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terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (31) - A chuva e o choro, Wmofox



A CHUVA E O CHORO - WMOFOX


A chuva chove chuva.
Chuviscos, chiados...
Suave som das gotas.
Gotas úmidas, molhadas.
A chuva chove.

O choro chora choro.
Lágrimas, suspiros...
Leve ardor das gotas.
Gotas úmidas, molhadas.
O choro chora.

O mundo chora.
Meu mundo chora.
Nossa natureza transige.
Somos um só.

A chuva chora.
O choro chove.

Suave som, suspiros...
As gotas de lágrimas.
Lágrimas que choro.

Olhos molhados.
Gotas molhadas.
Que choro.


Wmofox, 13.09.2002

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COMENTÁRIO:

Para fechar o mês de leitura de poesia, acabei fazendo um exercício de reler poemas meus já publicados no blog. São algumas dezenas de poemas nessas quase duas décadas de existência do Refeitório Cultural.

Li os primeiros vinte poemas publicados para escolher um deles. Deu trabalho! Gostei neste momento de uns cinco ou seis com temas sensíveis para escolher um para hoje.

Ler os próprios poemas é muito diferente de ler poemas de outros autores e autoras. Sei o que se passava com o autor e o Eu-lírico em cada um deles. Momentos duros, momentos singulares. 

Como disse no "Poema marciano número dois", de Mario Quintana, que escolhi ontem, "Tudo é singular". Eu também sou. Todos somos.

Durante muito tempo usei o pseudônimo Wmofox em meus poemas. Coisas de criação poética e literária.

Quase escolhi o poema "Comala" (ler aqui) em homenagem ao escritor mexicano Juan Rulfo e o clássico "Pedro Páramo", recém-lançado como filme e que não vi ainda. Li o livro duas vezes e sou apaixonado pela obra.

Também balancei com a leitura do poema "Escalar" porque ele me agrada muito (ler aqui). Quase escolhi ele, mas minha fase da vida é outra.

Escolhi "A chuva e o choro" por achá-lo adequado para o momento do mundo, talvez do autor também. Poderia ter escolhido "A fome do homem" porque também é de temática muito atual (ler aqui).

O genocídio do povo palestino é uma das realidades que mais sofrimento causa ao meu coração. A miséria imposta ao povo cubano pelos EUA é de chorar, é de cortar o coração. A destruição dos biomas, a morte da natureza também me amargura diariamente. Dureza. De chorar!

Enfim, encerro o mês de leitura de poesia. Conheci autoras e autores novos, agucei um pouco minha sensibilidade para imagens poéticas.

Sigamos vivendo e lendo poesia, lendo clássicos da literatura, tentando ser uma pessoa correta, tentando melhorar o mundo do jeito que der. Sigamos.

William

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Língua Espanhola I - Ano 2002 (II)



Refeição Cultural

Revisita aos estudos de graduação na FFLCH-USP


Folheando um pouco a apostila do primeiro ano de estudos de idiomas, achei interessante rever o fenômeno do Yeísmo na Língua Espanhola.

Para deixar uma referência atual, cito abaixo a definição do fenômeno do dicionário da Real Academia Española (RAE):

Yeísmo - 1. m. Fon. Desaparición de la diferencia fonológica entre la consonante lateral palatal y la fricativa palatal sonora, de manera que, en la pronunciación, no se distinguen palabras como callado (silencioso, reservado) e cayado (bastón, palo).

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Na apostila, tem uma seção inteira dedicada ao tema. Transcrevo o texto abaixo para fins didáticos.

LL - Y (delante de vocales)

La pronunciación de los fonemas representados por la LL e por la Y (esta con vocales) se hace distintamente en el mundo hispánico.

a) Distinción entre LL / Y: la LL se pronuncia como la LH del portugués y la Y con un sonido consonante. Algunos hablantes de España y de buena parte de América (sobre todo del altiplano andino) distinguen la pronunciación de estos fonemas, pero actualmente hay una fuerte tendencia a igualarlos.

b) El yeísmo: consiste en igualar la pronunciación de la LL a la de Y. El yeísmo está muy difundido en Hispanoamérica, aunque presente diferencias, por exemplo: en la región del Río de la Plata, la LL/Y suenan como la J del portugués, en Chile la pronunciación de estos fonemas es más suave que la pronunciación rioplatense y en el Caribe la pronunciación de la LL/Y se aproxima de una I. En España el yeísmo se está imponiendo a la distinción LL/Y.

Según Manuel Seco, el yeísmo existe hoy en España (ou seja, 2002): en toda Andalucía, en Murcia (sólo en las ciudades), en Extremadura, en Castilla la Nueva (principalmente en Madrid, Toledo y Ciudad Real), en Castilla la Vieja (Ávila, Valladolid), en Cantabria (Santander), en León (Salamanca, capital), en Asturias (Oviedo y Gijón), en Cataluña (Cuencas del Ter y Llobregat) y las Islas Baleares y Canarias.

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COMENTÁRIO:

Como falante de língua portuguesa que aprendeu língua espanhola, posso dar o depoimento de experiências locais ao ouvir falantes de espanhol.

Já estive em Madri e Toledo, na Espanha. Já estive também no Chile, Argentina, Uruguai e em Cuba. Por ter estudado o idioma, fiquei atento aos falares nessas regiões.

De fato, na Argentina e Uruguai é muito claro o Yeísmo com som de J ou CH do português. No Chile é bem suave a pronúncia. Em Cuba eu consegui perceber o som mais próximo ao I. E a fala dos espanhóis de Madri é bem mais "cantada" em relação às falas dos hispano-americanos.

O estudante de espanhol precisa treinar o ouvido para os diversos "acentos" dos falantes da língua.

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LA "LL"

CALLE  VILLA  LLORAR  LLUVIA  CALLISTA  ESTRELLA

No hay pueblo como mi pueblo,

ni valle como mi valle,

ni casa como mi casa,

ni calle como mi calle.


La chiquilla, con la lluvia, a la villa lleva la llave.

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LA "Y"

AYUDAR    YERNO    YA    YO    YUGULAR    HOYO

Ya viene mayo, mayo,

Ya viene el rumbo,

Ya viene la alegría

pa todo el mundo.


¡Ay, mal haya, mal haya

mi cobardía,

que por ser yo cobarde

no eres tú mia!


El yerno del yegüero da yerba a la yeguada.


Referências: Valmaseda Regueiro, 1992.

Textos y grabaciones adaptados de BRUNO, Fátima C. & MENDOZA, Maria Angélica. Hacia el español 1. São Paulo, Saraiva. Unidad 8, Hacia Letras y Sonidos.

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Tradución:

Yerno: genro

Yegua: hembra del caballo

Yerba: erva, capim

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A primeira postagem deste tema pode ser lida clicando aqui.

William


Fonte: Apostila da Faculdade de Letras/USP, 2002.


sexta-feira, 29 de março de 2024

Língua Espanhola I - Ano 2002 (I)



Refeição Cultural

Revisita aos estudos de graduação na FFLCH-USP


Entrei na Universidade de São Paulo no vestibular do ano de 2000 e comecei a cursar a Faculdade de Letras em 2001. Já não era um jovem se comparado com a maioria dos estudantes do curso noturno, que tinham uns dez anos a menos que eu. Fiz o primeiro ano do Ciclo Básico com 32 anos de idade. 

No ano seguinte, comecei a cursar a Língua Espanhola, a habilitação que escolhi durante o Ciclo Básico, juntamente com a habilitação em Português. 

O curso de graduação acabaria por se estender por muitos anos porque eu era sindicalista e todos os segundos semestres eu tinha dificuldades de assistir às aulas porque era o período de data-base da categoria bancária. Com o tempo, até os professores sabiam que eu teria dificuldades em concluir as disciplinas se a campanha dos bancários fosse complicada.

LÍNGUA ESPANHOLA

Estava revendo a primeira apostila de Língua Espanhola e achei interessante o material. Estou falando de um material didático de mais de duas décadas atrás, praticamente não existia a internet como nós a conhecemos hoje. Os estudantes de línguas tinham que ouvir fitas cassete em laboratórios para terem contato com a língua que estavam estudando.

ALFABETO

Na época do curso, o alfabeto espanhol continha 29 letras. Fui consultar agora, no curso de espanhol do ICL e a professora Pilar explicou que o alfabeto contém 27 letras porque o LL e o CH passaram a ser considerados dígrafos desde a Reforma de 2010.

Ou seja, essas mudanças acontecem nas línguas vivas, com o passar do tempo podem ocorrer mudanças nas normas e usos das línguas.

Finalizo esta postagem de revisita aos estudos de Língua Espanhola com um poema de Pablo Neruda, que nós estudamos na aula de idioma para conhecer as diferentes formas de falar LL e Y porque existe o fenômeno do Yeísmo na Argentina e Uruguai, com o som diferente da maioria dos países que falam a língua.

POEMA XV

Me gustas cuando callas

porque estás como ausente

y me oyes desde lejos

y mi voz no te toca.

Parece que los ojos

se te hubieran volado

y parece que un beso

te cerrara la boca.

Me gustas cuando callas

porque estás como ausente,

y estás quejándote,

mariposa en arrullo,

y me oyes desde lejos

y mi voz no te alcanza.

Déjame que me calle

en el silencio tuyo.


(In: XX poemas de amor y una canción desesperada)


A apostila perguntava para os alunos, após ouvirem o poema declamado por uma pessoa da Espanha e outra da Argentina, qual era a diferença que mais chamava a atenção.

O Yeísmo, um som mais de "lh" na Espanha e mais de "ge" ou "dje" na Argentina. O LL e o Y também podem ter um som mais próximo ao "i" em algumas regiões de fala espanhola como no Caribe, por exemplo.

Fiz uma postagem sobre o fenômeno do Yeísmo, para ler é só clicar aqui.

É isso. As minhas lembranças da Universidade de São Paulo são algumas das melhores de minha vida de estudante. Entrei lá pensando em ser professor, mas as veredas da vida me levaram para outros caminhos.

William


quarta-feira, 7 de maio de 2008

Poema - Verbo iludir conjugado


Eu me iludo.
Tu te iludes.
Será que eu te iludo?

Muitos não se iludem.
Melhor se se iludissem...
Quem se ilude, sonha.

Mas vós que sonhais,
Não vos iludais...
Praticai...

Pois, normalmente...

Eles sonham,
Não praticam...
E se iludem.


Wmofox, 13.09.2002

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Crônica - Primeiro dia como ajudante de encanador



Introdução

Lendo “Angústia” de Graciliano Ramos (1936)...

Estou no capítulo 33 (ou fragmento, pois a numeração é minha). O personagem, Luís da Silva, está em transe refletindo sobre o passado. De suas reflexões, tiro algumas frases acerca de Julião Tavares - personagem safado que lhe tira a noiva, a vida etc.

...costume que os cangaceiros têm de marcar os inimigos com ferro quente”.

Pensando em matar Julião: “que é que me podia acontecer? Ir para a cadeia, ser processado e condenado, perder o emprego, cumprir sentença. A vida na prisão não seria pior que a que eu tinha”.

Mais à frente: “lavo as mãos uma infinidade de vezes por dia... preciso muita água e muito sabão. Viver por detrás daquelas grades, pisar no chão úmido, coberto de escarros, sangue, pus e lama, é terrível. Mas a vida que levo talvez seja pior”.

um crime, uma ação boa, dá tudo no mesmo. Afinal já nem sabemos o que é bom e o que é ruim, tão embotados vivemos”.


TÃO EMBOTADOS VIVEMOS

Tão embotados vivemos” é uma boa frase. Foi escrita por Graciliano Ramos há quase setenta anos. E acho que já vivíamos embotados há muito tempo. Pegávamos homens negros quinhentos anos atrás e tínhamos a eles como animais, macacos. Mas... lendo livros duros, secos, como esses de Graciliano, pego-me lembrando instantes, tempos remotos de minha vida.


Primeiro dia como ajudante de encanador

Naquele dia em que estava quebrando aquele esgoto, com ponteiro, talhadeira e marreta, sentia um milhão de sentimentos. Sentimentos duros, secos. Um dos mais fáceis de definir era o de ódio, raiva. Raiva de tudo, da vida. Era ajudante do seu Joaquim, encanador. Ele até que era um velho simpático, teve paciência comigo. Aquele moleque de uns quinze anos, de mãozinha fina, não tinha cara de quem aguentava cortar concreto. Me lembro do primeiro dia...

Levantei-me cedo, peguei a bicicleta e fui para o trabalho. Era uma casa em construção. Era muito grande. Chegando lá, fiz de conta que era durão. Seu Joaquim me deu as ferramentas e entramos na obra. A peãozada me olhava com olhos que me intimidavam. Acho que viam e achavam que eu não tinha jeito pra aquilo. Seu Joaquim me mostrou o banheiro e me disse que deveria quebrar ali do canto, onde ficaria o vaso, até o outro lado. Dava mais ou menos um metro e meio de corte no concreto. Me olhou meio duvidoso e disse que precisava sair para ir em outra obra. Lá estava eu, só, naquele banheiro em construção, com talhadeira, ponteiro e marreta para trabalhar. Nunca pensei (pensaria) que quebrar concreto fosse tão difícil. O concreto era muito forte, pois era o segundo piso e este tinha que ser reforçado.

Nas primeiras marretadas que dei, tudo que saía do chão era faísca. Após alguns minutos, comecei a sentir um calor percorrer meu corpo. Era o calor da vergonha, da humilhação. Se alguém entrasse e visse aquele chão intacto e aquele pivete suando, eu não teria onde enfiar a cabeça. Comecei a bater com força, com sede de orgulho. Não queria e não podia desistir. Comecei a errar o ponteiro e a marretar minha mão, meus dedos. Aquilo doía pra burro. Comecei a tirar algumas lascas do chão. Até me animei. -Ah! Mas esse nosso corpo adaptado à vida cotidiana! Essas mãos de pele fina que não conhecem o peso de movimento repetitivo! Estavam já a bulir comigo.

Uma hora depois, já havia conseguido fazer um pequeno buraco no concreto. Faltava agora só alargá-lo (para caber um cano de esgoto) e levá-lo um metro e meio adiante. Minha mão esquerda estava muito doída, pois já havia levado muita porrada. Mas a direita... a direita é que era o problema. Eu tinha bolhas grandes. Grandes e cheias de líquido. Era uma na parte interna do dedão; duas no indicador – uma em cada dobra; duas na palma da mão – no início do indicador e do maior de todos. Estava doendo muito pra segurar a marreta. Juro que não me lembro se chorei ali. Até porque algum peão-de-obra poderia me ver ou o velho poderia retornar. Chorar não dava. Só por dentro. Já vinha sendo assim desde que cheguei em Minas Gerais – menino branquelo, raquítico e que era mal-acostumado a só brincar e ir para a escola.

Nós mudamos nossa vida e nos mudamos ao toque daquilo que temos que enfrentar. Nunca deixei de ser aquele garoto, aquele adolescente que viveu momentos de ânsia de força para não dar o braço a torcer. E que cada vez que superava a dor e o choro, voltava diferente para casa, para o mundo, para a vida.

Aquela manhã de meu primeiro dia de ajudante de encanador me ajudou a ser o que sou. É assim nas passagens da vida de todos. Depois daquela experiência, tive tantas outras...

A superação da dor, me parece que ocorre por dois motivos: por amor ou por ódio. Quanto mais doía, mais fui pegando a marreta e mais fui endurecendo. Força e dor. Vergonha e dor. Quase gritava. Consegui bater com muita força e comecei a furar, vencer aquele concreto. Não deixei de acertar a mão esquerda de quando em quando. É que, às vezes, vacilava. Voltava a ser aquele que entrou às oito da manhã para trabalhar.

Hora do almoço. Hora do rango, do bagerê.

Quando cheguei a minha casa, minha mãe (mãe é mãe) começou a chorar. Desabei – chorei também. Acho que doía olhar para minhas mãos. E pareciam enormes. Estavam inchadas. Choramos. Dores. Dor de mãe. Dor de filho... Meu pai chorou. Se sentiu um fracassado. Não era isso que ele queria dar aos filhos. Dores...
Almoçamos.

Minha mãe pediu para que eu não voltasse. Choramos.

Eu tinha uma decisão a tomar. Orgulho. Dor. Precisão. O cara que saiu não era o cara que voltou. Para que teria valido tudo o que já tinha feito se não voltasse? (ora, trabalhei meio período!). Nossa situação estava feia. Precisávamos de dinheiro. Adolescente não consegue emprego fácil. Interior... pior.

Choramos.

Voltei do almoço.

Foi um dos dias mais... doloridos de minha vida.

Voltei no dia seguinte.

Trabalhei a semana toda. Recebi um vale.


Trabalhei muitos meses com seu Joaquim. Às vezes, tinha moleza. Era o dia em que ele me pedia para lavar o seu carro, um corcel.

O esgoto que comecei quebrando neste texto, não foi o da construção. Foi um esgoto com muitos anos de uso. Foram meses de trabalho duro. Muito fedor. Muito. Não posso dizer que estive na merda. Eu mexia, às vezes, com ela. Mas era o meu trabalho.

Trabalhei.

Endureci.

Interessante que hoje, tantos trabalhos desse depois, parece que estou amolecendo. Deve ser a experiência do tempo. É uma sensação tão estranha! Mas a maneira como vejo a vida, a morte, a miséria, é muito particular.

Houve tempos em que me perguntava, assim como Luís da Silva, “que é que me podia acontecer?

Maneiras de viver.

Maneiras de ver o mundo.

Modos de crescer, de sobreviver.

É isso.


Wmofox, 20.11.2002


Post Scriptum: 

Interessante o que diz o crítico espanhol José Bergamin em sua teoria do romance: “o leitor perde-se no romance para esquecer o seu mundo, mas reencontra-se lá, reconhecendo que o seu próprio mundo está chamado a desaparecer: perder-se para encontrar-se, para perder-se”.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Artigo - Que decepção! Poucos humanos nas "humanidades"


Biblioteca da FFLCH - USP. Foto: site da universidade.

(texto exposto nos murais da FFLCH - USP em 2002)


Terça-feira, dia seguinte ao da assembleia da Letras, que debateu e deliberou sobre os problemas de violência e estupros que ocorrem há tempos na USP e que, apesar de não serem muito divulgados (afinal, é a marca USP), precisam ser resolvidos.

Peço a palavra à professora para dar os informes das duas atividades programadas. Feito.

Não querendo estender muito o assunto, haja vista que era só um informe e o debate havia sido feito no dia anterior com os presentes à assembleia, quero deixar aqui, traços da longa discussão que temos que fazer nesse mundo, nessa sociedade e nesse Campus Universitário.

Em menos de cinco minutos, ouvi as seguintes propostas e frases dos presentes em sala, incluindo a professora:

“- Temos que pôr catraca aqui na faculdade”;
“- É um absurdo qualquer um entrar aqui”;
“- Tem que haver repressão sim...”;
“- Tem que pôr a PM rodando aqui dentro”;
“- Imaginem os outros virem aqui estragar nossos livros”. (referindo-se às "nossas bibliotecas")

Afinal de contas, será que entrei no lugar certo? Achei que havia entrado em uma faculdade de humanidades!

Fui embora pensando comigo como a melhoria dessa sociedade vai demorar para ocorrer.

Quando disse que melhoraremos a sociedade com educação e não com repressão ou retirando o direito dos cidadãos, ouvi a seguinte frase: “- Ah, mais até isso acontecer vai demorar!”.

Ora, volto a perguntar, será que estou no lugar certo?

Eu poderia ouvir isso de um comandante da PM (e nem todos diriam isso!) e não dentro de uma sala de aula na Letras, na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), na USP. Se as pessoas dessa sala não acreditam no poder da educação, o que estão fazendo ali?

É uma decepção!

É como uma garota da FEA (Faculdade de Economia e Administração), que, em uma entrevista na Revista dos Bancários, dizia ao achar um absurdo os alunos de lá estudarem para deixar o Bradesco mais rico e não para encontrarem soluções para a desigualdade e má distribuição de renda do País.

Será que não passa pelas cabeças desses nossos colegas que estudamos com dinheiro de impostos pagos pela comunidade? Que quando a USP fecha seus portões para a população, e suas bibliotecas, o MAC, e tudo o mais, está privando os cidadãos de um bem e de um patrimônio da cidade e Estado que esta mesma população mantém?

Depois a mesma USP que se fecha à população vai até ela dizer que: “- Precisamos que a comunidade saiba o que ocorre aqui dentro”.

- Por favor, menos hipocrisia!

Não posso ficar ouvindo pessoas defenderem o fechamento dos portões da USP para a comunidade. Muito menos ouvir que pessoas que não passaram na Fuvest não podem vir aqui consultar “os nossos livros” porque eles roubam e estragam, ou que quem não for aluno não entra em “nossos prédios”.

Essas soluções são parecidas com esta: vamos fechar os banheiros aqui da FFLCH, pois os alunos escrevem tanta porcaria nas paredes que não dá mais para manter esse serviço. Afinal, vamos reprimir. Para que educação?

Será que dá para os humanos se colocarem no lugar dos outros, antes de se dizer: “- tirem isso e proíbam aquilo”?

Posso assegurar a todos que é muito ruim uma pessoa honesta e que não teve as mesmas oportunidades que alguns (não escolhemos berço e nem cor ao nascer) ter seus acessos negados. (e sabemos das estatísticas de negros e pobres nas universidades públicas).

Muitos de nós, estudantes da USP ou outra universidade pública, que defendem fecharem acessos, talvez tenham sido cidadãos com os seus acessos fechados ou direitos restringidos.

Anos atrás, o cidadão que vos fala, como morador de bairro circunvizinho à USP, corria em seu Campus até o dia em que foi barrado na portaria porque a reitoria havia decidido que a comunidade não entraria mais aos finais de semana.

Dois anos depois, o mesmo cidadão que vos fala, cursando em outra faculdade, precisou usar as bibliotecas da USP (- Ufa! Não havia catraca!).

Assim como, usando do direito que a lei me faculta, assisti aulas como ouvinte nas dependências da FFLCH, de onde, fascinado, saí decidido a entrar. Entrei, mas faltam muitos ainda para entrarem nas faculdades públicas.

Será que temos que proibir, fechar, restringir, reprimir, cobrar, privatizar etc etc?

Ou será que temos que cobrar contratação de mão de obra qualificada para proteger a comunidade uspiana como um todo (alunos, professores, funcionários e cidadãos)? E cobrar mais geração de emprego, aumentando o número de circulares (ônibus), entre outras propostas mais humanas?

Pensem a respeito!

Pensem! Essa é uma dádiva do ser humano.


William M. Oliveira (13.12.02)
Aluno de Letras Espanhol-Português (passei pelo famigerado ranqueamento)
Diretor eleito do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Crônica - Reflexões de um objeto inanimado que enquanto unidade teme a queda, a quebra, o fim


Do grão ao objeto, do objeto ao grão.
Foto: Cerâmica Tupi Guarani (Wikipedia)

Talvez a coisa com os humanos seja assim também.

Naquele tempo em que éramos muitos, milhões, milhões, a vagar por aí, ao sabor do vento, ora aquecidos pelo sol, soltos, ora unidos e úmidos pelas ondas do mar, que nos levava e trazia incessantemente, faltava algo, faltava algo.


Penso no caso humano e vejo semelhanças. É certo que tudo são átomos, átomos, moléculas, moléculas. Elas vêm e vão. Se unem, se desunem. E o mundo segue.


Tenho forma hoje. Tenho unidade. Tenho essência. Tenho função. Não que não tivesse como grão. Mas tenho forma. Não sou mais primário. Entende a diferença? Fui aquecido, unidado, formatado. Não sou mais primário.


O humano também foi um amontoado de átomos soltos. Átomos, minerais. Carbono, nitrogênio, cálcio, hidrogênio. Mas a união... Ah! a união! O ser não é mais um aglomerado de átomos moléculas células. Agora ele tem um formato.


Às vezes, valho mais; às vezes, valho menos. Mas existo. Sou real. Palpável. Sou inanimado, é certo. Mas sou perecível. Sou unidade, então existo; quebro, estilhaço, então morro. Já era.


Todos os seres humanos valem. Conceito ambíguo! Valem muito. Valem pouco: mata, rouba, não cumpre a lei, não vale. (Não vale ao alheio). Talvez seu filho, mãe, pai, canário, cachorro o ame. Cachorro!


Vejo semelhanças.


Dúvidas, anseios, medos pela incerteza.


A grande pergunta é: e depois?


Como será quando me quebrar, trincar, estilhaçar? Haverá continuação, eis a questão?


Sei que à natureza voltarei. Mas e o meu eu? Meus cacos estarão por aí, é certo! Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Mas, e eu? Minha experiência, sensações, lembranças. Eu as tenho enquanto unidade. Sou. Estou.


Temo!


O homem cresce, se lapida (às vezes não). Cria o seu eu, sua consciência - o indivíduo da unidade, da forma. Novamente, é certo: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. O mundo está moderno. Partes de si (dele, homem) durarão um pouco mais (talvez): olharão, bombearão sangue, filtrarão, é certo. Mas a unidade se desfazerá... mau cheiro, micróbios, natureza, adubo etc, ou pó.


Então o homem teme. Tanta labuta, tanto ler, sentir, fazer, amar, chorar, rir, ferir, ganhar, perder, parir, sem saber se quando não houver mais unidade, haverá consciência do indivíduo que era unidade. Sem perda, numa possível sequência.


Entendo a angústia humana há tantos séculos partilhada.


Entendo. Entendo.



Wmofox


(texto originalmente de 2002. Há neologismos como licença poética.)