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domingo, 23 de agosto de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (10)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


Enquanto leio o capítulo 21 das memórias do Zé Dirceu, reflito sobre a atualidade complexa do calendário eleitoral brasileiro em 2026.

O líder petista está nos contando os bastidores do partido nos anos noventa e quem viveu aquele período como cidadão politizado - letrado politicamente - vai relembrando o quão miserável é esse país da casa-grande e da elite canalha, mancomunada com a imprensa golpista e com um judiciário subserviente aos donos do poder e do dinheiro. 

Isso não muda! Não mudou! Não sei se mudará um dia, pois fazendo as coisas do mesmo jeito, os resultados não serão diferentes. 

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21. LULA TOMA AS RÉDEAS DO PT

A decisão de enfrentar FHC e os escândalos dos tucanos, colocados debaixo do tapete, com a ajuda da mídia 

Zé Dirceu nos conta como se deu o 10° Encontro do partido. Nos revela que Lula chamou ele para se colocar à disposição de ser presidente do PT. 

"Mas qual não foi minha surpresa ao encontrar um Lula decidido a tomar as rédeas da direção do PT. No primeiro momento, ele começou a se explicar ou mesmo a se 'desculpar' sobre a questão Covas e a falta total de apoio à minha campanha, diariamente 'sabotada' pelo entourage lulista (...) Susto maior tomei ao ouvir de Lula a proposta de me apoiar em uma candidatura à presidência do partido..." (p. 273)

Depois, lemos que a direção do PT, após o 10° Congresso, definiu claramente a orientação e os objetivos do partido: "transformar e consolidar o PT como instituição. Afirmar a vocação do partido para o poder, abri-lo para as alianças e para poder governar, assumir nossos governos e conquistar, ao governar, a adesão da maioria do eleitorado e da sociedade..." (p. 276)

Comentário: fica claro para as amigas e amigos leitores, sejam simpatizantes ou não ao PT, que desde essa época, 1995, o partido não é movimento nem frente, não existe só pra marcar posição, como muitos partidos de esquerda. O PT quer governar e entregar direitos à sociedade com a realidade que temos nas bases sociais, o PT compõe e faz alianças, se não fizer isso, não governa.

O capítulo é longo, são vinte páginas de história. Me lembrei de muitas passagens que Zé Dirceu conta no livro. Exemplos: compra de votos para a reeleição de FHC, as privatizações criminosas, o Caso da "Pasta cor-de-rosa", o Caso Sivam etc.

"Era a velha tática tucana - amplamente benéfica aos rentistas e ao capital externo - de juros altos, câmbio valorizado, inflação baixa, déficit público. Privatizações, importações, abertura comercial e financeira. Crescimento medíocre e aumento do desemprego." (p. 289)

Comentário: e antes que os leitores falem do compromisso do 3° governo Lula com a questão fiscal e teto de gastos, insinuando que o Lula seria a mesma coisa que liberais tipo FHC, basta lembrar que os tucanos tinham maiorias no Congresso, assim como os golpistas Temer e Bolsonaro. O PT nunca teve essa condição no parlamento.

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COMENTÁRIO FINAL 

Enfim, já estamos sofrendo interferência violenta nas eleições brasileiras de 2026. 

Além da mídia comercial canalha, temos uma justiça eleitoral parcial, é minha leitura e de boa parte da mídia progressista, e temos interferência pesada das big techs e do governo fascista de Trump.

Está claro que há uma operação Lava Jato 2 em andamento, protegendo o candidato do clã Bolsonaro e uma utilização da justiça para prejudicar Lula, através de uma perseguição escandalosa a seu filho Fábio Luís, apelidado pela mídia golpista "Lulinha".

Enquanto enfrentamos esses desafios de manipulação da opinião pública e eleitores, ainda tem o fogo amigo dos "esquerdistas", como nos ensinou Vladímir Ilitch Lênin, em seu clássico texto de 1920: "Esquerdismo, doença infantil do comunismo" (comentário aqui).

Seguimos nas lutas, não há outra alternativa. 

ELEIÇÕES 

Em SP, voto e peço votos a Luna Zarattini 1302, Marcolino 13310, Marina 180, Tebet 400, Haddad 13 e Lula 13.

William 

23/08/26

sábado, 22 de agosto de 2026

Meu pai e Santos Dumont (1)



Refeição Cultural

Na casa de meus pais, em Minas Gerais, tem um livro antigo, dos anos setenta, sobre Alberto Santos Dumont, uma biografia. 

Perguntei sobre o livro, certa vez, e meus pais me disseram que era para meu pai participar de um programa de TV no qual a pessoa respondia sobre a vida de alguma personalidade. Era no Silvio Santos, se não me engano. 

Já folheei o livro diversas vezes ao longo do tempo. É um catatau, tem 500 páginas. O livro se chama As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont, de Fernando Jorge.

Meu querido pai fará 84 anos nos próximos dias. Ele tem uma história de vida incrível. Dias atrás, li um texto dele muito emocionante, no qual descreve sua vida e da família ao longo de décadas (comentário aqui). 

Enquanto lia o memorial de meu pai, via a história do Brasil desde a década de quarenta e os acontecimentos políticos que impactaram a vida de milhões de brasileiros como ele, gente simples da classe trabalhadora. 

Fiquei pensando dias atrás, quando estive lá em Uberlândia no dia dos pais, o que poderia fazer para estimular a memória e a capacidade cognitiva de meu pai, que já não tem a mesma agilidade que sempre teve na criação e imaginação para as coisas do cotidiano. Meu pai sempre foi um inventor e solucionador de problemas domésticos. 

Sugeri a ele reler o livro sobre Santos Dumont. Na verdade a leitura seria como uma primeira vez, devido ao tempo decorrido após o estudo do livro há tantas décadas. A biografia de nosso grande inventor brasileiro, o pai da aviação, deve ser muito interessante. 

Sempre que lemos um livro lido muito tempo antes, fazemos uma nova leitura, porque somos outra pessoa. 

A ideia seria eu ler também e conversar por ligação com meu pai para comentarmos sobre a leitura. 

Meu pai talvez não leia, alegou dificuldades, mas quem sabe eu consiga ativar um pouco a memória dele lendo aos poucos e conversando com ele.

Enfim, a gente não tem receita mágica para tentar interagir e apoiar as pessoas com mais idade e ou com as dificuldades cognitivas que a vida nos impõe. Mas não custa tentar alguma coisa. 

Vamos ler a biografia do grande brasileiro Santos Dumont. Vamos conversar com o senhor Palmério sobre o inventor do avião. 

William 

22/08/26


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Diário e reflexões


Paralisação no BB Verbo Divino. Foto: Sindicato 

Refeição Cultural

Sexta-feira, 21 de agosto de 2026.


ELEIÇÕES 

O calendário de campanha das eleições brasileiras teve início nesta semana. Serão eleições duríssimas para nós da classe trabalhadora e das classes subalternas e populares, a base da pirâmide econômica da sociedade.

Na minha leitura, baseada na experiência política que adquiri ao organizar e representar os trabalhadores por muitos anos, as eleições serão as mais complicadas desde a redemocratização do país e vigência da Constituição Federal de 1988. 

Há uma guerra explícita contra a reeleição do presidente Lula e para que o Congresso Nacional não seja renovado com uma representação maior do povo pobre e trabalhador. Os donos do poder farão de tudo para manter a maioria esmagadora de parlamentares vinculados a eles.

Em SP, voto Luna Zarattini 1302, Marcolino 13310, Marina 180, Tebet 400, Haddad 13 e Lula 13. 

Se vocês, leitores do blog, puderem, participem da campanha e me ajudem a pedir votos aos nossos candidatos e candidatas.

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CAMPANHA SALARIAL DOS BANCÁRIOS

Ontem, participei da paralisação nacional da categoria bancária. Estive com as companheiras e companheiros do Sindicato na concentração do Banco do Brasil da Verbo Divino, na região Sul da cidade. A participação dos trabalhadores foi excelente!

Na próxima semana, o Comando Nacional dos Bancários se reunirá novamente com os banqueiros e esperamos que os bancos façam propostas que atendam às reivindicações da categoria.

À noite, estive no aniversário da companheira Deise Recoaro, militante com quem aprendi muito no movimento sindical. Encontrei muita gente querida, amigas e amigos de longas jornadas de lutas.

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LEITURAS E ESTUDOS

Estou tentando ler e estudar diariamente. É só lendo e exercitando nosso cérebro, verdadeiro criador de tudo, como nos ensina o neurocientista Miguel Nicolelis, que podemos seguir evoluindo como seres humanos e como seres incompletos que somos, como ensina o professor Paulo Freire.

Li Machado de Assis e as memórias de José Dirceu. No final desta sexta-feira, li em voz alta o conto "Entre santos", de 1886, do Bruxo do Cosme Velho.

Sigamos lutando por um mundo melhor.

William

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Um apólogo - Machado de Assis



Refeição Cultural

Conto publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 1° de março de 1895 (com o título "A agulha e a linha") e depois reunido no livro de contos Várias histórias, em 1895.

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UM APÓLOGO

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu.

Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde  me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

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COMENTÁRIO DO BLOG

Este conto breve é muito interessante! Na primeira publicação, na Gazeta de Notícias, Machado de Assis o chamou de "A agulha e a linha", segundo o estudioso John Gledson. Quando a narrativa foi reunida em livro, o escritor a denominou "Um apólogo".

Apólogo é uma narrativa moral, um texto com personagens inanimados que ganham voz e ação (prosopopeia) e participam da história contada.

Nesta história que nos mostra a disputa de vaidade entre a agulha e a linha, debatendo entre elas qual seria mais importante, podemos observar que ambas têm seu valor no trabalho de coser as roupas que depois serão usadas pelos humanos em ocasiões diversas. 

No entanto, uma acabou "vencendo" o debate, como acontece hoje nas disputas alimentadas em redes antissociais que dominam o universo humano neste momento da história. 

Uma não realizaria o trabalho sem a outra na história. Linha sem agulha ou agulha sem linha demonstra a importância do trabalho conjunto. 

Poderíamos usar essa narrativa moral em diversos exemplos de nossa vida em sociedade. Precisamos uns dos outros. 

Uma obra pública financiada com recursos do governo federal e do estado ou município só saem do papel pela ação de ambos. Porém, governos locais usam omitir do povo a ação decisiva do governo federal.

Enfim, o conto machadiano, o apólogo, é mais atual que nunca, se pensarmos no cenário das eleições brasileiras de 2026. 

Lula recuperou o país após a tragédia bolsonarista, organizou a economia e está financiando estados e municípios em obras importantes. E os prefeitos e governadores, sem caráter ou ética, omitem essa informação por motivos políticos. 

Sigamos lendo literatura de qualidade e melhorando nossa interpretação do mundo. 

William 

18/08/26

sábado, 15 de agosto de 2026

A cartomante - Machado de Assis



Refeição Cultural

Após o conto, faço um breve comentário a respeito de impressões que tive na leitura.

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A CARTOMANTE 

Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras. 

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade... 

— Errou! interrompeu Camilo, rindo. 

— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria... 

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois... 

— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa. 

— Onde é a casa? 

— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca. 

Camilo riu outra vez: 

— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe. 

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranquila e satisfeita. 

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando. 

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante. 

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo. 

— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor. 

Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição. 

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor. 

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as coisas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração, não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as coisas que o cercam. 

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas. 

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato. 

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo. 

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível. 

— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a... 

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas. 

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas coisas com a notícia da véspera. 

— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel. 

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a ideia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a ideia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto. 

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a ideia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo. 

"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..." 

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino. 

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho: ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a ideia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça: 

— Anda! agora! empurra! vá! vá! 

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras coisas; mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas coisas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários: e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...? 

Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve ideia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio. 

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe: 

— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto... 

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo. 

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não... 

— A mim e a ela, explicou vivamente ele. 

A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela curioso e ansioso. 

— As cartas dizem-me... 

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta. 

— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante. 

Esta levantou-se, rindo. 

— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato... 

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço. 

— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar? 

— Pergunte ao seu coração, respondeu ela. 

Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis. 

— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranquilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo. 

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras coisas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo. 

— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro. 

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer coisa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz. 

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável. 

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela. 

— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há? 

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

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COMENTÁRIO DO BLOG

Os contos de Machado de Assis são extraordinários! Fazia tempo que não relia este conto, publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 28 de novembro de 1884, e depois reunido a outros contos no livro Várias histórias, de 1895. As informações são de John Gledson, do livro 50 contos de Machado (2007, 14ª reimpressão).

Após descobrir o desfecho da história de Vilela, Camilo e Rita, e voltar ao texto, é muito interessante identificar as características que o escritor vai apresentando de cada um dos personagens e até os valores de época, daquela sociedade na qual os personagens estão inseridos culturalmente.

A descrição e caracterização de Rita não deixam dúvidas sobre a forma como as mulheres são vistas naquela sociedade. 

Rita: "uma dama formosa e tonta"; "era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa". Ela era mais velha que os amigos de infância, tinha 30 anos, enquanto Vilela tinha 29 e Camilo 26.

Em outro momento, quando o narrador aponta Rita como a responsável pela situação da trama, nos lembra um pouco da "mulher balzaquiana", coincidentemente nossa personagem tem 30 anos: "os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele..."

Vilela tem "porte grave", é formado em advocacia e foi da magistratura.

Já Camilo, que a família queria ver advogado, não se formou. "Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, com os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.".

A MULHER NA ÓTICA PATRIARCAL E MACHISTA

Como disse acima, o narrador dá o tom do que pensa aquela sociedade a respeito das mulheres: são serpentes, a origem do pecado e do mal.

"Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos!".

E para completar o papel das mulheres responsáveis pelos males daquela sociedade patriarcal e machista, de homens e pessoas ludibriadas pelas temíveis mulheres, quase bruxas, tem a figura da cartomante:

"era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos..."

Enfim, a história de Vilela, Camilo e Rita não poderia ter outro desfecho, sob o ponto de vista de uma sociedade que um século depois da história (1869) ainda permitia aos homens matarem mulheres por questões de honra.

Após um curto período de tempo entre o final do século XX e o ano corrente, 2026, chegou-se a mudar o código civil igualando direitos entre homens e mulheres e as leis no país, criou-se a Lei Maria da Penha, e no entanto, pasmem, vivemos uma epidemia de violência contras as mulheres no Brasil. Os índices de assassinato de mulheres crescem assustadoramente no país, principalmente em São Paulo.

A releitura do conto "A cartomante" me lembrou a universalidade dos textos de Machado de Assis, até quando ele descreve a questão da religião e a fé ou não em Deus.

AGNÓSTICO OU ATEU?

"Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando."

Me lembrei de uma palestra de Marcelo Gleiser, físico e astrônomo brasileiro, que me fez rever meu conceito sobre ser ateu, quando ele explicou exatamente o que Machado descreve sobre "negar é ainda afirmar" em relação a haver ou não um Deus. 

Gleiser explica que a ciência não pode provar a não existência de Deus, pois a ciência é baseada em afirmações categóricas, e o agnóstico não crê mas não pode afirmar que não exista um Deus de forma categórica. Foi o que entendi do vídeo que vi com ele.

Enfim, tive o prazer de reler um excelente conto de Machado de Assis hoje. Como seus textos são de domínio público, está disponível no blog para leitura.

Sigamos lendo e tentando nos fazer humanos e conhecedores de alguma coisa. Os tempos são de elogia à ignorância.

William

15/08/26

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Livros com as vozes das mulheres


Lendo e aprendendo com as mulheres 

Ao fazer minha contagem dos cem clássicos da literatura universal, percebi que foram poucas as autoras que li na vida, bem poucas. Senti a necessidade de mudar essa característica de meu percurso de leituras até aqui. Quero ler mais livros de autoras, tanto romances quanto livros de outras áreas do conhecimento humano.

Além de olhar para a frente e escolher mais autoras para ler, vou fazer uma retrospectiva do passado e recordar o que já li de livros de mulheres. Porém, também lerei mais livros sobre as mulheres, mesmo que não sejam escritos por elas.

As vozes femininas são essenciais para nós todos, independente da área onde atuamos, da visão de mundo que tenhamos, ler e ouvir o ponto de vista das mulheres é fundamental para construirmos uma sociedade humana que supere a violência ancestral dos homens em relação às mulheres.

Criando este espaço no blog com as leituras que já fiz de autoras de livros dos mais diversos gêneros discursivos e áreas de conhecimento, vou sistematizando minhas experiências com as autoras, e também vou revendo e aprendendo com as vozes femininas.

A página estará em constante modificação, pois estará em construção permanente.

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Obras lidas e comentadas no blog em ordem cronológica:


2024

1. Canção para ninar menino grande (2018) - Conceição Evaristo (link)

2.


2025

1. Bagagem (1976) - Adélia Prado (link)

2. Cachorro velho (2005) - Teresa Cárdenas (link)

3. Pequena coreografia do adeus (2021) - Aline Bei (link)


2026

1. Casa à venda: turismo, mercado de imóveis e transformação sócio-espacial em Havana (2024) - Aline Marcondes Miglioli (link)

2. Clandestina (2024) - Ana Corbisier (link)

3. Uma delicada coleção de ausências (2025) - Aline Bei (link)

4. Persépolis (HQ 2000/2003. No Brasil, 2007) - Marjane Satrapi (link)

5. Poemas e maravilhas de Marili Santos - Ano 2013 (link)

6. Yargo (1979) - Jacqueline Susann (link)

7.


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Livros que me impactaram muito:

1. O diário de Anne Frank (1947) - Org. Otto Frank e Mirjam Pressler

2. Felicidade fechada (2017) - Miruna Genoino

3. Banzeiro Òkótó (2021) - Eliane Brum

4. Uma delicada coleção de ausências (2025) - Aline Bei

5. Evocación (2008) - Aleida March

6. Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída (1978) - Kai Hermann e Horst Rieck

7. Lula, filho do Brasil (1996/2003) - Denise Paraná 

8.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Livro: Yargo - Jacqueline Susann



Refeição Cultural

LITERATURA

"Ah, Deus, implorei. Se for alguma coisa de Marte, não deixe que seja rastejante. Não me importo que tenha três olhos ou duas cabeças, só peço que não seja viscoso ou rasteje. Apoiei-me contra a parede e esperei."


Jacqueline Susann (1918-1974) escreveu em meados dos anos cinquenta do século passado um romance de ficção científica - Yargo (não publicado à época). 

A atriz e escritora norte-americana foi uma mulher que se destacou por sua capacidade de criação literária e por se impor como pessoa pública com opiniões próprias mesmo em sociedades tipicamente machistas e patriarcais. 

Li que ela tinha um altíssimo Quociente de Inteligência (QI), medidor muito comum naquele tempo. Como toda mulher, ela teve que ser muito firme em seus propósitos para ter uma carreira exitosa naquilo que escolheu fazer: escrever e interpretar.

Seu primeiro romance de sucesso foi O vale das bonecas (1966). Os dois romances seguintes - A máquina do amor (1969) e Uma vez só é pouco (1973) - tiveram boa acolhida dos leitores também: ela foi campeã de vendas. No Brasil, seus livros foram publicados pelo Círculo do Livro. A escritora faleceu precocemente, aos 56 anos, vítima de um câncer. Dois livros dela foram publicados após sua morte: Dolores (1976) e Yargo (1979).

Eu nasci em 1969 e passei a ler livros nos anos oitenta. Morava em Uberlândia (MG) e nossa família era muito humilde, éramos brasileiros típicos que lutavam diariamente para sobreviver num país violento contra os pobres e despossuídos e de impunidade aos ricos e donos do poder político. Meu primo Jorge Luiz assinava o Círculo do Livro e emprestar livros dele para ler foi uma oportunidade definidora de meus gostos naquele momento e como adulto.

Eu também dava meus jeitos de ler livros de interesse à época, ou comprando ou pegando na biblioteca da escola. Ficção científica, suspense e terror, ciências e coisas misteriosas eram alguns temas de meu interesse. Discos voadores, monstros, deuses e demônios, Triângulo das Bermudas, Atlântida, misticismo, histórias antigas de povos e civilizações etc, eu acreditava em tudo isso e lia muitos autores que abordavam esses temas.

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"Mais um líder se pôs de pé, com uma magnífica sugestão. Segundo a tradução de Sanau, a proposta dele era me fazerem uma lavagem cerebral e me mandarem de volta à Terra..."

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Foi esse rapaz que leu Yargo (1979), de Jacqueline Susann, ainda morando em Uberlândia. Aos 17 anos eu iria voltar para São Paulo, deixando meus pais em Minas Gerais. Devo ter lido dezenas de livros durante minha adolescência mineira, e alguns deles me impactaram e sem dúvida compuseram a pessoa na qual fui me transformando com o passar dos anos. Este romance de Susann foi um dos livros que nunca me esqueci, a história de Janet Cooper compôs minha memória de longo prazo. Óbvio que na memória o que ficou foi a lembrança da moça que foi abduzida na praia, sem detalhe algum.

Faz uns quinze anos, meu primo Jorge me perguntou se queria pegar alguns dos livros antigos dele, pois estava se desfazendo de tudo que era mídia de cultura em meio físico para só ter coisas digitais e virtuais. Eu escolhi livros como esse de Jacqueline Susann e, às vezes, sinto o desejo de reler um dos livros que li décadas atrás, no início de minha vida adulta, para tentar me encontrar com aquele rapaz que fui, naquele contexto, e tentar compreender como aqueles livros me caíram nos pensamentos e ideias que tinha à época. A experiência é bem interessante!

Ao decidir recentemente ler mais livros de mulheres e sobre mulheres, escritoras, poetas e políticas, pensei em alguns livros que tenho em casa, lidos ou aguardando a leitura. E o romance sobre aquela moça que foi abduzida na praia, e que ficou em minha lembrança como um livro marcante, de Jacqueline Susann, foi o escolhido dessas últimas semanas. Gostei do romance!

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"- Talvez eu possa esclarecer este desejo com um exemplo pessoal. Quando você era criança, Janet, provavelmente pensava que nunca iria para a cama, se permitissem. Quando chegava a hora, você relutava, como todas as criança, utilizando os mais diversos recursos. Contudo, agora que está mais velha e pode ficar acordada até a hora que quiser, há vezes em que recebe de bom grado o sono, e se entrega a ele voluntariamente. Assim é a morte para um yargoniano maduro."

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O livro é muito bem escrito. A autora teceu uma história que permite aos leitores, tanto da época quanto de hoje, perceberem as bases da sociedade norte-americana de meados do século vinte, os costumes e contradições, os temas em evidência naquele cenário de início de Guerra Fria e de efervescência consumista do estado de bem-estar social pós 2ª Guerra Mundial. É nítido o papel esperado das mulheres ao lado de seus maridos provedores do lar, a corrida armamentista e espacial entre EUA e URSS, o mundo religioso dos capitalistas em contraposição ao mundo dos ateus comunistas etc.

Aquelas décadas da segunda metade do século vinte alimentaram a imaginação de boa parte da população ocidental com a possibilidade de haver vidas inteligentes em outros planetas, discos voadores, viagens no tempo e espaço, formas de se dominar a mente das pessoas, poderes paranormais e super-homens e mulheres. O jovem que fui acreditou em absolutamente tudo isso. Eu li Charles Berlitz, J. J. Benítez, Erich Von Däniken, li vários livros de terror, demônios, fantasmas...

Enfim, valeu a leitura! Hoje sou outra pessoa, outro leitor. E tenho muitos livros a ler e reler, os clássicos que não li, os novos que estão sendo lançados e os livros que merecem a releitura. Inclusive fiquei interessado nos outros romances de Jacqueline Susann.

William

05/08/26


Bibliografia:

SUSANN, Jacqueline. Yargo. Tradução: Isabel Paquet de Araripe. Círculo do Livro. São Paulo, 1979.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Instantes (16h20)



Refeição Cultural

LEITURAS


Enquanto tentava ler no vagão do trem, um sujeito falava ao celular com uma garota. Tinha menos de trinta anos. Contou algumas vantagens sobre si a ela, a convidou pra jantar e dormir na casa dele, e para quebrar a resistência dela em aceitar, disse, então, que só jantassem. Disse que da outra vez a culpa foi dela, por ter trocado de roupa na casa dele. O tipo era desses que começou dizendo que foi orar pela manhã. Ao sair do trem, escolheu um senhor idoso perto dele, que também ouviu sua conversa, e lhe disse rindo que "a garota deu porque quis, né?".

Já em casa, concluí que foi inútil levar meu livro na mão, pensando em ler um pouco no transporte público. Li poucas páginas e ainda se estraga um pouco a capa com o suor da mão. Minha edição do romance Yargo, de Jacqueline Susann, é do Círculo do Livro, do início dos anos oitenta: bem velhinha pra um livro. Ganhei a edição de meu primo Jorge Luiz, de Uberlândia. Li o livro antes dos 17 anos. Enfim, multipliquem esse caso do sujeito que estava xavecando uma garota pelo celular por inúmeras conversas do tipo ao mesmo tempo em um vagão e concluam se é possível ler um livro no trem. Já era!

Quando fechei o livro, fiquei observando as pessoas no trem, depois nas ruas da Barra Funda, por onde andei. Depois no trem novamente. Estar entre o povo, observar a realidade ao nosso redor, é uma oportunidade de reflexão e tentativa de compreensão sobre nós mesmos, nossa espécie, nosso ambiente cultural, e também uma forma de pensar sobre o passado, presente e futuro. Somos isso que está aí... todos nós, vocês e eu.

No romance, na parte em que estou, os yargonianos não querem mandar Janet Cooper de volta à Terra por considerarem ela uma pessoa comum de nossa espécie, mediana, medíocre, sem capacidade de transmitir a questão complexa envolvida na trama e por ela não ter representatividade junto às comunidades humanas. A ideia era ter levado a Yargo o Einstein ou outro cientista de renome nos anos cinquenta. O começo do romance, guardadas as devidas diferenças, não deixa de ser um pouco como a cena de costume que vi no trem. Janet estava em seus dias de preparo para o casamento, um dos papéis atribuídos às mulheres naquela sociedade norte-americana àquela época, meados do século passado.

Pensando o povo no trem, nas ruas, nos dias de hoje, a Janet Cooper do romance, eu nos dias de hoje, o leitor e sujeito que fui nos anos oitenta, senti uma espécie de pessimismo (não fatalismo), mas uma consciência clara da dificuldade que temos para superar o projeto das elites econômicas de idiotizar a espécie humana, tornar nossa gente ignorante e, pior ainda, orgulhosa de não saber de quase nada que todos já deveríamos saber no atual estágio de desenvolvimento. 

Os acasos e veredas que me fizeram ter um pouco de consciência política hoje, eventos que moldaram meu caráter e definiram minha vida, em caminho diverso em relação aos meus pares no ambiente de onde vim, estão mais raros hoje. Se eu estivesse começando minha jornada, vindo de onde vim, dificilmente seria essa pessoa que sou: um homem com valores da esquerda. 

William 

03/08/26

domingo, 2 de agosto de 2026

Leitura: Tal Pai Tal Filho



Refeição Cultural

Já faz alguns anos, meu pai me entregou um caderno de textos, organizados por ele mesmo, reunindo textos meus e textos dele. O caderno se chama Tal Pai Tal Filho.

Já li trechos do caderno várias vezes, mas nunca li o caderno inteiro. A gente tem o costume ruim de fazer isso com as pessoas queridas, amigos e familiares. Tudo no cotidiano é mais urgente e importante que as nossas relações de afeto.

Quando acordei neste domingo, uma semana antes do domingo dos pais, tive um impulso de pegar o caderno que meu pai idoso fez pra mim e lê-lo completamente, corretamente. É o mínimo que eu já deveria ter feito desde quando ele mo presenteou.

A primeira metade são textos meus retirados do blog Refeitório Cultural, textos que tratam de minha relação com os pais e com meu filho. São textos sobre pais e filhos. Alguns são incríveis! São declarações de amor, agradecimentos, reflexões em momentos de dor e angústia. 

Durante um curto período, meu pai passou a escrever bastante, já depois dos setenta anos. Até antes: "Divagando pela vida", ele finaliza aos 67 anos, no dia de seu aniversário. Ele conseguiu mexer com computador e internet até o período da pandemia mundial, já perto de seus oitenta anos. Naquele momento, meus textos tinham ao menos um leitor: meu pai!

A coletânea que ele fez pra ele e pra mim é incrível! Ao me entregar aquele caderno, anos atrás, meu pai pode ter querido dizer várias coisas, várias! Respeito por mim, amor, orgulho pelo filho que teve. Um pedido de socorro, por solidão em um ambiente de desentendimento na própria casa. Um chamado para que eu visse a história incrível da vida dele, que nunca havia sabido de forma tão organizada. 

De meus textos, ao relê-los, fiquei estupefato. Não me lembrava com detalhes daqueles acontecimentos e sentimentos. 

Escrevi um sobre idosos, estando na UTI com meu pai infartado em 2012. Imagino que seja um de meus melhores textos sobre a importância de se amar os idosos.

Meu pai reuniu textos nos quais falo de meu filho, de minha mãe, de mim e ele com nossas duras vidas vividas.

Aí começa a história da vida dele. Incrível! Dá vontade de ler em voz alta numa roda de amigos e familiares. De parar a cada parágrafo e comentar sobre aquela vida, aquela gente, aquele mundo de onde nós viemos. Qualquer pessoa minimamente conhecedora do Brasil do século vinte, sabe que aquela narrativa é sobre todos nós.

Enfim, neste momento, apenas comecei a leitura da história da vida de meu pai, de meus pais, dessa gente de onde viemos, de muitos de nós. 

A vida é um instante. Enquanto me afogo no catarro de uma gripe insistente, posso deixar de existir num instante. O mesmo com meu velho pai, próximo de completar 84 anos. O mesmo com meu filho, que num rolê com algum exagero na bebida, pode se pôr em risco desnecessário...

Fiz muitas das coisas que meu pai fez na juventude. Meu filho, idem. Bebemos mais do que o saudável. Meu pai ainda fumou por 37 anos. Cada vida é única. Cada história de vida, também. Os contextos e o mundo nunca são os mesmos, apesar das escolhas serem talvez parecidas.

Sou grato por estarmos vivos neste domingo. 

William 

02/08/26

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Livro: O pão e a pedra - Sérgio de Carvalho



Refeição Cultural

"Porque a representação é a procura do outro. É a alegria de viver o que não somos. Representar não é forjar estados, mas construir mudança." (p. 44)


Ganhei de presente, dias atrás, de Sérgio de Carvalho e Marili Santos um box com três peças teatrais da Companhia do Latão. Uma edição lindíssima!

O box contém as peças O pão e a pedra, Os que ficam, e Lugar nenhum.

Como leitor, tenho pouca experiência com peças teatrais. Li alguns clássicos de William Shakespeare e mais algumas peças, pouca coisa. Tenho muito que aprender ainda.

A peça O pão e a pedra (2016) traz em seu enredo a greve dos metalúrgicos do ABC em 1979, momento de surgimento do Novo Sindicalismo, com Lula sendo uma das principais lideranças sindicais no enfrentamento à carestia e ao autoritarismo da ditadura mancomunada com as elites patronais.

Gostei muito da peça! Me lembrei um pouco de Eles não usam black-tie, de Gianfranchesco Guarniere (minha referência é o filme de Leon Hirszman). Ver a Companhia do Latão interpretando O pão e a pedra deve ser muito emocionante!

Sérgio de Carvalho faz uma apresentação no início do livro muito esclarecedora. 

Me sensibilizei na hora com as informações e o contexto no qual a pré-estreia se deu, no dia 12 de maio de 2016, dia do afastamento da presidenta Dilma Rousseff pelo Senado brasileiro. Um ato infame como foi toda a ditadura que enfrentamos por duas décadas. 

O parágrafo a seguir exemplifica a pesquisa desenvolvida pelo autor dramaturgo sobre as relações entre os movimentos da época: igreja, sindicatos, estudantes etc.

"A procura de compreensão daquele momento histórico pouco conhecido, em que os religiosos realizaram uma resistência ativa à ditadura civil-militar, me aproximou, entretanto, de outras questões. A mais importante foi a da relação entre esse clero progressista e o chamado 'novo sindicalismo', que se desenvolveu e ganhou projeção nacional com as grandes greves do ABC nos anos de 1978, 1979 e 1980. Essa junção entre a igreja e o movimento de trabalhadores, tensionada pela pressão de setores intelectualizados e o movimento estudantil de esquerda, se tornaria emblemática na luta pela democratização e mudaria as coordenadas da política de esquerda no país." (p. 10)

Depois Sérgio de Carvalho nos explica os motivos da escolha da greve de 1979: 

"(...) Para todos nós, fortalecia-se uma perspectiva da história: a das dificuldades do aprendizado político daqueles trabalhadores que enfrentaram a ditadura e o aparato midiático patronal, num processo que durou sessenta dias. Foram quinze dias de máquinas paradas e 45 dias de 'trégua' com mobilização dentro e fora das fábricas. Ao final das contas, esta seria uma peça sobre aprendizado, o deles e o nosso..." (p. 11)

Momento mágico (e histórico)

A cena de Lula discursando sem sistema de som na assembleia do dia 13 de março de 1979, no Estádio da Vila Euclides, com sessenta mil trabalhadores, é um momento mágico na história da classe trabalhadora brasileira. Ela se dá no Primeiro ato, Cena 8, "Corais da Vila Euclides". 

Destaco, porém, que não há representação do personagem Lula. Há uma ausência consciente do líder, de maneira que vivenciamos no drama as pessoas comuns tomando as decisões e fazendo o que pessoas comuns fazem.

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Comentário final 

A leitura da peça e dos textos excelentes que acompanham a edição - de Mario Sergio Conti e Maria Lívia Goes - dão aos leitores uma experiência enriquecedora sobre a temática desenvolvida pela Companhia do Latão. 

Realmente, a leitura é um momento cultural de muita reflexão e aprendizagem.

Recomendo a experiência às amigas e amigos leitores.

William 

29/07/26


Bibliografia:

CARVALHO, Sérgio de. O pão e a pedra. São Paulo: Editora Temporal, 2019.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Livro: caprichos & relaxos - paulo leminski



Refeição Cultural


"luxo saber


além destas telhas 

um céu de estrelas" (ideolágrimas)


Paulo Leminski foi um artista extraordinário! Os leitores tardios, que não o leram em vida, vão percebendo isso durante a leitura de seus poemas. 

Sou um desses leitores tardios. Leminski faleceu em 7 de junho de 1989. Eu nunca tinha lido nada dele, e já tinha vinte anos de idade. 

Só fui ler poesia depois dos trinta, por ter virado aluno de Letras. Conheci a obra poética dele em 2017, já com 48 anos. Li o livro Toda poesia (comentário aqui).

É muito interessante ver Leminski falando no curta-metragem "Ervilhas da fantasia", de 1985. 

Ele diz que tudo que leu, estantes e mais estantes de livros, as línguas que aprendeu, tudo foi para ter um repertório melhor de palavras para fazer poesia.

Diz que a poesia é também um dom, e faz analogia com o futebol: pode-se treinar alguém com todas as técnicas, mas isso não fará dessa pessoa um Zico ou um Pelé. 

Sendo um lutador de judô, diz que a poesia deve ser como um golpe de arte marcial: infalível, sem erro. 

Leminski foi um grande personagem da cultura brasileira. Um imortal!

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Golpes certeiros de Leminski:


caprichos & relaxos (saques, piques, toques & baques)


"(...)

quem está por fora

não segura

um olhar que demora" (p. 17)

*

"a árvore é um poema 

não está ali

para que valha a pena 


está lá 

ao vento porque trema

ao sol porque crema

à lua porque diadema


está apenas" (p. 27)

*

---

polonaises


"aqui


nesta pedra


alguém sentou

olhando o mar


o mar

não parou

pra ser olhado 


foi mar

pra tudo quanto é lado" (p. 50)

*

---

não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase 


"poema na página 

mordida de criança 

na fruta madura" (p. 67)

*

"en la lucha de clases

todas las armas son buenas

piedras

noches

poemas" (p. 77)

*

---


ideolágrimas


"   hoje à noite 

até as estrelas 

     cheiram a flor de laranjeira" (p. 100)

*

"verde a árvore caída 

vira amarelo

a última vez na vida" (p. 102)

*

---

sol-te


"eu te fiz

agora 


sou teu deus

poema


ajoelha

e

me

adora" 

(p. 136)


*


*

Comentário final 

Me encantei com Leminski em 2017 ao ler o livro Toda poesia, publicado um pouco antes.

Depois fiquei muito admirado com a profundidade do livro Trótski: a paixão segundo a revolução, de 1986. Ele desenvolve uma interpretação do povo russo a partir dos personagens de Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. 

Agora, reli a reedição muito "caprichada e de relaxar qualquer leitor" de seu clássico de 1983, caprichos & relaxos.

Sigamos lendo, e nos fazendo humanos.

William 

28/07/26

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 28 de julho de 2026. Terça-feira. 


07h46

Perdi o sono antes das 5h30. Dormi pouco. Era de se esperar que depois de uma semana dormindo em cama estranha, na Colônia dos Professores na Praia Grande, o corpo aproveitasse o colchão de costume para descansar. Não rolou. 

A cabeça está fervilhando com a tal biblioteca e espaço cultural que quero fazer, uma espécie de centro de documentação, um canto de cultura,  história e memória. Preciso pensar uma forma de fazer isso. Sinto que não tenho tempo sobrando para esperar. Cada dia é um dia a menos. 

Vou comer alguma coisa, fazer exercícios para a minha memória com a língua japonesa, e ler livros iniciados. Na ordem, vou terminar Leminski, depois Sérgio de Carvalho, depois Jacqueline Susann. Esses três. Depois vejo a sequência. 

Fiquei a semana toda com uma gripe fortíssima, ainda estou todo verde por dentro e com tosse. Imagino que se não tivesse tomado a vacina da gripe deste ano, estaria mais ferrado ainda. 

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15h29

"o pauloleminski

é um cachorro louco

que deve ser morto

a pau a pedra

a fogo a pique

senão é bem capaz 

o filhadaputa

de fazer chover

em nosso piquenique "


A gripe faz a gente ficar meio merda. Assoar o nariz o tempo todo, aquele nojo, argh. A tosse deixa a gente sem paciência. 

Fui ao mercado numa leseira só. Estou lendo o Leminski. Seus poemas são seus golpes de caratê mesmo, perfeitos. 

De manhã, exercitei meu cérebro, o verdadeiro criador de tudo, criando associações para memorizar desenhos de ideogramas, sons das palavras e significados.

Faz dois meses que tive descolamento do humor vítreo do olho esquerdo... o embaçamento das primeiras semanas passou, já posso dirigir. Agora convivo com as "moscas volantes". E consigo ler.

Como diz o poeta:


"não discuto

com o destino 


o que pintar 

eu assino"


É por aí, Leminski...

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23h42

A gripe segue me impedindo de praticar atividades físicas. A tosse seca deixa a gente bastante estressado e irritadiço. Mas vou melhorar.

Terminei o livro caprichos & relaxos (1983), de Leminski. Fiz postagem no blog. 

Vi o pôr do sol. Ouvi os passarinhos.

Trabalhei um pouco na sistematização de meus textos nos blogs. Tenho que ter disciplina para organizar os cadernos dos blogs e dedicar algum tempo diariamente para essa tarefa.

Vamos dormir para contribuir com a recuperação do corpo.

William

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Livro: Minhas horas finais (Memórias de D. Pedro I de Portugal) - Leo Ricino



Refeição Cultural

LITERATURA E HISTÓRIA 


"(...) e só agora, aos quarenta e sete, estou a conseguir, por um motivo muito forte, me expor e falar espontaneamente de mim, inclusivamente desse meu problema pessoal, essa gaguez que sempre me acompanhou e da qual tive vergonha durante minha vida toda. Não poucas vezes acabei sendo mais cruel, como resultado da minha não aceitação dela e pela pequenez como ser humano que projetava em minha mente perturbada. Talvez." 


Li nesta semana um livro bem interessante. Aprendi muito sobre a história portuguesa, mesmo sendo um texto de ficção: Minhas horas finais (Memórias de D. Pedro I de Portugal), edição de 2019.

O autor - Leo Ricino - nos passa de forma leve e descontraída uma versão ficcional de como teria sido a vida e os instantes finais do 8° monarca português, D. Pedro I, que governou o Reino entre 1357 e 1367. Leo utiliza sua erudição em benefício dos leitores. 

No romance, o monarca D. Pedro I, o Justiceiro, já em seu leito de morte, ganha voz e escreve de punho uma autobiografia não formal, diferente daquela que constará nos anais da história. 

Leo nos esclarece que D. Pedro I de Portugal, em sua autobiografia, quer ficar conhecido em sua totalidade, em sua essência humana, e não somente com as formalidades oficiais do cargo, quer ir além da alcunha de "Justiceiro".

E aí, se preparem, leitor e leitora, pois vocês vão descobrir as maldades e vilanias do monarca português, ditas por ele mesmo, num momento no qual ele não tem nada a perder.

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"A raiva, a ira, a revolta e a sede de vingança ofuscam a clareza do pensamento e do agir, pois as decisões tomadas nos momentos de exacerbação da força sanguínea por todo o corpo carecem de claridade. E muito agi sob esses efeitos."

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Vamos viajar no tempo e nos costumes da Corte, veremos uma versão sobre Inês de Castro, famosa e conhecida por todos que já leram Camões ou que estudaram para vestibulares. 

Durante a leitura ficcional, os leitores sentem uma curiosidade incrível de ir aos manuais de história portuguesa para compilar história e ficção. Muito estimulante o método. 

Conhecemos o professor Leo e a professora Isabel, casal de amizade cativante, na Colônia dos Professores localizada na Praia Grande (SP). 

É isso, amig@s leitores. O livro está disponível no formato digital. Vale a pena ler essa ficção com pitadas de história. 

William 

24/07/26