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terça-feira, 20 de abril de 2021

Livro: Pauliceia Desvairada - Mário de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos

"A gramática apareceu depois de organizadas as línguas. Acontece que meu inconsciente não sabe da existência de gramáticas, nem de línguas organizadas. E como Dom Lirismo é contrabandista..." ("Prefácio interessantíssimo", Pauliceia Desvairada, 1922)


Estou nuns dias de desconstrução, e quem sabe reconstrução de algo, talvez até de descobertas de sentidos, sabendo que não há sentido nas coisas. A coisa até parece o Modernismo e seus participantes centrais, Oswald de Andrade e Mário de Andrade (além, é claro, de meu predileto, o 3º Andrade, o Drummond).

Interrompi a leitura de Moby Dick por uns dias, para ler uns livros intercalados. Estou bem na leitura do clássico de Melville. Faltam pouco mais de cem páginas para acabar o livrão. 

Nesses dias de desconstrução, li primeiro o Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade. Depois li o livro de poesia Pau-Brasil, dele também. Para finalizar as obras centrais de O. A. que tenho, li o Serafim Ponte Grande. Livros fundantes do Modernismo brasileiro. Já havia lido essas obras duas décadas atrás, quando entrei na USP.

Aí fui pegar para ler os textos críticos de Haroldo de Campos, contidos nos livros do Oswald de Andrade. O texto crítico de Campos contido no João Miramar li no dia da releitura da obra. Faltavam mais dois textos críticos e o contido na edição de Pau-Brasil é enorme, mais de 50 páginas. Enfim, peguei pra ler as críticas. São muito boas!

Ao começar a leitura de Haroldo de Campos falando sobre a poesia Pau-Brasil e Oswald de Andrade, não teve jeito de ficar só nisso. Mário de Andrade era tão citado, juntamente com sua Pauliceia, que tive que parar o texto crítico e reler a Pauliceia Desvairada (1922). Mário de Andrade foi outro modernista que conheci ao estudar nas Letras da USP.

Foi assim minha manhã desta terça-feira, 20 de abril. A cada dia, menos vontade de ligar o celular eu tenho. Estamos vivendo um período de guerra, destruição do mundo, mortes nos campos de batalha, perdas de pessoas conhecidas, depressões. Explico: pandemia de Covid-19 no Brasil do regime fascista e genocida de um psicopata apoiado pela casa-grande, que acabou com a parca democracia que tínhamos ao dar um golpe de Estado em 2016. Tem horas que não queremos mais saber do mundo.

Enfim, voltando à Pauliceia Desvairada, a leitura de Mário de Andrade foi muito impactante quando a li pela primeira vez na Letras. Naquela época, eu fiz Modernismo com o professor Wisnik: foi legal demais! 

Fizemos uma greve na faculdade em 2002, a maior greve da história da FFLCH, e eu cheguei a declamar "Ode ao burguês" nas escadarias do prédio da Gazeta na Avenida Paulista. Eu declamava cada verso e um monte de gente repetia em seguida... foi "arlequinal!".

Na sala de aula, o professor fazia leituras em voz alta conosco, gritando poemas da Pauliceia. Era uma loucura! Inesquecível!

É isso. Anotado mais um clássico que tive o privilégio de conhecer nesta vida.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Mário de. Poesias completas. Círculo do Livro S.A. São Paulo, 1976


domingo, 18 de abril de 2021

Livro: Serafim Ponte Grande - Oswald de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Fatigado
Das minhas viagens pela terra
De camelo e táxi
Te procuro
Caminho de casa
Nas estrelas
Costas atmosféricas do Brasil
Costas sexuais
Para vos fornicar
Como um pai bigodudo de Portugal
Nos azuis do clima
Ao solem nostrum
Entre raios, tiros e jaboticabas
"

(Serafim Ponte Grande, O. A.)


Entre minhas leituras engajadas do momento, os dois livrões que estou lendo nestes dias - Moby Dick (1851), do romancista norte-americano Herman Melville e O verdadeiro criador de tudo (2020), do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, eu descanso lendo algo leve ou revejo leituras que já fiz.

Foi em uma dessas pausas de descanso dos livros lidos como desafios novos, que li neste domingo (18/4) o 3º livro do modernista Oswald de Andrade. Na verdade, foram releituras das obras dele estudadas por mim há duas décadas, quando entrei na faculdade de Letras da USP.

E com a leitura de hoje de Serafim Ponte Grande (1933), de Oswald de Andrade, encerro a trilogia do autor. Li Memórias sentimentais de João Miramar (1924) e Pau-Brasil (1924) dias atrás. Postagens aqui e aqui, respectivamente.

Gostei mais da leitura de Serafim Ponte Grande do que da leitura de João Miramar. A linguagem de ambos os romances é inovadora, lógico, mas no Serafim o escritor está mais maduro naquilo que queria desenvolver. O prefácio de 1933 feito por Oswald de Andrade é forte, é de ruptura com uma fase do modernismo que ele e seus colegas vivenciaram. Vejam o que ele diz:

"Publico-o no seu texto integral, terminado em 1928. Necrológio da burguesia. Epitáfio do que fui." (p. 39)

Nas minhas releituras e leituras de descobertas de personagens da literatura brasileira, pretendo identificar o esforço de nossos autores mais conhecidos e clássicos em representar os tipos brasileiros, os caracteres de nossa gente na visão desses autores.

João Miramar e Serafim Ponte Grande são, na minha opinião, personagens literários que ocupam essas tentativas autorais de descrever tipos sociais de nossa gente. Sei que O. A. apresentou nesses romances toda uma concepção de linguagem, de críticas a outras formas de linguagem poética e literária anterior ao movimento ao qual ele estava engajado, o Modernismo Brasileiro.

Enfim, mais um clássico contabilizado nas minhas metas literárias.

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MEMÓRIAS E REFLEXÕES

Os livros trazem muita história, falo aqui em relação aos livros físicos, os volumes que temos em mãos quando lemos. Minhas edições de Oswald de Andrade foram adquiridas há duas décadas. Nelas, tomei contato com o autor no momento que comecei uma faculdade de Letras. Estava tendo aulas fantásticas sobre Literatura Brasileira e Modernismo.

O livro que li hoje, dia 18 de abril de 2021, tem uma marcação que me deixou pensando na vida. Lá na página 161, a página do fim do romance, anotei o dia que acabei a leitura em 2002: dia 2 de agosto. Na hora vieram diversas memórias e pensamentos sobre a minha vida nestas duas décadas.

Dia 2 de agosto de 2002 foi meu último dia atendendo clientes da agência Vila Iara - Osasco, no Banco do Brasil, foi uma sexta-feira. Após ser eleito diretor do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, alguns meses antes, eu começaria meu trabalho de representação dispensado do local de trabalho a partir do dia 5 de agosto, uma segunda-feira. Tudo mudou na minha vida a partir dessa data.

Aliás, as coisas mudaram tanto que neste domingo de 2021 eu não liguei o celular, não entrei em rede social alguma, não quis ler notícias. Preferi me isolar e ler. Com a leitura e sem ser pescado, fisgado, capturado pela Matrix, pude refletir sobre tanta coisa, do presente e do passado, que foi um dia de muitas memórias e reflexões sobre a vida.

Estamos no pior momento da história do Brasil. Um governo genocida, psicopata e lesa-pátria desmancha nosso país e nossas vidas. A pandemia mundial de Covid-19 contamina, sequela e mata milhares de pessoas todos os dias, aqui com o apoio do regime de morte. As pessoas não têm direitos sociais mínimos após a retirada do Partido dos Trabalhadores do poder por golpe de Estado. 

É tudo muito triste hoje em dia. Bem diferente do que iríamos viver no Brasil a partir daquele dia que li Serafim Ponte Grande, dia 2 de agosto de 2002. Lula seria eleito e o povo viveria os melhores anos de suas vidas, o Brasil viveria o melhor momento de sua história.

É isso!

William


ANDRADE, Oswald de. Serafim Ponte Grande. 8ª ed. - São Paulo: Globo, 2001.


sexta-feira, 16 de abril de 2021

Livro: Pau-Brasil - Oswald de Andrade


 

Refeição Cultural - Cem clássicos

"DIGESTÃO

A couve mineira tem gosto de bife inglês
Depois do café e da pinga
O gozo de acender a palha
Enrolando o fumo
De Barbacena ou de Goiás
Cigarro cavado
Conversa sentada
"

(Pau-Brasil, O. A.)


Como disse na postagem anterior sobre minhas leituras clássicas, avaliar meus clássicos é uma chance de rever e redescobrir obras fantásticas (ler aqui). A sensação do diferente e do novo foi a mesma tanto ao reler o romance Memórias sentimentais de João Miramar, como agora na releitura do livro Pau-Brasil, ambos de Oswaldo de Andrade.

Tudo é muito diferente na linguagem do escritor modernista. Alguns poemas do livro são deliciosos, são como imagens passando pela janela de um trem em movimento.

"PAISAGEM

Na atmosfera violeta
A madrugada desbota
Uma pirâmide quebra o horizonte
Torres espirram do chão ainda escuro
Pontes trazem nos pulsos rios bramindo
Entre fogos
Tudo novo se desencapotando
"


Adorei o "Pontes trazem nos pulsos rios bramindo"! A imagem é maravilhosa, senti até o friozinho de passar por pontes nos baixios das estradas pela madrugada. Só quem faz romaria como faço há décadas para saber o que são rios bramindo no frio das pontes.

O livro tem alguns poemas clássicos e de maior conhecimento popular como esse:

"PRONOMINAIS

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
"


Tão nosso, tão brasileiro!

Enfim, ler obras clássicas da literatura brasileira e mundial fez com que minha visão de mundo e minha perspectiva a respeito da alteridade se expandisse ao longo da idade adulta e de vida proletária. 

Muitas referências de autores e de obras importantes adquiri ao entrar no universo das letras na Universidade de São Paulo. As disciplinas e as aulas com os professores de lá são verdadeiros roteiros literários e culturais. Algo que deveria ser de acesso a todas as pessoas do mundo.

É isso! Leiam os clássicos!

William


Bibliografia:

ANDRADE, Oswald de. Pau-Brasil. 8ª ed. - São Paulo: Globo, 2002. (Obras completas de Oswald de Andrade)


segunda-feira, 12 de abril de 2021

Livro: Memórias sentimentais de João Miramar - Oswald de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos

Sigo na avaliação e contagem dos clássicos da literatura mundial que já tive o privilégio de ler. Ter contato com textos referenciais e ler os grandes autores e suas obras é um desejo antigo, desde que era adolescente e trabalhador braçal. Entre os best sellers que li naquela época, acertei na escolha de algumas obras importantes...

Ainda na adolescência fiz uma daquelas listas de metas na vida e um dos itens da lista era ler ao menos cem clássicos. O tempo passou e pouca coisa pude ler nessas décadas de vida, pouca coisa se for comparar minhas leituras de proletário com as leituras dos grandes leitores, esses eruditos que são enciclopédias ambulantes.

O interessante neste trabalho de avaliar minhas experiências com os clássicos é poder aproveitar a oportunidade para revisitar a obra, o autor, o momento de surgimento do texto e suas ideias, o contexto histórico da obra e que tais. Tenho duas referências no assunto clássicos e leituras: Italo Calvino e sua obra Por que ler os clássicos (2007) e Alberto Manguel e sua fantástica obra Uma história da leitura (1997).

Olhando na estante de casa, vi lá 4 livros do intelectual modernista Oswald de Andrade. Soube a respeito dele basicamente na ocasião em que comecei a fazer faculdade de Letras na Universidade de São Paulo, em 2001. Achei muito legal estudar as vanguardas e o Modernismo Brasileiro e assistir às aulas do professor José Miguel Wisnik. Foi uma honra para o estudante aqui manter o contato com a sabedoria do Wisnik por um semestre.

Em 2002 li 3 vezes o livro, para ter uma compreensão melhor do romance. João Miramar é um típico representante da casa-grande paulistana. Foi interessante reler o clássico agora aos 52 anos de idade. Tudo muda com o passar do tempo, mas a elite paulistana continua a mesma merda!

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O romance é composto por 163 fragmentos, como se fossem cenas de um filme. O autor usa poucos verbos e as frases são construídas com sequências de substantivos e adjetivos. E tem também muito neologismo, muita invenção de palavras.

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"42. SORRENTO

Velhas velas cigarras

Brumais no mar vesuviano

Com jardins lagartixos e douradas mulheres..." (p. 57)

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"48. CHUVA DE PEDRA

     Estiadas amáveis iluminavam instantes de céus sobre ruas molhadas de pipilos nos arbustos dos squares. Mas a abóbada de garoa desabava os quarteirões.

     E um dia o dinheiro chegou demais dentro dum telegrama com resposta paga de minha rápida volta." (p. 60)

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"132. OBJETO DIRETO

     Ao longo do longo Viaduto bandos de bondes iam para as bandas da Avenida.

     O poente secava nuvens no céu mal lavado.

     No Triângulo começado de luz bulhenta antes da perdida ocasião de ir para casa entramos numa casa de joias." (p. 91)

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"146. VERBO CRACKAR

Eu empobreço de repente

Tu enriqueces por minha causa

Ele azula para o sertão

Nós entramos em concordata

Vós protestais por preferência

Eles escafedem a massa

                              Sê pirata

                              Sede trouxas

Abrindo o pala

Pessoal sarado.

Oxalá que eu tivesse sabido que esse verbo era irregular." (p. 97/98)

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Mais um clássico da literatura a contar nas minhas leituras e na busca por conhecimento.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Oswaldo de. Memórias sentimentais de João Miramar. 13ª edição - São Paulo: Globo, 2001.


domingo, 4 de abril de 2021

Livro: Raízes do Brasil - Sérgio B. de Holanda



Refeição Cultural - Cem clássicos

Acabei de reler esse clássico de Sérgio Buarque de Holanda - Raízes do Brasil, de 1936. Estou num período de reflexões sobre a vida e a sociedade humana, mais especificamente sobre o percurso de minha vida e a sociedade brasileira. O livro de Holanda é muito bom para esse tipo de reflexão.

A primeira leitura de Raízes do Brasil foi num momento muito diverso de minha vida e da vida nacional em relação a atualidade. Eu estava em busca de conhecimentos gerais para ser um bom secretário de formação da Confederação dos Bancários e o Brasil vivia o melhor momento político, econômico e social de sua história, a transição do 2º governo Lula para o início do governo Dilma, do Partido dos Trabalhadores (que seria eleita no final daquele ano). 

O povo jamais seria tão feliz como naquele período. Os direitos sociais aumentavam, havia mais oportunidades na educação em todos os níveis, os salários tinham aumentos reais todos os anos, tinham programas como PAC, Mais Médicos, o povo ia para a Disneylândia e tudo quanto era lugar, os aeroportos viviam abarrotados de gente do povo.

A segunda leitura se dá no pior momento da história do Brasil e do povo brasileiro. O país sofreu um golpe de Estado em 2016 para retirar o PT do governo, porque tudo indicava que o PT seria reeleito mais vezes para governar o Brasil. O golpe foi articulado com o Império do Norte, com as elites canalhas e lesas-pátrias do país e culminou na chegada ao poder de um clã de milicianos e a parte mais vil da sociedade se sente representada: temos agora a banalidade do mal. 

Hoje, o Brasil tem na pandemia mundial de Covid-19 uma ferramenta de poder do regime fascista e genocida e já morreram mais de 320 mil pessoas. Não temos vacinas suficientes para toda a população porque o governo não quis adquiri-las (apostou em contaminar todo mundo para uma suposta imunização de rebanho, arcando com as mortes que viriam disso); não temos emprego decente nem oportunidades de trabalho para as pessoas; não temos direitos sociais - foram destruídos com Temer e Bolsonaro e seus apoiadores do golpe que estão dentro das instituições do Estado; não temos um governo para o povo.

Foi nesse cenário que reli Raízes do Brasil e achei que o ensaio de Holanda explica muita coisa. Ao reler as postagens da primeira leitura, vi o quanto eu era espontâneo ao querer compartilhar conhecimento na época que criei o blog - o blog tem centenas de postagens que deram muito trabalho para serem feitas. As postagens sobre este livro de Holanda ficaram muito interessantes, foram postadas entre novembro de 2009 e junho de 2010.

As postagens com referência ao pensador Sérgio Buarque de Holanda estão aqui, inclusive todas referentes ao livro em questão. O blog é mais interativo e melhor visualizado para se pesquisar os mais de 2 mil textos através de telas de computadores e notebooks, ipads e demais telas grandes, de maneira que se possa ver as categorizações e históricos de publicações por data ou por ordem alfabética das categorias.

Mais um clássico contabilizado. Estou verificando quais clássicos já li e avaliando a fila dos clássicos a serem lidos, caso siga sobrevivendo às mortes severinas que nos cercam no Brasil do ódio, da ignorância terraplanista, do fanatismo imbecil e estúpido dos pastores exploradores e manipuladores da fé das pessoas e no país destruído pela elite mais canalha e abjeta do planeta.

William

04/04/21

quarta-feira, 31 de março de 2021

Livro: A guerra dos mundos - H. G. Wells



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Talvez no plano maior do universo, essa invasão marciana tenha trazido um benefício para a humanidade. Livrou-nos da serena confiança no futuro que é a mais pródiga fonte de decadência, trouxe enormes contribuições para a ciência humana e colaborou muito para promover o conceito de bem comum da humanidade." (WELLS, 2016, p. 299)


Ao reler uma postagem dos primeiros anos deste blog, vi nela a referência a diversos autores dos quais ainda não havia lido nenhuma obra. Era uma postagem sobre lacunas culturais. Eu falava sobre os autores que o jovem Chris McCandless gostava. Chris se fez Alex Supertramp e se embrenhou no Alasca após dois anos perambulando por áreas inóspitas dos Estados Unidos. Ler postagem aqui.

Nosso super andarilho citou Dickens, H. G. Wells, Mark Twain, Jack London, H. D. Thoreau e Melville. E também Guerra e Paz, de Tolstói. Grandes lacunas culturais para mim. De lá para cá, tive a felicidade de conhecer uma obra importante de Wells, A guerra dos mundos (1898). E agora estou, finalmente, lendo Herman Melville, Moby Dick (1851).

Nesta manhã de quarta-feira, 31 de março, reli os últimos 3 capítulos do livro de H. G. Wells, clássico que havia lido em 2017. Li também o prefácio de minha edição, texto de Braulio Tavares. Na época da leitura, fiz postagem no blog (ler aqui).

O livro é interessantíssimo. A vontade que temos é de iniciar a releitura inteira na hora, mas não dá porque temos lacunas culturais a superar (rsrs). Também fica o desejo de ler outras obras de H. G. Wells.

Alex Supertramp, estou no caminho das leituras, já sou um cinquentão e não li diversos daqueles autores que você lia e gostava, mas posso dizer sem receio: você tinha um tremendo bom gosto literário!

O livro de Wells é muito metafórico. Estamos sob uma pandemia mundial de ignorância - terraplanismo, fake news e bolsonarismo no Brasil - vivemos uma verdadeira guerra dos mundos, guerra entre a razão e a ignorância, guerra entre a civilização e a barbárie. 

Na ficção de Wells temos os marcianos, nós e o Outro na disputa pelo espaço vital. Temos as bactérias. Na vida real temos os vírus como o novo coronavírus disputando conosco o espaço vital.

É uma ficção que nos coloca a pensar. Como a reflexão que citei acima - "promover o conceito de bem comum da humanidade" -, nossa chance enquanto seres humanos está em nos unirmos para promover o bem comum, derrotando o capitalismo que destrói a vida na terra, derrotando o mal representado por figuras como, por exemplo, aquele ser abjeto que governa o Brasil neste momento.

Seguimos lendo os clássicos.

William


Bibliografia:

WELLS, H. G. A guerra dos mundos. Tradução de Thelma Médici Nóbrega. 1ª ed. - Rio de Janeiro: Suma de Letras, 2016.


sábado, 27 de março de 2021

Livro: Querô (uma reportagem maldita) - Plínio Marcos



Refeição Cultural

"Raiva é um negócio que ninguém pode tirar da gente. Só podem dar mais." (p. 30)

"Fui sem estrilar. Mas não foi fácil. Acho que nunca tinham limpado aquelas privadas antes. Se alguém fosse cagar nelas, ia sair cagado. Mas eu não dizia porra nenhuma..." (p. 32)

"Até pensava em dar um capricho em mim, pra ela me ver bem vestido. Parei de pensar tanto em arrumar um revólver, pra pensar em roupa. Era do caralho curtir aquela menina, a tal da Lica." (p. 48)

"E viu que eu estava mal. Me fez chá, café, me deu comida. Mas tudo que eu botava pra dentro, as tripas botavam pra fora. Era a porra do medo. Medo ferve as tripas." (p. 65)


Entre ontem e hoje, sábado 27 de março, reli o livro de Plínio Marcos, Querô, obra de 1976. A história de Querô é um soco no estômago de todos nós, é a história de nosso ontem, de hoje, e, infelizmente, de amanhã.

Jerônimo da Piedade, o Querosene, o Querô. Filho da prostituta Alzira da Piedade e sem pai. Crescido no prostíbulo, criado pela cafetina Violeta, e depois nas ruas, e depois recolhido em uma prisão de menores, e depois nas ruas. Querô.

Enquanto lia a história de Querô, via flashs do passado, instantes da minha vida ao longo de décadas. Não via só minha vida, via a vida dos querôs ao meu redor. O tempo inteiro pensava nos querôs espalhados por cada canto desta terra tão fecunda e tão miserável: Brasil.

O acaso me fez um sortudo. Não fui um Querô. Comecei com sorte, sendo filho da Dirce e do Gercir. Mas muitos de nós poderiam ter tido o mesmo percurso de Jerônimo da Piedade. 

A miséria e a pobreza de um país como o Brasil são contagiantes, encurralam a todos nós, nos põem todos em guerra: pobre contra pobre, miserável contra miserável.

(15h27 - interrompo a confecção da postagem... soube neste minuto de mais uma vítima da Covid-19, agora um amigo aqui do condomínio. Mais uma vítima do genocídio. Tantos anos juntos aqui onde moramos, reuniões, confraternizações (Sr. Epaminondas, presente!). Mais uma morte severina, morte matada pelo regime genocida... paro para respirar...)

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As narrativas de Querô me fizeram lembrar de coisas muito duras na vida. 

Baratas. Me lembrei muito de baratas. As baratas foram um verdadeiro tormento na minha vida. As baratas nas diversas residências nas quais vivi. Aquele monstro. Tive azar com baratas ao longo da vida humilde que tive, com a família e depois sozinho. Amassar barata na cara (foi difícil superar isso). Amassar barata na botina... casas onde precisei combater colônias de baratas. Jogava inseticida e matava dezenas delas. Numa casa de fundo de quintal onde morei, na entrada de uma favela e em frente a um córrego sujo, tinha um banheiro comunitário no qual as baratas saíam do ralo enquanto se tomava banho... cara, era foda! Muitas casas com baratas tive nas veredas de minha vida.

Merda. Trabalhei de ajudante de encanador antes dos 17 anos de idade. Quebrar concreto, paredes, passar canos de esgoto. Certa vez, tive que tirar o vaso sanitário e os canos de uma casa em reforma. Tive a experiência de ter que mexer na merda dos outros. Obras novas eram melhores por não ter encanamento usado. É um serviço difícil. A sociedade deveria valorizar, respeitar e remunerar adequadamente os serviços braçais que as maiorias jamais gostariam de fazer.

Ler a história de Querô me fez pensar muito no momento em que estamos no Brasil: pandemia de coronavírus e sob o comando do crime organizado - bandidos endinheirados, gente má e gente com desvios mentais no poder, psicopatas. Desemprego em massa após a destruição do país pela Lava Jato e pelo golpe de 2016 (em 2014 vivíamos a experiência do pleno emprego e as pessoas escolhiam onde trabalhar). Mais de 300 mil mortos oficialmente por Covid-19, sem oxigênio, sem atendimento médico. Sem vacinas para todos. Provavelmente, o mesmo número de mortos por mortes severinas, pela miséria, pelo trabalho intermitente sem direitos, pelo não atendimento médico de urgência.

Querô. Não fui órfão como Querô. Não tive o mesmo fim de Querô por diversas casualidades aparecidas nas veredas da vida neste sertão brasileiro. Tive pais. Tive amigos. Tive amores. Tive sorte. Tive companheiros do movimento sindical e político que me mostraram o caminho da consciência política. Tive empenho sim, mas não foi por meritocracia que vivi até aqui, foi pela solidariedade da vida em sociedade, foi por oportunidades surgidas a partir de movimentos externos a mim. Tudo que nós da classe trabalhadora somos e temos, nós excluídos da casa-grande, que não nascemos naqueles berços, tudo que temos é fruto das lutas sociais coletivas.

Chega. Reflexão feita a partir da obra de Plínio Marcos. Vivendo sob o país dos bolsonaros, de moros e dalagnois e sua multidão de apoiadores dementes, canalhas e trogloditas.

Essa gente vai passar, vai cair, vai encontrar o fim.

William


Post Scriptum (13/12/22): assisti na Netflix ao filme Querô (2007), direção de Carlos Cortez, com Maxwell Nascimento no papel principal. Gostei da adaptação da obra de Plínio Marcos.


Bibliografia:

MARCOS, Plínio. Querô (uma reportagem maldita). São Paulo: Publisher Brasil, 1999.


terça-feira, 16 de março de 2021

Livro: O Pequeno Príncipe - Saint-Exupéry



Refeição Cultural - Cem clássicos

Estamos vivendo tempos difíceis, tempos de pandemia, tempos de bolsonarismo no Brasil, regime da morte que a história classificará no futuro como classificou os regimes fascistas e nazista da primeira metade do século XX.

Nesta segunda-feira, 15 de março, acabei relendo O Pequeno Príncipe, do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, livro de 1943. Foi uma leitura por acaso, mas já que estou contando meus clássicos, lá vai a postagem pra contar mais uma obra lida.

Meu blog é um diário aberto, começou com intenções bem legais de compartilhamento de conhecimentos - What I Know Is (wiki) -, lá na época do nascimento da Wikipedia, e a vida foi caminhando e o mundo mudando. 

Fui blogueiro quando fui estudante de Letras, fui blogueiro quando fui dirigente sindical e diretor de entidade de saúde, em mandatos de representação. Tudo isso passou. O blog seguiu. Agora sou blogueiro, um cidadão do planeta terra. Não poderia dizer que sou escritor. Menos, né! Será que posso dizer que sou "blogueiro"? "O que você faz? Sou blogueiro..." (não sei, mas é tão ruim não ser nada...)

Enfim, acordei nesta terça 16 pensando nisso (por que ainda escrevo no blog? Acho que é porque é horrível não ser nada). 

Ontem, não pude sair para correr no fim da noite porque começou o horário com restrições de circulação a partir das 20h (a pandemia está mortal demais!) e eu vinha correndo depois desse horário. Aí peguei O Pequeno Príncipe, que estava de bobeira sobre o móvel, pois minha esposa acabara de colocar uma capa de plástico na velha edição. É uma leitura que sempre emociona... você é responsável por aquilo que cativas...

A edição que li é de 1974, com ilustrações originais em aquarelas do próprio autor e com tradução de Marcos Barbosa.

A outra edição que li e fiz postagem foi uma edição em inglês. A postagem de 2011 pode ser lida aqui. Nela estão diversas citações e passagens interessantes da obra clássica. A leitura de ontem foi mais descompromissada.

Li dois livros em dois dias, no domingo e na segunda. No domingo li um belo romance de Conceição Evaristo, Becos da Memória (ler aqui). Essas leituras foram feitas no intervalo de uma leitura clássica de maior fôlego que comecei na semana passada, Moby Dick. Voltarei agora para Melville.

Vamos vivendo. Vamos lendo. O ser humano mudou após o advento das redes sociais e das tecnologias da informação e da comunicação. Já não nos bastamos, agora só achamos que valemos alguma coisa se somos reconhecidos pelo mundo externo a nós mesmos. A gente escreve por causa dessa coisa que viramos.

William


segunda-feira, 15 de março de 2021

Livro: Becos da Memória - Conceição Evaristo



Refeição Cultural

INTRODUÇÃO

Estamos no mês de março. Estamos no Brasil de regime neofascista e genocida em consequência de um golpe de Estado ocorrido em 2016 - desta vez colocaram no poder os maiores corruptos e lesas-pátrias jamais colocados no poder somando todos os golpes brasileiros. O Brasil é o epicentro da pandemia mundial de Covid-19 e o regime no poder é o maior parceiro do vírus Sars-Cov-2. Brasil e brasileiros, párias do mundo!

Estamos em um dos países mais racistas do mundo, país onde a escravidão humana permanece até hoje, de forma disfarçada desde 13 de maio de 1888, quando deram uma canetada jogando na miséria milhões de pessoas de pele preta para que morressem de fome sem pão, sem terra, sem trabalho. País com 5 séculos de escravidão. País que mais mata negros no mundo, de morte matada e de morte morrida (matada também, sem direitos de cidadania).

Neste domingo, 14 de março de 2021, completaram-se 3 anos do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, metralhados por milicianos do Rio de Janeiro, a mando de alguém ainda não revelado pelas autoridades. O Brasil não é para amadores. As forças políticas que organizaram o golpe e a destruição do país estão no poder, infiltradas em todas as instituições da sociedade através de seus representantes, serventes, lacaios e capitães do mato modernos. 

(Sabem quem foi solto neste 14 de março, dia do assassinato de Marielle Franco? O deputado troglodita e fascista que se elegeu às custas de quebrar uma placa em homenagem à Marielle... ele estava preso por ameaçar autoridades e neste domingo foi para prisão domiciliar... esse é o Brasil: solto no dia da morte de Marielle!)

BECOS DA MEMÓRIA

"Escrevo como uma homenagem póstuma à Vó Rita, que dormia embolada com ela, a ela que nunca consegui ver plenamente, aos bêbados, às putas, aos malandros, às crianças vadias que habitam os becos de minha memória. Homenagem póstuma às lavadeiras que madrugavam os varais com roupas ao sol. Às pernas cansadas, suadas, negras, aloiradas de poeira do campo aberto onde aconteciam os festivais de bola da favela..." (p. 17)

A "introdução" no início da postagem é a descrição do contexto em que peguei para ler neste domingo pela manhã o livro Becos da Memória, da escritora Conceição Evaristo, livro escrito por ela nos anos oitenta e publicado em 2006 e depois republicado em outras edições - a minha é de 2017 pela Pallas Editora. É o 3º livro que tenho o privilégio de ler desta intelectual mineira, mulher negra e com uma escrita que nos toca profundamente e nos põe a pensar a vida e o mundo após cada leitura sua. (ler aqui sobre Ponciá Vicêncio e aqui sobre Olhos D'Água)

Amig@s, passei o dia de domingo na companhia das personagens do livro Becos da Memória. Foi inevitável passar o dia revirando os becos de minha memória. Lia Evaristo e via o bairro Marta Helena, onde cresci em Uberlândia, Minas Gerais. Lia Evaristo e visitava as diversas casinhas onde moramos, onde morei (em MG e em SP). Lia Evaristo e via a condição da gente pobre, favelada, da gente preta, da gente miscigenada de peles multicores, mas com cabelo "ruim", como ensinam os brancos que cultuam os preconceitos.

Li Evaristo e passei o dia visitando os becos de minha memória... eu tenho pele branca, tenho irmã preta, tenho família de pele multicor. Família de cabelo "ruim". Todos viemos da pobreza descrita na obra de Evaristo, que aborda o mundo miserável e as condições injustas e absurdas da gente de pele preta escravizada e depois "libertada" na condição de morte sem pão, sem terra, sem trabalho, como os ascendentes da personagem Maria-Nova.

Evaristo nos conta, na edição que tenho, um pouco da história e da gênese do romance. É bem interessante.

"Foi o meu primeiro experimento em construir um texto ficcional con(fundindo) escrita e vida, ou, melhor dizendo, escrita e vivência. Talvez na escrita de Becos, mesmo que de modo quase que inconsciente, eu já buscasse construir uma forma de escrevivência."

GÊNESE: "Em poucos meses, minha memória ficcionalizou lembranças e esquecimentos de experiências que minha família e eu tínhamos vivido, um dia. Tenho dito que Becos da memória é uma criação que pode ser lida como ficções da memória. E, como a memória esquece, surge a necessidade de invenção."

NADA É VERDADE, NADA É MENTIRA: "Entre o acontecimento e a narração do fato, há um espaço em profundidade, é ali que explode a invenção. Nesse sentido venho afirmando: nada que está narrado em Becos da memória é verdade, nada que está narrado em Becos da memória é mentira. Ali busquei escrever a ficção como se estivesse escrevendo a realidade vivida, a verdade."

BANZO: "Na roça, às vezes, meu pai contava histórias e dizia sempre de uma dor estranha, que nos dias de muito sol, apertava o peito dele. Uma dor que era eterna como Deus e como o sofrimento.

     "Totó entendia, era menino, mas, de vez em quando, sentia aquela punhalada no peito. Uma dor aguda, fria, que sem querer fazia com que ele soltasse fundos suspiros. O pai de Totó chamava aquela dor de banzo." (p. 19/20)

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BANZO... uma dor no peito que podemos muito bem nominar a dor que sentimos desde o golpe de Estado no Brasil, desde aquela sessão do congresso em que o lixo fascista falou de Ustra... aquela dor que passamos a sentir no peito ao ver as ofensas a Dilma, ao ver a prisão injusta de Lula, ao ver as 270 mil mortes por Covid-19 por culpa do regime fascista, a dor no peito a cada absurdo, a cada perda, a cada humilhação que sofremos como brasileiros por sermos do país dos bolsonaros. Banzo...

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Amig@s leitores, leitura profunda! Passei o domingo visitando os becos da memória...

- Marielle vive porque seus ideais são os nossos ideais!

William


Bibliografia:

EVARISTO, Conceição. Becos da Memória. 1. ed. - Rio de Janeiro: Pallas, 2017.


domingo, 28 de fevereiro de 2021

Livro: O chefão - Mario Puzo



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual." (CALVINO, 2000, p. 10/11)


Eu li O chefão (1969), de Mario Puzo, ainda na adolescência. Pela lembrança que tento puxar da memória, li o livro antes dos 17 anos porque acho que a leitura foi anterior a minha volta para São Paulo, depois de morar muitos anos em Uberlândia. Se não me engano, a edição que tenho foi a que li, quando meu primo Jorge Luiz me emprestou na época. Estou com ela porque ele deu seus livros e ganhei alguns deles faz alguns anos.

Peguei o livro para reler no dia 8 de fevereiro desta época pandêmica e de sobrevivência humana sob o poder das máfias no Estado brasileiro. Meu filho estava assistindo aos filmes baseados na obra de Mario Puzo e ao comentarmos a respeito da estória, disse a ele que havia lido o livro na adolescência. Como fiquei interessado em ver os 3 filmes dirigidos por Francis Ford Coppola, pensei comigo: "- Por que não reler antes o livro?". E assim, peguei pra ler o bichão.

O livro é um catatau, é um texto grande. Achei que seria uma leitura rápida, mas não foi. A edição que tenho está dividida em 9 livros. Após ralar na leitura, ainda faltam 100 páginas para acabar. Mas adianto que foi muito bom reler esse clássico da literatura mundial. No livro VI, que retrata o tempo que Michael Corleone passou na Sicília, revi aquela cena que achei interessante o filme ser fiel ao livro, o fato de o personagem ficar com o nariz escorrendo desde que levou o soco que lhe quebrou a mandíbula e lhe deformou o rosto.

Ao reler décadas depois a ficção de Puzo sobre a máfia, estando vivendo sob o domínio da máfia no país em que moro, vemos o quanto é interessante um dos conceitos que Calvino sugere sobre os clássicos (citado acima). Quando adolescente, eu vivia num bairro dominado pela Falange e se não fôssemos "amigos" dos caras, não vivíamos no bairro. O livro sobre a máfia retrata isso. E agora vivemos sob o domínio da máfia em escala gigantesca, nacional. Eu sou outro, o mundo é outro, mas a ficção segue atual. Pobres daquelas e daqueles que hoje não são amigos dos bandidos de colarinho branco no poder.

Tenho que intercalar livros novos com livros a reler, como diz Calvino: "Por isso, deveria existir um tempo na vida adulta a revisitar as leituras mais importantes da juventude. Se os livros permaneceram os mesmos (mas também eles mudam, à luz de uma perspectiva histórica diferente), nós com certeza mudamos, e o encontro é um acontecimento totalmente novo." (p. 11)

A leitura está em andamento, e a postagem também. O blog é um espaço vivo e mutante. Vamos terminar as 100 páginas e vamos assistir aos 3 filmes de Coppola.

Por enquanto é isso. Volto à postagem depois. (28/2/21)

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Fim da leitura do livro em 2/3/21.


COMENTÁRIO PÓS LEITURA

A leitura não foi difícil. Puzo utiliza linguagem cotidiana no texto. O livro contém todos os preconceitos inerentes ao seu tempo, racismo e sexismo são constantes e nos incomodam ao ler a estória. A narrativa sobre o poder das máfias na constituição da sociedade norte-americana é muito bem construída. A trama se passa durante a primeira metade do século XX, indo e voltando ao início do século e ao momento pós 2ª GM.

As famílias dos mafiosos resolvem as coisas comprando autoridades, colocando elas em suas folhas de pagamento, ou simplesmente matando as pessoas que atravessam seus caminhos. Don Vito Corleone, o padrinho, utiliza um sistema baseado em fazer um favor para quem lhe pede algo e a pessoa fica lhe devendo uma. Um dia a pessoa terá que lhe pagar o favor. Don Corleone chama a isso de "amizade", ele é amigo dessas pessoas que lhe devem algum favor. A ficção é atemporal, basta vermos a realidade do país onde vivo, o Brasil, ou a Colômbia, por exemplo.

É isso! Essa ficção nos lembra que sem instituições que funcionem corretamente no Estado, na sociedade onde vivemos, estamos sós, estamos por nossa conta. O Brasil pós-golpe de Estado em 2016 está assim. A máfia e as milícias tomaram o poder e a insegurança e o risco de morte e perseguição se tornaram a nossa realidade.

Triste isso! Viver sob o domínio das máfias.

William


Bibliografia:

CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.


sábado, 20 de fevereiro de 2021

Livro: Madame Bovary - Gustave Flaubert



Refeição Cultural - Cem clássicos

(postagem durante a leitura da obra. Atenção: contém spoiler)

Madame Bovary é um clássico da literatura francesa e mundial. O livro foi lançado entre 1856 e 1857, primeiro em folhetins (Revue de Paris) e depois em forma de livro. Gustave Flaubert foi um grande escritor do século XIX.

Essa é uma daquelas estórias da literatura clássica que virou referência mundial e mais de um século e meio depois de seu lançamento ela traz um desafio extra ao leitor que se dispuser a lê-la: todos nós conhecemos o enredo e não há segredo quanto ao seu final - um caso de adultério que termina com o suicídio da personagem.

Talvez esse seja o motivo - sabermos o enredo - por eu já levar algumas décadas (rsrs) sem terminar a leitura. Dureza, viu! Eu tenho uma edição dos anos oitenta, daquelas coleções de clássicos da Abril S.A., com tradução de Araújo Nabuco.

Já cheguei a ler até a página cem. Tenho marcações no livro que vão desde 2003 até recentemente, quando li algumas dezenas de páginas em 2020. Em 2009 foi quando cheguei mais longe na leitura. Enfim, neste momento em que organizo a postagem, talvez eu tome vergonha na cara e decida ler a obra até o fim.

Os tempos são de pandemia mundial, de riscos de morte maiores que outras épocas... seria uma merda morrer sem ter lido um clássico como esse!

PRIMEIRA PARTE

Acabei de reler pela enésima vez o 1º capítulo. Ele traz a origem de Carlos Bovary, futuro marido de Ema Rouault (Bovary). A forma como Flaubert descreve espaços e personagens é de primeiríssima qualidade, isso é inegável.

Após a apresentação de Carlos e sua família, o capítulo 2 se desenvolve com sumários que aceleram bastante o tempo. Carlos se forma médico, tem um casamento arranjado com uma viúva - Heloísa, senhora de 45 anos - por questões de independência financeira do rapaz (dote da noiva). Ele conhece o pai de Ema durante um atendimento médico e passa a frequentar a casa dos Rouault. Heloísa morre e deixa Carlos viúvo e pobre, pois a riqueza dela era um engodo. (leitura na sexta, dia 19/2/21)

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Numa revisão rápida, para relembrar a estória, cheguei ao fim da primeira parte, contendo 9 capítulos. No 3º, Carlos acerta o casamento com Ema Houault. No 4º, é a festa do casório, a Sra. Bovary, mãe de Carlos, não recebe a atenção adequada do filho. No 5º, Flaubert nos apresenta uma Ema que compara sua vida a livros de romance. Conhecemos o passado de Ema num convento, no capítulo 6. Ela não se adequou à vida monástica. No 7º, vemos que Ema se enche da modorra da vida conjugal e reclama do marido, que acha um banana. No 8º, quando voltam de um passeio, Ema demite a criada dos Bovary, uma senhora muito antiga na casa. A primeira parte se encerra com o casal mudando de Tostes, por causa dos incômodos de Ema. Carlos estava bem estabelecido no trabalho e vai ter que recomeçar em outro lugar. Ema está grávida. (ainda sexta, 19/2/21)

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SEGUNDA PARTE

A segunda parte contém 15 capítulos. Entre a noite de sexta 19 e sábado 20, li até o capítulo 8. Mas cansei, não deu pra ler o quanto imaginei.

O casal agora vive em Yonville-l'Abbaye, "um burgo a 8 léguas de Ruão, entre a estrada de Abbeville e a de Beauvais, ao fundo de um vale atravessado pelo Rieule, pequeno rio que deságua no Andelle" nos informa o narrador.

Dois personagens se incorporam ao romance, o farmacêutico Homais e o abade Bournisien. Eles vão morar provisoriamente na estalagem da viúva Lefrançois. No capítulo 2, o farmacêutico deixa à disposição de Ema sua biblioteca. Essa informação é importante porque o romance explora essa questão: a influência dos romances na personalidade "vaporosa" de Ema.

A biblioteca tem "Voltaire, Rousseau, Delille, Walter Scott, o Eco dos folhetins, etc.".

O autor constrói uma personagem que tem espírito inquieto, insatisfeito com o que tem. Temos que ler a obra lembrando de quando ela é: meados do século XIX, na França da sociedade burguesa.

Nos capítulos 3 e 4 nasce a filha do casal, Berta. Ema se enamora do jovem Léon, que também reside na estalagem da viúva Lefrançois. O narrador cita várias vezes o quanto Ema tem desprezo por seu marido, Carlos. 

No capítulo 6, Ema visita a igreja local e o abade está ocupado com o catecismo das crianças. Ema estava indecisa sobre o que fazer, mas não encontrou apoio no cura local para evitar uma eventual decisão pelo adultério. Léon, seu amor, vai embora e ela não realiza seu desejo de amor com o jovem.

Vejam o que Ema pensa sobre Berta, sua filha:

"- Que coisa estranha - pensava Ema. - Como é feia esta criança!"

No capítulo 7 aparece um novo conquistador, Rodolfo Boulanger. Ele de cara diz que vai conquistar Ema, só para viver uma aventura no local.

Parei a leitura após o capítulo 8, quando já vemos Ema e Rodolfo enamorados e andando juntos durante o dia de comícios da região. 

ILUSÃO DE SIMULTANEIDADE - O capítulo tem uma técnica narrativa refinada, estudei sobre isso recentemente no livro O tempo na narrativa, de Benedito Nunes. Flaubert desenvolve uma técnica que nos permite ver e acompanhar ao mesmo tempo o casal Ema e Rodolfo conversando e pessoas discursando no comício agrícola de Yonville. Bem legal!

Parei a leitura do romance, li bastante no dia 20/2/21, sábado. Próxima etapa é acabar a segunda parte do livro, são mais 50 páginas e 7 capítulos.

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Leitura do domingo, 21/2/21

O capítulo 9 começa com um sumário que acelera o tempo após a cena anterior, com o dia do comício agrícola de Yonville: "Seis semanas se passaram". 

O marido de Ema, Carlos, praticamente oferece a esposa ao amante, ao sugerir que ela ande de cavalos com Rodolfo Boulanger. Eles passam a ter um caso e Ema faz loucuras bem ousadas para a época.

No capítulo 10 o romance esfria porque Rodolfo está meio sufocado pela amante e Ema reflete com mea culpa que poderia amar seu marido. No 11, Carlos vive uma crise imensa ao fazer uma cirurgia desnecessária num rapaz com deficiência no pé. Por um instante, Ema esteve orgulhosa do marido (achou que ele seria rico e famoso), mas voltou a odiá-lo e voltou ao amante também.

Ema e Rodolfo planejam fugir no capítulo 12. Acontece o previsível desse tipo de romance: o amante foge sozinho no cap. 13 e Ema cai doente. No capítulo seguinte (14), a vida aos poucos retoma a rotina sem o amante. Os Bovary estão endividados. Ema se esforça para se reconciliar com o marido. A segunda parte termina com o casal reencontrando o jovem Léon em um teatro, ele foi o primeiro affair de Ema.

Ufa! Só acabei no final do domingo as 50 páginas. Vamos agora para a terceira e última parte do romance, são mais 75 páginas e 11 capítulos. Acho que lerei em duas vezes.

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TERCEIRA PARTE

(em leitura)

07/3/21, domingo.

Terminei a leitura do livro no sábado 6. Eu parei a leitura para ler outro livro clássico, O chefão, de Mario Puzo. Li um livro de quase 500 páginas para retomar e terminar Madame Bovary

A terceira e última parte do livro foi surpreendente, mesmo sabendo o que aconteceria com a personagem principal, Ema Bovary. Lembro aqui um conceito de Italo Calvino sobre os clássicos, que mesmo quando não lemos os clássicos, sabemos a respeito deles por causa das leituras coletivas ao longo da história.

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"Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura" (Italo Calvino)

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TERCEIRA PARTE

"Ema era a apaixonada de todos os romances, a heroína de todos os dramas, a vaga 'ela' de todos os volumes de versos." (Cap. 5, p. 198)

Ema retoma contato com o jovem Léon no capítulo 1, ele se declara a ela. Assim como ocorreu no affair entre ela e Rodolfo, Ema buscou algum auxílio na igreja antes do novo romance, mas não encontrou respostas ali.

Entre os capítulos 2 e 4 Ema e Léon encontram a plena felicidade conjugal.

O capítulo 5 é memorável. O narrador descreve o cotidiano das gentes, o transporte diário das pessoas da roça até a cidade através de um carro com alguns cavalos: a "Andorinha", conduzida por um cocheiro. Depois descreve a cidade de Ruão com chaminés de fábricas, igrejas e casas, local de 120 mil pessoas.

Este capítulo é muito importante na estória. Ema está se endividando e colocando a segurança financeira da família em ruína. O próprio amante Léon percebe que ela não é satisfeita com nada, tudo é insuficiente.

No capítulo 6, Ema pressiona o amante em quase tudo e Léon se sente sufocado pelo amor dela. As dívidas se avolumam e os Bovary têm bens penhorados. A mãe do jovem Léon o obriga a deixar Ema.

Flaubert denuncia a mentalidade burguesa da época no capítulo 7. O farmacêutico Homais é um típico personagem que representa os ideais e a hipocrisia burguesa.

Ema tenta conseguir empréstimos com alguns burgueses locais e tem uma cena humilhante de um deles ceando enquanto Ema, em pé e frente a ele na sala de jantar, pede ajuda e o cara tenta comprá-la sexualmente.

O romance se encaminha para o fim trágico nos últimos capítulos. Ema reencontra o primeiro amante que lhe nega ajuda financeira. O narrador faz descrições cruéis da personagem "adúltera". Há uma sequência de óbitos na estória, mais do que eu imaginava.

Interessante! Mesmo sabendo sobre Ema Bovary através da história da obra, me surpreendi com os detalhes e com os acontecimentos finais do romance.

O destino da filha dos Bovary é o retrato ainda atual do capitalismo e da burguesia. Esse sistema não nos serve! Não nos serve! É assim que fecho essa postagem sobre o clássico de Flaubert.

William

20/02/21


Bibliografia:

FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Tradução de Araújo Nabuco. São Paulo: Abril Cultural, 1981.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Livro: O processo - Franz Kafka



Refeição Cultural - Cem clássicos

Dias atrás, assisti ao filme O processo (1962), dirigido por Orson Welles, com Anthony Perkins na interpretação de Joseph K. e o próprio Welles na interpretação do advogado Albert Hastler. O filme é inspirado no clássico homônimo de Kafka. Algumas cenas e cenários criados pelo diretor se encaixaram perfeitamente nas imagens que eu havia criado em minha mente quando li o livro pela primeira vez. Muito legal isso!

O processo, obra fantástica e inacabada do escritor tcheco Franz Kafka, organizada e publicada postumamente por seu amigo Max Brod, é uma estória claustrofóbica, única, que nos traz agonia, mas é uma leitura necessária em algum momento da vida dos leitores engajados em obras clássicas. Felizmente, tive a oportunidade de ler e reler esse livro de Kafka. 

Tenho duas edições. Uma da coleção Clássicos de Bolso, da Ediouro, com prefácio e tradução de Torrieri Guimarães. Nessa edição consta que a li em fevereiro de 2001. A outra edição é do Círculo do Livro, com tradução de Manoel Paulo Ferreira, volume que reli agora. 

Terminei a releitura hoje, leitura iniciada e retomada várias vezes entre 2016 e agora. Peguei pra ler o livro de Kafka durante o golpe de Estado no Brasil, durante o processo de lawfare no qual fui vítima em meu mandato eletivo de gestor de saúde - um verdadeiro processo kafkiano -, e li vários trechos durante o maior dos processos kafkianos da história jurídica mundial, a merda toda montada contra o presidente Lula e a democracia no Brasil.

O clássico processo pelo qual passa o bancário Joseph K. já foi interpretado de várias formas ao longo do século de existência da obra. O que Lula enfrentou seria (ainda é) um fato bem concreto do mundo real para se comparar ao processo no qual Joseph K. foi vítima da burocracia de um Estado totalitário. Assim como K., até o momento o cidadão Lula não encontrou a Justiça e segue condenado sem crime, sem culpa, sem provas e sem acesso à Lei. 

A postagem não tem objetivo de fazer análise crítica da obra, é mais um registro pessoal de minhas leituras clássicas.

Por sinal, o processo kafkiano pelo qual passamos no Brasil desde o golpe de Estado, a tomada das instituições por neofascistas e todo tipo de bandidos e gente da pior espécie, com consequências irreversíveis como a destruição do país não me deixam muito ânimo para escrever a respeito dessa tragédia que vivemos. Processos kafkianos nos levaram à banalidade do mal, para usar uma expressão de Hannah Arendt.

O processo é um clássico atemporal, assim como seu autor Franz Kafka (ou "Kafta" como disse um ministro da "educação" do atual regime neofascista no Brasil). 

A leitura vale muito a pena, ontem, hoje e sempre.

William


domingo, 17 de janeiro de 2021

Livro: Aquele mundo de Vasabarros (ou: Brasil, "Aquele mundo de Vasabarros"...)



Refeição Cultural

"A vida em Vasabarros tinha mudado muito desde a assunção do atual Simpatia. Antes ainda havia um pouco de claridade, havia uma relativa alegria nas pessoas, e um certo entusiasmo pelo que elas faziam, apesar da preocupação doentia com os regulamentos, esse um mal de todos os tempos. Mas com o novo Simpatia o arrocho aumentou, as pessoas foram perdendo os restos de alegria, de cordialidade, de confiança em si mesmas; instalou-se um regime de meticulosa vigilância, o povo se fechou em seus cubículos amedrontado, desconfiado, desinteressado (...) Que diferença do tempo em que viajantes famosos de outras terras se entusiasmaram com o clima humano de Vasabarros e profetizaram um futuro luminoso para ele. Vasabarros agora era uma lembrança dolente e uma realidade acabrunhante." (VEIGA, 1982, p. 13-14)


Reli o romance "Aquele mundo de Vasabarros" (1982), de José J. Veiga, escritor goiano com uma obra impressionante e atemporal. Minha primeira leitura deste romance foi em janeiro de 2018, momento muito ímpar de minha vida e da vida do país. Ler aqui a postagem sobre aquela leitura.

Eu estava em férias e no final de um mandato representativo na área de saúde e iria viajar o país para dialogar com os trabalhadores e aposentados para apresentar nossas propostas de luta. O país estava sob estado de exceção, após o golpe de Estado de 2016 e o fim da democracia (a destruição do Brasil estava em andamento). Tudo lembrava os cenários dos romances e contos de José J. Veiga. Tudo. 

Além do clima de ódio e fascismo no país, eu enfrentava um processo vil e canalha montado contra mim nas vésperas da eleição da entidade de saúde para me destruir psicologicamente com forte assédio moral e humilhações e para ser usado como fake news nas eleições que ocorreriam. As lideranças dos trabalhadores já estavam lidando com os processos de lawfare construídos por burocracias estatais e de empresas, eu era só mais uma vítima daquilo.

Se Saramago é nosso escritor português dos romances em forma de ensaios com estruturas do tipo "e se acontecesse tal coisa...", Veiga é o nosso escritor das situações fantásticas e atípicas nos enredos das estórias, dos contextos estranhos e cotidianos alterados por algum evento que de repente acontece e muda tudo na vida das pessoas e das coletividades. Leitores amig@s, José J. Veiga é um dos melhores escritores brasileiros!

Imaginem vocês um lugar onde a autoridade máxima é um sujeito autoritário, impiedoso e que não pestaneja em mandar aplicar a lei máxima, a morte, contra seus governados, por menor que tenha sido o erro, um deslize qualquer. Imaginem que no privado, lá no seu momento sem a capa da autoridade, o sujeito não passe de um mijão, fedido que ninguém aguenta, meio abobado, marionete do sistema de leis e regras seculares.

Imaginem um lugar onde agora é só escuridão, onde o povo está nos porões, calabouços, na miséria, na merda, em meio a aranhas, baratas e ratos, onde a desesperança e a apatia são gerais, onde é proibido ser feliz, trabalhar decentemente, cantar, rir, viver a vida em paz... pois é, não estou falando do Brasil do Temer e do Bolsonaro não, é o mundo de Vasabarros.

As autoridades e os poderes de repressão são os senescas, os merdecas, os mijocas etc. Não, não é o Brasil após o golpe, é o mundo de Vasabarros.

Aff, acho que o Brasil é "Aquele mundo de Vasabarros".

William


Bibliografia:

VEIGA, José J. Aquele mundo de Vasabarros. São Paulo: DIFEL, 1982.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Livro: As intermitências da morte - Frases selecionadas



Refeição Cultural

Como era de se esperar, As intermitências da morte (2005), de José Saramago, superou minhas expectativas de leitor. Poucos escritores têm a capacidade que ele tem de nos surpreender com suas narrativas e estórias. Poucos escritores me fazem rir e chorar, poucos. Saramago é um deles.

As intermitências da morte é um livro que deve ser lido por nós, que deve ser discutido por nós, quer dizer, deveria, porque os tempos são outros, são tempos distópicos e as discussões filosóficas e os exercícios de pensamento já não encantam nem prendem a atenção de ninguém, talvez estejamos na última fase da hegemonia humana na Terra.

Agora é tempo de lacração, de cancelamento, de memes, de rapidez na mensagem com imagem, de desenhinhos que substituem qualquer pensamento e linguagem mais elaborados e complexos. Um emoji e pronto, tá dito o que o enunciador acha que disse e o recebedor que entenda o que o enunciador acha que foi dito.

Uma cena que me impactou:

A morte está à espreita, está presente no ambiente, e ela observa encantada o violoncelista executando a Suíte nº 6, opus 1012, em ré maior, de Johann Sebastian Bach...

Enfim, seguem algumas frases e momentos de reflexão n'As intermitências da morte.

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O QUE OS OLHOS NÃO VEEM...

"Deitado no chão, à espera de um sinal que não vinha, o cão olhava-o. Talvez a causa do abatimento do dono fosse a mulher que apareceu no parque, pensou, afinal não era certo aquele provérbio que dizia que o que os olhos não veem, não o sente o coração. Os provérbios estão constantemente a enganar-nos, concluiu o cão" (p. 206)

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ESPERANÇA

"E como as esperanças têm esse fado que cumprir, nascer umas das outras, por isso é que, apesar de tantas decepções, ainda não se acabaram no mundo" (p. 202)

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HIERARQUIA DAS PALAVRAS

"Acabou de comer e voltou à sala de música, ou do piano, as duas maneiras por que a temos designado até agora quando teria sido muito mais lógico chamar-lhe sala do violoncelo, uma vez que é este instrumento o ganha-pão do músico, em todo o caso há que reconhecer que não soaria bem, seria como se o lugar se degradasse, como se perdesse uma parte da sua dignidade, bastará seguir a escala descendente para compreender o nosso raciocínio, sala de música, sala do piano, sala do violoncelo, até aqui ainda seria aceitável, mas imagine-se aonde iríamos parar se começássemos a dizer sala do clarinete, sala do pífaro, sala do bombo, sala dos ferrinhos. As palavras também têm a sua hierarquia, o seu protocolo, os seus títulos de nobreza, os seus estigmas de plebeu." (p. 196)

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A MORTE CONHECE A VIZINHANÇA

"A morte desce a rua até onde os muros terminam e os primeiros prédios se levantam. A partir daí encontra-se em terreno conhecido, não há uma só casa destas e de todas quantas se estendem diante dos seus olhos até os limites da cidade e do país em que não tenha estado alguma vez, e até mesmo naquela obra em construção terá de entrar daqui a duas semanas para empurrar de um andaime um pedreiro distraído que não reparará onde vai pôr o pé." (p. 183)

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OS ENVELOPES DAS CARTAS DA MORTE NÃO LEVAM CUSPE NA COLA

"Escreveu, escreveu, passaram as horas e ela a escrever, e eram as cartas, e eram os sobrescritos, e era dobrá-las, e era fechá-los, perguntar-se-á como o conseguia se não tem língua nem de onde lhe venha a saliva, isso, meus caros senhores, foi nos felizes tempos do artesanato, quando ainda vivíamos nas cavernas de uma modernidade que mal começava a despontar, agora os sobrescritos são dos chamados autocolantes, retira-se-lhes a tirinha de papel, e já está, dos múltiplos empregos que a língua tinha, pode dizer-se que este passou à história." (p. 179)

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Amig@s leitores, seriam necessárias várias postagens para separar as frases e reflexões que me encantaram n'As intermitências da morte. Pode ser que eu registre mais algumas depois aqui no blog.

Fiz essa postagem ouvindo Bach, inclusive a Suíte nº 6, opus 1012, citada no romance de Saramago.

William


Bibliografia:

SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Livro: Las armas secretas - Julio Cortázar



Refeição Cultural - Cem clássicos

Completei a leitura do primeiro de meus livros do escritor argentino Julio Cortázar, Las armas secretas (1959). Algumas narrativas do livro são consideradas verdadeiros clássicos do autor e da literatura hispano-americana do século XX como os contos "Las babas del diablo" e "El perseguidor".

Neste livro temos reunidos os contos: "Cartas de mamá", "Los buenos servicios", "Las babas del diablo", "El perseguidor" e "Las armas secretas". Todos muito bons!

Cortázar é um autor de leitura exigente, pelo menos na minha opinião. O escritor nos coloca a pensar durante a leitura de seus textos. Ele é um dos principais autores do Boom latino-americano dos anos sessenta e setenta.

Ao ouvir um trecho de uma entrevista com Cortázar fiquei encantado com ele. Ao falar sobre o período (Boom), os autores e as obras da época, ele diz ser mentira a tese de que as editoras que teriam sido responsáveis por darem a linha editorial para os contos e romances do Boom

Cortázar explica que o que contribuiu para os argumentos e enredos das narrativas latino-americanas nos anos sessenta foram as consequências da exploração imperialista aos países e povos da região. Alguns bons autores passaram a ser lidos e editados por grandes editores após o público reconhecer suas obras. E não o inverso.

Ele Cortázar disse que produziu suas narrativas na solidão e na miséria e só depois do público leitor reconhecer seu valor foi que as editoras passaram a recepcioná-lo como grande escritor. 

Minha estreia na leitura de Cortázar foi no início do curso de Letras, quando fiz uma disciplina das mais interessantes: vimos como autores latino-americanos abordavam a questão da morte e as diversas crenças no pós-morte em seus textos literários. Dele, lemos "Cartas de mamá", o primeiro conto deste livro.

O conto "Las babas del diablo" foi inspiração para o filme Blow-up (1966), do diretor Michelangelo Antonione. O final da estória é aberto e nos coloca a refletir sobre a narrativa. Os textos de Cortázar trabalham muito com o estranho, com situações que sejam incomuns, que chamem a atenção ou que de alguma forma incomodem o leitor. Este conto não é diferente.

O conto "O perseguidor" é muito bom. Traz como pano de fundo o mundo do jazz e o personagem principal, Johnny Carter, é inspirado em Charlie Parker (1920-1955). Bird, como era conhecido, foi um fenômeno incompreendido em seu tempo, que buscou (ou perseguiu) quase o impossível através de suas improvisações musicais.

O último conto do livro, "Las armas secretas" é bem difícil. Li duas vezes, uma após a outra, para compreender melhor a narrativa. Novamente, a estória trabalha com o estranho. 

Enfim, mais um clássico da literatura mundial.

William


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Livro: Poemas 1913-1956 - Bertolt Brecht


Refeição Cultural

"A MINHA MÃE

Quando ela acabou, foi colocada na terra
Flores nascem, borboletas esvoejam por cima...
Leve, ela não fez pressão sobre a terra
Quanta dor foi preciso para que ficasse tão leve!
"

(BRECHT, 2012, p. 21)


Completei a leitura do livro Poemas 1913-1956 de Bertolt Brecht. A edição é da Editora 34; a seleção e tradução é de Paulo César de Souza. São 260 poemas abrangendo diversas fases da vida do escritor, dramaturgo e poeta alemão.

São poemas engajados, politizados e com fortes críticas à alienação, à religião e à falta de reação da classe trabalhadora e de suas lideranças em relação à exploração humilhante e assassina por parte dos burgueses e capitalistas. Os poemas são muito pertinentes para os tempos que vivemos, de necrocapitalismo, neoliberalismo, e ampliação da exploração das massas humanas no século 21.

1913-1926

Difícil citar só alguns poemas. A seleção já fala por si, afinal de contas é uma "seleção" organizada por Paulo César de Souza. Mesmo assim, cito alguns poemas ou alguns versos para se ter uma ideia da poética de Brecht.

O poema "Ó FALLADAH, AÍ ESTÁS PENDURADO!" tem como Eu lírico um cavalo de carroça, que após uma vida de fome, exploração e miséria cai na sarjeta, esgotado, e é cortado e comido ainda vivo pelo povo faminto, o mesmo povo que lhe dava comida quando parava por ali. A imagem é impressionante.

"Mal acabara de cair, no chão o pescoço
(O cocheiro criou asas)
Já saíam correndo das casas
Pessoas famintas; um pedaço de carne queriam obter
Com facas arrancaram-me a carne do osso
E eu que ainda vivia, não havia terminado de morrer
"

(p. 14)

Alguns poemas são bem ácidos em relação às personagens da religião cristã. O poema "MARIA" é um exemplo. Outro é o "HINO A DEUS", veja a primeira estrofe:

"No fundo dos vales escuros morrem os famintos.
Mas você lhes mostra o pão e os deixa morrer.
Mas você reina eterno e invisível
Radiante e cruel, sobre o plano infinito.
"

(p. 13)

Poemas do Manual de devoção de Bertolt Brecht

Dessa parte da seleção de poemas, um dos que são mais chocantes, na minha opinião, porque são poemas que nos incomodam, é o poema "DA COMPLACÊNCIA DA NATUREZA". Vejam uma estrofe:

"E à noite o gemido fundo e lascivo da mulher
Cobre o choro da criança no canto do quarto.
E na mão que bateu no menino cai carinhosa
A maçã da árvore mais exuberante de um ano farto.
"

(p. 44)

1926-1933

Nesta fase, os poemas são críticas agudas à ascensão do fascismo na Alemanha e na Europa. Os poemas têm como pano de fundo a miséria da crise econômica mundial.

"QUEM SE DEFENDE

Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legítima defesa. Mas
O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão.
E no entanto morre quem não come, e quem
              [não come o suficiente
Morre lentamente. Durante os anos
              [todos em que morre
Não lhe é permitido se defender.
"

(p. 73)

O poema "SOBRE A MANEIRA DE CONSTRUIR OBRAS DURADOURAS" nos coloca a pensar sobre a questão do tempo, da necessidade de lidar com os tempos duríssimos que estamos enfrentando no Brasil. Não devemos nos acomodar, mas temos que ter paciência porque as coisas talvez demorem muito para mudar e temos que resistir. 

No entanto, outro poema de Brecht, do mesmo período, nos relembra daquele conceito de Paulo Freire, que esperança não é esperar, é esperançar, é uma atitude ativa, de fazer, de organizar, de criar o futuro desejado.

"OS ESPERANÇOSOS

Pelo que esperam?
Que os surdos se deixem convencer
E que os insaciáveis
Lhes devolvam algo?
Os lobos os alimentarão, em vez de devorá-los!
Por amizade
Os tigres convidarão
A lhes arrancarem os dentes!
É por isso que esperam!
"

(p. 102)

Há muitos outros poemas que refletem os tempos que correm, de guerras, de perseguições, de ódio e violência, de incertezas no amanhã.

Esse período até 1933, tem muitos poemas marcantes. O livro fecha o período com "ELOGIO DO APRENDIZADO", "ELOGIO DO PARTIDO" e "MAS QUEM É O PARTIDO", seguidos pelo poema "ALEMANHA".

A questão da importância do coletivo é muito forte. Também a importância do estudo, sobre aprender sempre.

Vou terminar a postagem porque ela ficaria enorme se eu fosse perpassar período por período da seleção de poemas de Brecht. São 260 poemas e devem ser relidos com prazer.

Os outros períodos são: "1933-1938", "Dos Poemas de Svendborg", "1938-1941", "1941-1947" e "1947-1956". Ao fazer a postagem, acabei relendo a primeira parte que havia lido em 2018, foram mais 100 páginas de leituras.

Vale a pena conhecer e ler Bertolt Brecht.

Seguimos esperançosos na vida e no remédio que o tempo nos proporciona. Uma hora esse período de ascensão e predomínio do mal aqui no Brasil vai passar, esses genocidas e gente bandida e desprezível serão retirados das posições de poder e outros tempos virão. 

A pandemia de Covid-19 vai passar, demore ou não a vacina. E se tivermos as condições básicas para ficarmos em casa e evitar aglomerações, devemos seguir as recomendações de distanciamento social, uso de máscaras, higienização etc. 

E como diz o poema "PASSAGEM DA NOITE", de Drummond: 

"Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
"


William


Bibliografia:

BRECHT, Bertolt. Poemas 1913-1956. Seleção e tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Editora 34, 2012 (7ª Edição). A 1ª ed. é de 1986.