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terça-feira, 28 de julho de 2026

Livro: caprichos & relaxos - paulo leminski



Refeição Cultural


"luxo saber


além destas telhas 

um céu de estrelas" (ideolágrimas)


Paulo Leminski foi um artista extraordinário! Os leitores tardios, que não o leram em vida, vão percebendo isso durante a leitura de seus poemas. 

Sou um desses leitores tardios. Leminski faleceu em 7 de junho de 1989. Eu nunca tinha lido nada dele, e já tinha vinte anos de idade. 

Só fui ler poesia depois dos trinta, por ter virado aluno de Letras. Conheci a obra poética dele em 2017, já com 48 anos. Li o livro Toda poesia (comentário aqui).

É muito interessante ver Leminski falando no curta-metragem "Ervilhas da fantasia", de 1985. 

Ele diz que tudo que leu, estantes e mais estantes de livros, as línguas que aprendeu, tudo foi para ter um repertório melhor de palavras para fazer poesia.

Diz que a poesia é também um dom, e faz analogia com o futebol: pode-se treinar alguém com todas as técnicas, mas isso não fará dessa pessoa um Zico ou um Pelé. 

Sendo um lutador de judô, diz que a poesia deve ser como um golpe de arte marcial: infalível, sem erro. 

Leminski foi um grande personagem da cultura brasileira. Um imortal!

---

Golpes certeiros de Leminski:


caprichos & relaxos (saques, piques, toques & baques)


"(...)

quem está por fora

não segura

um olhar que demora" (p. 17)

*

"a árvore é um poema 

não está ali

para que valha a pena 


está lá 

ao vento porque trema

ao sol porque crema

à lua porque diadema


está apenas" (p. 27)

*

---

polonaises


"aqui


nesta pedra


alguém sentou

olhando o mar


o mar

não parou

pra ser olhado 


foi mar

pra tudo quanto é lado" (p. 50)

*

---

não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase 


"poema na página 

mordida de criança 

na fruta madura" (p. 67)

*

"en la lucha de clases

todas las armas son buenas

piedras

noches

poemas" (p. 77)

*

---


ideolágrimas


"   hoje à noite 

até as estrelas 

     cheiram a flor de laranjeira" (p. 100)

*

"verde a árvore caída 

vira amarelo

a última vez na vida" (p. 102)

*

---

sol-te


"eu te fiz

agora 


sou teu deus

poema


ajoelha

e

me

adora" 

(p. 136)


*


*

Comentário final 

Me encantei com Leminski em 2017 ao ler o livro Toda poesia, publicado um pouco antes.

Depois fiquei muito admirado com a profundidade do livro Trótski: a paixão segundo a revolução, de 1986. Ele desenvolve uma interpretação do povo russo a partir dos personagens de Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. 

Agora, reli a reedição muito "caprichada e de relaxar qualquer leitor" de seu clássico de 1983, caprichos & relaxos.

Sigamos lendo, e nos fazendo humanos.

William 

28/07/26

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 28 de julho de 2026. Terça-feira. 


07h46

Perdi o sono antes das 5h30. Dormi pouco. Era de se esperar que depois de uma semana dormindo em cama estranha, na Colônia dos Professores na Praia Grande, o corpo aproveitasse o colchão de costume para descansar. Não rolou. 

A cabeça está fervilhando com a tal biblioteca e espaço cultural que quero fazer, uma espécie de centro de documentação, um canto de cultura,  história e memória. Preciso pensar uma forma de fazer isso. Sinto que não tenho tempo sobrando para esperar. Cada dia é um dia a menos. 

Vou comer alguma coisa, fazer exercícios para a minha memória com a língua japonesa, e ler livros iniciados. Na ordem, vou terminar Leminski, depois Sérgio de Carvalho, depois Jacqueline Susann. Esses três. Depois vejo a sequência. 

Fiquei a semana toda com uma gripe fortíssima, ainda estou todo verde por dentro e com tosse. Imagino que se não tivesse tomado a vacina da gripe deste ano, estaria mais ferrado ainda. 

---


15h29

"o pauloleminski

é um cachorro louco

que deve ser morto

a pau a pedra

a fogo a pique

senão é bem capaz 

o filhadaputa

de fazer chover

em nosso piquenique "


A gripe faz a gente ficar meio merda. Assoar o nariz o tempo todo, aquele nojo, argh. A tosse deixa a gente sem paciência. 

Fui ao mercado numa leseira só. Estou lendo o Leminski. Seus poemas são seus golpes de caratê mesmo, perfeitos. 

De manhã, exercitei meu cérebro, o verdadeiro criador de tudo, criando associações para memorizar desenhos de ideogramas, sons das palavras e significados.

Faz dois meses que tive descolamento do humor vítreo do olho esquerdo... o embaçamento das primeiras semanas passou, já posso dirigir. Agora convivo com as "moscas volantes". E consigo ler.

Como diz o poeta:


"não discuto

com o destino 


o que pintar 

eu assino"


É por aí, Leminski...

---


23h42

A gripe segue me impedindo de praticar atividades físicas. A tosse seca deixa a gente bastante estressado e irritadiço. Mas vou melhorar.

Terminei o livro caprichos & relaxos (1983), de Leminski. Fiz postagem no blog. 

Vi o pôr do sol. Ouvi os passarinhos.

Trabalhei um pouco na sistematização de meus textos nos blogs. Tenho que ter disciplina para organizar os cadernos dos blogs e dedicar algum tempo diariamente para essa tarefa.

Vamos dormir para contribuir com a recuperação do corpo.

William

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba V (17/01/23)


Seguem os estudos sobre Cuba.

Refeição Cultural - Cuba (V)

Osasco, 17 de janeiro de 2023. Noite de terça-feira.


Li hoje mais um capítulo do livro do escritor cubano Leonardo Padura. A cada capítulo que leio, percebo o quanto a leitura é densa. Li o capítulo 8. Esse que li e o capítulo 6 se passam num cenário espanhol, anos trinta, e a Espanha está em guerra civil. O personagem focado é Ramón Mercader.

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DIGRESSÃO DE LEITOR

Antes de seguir com algum comentário ou anotação sobre a leitura do romance de Padura, fiquei pensando numa questão de leitor: cara, não sou leitor pra essas coisas digitais e virtuais, o Kindle. Não sou! Que saco! Até estou me esforçando, mas como é ruim não ter o livro impresso na mão!

Já li alguns livros que acabei comprando ou baixando gratuitamente no Kindle, mas é como se eu não tivesse o livro. O último que adquiri foi o livro comemorativo com textos do escritor cubano José Martí (1853-95), uma antologia. Já me arrependi. Deveria ter comprado o livro impresso. Que saco!

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REVOLUÇÕES

Voltando à leitura do livro O homem que amava os cachorros, o romance alterna idas e vindas no tempo histórico, e a parte que conta a história da revolução russa e demais revoluções em andamento e seus personagens é uma parte fascinante e me lembra um pouco o excelente texto "Trótski - A paixão segundo a revolução", do poeta e intelectual paranaense Paulo Leminski. (ler comentário aqui)

Aliás, a difícil questão das divisões históricas entre nós do campo da esquerda é bem retratada na obra de Padura e me faz lembrar o tempo todo os mais de 20 anos envolvidos na militância sindical bancária, inclusive como dirigente eleito por 16 anos, atuando na corrente Articulação Sindical da CUT. 

Ontem e hoje, me parece não haver mudanças significativas nas concepções e práticas das mais diversas correntes políticas no campo da esquerda brasileira e mundial. A divisão é a regra, é quase como a lei da gravidade na Física...

Nos capítulos já lidos, relativos ao cenário espanhol dos anos trinta, o embate entre a direita e os fascistas versus a esquerda e um conjunto de grupos diferentes - republicanos, anarquistas, socialistas, comunistas, trotskistas - me passa a impressão que a história da esquerda no mundo nunca mudou: a unidade é impossível, quando é construída a duras penas tem duração pequena, é uma unidade efêmera.

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Alguns excertos interessantes do romance O homem que amava os cachorros:

ESPANHA: ANOS 30

"A orientação partidária do momento era primeiro consolidar uma república para mais tarde radicalizá-la, e por isso, os jovens comunistas apoiaram naquele instante crítico as acanhadas medidas do governo contra os latifundiários e o poder da Igreja, pela igualdade entre mulheres e homens, pelos direitos dos trabalhadores e, sobretudo, da grande massa camponesa espanhola, atrasada e paupérrima..." (p. 102)

TROTSKISTAS X COMUNISTAS

"(...) afirmou sua convicção de que os trotskistas eram os mais sibilinos inimigos dos comunistas e de que anarquistas e sindicalistas só podiam ser encarados como companheiros de viagem descartáveis na escalada em direção aos grandes objetivos, que seriam divergentes quando eles, comunistas, estivessem em condições de promover a verdadeira Revolução, que conduziria a uma necessária ditadura do proletariado." (p. 103)

REVOLUÇÃO NO AR

"(...) Madri, onde os partidos da Frente Popular tinham organizado uma grande manifestação para comemorar a vitória e a formação do novo governo. Na capital, encontraram aquele ambiente festivo e nervoso que imperou na Espanha até o início da guerra. Os galões de vinho saltavam das calçadas para os caminhões dos recém-libertados, as moças atiravam-lhes flores, cruzavam-se vivas à liberdade e morte à monarquia, à burguesia, aos latifundiários e à Igreja. Podia-se sentir a revolução no ar." (p. 108)

BARCELONA

"Ser trabalhador, militante, miliciano ou soldado da República transformara-se num sinal de distinção..." (p.130)

DIVISIONISMO

"O maior perigo que as forças republicanas enfrentavam, segundo a jovem, era o divisionismo, exacerbado desde o início da guerra. Nacionalistas catalães, sindicalistas de tendência anarquista ou de filiação socialista e renegados trotskistas como os do Partido Operário de Unificação Marxista (Poum) - à frente do qual estava agora a espinha atravessada do obstinado Andreu Nin, membro do próprio governo da Generalitat - já se opunham à estratégia comunista e tinham colocado sobre a mesa a questão mais transcendente do momento: a guerra com revolução ou a guerra com vitória mas sem revolução." (p.130/131)

Enfim...

O capítulo descreve as divisões, as desconfianças e as traições que iriam movimentar o atribulado campo da esquerda naquele período.

Os comunistas sob ordens diretas dos soviéticos estavam insatisfeitos com o governo socialista de Largo Caballero, etc.

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ESTUDAR É MELHOR QUE NÃO ESTUDAR, SEMPRE!

Seguimos lendo e estudando e observando o que ocorre no mundo da política em nosso Brasil do governo Lula. E a cada dia vou conhecendo um pouco mais sobre Cuba e o povo cubano. Já estou ouvindo, também, canções de Pablo Milanés, recém-falecido. 

Estudos cubanos anteriores podem ser lidos aqui. Meu blog é uma espécie de fichário de estudos, consigo rever várias coisas nele. Estudar é sempre melhor que não estudar. 

Não consigo entender a perda de interesse nos estudos como vejo ao meu redor nos tristes dias que correm. Há uma espécie de incentivo à ignorância! É assustadora a ignorância (não saber) em tanta gente por aí.

William


Bibliografia:

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.


segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Viagem (1939) - Cecília Meireles



Refeição Cultural


"Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
" (p. 245/6)


Ufa! Seguimos na viagem ao mundo da poesia de autores brasileiros.

Terminei a leitura do livro Viagem (1939), de Cecília Meireles. É o 7º livro de poesias que leio da poeta brasileira. Cecília, agora, é a poeta da qual mais li poesias até hoje. Com a leitura dos 100 poemas de Viagem, passo a conhecer 359 poemas dela. Quer dizer, não contei os poemas de Paulo Leminski, mas já li sua obra completa também: Toda Poesia (2013). Não sei se a quantidade de poemas de Leminski é tão grande quanto a de Meireles.

Para registrar corretamente, o livro do Paulo Leminski que tenho contém: quarenta clics em curitiba (1976), caprichos & relaxos (1983), distraídos venceremos (1987), la vie en close (1991), o ex-estranho (1996), winterverno (2001) e poemas esparsos. Os nomes todos com letra minúscula, caixa baixa, fazem parte da edição que tenho. Ler aqui comentários sobre o livro de Leminski.

Tenho um longo caminho pela frente para ler e conhecer a obra poética dos principais poetas brasileiros. Já conheço um pouco de João Cabral, de Manuel Bandeira, de Drummond, Castro Alves, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Cecília Meireles. Alguns deles tenho a obra completa e falta só seguir lendo e conhecendo. Imaginem a lacuna gigante... nada de Vinícius de Moraes, Cora Coralina, Ferreira Gullar, Mário Quintana, irmãos Campos, só pra citar alguns poetas que não li nada ainda.

Vou ler a obra completa de Cecília Meireles. O incentivo veio do fato de ter ganhado essa edição de minha companheira tempos atrás e agora decidi ir lendo aos poucos. No primeiro volume, que estou lendo agora, são 13 livros. Acabei de ler o 7º. Agora conheço Espectros (1919), Nunca mais... e Poema dos poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925), Cânticos (1927), A festa das letras (1937), Morena, pena de amor (1939) e Viagem (1939).

Também tenho as obras poéticas completas de Drummond. Vou lê-las também (postagens sobre ele ver aqui). Por décadas, o poeta itabirano foi o autor do qual eu mais conhecia poemas, isso porque já havia lido e sempre reli os 3 livros iniciais dele - Alguma Poesia (1930), Brejo das Almas (1934) e Sentimento do Mundo (1940). Ano passado, li A rosa do povo (1945). Agora preciso expandir meu conhecimento de Drummond. Vamos aos poucos lendo sua obra das décadas seguintes.

---

CECÍLIA MEIRELES E VIAGEM

O livro é denso, não considero de leitura fácil. Senti dificuldade na compreensão de diversos poemas, assim como foi na releitura de Brejo das Almas, de Drummond. Alguns poemas são impenetráveis para este leitor que registra a experiência da leitura. Não tenho problema algum em dizer isso.

Gostei muito da série de poemas chamados por Cecília de "epigramas". São 13 epigramas. Alguns são demais!

Para citar alguns dos poemas com os quais me identifiquei e que me agradaram bastante, fico com "Retrato", "Epigrama nº 2" sobre a Felicidade e o tempo, "Canção" (p. 255, pois há outros com o mesmo nome), "Solidão", "Murmúrio", "Epigrama nº 4" sobre o choro, "Epigrama nº 5" sobre a gota d'água que resiste ao vento, "Pausa", "Cantiga" (p. 323) com o bem-te-vi, "Epigrama nº 12" sobre a engrenagem e o inseto, "Vento", dentre outros.

O poema "Destino" trabalha com duas imagens se contrapondo: pastora de nuvens x pastores da terra. É muito interessante!

O poema "Quadras" tem algumas estrofes bem legais, do tipo:

"Passarinho ambicioso
fez nas nuvens o seu ninho.
Quando as nuvens forem chuva,
pobre de ti, passarinho.
" (p. 310)

*

"Ao lado da minha casa
morre o sol e nasce o vento.
O vento me traz teu nome,
leva o sol meu pensamento.
" (p. 311)

---

Adorei o poema "Onda". Ele contém 8 estrofes e deixo abaixo a primeira e a última.

"Onda

Quem falou de primavera
sem ter visto o teu sorriso,
falou sem saber o que era.

(...)

mas quem falou de deserto
sem nunca ver os meus olhos...
- falou, mas não estava certo.
" (p. 316)

---

Como não dava pra deixar aqui vários poemas, deixo um dos epigramas de Viagem.

"Epigrama nº 2

És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.
" (p. 252)

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COMENTÁRIO FINAL

Quanto mais leio os poemas de Cecília Meireles mais vou compreendendo a sua poética. Pesquisar informações a respeito de sua biografia também tem sido fundamental para mim. 

A cada texto ou entrevista com alguém falando sobre a intelectual, melhor fica minha compreensão dos poemas que já li (os 7 primeiros livros), que cobrem a vida dela entre a infância e a idade adulta, quase quarenta anos, época em que seu marido faleceu, por não superar a depressão profunda que sofria.

A autora lidou com mortes e perdas ao longo da vida e isso influenciou a pessoa que era e a sua poética. O pai morreu antes dela nascer, a mãe quando tinha 3 anos, depois a babá Pedrina e a avó que a criou, depois o marido. 

Isso não quer dizer que Cecília Meireles fosse uma pessoa triste e ou depressiva. As experiências com as perdas fizeram com que ela visse a vida como passageira, fugaz e, por ser religiosa, na minha leitura, ela via a vida como algo além da existência terrena. Nos poemas que já li, há um Eu-lírico que traz constantemente uma temática mística e metafísica.

É isso. Seguimos lendo poesia e conhecendo autores, autoras e poemas brasileiros.

William


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

160821 - Diário e reflexões (Carta Capital)



Refeição Cultural - Carta Capital 1168


O SENHOR DAS ARMAS

A leitura da edição 1168 de Carta Capital traz informações do mundo material - a realidade factual - que muitas vezes tentamos evitar saber ao não visitar as páginas dos veículos de informação ou os canais que preferimos na internet. Mas não tem jeito, cedo ou tarde, temos que nos atualizar sobre as coisas.

Enquanto lia a revista inteira da semana retrasada, já sabia de um monte de merdas novas ocorridas nos últimos dias. Vale a pena ler a revista? Tenho me perguntado isso... ler as matérias na revista é diferente porque ler é diferente de ouvir, de assistir, são habilidades distintas do animal humano. Se eu utilizar a ideia que tenho para os livros, poderia dizer que é melhor ler que não ler os livros e revistas e artigos.

Nada nada, ao ler desenvolvemos e ou preservamos nossa linguagem ou a capacidade mínima de escrever e interpretar textos.

---

CAPA - A matéria de capa nos atualiza a respeito dos avanços da tragédia planejada pelo genocida no poder. Se as instituições existentes não barrarem o canalha, seu clã e apoiadores teremos uma guerra civil no país. Guerra em termos, pois quem tem as armas e o poder de matar são eles e não nós, os civis pacifistas, democratas e idiotas desarmados. Podemos ter uma chacina daqueles que não são fascistas e bolsonaristas, ou seja, um novo genocídio, de mortes matadas. Já temos o genocídio do povão pelo vírus que é utilizado para matar os pobres: mortes morridas.

PETROBRAS - Ler sobre o assalto à Petrobras, o desmonte de nossa maior empresa, a distribuição do butim para os organizadores do golpe, é algo que dói tão fundo, que não posso dizer o que penso. Que venha logo essa guerra para ver se pelo menos os aproveitadores se ferram de alguma forma. Mas sei que não! Olhem o Iraque, o Egito, a Líbia e vejam se os imperialistas se deram mal... só o povo se fodeu e aqueles países acabaram. É o que está desenhado para ocorrer aqui.

VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES - Na seção "Seu País" as matérias são fortes para os não alienados. Depois de ler o artigo sobre a pandemia de violência contra as mulheres na semana passada, a matéria traz números chocantes em relação ao tema. 1/4 das mulheres brasileiras sofreram algum tipo de violência em 2020 - são mais de 17 milhões de vítimas; um estupro ocorre a cada 8 minutos. Aí as pessoas olham a tragédia das mulheres do Afeganistão e não olham a tragédia das mulheres daqui...

CULTURA NAZIFASCISTA - Na seção "Plural" vemos os decretos do regime genocida direcionando o investimento de recursos públicos e privados do mundo da cultura da mesma forma nazista que aquele sujeito que imitou Goebbels em 2020. Quem vai definir qual arte deve ter incentivo e qual não, qual terá financiamento e qual não terá são os nazibolsonaristas.

É isso! 

Li um poema dia desses que me incentivou a continuar escrevendo meus diários aqui no blog. É um poema de Paulo Leminski:


"razão de ser

    Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
    preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
    Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
    lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
    A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
    Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
" (LEMINSKI, 2017, p. 58)


William


Bibliografia:

LEMINSKI, Paulo. distraídos venceremos. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

domingo, 15 de agosto de 2021

Trótski - A paixão segundo a revolução



Refeição Cultural

"Seria o proletariado capaz de recriar a cultura a partir de zero, fundando novas formas, novos padrões formais, um novo gosto, uma nova estética, uma nova poética?

Lênin e Trótski não eram idiotas. Sabiam que isso não era possível. O comunismo teria que ser o herdeiro de toda a cultura passada, escravagista, feudal, burguesa. Os dois líderes tinham consciência muito nítida do caráter de carência da condição trabalhadora. Sabiam muito bem que o trabalhador, fabril ou agrário, caracteriza-se pela ignorância, pelo conservadorismo, mais obtuso, pela superstição, pela pobreza mental de horizontes, pelo imediatismo de visão política." (p. 368)


A leitura dessa obra de Paulo Leminski foi uma surpresa para mim. Sei que somos muito ignorantes (não sabedores) em quase tudo na vida, e não quero jamais perder a capacidade de me surpreender com as coisas. Ver Leminski escrever sobre a história da Rússia, de seu povo e de seus líderes como Liev Trótski foi uma surpresa para mim. 

Eu recém conheci Toda poesia (2013), do poeta curitibano - ver postagem aqui. Agora começo a conhecer seu lado prosaico, narrativo e historiador. Impossível não ficar curioso para ler o que Leminski nos conta sobre Jesus, Cruz e Sousa e Bashô. Qualquer hora eu descubro.

Para falar da Rússia e dos líderes da Revolução Russa, Leminski faz uma analogia interessante com a obra Os irmãos Karamázov (1880), de Dostoiévski, comparando as características do pai e dos filhos com os principais tipos característicos do povo russo e pensando a Rússia do passado e presente e com as perspectivas do que viria a ocorrer em 1917.

O velho Karamázov, os filhos Aliócha, Ivan, Dmitri e Smierdiakóv seriam os representantes bem característicos dos tipos mais comuns da Rússia milenar. Apesar de fazer muito tempo que li esse clássico, o fato de ter lido me ajudou a compreender o que Leminski quis dizer. Mas não se preocupem porque ele explica no início as características de cada um deles.

Aprendi muita coisa com a leitura, rabisquei o livro inteiro e fiz diversos comentários nas margens. Seria difícil escolher uma ou duas citações para fazer na postagem. A leitura é densa e leve ao mesmo tempo, pela forma que o poeta nos conta a história e as versões da história. Fiz um breve comentário em vídeo sobre o livro: ver aqui.

A epígrafe acima foi escolhida porque fiquei pensando no Brasil atual, após o golpe de 2016, liderado pelos tucanos com o suporte da mídia corporativa (PIG) e a operação imperialista Lava Jato, após o golpista Temer e destruído pelo regime militar e bolsonarista. 

Pensei no povo miserável que somos, povo primitivo e ignorante em diversos sentidos, mas ignorantes porque assim é melhor para as classes dominantes e não por escolha própria do povo. Leminski fala sobre uma carência do povo em relação à cultura, mas podemos estender o sentido dessa ignorância (não saber) para todos os sentidos da vida social.

Enfim, é bom aprender sobre a história humana. O texto sobre a biografia de Trótski nos ensina muita coisa. Obrigado Leminski!

William


Bibliografia:

LEMINSKI, Paulo. Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski - 4 Biografias. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2013.


quarta-feira, 11 de agosto de 2021

110821 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Leminski descreve acontecimentos ocorridos naquele ano de 1917 na Rússia revolucionária. Trótski, Lênin, Stalin, milhões de joões e marias com nomes russos num dado instante da história do povo daquelas terras do mundo. O autor não estava lá. Ele escreveu para contar pra filha o que tinha sido a Revolução Russa. Estudou em algum lugar para escrever o que escreveu.

Os autores da série Vikings nos trazem, episódio após episódio, como viviam aqueles povos nórdicos, escandinavos, ingleses, franceses e sei lá mais quantos grupamentos de animais humanos de uns mil e tantos anos atrás. 

A novela da Globo sobre a colônia e ex-colônia de Portugal e seu imperador bonzinho faz com que as pessoas achem que ficção é realidade... é muito difícil alguém não confundir isso. Explica-se pra uns e a Globo conta pra milhões.

O gabinete do ódio dos milicianos que chegaram ao poder na ex-colônia portuguesa na América do Sul divulga ininterruptamente um amontoado de mentiras - coisas sem nexo com a realidade material - e animais humanos retransmitem essas coisas. 

Indignação com esses animais que vivem de mentiras? A imprensa (PIG) faz o mesmo... mentiras, manipulação... As mentiras e desinformações atingem milhões, dezenas de milhões. 

Mentiras, manipulações e desinformações chegam a bilhões de animais humanos.

Um animal humano escreve numa coisa, uma máquina velha, algumas coisas para constarem num mundo imaterial, a internet, e escreve na dúvida se deveria escrever ou não aquilo naquilo.

O que é ficção e o que é verdade em tudo isso? O que passa, o que fica?

Enquanto isso, nesse instante, as condições para a vida de milhões de espécies animais e vegetais são alteradas, milhares de espécies são extintas mais rapidamente do que seriam em outras condições naturais do planeta sem as alterações feitas por um animal, o humano.

A inteligência do animal humano poderia ser usada para que a vida no planeta Terra prosseguisse - até agora único lugar no universo com vidas. Mas estamos conscientes que a vida caminha para o fim, estamos assistindo a isso agora. Sabemos até que umas mil pessoas são os capitalistas responsáveis por tudo e não se faz nada para impedi-las. Aliás, eles planejam ser os sobreviventes pelo poder que têm, e eles são o pior tipo de gente que poderia sobrar de nossa espécie...

Eu estou de saco cheio do animal humano. De verdade. Cheio de tudo isso. Mas dependo dos animais humanos para absolutamente tudo! Somos uns merdas que não sabemos sobreviver sem as coisas mais comezinhas do dia a dia da vida. O animal humano deste momento do mundo não sabe nem de onde vem a comida que come. Não sabe onde ficam as informações sobre o mundo (não, não é na tela do celular! não é nas nuvens)

Porque admiro a diversidade de vidas no planeta, gostaria que elas permanecessem existindo. Isso só seria possível se desaparecesse o animal humano. O homem é uma praga que destrói tudo.

Gostaria que o animal humano sumisse do planeta terra.

William


sábado, 7 de agosto de 2021

34. Distraídos venceremos - Paulo Leminski



Refeição Cultural - Cem clássicos

"razão de ser

     Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
     preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
     Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
     lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
     A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
     Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
"


Reli os poemas de Leminski contidos no livro Distraídos venceremos, de 1987. Tomei contato com a poesia dele quando ganhei o livro Toda poesia (2013), um tempo atrás.

O poeta morreu aos 44 anos de idade. Morreu cedo. Ele foi um fenômeno da natureza. Estou lendo trabalhos em prosa dele e o cara é muito bom. Ele fez um livro sobre a história da Revolução Russa porque a filha havia perguntado a respeito da questão. E o texto é muito denso e escrito de forma leve. O foco do livro é Trótski e a história da Rússia.

Eu aprendi a gostar de poesia depois dos trinta anos de idade e ainda sou um aprendiz do gostar dessa forma de linguagem. Não sou nenhum especialista no tema. Sou esforçado e quero aprender a ler poesia. Mas vai longe esse aprendizado ainda. Vai até o fim de minha existência.

CENAS INTERESSANTES

O poema "Arte do chá" nos transmite uma imagem fantástica. Coisa maravilhosa, e quase utópica. Duas pessoas se encontram pra ficarem em silêncio e tomarem um chá. Cara, que demais! Poucos sabem o quanto o silêncio comunica. Quantas pessoas já ficaram horas em silêncio, só olhando e curtindo?

"arte do chá

     ainda ontem
convidei um amigo
     para ficar em silêncio
comigo

     ele veio
meio a esmo
     praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo
"

Adorei esse poema, essa ideia.

O poema "claro calar sobre uma cidade sem ruínas (ruinogramas)" me deixou saudoso de Brasília. Quem já passou por lá sabe o que Leminski está falando. Outra bela imagem poética da cidade cravada no Planalto Central.

"(...)

     Em Brasília, admirei.
O pequeno restaurante clandestino,
     criminoso por estar
fora da quadra permitida.
     Sim, Brasília.
Admirei o tempo
     que já cobre de anos
tuas impecáveis matemáticas.
"

Resumindo, dos 67 poemas contidos no livro, citaria mais alguns que me pegaram e nos encaixamos na imagem e na linguagem: "bem no fundo", "como pode?", "desencontrários", "litogravura", "merda e ouro", "pareça e desapareça", "rimas da moda", "rosa rilke raimundo correia", "sem budismo", "último aviso", "um metro de gritos (máquinas líquidas)", "voláteis" e "volta em aberto".

É isso! Vamos lendo, vamos lendo os livros que temos em casa. A vida é um instante, e uma oportunidade. É melhor ler do que não ler.

William


Bibliografia:

LEMINSKI, Paulo. distraídos venceremos. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.


terça-feira, 3 de agosto de 2021

Lendo biografia de Trótski, por Leminski



Refeição Cultural

Eu conhecia o lado poeta do genial Paulo Leminski, mas não conhecia o lado de grande produtor de conteúdo em prosa e seu conhecimento de história. O cara é sensacional! Francamente!

Por um total acaso, peguei na estante o livro Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski - 4 Biografias (2013), de Paulo Leminski. Manuseei ele no fim de semana e acabei começando a leitura sobre a vida de Trótski, que na verdade fala muito sobre a história da Rússia e de seu povo. São fantásticos o conteúdo e a forma como o poeta nos apresenta a história.

Comecei a ler achando que era uma coisa simples e me deu conta de que quase a metade do livro é essa parte sobre Trótski e o povo russo. A leitura é densa, mas é muito bem narrada. 

Nas dedicatórias do livro, escrito em 1986, antes do fim da URSS, ele diz que uma das motivações para escrever a biografia de um dos líderes da Revolução de Outubro foi:

"Para minha filha Áurea que, com quinze anos, me perguntou o que tinha sido a Revolução Russa." (p. 243)

O livro dentro do meu livro na verdade se chama Trótski - a paixão segundo a revolução (1986).

Ele começa o livro citando como referência, como uma espécie de símbolo da Rússia, a grandiosa obra de Dostoiévski Os irmãos Karamázov (1880). O pai e os quatro filhos, sendo um deles bastardo, seriam os tipos característicos da Rússia. A história conta um parricídio e de certa forma Leminski diz que essa questão é central na história daquele povo e cita Freud:

"Os irmãos Karamázov não só retrata com perfeição a Rússia passada e presente, em suas estruturas mais profundas, mas ainda prefigura uma Rússia por vir." (p. 246)

E diz mais:

"Para Freud, é o parricídio primordial que funda a civilização.

 E toda revolução social de grandes proporções é uma luta dos filhos contra a tirania dos pais (pais, padres, patrões, padrões)." (p. 246)

Já li algumas dezenas de páginas e já aprendi muita coisa sobre a origem da Rússia - ele começa contando a partir de 1236 com as invasões dos mongóis -, e que ele diz que a Rússia dos últimos séculos seria uma espécie de expansão a partir de Moscou.

Leminski fala sobre os líderes que conduziram a Revolução de 1917. Ele já falou sobre os bolcheviques e os mencheviques, a origem de Lênin, do biografado Trótski e de Stálin. É como se fossem aulas de história da Rússia. No final do livro, temos a bibliografia que ele leu para tal obra.

Muito interessante!

William


Bibliografia:

LEMINSKI, Paulo. Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski - 4 Biografias. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2013.


sábado, 31 de julho de 2021

310721 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

31 de julho, Osasco. Noite fria de sábado (12º).

Mais um mês se passou. Sobrevivemos. A vida é uma sobrevivência diária para todos os seres vivos, mas a sobrevivência é mais incerta em alguns lugares do mundo e em algumas épocas. 

Neste momento, a vida no Brasil é um pouco mais incerta para os seres humanos do que em outras regiões do mundo e em outras épocas, mesmo aqui. Parte do povo brasileiro decidiu o suicídio coletivo nas eleições de 2018 e, então, o povo está sendo chacinado pelas diversas mortes severinas e o país está sendo destruído diariamente desde 01 de janeiro de 2019 sob o comando da máfia, do crime organizado, de um bando de corruptos e genocidas. O país está sequestrado. Temos um interventor do imperialismo americano no poder aqui. Pois é.

Qualquer indicador econômico, político, social, cultural etc demonstra que a sobrevivência humana era menos incerta durante os governos do Partido dos Trabalhadores, do presidente Lula (2003 a 2010) e da presidenta Dilma Rousseff (2011 a 2016). Como eu disse, o povo decidiu o suicídio coletivo... 

PANDEMIA BRASILEIRA DE COVID-19

Após um ano e meio de pandemia mundial do Sars-Cov-2, o Brasil já perdeu 556.370 cidadãos e cidadãs vítimas do novo coronavírus. Já se contaminaram com o Covid-19 o impressionante número de 19.917.855 brasileir@s. Como os fatos revelados pela CPI da Covid demonstram, o projeto do genocida no poder era matar o povo infectando os mais de duzentos milhões de brasileir@s. A ideia era não gastar dinheiro com vacinação (a não ser com propina, claro). O esquema era uma tal imunidade de rebanho, quem não morresse, ficaria pra contar a história. O bolsonarismo-nazismo está tendo relativo sucesso, pois os números oficiais não são confiáveis e o número de mortos pode ser bem maior. Detalhe: a amplíssima maioria, quase a totalidade dos mortos, são os pobres (e a maioria dos pobres são pretos e pardos). Sem contar que estudos mostram que parte dos contaminados que sobreviveram serão pessoas com sequelas da doença. Imaginem 1/3 dos 19,9 milhões de infectados com doenças crônicas para o resto de suas vidas severinas. As mortes de brasileir@s praticamente dobraram nesse ano e meio de pandemia porque outro monte de gente morreu por falta de atendimento médico. Uma tragédia! Uma delas, porque essa das mortes é só uma das dimensões e efeitos do suicídio do povo brasileiro ao colocar aquele celerado na presidência e uma corja da mesma laia nas instituições de poder.

(Informações sobre Covid-19: Johns Hopkins University)

PAULO LEMINSKI ME FEZ PENSAR

Após uma semana tensa, de uma tristeza meio-que continuada, queria ler algo diferente hoje e pensei em ler Leminski, um dos gênios brasileiros, gênio que teve uma vida breve, intensa e que nos deixou um legado para nos alimentarmos culturalmente e sentirmos o breve instante da vida.

Não deu certo. As interrupções o dia todo não me permitiram ler quase nada. Li alguns poemas do Distraídos venceremos (1987) e comecei a ler uma das quatro biografias que Leminski escreveu, sobre Trótski (1986). 

O começo da leitura sobre a vida de um dos líderes da Revolução Russa me deixou muito pensativo. Cada frase que li continha ouro, pensamentos que me faziam parar e pensar e reler a frase. Nossa! O cara é muito bom na prosa. Eu só tinha lido até agora os poemas dele, já li Poesia Completa (2013), do grande Leminski.

Ele vai começar a falar da Rússia citando Os irmãos Karamázov (1880), de Dostoiévski, que felizmente é um dos clássicos russos que já li. Ele diz que esse clássico é um retrato da Rússia do passado e daquele presente e apontava o que ocorreria quatro décadas depois, a Revolução Russa.

Ele começa a descrever a história da Rússia a partir de 1236, e vamos vendo um filme, com o neto de Gengis Khan, o Khan mongol Batu, conquistando e arrasando tudo que tinha pela frente:

"Unificados pelo gênio político e militar de Gengis Khan, os nômades mongóis saíram aos milhares de suas planícies ao norte da China e caíram sobre a Europa como praga de gafanhotos, matando, queimando, saqueando e destruindo tudo à sua passagem" (p. 248)

Aí eu parei pra pensar. Me lembrei das chamas destruindo a Cinemateca nesta semana. Me lembrei das chamas destruindo centenas de anos de história acumulada no Museu Nacional. Me lembrei das chamas destruindo o Pantanal e a Amazônia. Me lembrei do suicídio proposital do povo brasileiro em colocar o pior ser humano do planeta na presidência do país.

Fiquei com um sentimento esquisito. Fiquei pensando nas extinções das espécies em nosso planeta. Nos povos que já foram dizimados com as invasões de outros povos. Fiquei pensando em outra frase que Leminski disse:

"Não só a história traz a marca dos indivíduos que a fazem. Mas, também, é interiorizada pelos indivíduos que a vivem." (p. 246)

Cara! Donald Trump, Jair Messias Bolsonaro, Adolf Hitler e outros seres humanos, não só os piores do mundo como esses aí, os melhores também, são isso que o Leminski disse. Essa massa ignara, bárbara, ignorante e violenta, chula, que apoia Trump e Bolsonaro está contida no pensamento do Leminski, Bolsonaro está interiorizado nesses milhões de animais humanos brasileiros que o apoiam. 

Ao estudar a história do mundo e ter tentado ser menos ignorante nos últimos trinta e poucos anos de adulto, e ver que o capitalismo venceu nos últimos séculos a disputa de organização da vida humana no mundo, bateu um desânimo profundo em mim, não que me faça desistir de viver ou de tentar fazer a minha parte contra essa merda toda, mas um desânimo da razão, eu sei que as coisas não vão mudar, a vida vai perder. Já está perdendo. Os oceanos estão morrendo. A diversidade na natureza está morrendo. A tecnologia fruto da inteligência humana está sendo usada para acelerar a destruição, e até para manipular e idiotizar os bilhões de humanos que habitam esse único mundo. Poucos caras dominam tudo e eles são as piores espécies de humanos que poderiam decidir o futuro da vida humana e da vida no planeta. Eles só pensam neles e na vida breve deles. Estamos fodidos. Fodidos.

A razão e a consciência que uma minoria politizada tem, minoria que poderia utilizar o conhecimento humano para nos perpetuarmos no planeta, inclusive com sustentabilidade e preservando a diversidade da vida animal e vegetal, não vai nem convencer aqueles poucos que falei acima nem vai chegar ao poder que determina o destino de tudo neste único mundo. O final do livro do neurocientista Miguel Nicolelis, livro que mudou minha forma de ver o mundo e a vida - O Verdadeiro Criador de Tudo - me deixou em prantos porque ele explica sobre isso que escrevi acima. Ele não crava como eu que nosso destino está traçado, que a destruição do planeta está dada, ele diz que temos duas opções, ou interrompemos a destruição do mundo e da vida e nos perpetuamos ou tudo vai se acabar. 

É isso, já chega por hoje. Já chega por esse mês de julho do planeta se acabando, mais rápido em alguns lugares como no Brasil de Bolsonaro.

Como não desisto da vida porque não posso ser egoísta e deixar na mão as pessoas que me amam nem acomodado e só me deixar morrer, corri meus 10 Km hoje. Estou tentando viver e fazer alguma coisa contra o fim de tudo. Pode ser pouco o que faço, mas ao menos registro um pouco dessas coisas.

William


Bibliografia:

LEMINSKI, Paulo. Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski - 4 Biografias. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2013.


domingo, 18 de junho de 2017

Livro: Toda poesia (2013) - Paulo Leminski



Refeição Cultural


"depois de muito meditar
  resolvi editar
  tudo o que o coração
  me ditar"


"   leite, leitura
letras, literatura,
     tudo o que passa,
tudo o que dura
     tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
     tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura
     de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura"

(Paulo Leminski)


Ao terminar a leitura das obras poéticas de Paulo Leminski, reunidas no livro Toda poesia, pela Companhia das Letras, fiquei pensando no quanto não conheço nada de nada em relação à literatura e produção literária do mundo, independente dos diversos tipos de gêneros, autores e países. Essa tomada de consciência é sempre dura, e deve-se ter humildade para lidar com o fato, senão ficaríamos deprimidos.

Eu tenho 48 anos de idade. Sou bancário concursado do Banco do Brasil. Já fiz muita coisa na vida desde a adolescência. Vendi minha força de trabalho desde criança, lá nos anos oitenta. Fui lendo o que deu e do jeito que deu. Cursei Ciências Contábeis e Letras. Depois que passei a ter um pouco mais de formação política e experiência de vida foi que percebi o quanto era ignorante em relação às boas obras da literatura mundial.

Desde então, vou descobrindo autores, gêneros, temas, estilos, vidas, poéticas, e definindo minha própria poética, mesmo que em prosa bancária, de trabalhador, amador no escrever.

Olha, que legal!

Paulo Leminski foi um grande conhecedor da palavra, da poesia, do manuseio da língua, da linguagem. O cara foi um gênio naquilo que fez. Estou impressionado com sua obra e foi uma pena não ter conhecido o autor antes de meus quarenta e tantos anos de idade, inclusive porque fiz faculdade de letras nos anos dois mil. Mas como escrevo aqui há tantos anos, sou (somos) lacunas culturais.

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"a hora do tigre

um tigre
    quando se entigra
não é flor 
    que se cheire
não é tigre
    que se queira

    ser tigre
dura a vida
               inteira"

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Agora, após leitura de apresentação (e não de exegese), haja vista que só passei pela obra entre a compra do livro em 2013 e a leitura dos poemas ao longo deste período, posso dizer que passei a ter uma leve noção do que é Paulo Leminski. Mas isso não é pouco, porque estamos num mundo onde as pessoas ao nosso redor muitas vezes sequer têm noção de quase nada.

O livro Toda poesia (2013) reuniu em quatrocentas páginas poesias de vários livros de Leminski:

- quarenta clics em curitiba (1976)
- caprichos & relaxos (1983)
- distraídos venceremos (1987)
- la vie en close (1991)
- o ex-estranho (1996)
- winterverno (2001)
- poemas esparsos

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"no campo
em casa
no palácio
está nas últimas
a última flor do lácio

cretino
beócio
palhaço
dê o último adeus
à última flor do lácio

a fogo
a laço
ninguém segura
a queda da última flor do lácio"

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Uma leve conclusão

O livro passa a ficar disponível e com fácil acesso em minha casa, assim como ficam os livros de Drummond e Bandeira, para aqueles momentos duros dos dias de lutas em que chego desesperado, angustiado, com raiva ou tristeza ou coisa do tipo e necessito abrir algo para ler ou declamar, buscando um conforto ou alívio mental.

Abraços, leitores amig@s.

William
(em busca de noções)

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Leitura: La vie en close (1991) - Paulo Leminski



Paulo Leminski.

Refeição Cultural

A poesia é um inutensílio, dizia o poeta.

Um orgasmo não tem que ter um porquê; a poesia não tem que ter um porquê. Um gol do Zico não tem que ter um porquê... (Leminski)

mas...

"O poeta é uma necessidade orgânica das sociedades"

Terminei a leitura deste livro de poesia de Leminski, la vie en close (1991), em um hotel lá em Belo Horizonte, na madrugada de 7 de junho. Estava lá para participar de uma conferência de saúde. Cansadíssimo naquele instante, peguei as poesias para mudar minha onda cerebral e dormir.

Nesta madrugada de quinta-feira, 15, feriado nacional, reli poesias diversas de la vie en close. Novamente, estou cansado de tanto trabalhar um trabalho que é militância pela Caixa de Assistência em saúde, que administro como eleito por associados. Tenho trabalhado até a exaustão!

Não adianta conselhos de gente bem-intencionada para que a gente trabalhe menos. Meu trabalho é guerra. É frente de batalha. Ou se luta ou não se luta pela saúde, pelo modelo de saúde, pela nossa entidade de saúde, pelos direitos em saúde dos associados que se representa. É assim pra mim.

Enfim, na inutilidade da poesia, no inutensílio, segundo o poeta, sinto uma utilidade imensa em me desligar nas leituras, uma vez ou outra, de minha quase condenação às militâncias em que me meti ao longo de minha existência.

Saboreiem abaixo alguns poemas de Leminski e embarquem na viagem dos seus livros de poemas.


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      um bom poema
leva anos
      cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
      seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
      sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
      três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
      uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

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estupor

esse súbito não ter
esse estúpido querer
que me leva a duvidar
quando eu devia crer

esse sentir-se cair
quando não existe lugar
aonde se possa ir

esse pegar ou largar
essa poesia vulgar
que não me deixa mentir

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mais ou menos em ponto

     Condenado a ser exato,
quem dera poder ser vago,
      fogo-fátuo sobre um lago,
ludibriando igualmente
      quem voa, quem nada, quem mente,
mosquito, sapo, serpente.

      Condenado a ser exato
por um tempo escasso,
      um tempo sem tempo
como se fosse o espaço,
      exato me surpreendo,
losango, metro, compasso,
      o que não quero, querendo.

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      atrasos do acaso
cuidados
      que não quero mais

      o que era pra vir
veio tarde
      e essa tarde não sabe
do que o acaso é capaz

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suprassumos da quintessência

      O papel é curto,
Viver é comprido.
      Oculto ou ambíguo,
Tudo o que digo
      tem ultrassentido

      Se rio de mim,
me levem a sério,
      Ironia estéril?
Vai nesse ínterim,
      meu inframistério.

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      Andar e pensar um pouco,
que só sei pensar andando,
      Três passos, e minhas pernas
já estão pensando.

      Aonde vão dar estes passos?
Acima, abaixo?
      Além? Ou acaso
se desfazem ao mínimo vento
      sem deixar nenhum traço?

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    textos textos textos

      malditas placas fenícias
    cobertas de riscos rabiscos
como me deixastes os olhos piscos
    a mente torta de malícias
                   ciscos

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      quem chega tarde
deve andar devagar
      andar como quem parte
para nenhum lugar

      vida que me venta
sina que me brisa
      só te inventa
quem te precisa

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      o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
      ou quase

      por onde ele passa
nascem palavras
      e frases

      com frases
se fazem asas
      palavras
o vento leve

      o bicho alfabeto
passa
      fica o que não se escreve

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Comentário final

O relançamento das obras completas de Paulo Leminski pela Companhia das Letras é uma oportunidade de ouro para nós que não conhecemos o autor em sua época. Eu me incluo no "nós" porque só muito tarde em minha vida passei a apreciar poesia, depois dos trinta anos de idade.

Os livros contidos no volume "Toda poesia" são muito bons. Fica a sugestão aos leitores amigos.

William