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quinta-feira, 22 de abril de 2021

Leitura: Losango Cáqui (1926) - Mário de Andrade



Refeição Cultural

O dia está nublado, com chuviscos. Meio friozinho na Pauliceia arlequinal. É tudo que se precisa para ler Mário de Andrade. Estou com os modernistas nesses dias. Depois de três livros de Oswald de Andrade, li a Pauliceia Desvairada e agora conheci Losango Cáqui. Sigo na procura, como diz o poeta na "Advertência" contida no início da obra.

"Porém peço que este livro seja tomado como pergunta, não como solução que eu acredite siquer momentânea. A existência admirável que levo consagrei-a toda a procurar. Deus queira que não ache nunca... Porque seria então o descanso em vida, parar mais detestável que a morte. Minhas obras todas na significação verdadeira delas eu as mostro nem mesmo como soluções possíveis e transitórias. São Procuras. Consagram e perpetuam esta inquietação gostosa de procurar. Eis o que é, o que imagino será toda a minha obra: uma curiosidade em via de satisfação." (ANDRADE, 1976, p. 81)

O livro de Mário de Andrade é bem curioso. Achei interessante.

Eu não tive a capacidade de aprender toda aquela física quântica das nominações impronunciáveis que inventaram para os fenômenos da gramática e da linguagem poética. Male male fui aprender a ler poesia depois dos trinta anos de idade. Sigo assim nas últimas duas décadas, um curioso lendo poesia, conhecendo um pouco os poetas mais aclamados, e tendo claro que não sou um entendido em poesia. Sou um ignorante, mas um ignorante consciente e que busca preencher suas lacunas culturais.

Deixo na postagem um dos poemas que mais gostei de Losango Cáqui:


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XXIV

A ESCRIVANINHA

Meu pai com seu nariz judeu...
Eu vivia quási sem ruído.
Dúmas Terrail Zóla escondidos,
Si ele souber... Meu pai? Meu Deus?

Duas pessoas num só terror.
Meus quatorze anos sorrateiros:
Leituras pobres, vícios feios,
Quanto passado sem valor!

Eu não vivi no meu país.
Zóla Terrail Dúmas franceses...
Que gramáticas portuguesas
Pro miserável de Paris!

Depois a Vida me ensinou
A vida. Meu pai morreu. Quando
Órfão me vi, chora-chorando,
Minha miséria se acabou.

Anjo-da-Guarda, Solidão!
Zóla voltou pra escrivaninha
De meu pai. Que grandeza estranha
Pôs esse gesto em minha mão?...
        Não sei.

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Vamos lendo enquanto vivos. As lacunas culturais são cada dia maiores... você lê uma coisa e aparecem as referências que são lacunas a se preencherem em nossas vidas de curiosos, de leitores. Ainda não li um livro sequer de Émile Zola... É f...

Leiam, leiam, raros amig@s leitores. Leiam!

William


Bibliografia:

ANDRADE, Mário de. Poesias Completas. Círculo do Livro S.A. São Paulo, 1976.


terça-feira, 20 de abril de 2021

Livro: Pauliceia Desvairada - Mário de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos

"A gramática apareceu depois de organizadas as línguas. Acontece que meu inconsciente não sabe da existência de gramáticas, nem de línguas organizadas. E como Dom Lirismo é contrabandista..." ("Prefácio interessantíssimo", Pauliceia Desvairada, 1922)


Estou nuns dias de desconstrução, e quem sabe reconstrução de algo, talvez até de descobertas de sentidos, sabendo que não há sentido nas coisas. A coisa até parece o Modernismo e seus participantes centrais, Oswald de Andrade e Mário de Andrade (além, é claro, de meu predileto, o 3º Andrade, o Drummond).

Interrompi a leitura de Moby Dick por uns dias, para ler uns livros intercalados. Estou bem na leitura do clássico de Melville. Faltam pouco mais de cem páginas para acabar o livrão. 

Nesses dias de desconstrução, li primeiro o Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade. Depois li o livro de poesia Pau-Brasil, dele também. Para finalizar as obras centrais de O. A. que tenho, li o Serafim Ponte Grande. Livros fundantes do Modernismo brasileiro. Já havia lido essas obras duas décadas atrás, quando entrei na USP.

Aí fui pegar para ler os textos críticos de Haroldo de Campos, contidos nos livros do Oswald de Andrade. O texto crítico de Campos contido no João Miramar li no dia da releitura da obra. Faltavam mais dois textos críticos e o contido na edição de Pau-Brasil é enorme, mais de 50 páginas. Enfim, peguei pra ler as críticas. São muito boas!

Ao começar a leitura de Haroldo de Campos falando sobre a poesia Pau-Brasil e Oswald de Andrade, não teve jeito de ficar só nisso. Mário de Andrade era tão citado, juntamente com sua Pauliceia, que tive que parar o texto crítico e reler a Pauliceia Desvairada (1922). Mário de Andrade foi outro modernista que conheci ao estudar nas Letras da USP.

Foi assim minha manhã desta terça-feira, 20 de abril. A cada dia, menos vontade de ligar o celular eu tenho. Estamos vivendo um período de guerra, destruição do mundo, mortes nos campos de batalha, perdas de pessoas conhecidas, depressões. Explico: pandemia de Covid-19 no Brasil do regime fascista e genocida de um psicopata apoiado pela casa-grande, que acabou com a parca democracia que tínhamos ao dar um golpe de Estado em 2016. Tem horas que não queremos mais saber do mundo.

Enfim, voltando à Pauliceia Desvairada, a leitura de Mário de Andrade foi muito impactante quando a li pela primeira vez na Letras. Naquela época, eu fiz Modernismo com o professor Wisnik: foi legal demais! 

Fizemos uma greve na faculdade em 2002, a maior greve da história da FFLCH, e eu cheguei a declamar "Ode ao burguês" nas escadarias do prédio da Gazeta na Avenida Paulista. Eu declamava cada verso e um monte de gente repetia em seguida... foi "arlequinal!".

Na sala de aula, o professor fazia leituras em voz alta conosco, gritando poemas da Pauliceia. Era uma loucura! Inesquecível!

É isso. Anotado mais um clássico que tive o privilégio de conhecer nesta vida.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Mário de. Poesias completas. Círculo do Livro S.A. São Paulo, 1976


domingo, 18 de abril de 2021

Livro: Serafim Ponte Grande - Oswald de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Fatigado
Das minhas viagens pela terra
De camelo e táxi
Te procuro
Caminho de casa
Nas estrelas
Costas atmosféricas do Brasil
Costas sexuais
Para vos fornicar
Como um pai bigodudo de Portugal
Nos azuis do clima
Ao solem nostrum
Entre raios, tiros e jaboticabas
"

(Serafim Ponte Grande, O. A.)


Entre minhas leituras engajadas do momento, os dois livrões que estou lendo nestes dias - Moby Dick (1851), do romancista norte-americano Herman Melville e O verdadeiro criador de tudo (2020), do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, eu descanso lendo algo leve ou revejo leituras que já fiz.

Foi em uma dessas pausas de descanso dos livros lidos como desafios novos, que li neste domingo (18/4) o 3º livro do modernista Oswald de Andrade. Na verdade, foram releituras das obras dele estudadas por mim há duas décadas, quando entrei na faculdade de Letras da USP.

E com a leitura de hoje de Serafim Ponte Grande (1933), de Oswald de Andrade, encerro a trilogia do autor. Li Memórias sentimentais de João Miramar (1924) e Pau-Brasil (1924) dias atrás. Postagens aqui e aqui, respectivamente.

Gostei mais da leitura de Serafim Ponte Grande do que da leitura de João Miramar. A linguagem de ambos os romances é inovadora, lógico, mas no Serafim o escritor está mais maduro naquilo que queria desenvolver. O prefácio de 1933 feito por Oswald de Andrade é forte, é de ruptura com uma fase do modernismo que ele e seus colegas vivenciaram. Vejam o que ele diz:

"Publico-o no seu texto integral, terminado em 1928. Necrológio da burguesia. Epitáfio do que fui." (p. 39)

Nas minhas releituras e leituras de descobertas de personagens da literatura brasileira, pretendo identificar o esforço de nossos autores mais conhecidos e clássicos em representar os tipos brasileiros, os caracteres de nossa gente na visão desses autores.

João Miramar e Serafim Ponte Grande são, na minha opinião, personagens literários que ocupam essas tentativas autorais de descrever tipos sociais de nossa gente. Sei que O. A. apresentou nesses romances toda uma concepção de linguagem, de críticas a outras formas de linguagem poética e literária anterior ao movimento ao qual ele estava engajado, o Modernismo Brasileiro.

Enfim, mais um clássico contabilizado nas minhas metas literárias.

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MEMÓRIAS E REFLEXÕES

Os livros trazem muita história, falo aqui em relação aos livros físicos, os volumes que temos em mãos quando lemos. Minhas edições de Oswald de Andrade foram adquiridas há duas décadas. Nelas, tomei contato com o autor no momento que comecei uma faculdade de Letras. Estava tendo aulas fantásticas sobre Literatura Brasileira e Modernismo.

O livro que li hoje, dia 18 de abril de 2021, tem uma marcação que me deixou pensando na vida. Lá na página 161, a página do fim do romance, anotei o dia que acabei a leitura em 2002: dia 2 de agosto. Na hora vieram diversas memórias e pensamentos sobre a minha vida nestas duas décadas.

Dia 2 de agosto de 2002 foi meu último dia atendendo clientes da agência Vila Iara - Osasco, no Banco do Brasil, foi uma sexta-feira. Após ser eleito diretor do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, alguns meses antes, eu começaria meu trabalho de representação dispensado do local de trabalho a partir do dia 5 de agosto, uma segunda-feira. Tudo mudou na minha vida a partir dessa data.

Aliás, as coisas mudaram tanto que neste domingo de 2021 eu não liguei o celular, não entrei em rede social alguma, não quis ler notícias. Preferi me isolar e ler. Com a leitura e sem ser pescado, fisgado, capturado pela Matrix, pude refletir sobre tanta coisa, do presente e do passado, que foi um dia de muitas memórias e reflexões sobre a vida.

Estamos no pior momento da história do Brasil. Um governo genocida, psicopata e lesa-pátria desmancha nosso país e nossas vidas. A pandemia mundial de Covid-19 contamina, sequela e mata milhares de pessoas todos os dias, aqui com o apoio do regime de morte. As pessoas não têm direitos sociais mínimos após a retirada do Partido dos Trabalhadores do poder por golpe de Estado. 

É tudo muito triste hoje em dia. Bem diferente do que iríamos viver no Brasil a partir daquele dia que li Serafim Ponte Grande, dia 2 de agosto de 2002. Lula seria eleito e o povo viveria os melhores anos de suas vidas, o Brasil viveria o melhor momento de sua história.

É isso!

William


ANDRADE, Oswald de. Serafim Ponte Grande. 8ª ed. - São Paulo: Globo, 2001.


sexta-feira, 16 de abril de 2021

Livro: Pau-Brasil - Oswald de Andrade


 

Refeição Cultural - Cem clássicos

"DIGESTÃO

A couve mineira tem gosto de bife inglês
Depois do café e da pinga
O gozo de acender a palha
Enrolando o fumo
De Barbacena ou de Goiás
Cigarro cavado
Conversa sentada
"

(Pau-Brasil, O. A.)


Como disse na postagem anterior sobre minhas leituras clássicas, avaliar meus clássicos é uma chance de rever e redescobrir obras fantásticas (ler aqui). A sensação do diferente e do novo foi a mesma tanto ao reler o romance Memórias sentimentais de João Miramar, como agora na releitura do livro Pau-Brasil, ambos de Oswaldo de Andrade.

Tudo é muito diferente na linguagem do escritor modernista. Alguns poemas do livro são deliciosos, são como imagens passando pela janela de um trem em movimento.

"PAISAGEM

Na atmosfera violeta
A madrugada desbota
Uma pirâmide quebra o horizonte
Torres espirram do chão ainda escuro
Pontes trazem nos pulsos rios bramindo
Entre fogos
Tudo novo se desencapotando
"


Adorei o "Pontes trazem nos pulsos rios bramindo"! A imagem é maravilhosa, senti até o friozinho de passar por pontes nos baixios das estradas pela madrugada. Só quem faz romaria como faço há décadas para saber o que são rios bramindo no frio das pontes.

O livro tem alguns poemas clássicos e de maior conhecimento popular como esse:

"PRONOMINAIS

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
"


Tão nosso, tão brasileiro!

Enfim, ler obras clássicas da literatura brasileira e mundial fez com que minha visão de mundo e minha perspectiva a respeito da alteridade se expandisse ao longo da idade adulta e de vida proletária. 

Muitas referências de autores e de obras importantes adquiri ao entrar no universo das letras na Universidade de São Paulo. As disciplinas e as aulas com os professores de lá são verdadeiros roteiros literários e culturais. Algo que deveria ser de acesso a todas as pessoas do mundo.

É isso! Leiam os clássicos!

William


Bibliografia:

ANDRADE, Oswald de. Pau-Brasil. 8ª ed. - São Paulo: Globo, 2002. (Obras completas de Oswald de Andrade)


segunda-feira, 12 de abril de 2021

Livro: Memórias sentimentais de João Miramar - Oswald de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos

Sigo na avaliação e contagem dos clássicos da literatura mundial que já tive o privilégio de ler. Ter contato com textos referenciais e ler os grandes autores e suas obras é um desejo antigo, desde que era adolescente e trabalhador braçal. Entre os best sellers que li naquela época, acertei na escolha de algumas obras importantes...

Ainda na adolescência fiz uma daquelas listas de metas na vida e um dos itens da lista era ler ao menos cem clássicos. O tempo passou e pouca coisa pude ler nessas décadas de vida, pouca coisa se for comparar minhas leituras de proletário com as leituras dos grandes leitores, esses eruditos que são enciclopédias ambulantes.

O interessante neste trabalho de avaliar minhas experiências com os clássicos é poder aproveitar a oportunidade para revisitar a obra, o autor, o momento de surgimento do texto e suas ideias, o contexto histórico da obra e que tais. Tenho duas referências no assunto clássicos e leituras: Italo Calvino e sua obra Por que ler os clássicos (2007) e Alberto Manguel e sua fantástica obra Uma história da leitura (1997).

Olhando na estante de casa, vi lá 4 livros do intelectual modernista Oswald de Andrade. Soube a respeito dele basicamente na ocasião em que comecei a fazer faculdade de Letras na Universidade de São Paulo, em 2001. Achei muito legal estudar as vanguardas e o Modernismo Brasileiro e assistir às aulas do professor José Miguel Wisnik. Foi uma honra para o estudante aqui manter o contato com a sabedoria do Wisnik por um semestre.

Em 2002 li 3 vezes o livro, para ter uma compreensão melhor do romance. João Miramar é um típico representante da casa-grande paulistana. Foi interessante reler o clássico agora aos 52 anos de idade. Tudo muda com o passar do tempo, mas a elite paulistana continua a mesma merda!

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O romance é composto por 163 fragmentos, como se fossem cenas de um filme. O autor usa poucos verbos e as frases são construídas com sequências de substantivos e adjetivos. E tem também muito neologismo, muita invenção de palavras.

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"42. SORRENTO

Velhas velas cigarras

Brumais no mar vesuviano

Com jardins lagartixos e douradas mulheres..." (p. 57)

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"48. CHUVA DE PEDRA

     Estiadas amáveis iluminavam instantes de céus sobre ruas molhadas de pipilos nos arbustos dos squares. Mas a abóbada de garoa desabava os quarteirões.

     E um dia o dinheiro chegou demais dentro dum telegrama com resposta paga de minha rápida volta." (p. 60)

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"132. OBJETO DIRETO

     Ao longo do longo Viaduto bandos de bondes iam para as bandas da Avenida.

     O poente secava nuvens no céu mal lavado.

     No Triângulo começado de luz bulhenta antes da perdida ocasião de ir para casa entramos numa casa de joias." (p. 91)

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"146. VERBO CRACKAR

Eu empobreço de repente

Tu enriqueces por minha causa

Ele azula para o sertão

Nós entramos em concordata

Vós protestais por preferência

Eles escafedem a massa

                              Sê pirata

                              Sede trouxas

Abrindo o pala

Pessoal sarado.

Oxalá que eu tivesse sabido que esse verbo era irregular." (p. 97/98)

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Mais um clássico da literatura a contar nas minhas leituras e na busca por conhecimento.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Oswaldo de. Memórias sentimentais de João Miramar. 13ª edição - São Paulo: Globo, 2001.


domingo, 11 de abril de 2021

110421 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Domingo. Hoje queria variar minhas leituras. Estou indo bem com a leitura do clássico de Melville, Moby Dick. Também estou avançando bem no livro O verdadeiro criador de tudo, do neurocientista Miguel Nicolelis. Mas essas leituras dedicadas cansam a gente. Tem hora que a gente @#$%¨&...

Olhando a estante, mirei os livros que tenho do intelectual modernista escritor, poeta e mais um monte de coisas Oswald de Andrade. Dos 4 livros que tenho dele, 3 li no início de meu curso de Letras na USP, há quase duas décadas. Peguei os livros. Li a respeito do escritor na internet. Figura importante na cultura do Brasil.

O dia passou e não li o romance que escolhi, de Oswald de Andrade. Após ler um texto crítico de Haroldo de Campos - "Miramar na mira" -, do ano de 1964, quarenta anos após a publicação do romance Memórias sentimentais de João Miramar, acabei parando a leitura para fazer outras coisas. A noite chegou e não li o romance... que saco!

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Peguei a bike e me arrisquei ao vírus mortal para pedalar um pouco. Meti a máscara na cara, o capacete e fui andar em Osasco. Fui até a frente de uma das casas onde morei de aluguel quando perambulei pela cidade de aluguel em aluguel. Quase todas as pessoas que vi pelo caminho, em bares abertos ou portas de casas, estavam sem máscara e bebiam e fumavam e não existia nem sinal de preocupação com a peste, com o vírus que já matou mais de 350 mil pessoas no país, a ampla maioria da base da pirâmide social: gente pobre e das classes baixas. Há um genocídio em andamento e não há revolta na população. Que gente é essa? Que lugar é esse?

Pedalei por uma hora, mais para espairecer as ideias que para fazer exercício, na verdade, porque não fiz esforço. Deveria ter feito porque preciso, mas estava meio devagar hoje. Estar parado, sem fazer nada aeróbico, no meu caso, significa acelerar a morte por agravamento de doenças crônicas porque tenho histórico familiar de problemas de colesterol e pressão alta. Tenho que pedalar ou correr pra sobreviver e diminuir o risco de infarto, AVC e outras merdas consequentes dessas doenças crônicas.

As leituras que tenho feito têm me colocado pensativo a respeito da vida, a idade tem me feito pensar muito na vida (e na morte). A situação do Brasil e o povo brasileiro têm me feito pensar muito na vida. Só de pensar nessas coisas dá um cansaço desgraçado... mas fui forjado na vida para viver, viver apenas, sem mistificações. Na tristeza e na alegria, na dor... mas não me deixo morrer à toa. Não é correto, não é ético, nem comigo mesmo nem com as pessoas de nossas relações pessoais.

Um abraço para você, leitor ou leitora, que por algum motivo leu essa postagem de reflexão. No momento, textos não interessam mais pra muitas pessoas. Gosto de estudar, ler, aprender e compartilhar reflexões, sempre no intuito de pensar um mundo melhor e sustentável e uma vida melhor para os seres humanos.

William

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A inclusão social pelo consumo - Renato Janini Ribeiro


Apresentação do Blog

"Porque ser feliz é viver ao máximo o que se tem, não é buscar o máximo fora de si. Ser feliz não é depender do consumo. Mais que isso: ser feliz é não depender do consumo" (Janine)

Maravilhoso artigo do profº Janine. Abre reflexões profundas sobre o Brasil contemporâneo na era pós-Lula. Recomendo a leitura e o debate coletivo a respeito do tema.


William


Do: Valor Econômico 28/1/14



A sociedade brasileira projetou a realização social no conforto, no luxo, em bens de consumo prestigiosos. Há melhor símbolo disso do que a profusão de iPhones? Eles não se limitam a dar prazer. Eles nos realizam. Melhor dizendo: é o prazer que nos realiza. Mas esta visão do mundo, tão frequente no Brasil, não é nada óbvia. Um francês imbuído do valor da educação, um alemão formado na convicção do dever, um inglês convencido do valor ético do trabalho dificilmente enxergariam as coisas assim. Mas, aqui, é muito forte a ideia de que pelo prazer se vence. Basta ligar a Rede Globo, qualquer dia deste mês, em torno das 23 horas, para ver isso, parte ao vivo, tudo em cores.

Volto a comentar os rolezinhos. Eles foram uma surpresa pelo timing e pela dimensão, mas prolongam algumas tendências de nossa sociedade que não deveriam nos surpreender. As manifestações de 2013 foram uma exceção, como as Diretas-Já em 1984 e o impeachment de Collor, em 1992, espaçados momentos em que a cidadania toma o espaço público para defender a coisa pública. O rolezinho é político, mas porque tem um significado político, não porque se expresse em termos políticos. Ele responde a uma nossa tendência, para o mal - e para o bem -, que é carnavalizar.

Na sua melhor versão, é Oswald de Andrade, no "Manifesto Antropófago", de 1929: "A alegria é a prova dos nove". Naquela época, dizia-se que o Brasil era fruto de "três raças tristes", o português, o negro e o indígena. Oswald rompia com esse mito de uma tristeza originária. Contestava a herança jesuítica e religiosa da colônia. Abria lugar para o carnaval, a festa, as paixões alegres.

Rolês mostram que a ideologia do shopping venceu

Mas o fato é que carnavalizamos. Não é só o Big Brother que propõe o sucesso pela exibição do corpo. É quase toda a mídia popular que, sempre que vai contrastar esforço e lazer, estudo e diversão, mente e corpo, opta decididamente pelo segundo termo. Nossa cultura é sobrecarregada de hedonismo.

Já observei aqui que prazer não é felicidade, ao contrário do que se ouve todos os dias. O prazer é breve, instantâneo, intenso; a felicidade é um estado simples e permanente, modesto. Só é feliz quem reduz sua demanda de prazeres. Mas nossa sociedade construiu um sistema em que o prazer é requerido o tempo todo, com sua consequência, apontada pelos filósofos desde a Antiguidade: os prazeres não levam à satisfação. Eles formam uma adição. Uma sociedade que valoriza a este ponto o consumo, seja na Miami de classe média, seja no rolezinho de periferia, tem dificuldades de ir além do prazer. Porque ser feliz é viver ao máximo o que se tem, não é buscar o máximo fora de si. Ser feliz não é depender do consumo. Mais que isso: ser feliz é não depender do consumo.

Mas é o consumo que tem marcado a inclusão social, no Brasil. A inclusão dos últimos anos foi em boa medida um aumento do poder de compra a crédito. Os pobres compram mais - o que é ótimo, porque eles tinham e ainda têm acesso limitado a vários dentre os bens que asseguram o conforto. Mas esse foi o eixo mais marcante da inclusão. Embora a educação esteja melhorando, a dupla do bem - que seriam o mix de educação e cultura, e o de saúde e atividade física - não desperta igual atenção nem gera resultados rápidos. Aliás, se fosse outra a prioridade dos governos petistas, eles se teriam defrontado com uma oposição ainda maior. Aumentar o poder aquisitivo injeta dinheiro na veia da economia. Já melhorar o que chamei dupla do bem exigiria mais investimentos públicos, isto é, mais impostos. Não seria fácil nem, talvez, politicamente possível.

Estamos no limite do que pode ser a inclusão social pelo consumo. Beira o ridículo negar a inclusão social promovida pelo PT. Foi substancial. Mas se deu pelo que nossa sociedade consumista mais valoriza. Melhorar radicalmente as escolas teria exigido mais verbas e protagonismo do poder público. O mesmo vale para a saúde, o transporte e a segurança públicos. O choque com as classes mais ricas teria sido forte, porque a exigência tributária teria aumentado. Basta ver como é difícil a Prefeitura de São Paulo arrecadar o necessário a fim de melhorar um pouco os ônibus, para se ter o tamanho do problema.

Com o consumo, o PT escolheu a via do possível. Dificilmente seus adversários teriam feito melhor. Mas a trilha do consumo significa: a ideologia que ganhou foi a do shopping center. Dizia-se há alguns anos que a ideologia dominante numa sociedade é a ideologia de sua classe dominante. Se for verdade, os rolês mostram que a ideologia da classe média, seu "way of life", seduziram os mais pobres. O que muitos deles querem é estar no mundo da classe média. Não querem romper com ela nem eliminá-la. Querem fazer parte dela, claro que com os ajustes necessários.

Se a classe média não gosta disso, é outra coisa (essa batalha, a "velha classe média" vai perder, e as chances do PSDB estão - como bem entendeu Aécio, mas não os jornalistas favoráveis ao partido - em conseguir ser o partido de todas as classes médias, não só da antiga). Mas a classe média, ou sua maioria consumista, poderia ficar contente. Porque isso significa que os movimentos dos jovens chamados rolezinhos não acreditam que um outro mundo seja possível. O problema é que a inclusão pelo consumo tem um alcance limitado, chega uma hora em que você tem de produzir e não só consumir, e a produção requer hoje competências cada vez maiores, que se chamam educação, cultura, ciência. O engraçado é que também elas podem dar (algum) prazer, mas nossa sociedade, independentemente da classe social, não sabe disso. Prefere o shopping.


Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. Escreve às segundas-feiras no Valor.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Leitura: Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, de 1925



Refeição Cultural

Prefácio de Paulo Prado

No prefácio de Paulo Prado, de 1924, na apresentação da Poesia Pau-Brasil, com vários excertos do "Manifesto da Poesia Pau-Brasil", já se diz aos leitores sobre a radicalidade da obra.

TRECHOS DO PREFÁCIO

"Não só mudaram as ideias inspiradoras da poesia, como também os moldes em que ela se encerra. Encaixar na rigidez de um soneto todo o baralhamento da vida moderna é absurdo e ridículo. Descrever com palavras laboriosamente extraídas dos clássicos portugueses e desentranhadas dos velhos dicionários, o pluralismo cinemático de nossa época, é um anacronismo chocante, como se encontrássemos num Ford um tricórnio..." p. 58

-
"Sejamos agora de novo, no cumprimento de uma missão étnica e protetora, jacobinamente brasileiros. Libertemo-nos das influências nefastas das velhas civilizações em decadência. Do novo movimento deve surgir, fixada, a nova língua brasileira, que será como esse 'Amerenglish' que citava o Times referindo-se aos Estados Unidos" p. 59

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"Nesta época apressada de rápidas realizações a tendência é toda para a expressão rude e nua da sensação e do sentimento, numa sinceridade total e sintética" p. 59

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"Grande dia esse para as letras brasileiras. Obter, em comprimidos, minutos de poesia (...) A nova poesia não será nem pintura nem escultura nem romance. Simplesmente poesia com P grande, brotando do solo natal, inconsciente. Como uma planta" p. 59

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AGORA VAMOS APRESENTAR AOS LEITORES E LEITORAS ALGUNS TRECHOS DE PAU-BRASIL

Por ocasião da Descoberta do Brasil

ESCAPULÁRIO

No Pão de Açúcar
De Cada Dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De Cada Dia

FALAÇÃO (*este poema-programa é uma redução, com alterações, do "Manifesto da Poesia Pau-Brasil")

Dois momentos que gosto bastante nesta parte:

"(...)

A língua sem arcaísmos. Sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros"

(...)

Contra a argúcia naturalista, a síntese. Contra a cópia, a invenção e a surpresa." 

Comentário: a brasilidade em Oswald de Andrade, nos modernistas!

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História do Brasil

Trecho da seção "Gandavo"

PAÍS DO OURO

Todos têm remédio de vida
E nenhum pobre anda pelas portas
A mendigar como nestes Reinos


Trecho da seção "Frei Vicente do Salvador"

AS AVES

Há águias de sertão
E emas tão grandes como as de África
Umas brancas e outras malhadas de negro
Que com uma asa levantada ao alto
Ao modo de vela latina
Correm com o vento


Trecho da seção "Frei Manoel Calado"

CIVILIZAÇÃO PERNAMBUCANA

As mulheres andam tão louçãs
E tão custosas
Que não se contentam com os tafetás
São tantas as joias com que se adornam
Que parecem chovidas em suas cabeças e gargantas
As pérolas e rubis e diamantes
Tudo são delícias
Não parece esta terra senão um retrato
Do terreal paraíso


Trecho da seção "J.M.P.S (da cidade do porto)"

VÍCIO NA FALA

Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados

Comentário: Fabuloso! A poesia está nos fatos. Este é nosso retrato. "povo burro" = povo culto, puro e sábio

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Poemas da colonização

O GRAMÁTICO

Os negros discutiam
Que o cavalo sipantou
Mas o que mais sabia
Disse que era
Sipantarrou


O CAPOEIRA

- Qué apanhá sordado?
- O quê?
- Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada


RELICÁRIO

No baile da Corte
Foi o Conde d'Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha de Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É comê bebê pitá e caí

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São Martinho

O VIOLEIRO

Vi a saída da lua
Tive um gosto singulá
Em frente da casa tua
São vortas que a mundo dá

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rp 1

DITIRAMBO

Meu amor me ensinou a ser simples
Como um largo de igreja
Onde não há nem um sino
Nem um lápis
Nem uma sensualidade


NOVA IGUAÇU

Confeitaria Três Nações
Importação e Exportação
Açougue Ideal
Leiteria Moderna
Café do Papagaio
Armarinho União
No país sem pecados

Comentário: um poema substantivos...

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Postes da Light

ANHANGABAÚ

Sentados num banco da América folhuda
O cow-boy e a menina
Mas um sujeito de meias brancas
Passa depressa
No Viaduto de ferro


MÚSICA DE MANIVELA

Sente-se diante da vitrola
E esqueça-se das vicissitudes da vida
Na dura labuta de todos os dias
Não deve ninguém que se preze
Descuidar dos prazeres da alma

Comentário: e eu que deixei de exercer isso, heim!


PRONOMINAIS

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

Comentário: - Pau-Brasil!!!


BIBLIOTECA NACIONAL

A Criança Abandonada
O Doutor Coppelius
Vamos com Ele
Senhorita Primavera
Código Civil Brasileiro
A arte de ganhar no bicho
O Orador Popular
O Pólo em Chamas

Comentário: de novo, substâncias... Pau-Brasil!!! Essas eram as leituras do Brasil de então...


DIGESTÃO

A couve mineira tem gosto de bife inglês
Depois do café e da pinga
O gozo de acender a palha
Enrolando o fumo
De Barbacena ou de Goiás
Cigarro cavado
Conversa sentada


HÍPICA

Saltos records
Cavalos da Penha
Correm jóqueis de Higienópolis
Os magnatas
As meninas
E a orquestra toca
Chá
Na sala de cocktails

Comentário: substâncias... a vida social. Este poema nos lembra o "Rondó dos cavalinhos", de Manuel Bandeira. Perfeita crítica social!

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Roteiro das Minas

PAISAGEM

Na atmosfera violeta
A madrugada desbota
Uma pirâmide quebra o horizonte
Torres espirram do chão ainda escuro
Pontes trazem nos pulsos rios bramindo
Entre fogos
Tudo novo se desencapotando

Comentário: me lembra Drummond


LONGO DA LINHA

Coqueiros
Aos dois
Aos três
Aos grupos
Altos
Baixos

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Lóide Brasileiro

CANÇÃO DE REGRESSO À PÁTRIA

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra

Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para lá

Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para São Paulo
Sem que eu veja a rua 15
E o progresso de São Paulo

Comentário: Oswald de Andrade também tem o seu poema "Recife"... ao modo de "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias.

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LAUS DEO

Enfim, o livro de Oswald de Andrade é tudo de bom!!

William


Bibliografia:

ANDRADE, Oswald de. Pau-Brasil. 8ª edição - São Paulo: Globo, 2002. (Obras completas de Oswald de Andrade"

Aula - O Modernismo Brasileiro (aulas de 2002)




Refeição Cultural

Aulas do professor José Miguel Wisnik

(a responsabilidade pela interpretação do conteúdo é minha)


Podemos dizer que houve um pré-modernismo brasileiro com o Regionalismo.

Por outro lado, não houve propriamente um movimento pós-modernista brasileiro como o Surrealismo, o Dadaísmo e o Futurismo.

Com os modernistas foram criados movimentos próprios, politizados.

Havia dois grupos nas décadas de 20 e 30, que surgiram depois da Semana de Arte Moderna, que representavam, mais ou menos, as ideias da esquerda e as da direita. Grupo da Anta, desta, e Movimento Antropofágico, daquela.

É importante salientar que o Modernismo Brasileiro não se assentou sobre um só tipo de arte. Assim como no Romantismo, houve impacto sobre todas as artes.

Com a exposição de Anita Malfati, em 1917, surge a presença feminina no mundo da arte.

Depois veio a Semana de Arte Moderna, em 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. Foi um movimento que só não deu muito resultado (imediato) no Teatro. Flávio de Carvalho fez duas tentativas, mas ambas não surtiram muito efeito. Três décadas depois, viria a encenação de "O rei da vela", de Oswald de Andrade em 1967.

Havia dois tipos de "enredos" para o Brasil. Um, antes do Modernismo, outro, após. O primeiro ainda era o das instituições portuguesas (a continuação da Casa de Bragança), o outro, depois do Modernismo, que era o País das desgraças sociais - País subdesenvolvido. Vemos isso nas obras literárias.

Um bom exemplo disso, que se repete em diversas obras da época sobre o latifúndio e o coronelismo, é o livro "Vidas Secas" de Graciliano Ramos, que personifica em Fabiano e sua família de retirantes as mazelas do sertanejo e demais povos do Brasil.

Após o Modernismo, o Brasil e os brasileiros passam a ter uma visão mais nacionalista e de nação. Começa-se então a haver trocas culturais, justamente pela literatura. Autores regionalistas nos fazem conhecer o Brasil de norte a sul. Criou-se o conceito de Patrimônio Histórico Cultural. Antes, isso era coisa de europeu.

O curso do semestre em questão vai analisar a prosa e a poesia modernista.

Obras:

Macunaíma - Mário de Andrade
Paulicéia Desvairada - Mário de Andrade
Libertinagem - Manuel Bandeira
Alguma Poesia - Carlos Drummond de Andrade
Pau Brasil - Oswald de Andrade

Na medida do possível, haverá intertextualidades com diversos textos e obras.

Origem do nosso "povo melancólico" (conceito que vigorou até o início do século XX):

- O negro = ex-escravizados
- O índio = exilado em seu País
- O português = expatriado

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