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domingo, 19 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (49) - Marília de Dirceu, Lira XIII, Parte 2, Tomás Antônio Gonzaga



MARÍLIA DE DIRCEU, LIRA XIII, PARTE 2 - TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA


     Vês, Marília, um cordeiro

     De flores enramado,

     Como alegre caminha

     A ser sacrificado?

O Povo para Templo já concorre;

A Pira sacrossanta já se acende;

O Ministro o fere: ele bala e morre.


     Vês agora o novilho, 

     A quem segura o laço?

     No chão as mãos especa,

     Nem quer mover um passo.

Não conhece que sai de um mau terreno,

Que o forte pulso, que a seguir o arrasta, 

O conduz a viver num campo ameno.


     Ignora o bruto como

     Lhe dispomos a sorte:

     Um vai forçado à vida,

     Vai outro alegre à morte.

Nós temos, minha bela, igual demência:

Não sabemos os fins com que nos move

A Sábia, oculta Mão da Providência. 


     De Jacó ao bom filho

     Os maus matar quiseram;

     De conselho mudaram:

     Como escravo o venderam.

José não corre a ser um servo aflito:

Vai subindo os degraus, por onde chega

A ser um quase Rei no grande Egito.


     Quem sabe se o Destino

     Hoje, ó bela, me prende. 

     Só porque nisto de outros

     Mais danos me defende?

Pode ainda raiar um claro dia;

Mas quer raie, quer não, ao Céu adoro

E beijo a santa mão que assim me guia.


Publicado em Lisboa, Portugal, em 1792.

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COMENTÁRIO:

Segui na leitura do clássico Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga. 

Após a leitura da parte 1, com 33 liras, agora estou na leitura da parte 2, com 38 liras. Parei na Lira XV.

Ao mesmo tempo em que não sou determinista, não acredito em mitos e explicações místicas da vida, reconheço o mérito da história humana em buscar sentidos à vida nessas construções mitológicas do mundo.

Essa lira é muito interessante! Eu diria até condizente aos dias atuais. 

O eu-lírico, entre lamentos e declarações de amor ao longo das liras, faz nessa uma interpretação favorável da Sorte (Fortuna, Destino, Deus etc), que poderia estar favorecendo ele enquanto está preso.

É uma senhora leitura de auto-ajuda!

    "Ignora o bruto como

     Lhe dispomos a sorte:

     Um vai forçado à vida,

     Vai outro alegre à morte."

E os versos acima poderiam ilustrar perfeitamente a dominação e manipulação dos "deuses" das big techs e redes sociais, e também dos "pastores" (não os da arcádia, e sim os sofistas modernos) em relação ao destino de milhões de cordeiros e novilhos (gado) dos dias atuais...

É isso. Seguimos lendo poesia e diminuindo um grãozinho de ignorância por dia.

William 

sábado, 14 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (14) - Marília de Dirceu, Lira XVIII, Parte 1, Tomás Antônio Gonzaga



MARÍLIA DE DIRCEU, LIRA XVIII, PARTE 1 - TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA


"Não vês aquele velho respeitável

          Que à muleta encostado

Apenas mal se move e mal se arrasta?

Oh! quanto estrago não lhe fez o tempo!

          O tempo arrebatado,

          Que o mesmo bronze gasta.


Enrugaram-se as faces, e perderam

          Seus olhos a viveza;

Voltou-se o seu cabelo em branca neve;

Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo;

          Nem tem uma beleza 

          Das belezas, que teve.

Assim também serei, minha Marília, 

          Daqui a poucos anos, 

Que o ímpio tempo para todos corre:

Os dentes cairão e os meus cabelos. 

          Ah! sentirei os danos

          Que evita só quem morre." (Lira XVIII, Parte 1)

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COMENTÁRIO:

Comecei a ler Tomás Antônio Gonzaga em setembro deste ano. Coincidentemente, estava em Uberlândia. Não terminei ainda as três partes de Marília de Dirceu.

Para essa leitura de poesia diária em dezembro, de autores ou obras ainda não conhecidas por mim, reli os primeiros dezoito poemas do livro, e de todos eles, de fato o que mais gostei e me identifiquei com a temática foi essa Lira XVIII.

O tema sobre o envelhecimento e a efemeridade da beleza e da saúde é atualíssimo. Tenho pensado muito nesses dias sobre a brevidade da vida, e a importância do carpe diem! Aliás, um dos motes do arcadismo.

É isso! Sigamos lendo poesia em dezembro. Depois de um dia cansativo aqui em Uberlândia, estou precisando dormir. Queria refletir mais sobre esta Lira, mas tô cansadão.

William Mendes


domingo, 22 de setembro de 2024

Marília de Dirceu - Tomás Antônio Gonzaga



Refeição Cultural 

"Não vês aquele velho respeitável

          Que à muleta encostado

Apenas mal se move e mal se arrasta?

Oh! quanto estrago não lhe fez o tempo!

          O tempo arrebatado,

          Que o mesmo bronze gasta.


Enrugaram-se as faces, e perderam

          Seus olhos a viveza;

Voltou-se o seu cabelo em branca neve;

Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo;

          Nem tem uma beleza 

          Das belezas, que teve.

Assim também serei, minha Marília, 

          Daqui a poucos anos, 

Que o ímpio tempo para todos corre:

Os dentes cairão e os meus cabelos. 

          Ah! sentirei os danos

          Que evita só quem morre." (Lira XVIII, Parte 1)


Que lira fantástica!

Ao ler me identifiquei com o eu-lírico e me vi também como o objeto em estudo. Me vi adiante sob o implacável efeito do tempo.

Enquanto passava o dia na estrada, indo de São Paulo a Uberlândia, fiz o download (é de domínio público) do clássico "Marília de Dirceu", publicado em Lisboa em 1792.

O poema é dividido em três partes, sendo a primeira com 33 liras, a segunda com 38 liras e a terceira com 9 liras e 13 sonetos. 

Terminei a primeira parte.

Ao chegar à casa dos pais em Minas Gerais, o tempo do ócio inexistiu. Foram só tensões e doenças na família...

Sigamos na leitura quando possível for.

William