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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Leitura: O alienista - Machado de Assis



Refeição Cultural

LITERATURA BRASILEIRA


A obra do escritor Machado de Assis (1839-1908) é uma das mais fascinantes da literatura brasileira. O Bruxo do Cosme Velho é basicamente um autor do século XIX, publicou durante décadas, mas também escreveu textos marcantes nos primeiros anos do século XX, incluindo romances, contos e outros gêneros. Sua obra é de domínio público.

A primeira publicação deste blog de cultura Refeitório Cultural, em dezembro de 2007, foi "O alienista" (1882), do mestre criador da Academia Brasileira de Letras. Ler o conto aqui.

O texto de Machado era classificado por boa parte da crítica como conto, porém vem sendo considerado atualmente como uma novela. O autor o denomina conto e, se tivermos dúvidas, podemos acatar o escritor e criador da narrativa e seguir considerando a história do ilustre Dr. Simão Bacamarte como um conto. 

Reproduzo abaixo o texto de "Advertência" que Machado de Assis colocou no livro que reuniu contos que ele já havia publicado em folhetins. O livro Papéis Avulsos (1882) traz como primeiro conto "O alienista", que havia saído em "A Estação" entre outubro de 1881 e março de 1882.

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ADVERTÊNCIA

     Este título de Papéis Avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa.

     Quanto ao gênero deles, não sei que diga que não seja inútil. O livro está nas mãos do leitor. Direi somente, que se há aqui páginas que parecem meros contos e outras que o não são, defendo-me das segundas com dizer que os leitores das outras podem achar nelas algum interesse, e das primeiras defendo-me com S. João e Diderot. O evangelista, descrevendo a famosa besta apocalíptica, acrescentava (XVII, 9): "E aqui há sentido, que tem sabedoria". Menos a sabedoria, cubro-me com aquela palavra. Quanto a Diderot, ninguém ignora que ele, não só escrevia contos, e alguns deliciosos, mas até aconselhava a um amigo que os escrevesse também. E eis a razão do enciclopedista: é que quando se faz um conto, o espírito fica alegre, o tempo escoa-se, e o conto da vida acaba, sem a gente dar por isso.

     Deste modo, venha donde vier o reproche, espero que daí mesmo virá a absolvição. 

                                        Machado de Assis

Outubro de 1882.

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COMENTÁRIO SOBRE A LEITURA

A advertência do escritor Machado de Assis ao reunir os contos que compõem Papéis Avulsos me lembrou uma passagem do próprio conto "O alienista", quando o Padre Lopes aponta uma qualidade do Dr. Simão Bacamarte:

"A assembleia insistiu; o alienista resistiu; finalmente o Padre Lopes explicou tudo com este conceito digno de um observador:

- Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras: - a modéstia."

A modéstia...

Na advertência ao Papéis Avulsos, Machado diz aos leitores algo digno da observação e análise do Dr. Simão Bacamarte...

"O evangelista, descrevendo a famosa besta apocalíptica, acrescentava (XVII, 9): 'E aqui há sentido, que tem sabedoria'. Menos a sabedoria, cubro-me com aquela palavra."

O nosso escritor é modesto, cita o evangelista e diz haver sentido em seus textos reunidos, menos a sabedoria... 

Machado com certeza seria recolhido à Casa Verde naquele segundo momento no qual o Dr. Bacamarte libertou 4/5 da cidade e região recolhidos por terem algum desequilíbrio das faculdades mentais e só aqueles com perfeito equilíbrio mental estavam recolhidos ao manicômio.

Não nos esqueçamos que nosso mestre, além de modesto, era um gênio da ironia.

Pelas minhas anotações, li "O alienista" pela oitenta vez desde que conheci a história do ilustre Dr. Simão Bacamarte. É leitura de prazer! De esperança na humanidade ao saber que nossa espécie pode escrever assim. 

A cada leitura, mais admiração tenho por Machado de Assis, por sua genialidade, por sua universalidade.

Todas as vezes que li este conto fiz o exercício de olhar ao meu redor e refletir sobre todas as questões colocadas sob análise na história do Dr. Simão Bacamarte, personagem que estudou a loucura sob o escrutínio da ciência. 

Estou assim, modestamente (rsrs) olhando a loucura e os mentecaptos ao meu redor. Talvez sejam todos normais e eu seja a pessoa com um (d)esequilíbrio das faculdades mentais...

William 

11/08/26

sábado, 28 de março de 2015

Corpo Fechado... Leitura do conto de Guimarães Rosa




Refeição Cultural

Com a leitura do conto "Corpo fechado", acabei hoje o livro Sagarana, de Guimarães Rosa, cuja primeira edição data de 1946. O meu volume é de 1982, adquirido em sebo. É a 25ª edição a partir de 1967, da Editora José Olympio.

Se eu disser a vocês que comecei a lê-lo em 2002 quando iniciei meu curso de Letras na USP e que só terminei a leitura do último conto em 2015, vai parecer piada. Mas não é!

Lá em 2002, li o conto "O burrinho pedrês", um dos contos mais graciosos que eu conheço. De lá para cá, tentei ler um monte de desejos literários, mas tive que ser sindicalista ao mesmo tempo que estudante de letras, e a faculdade foi ficando em segundo plano. Terminei o curso e nunca terminei (nem terminarei) as leituras sonhadas.

Foi interessante fechar agora Sagarana com o conto "Corpo fechado". A leitura me levou até a Uberlândia dos anos oitenta. Me fez recordar a infância no bairro Marta Helena. Me lembrou o bar Choupana, de meu pai, lá na Avenida Quilombo dos Palmares. O conto me lembrou a Uberlândia das brigas de rua, minha infância e adolescência, onde era comum os desentendimentos terem desfechos na base das facadas.

O universo de Guimarães Rosa é tudo o que a gente viu, ouviu e viveu nas Minas Gerais. As crendices e contos populares. O tal sertão metafórico que é em todo lugar. O linguajar do povo com o qual cresci. Jeito gostoso de falar, de comunicar. Jeito certo de falar.

Aliás, quando olho para trás e vejo a minha caminhada, não tem como eu não pensar na ideia do "corpo fechado". Acho que sobreviver à adolescência é para aquelas e aqueles, principalmente, que têm corpo fechado. Principalmente para os homens por causa da cultura da macheza, do machismo, tão arraigada em nosso mundo há séculos.

O conto narra um causo num interior qualquer de um sujeito que passa um perrengue por causa de uma ameaça de um outro sujeito que é o terror local. Terra sem lei e sem piedade. Infelizmente o causo é atemporal porque é o que acontece exatamente agora, neste instante, aqui nos cantos do Brasil e do mundo que habitamos.

Chororô

Ai ai ai, quem me dera que as veredas do sertão de minha vida tivessem me levado para as possibilidades em lidar com a literatura e dela viver, e poder refletir e transmitir e com isso aprender e melhorar o nosso entorno pela conquista através das palavras encantadas e prenhas de outros mundos possíveis... quem me dera.

Mas minha vereda é a que caminho agora, aliás, no sertão do meu mundo só há o aqui e o agora, ao menos para quem nele se encontra. É caminhar e escolher veredas que nos levem para bons lugares.

William

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Missa do Galo - Machado de Assis (1893)


Machado de Assis, em 1905.

Comentário do blog: esse é um dos contos famosos de Machado. Após a leitura, tem uma análise do Prof. Alcides Villaça (USP) muito interessante, publicado em caderno especial do Estadão em 2009. É para os amantes da leitura e da literatura.

(Publicado em Páginas Recolhidas, em 1899)



Missa do Galo

Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.

A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranquilo, naquela casa assobradada da rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.

Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.

- Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.

- Leio, D. Inácia.

Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.

- Ainda não foi? Perguntou ela.

- Não fui; parece que ainda não é meia-noite.

- Que paciência!

Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada como o meu livro de aventuras. Fechei o livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:

- Não! qual! Acordei por acordar.

Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma coisa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa.

- Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.

- Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.

- Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.

- Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.

- Justamente: é muito bonito.

- Gosta de romances?

- Gosto.

- Já leu a Moreninha?

- Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.

- Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?

Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.

- Talvez esteja aborrecida, pensei eu.

E logo alto:

- D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...

- Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?

- Já tenho feito isso.

- Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.

- Que velha o quê, D. Conceição?

Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranquilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas ideias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.

- É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.

- Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. São João não digo, nem Santo Antônio...

Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras coisas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por quê, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:

- Mais baixo! Mamãe pode acordar.

E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:

- Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.

- Eu também sou assim.

- O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.

Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.

- Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.

- Foi o que lhe aconteceu hoje.

- Não, não, atalhou ela.

Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria, e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:

- Mais baixo, mais baixo...

Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma coisa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.

- Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.

Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.

- São bonitos, disse eu.

- Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.

- De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.

- Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu penso muita coisa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.

A ideia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.

Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.

- Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.

Concordei, para dizer alguma coisa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a ideia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.

Chegamos a ficar por algum tempo, - não posso dizer quanto, - inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: "Missa do galo! missa do galo!"

- Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.

- Já serão horas? perguntei.

- Naturalmente.

- Missa do galo! repetiram de fora, batendo.

-Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus; até amanhã.

E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.


Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Prestígio - Ediouro - s/d.


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MISSA DO GALO: UMA ANÁLISE

Desejo errante na sala de visitas

Alcides Villaça - Prof. Literatura Brasileira na USP, especial para o Estadão (20/12/09)


Há situações em que as palavras e os gestos manifestos pouco ou nada revelam, por si mesmos, do sentido de uma experiência. Quando a explicitação dos signos mostra-se insuficiente, é preciso chegar ao mecanismo de disfarce ou ocultação que torna o silêncio entre as palavras e o espaço entre os gestos mais significativos do que a declaração verbal ou a disposição do corpo.

Machado de Assis é um mestre na prospecção desses intervalos entre a gravidade da matéria e o impulso da significação, e não costuma abrir mão de nenhum dos dois. O conto Missa do Galo (Páginas Recolhidas, 1899), compreensivelmente antológico, já de início admite a insuficiência: "Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal". Dada como incompreendida por quem dela participou e a rememora, sinta-se o leitor provocado a buscar o sentido dessa distante "conversação".

A conversa ocorreu numa noite de Natal, entre o adolescente Nogueira, hospedado na casa do escrivão Meneses, e a esposa deste, Conceição. À espera da "missa do galo na Corte", o jovem provinciano lê, enquanto aguarda um amigo que virá buscá-lo, mas põe de lado o livro enquanto dona Conceição irrompe na sala.

A aparição algo fantasmagórica da mulher num roupão branco, na meia-luz da sala, quebra os hábitos da casa, que são rígidos. "Assobradada", "na Rua do Senado", a casa "tinha três chaves" e, lembra-se o narrador, "às dez e meia a casa dormia". 

Bem qualificada, a casa é um território ativo, marcado a fundo pelos valores de uma família tradicional. Nele, move-se resignadamente dona Conceição, chamada "a santa" por suportar bem os "esquecimentos de um marido", que aliás tem amante frequentada semanalmente. 

Traços essenciais que retratam Conceição: "um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos"; "tudo nela era atenuado e passivo"; o rosto era "mediano, nem bonito nem feio"; "perdoava tudo"; "não sabia odiar", "pode ser até que não soubesse amar". Casou tarde, agregou a mãe na casa e leva a vida protegida e insípida de esposa institucional.

Pois nessa noite de Natal, em que o marido foi à amante, uma inquieta e insone Conceição deixa a alcova e vai encontrar o adolescente na sala. A conversa em si mesma interessa menos que a crescente palpitação de sensualidade que o rapaz, aluno de "preparatórios", vai aprendendo aos poucos, em gradativa absorção de gestos, movimentos e expressões da mulher, que para sempre lhe parecerão intrigantes.

A coreografia dos passos e poses de Conceição traduz aproximações e distanciamentos; ao jovem impressionou sobretudo certo balanço no andar da mulher pela sala, "como quem lhe custa levar o corpo". Está nessa expressão, a meu ver, uma síntese do olhar machadiano sobre a história das incontáveis "resignadas" e "santas", que ao longo dos séculos, e por razões diversas, sentem o próprio corpo como cláusula de contrato, condição de status e peso de compromisso.

Na contramão dessa história, um impulso erótico e libertário ameaça tomar forma e transgredir as regras da casa patriarcal, promovendo um contato entre dois estados de incompletude: o do adolescente ainda "despreparado" e o da esposa já "esquecida". Mas Conceição persiste num vago torpor, a que gostosamente se entrega enquanto olha para o rapaz e o faz falar.

A certa altura diz não entender o interesse de alguém em ficar acordado para ver a missa do galo na Corte, e justifica: "todas as missas se parecem". Indiscriminações como essa são reveladoras de tédio e de falta de expectativa de quem há muito já perdeu o direito à ênfase.

Mas há um momento em que a mediana, atenuada e passiva Conceição, nem bonita nem feia, "ficou linda, ficou lindíssima". Como explicar a passagem da apagada mediania para a ênfase do superlativo? Serão os olhos de um adolescente que está despertando para a paixão? Ou, de fato, a súbita iluminação de uma mulher que emerge da esposa resignada, negando a apatia, ganhando expressão e estremecendo "como se tivesse um arrepio de frio"? "Contradigo-me, atrapalho-me", declara o narrador, impossibilitando assim a garantia do sentido e deixando em aberto o momento mágico que resistiu à passagem dos anos.

Nem bem se revelou "lindíssima" e Conceição se afasta do rapaz, vencendo a perturbação, andando pela sala, rememorando, nostálgica e em tom de solilóquio, seus bailes de mocinha sonhadora na mesma Paquetá da Moreninha, de Macedo. Nesse caminho em anticlímax, a sensualidade cede lugar a observações sobre as paredes, como "estes quadros estão ficando velhos" ou "precisamos mudar o papel da sala".

A interioridade calorosa da mulher, iluminada há pouco pelo superlativo, parece dissolver-se pela superfície da decoração da sala. Reassumida, a casa de família estabiliza-se e a esposa retorna ao seu pálido domínio, despedindo-se do rapaz por meio desta fórmula ambígua: "Adeus, até amanhã". A duplicidade fala de quem jamais retornará e de quem estará, no dia seguinte, em seu posto doméstico.

Não mais que um pano de fundo, mera referência no calendário, essa missa do galo será para sempre associada por Nogueira à magia de uma revelação perturbadora, em que o adolescente e a senhora casada comungaram uma "espécie de sono magnético", uma suspensão de hábitos e valores, no espaço-limite de desejos que ficaram navegando, sem ancorar, na sala de visitas da casa patriarcal. 

O conto vale por esta difícil e dupla realização: Machado não perde a atmosfera das impressões sensuais, a errância dos desejos que não se cumprem, a volatilidade da inclinação erótica; e também não deixa de mostrar a rigidez dos papeis sociais, o confinamento da mulher, a solidez da casa burguesa com seu mobiliário de valores. A "conversação" supõe, de fato, a tensão entre essas duas instâncias.

Não é à toa que na missa do galo o rapaz vê a figura de Conceição interpor-se entre ele e o padre. A interposição continua falando desses dois mundos, que Machado faz dialogar: aquele em que se oficiam os ritos consumados, como os da religião, da família e da vida social, e aquele, mais íntimo, em que pulsam as perguntas sem resposta, os impulsos naturais e os enigmas permanentes.

Fonte: O Estadão

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Teoria do medalhão - Conto de Machado de Assis, 1881


Machado de Assis. Foto de Marc Ferrez.

Por que reli o conto? Por acaso, a esmo.

Terminado o primeiro dia de greve da categoria bancária, resolvi ler um conto machadiano após chegar a minha casa por volta das 22 horas.

Escolhi a esmo o livro de Machado de Assis "Papeis Avulsos I" porque eu havia separado o livro para meu filho ler o conto O Alienista (por pedido da escola). O jovem acabou não lendo o texto sugerido pela escola, pois os jogos eletrônicos são mais importantes que as obrigações da escola.

Qual a temática do conto?

A história narra um diálogo entre pai e filho na noite em que o filho completa a maioridade civil, 21 anos. As recomendações que o pai passa para o jovem são nojentas e imbecis, algo igual ou pior que os conceitos profissionais do tal Max Gehringer (programa televisivo semanal): seja uma pessoa vazia, sem ideias, não pense por conta própria e reproduza sempre as ideias dos outros ou ideias que já caíram no senso comum. (segredo de sucesso!)

Essa é a "Teoria do Medalhão" daquela sociedade brasileira carioca do século XIX na Corte Imperial. Engraçado, né! Estamos no século XXI, na sociedade contemporânea, e a teoria segue igual. Seja um "maria-vai-com-as-outras"; siga a moda; participe de algum grupinho e seja parecido com algo encaixado na sociedade:

"A aparência vale mais que o ser!"

Destaquei em negrito algumas frases e sugestões interessantes, feitas pelo pai de Janjão no conto.

Boa leitura!

William Mendes


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Post Scriptum (21/1/16):

Estou em férias e comprei um livro organizado pelo estudioso de Machado, John Gledson. Ele definiu 50 contos que entende serem fundamentais entre os quase 200 contos que Machado escreveu. Este está entre os escolhidos do estudioso.

Leitura atualizadíssima!


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TEORIA DO MEDALHÃO


Publicado originalmente em Gazeta de Notícias, em 1881

DIÁLOGO


— Estás com sono?
— Não, senhor.
— Nem eu; conversemos um pouco. Abre a janela. Que horas são?
— Onze.
— Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. Há vinte e um anos, no dia 5 de agosto de 1854, vinhas tu à luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros...
— Papai...
— Não te ponhas com denguices, e falemos como dois amigos sérios. Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. Os mesmos Pitt e Napoleão, apesar de precoces, não foram tudo aos vinte e um anos. Mas, qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum. A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.
— Sim, senhor.
— Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.
— Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá?
— Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. És moço, tens naturalmente o ardor, a exuberância, os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco anos possas entrar francamente no regime do aprumo e do compasso. O sábio que disse: “a gravidade é um mistério do corpo”, definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquela outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou emanação do espírito; essa é do corpo, tão-somente do corpo, um sinal da natureza ou um jeito da vida. Quanto à idade de quarenta e cinco anos...
— É verdade, por que quarenta e cinco anos?
— Não é, como podes supor, um limite arbitrário, filho do puro capricho; é a data normal do fenômeno. Geralmente, o verdadeiro medalhão começa a manifestar-se entre os quarenta e cinco e cinquenta anos, conquanto alguns exemplos se deem entre os cinquenta e cinco e os sessenta; mas estes são raros. Há-os também de quarenta anos, e outros mais precoces, de trinta e cinco e de trinta; não são, todavia, vulgares. Não falo dos de vinte e cinco anos: esse madrugar é privilégio do gênio.
— Entendo.
— Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente; coisa que entenderás bem, imaginando, por exemplo, um ator defraudado do uso de um braço. Ele pode, por um milagre de artifício, dissimular o defeito aos olhos da plateia; mas era muito melhor dispor dos dois. O mesmo se dá com as ideias; pode-se, com violência, abafá-las, escondê-las até à morte; mas nem essa habilidade é comum, nem tão constante esforço conviria ao exercício da vida.
— Mas quem lhe diz que eu...
— Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de ideias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloquente, eis aí uma esperança. No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas ideias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As ideias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofreemos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.
— Creio que assim seja; mas um tal obstáculo é invencível.
— Não é; há um meio; é lançar mão de um regime debilitante, ler compêndios de retórica, ouvir certos discursos, etc. O voltarete, o dominó e o whist são remédios aprovados. O whist tem até a rara vantagem de acostumar ao silêncio, que é a forma mais acentuada da circunspecção. Não digo o mesmo da natação, da equitação e da ginástica, embora elas façam repousar o cérebro; mas por isso mesmo que o fazem repousar, restituem-lhe as forças e a atividade perdidas. O bilhar é excelente.
— Como assim, se também é um exercício corporal?
— Não digo que não, mas há coisas em que a observação desmente a teoria. Se te aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escrupulosas mostram que três quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco. O passeio nas ruas, mormente nas de recreio e parada, é utilíssimo, com a condição de não andares desacompanhado, porque a solidão é oficina de ideias, e o espírito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, pode adquirir uma tal ou qual atividade.
— Mas se eu não tiver à mão um amigo apto e disposto a ir comigo?
— Não faz mal; tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatórios, em que toda a poeira da solidão se dissipa. As livrarias, ou por causa da atmosfera do lugar, ou por qualquer outra razão que me escapa, não são propícias ao nosso fim; e, não obstante, há grande conveniência em entrar por elas, de quando em quando, não digo às ocultas, mas às escâncaras. Podes resolver a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer coisa, quando não prefiras interrogar diretamente os leitores habituais das belas crônicas de Mazade; 75 por cento desses estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável. Com este regime, durante oito, dez, dezoito meses — suponhamos dois anos — reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum. Não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das ideias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim...
— Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo, de quando em quando...
— Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas, a hidra de Lerna, por exemplo, a cabeça de Medusa, o tonel das Danaides, as asas de Ícaro, e outras, que românticos, clássicos e realistas empregam sem desar, quando precisam delas. Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação, ou de agradecimento. Caveant, consules é um excelente fecho de artigo político; o mesmo direi do Si vis pacem para bellum. Alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a numa frase nova, original e bela, mas não te aconselho esse artifício; seria desnaturar-lhe as graças vetustas. Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória individual e pública. Essas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil. Não as relaciono agora, mas fá-lo-ei por escrito. De resto, o mesmo ofício te irá ensinando os elementos dessa arte difícil de pensar o pensado. Quanto à utilidade de um tal sistema, basta figurar uma hipótese. Faz-se uma lei, executa-se, não produz efeito, subsiste o mal. Eis aí uma questão que pode aguçar as curiosidades vadias, dar ensejo a um inquérito pedantesco, a uma coleta fastidiosa de documentos e observações, análise das causas prováveis, causas certas, causas possíveis, um estudo infinito das aptidões do sujeito reformado, da natureza do mal, da manipulação do remédio, das circunstâncias da aplicação; matéria, enfim, para todo um andaime de palavras, conceitos, e desvarios. Tu poupas aos teus semelhantes todo esse imenso aranzel, tu dizes simplesmente: Antes das leis, reformemos os costumes! — E esta frase sintética, transparente, límpida, tirada ao pecúlio comum, resolve mais depressa o problema, entra pelos espíritos como um jorro súbito de sol.
— Vejo por aí que vosmecê condena toda e qualquer aplicação de processos modernos.
— Entendamo-nos. Condeno a aplicação, louvo a denominação. O mesmo direi de toda a recente terminologia científica; deves decorá-la. Conquanto o rasgo peculiar do medalhão seja uma certa atitude de deus Término, e as ciências sejam obra do movimento humano, como tens de ser medalhão mais tarde, convém tomar as armas do teu tempo. E de duas uma: — ou elas estarão usadas e divulgadas daqui a trinta anos, ou conservar-se-ão novas: no primeiro caso, pertencem-te de foro próprio; no segundo, podes ter a coquetice de as trazer, para mostrar que também és pintor. De oitiva, com o tempo, irás sabendo a que leis, casos e fenômenos responde toda essa terminologia; porque o método de interrogar os próprios mestres e oficiais da ciência, nos seus livros, estudos e memórias, além de tedioso e cansativo, traz o perigo de inocular ideias novas, e é radicalmente falso. Acresce que no dia em que viesses a assenhorear-te do espírito daquelas leis e fórmulas, serias provavelmente levado a empregá-las com um tal ou qual comedimento, como a costureira — esperta e afreguesada — que, segundo um poeta clássico,
Quanto mais pano tem, mais poupa o corte,
Menos monte alardeia de retalhos;
e este fenômeno, tratando-se de um medalhão, é que não seria científico.
— Upa! que a profissão é difícil!
— E ainda não chegamos ao cabo.
— Vamos a ele.
— Não te falei ainda dos benefícios da publicidade. A publicidade é uma dona loureira e senhoril, que tu deves requestar à força de pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, coisas miúdas, que antes exprimem a constância do afeto do que o atrevimento e a ambição. Que D. Quixote solicite os favores dela mediante ações heroicas ou custosas é um sestro próprio desse ilustre lunático. O verdadeiro medalhão tem outra política. Longe de inventar um Tratado científico da criação dos carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos. Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo. Comissões ou deputações para felicitar um agraciado, um benemérito, um forasteiro, têm singulares merecimentos, e assim as irmandades e associações diversas, sejam mitológicas, cinegéticas ou coreográficas. Os sucessos de certa ordem, embora de pouca monta, podem ser trazidos a lume, contanto que ponham em relevo a tua pessoa. Explico-me. Se caíres de um carro, sem outro dano, além do susto, é útil mandá-lo dizer aos quatro ventos, não pelo fato em si, que é insignificante, mas pelo efeito de recordar um nome caro às afeições gerais. Percebeste?
— Percebi.
— Essa é publicidade constante, barata, fácil, de todos os dias; mas há outra. Qualquer que seja a teoria das artes, é fora de dúvida que o sentimento da família, a amizade pessoal e a estima pública instigam à reprodução das feições de um homem amado ou benemérito. Nada obsta a que sejas objeto de uma tal distinção, principalmente se a sagacidade dos amigos não achar em ti repugnância. Em semelhante caso, não só as regras da mais vulgar polidez mandam aceitar o retrato ou o busto, como seria desazado impedir que os amigos o expusessem em qualquer casa pública. Dessa maneira o nome fica ligado à pessoa; os que houverem lido o teu recente discurso (suponhamos) na sessão inaugural da União dos Cabeleireiros, reconhecerão na compostura das feições o autor dessa obra grave, em que a “alavanca do progresso” e o “suor do trabalho” vencem as “fauces hiantes” da miséria. No caso de que uma comissão te leve à casa o retrato, deves agradecer-lhe o obséquio com um discurso cheio de gratidão e um copo d’água: é uso antigo, razoável e honesto. Convidarás então os melhores amigos, os parentes, e, se for possível, uma ou duas pessoas de representação. Mais. Se esse dia é um dia de glória ou regozijo, não vejo que possas, decentemente, recusar um lugar à mesa aos reporters dos jornais. Em todo o caso, se as obrigações desses cidadãos os retiverem noutra parte, podes ajudá-los de certa maneira, redigindo tu mesmo a notícia da festa; e, dado que por um tal ou qual escrúpulo, aliás desculpável, não queiras com a própria mão anexar ao teu nome os qualificativos dignos dele, incumbe a notícia a algum amigo ou parente.
— Digo-lhe que o que vosmecê me ensina não é nada fácil.
— Nem eu te digo outra coisa. É difícil, come tempo, muito tempo, leva anos, paciência, trabalho, e felizes os que chegam a entrar na terra prometida! Os que lá não penetram, engole-os a obscuridade. Mas os que triunfam! E tu triunfarás, crê-me. Verás cair as muralhas de Jericó ao som das trompas sagradas. Só então poderás dizer que estás fixado. Começa nesse dia a tua fase de ornamento indispensável, de figura obrigada, de rótulo. Acabou-se a necessidade de farejar ocasiões, comissões, irmandades; elas virão ter contigo, com o seu ar pesadão e cru de substantivos desadjetivados, e tu serás o adjetivo dessas orações opacas, o odorífero das flores, o anilado dos céus, o prestimoso dos cidadãos, o noticioso e suculento dos relatórios. E ser isso é o principal, porque o adjetivo é a alma do idioma, a sua porção idealista e metafísica. O substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo do vocabulário.
— E parece-lhe que todo esse ofício é apenas um sobressalente para os déficits da vida?
— Decerto; não fica excluída nenhuma outra atividade.
— Nem política?
— Nem política. Toda a questão é não infringir as regras e obrigações capitais. Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma ideia especial a esses vocábulos, e reconhecer-lhes somente a utilidade do scibboleth bíblico.
— Se for ao parlamento, posso ocupar a tribuna?
— Podes e deves; é um modo de convocar a atenção pública. Quanto à matéria dos discursos, tens à escolha: — ou os negócios miúdos, ou a metafísica política, mas prefere a metafísica. Os negócios miúdos, força é confessá-lo, não desdizem daquela chateza de bom-tom, própria de um medalhão acabado; mas, se puderes, adota a metafísica; — é mais fácil e mais atraente. Supõe que deseja saber por que motivo a 7ª Companhia de infantaria foi transferida de Uruguaiana para Canguçu; serás ouvido tão-somente pelo ministro da Guerra, que te explicará em dez minutos as razões desse ato. Não assim a metafísica. Um discurso de metafísica política apaixona naturalmente os partidos e o público, chama os apartes e as respostas. E depois não obriga a pensar e descobrir. Nesse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforjes da memória. Em todo caso, não transcendas nunca os limites de uma invejável vulgaridade.
— Farei o que puder. Nenhuma imaginação?
— Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom é ínfimo.
— Nenhuma filosofia?
— Entendamo-nos: no papel e na língua alguma, na realidade nada. “Filosofia da história”, por exemplo, é uma locução que deves empregar com frequência, mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.
— Também ao riso?
— Como ao riso?
— Ficar sério, muito sério...
— Conforme. Tens um gênio folgazão, prazenteiro, não hás de sofreá-lo nem eliminá-lo; podes brincar e rir alguma vez. Medalhão não quer dizer melancólico. Um grave pode ter seus momentos de expansão alegre. Somente — e este ponto é melindroso...
— Diga.
— Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos céticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensórios. Usa a chalaça. Que é isto?
— Meia-noite.
— Meia-noite? Entras nos teus vinte e dois anos, meu peralta; estás definitivamente maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale o Príncipe de Machiavelli. Vamos dormir.
FIM 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A GALINHA DEGOLADA (La gallina degollada) - Quiroga


Quiroga: foto de 1900.

Leitura Crítica: “La gallina degollada”

Conto de Horacio Quiroga


(Atenção: o texto desvenda a estória)


Síntese da história:

A cena inicial apresenta quatro crianças com idiotismo, entre 8 e 12 anos, que passam o dia inteiro sentadas em um banco, próximo a um muro do quintal, inertes, e que só se animam ao entardecer quando o Sol se põe e o céu toma aquela coloração avermelhada característica ou quando ouvem o barulho do bonde.

Todas ficaram com idiotismo entre o primeiro e o segundo ano de vida, devido às heranças paternas.

Os pais tiveram, depois de um tempo, uma filha perfeita.

Em uma linda manhã, após uma noite de discussão (o matrimônio do casal estava bastante comprometido devido às acusações recíprocas sobre quem era o responsável pelas más crias), resolvem sair após o almoço para passear. Antes disso, por ser um dia radiante, os filhos com idiotismo, que se animaram com a bela manhã, saem de seu banco e presenciam a empregada degolando uma galinha lentamente na cozinha. São escorraçados para o quintal. Mas... aquela imagem!

Ao retornarem do passeio, a menina entra primeiro que os pais e, após subir no muro, com o pescoço apoiado no seu limiar e com as mãos penduradas, chama a atenção dos meninos que estavam imóveis em seu banco como sempre (já ao entardecer, com aquele céu...). Eles olharam para ela fascinados com aquele ser meio pendurado no muro como uma ave... De repente, a pegaram e a levaram para a cozinha como a uma galinha...


TÉCNICAS LITERÁRIAS

No conto de Horacio Quiroga – A galinha degolada – ele trabalha com sumários e cenas. Algumas vezes, sumários um pouco mais descritivos, lentos; outras vezes, mais acelerados.

O uso do tempo verbal no conto é o tradicional em narrativas com estilo indireto livre, na qual o narrador (muitas vezes demiurgo) conhece toda a estória, ou seja, usa o verbo no pretérito imperfeito do indicativo (Era uma vez...). Aqui, usa a técnica principalmente nos momentos de sumário, onde se refletem ações cotidianas das personagens. Mas também usa o pretérito perfeito, separando com bastante clareza as ações definitivas daquelas do dia a dia.

Do primeiro ao quarto parágrafos o sumário é importantíssimo, pois aqui se começa o conto de uma maneira tão envolvente que o leitor não poderá mais se desligar da curiosidade de saber o que se passará com as quatro crianças com idiotismo. Além dos verbos que demonstram como era o dia a dia dos garotos, o autor usa expressões que reforçam a ideia de cotidiano:

“todo el dia...”, “otras veces...”, “horas enteras...”, “casi siempre…”

Após uma entrada empolgante, temos então uma sequência de parágrafos que trabalha bastante com a questão da aceleração do tempo na narrativa. O autor usará nove parágrafos para nos contar sobre os infortúnios do casal com seu primogênito, do nascimento ao idiotismo.

Já para o segundo filho, usará apenas dois, mostrando uma grande aceleração do tempo para narrar a história. Maior ainda será para os gêmeos, no qual o autor, em apenas um parágrafo, nos traça a desgraça destes:

“Del nuevo desastre brotaron nuevas llamaradas de dolorido amor, un loco anhelo de redimir de una vez para siempre la santidad de su ternura. Sobrevinieron mellizos y punto por punto repitióse el proceso de los mayores.”

O leitor atento, chega então, a um trecho da trama que será fundamental para se endender o desfecho. Quiroga, ardente defensor da ideia de que todo autor já deve começar um conto sabendo meticulosamente aonde vai dar, mostra características dos idiotas importantíssimas para serem unidas às imagens construídas no cenário onde se inicia a tragédia, ou seja, a visão que os idiotas têm de sua irmã, Bertita, pendurada como uma galinha no muro com aquela cor avermelhada no céu que tanto os animavam:

“Tenían, en cambio, cierta facultad imitativa...”

Intercalado com essa desaceleração do tempo, sempre onde o autor firma características ou fatos que serão decisivos para o desfecho, vem um trecho onde novamente o autor acelera até o nascimento da filha saudável Bertita.
Ao longo de todo o conto, vamos tendo acelerada a passagem do tempo cronológico da história, onde o que se tem são as situações do dia a dia, com destaque para a crescente falta de respeito entre o casal, intercalada com os momentos onde impera a natureza humana e, por que não dizer animal, de desejos carnais que suplantavam os amargores recíprocos e então, eles se amavam:

“Pero en las inevitables reconciliaciones, sus almas se unían con doble arrebato y locura por otro hijo”

Já nos momentos onde o que mais importa para o entendimento da trama é a nuança de detalhes, o autor se demora de maneira a deixar bem marcados no leitor os porquês do final trágico:

“La luz enceguecedora llamaba su atención al principio, poco a poco sus ojos se animaban…”;

“Animábanse sólo al comer, o cuando veían colores brillantes u oían truenos”;

“Tenían, en cambio, cierta facultad imitativa…”;

“… la sirvienta degollaba en la cocina al animal (uma galinha), desangrándolo con parsimonia… los cuatro idiotas… mirando estupefactos la operación. Rojo… rojo…”;

“Los cuatro idiotas… vieron cómo su hermana… en puntas de pie apoyaba la garganta sobre la cresta del cerco, entre sus manos tirantes…”;

“… uno de ellos le apretó el cuello… la arrastraron de una sola pierna hasta la cocina…”.

O parágrafo que começa por um verbo no pretérito perfeito marca o início do desfecho da trágica estória: “Amaneció un expléndido dia...”

No início do conto, quando nos é dada a descrição dos idiotas, ficamos sabendo que quase nada lhes tirava de sua imobilidade – “... se mantenían inmóviles, fijos los ojos en los ladrillos...” – a não ser quando o sol se ocultava atrás do muro e os animava com aquela “luz enceguecedora... como si fuera comida”. Mais adiante, soubemos de sua qualidades imitativas. Temos aqui, a associação de luz avermelhada e comida. A cor vermelha se destaca no conto do início ao fim.

Nessa última parte, aparecerão todas as características daquele “fatídico e lindo dia”. É de fato uma mistura interessante, se não fosse o contexto. Veja: “um expléndido dia”, depois “El día radiante...”, mais a visão dos garotos vendo ser degolada uma galinha com parcimônia “Rojo... rojo...”.


CONCLUSÃO

A construção da estória é tão bem traçada que não podemos deixar de ver o acaso, a casualidade no desenlace. Não vemos juízo de valores. É um conto de acontecimento fantástico, porém de caráter realista.

O tempo mítico foi importante na trama também. O entardecer está diretamente ligado à imagem dos garotos com idiotismo se animando cotidianamente com o avermelhado do céu.

Horacio Quiroga de fato apresenta em seus contos um embate constante entre o homem e a natureza. Ele pertenceu ao tempo do realismo e do naturalismo. Naquela época, discutiam-se a posição do homem em seu meio. Então, era constante a fatalidade nas desgraças do homem, que sofria desventuras não por ira dos deuses e sim por estar em um meio fora de seu controle. Era a época do positivismo e do cientificismo.

Pela materialidade do conto, não podemos inferir em juízos de valores ou questões metafísicas de ira divina, pois ele é construído de forma a nos mostrar que neste embate homem versus natureza, esta venceu. O que se poderia fazer com circunstâncias tão normais como as imagens trabalhadas no conto (tardes lindas, pores-do-sol, trovões etc) e ao mesmo tempo tão fatais para o caso da família Mazzini-Ferraz?

Se pudéssemos tirar algum proveito ou lição, que penso não ser o caso, seria apenas pelas sequelas advindas dos excessos do avô das crianças, pai de Mazzini.

Fica-nos um grande conto, de um grande autor, e que tanto sentiu na pele os acasos e reveses da natureza.


Bibliografia:

QUIROGA, Horacio. A la deriva y otros cuentos. La biblioteca argentina. Serie clásicos. Editorial Losada, 2001. 

sábado, 18 de fevereiro de 2012

La gallina degollada - Horacio Quiroga

Quiroga em 1900.
Fonte: Wikipedia
LITERATURA HISPANO-AMERICANA (URUGUAIA)

(texto integral)


LA GALLINA DEGOLLADA – Horacio Quiroga


Todo el día, sentados en el patio, en un banco estaban los cuatro hijos idiotas del matrimonio Mazzini-Ferraz. Tenían la lengua entre los labios, los ojos estúpidos, y volvían la cabeza con la boca abierta.

El patio era de tierra, cerrado al oeste por un cerco de ladrillos. El banco quedaba paralelo a él, a cinco metros, y allí se mantenían inmóviles, fijos los ojos en los ladrillos. Como el sol se ocultaba tras el cerco, al declinar los idiotas tenían fiesta. La luz enceguecedora llamaba su atención al principio, poco a poco sus ojos se animaban; se reían al fin estrepitosamente, congestionados por la misma hilaridad ansiosa, mirando el sol con alegría bestial, como si fuera comida.

Otra veces, alineados en el banco, zumbaban horas enteras, imitando al tranvía eléctrico. Los ruidos fuertes sacudían asimismo su inercia, y corrían entonces, mordiéndose la lengua y mugiendo, alrededor del patio. Pero casi siempre estaban apagados en un sombrío letargo de idiotismo, y pasaban todo el día sentados en su banco, con las piernas colgantes y quietas, empapando de glutinosa saliva el pantalón.

El mayor tenía doce años y el menor, ocho. En todo su aspecto sucio y desvalido se notaba la falta absoluta de un poco de cuidado maternal.

Esos cuatro idiotas, sin embargo, habían sido un día el encanto de sus padres. A los tres meses de casados, Mazzini y Berta orientaron su estrecho amor de marido y mujer, y mujer y marido, hacia un porvenir mucho más vital: un hijo. ¿Qué mayor dicha para dos enamorados que esa honrada consagración de su cariño, libertado ya del vil egoísmo de un mutuo amor sin fin ninguno y, lo que es peor para el amor mismo, sin esperanzas posibles de renovación?

Así lo sintieron Mazzini y Berta, y cuando el hijo llegó, a los catorce meses de matrimonio, creyeron cumplida su felicidad. La criatura creció bella y radiante, hasta que tuvo año y medio. Pero en el vigésimo mes sacudiéronlo una noche convulsiones terribles, y a la mañana siguiente no conocía más a sus padres. El médico lo examinó con esa atención profesional que está visiblemente buscando las causas del mal en las enfermedades de los padres.

Después de algunos días los miembros paralizados recobraron el movimiento; pero la inteligencia, el alma, aun el instinto, se habían ido del todo; había quedado profundamente idiota, baboso, colgante, muerto para siempre sobre las rodillas de su madre.

—¡Hijo, mi hijo querido! —sollozaba ésta, sobre aquella espantosa ruina de su primogénito.

El padre, desolado, acompañó al médico afuera.

—A usted se le puede decir: creo que es un caso perdido. Podrá mejorar, educarse en todo lo que le permita su idiotismo, pero no más allá.

—¡Sí!... ¡Sí! —asentía Mazzini—. Pero dígame: ¿Usted cree que es herencia, que...?

—En cuanto a la herencia paterna, ya le dije lo que creía cuando vi a su hijo. Respecto a la madre, hay allí un pulmón que no sopla bien. No veo nada más, pero hay un soplo un poco rudo. Hágala examinar detenidamente.

Con el alma destrozada de remordimiento, Mazzini redobló el amor a su hijo, el pequeño idiota que pagaba los excesos del abuelo. Tuvo asimismo que consolar, sostener sin tregua a Berta, herida en lo más profundo por aquel fracaso de su joven maternidad.

Como es natural, el matrimonio puso todo su amor en la esperanza de otro hijo. Nació éste, y su salud y limpidez de risa reencendieron el porvenir extinguido. Pero a los dieciocho meses las convulsiones del primogénito se repetían, y al día siguiente el segundo hijo amanecía idiota.

Esta vez los padres cayeron en honda desesperación. ¡Luego su sangre, su amor estaban malditos! ¡Su amor, sobre todo! Veintiocho años él, veintidós ella, y toda su apasionada ternura no alcanzaba a crear un átomo de vida normal. Ya no pedían más belleza e inteligencia como en el primogénito; ¡pero un hijo, un hijo como todos!

Del nuevo desastre brotaron nuevas llamaradas del dolorido amor, un loco anhelo de redimir de una vez para siempre la santidad de su ternura. Sobrevinieron mellizos, y punto por punto repitióse el proceso de los dos mayores.

Mas por encima de su inmensa amargura quedaba a Mazzini y Berta gran compasión por sus cuatro hijos. Hubo que arrancar del limbo de la más honda animalidad, no ya sus almas, sino el instinto mismo, abolido. No sabían deglutir, cambiar de sitio, ni aun sentarse. Aprendieron al fin a caminar, pero chocaban contra todo, por no darse cuenta de los obstáculos. Cuando los lavaban mugían hasta inyectarse de sangre el rostro. Animábanse sólo al comer, o cuando veían colores brillantes u oían truenos. Se reían entonces, echando afuera lengua y ríos de baba, radiantes de frenesí bestial. Tenían, en cambio, cierta facultad imitativa; pero no se pudo obtener nada más.

Con los mellizos pareció haber concluido la aterradora descendencia. Pero pasados tres años desearon de nuevo ardientemente otro hijo, confiando en que el largo tiempo transcurrido hubiera aplacado a la fatalidad.

No satisfacían sus esperanzas. Y en ese ardiente anhelo que se exasperaba en razón de su infructuosidad, se agriaron. Hasta ese momento cada cual había tomado sobre sí la parte que le correspondía en la miseria de sus hijos; pero la desesperanza de redención ante las cuatro bestias que habían nacido de ellos echó afuera esa imperiosa necesidad de culpar a los otros, que es patrimonio específico de los corazones inferiores.

Iniciáronse con el cambio de pronombre: tus hijos. Y como a más del insulto había la insidia, la atmósfera se cargaba.

—Me parece —díjole una noche Mazzini, que acababa de entrar y se lavaba las manos—que podrías tener más limpios a los muchachos.

Berta continuó leyendo como si no hubiera oído.

—Es la primera vez —repuso al rato— que te veo inquietarte por el estado de tus hijos.

Mazzini volvió un poco la cara a ella con una sonrisa forzada:

—De nuestros hijos, ¿me parece?

—Bueno, de nuestros hijos. ¿Te gusta así? —alzó ella los ojos.

Esta vez Mazzini se expresó claramente:

—¿Creo que no vas a decir que yo tenga la culpa, no?

—¡Ah, no! —se sonrió Berta, muy pálida— ¡pero yo tampoco, supongo!... ¡No faltaba más!... —murmuró.

—¿Qué no faltaba más?

—¡Que si alguien tiene la culpa, no soy yo, entiéndelo bien! Eso es lo que te quería decir.

Su marido la miró un momento, con brutal deseo de insultarla.

—¡Dejemos! —articuló, secándose por fin las manos.

—Como quieras; pero si quieres decir...

—¡Berta!

—¡Como quieras!

Éste fue el primer choque y le sucedieron otros. Pero en las inevitables reconciliaciones, sus almas se unían con doble arrebato y locura por otro hijo.

Nació así una niña. Vivieron dos años con la angustia a flor de alma, esperando siempre otro desastre. Nada acaeció, sin embargo, y los padres pusieron en ella toda su complaciencia, que la pequeña llevaba a los más extremos límites del mimo y la mala crianza.

Si aún en los últimos tiempos Berta cuidaba siempre de sus hijos, al nacer Bertita olvidóse casi del todo de los otros. Su solo recuerdo la horrorizaba, como algo atroz que la hubieran obligado a cometer. A Mazzini, bien que en menor grado, pasábale lo mismo. No por eso la paz había llegado a sus almas. La menor indisposición de su hija echaba ahora afuera, con el terror de perderla, los rencores de su descendencia podrida. Habían acumulado hiel sobrado tiempo para que el vaso no quedara distendido, y al menor contacto el veneno se vertía afuera. Desde el primer disgusto emponzoñado habíanse perdido el respeto; y si hay algo a que el hombre se siente arrastrado con cruel fruición es, cuando ya se comenzó, a humillar del todo a una persona. Antes se contenían por la mutua falta de éxito; ahora que éste había llegado, cada cual, atribuyéndolo a sí mismo, sentía mayor la infamia de los cuatro engendros que el otro habíale forzado a crear.

Con estos sentimientos, no hubo ya para los cuatro hijos mayores afecto posible. La sirvienta los vestía, les daba de comer, los acostaba, con visible brutalidad. No los lavaban casi nunca. Pasaban todo el día sentados frente al cerco, abandonados de toda remota caricia. De este modo Bertita cumplió cuatro años, y esa noche, resultado de las golosinas que era a los padres absolutamente imposible negarle, la criatura tuvo algún escalofrío y fiebre. Y el temor a verla morir o quedar idiota, tornó a reabrir la eterna llaga.

Hacía tres horas que no hablaban, y el motivo fue, como casi siempre, los fuertes pasos de Mazzini.

—¡Mi Dios! ¿No puedes caminar más despacio? ¿Cuántas veces...?

—Bueno, es que me olvido; ¡se acabó! No lo hago a propósito.

Ella se sonrió, desdeñosa: —¡No, no te creo tanto!

—Ni yo jamás te hubiera creído tanto a ti... ¡tisiquilla!

—¡Qué! ¿Qué dijiste?...

—¡Nada!

—¡Sí, te oí algo! Mira: ¡no sé lo que dijiste; pero te juro que prefiero cualquier cosa a tener un padre como el que has tenido tú!

Mazzini se puso pálido.

—¡Al fin! —murmuró con los dientes apretados—. ¡Al fin, víbora, has dicho lo que querías!

—¡Sí, víbora, sí! Pero yo he tenido padres sanos, ¿oyes?, ¡sanos! ¡Mi padre no ha muerto de delirio! ¡Yo hubiera tenido hijos como los de todo el mundo! ¡Esos son hijos tuyos, los cuatro tuyos!

Mazzini explotó a su vez.

—¡Víbora tísica! ¡eso es lo que te dije, lo que te quiero decir! ¡Pregúntale, pregúntale al médico quién tiene la mayor culpa de la meningitis de tus hijos: mi padre o tu pulmón picado, víbora!

Continuaron cada vez con mayor violencia, hasta que un gemido de Bertita selló instantáneamente sus bocas. A la una de la mañana la ligera indigestión había desaparecido, y como pasa fatalmente con todos los matrimonios jóvenes que se han amado intensamente una vez siquiera, la reconciliación llegó, tanto más efusiva cuanto infames fueran los agravios.

Amaneció un espléndido día, y mientras Berta se levantaba escupió sangre. Las emociones y mala noche pasada tenían, sin duda, gran culpa. Mazzini la retuvo abrazada largo rato, y ella lloró desesperadamente, pero sin que ninguno se atreviera a decir una palabra.

A las diez decidieron salir, después de almorzar. Como apenas tenían tiempo, ordenaron a la sirvienta que matara una gallina.

El día radiante había arrancado a los idiotas de su banco. De modo que mientras la sirvienta degollaba en la cocina al animal, desangrándolo con parsimonia (Berta había aprendido de su madre este buen modo de conservar la frescura de la carne), creyó sentir algo como respiración tras ella. Volvióse, y vio a los cuatro idiotas, con los hombros pegados uno a otro, mirando estupefactos la operación... Rojo... rojo...

—¡Señora! Los niños están aquí, en la cocina.

Berta llegó; no quería que jamás pisaran allí. ¡Y ni aun en esas horas de pleno perdón, olvido y felicidad reconquistada, podía evitarse esa horrible visión! Porque, naturalmente, cuando más intensos eran los raptos de amor a su marido e hija, más irritado era su humor con los monstruos.

—¡Que salgan, María! ¡Échelos! ¡Échelos, le digo!

Las cuatro pobres bestias, sacudidas, brutalmente empujadas, fueron a dar a su banco.

Después de almorzar salieron todos. La sirvienta fue a Buenos Aires y el matrimonio a pasear por las quintas. Al bajar el sol volvieron; pero Berta quiso saludar un momento a sus vecinas de enfrente. Su hija escapóse enseguida a casa.

Entretanto los idiotas no se habían movido en todo el día de su banco. El sol había traspuesto ya el cerco, comenzaba a hundirse, y ellos continuaban mirando los ladrillos, más inertes que nunca.

De pronto algo se interpuso entre su mirada y el cerco. Su hermana, cansada de cinco horas paternales, quería observar por su cuenta. Detenida al pie del cerco, miraba pensativa la cresta. Quería trepar, eso no ofrecía duda. Al fin decidióse por una silla desfondada, pero aun no alcanzaba. Recurrió entonces a un cajón de kerosene, y su instinto topográfico hízole colocar vertical el mueble, con lo cual triunfó.

Los cuatro idiotas, la mirada indiferente, vieron cómo su hermana lograba pacientemente dominar el equilibrio, y cómo en puntas de pie apoyaba la garganta sobre la cresta del cerco, entre sus manos tirantes. Viéronla mirar a todos lados, y buscar apoyo con el pie para alzarse más.

Pero la mirada de los idiotas se había animado; una misma luz insistente estaba fija en sus pupilas. No apartaban los ojos de su hermana mientras creciente sensación de gula bestial iba cambiando cada línea de sus rostros. Lentamente avanzaron hacia el cerco. La pequeña, que habiendo logrado calzar el pie iba ya a montar a horcajadas y a caerse del otro lado, seguramente sintióse cogida de la pierna. Debajo de ella, los ocho ojos clavados en los suyos le dieron miedo.

—¡Soltáme! ¡Déjame! —gritó sacudiendo la pierna. Pero fue atraída.

—¡Mamá! ¡Ay, mamá! ¡Mamá, papá! —lloró imperiosamente. Trató aún de sujetarse del borde, pero sintióse arrancada y cayó.

—Mamá, ¡ay! Ma. . . —No pudo gritar más. Uno de ellos le apretó el cuello, apartando los bucles como si fueran plumas, y los otros la arrastraron de una sola pierna hasta la cocina, donde esa mañana se había desangrado a la gallina, bien sujeta, arrancándole la vida segundo por segundo.

Mazzini, en la casa de enfrente, creyó oír la voz de su hija.

—Me parece que te llama—le dijo a Berta.

Prestaron oído, inquietos, pero no oyeron más. Con todo, un momento después se despidieron, y mientras Berta iba dejar su sombrero, Mazzini avanzó en el patio.

—¡Bertita!

Nadie respondió.

—¡Bertita! —alzó más la voz, ya alterada.

Y el silencio fue tan fúnebre para su corazón siempre aterrado, que la espalda se le heló de horrible presentimiento.

—¡Mi hija, mi hija! —corrió ya desesperado hacia el fondo. Pero al pasar frente a la cocina vio en el piso un mar de sangre. Empujó violentamente la puerta entornada, y lanzó un grito de horror.

Berta, que ya se había lanzado corriendo a su vez al oír el angustioso llamado del padre, oyó el grito y respondió con otro. Pero al precipitarse en la cocina, Mazzini, lívido como la muerte, se interpuso, conteniéndola:

—¡No entres! ¡No entres!

Berta alcanzó a ver el piso inundado de sangre. Sólo pudo echar sus brazos sobre la cabeza y hundirse a lo largo de él con un ronco suspiro.



Del libro:
Cuentos de amor, de locura y de muerte (1917)