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domingo, 14 de julho de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural 

Osasco, 14 de julho de 2024. Domingo. 


EXTREMO ORIENTE - ÚLTIMOS IMPERADORES 

A história da caminhada da espécie animal homo sapiens é uma história de violência mesclada com solidariedade em gestos individuais. É a impressão que tenho ao estudar a história. Temos em cada ser humano o melhor e o pior de nossa espécie. Um humano é a miniatura da própria natureza física. Somos a possibilidade para coisas extraordinárias, e somos também semente das maiores barbaridades.

Ao assistir aos documentários da Coleção História Viva, com imagens de época em cada tema abordado, imagens do início do século passado, passei dias pensando na nossa caminhada humana até o momento em que estamos. Eu diria que não me surpreendo com a atual conjuntura olhando para trás.

Este foi o penúltimo episódio da coleção. Essas preciosidades ficaram guardadas nos meus amontoados de mídia por um longo tempo. Por sorte a pátina do tempo não deteriorou o material e ainda pude vê-lo. O tempo muda tudo, mas o tempo para esse material andou devagar, felizmente.

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Sinopse:

Os dois milenares e tradicionais impérios do Oriente, China e Japão, enfrentaram mudanças políticas radicais no século XX. Guerreando entre si por anos, experimentaram perdas de toda ordem. Não bastasse, o Japão entrou em choque com democracias capitalistas na Segunda Guerra Mundial. Já a China, se viu confrontada com o comunismo, a que aderiu mais tarde. Para as populações de ambos os países, mudar era um imperativo da história. Ou os orientais aprendiam a fazer concessões e a conviver com novos regimes, ou seu fim seria melancólico - como, de fato, foi para extensas linhagens, representantes da nobreza de tempos que jamais retornariam.

Este episódio está dividido nos seguintes capítulos: "O Japão e a China", "Os domínios da China", "A República Popular da China" e "Mao deixa a presidência".

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CENAS DANTESCAS DE VIOLÊNCIA E A HIPOCRISIA DOS HOMENS NAS GUERRAS 

Os japoneses massacraram chineses em 1937 na guerra de invasão... estamos falando de colonialismo. Dezenas de milhares de crianças, mulheres e idosos assassinadas a sangue frio na Batalha de Nanquim. Milhares de estupros. Um horror!

Um tempo depois, os japoneses parceiros dos nazistas e fascistas (o Eixo) são massacrados pelos norte-americanos e ingleses, os aliados. Os EUA lançaram duas bombas atômicas matando quase meio milhão de japoneses e lançaram Napalm em Tóquio, matando novamente centenas de milhares de pessoas. Assim são as guerras... 

Mao Tsé-Tung e os comunistas venceram a guerra civil na China: Chiang Kai-Shek foge para Taiwan. Depois de unir o país, os chineses atuam para libertar os coreanos dos japoneses invasores. Guerra civil na Coreia. Com intervenção de comunistas e capitalistas, coreanos se dividem em Norte e Sul. O saldo em vidas perdidas foi alto: dois milhões de mortes. 

Um tempo depois, para combater o comunismo na Ásia, os Estados Unidos que massacraram os japoneses, mudam a estratégia e voltam a dar poderes ao imperador derrotado Hirohito. O Japão será o grande aliado dos capitalistas norte-americanos para combater chineses e coreanos ao Norte. 

Lá nos anos setenta (fevereiro de 1972), por diferenças entre URSS e China, Mao Tsé-Tung refaz relações diplomáticas e comerciais com norte-americanos e japoneses. Socialismo e capitalismo se juntam por interesses políticos e econômicos. 

Violência e hipocrisia... talvez os principais atributos da espécie humana.

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SEM DETERMINISMOS, SEGUIR ESTUDANDO E FAZENDO HISTÓRIA

Estamos aqui, sou uma unidade dessa espécie contraditória, perversa e destruidora e ao mesmo tempo solidária, criativa, com esperanças no amanhã. Por ser inteligente não posso ser determinista. Sei que somos seres históricos. 

Então, é seguir estudando, compartilhando conhecimento de forma gratuita e fazendo história.

William


domingo, 9 de junho de 2024

Leitura: Gen Pés Descalços (8) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural 

Gen Pés Descalços 

Volume 8


Os acontecimentos neste volume sobre a história da família Nakaoka e dos amigos de Gen se passam alguns anos depois da bomba atômica em Hiroshima (06/08/45) e Nagasaki (09/08/45) e o fim da 2ª Guerra Mundial.

Mas, infelizmente, o enredo começa com informações sobre uma nova guerra no início dos anos cinquenta: a Guerra na Coreia, dividida no Paralelo 38° entre Coreias do Norte e do Sul. Os amigos do inteligente garoto Gen acham que isso não é com eles, só que uma das bases de ataque à Coreia do Norte está no Japão, sob domínio dos EUA. 

Gen explica aos amigos o perigo disso, pois a Coreia do Norte pode atacar a base inimiga no Japão. Gen e seu professor, pacifistas, atuam para que o Japão nunca mais se envolva em guerra alguma.

A história terá alguns arcos também. Veremos as tretas entre Gen e o jovem órfão Aihara, que mesmo sendo vítima da guerra, defende o militarismo e a violência. Os leitores vão conhecer a história do garoto bom de beisebol.

Veremos a lábia de comerciante de Ryuta, vendendo as roupas feitas por Natsue e Katsuko.

Óbvio que os leitores verão muita violência no HQ. Os pacifistas vão enfrentar a fúria das autoridades por se manifestarem. O cenário é de brutalidade, qualquer coisa se resolve com tapa na cara e porrada.

Neste volume teremos contato com drogas por causa das questões sociais: alcoolismo e uma droga injetável chamada Philopon ou Pon (uma metanfetamina).

E sofreremos juntos com Gen e Ryuta por causa dos efeitos da bomba na vida de todos os habitantes de Hiroshima. 

Ao final dos arcos deste volume, Gen terá cerca de 13 anos.

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A LUTA CONTRA AS INJUSTIÇAS 

O volume oito aborda temas políticos bastante atuais. Nakazawa faz os leitores refletirem sobre injustiças cotidianas da sociedade capitalista em qualquer época. 

Nas páginas 150 e 151 Gen fala sobre guerras por procuração. A cena mostra a Guerra da Coreia e os beneficiários por traz dela como, por exemplo, os Estados Unidos e os empresários japoneses que estão lucrando com a venda de armas: quanto mais guerra, mais lucro para os capitalistas japoneses. 

Depois, na página 194, Gen Nakaoka, sua família e diversas famílias pobres e vítimas da bomba atômica se veem envolvidas numa grave situação de risco de perda de suas moradias por causa de decisão tomada pela prefeitura de Hiroshima de desapropriação para construção da "Cidade da Paz".

Gen vê dois homens ao lado de sua casa e ao perguntar o que querem, eles informam da decisão estatal de desapropriação e dão um mês para a família Nakaoka sair dali e se virar.

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DEMOCRACIA DEVE RESPEITAR AS MINORIAS

Informaram que foi decisão de assembleia e Gen pergunta:

"Mas se, de dez pessoas, nove são a favor e uma é contra, o que acontece com a opinião dela? Ouvir os motivos e tentar resolver o problema desse único voto contra não seria a verdadeira democracia?"

E finaliza a argumentação certeira:

"Ficam dizendo que precisam seguir a democracia e decidem tudo na base do voto da maioria." (p. 194)

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Comentário: vejam o que está acontecendo neste exato momento no Brasil: alguns homens decidem privatizar as escolas, alguns homens decidem privatizar a água pública (Sabesp) etc e as maiorias que se danem, representadas pelos poucos votos contrários nas "assembleias", porque os processos eleitorais são corrompidos e comprados (uma plutocracia). É muito atual o enredo do HQ.

Mais um volume lido de Gen Pés Descalços. Vamos para o nono volume. O comentário sobre o primeiro mangá pode ser lido aqui

William


Post Scriptum: o comentário sobre o volume 9 pode ser lido aqui.


quarta-feira, 15 de maio de 2024

Vendo filmes (XVI)



Refeição Cultural

Vidas passadas, vidas futuras, o presente que estamos construindo


Vi por esses dias dois filmes cujos enredos se passam nos Estados Unidos da América, ou pelo menos partes das histórias acontecem por lá. 

Estive duas vezes em Nova York e a experiência me trouxe aprendizados, inclusive me ajudou a evoluir em relação a preconceitos que tinha por confundir o povo de um país com o governo, coisas relacionadas, mas diferentes. Numa plutocracia como nos EUA, o povo pouca influência tem nos rumos da nação.

Neste artigo, comento a respeito de dois filmes muito bons, filmes que mexem com os sentimentos dos espectadores, filmes que valem a pena! Filmes com temáticas muito diferentes.

São filmes para chorar, para disparar as batidas do coração. Estórias que incomodam o espectador que, ou torce para que o desfecho seja o esperado ou se indigna pela atitude não esperada dos personagens.

O filme "Guerra Civil" nos assusta. É ficção ou é uma premonição do amanhã? E o comportamento das personagens naquele mundo sob guerra civil? Já não somos nós hoje com a indiferença na qual lidamos com todas as desgraças e injustiças ao nosso redor? Foda!

O filme "Vidas Passadas" nos envolve e nos coloca nos papéis dos jovens personagens sul-coreanos. Na vida real, os caminhos que as vidas deles tomaram seriam os caminhos meio que obrigatórios de boa parte das pessoas no mundo contemporâneo. São nossos destinos quando escolhemos as veredas que tomamos na vida? Há diferença entre escolher caminhos ou deixar que os caminhos se apresentem a nós e a gente só siga por eles?

Gostei bastante dos dois filmes. Recomendo a imersão, a viagem. O exílio por algum tempo nas ficções é perigoso como a vida real no mundo em desfazimento atual. A experiência pode nos modificar e ao final da catarse já não seremos os mesmos...

William Mendes

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FILMES

Vidas Passadas (Past Lives), 2023. Direção e roteiro: Celine Song. Elenco: Greta Lee, Yoo Teo, John Magaro.

SINOPSE: filme conta a história de Nora Moon (Na Young até os 12 anos) e Hae Sung, dois amigos de infância com uma forte conexão, que são separados quando a família de Nora decide migrar para o Canadá. Depois de muitos anos, eles retomam contato pela internet e duas décadas depois da separação se encontram em Nova York. O encontro colocará frente a frente dois adultos ligados pelo passado comum na Coreia do Sul e separados pelas veredas da vida.

COMENTÁRIO: a história de Nora e Hae Sung emocionam a gente. Nos deixam pensando na vida. Enquanto estamos na sessão, viajamos por várias reflexões sobre nossas vidas, eu vi na história dos amigos de infância sul-coreanos as veredas de minha própria história de vida. Provavelmente muitos espectadores se veem ou se recordam de alguém em contextos parecidos aos de Nora e Hae Sung. Na existência humana os exílios acabam se impondo em um momento ou noutro de nossa jornada.

Minha impressão é que a diretora e roteirista Celine Song quis nos mostrar os caminhos percorridos por duas pessoas de natureza muito diferentes, apesar da origem comum que as unia na infância. Uma pessoa, Nora, muito competitiva, sonhadora e disposta a alcançar seus objetivos, e a outra, Hae Sung, mais voltada à tradição e cultura de sua gente. Sentimentos difusos entre duas pessoas... amizade, amor, cumplicidade (a pessoa que sempre acolhia enquanto a outra chorava).

Pensei em tanta coisa durante o filme! Aos dez anos fui embora de meu mundo. Tive que me adaptar a outro mundo. Aos dezessete, voltei sozinho para aquele mundo da infância: nada mais era como antes. Exílios... Tenho na memória a lembrança de estar sempre andando em sentido contrário às gentes: aos 17 anos, quando descia para ir a outra escola - o Daniel - enquanto todo mundo subia para ir ao Adolfino. Aos 32 anos, quando descia na Franz Voegeli no final da noite, vindo da USP, e trombando com a gente subindo pela calçada, saindo da faculdade local. 

Nora e Hae Sung veem o mundo com a cultura da sua gente, com as crenças e mitologias que conformam a vida dos sul-coreanos. Como teria sido a vida deles se Nora não tivesse se mudado com os pais para outro país? Teriam ficado juntos, teriam filhos? Já estiveram juntos em vidas passadas? Em que contexto isso teria se dado? Ficariam juntos em alguma vida futura? Veredas, veredas...

O filme é lindo, muito bem montado. As cenas de lugares e tempos distintos se conectam. O monumento no qual as duas crianças brincam num encontro proporcionado por suas mães e anos depois um monumento onde se encontram em Nova York. Rostos de pedra separados por algo entre eles, como a vida deles, juntos, mas separados. Os silêncios que falam por eles, os cenários perfeitos para os momentos dos encontros. O parque e o carrossel... a cena da calçada aguardando o uber... as escolhas que Nora e Hae Sung fizeram, eu diria que de forma consciente, são as dimensões das decisões humanas a nos fazer refletir sobre a vida.

Filme para ver e rever sempre! Nos põe a pensar a vida.

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Guerra Civil (Civil War), 2024. Direção e roteiro: Alex Garland. Elenco: Wagner Moura, Kirsten Dunst, Cailee Spaeny e Stephen McKinley Henderson.

SINOPSE: o filme retrata a história de uma equipe de jornalistas e fotógrafos que viaja pelos Estados Unidos durante uma guerra civil. Joel (Moura) e Lee (Dunst) são amigos de longa jornada, estão em Nova York e pretendem chegar até Washington (DC) para entrevistarem o presidente dos EUA antes que a guerra chegue ao fim.

COMENTÁRIO: visto no cinema o filme coloca o espectador dentro do cenário de tensão da trama. Guerra é uma merda! Durante a sessão ficamos pensando como é ou seria bom vivermos em paz. E o enredo ficcional do filme nos lembra o quanto estamos a cada dia mais próximos da guerra, das guerras. Na verdade, já estamos em guerra, guerra civil, inclusive. A questão é quando as consequências das guerras se darão nas imediações de onde você e eu estamos. 

Saí do cinema meio passado. O que a ficção retrata é uma hipótese muito premonitória do que pode estar por vir. E o filme demonstra ao espectador a loucura que impera num mundo sem paz, sem contrato social, sem direitos civis, sem as conquistas civilizatórias - apesar de imperfeitas - que a espécie humana criou ao longo de sua existência no planeta. Foda isso!

Em termos de técnica, o filme é uma espécie de road movie, num cenário distópico, baseado na imagem, na fotografia. Diálogos pouco aparecem e o enredo deixa claro que o diálogo acabou, já era! Não existe mais rendição, conciliação. As coisas se resolvem na violência, na bala. Na eliminação ao diferente, divergente. Lei da selva: na guerra civil da savana, pela sobrevivência, não existem direitos de humanos, de gazelas, de cervos, de rezes e filhotes. Predação.

Algumas cenas são marcantes: belezas fugazes em meio a sangue, concreto, bombas, chumbo: umas florezinhas na grama distraem gente assustada durante tiroteio... fuligens incandescentes iluminam a noite dos mundos queimando... gente morrendo em instantes captados em preto e branco...

Como seres históricos, como seres passíveis de educação, podemos desenhar e capturar instantes melhores num futuro diferente... um mundo de paz, de tolerância à diversidade e sustentável. Queremos isso? Estamos fazendo algo por isso? Ou só queremos cliques, likes?

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É isso! Dois filmes distintos, dois enredos que se passam na terra do império atual.


Post Scritpum: o texto anterior desta série de comentários sobre filmes pode ser lido aqui. O comentário seguinte sobre filmes pode ser lido aqui.