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segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Diários com Machado de Assis (VII)



Refeição Cultural


A SENHORA DO GALVÃO

Leitura do conto "A senhora do Galvão", publicado primeiro na Gazeta de Notícias, em 10 de fevereiro de 1884, e depois no livro Histórias sem data, do mesmo ano.

Esse conto me fez pensar na condição das mulheres, ontem e hoje. Sempre? Quem saberia dizer...

A estória é relativamente simples e comum. O narrador onisciente nos conta a vida conjugal de Maria Olímpia e Eduardo Galvão. Ela com 26 anos de idade, casada com um jovem advogado em início de carreira. 

O narrador nos situa no tempo, o ano em que se dão os acontecimentos é o de 1853. Machado usa datas históricas do Brasil para referenciar fatos. O pai de Maria Olímpia era "deputado do tempo da Regência". A viúva amiga do casal teria uns 35 anos, mas depois nos diz que tinha 31 porque "nasceu em 1822, na véspera da independência".

Dois exercícios que tento fazer ao ler textos publicados em outras épocas e lugares é imaginar o mundo da época da enunciação da estória e o que o autor quis dizer e transmitir aos leitores. E sei que romance é ficção. Não esqueçamos disso! Quando Bentinho ou Brás Cubas escrevem suas histórias, elas são ficção, ok?

Então, 1884, Rio de Janeiro, Brasil. A lei do Império que vigora é a da escravidão das pessoas trazidas do continente africano ou seus descendentes. Já há algumas leis de exceção, mas a escravidão de gente é lei. Alguns humanos são propriedade de outros assim como vacas e cavalos - semoventes na hacienda. Machado de Assis é descendente de avós paternos escravos alforriados.

Imaginem as ruas do Rio de Janeiro. Andem por elas em 1884. Imaginem a condição das mulheres também, para além da questão da escravidão. As mulheres eram praticamente propriedades dos homens também. Os pais mandavam nas filhas, negociavam elas. Dureza!

Machado situa o enredo da estória umas décadas antes, em 1853.

Enfim, fiquei pensando nessas questões acima porque é difícil se colocar no lugar de Maria Olímpia. O que eu faria no lugar dela? Eu não sou mulher. Mesmo hoje, século e meio depois da condição em que está Maria Olímpia, o que fariam as mulheres no lugar dela?

Após séculos de ciência e descobertas, a espécie humana contém indivíduos que agem de acordo com os conhecimentos acumulados ao longo da história e contém indivíduos que agem como aqueles que viviam milhares de anos atrás, assustados com raios, trovões, sombras e eclipses, ignorantes em tudo, primitivos e que levam a vida baseada em mitos. 

Séculos depois de descobertas e ciência, temos o bolsonarismo no Brasil, os talebans no Afeganistão, os negacionistas trumpistas.

Pra finalizar mesmo, fico imaginando o que sentia Machado de Assis, um sujeito não branco, apadrinhado de uma pessoa ilustre, o senhor José de Alencar, defensor da manutenção da escravidão no Brasil nos debates públicos (ler aqui). Como se sentiria Machado em relação ao amigo e protetor Alencar? Que situação!

William


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. 50 contos de Machado de Assis. Seleção, introdução e notas John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 14ª reimpressão, 2015.

domingo, 20 de outubro de 2019

Frases em Senhora, de J. Alencar: reflexões sobre a condição da mulher no Brasil bolsonarista




Senhora, de Alencar: fico pensando
pra onde vamos com o bolsonarismo.

Refeição Cultural

Separei alguns momentos do romance Senhora (1875), de José de Alencar, para ilustrar o que pode voltar a ser a vida das pessoas, dos seres humanos, das mulheres, caso todas as pautas e ideias reacionárias (ideologia) do bolsonarismo e de parte dos donos de empresas evangélicas chamadas de "igrejas" se estabeleçam na cultura dessa eterna colônia miserável.

Os retrocessos propostos por esses machos brancos reacionários e em posse de um poder excessivo, conquistado por fraudes múltiplas e por golpe de Estado, estão sendo pregados através de púlpitos, ministérios, redes de ensino tomadas por seus seguidores, enfim, retrocessos pregados diuturnamente por seus instrumentos de manipulação da consciência dos brasileiros e brasileiras deste começo do século XXI.

Além da famiglia que colocaram no poder, tem um "bispo" bilionário, dono de uma das maiores redes de televisão do país, que prega que lugar de mulher é em casa, sem estudar, sem se formar, obedecendo seu marido-dono e, claro, obedecendo a esse destino feminino definido pelo próprio deus.

Seguem abaixo, frases interessantes que destaquei da primeira parte do romance, chamada "O preço". Vejam o que acham, amig@s leitores. Os subtítulos são de minha autoria.

(e pensar que os bolsonaristas não teriam sido eleitos sem o voto de parte das mulheres brasileiras...)

William

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Mercado matrimonial: o arranjo patrimonial do modo de produção capitalista (um caso curioso em Senhora)

"Por isso mesmo considerava ela o ouro um vil metal que rebaixava os homens; e no íntimo sentia-se profundamente humilhada pensando que para toda essa gente que a cercava, ela, a sua pessoa, não merecia uma só das bajulações que tributavam a cada um de seus mil contos de réis."

(...)

"Convencida de que todos os seus inúmeros apaixonados, sem exceção de um, a pretendiam unicamente pela riqueza; Aurélia reagia contra essa afronta, aplicando a esses indivíduos o mesmo estalão.
   Assim costumava ela indicar o merecimento relativo de cada um dos pretendentes, dando-lhes certo valor monetário..." (Cap. I, pág. 15)

O machismo brasileiro captado na fala do narrador do romance de Alencar

"Era uma expressão fria, pausada, inflexível, que jaspeava sua beleza, dando-lhe quase a gelidez da estátua. Mas no lampejo de seus grandes olhos pardos brilhavam as irradiações da inteligência. Operava-se nela uma revolução. O princípio vital da mulher abandonava seu foco natural, o coração, para concentrar-se no cérebro, onde residem as faculdades especulativas do homem." (Cap. IV, pág. 22)

Aurélia Camargo, a subversão à lógica da sociedade do macho branco capitalista da casa grande

"- Esquece que desses dezenove anos, dezoito os vivi na extrema pobreza e um no seio da riqueza para onde fui transportada de repente. Tenho as duas grandes lições do mundo; a da miséria e a da opulência. Conheci outrora o dinheiro como um tirano; hoje o conheço como um cativo submisso. Por conseguinte devo ser mais velha do que o senhor que nunca foi nem tão pobre, como eu fui, nem tão rico, como eu sou." (Cap. IV, pág. 24)

O narrador do romance, com seu linguajar cheio de pompa, nos apresenta sua visão da imprensa do século XIX

"Depois de lavar o rosto e enfiar o chambre viera à sala buscar na porta que dava para a escada os jornais do dia; pois era ele dos que se consideram em jejum e ficam de cabeça oca, se ao acordarem não espreguiçam o espírito por essas toalhas de papel com que a civilização enxuga a cara ao público todas as manhãs." (Cap. V, pág. 29)

Mulher que não arrumasse casamento era uma monstruosidade social ("aleijão")

"Nicota, mais moça e também mais linda, ainda estava na flor da idade; mas já tocava aos vinte anos, e com a vida concentrada que tinha a família, não era fácil que aparecessem pretendentes à mão de uma menina pobre e sem proteções. Por isso cresciam as inquietações e tristezas da boa mãe, ao pensar que também esta filha estaria condenada à mesquinha sorte do aleijão social, que se chama celibato." (Cap. VI, pág. 33)

O que é esta vida senão uma quitanda?

"(...) Queria que me dissessem os senhores moralistas o que é esta vida senão uma quitanda? Desde que nasce um pobre-diabo até que o leva a breca não faz outra coisa senão comprar e vender? Para nascer é preciso dinheiro, e para morrer ainda mais dinheiro. Os ricos alugam os seus capitais; os pobres alugam-se a si, enquanto não se vendem de uma vez, salvo o direito do estelionato." (Cap. VIII, pág. 39)


Bibliografia:

ALENCAR, José de. Senhora. Coleção O Estado de São Paulo, Klick Editora. São Paulo, 1997.


Post Scriptum:

Leia aqui a postagem anterior sobre o porquê de refazer a leitura deste romance de José de Alencar, que li na adolescência e depois reli duas décadas atrás.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Lendo: Senhora (1875) - José de Alencar



Senhora, de Alencar, e livros de crítica literária.

Refeição Cultural

Literatura Brasileira - José de Alencar

Consumado o casamento entre Aurélia Camargo e Fernando Seixas, os convidados se retiram da cerimônia. A sós, os dois jovens se preparam para a noite de núpcias. Quando Aurélia tem a seus pés o esposo se declarando a ela, muda a expressão de felicidade e começa a dizer o que pensa a respeito de tudo aquilo.

"- Representamos uma comédia, na qual ambos desempenhamos o nosso papel com perícia consumada. Podemos ter esse orgulho, que os melhores atores não nos excederiam. Mas é tempo de pôr termo a esta cruel mistificação, com que nos estamos escarnecendo mutuamente, senhor. Entremos na realidade por mais triste que ela seja; e resigne-se cada um ao que é, eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido."

E apesar do choque causado ao noivo, pela surpresa do enunciado, Aurélia segue:

"- Vendido, sim: não tem outro nome. Sou rica, muito rica; sou milionária; precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas. O senhor estava no mercado; comprei-o. Custou-me cem contos de réis, foi barato; não se vez valer. Eu daria o dobro, o triplo, toda a minha riqueza por esse momento."

Com essa cena, José de Alencar conclui a primeira parte do livro, intitulada "O Preço", e a personagem Aurélia manda o marido comprado sentar-se para ouvir o que ela tem a dizer a seguir, na parte dois do livro.

Nova leitura

Li esta obra de Alencar na adolescência, como parte das leituras obrigatórias do ensino fundamental e médio. Reli o romance faz duas décadas, por desejo de conhecer melhor este clássico da literatura brasileira. 

A curiosidade em ler novamente "Senhora" é por causa de obras e textos críticos que fazem referência a ela, como as obras de Roberto Schwarz - "Um mestre na periferia do capitalismo" e "Ao vencedor as batatas" - e de Antonio Candido - "Literatura e sociedade". 

Entretanto, a leitura é, sobretudo, porque um amigo me presenteou um livro que reúne ensaios e textos de crítica literária a respeito de grandes estudiosos da literatura brasileira, entre eles os dois que citei acima mais Francisco Alvim. 

Dentre os ensaios reunidos no livro "Candido, Schwarz & Alvim - A crítica literária dialética no Brasil" está o de meu amigo André Matias Nepomuceno - "Gênero e história: duas questões na leitura do romance Senhora, de José de Alencar". Quando li o texto, senti que teria melhor compreensão se me lembrasse do enredo do romance.

Enfim, aos poucos vou lendo mais este livro, entre os vários que leio ao mesmo tempo. Nosso cérebro só tem a ganhar quando é exigido para tarefas diversas, como leituras de coisas tão distintas quanto as que leio.

William
Um leitor

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Artigo: Inexorável dependência - Mino Carta


Grito dos Excluídos DF 2017.


Apresentação do Blog

Os artigos do jornalista Mino Carta são sempre edificantes. Suas palavras representam via de regra o que eu sinto e penso. 

Amig@s leitores, se gostam de revistas semanais, assinem a CartaCapital, pois não tem sido fácil este jornalismo autêntico sobreviver economicamente. Assinei mesmo não tendo muito tempo para ler.

Fui ao Grito dos Excluídos do DF hoje de manhã. Aqui não há tradição de grandes participações. Vi que em São Paulo mais de 10 mil pessoas participaram do Grito de lá. Que legal!

Apesar do pessimismo da razão, nada tira de mim o otimismo da ação, da reação, da resistência; do imponderável que pode vir do povo a qualquer momento.

Abraços,

William

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A contribuição de François-René Moreaux à iconografia oficial:
depois do Grito, o príncipe é recebido em São Paulo.
Verdade histórica: o povo nem se deu conta da Independência.

Inexorável Dependência


Por Mino Carta — publicado 04/09/2017

As quadrilhas no poder confirmam o país na condição de colônia. Mas o enredo poderia ser diferente?


Há tempo, meus botões, iconoclastas à beira do sacrilégio, sustentam que nem tudo nos cardápios da Marquesa de Santos ostentava perfeitas condições de consumo. Eventuais indagações a respeito parecem despidas de sentido. Ocorre, entretanto, que um mexilhão estragado, digamos, poderia ter exercido notável influência sobre o Grito.

Sabe-se que Dom Pedro vinha de Santos depois de almoçar com a amante e, ao subir a serra no caminho de São Paulo, deu para experimentar os dissabores da digestão penosa, com consequências abaixo do umbigo.

Nas alturas do Ipiranga, próximas da cidade, um renque de bananeiras cuidou de lhe oferecer abrigo para o cumprimento da operação inevitável, embora nem sempre definitiva, em tais ocasiões. E das sombras o príncipe finalmente emergiu para proclamar a Independência.

Em paz com as entranhas, ou ainda a sofrer do aperto inconcluso? Gritou, segundo as páginas amarelecidas, "Independência ou morte!". A ser verdade factual a frase que a história coloca na boca do príncipe, ela ganha o som da irritação.

Por que propor uma alternativa tão drástica? A palavra morte ali não se justifica, mesmo se em jogo estava uma imponente briga familiar que o opunha ao pai Dom João VI. Sobra a hipótese de que a parada forçada debaixo das bananeiras tivesse sido insatisfatória.

Como se sabe, a retórica oficial no Brasil se esbalda. Claro está que nosso herói não montava o cavalo de Napoleão, como pretende o pintor francês François-René Moreaux ao retratá-lo na chegada a São Paulo. Na opinião dos meus botões, tratava-se de um muar. Na tela, o povo festeja o gesto do seu príncipe, a mostrar consciência de um triunfo há tempo almejado. No meio da festa, enxergo, oh! surpresa, um rosto talvez mulato.

No caso, a verdade factual obviamente é outra. Metade da população era de escravos, e quem não era só com o passar dos meses foi obrigado a dar-se conta da mudança, pela qual, teoricamente, o Brasil deixava de ser colônia. Não demoraria muito para tornar-se súdito do império britânico em lugar do português. Demoraria a Abolição, de fato ainda não extinta até hoje no país da casa-grande e da senzala.

Nesta moldura, figuras como Joaquim Nabuco, Machado de Assis, o Barão de Mauá e Castro Alves são empolgantes exceções. A Editora Hedra tomou a feliz iniciativa de publicar um precioso livrinho, intitulado Alencar – Cartas a Favor da Escravidão.

O autor de Iracema, a virgem índia dos lábios de mel, gostava dos românticos franceses, logorreicos e empolados, e era dado ao culto de uma Idade Média habitada por fadas e ogros. Verificamos agora que José de Alencar pode ser incluído entre os pais fundadores da República do Estado de Exceção, juntamente, entre outros, com os inquisidores do auto de fé em andamento.

Segundo Alencar, radioso seria o futuro dos Estados Unidos e Brasil escravocratas exatamente em função da presença no trabalho deste braço forte e cativo. A tese hiperbólica do escritor, fervoroso leitor de Atala, de Chateaubriand, fábula inspiradora de Iracema, é simples, conforme resume o autor do prefácio do livro da Hedra, Tâmis Parron: “Ao contrário da Antiguidade, os povos bárbaros não mais conquistam os instruídos”.

Resultado: agora, ou seja, segunda metade do século XIX, a civilização captura incultos e os põe a trabalhar com o efeito de “moralizá-los” no mais longo prazo possível. O escravo deveria elevar preces de agradecimento aos seus deuses e é certo que três séculos e meio de escravidão não bastam, longe disso, para o bom êxito da operação de “moralização”.

Alencar não conseguia imaginar o Brasil desgovernado por uma malta de desinstruídos predadores, com raras exceções, Getúlio e Lula, mais, um tanto de raspão, JK.

Alcançaram a grandeza os EUA, poderoso “irmão do Norte”, como outrora se lia nos editoriais do Estadão, pela interferência de novas forças civilizadoras, chegadas em sólidos barcos de passageiros, embora as feiticeiras de Salem retornem, imunes à fogueira, com novos nomes e semblantes.

Enquanto por aqui a casa-grande e a senzala continuam de pé. De fato, os predadores nunca se expuseram de forma tão prepotente em todos os meus 71 anos de Brasil.

O impeachment de Dilma Rousseff, com panelaços e idiotas nas ruas de uniforme canarinho, é o início da debacle conclusiva, a levar ao Estado de Exceção, ou seja, ao atoleiro em que afundamos, como diz Marcos Coimbra na sua coluna desta semana (em CartaCapital).

Não se trata de defender o governo da presidenta, que, aliás, mereceu críticas muito severas de CartaCapital, ou o PT, que no poder se portou como os demais clubes recreativos a ornar a política nativa, e não foi capaz de enfrentar a manobra golpista.

A cultura da escravidão ensina que o bom combate acontece na proporção de 50 contra 1. É a história da Guerrilha do Araguaia, empolgante pela coragem dos 80 moços que enfrentaram 10 mil soldados, mas, ao mesmo tempo, patética.

Os bravos são raros, em geral não somos de briga, a não ser que o adversário esteja em grande minoria ou careça dos meios para se defender. Mestre no assunto, o Duque de Caxias, exuberante figura da nossa interminável galeria de falsos heróis.

De exceção em exceção, as máfias no poder fazem o que bem entendem, em um país que não se fez nação. As ofensas à lei e à razão multiplicam-se ao sabor dos interesses imediatos das quadrilhas, para nos transformar em um Estado medieval e insignificante, colônia exportadora de commodities e de terra vendida, na superfície e no subsolo, a preço de liquidação.

A saída correta teria sido a convocação de eleições antecipadas. Mas como chegar a tanto se os poderes da República obedecem aos capi? Outra saída estaria na revolta popular, forte o bastante para tomar a casa-grande, mas cadê os sans-culottes? CartaCapital reconhece em Lula o único autêntico líder nacional. Mas, se o PT não existe sem seu fundador, o contrário é perfeitamente possível. Lula tem o povo e o PT é dispensável.

Se Lula for preso, conforme prevê a principal exceção deflagrada pelo golpe, a eleição de 2018, desde que se realize, não deixará de ser uma farsa trágica. Recomenda-se preparar os corações para dias ainda mais sombrios. Na próxima semana celebra-se o Dia da Independência 195 anos depois, o dia do tão falado grito que Dom Pedro liberou ao sair detrás das bananeiras. Já então era falácia.

O êxito golpista nos devolve imperiosamente aos tempos da colônia e a verdadeira festa é a da dependência. Só cabe lamentar, diante de uma situação que não vislumbra qualquer gênero eficaz de resistência.

Lamentamos também que alguns personagens dotados de respeitável inteligência, felizmente poucos, se façam de cegos, quando não apoiam o descalabro. É algo que me agasta e amargura entre o fígado e a alma.

Fonte: Carta Capital


sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Ação, reflexão, romance e cinema - Carlos Heitor Cony


GOSTEI MUITO do texto de Cony a respeito de romances de ação e reflexão e as quebras de fronteiras entre eles e também suas adaptações para outras formas de arte.

Ele traduz muito bem os problemas inerentes ao tema.


CARLOS HEITOR CONY

Ação, reflexão, romance e cinema

José de Alencar foi um rio e Machado apenas uma bica d'água, como queria Glauber Rocha?


O GÊNERO romance tem duas vertentes básicas: a ação e a reflexão. Nada impede que o romance de ação contenha reflexão ("Guerra e Paz", "O Vermelho e o Negro", quase toda a obra de Zola, Balzac, Hemingway etc.). E também não impede que o romance de reflexão tenha ação ("Gulliver", "Montanha Mágica", quase todo o Machado de Assis, quase toda a ficção de Sartre, Camus etc.).

A transposição de um romance ou conto para o gênero visual só é compensadora em nível artístico quanto a ação. A reflexão contida numa obra literária é intraduzível para o visual que cria outro tipo de forma de reflexão, mas condicionada pela ação.

Amigos estrangeiros, quando sabem de minha admiração por Machado de Assis, perguntam por que ele não é devidamente traduzido em outras línguas. Alguns de seus principais romances têm versões em muitas línguas (inglês, francês, italiano, espanhol, alemão), mas são edições que raramente chegam ao grande público, ficando nos meios acadêmicos e universitários. Jorge Amado é traduzido até em servo-croata, tem edições de bolso e é um dos autores mais editados atualmente. Sem falar no recente Paulo Coelho, um caso à parte.

Respondo a esse tipo de pergunta acentuando a diferença fundamental entre as duas concepções de romance. Jorge segue a linha de José de Alencar, muita ação, ação que fez Glauber Rocha (um cineasta) dizer que Alencar era um rio caudaloso e Machado de Assis uma torneira.

Diante de um romance que prioriza reflexão, evidente que o estrangeiro preferirá os próprios autores. Ele terá curiosidade de conhecer os dramas da seca brasileira ou as trapalhadas de um turco em Ilhéus. Um francês, por exemplo, terá curiosidade de conhecer um Jubiabá, uma Gabriela. Mas, para buscar reflexão, irá buscá-la em Montaigne, Voltaire, Pascal, Sartre, Camus.

Se isso ocorre no campo editorial das traduções, na transposição do romance para um veículo visual, o romance de reflexão é descartável quando não solenemente desprezado. Não faz tanto tempo assim, Paulo Francis disse mais ou menos a mesma coisa a propósito de "Lolita", que ele considera "intraduzível" para o cinema, apesar de haver, agora, duas versões cinematográficas do romance de Nabokov (conheço a de Stanley Kubrick e, ao contrário do Francis, não a jogo inteiramente no lixo, apesar da monstruosidade da Lolita de Kubrick ser uma adolescente mais para mulher feita do que para menina.)

No meu caso pessoal, minhas tentativas no gênero são quase desprovidas de ação. A meu modo, com as minhas limitações, procuro refletir sobre a condição humana em vez de narrá-la. Uso de um mínimo de trama para expor minha visão de mundo. No passado, naquela que agora eu posso considerar "primeira fase", costumava ser procurado para vender meus textos a produtores e cineastas. Vendi dois deles ("Antes, o Verão" e "Matéria de Memória", que se transformou em "O Homem e sua Jaula"). Mas parei. Quando me procuravam eu sugeria escrever uma história original para eles. E assim fiz "Os Primeiros Momentos" (com Paulo Porto e Odete Lara), "Os Devassos" (com Jardel Filho e Darlene Glória), "Paranoia" (com Anselmo Duarte e Norma Bengell), "Vera Verão" (que virou "Intimidade", com Vera Fischer e Perry Salles, dirigida pelo inglês Michael Sarne).

Bons ou maus, eles tinham alguma trama, alguns conflitos. Mas nunca senti atração para escrever roteiros ou peças teatrais. Como não sou dono do destino, nem do meu e muito menos do destino dos outros, houve um tempo em que fiquei responsável pela teledramaturgia da Rede Manchete de Televisão.

Não aproveitei nenhum texto meu, preferi fazer sinopses de livros de outros autores, como Alberto Faria, Paulo Setúbal, Agripa Vasconcelos e outros, inclusive de uma ideia do Adolpho Bloch sobre uma gafieira da antiga Praça Onze ("Kananga do Japão").

Volto ao conceito da ação e da reflexão. José de Alencar foi mesmo um rio e Machado apenas uma bica d'água, como queria o Glauber Rocha? São duas abordagens distintas para duas coisas diferentes. Acho que a reflexão fica mais próxima da literatura. E a ação é a matéria prima do cinema, hoje ampliada pela fartura dos efeitos especiais.


Fonte: jornal FSP, 14/11/08

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Alencar, o escravista (2)




Análise/livro/"Cartas a Favor da Escravidão"

Esforço letrado de Alencar é chocante

Textos publicados revelam um escritor admirável e ao mesmo tempo execrável, que faz pensar nos novos senhores do Brasil


Tales Ab'Sáber
Especial para a Folha


Quem ler as "Cartas a Favor da Escravidão", de José de Alencar, que a editora Hedra publica após 140 anos de sua primeira aparição, deve se espantar. De fato, o livro tende para o inacreditável.

Há muito que circula a percepção em círculos progressistas de que as elites nacionais poderiam funcionar por princípios pré-modernos em plena modernidade, diante dos quais o horizonte real de desenvolvimento social do país não é um móvel histórico forte.

A vida ideológica estável de nossa época nos impede de checarmos as concepções de mundo do poder e seu controle do corpo e destino no mundo do trabalho. Em um tempo em que todo poder emana do capital, e a crítica da violência no espaço do trabalho está vedada por princípio, apesar da virtual escravidão, a verdade é que a violência contra o trabalho continua aí, presente, configurando amplos setores da economia. No entanto, tais novos senhores do trabalho do outro estão justificados a priori.

Afinal, imensas empresas, como as grandes marcas esportivas ocidentais, não exploram também ao extremo o trabalho, até mesmo o infantil, no sudoeste asiático, ao mesmo tempo em que terceirizam as responsabilidades, como se nada tivessem a ver com essa ordem de iniquidades, mesmo quando ganham tudo com ela?

Clareza e astúcia

Em uma certa passagem de nossa modernidade, José de Alencar se pôs a defender, com seu estilo transparente e elegante, a posição do Partido Conservador pela manutenção da escravidão no Brasil. A instituição estava abalada, pois fora abolida no império inglês (1833), nas colônias francesas (1848) e nos EUA (1863).

As pressões sobre o Brasil eram grandes, e d. Pedro 2º sinalizava, mesmo que de modo muito lento e gradual, para o horizonte de supressão do trabalho escravo. Então Alencar escreve essas peças execráveis, mas, paradoxalmente, admiráveis pela clareza e pela astúcia, sustentando a necessidade civilizatória da escravidão.

Fundado em um princípio de violência inconciliável da civilização com a natureza e com o outro humano - o bárbaro -, que seria civilizado pela força avançada que o poria como escravo, mas força que também o tornava um virtual sujeito para ele próprio, Alencar se utiliza de todos os argumentos imagináveis em seu tempo para justificar o modernamente injustificável, do risco de crise social à necessidade econômica fatalista e até mesmo um desenho de amálgama de raças pela miscigenação e pela cultura, que faria da escravidão a mãe da cultura nacional.

Hoje, o esforço letrado e frio do escritor é chocante e nos parece vazado de desfaçatez. Algo parece ter mudado no valor dos fatos e da história.

Mas o que podemos dizer dos neo-senhores, que mantêm condições de terror e ignomínia no mundo do trabalho? Se eles fossem obrigados a falar, como recentemente os neocons americanos o fizeram para justificar a ilegítima invasão no Iraque, seu sistema de razões e sofismas soaria semelhante ao do elegante e culto senhor de escravo e romancista brasileiro, como toda ordem de razão que emana da pura força.

De modo algum é acaso que este tenha sido o único trabalho publicado do autor no século 19 ausente das obras completas de 1959. Tal voz conservadora é de fato mais poderosa quando silenciosa, quando não mais necessita se justificar. Por isso o livro de Alencar é importante. Ele dá voz e configuração ao que silencia, pois não necessita justificativa, e pode apenas agir, tão sistematicamente no Brasil.

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TALES AB'SÁBER é psicanalista, membro do Instituto Sedes Sapientiae e autor de "O Sonhar Restaurado" (ed. 34)

Fonte: FSP 8/10/08


Alencar, o escravista


Cartas do autor a d. Pedro 2º, nas quais defendia o cativeiro no país, são pela 1ª vez publicadas em livro, 140 anos depois

Reprodução
Quadro "Loja de Rapé", aquarela inacabada
em que o pintor Jean-Baptiste Debret
retrata escravos urbanos
 no Brasil do século 19.


Rafael Cariello
Da reportagem local

"A escravidão caduca, mas ainda não morreu; ainda se prendem a ela graves interesses de um povo. É quanto basta para merecer o respeito."

Quem vinha a público, em 1867, desejoso de ser ouvido na defesa do cativeiro no país era o romancista José de Alencar (1829-1877). A memória histórica no Brasil, no entanto, silenciaria seus argumentos no século seguinte.

A frase aparece numa das sete cartas públicas em que, naquele ano, o autor de "Iracema" criticou o imperador d. Pedro 2º por propor que o país começasse a pôr fim gradual à escravidão. Só agora, 140 anos depois, elas ganham uma edição em livro, "Cartas a Favor da Escravidão" (ed. Hedra), que chega nesta semana às livrarias.

Embora diversos pesquisadores tivessem conhecimento de sua existência - que era citada em alguns trabalhos - e das posições políticas de Alencar, o conteúdo das cartas não chegou a ser reimpresso. O conjunto não aparece, por exemplo, nas obras completas do autor romântico, organizadas em 1959 pela editora José Aguilar (hoje Nova Aguilar).

No final dos anos 90, a historiadora Silvia Cristina Martins de Souza encontrou as cartas na Biblioteca Nacional, no Rio.

Republicou parte delas numa revista especializada da Unicamp. "Elas não haviam sido reproduzidas no século 20", diz a pesquisadora, que atribui o "esquecimento" do material ao "desconhecimento e desinteresse" sobre a obra de Alencar.

O organizador do livro que vem agora a público, Tâmis Parron, tem opinião diferente.

Ele escreve na introdução aos textos de Alencar que se trata de uma "provável tentativa de expurgar sua memória artística de uma posição moralmente insustentável para os padrões culturais hegemônicos desde o final do século 19".

"É um expurgo? Pode ser. É provável, mas não tenho acesso a documentos que provem essa hipótese", disse o historiador, em entrevista à Folha.

Procurada, a Nova Aguilar não respondeu aos questionamentos sobre a lacuna e sobre a possibilidade de inclusão das cartas em edições futuras (a última, esgotada, saiu em 1965).

As "Novas Cartas Políticas de Erasmo", como foram denominadas, numa referência ao pensador holandês, apareceram num momento de crise internacional da escravidão. Com o fim da Guerra Civil Americana (1861-1865) e da servidão nos EUA, aumentaram as pressões internacionais para que o Brasil, como último país independente da América a mantê-la, pusesse fim à instituição.

No princípio de 1867, o imperador pede que seu gabinete encaminhe ao Legislativo uma proposta de discussão que resulte num prazo para o fim da escravidão.

Instituição necessária

É em reação a essa movimentação de d. Pedro que Alencar argumenta, em suas cartas, contra a extinção por lei de uma instituição que, para ele, deveria acabar como resultado de um processo "natural" de maturação -processo que na Europa, ele diz, levou séculos.

O escritor e político -falava como integrante do Partido Conservador- reconhece que a escravidão já se apresentava "sob um aspecto repugnante", mas completava que "ainda mesmo extintas e derrogadas, as instituições dos povos são coisa santa, digna de toda veneração". "Nenhum utopista, seja ele um gênio, tem o direito de profaná-las. A razão social condena uma tal impiedade." 

As "razões sociais" do cativeiro no Brasil eram muitas, segundo o autor. Em primeiro lugar, de ordem econômica, já que era pelo trabalho escravo que se mantinha a produtividade das unidades agroexportadoras do século 19. Depois, política, já que era daí que o Estado tirava recursos para existir.

Mas também "social", já que, segundo Alencar, a instituição no Brasil trazia a promessa de inserção, como cidadão (ainda que parcial), do escravo alforriado e de seus filhos.

Finalmente, num raciocínio pouco usual na época, Alencar, de certa forma prefigurando Gilberto Freyre, autor de "Casa Grande & Senzala", afirmava que a escravidão permitia a existência de uma cultura original no Brasil, fruto da "miscigenação" de costumes entre "brasileiros" e negros africanos.

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CARTAS A FAVOR DA ESCRAVIDÃO
Autor: José de Alencar
Organizador: Tâmis Parron
Editora: Hedra
Quanto: preço a definir (160 págs.)

Fonte: FSP, 8/10/08

Leia aqui a segunda matéria sobre o mesmo tema.