teria um filho que o mataria e se casaria com sua esposa, manda matar o menino assim que ele nasce. O rei Laio contou com a fidelidade de outra pessoa para o assassinato do filho, que não ocorreu.

O menino acaba sendo criado como filho de outro rei, em Corinto. Já sendo jovem, num dia de bebedeiras, escuta que não é filho legítimo do rei. Lá vai ele, o jovem Édipo, ao mesmo oráculo em Delfos e ouve a mesma história. Ele vai matar o pai e casar-se com sua mãe. Decide ir embora para sempre de Corinto e vai parar em Tebas.

No caminho, ele mata uns sujeitos, vence um monstro mitológico - a Esfinge - que apavorava o povo em Tebas e vira rei, casa com a rainha e tem filhos.

A tragédia segue e o final é terrível. Prevaleceram as profecias dos deuses, que já eram questionados se suas previsões aconteciam mesmo ou se eram fake news, divulgadas nas redes sociais gregas só para manipular reis, rainhas e súditos.

Vemos na tragédia de Sófocles a figura do sábio idoso e cego Tirésias, que Ulisses (Odisseu) vai ao Hades (Inferno) consultar sobre sua volta para Ítaca, a esposa Penélope e o filho Telêmaco. Li sobre Tirésias dias atrás, na Odisseia de Homero (Livros X e XI). Ver postagem aqui.

É isso. Mais um clássico lido e conhecido. Vou ler o outro de Sófocles, Antígona, a filha de Édipo.

William


Bibliografia:

SÓFOCLES. Édipo Rei & Antígona. Tradução: Jean Melville. Coleção a obra-prima de cada autor. São Paulo: Martin Claret, 2007.


segunda-feira, 17 de maio de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses no Hades (X)



Refeição Cultural

"A augustíssima ninfa respondeu-me:
'Divo astuto Laércio, constranger-vos
Não quero; mas convém baixeis primeiro
De Prosérpina e Dite à feia estância
O vate a consultar cego Tirésias,
Único morto a quem a infernal Juno
O saber e o pensar tem conservado,
Não sendo os outros mais que aéreas sombras'." (LIVRO X, v. 363-370, p. 202/203)


ULISSES VAI AO INFERNO

O herói grego Odisseu (Ulisses em latim) está contando aos Feácios suas atribulações e desventuras após o fim da Guerra de Troia e de como não conseguiu retornar a sua bela Ítaca. Estou no Canto X da Odisseia, de Homero, na magnífica tradução do maranhense Odorico Mendes.

Circe sugere que Ulisses vá para o Inferno... Explico: a augusta ninfa Circe diz a Ulisses que desça ao Hades para consultar o sábio adivinho tebano Tirésias, para que o herói seja bem sucedido em sua jornada de volta para casa, Ítaca, onde o esperam a esposa Penélope e o filho Telêmaco.

O professor Medina, responsável pela edição que tenho da Odisseia, publicada pela Edusp, colocou uma nota tão importante nesta parte do canto que vou reproduzi-la abaixo. Ela ensina e esclarece muita coisa. Inclusive sobre o Ulysses, de Joyce, que estou relendo ao mesmo tempo em que leio a epopeia homérica.

É a quarta vez que me sentei para ler o clássico e postar algum comentário sobre ele. A postagem anterior pode ser lida aqui.

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TIRÉSIAS (nota do professor Antonio Medina para a Odisseia, na tradução de Odorico Mendes)

"Tirésias: adivinho tebano, que em jovem fora cegado por Atena, de quem havia revelado um segredo. Outra variante testemunha que a cegueira de Tirésias se deveu a uma vingança de Hera, que o punira porque, convidado a mediar uma discussão entre Zeus e sua esposa, Tirésias teria respondido que a mulher sente mais prazer no sexo do que o homem (Tirésias falava com saber de causa, porque sua natureza andrógina implicava o conhecimento dos dois sexos e portanto dos dois prazeres). Por favor de Prosérpina, conservou seus dons de vidente mesmo no Inferno. É uma das figuras mais vigorosas da história da literatura. Aparece também em Édipo-Rei e Antígona, de Sófocles, em As Fenícias e As Bacantes, de Eurípides, no livro III das Metamorfoses de Ovídio, em Mamelles de Tirésias, de Apollinaire, em Édipo, de André Gide, em The Waste Land de Eliot, e em muitos outros; e a Odisseia, no seu conjunto, conheceu sua mais célebre alegoria no romance Ulisses (1922) de James Joyce, onde se conta não apenas a história de Stephen, de Bloom e da cidade de Dublin em um dia. Bloom é Ulisses, Stephen é Telêmaco, Molly é Penélope (sem as virtudes desta), o Ciclope é um fanático irlandês encontrado numa taberna, Nausica é uma bela moça entrevista fugazmente na praia; algumas sugestões ultraparódicas da Odisseia, realizadas num contexto antiépico e 'irônico' estão em Os Ratos, de Dionélio Machado." (Nota 367 in: Odisseia, Edusp, p. 203)


Amig@s leitores, só lendo muito para suportar a tristeza que sinto perante a realidade brasileira. Eu não tenho como perdoar meus conterrâneos após o advento do bolsonarismo. Não tenho. Sei que sou um ser social, animal homo sapiens etc, mas quase que poderia afirmar que não quero mais saber dos seres humanos. Poucos valem a pena.

Ler é fundamental, ler é uma forma de resistência, é uma forma de sobreviver. Tenho tantas obras pra ler que gostaria de seguir vivendo.

William


Post Scriptum: até esta postagem eu não conhecia os clássicos dramáticos de Sófocles. Agora já conheço alguns. Li Édipo Rei e Antígona. Mais duas lacunas culturais preenchidas.


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).