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terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Natais - 1982



Refeição Cultural

Osasco, 24 de dezembro de 2024. Terça-feira.


SENTIMENTOS E IMPRESSÕES

Naquele minuto no farol me senti culpado por toda a desgraça humana... A mãe com a criança no farol da Vila Yara me azedou o dia. Deu um misto de raiva, tristeza, impotência, desesperança no ser humano. Vergonha da minha espécie animal.

Tenho sentido uma vontade imensa de não contatar nenhum ser humano nos últimos dias. E sei que a sensação é uma espécie de sintoma de algo psicológico - uma estafa qualquer. Não posso permitir que essa bobagem me impeça de encontrar pessoas quando aparecer a oportunidade. Mas posso selecionar encontros.

Racionalmente, tenho conhecimento acumulado para saber que sou um ser social, que minha espécie é absolutamente dependente de relações humanas para tudo. Basta sentir uma dor ou sofrer um acidente que veremos se somos seres autossuficientes ou não. 

Natal traz as tradições e costumes culturais que tentam permanecer mesmo tendo mudado tudo no mundo. Confraternizar com um grupo de pessoas, reunir para comemorar a data ou o acontecimento (Jesus): tradições do período natalino no Ocidente.

Entra ano sai ano a sociedade humana tenta manter essa tradição associada ao objetivo principal da data: vender coisas, circular dinheiro, ostentar poder, felicidade e sucesso. Jesus... usam o nome dele para defender cada merda, que fala sério! (faz arminha...)

Quem não tiver dinheiro como as famílias nas ruas das cidades, que se dane. Não se esforçaram ou Deus não olhou para elas. Fôssemos urubu, barata ou ratazana não explicaríamos as coisas cotidianas assim. Abstrações são coisas do animal humano. Ideologias. Naturalizar o que não é natural.

UBERLÂNDIA 

Como vislumbrei ao longo dos últimos dois anos nos quais comecei a escrever esta série de textos sobre o Natal em minha família, não nos reuniremos com a família lá de Uberlândia. Mas fico contente de saber que a família lá estará reunida hoje.

Fui visitar os pais e a família dias atrás. Aproveitei com consciência cada instante que passei com minha mãe e meu pai. O arroz com feijão na presença de minha mãe por cinco dias foi vivido intensamente. Foi um instante precioso. Nunca se sabe do amanhã.

Como se diz na linguagem corrente, o "corre" de todo mundo não permitiu sequer que os sobrinhos comecem comigo uma pizza... Pedi as pizzas, mas foi minha mãe, meu pai e eu. A gente percebe as mudanças na vida e a vida deve seguir. Em cinco dias, vi por minutos familiares queridos. Enfim, são os tempos.

OSASCO

Voltando aos instantes da manhã de hoje, na Vila Yara, no mercado local, pensei em comprar uma ou duas cervejas. Eu tinha o hábito de tomar em casa uma latinha para relaxar em alguns dias do mês. Depois de ter na família problemas com álcool, nunca mais me senti à vontade para tomar socialmente uma cervejinha. Tomo com conhecidos, mas hoje não quis pegar a cerveja.

CULTURA DO CANCELAMENTO 

Tem uma coisa que está me matando, me fazendo refletir sobre abandonar tudo que tenha relação com movimento social: a cultura do cancelamento na esquerda, que virou uma arma tão letal que eu não consigo entender onde está a inteligência das pessoas que são de esquerda. 

Sermos manipulados pela cultura do cancelamento é algo tão estúpido que qualquer idiota deveria perceber que há um projeto para foder qualquer liderança de nosso campo que se destaque na luta contra nossos inimigos. 

Quer eliminar uma liderança de esquerda? Faça uma acusação de assédio sexual, pedofilia, corrupção etc. Pode ser anônima a denúncia. No dia seguinte, os "nossos" já não se contaminarão com o acusado... cancelado.

A gente do nosso lado vai se lamentar... dizer que está arrasada com a denúncia... e que "vamos esperar a apuração dos fatos". Pronto. Cancelado! A esquerda brasileira não aprendeu absolutamente nada com a Lava Jato. Onde está a inteligência da esquerda?

Estou azedo, estou amargo. Odeio injustiça desde quando tinha treze ou quatorze anos e passei a entender a injustiça de um garoto trabalhar em serviços de merda e humilhantes por causa da miséria social imposta pela burguesia desgraçada do país e do mundo.

Eu fui vítima de lawfare com carta anônima e passei o mesmo que outras lideranças de esquerda estão passando com esses processos de assassinato de reputações e histórias de militância e tenho raiva do comportamento bovino da esquerda em não defender os seus e simplesmente participar do processo de cancelamento.

De certa forma, a cultura do cancelamento só comprova a leitura que eu tenho das relações utilitaristas que predominam hoje na sociedade humana, inclusive nos círculos de maior proximidade nas relações. Se a pessoa tem alguma utilidade para a outra, beleza. Não tem utilidade, desconsidera... cancela.

Temos que refazer as relações humanas na sociedade. É o que eu avalio.

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NATAL DE 1982

O Natal pode ter sido ainda na casa da Dona Nenzinha ou já na casa alugada no quarteirão de cima, na Av. Quilombo dos Palmares, Marta Helena. Acho que mudamos 3 vezes em 3 anos. 

Eu já tinha mais de 13 anos nesse Natal. 

Meu pai tinha um bar, a Choupana, que vendia bebidas, lanches, salgados e tinha uma mesa de pebolim. 

Eu e ele éramos bons no pebolim porque se perdêssemos não entrava dinheiro no caixa (mas ganhar do Ruizinho era foda!). 

O bairro era de gente muito simples e tinha uma molecada e adultos muito violentos, algo como gangues mesmo. 

Eu já andava nas ruas como todo mundo da minha idade, tinha os bailinhos (chamados de "brincadeira"), e se a gente não fosse amigo ou conhecido do pessoal, a gente era inimigo... 

Nunca me esqueço da casa na Quilombo dos Palmares por causa do milharal que plantamos na frente e por causa de um tênis azul que me roubaram do varal. 

Como o ladrão era um cara foda do bairro, tive que conviver com o cara usando o meu tênis...

A música era algo que marcava os momentos de nossa vida nos anos 80. 

Nessa época surgiam bandas nacionais como Legião Urbana, Titãs, Barão Vermelho e, no cenário pop internacional, Michael Jackson lançava o álbum Thriller e Madonna aparecia pro mundo com seu 1º single Everybody

Eu adorava música som sobre som, e o tio Jorge era quem nos apresentava as músicas antigas "chonadas". 

MUNDO

O ditador da vez era o Figueiredo e na Argentina teve a Guerra das Malvinas. 

O Sílvio Santos lambia cada presidente de plantão. Nunca me esqueci daquelas chamadas do canal dele "A semana do presidente". Que merda, isso! Tive que crescer vendo essa dobradinha entre os endinheirados que exploravam a gente e os fdp das casernas militares.

O ditador de plantão da Argentina, Galtiere, para lançar uma cortina de fumaça sobre a grave crise econômica, social e política que predominava no país após anos de desgoverno militar, inventou de invadir as Ilhas Malvinas para unificar o povo argentino, já que o tema era de grande apelo popular e patriótico.

O resultado foi trágico. Centenas de jovens argentinos faleceram numa guerra de poucos dias em uma luta desproporcional de um exército armado e preparado contra um exército sem armamento e condições adequadas.

Mesmo sendo criança, me lembro das notícias na televisão sobre a Guerra das Malvinas. Lógico que só adulto fui entender melhor o quanto a junta militar foi fdp e responsável pela morte de jovens argentinos. 

A sacanagem dos ditadores ao menos serviu para pôr fim à ditadura e para a volta da democracia pouco tempo depois.

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Enfim, essa foi mais uma reflexão em período natalino.

William Mendes


Post Scriptum: o texto anterior desta série pode ser lido aqui.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Natais - 1981


Meu minuto no paraíso: Parque do Sabiá.

Refeição Cultural

Uberlândia, 16 de dezembro de 2024. Segunda-feira.


Vim visitar meus pais e familiares alguns dias antes do Natal deste ano. Nossa porção paulista não virá a Minas Gerais como fizemos nos dois últimos anos.

Felizmente, pude rever a abraçar pais, irmã e cunhado, sobrinhos e família, tia e primo. Tenho muitos familiares na cidade, mas a correria dos afazeres que tento encaminhar quando venho aos meus pais dificulta fazer outras visitas a tios e primos. Mas sei que estão bem, é o que nos deixa feliz.

Vim pensando muito nas questões da temporalidade da vida e no instante presente, que é único. Estou ainda com a frase que ouvi de uma entrevista antiga de Fernanda Montenegro, ao responder sobre medo da morte e dizer que tem pena de morrer, porque viver é poder ver o céu azul, estar com pessoas que se ama, ter acesso a conhecimento e cultura etc.

É isso, querida Fernanda Montenegro, pode acreditar que ontem, ao passar por uma floreira cheia de borboletas coloridas em festa, sob um céu azul intenso, parei e fiquei lá vários minutos VIVENDO...

Viver é a oportunidade de ver um céu azul e 
flores e borboletas coloridas num instante único.

Outra coisa que me preocupa sobre a efemeridade da vida é a questão da memória, da essência do que nós seres humanos somos, nossas memórias e nossa identidade, guardadas em nossa mente, em nosso cérebro de bilhões de neurônios que nos fazem ser o que somos, a partir do aculturamento que cada um de nós teve ao longo da vida.

Tenho um desafio enorme como cada semelhante nosso: viver o presente e o amanhã, caso ele exista para mim.

Honestamente, avalio que as relações humanas estão ruins, em todos os âmbitos sociais, aqui e acolá, e não podemos desistir de mudar o comportamento humano individualista, intolerante e sem paciência alguma para a alteridade e a diversidade de pensamentos e características pessoais. A mesmice em qualquer espécie é a morte dela.

Tenho tanta coisa nas ideias para falar sobre isso que vou fazer o contrário, não vou rabiscá-las aqui.

Conversando com minha mãe ontem, só poderia dizer que ambos lamentam nossas experiências e pequenas sabedorias não servirem para nada para as pessoas que amamos. A gente vai se cansando de tentar passar alguma coisa de boa que aprendemos por sobreviver neste mundo duro que sobrevivemos. Ninguém quer saber de nossa opinião, nem no ambiente familiar, nem nos grupos onde um dia convivemos socialmente.

Eu tenho consciência sobre as coisas do mundo. Burro não diria que sou. Sei do meu lugar no mundo. E sei que no momento atual desse mundo nenhum de meus conhecimentos e acúmulos tanto pessoais como coletivos serve para nada, sequer para as pessoas mais próximas a mim. Isso é um fato e a vida de todo mundo segue neste minuto e no seguinte, até não seguir mais.

Enfim, tenho a impressão nesta véspera de mais um Natal que há um espírito de pouca solidariedade entre as pessoas, tenho a leitura que algumas daquelas recomendações do cristianismo estão fora de moda: o perdão de forma gratuita, acolher a quem pensa diferente, não querer ao outro o que não se quer para si mesmo e vários ensinamentos que o homem Jesus Cristo pregou em sua passagem por este mundo.

Eu sou ateu há mais de duas décadas, mas por três décadas fui criado e aculturado na ambiência do cristianismo da igreja católica. Às vezes, acho que sou hoje mais dogmático e seguidor das palavras de Jesus do que muita gente que se diz religiosa e só usa o nome de Deus e do Cristo para arrotar ódio, violência, vingança, individualismo, intolerância e manifestações demoníacas do tipo, caso houvesse demônios por aí.

Enfim, estou procurando equilíbrio, algum sentido para a vida minha e de todos nós, e acredito na inteligência humana e na educação e formação política. Não sou determinista. Nós podemos criar e mudar tudo porque é da nossa natureza humana fazer isso.

Sigamos tentando viver, contribuir para o mundo e as pessoas no mundo e lutando por salvar o próprio mundo, a natureza onde todos nós vivemos.

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NATAL DE 1981

Nosso Natal deve ter sido em Uberlândia (MG), para onde nos mudamos desde o início do ano anterior. 

A gente morava numa casa de fundo na Av. Comendador Alexandrino Garcia, no Marta Helena. Na casa da frente, a proprietária era a Dona Nenzinha, benzedeira da região. 

Me lembro que ela me dava uns trocados para copiar rezas em folhas de papel para ela dar aos fiéis. Ela me benzia de "espinhela caída". 

Fiz da 5ª a 8ª série na E. E. Hortêncio Diniz. 

Foi um tempo de mudanças para mim. Me lembro da casa pequena e do quintal com pés de frutas. 

É incrível como meu mundo de criança mudou! Tirando bolinhas de gude, que segui jogando e ganhando latas de bolinhas - que em MG se chamavam bilocas -, eu não empinei mais pipas porque ninguém brincava disso e de outras coisas que fazíamos em São Paulo. 

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Mundo

Tenho uma leve lembrança dos atentados que Ronald Reagan (EUA) e o Papa João Paulo II sofreram em 1981. Eles foram baleados. 

Ainda na política, sei que os desgraçados dos milicos iriam promover um atentado num festival de MPB para culpar a resistência civil e democrática na véspera do dia dos trabalhadores, mas se ferraram, a bomba explodiu no colo de um dos fdp. 

O evento é conhecido como Atentado do Riocentro.

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Os milicos em 2022 - A história no Brasil é um treco bem jabuticaba, só aqui mesmo. Décadas depois de impunidade e anistias a fdp golpistas, não é que meses atrás, uns milicos de merda, junto com um "presidente" de merda (ele é cagão mesmo), organizaram um novo golpe de Estado até com listinha de assassinatos de autoridades da República! Iam explodir o Aeroporto de Brasília, matar Lula, Alckmin e um ministro do STF etc. Esse mundo é um lugar velho... as coisas são antigas e vêm de longe.

William Mendes


Post Scriptum: o texto anterior desta série pode ser lido aqui.


segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Natais - 1980

 


Refeição Cultural 

Uberlândia, 23 de setembro de 2024. Segunda-feira.


As incertezas que tinha em relação ao Natal em família neste ano se confirmaram. Não haverá reunião e Natal em família com nossa presença paulista em Uberlândia. 

Estamos em setembro e a vida segue cada dia mais imprevisível, tanto em relação à vida privada quanto em relação ao mundo "lá fora", no espaço público. 

O termo "lá fora" é um autoengano comum ao acharmos que a vida de uma pessoa se desenvolve normalmente sem sofrer as consequências da vida pública, coletiva, da sociedade humana. 

Tenho registrado impressões e lembranças sobre os natais em nossa família, uma típica família brasileira pobre que atravessou o século vinte tentando sobreviver e se estabelecer socialmente num dos países mais injustos e violentos do mundo, fruto de séculos de invasões europeias, escravidão forçada de africanos e genocídio dos povos originários.

Sou da geração que nasceu nos anos sessenta e setenta, ainda na ditadura, e que foi adolescente nos anos oitenta e noventa. Anos terríveis para o povo trabalhador do ponto de vista do emprego e renda e de muita luta de classe do ponto de vista social e político. 

As incertezas da vida privada são as comuns. A saúde é a principal delas. Nunca sabemos quais de nós estarão vivos amanhã. E as relações humanas, que estão impossíveis, são outras dificuldades na questão das reuniões e confraternizações. 

As incertezas do espaço público, da vida lá fora, estão aumentando. Existe um novo estado fascista invasor de "espaços vitais" como foi no passado a Alemanha nazista de Adolf Hitler: o Estado de Israel, governado por Netanyahu, líder do regime sionista, racista e xenófobo. Os caras querem uma guerra mundial. 

Como se já não fosse injustificável a expulsão e o extermínio dos palestinos na Faixa de Gaza e toda a Palestina, Israel passou a atacar o Sul do Líbano, usando as desculpas de sempre: extermina e expulsa dois milhões de palestinos por causa do Hamas, e agora ataca e mata civis no Líbano por causa do Hezbollah. Só hoje são centenas de mortos, incluindo mulheres e crianças. 

Sem contar a guerra por procuração dos Estados Unidos contra a Rússia, usando o povo ucraniano como bucha de canhão. O decadente império norte-americano quer o fim do mundo se não for para eles serem os donos desse quintal que gira ao redor do sol.

Tempos duros.

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Eu e Leique, antes de partir de SP

NATAL DE 1980

Como terá sido o nosso Natal em família? Eu não sei ao certo quando fomos embora de São Paulo, provavelmente fomos após o término do ano letivo de 1979, um ano de rupturas, e no ano seguinte estaríamos morando em Uberlândia, o primeiro Natal em MG. 

Minha vida mudaria para sempre. Minha infância em Uberlândia foi o inverso do que era em São Paulo. 

Eu sei que em fevereiro daquele ano, no mundo dos adultos, a classe trabalhadora brasileira fundou o Partido dos Trabalhadores (PT), um marco na história política do país, ainda sob a ditadura civil-militar. 

Lula, a maior liderança do partido, seria decisivo nas lutas populares por décadas, sendo presidente do Brasil duas vezes (2003 a 2010) e ainda voltaria à presidência no início de 2023, após o período mais nefasto da história política do país, um período sob um golpe de Estado "com o Supremo, com tudo", golpe operado por uma tal operação Lava Jato.

Voltemos a 1980...

Nesse ano, o Papa João Paulo II veio ao Brasil inaugurar a Basílica de N. Sra. Aparecida (SP). 

Em julho, seria lançado o álbum de rock "Back in Black", do AC/DC. Eu tenho o vinil até hoje. É um dos mais vendidos e tocados da história do rock. 

A morte de John Lennon, assassinado no dia 8 de dezembro, foi algo que nunca me esqueci. Eu tinha onze anos e até hoje me lembro de um jornal na TV anunciando o fato e a matéria terminando com um óculos redondo caindo e se estilhaçando ao chão ("The Dream Is Over")... 

No meu histórico escolar em Uberlândia, no leque de Educação Geral, vejo as matérias que fiz na 5ª série na E. E. Hortêncio Diniz: L. Port. (81,5); Mat. (83); Hist. (62); Geog. (77); Ciências (90); Ed. Art. (MB); e umas matérias exóticas: Ed. M. e Cívica (B); Ensino Religioso (MB) e Técn. Agrícolas (Ótimo), no leque de Form. Especial.

Nós morávamos numa casinha de fundo lá na Dona Nenzinha, benzedeira do Marta Helena. 

É isso. A vida é mudança, como a própria natureza é. 

William 


quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Natais - 1979



Refeição Cultural

Osasco, 5 de setembro de 2024. (60 anos depois...)


Hoje poderia ser um dia de festas, de comemorações, de confraternização. Meus pais estão vivos, fizeram aniversário nesta semana, e a vida deles é muito importante para mim. Meu pai completou 82 anos de idade. Minha mãe completou 78 anos de idade. Hoje faz 60 anos que eles se casaram em 5 de setembro de 1964.

Eu parabenizo minha mãe e meu pai pela data, por mais que não tenha surgido clima para comemorar a data, pois as relações humanas têm sido muito difíceis, e não só para eles, para todo mundo... repito: para todo mundo!

Fiquei vendo algumas fotos antigas, daquelas dos anos sessenta, setenta, oitenta. Uma família brasileira. Uma família brasileira a nossa. Uma família como milhões de famílias dessa comunidade humana tão contraditória, uma sociedade humana cuja origem é terrível, violenta, uma comunidade na qual a exploração de alguns homens sobre o conjunto das pessoas foi a marca de séculos de relações humanas. O Brasil.

Uma sociedade humana cuja história das relações entre homens e mulheres, entre pessoas de raças e origens tão diversas - brancos europeus, afrodescendentes, indígenas - nos primeiros séculos de constituição do povo brasileiro, eu sintetizaria com a leitura e reflexão de um conto do nosso maior escritor, Machado de Assis: "Pai contra Mãe", publicado pelo Bruxo do Cosme Velho já em seus últimos anos de vida. Nós somos ainda hoje, um século depois, aquilo do conto no que diz respeito às relações humanas. 

Tenho refletido sobre a minha família nos últimos anos. Tenho me esforçado para olhar de forma fraterna para as mulheres e homens que compõem dezenas de anos daquilo que chamamos de família. Faz alguns anos que tenho me esforçado para pacificar meu coração de maneira que possa fazer a minha parte na tentativa de reaproximação com as pessoas que, de uma forma ou outra, estamos unidos por laços sanguíneos e pelo passado comum. 

Eu sei que para além das futricagens seculares comuns às famílias e relações de convivência, nós todos fomos vítimas de experimentos com manipulação humana por parte dos donos dos meios produtivos, os donos do capital, as plataformas das big techs desgraçaram as relações humanas de forma proposital. Para nos dominar, nos dividiram. Eu estudo e reflito sobre isso já faz alguns anos. E como ser pensante, tento usar essa compreensão para me reaproximar das pessoas.

Já escrevi muito aqui no blog sobre essas conclusões que tenho tido após muita leitura e muita observação da realidade. As pessoas estão modificadas, estão diferentes, mas não porque ficaram mais velhas, porque a vida seguiu seu caminho, estão diferentes porque foram modificadas. Ninguém se escuta, ninguém se tolera, ninguém aguenta uma discordância. Não há família ou relação de amor e amizade que resista a esse sistema de modificação do comportamento humano. Não há!

Some-se a isso que descrevi acima, outras crises: a relação de altos e baixos entre pessoas que conviveram juntas uma vida toda, ou a metade da vida no tempo cronológico, ou ainda um pequeno tempo cronológico, mas com consequências para toda uma vida. As relações humanas nessa quadra da história da sociedade humana neste mundo em séria crise econômica, social, política, ambiental e existencial são desafios dos mais importantes para seguirmos a caminhada de nossa espécie sobre a superfície da Terra.

Enfim, com os olhos marejados, aqui em Osasco, centenas de quilômetros de distância da casa de meus pais, que completaram hoje 60 anos de convivência em comum, eu os parabenizo, eu os agradeço, pois eu só existo por causa dessa união. Eu só sobrevivi às fases mais duras da minha vida, quando nem viver queria, por causa deles também. Nosso pacto, mesmo sem ser expresso, sempre foi sobrevivermos uns pelos outros.

Parabéns e obrigado por vocês resistirem ao que o mundo vem fazendo com a gente. Somos vítimas, acreditem um pouco no que digo. Somos vítimas do sistema capitalista, dos meios concentrados na mão de poucos humanos que decidiram foder com tudo em prejuízo de nós todos e gozo de uns poucos fdp.

Como nesta série reflito sobre nossos natais, ainda não sei o que faremos no Natal deste ano. Não sei!

William, filho do casal que hoje completa "Bodas de Diamante" num mundo feito para que nada dure mais que algum tempo de meses ou poucos anos...

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NATAL DE 1979

Como terá sido o nosso Natal desse ano? Era o meu 11º Natal como criança. 

No colégio Adolfino, eu tinha feito o 4º ano primário: tirei 3 conceitos "A" naquelas matérias que citei do ano anterior (ler texto aqui). Já sabia ler e escrever; e já tinha tido contato com Estudos Sociais e Ciências. 

Me lembro que lia muito gibi nessa época, Turma da Mônica, Tio Patinhas, Pateta, Pato Donald etc. Eu desenhava também. Tenho alguns desenhos guardados dessa época, desenhei até uns 11 ou 12 anos. 

É impressionante imaginar que eu fiz aqueles desenhos sendo tão novo! Eu fazia cópia de super-heróis e personagens apenas olhando o desenho. 

No Brasil, assumiu a "Presidência" o ditador Figueiredo, aquele que não gostava de gente e preferia seus cavalos a humanos. O ditador assina a Lei da Anistia (6.683). O Mato Grosso do Sul passa a ser Estado nesse ano também. 

No Reino Unido, a senhora "Dama de Ferro" Margaret Thatcher se torna Primeira-ministra. A mulher seria grande inimiga da classe trabalhadora inglesa. 

Saddam Hussein assume a Presidência do Iraque. 

Em minhas guerrinhas infantis, pelas ruas e campinhos do bairro Rio Pequeno, me lembro de ter levado naquele período pedrada, latada e dentada na cabeça (3 cicatrizes), brincando com os amigos e guerreando com os "inimigos" do Morro Branco, o território do outro lado do córrego do Rio Pequeno (rsrs). 

Vale registrar que a banda inglesa Pink Floyd lançou o álbum "The Wall" no ano de 1979. Um clássico para sempre!

William Mendes

domingo, 11 de agosto de 2024

Natais - 1978



Refeição Cultural 

Uberlândia, 11 de agosto de 2024. Domingo. 


Essas memórias e reminiscências sobre nossos natais em família, que estou produzindo desde 2022, têm um pouco de inspiração na obra da escritora mexicana Margo Glantz. Gosto da poética prosaica dela sobre o passado familiar. 

A obra "Las Genealogías" me abriu novas perspectivas na forma de escrever e contar histórias pessoais e opinativas a partir da história da própria família. A prosa de Glantz é muito interessante. 

Essa informação é só um registro de influência em minha escrita.

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DIA DOS PAIS

No Brasil, é domingo de Dia dos Pais. 

Dias dedicados a mães e dias dedicados a pais são tradições culturais. 

Imagino que o Dia das Mães funcione de forma diferente em relação ao dos pais num país onde mais da metade das famílias são chefiadas pelas mulheres.

O Boletim Especial 8 de Março, Dia da Mulher, feito pelo Dieese em 2023 (fonte: site da CUT) revelou que:

"dos 75 milhões de lares do país, 50,8% tinham liderança feminina, o correspondente a 38,1 milhões de famílias. Já as famílias com chefia masculina somaram 36,9 milhões."

Apesar de vermos movimentações parecidas em redes sociais de apreço e afeto aos pais e às mães, o fato concreto é que cada vez mais aumentam os registros de nascimentos sem constar os nomes dos pais.

O Brasil registrou mais de 172 mil certidões de nascimento sem o nome dos pais em 2023 (aumento de 24,5% em sete anos). 

Comento isso por ser hoje Dia dos Pais e o Brasil ser um país com milhões de pais ausentes. 

Não é o nosso caso, de minha irmã e eu. O pai está conosco e neste fim de semana pudemos confraternizar com ele, apesar de nosso pai ter se tornado uma pessoa de difícil convivência, infelizmente. 

Registro o meu respeito a todos os pais que exercem seus papéis de pais na plenitude.

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NATAL DE 1978

O Natal de todos nós católicos brasileiros e do mundo seria celebrado pelo novo Papa João Paulo II, o polonês Karol Józef Wojtyla. 

Ele foi eleito Papa após a morte de João Paulo I, que morreu após 33 dias de papado. 

Eu estava com nove anos e minha mãe se esforçou para seguir os ritos e dogmas da igreja católica. 

Frequentei o catecismo na igreja São Patrício, no bairro Rio Pequeno onde morava, mas não completei o curso. 

Tenho pouca lembrança sobre isso, mas suspeito que a culpa por não concluir o catecismo tenha sido minha e não da professora. 

Acho que dei trabalho a ela e deixei de fazer o curso. 

No mundo futebolístico, a Argentina foi campeã da Copa do Mundo de Futebol, realizada no próprio país sob ditadura militar. 

Uma das coisas que me lembro é que o título foi muito suspeito, diziam que o time do Peru entregou o ouro (o jogo), perdendo de 6x0 para a Argentina, tirando o Brasil da final por saldo de gols. 


No meu histórico escolar daquele ano constam 3 matérias de Educação Geral e minha avaliação foi até boa: Comunicação e Expressão (B); Estudos Sociais (A); Ciências (B).

Eu estudava no Prof. Adolfino de Arruda Castanho. Passei lá dia desses. Nossa escola pública está resistindo bravamente até hoje, felizmente! São mais de 600 alunos.

William Mendes 


Post Scriptum: o texto anterior desta série pode ser lido aqui.


sábado, 10 de agosto de 2024

Natais - 1977



Refeição Cultural

Uberlândia, 10 de agosto de 2024. Sábado.


Nas próximas semanas, meus pais farão aniversário, assim esperamos. Meu pai vai fazer 82 anos e minha mãe 78 anos de idade. 

Uma data que seria motivo para grandes comemorações é o dia 5 de setembro, data que marcará 60 anos de casamento dos meus pais. Na cultura brasileira chamaríamos o tempo de união deles de "Bodas de Diamantes".

Seis décadas de convivência não é qualquer coisa, são muito anos de vida em comum. Eu gostaria de fazer algum evento para relembrar a data e rememorar alguns momentos dessa história que uniu duas pessoas, duas famílias e gerou novas famílias.

Os tempos atuais, no entanto, não facilitam a intenção de organizar um evento que relembre a data. As relações familiares me parecem cada vez mais desafiadoras, porque nós todos mudamos demais nas últimas duas décadas. 

Eu até tenho minhas teorias, acho que as big techs (plataformas que dominam o mundo) e suas redes antissociais, de intrigas e ódios, com seus algoritmos manipuladores, abalaram profundamente as relações entre os seres humanos.

Por mais que hoje a convivência de duas pessoas na casa dos setenta e oitenta anos não seja uma relação boa como poderia ser, todos nós da família temos lembranças de momentos nessas décadas passadas que foram de grande superação e até de conquista, por vencer algo que quase nos destruiu, e algumas vezes até tivemos momentos de grandes alegrias, como se espera da convivência familiar.

Eu imagino que muitas famílias estão com dificuldades de relacionamento entre seus componentes, pois reafirmo que as tecnologias do momento afetaram excessivamente a vida das pessoas, e as questões relativas às crises dos ambientes sociais onde as famílias vivem - as cidades e países - também trazem os problemas para o ambiente doméstico. 

Somos uma sociedade humana cindida em quase todos os sentidos sociais. Não à toa, estamos à beira de uma ou várias guerras entre povos e nações, inclusive guerras internas aos países, guerras civis porque ninguém se aguenta mais. A intolerância e a anomia tomaram conta das comunidades humanas neste primeiro quarto do século 21.

Enfim, pelo que já especulei com minha mãe, não faremos nada em relação às datas que se aproximam. Como tenho refletido nesta série sobre os momentos de confraternização dos natais em família, nem sequer consigo vislumbrar o Natal do ano em que estamos.

Provavelmente todos passarão a data num canto por aí. 

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NATAL DE 1977

No Natal, eu já tinha mais de oito anos. É dessa fase que tenho as melhores lembranças da infância, de uns seis até os dez anos de idade (aos dez, fomos embora de São Paulo). 

Eu não me lembro da reunião de família do Natal, mas me lembro que brincava muito na rua, que soltava pipa (que também chamávamos de "quadrado", "peixinho", "maranhão", "raia", dependia do formato) e eu mesmo derretia cola de sapateiro e misturava com vidro moído para fazer cerol (uma loucura!). Me lembro dos postes da rua cheios de linhas secando o cerol. 

Sei que no planeta bola, Pelé se despedia do futebol marcando seu último gol da carreira, jogando pelo Cosmos New York e vencendo o Santos por 2x1 em uma partida amistosa (acho) no Giants Stadium. Pelé é considerado o rei do futebol. 

Anos depois, o rei Pelé veria o Brasil ser desclassificado pela Croácia nas quartas de final da Copa de 2022 e veria também o craque Messi ser, finalmente, campeão do mundo com a seleção Argentina em 18 de dezembro de 2022, batendo a França nos pênaltis. A Copa foi em dezembro por causa do calor do Catar. 

Pelé faleceu dias depois, em 29 de dezembro de 2022, aos 82 anos de idade, vítima de um câncer.

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É isso. Mais uma rememoração de família conjugada com uma referência do mundo onde vivemos.

William Mendes


Post Scriptum: o texto seguinte desta série pode ser lido aqui.


quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Natais - 1976



Refeição Cultural 

Uberlândia, 8 de agosto de 2024. Quinta-feira. 


Cheguei ontem à casa de meus pais para fazer a romaria de Uberlândia a Água Suja, região do Triângulo Mineiro. Faço essa caminhada há quase quatro décadas. 

A minha impressão sobre quase tudo no ambiente familiar me deixou bem triste. Melancólico. Vou inclusive decidir nas próximas horas se farei a romaria ou se vou desistir desse dia na estrada, dia de introspecção e monólogo interior sob forte estresse físico e mental como é andar 80 Km.

Ao ver a condição de saúde de meus familiares, a casa, as coisas da casa, e perceber a minha própria condição de saúde, fiquei pensando em palavras que representassem a condição das coisas, da forma como percebo o nosso universo familiar. 

Degenerescência? Decrepitude? Decadência?

O mais triste é que essas palavras poderiam tranquilamente, na minha opinião, descrever a condição do mundo, da sociedade humana, das relações entre as pessoas, da ética e dos valores da sociedade humana neste momento da nossa história na Terra.

Ao mesmo tempo, é óbvio que o novo sempre vem, a todo instante, o velho vai sendo substituído pelo novo. A natureza nos ensina a certeza da mudança. Tudo muda o tempo todo. Lembremos: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma...

Se prevalecessem as abstrações humanas mais "humanistas" que seriam em tese mais solidárias e que criam direitos universais, as mudanças constantes seriam num sentido. 

Se, no entanto, prevalecem as abstrações humanas do capitalismo neoliberal, como ocorre neste momento global, as mudanças caminham aceleradamente no sentido inverso ao que poderia ser. O fim para nós. 

Comecei esta série de textos sobre os natais pensando em resgatar a história da família num contexto de confraternizações de Natal ao longo de décadas e citando referências de época para situar essa gente brasileira em sua ambiência cultural e histórica.

Avalio que o difícil não será escrever sobre o passado. O difícil será resistirmos até o próximo Natal, o deste ano em curso. Que dirá o Natal seguinte.

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NATAL DE 1976

Naquele Natal eu já estava com sete anos e, olhando para trás, começo a ter memórias dessa época. 

A foto da abertura pode ser de meus primeiros tempos de Adolfino, onde me alfabetizei.

Tenho lembranças boas dessa fase da vida em São Paulo. 

Em algum Natal dessa fase, teve até um papai Noel que entrou na sala do sobradinho no Rio Pequeno falando "ho ho ho". As crianças - eu, irmã e companhia - fingiram que estavam dormindo nos quartos lá em cima, mas estávamos todos olhando pelo canto da escada. Ele colocou os presentes na árvore de Natal na sala e se foi. 

Como disse, eu já estudava na E. E. Prof. Adolfino de Arruda Castanho. Fiz da 1ª à 4ª série lá. Minha avaliação na 1ª série foi "A" em "Comunicação e Expressão". Vi isso numa caderneta antiga.

Na escola, morríamos de medo da loira do banheiro ou loira do algodão, algo assim (medos de crianças, lendas urbanas). Quando algum moleque gritava "olha a loira do algodão!" a gente saia mijando com o pinto na mão. 

Sei que naquele ano faleceu o ex-presidente Juscelino Kubitschek (JK), no mês de agosto, vítima de um acidente de carro na Via Dutra. 

Meu pai e mais um monte de gente sempre falou e fala ainda hoje que JK foi assassinado pela ditadura através da simulação do acidente. Vai saber. Oficialmente, foi acidente.

É isso. O Natal de 1976 da nossa família de trabalhadores se deu num país sob ditadura e prometendo a todos que o futuro seria melhor. 

Não sou determinista e acredito que os humanos são seres capazes de mudar tendências e fazer história. 

Porém, neste momento, após cinco décadas de destruição do planeta Terra pelo capitalismo, nem futuro melhor vislumbramos para o amanhã. 

William Mendes 


Post Scriptum: o texto anterior desta série pode ser lido aqui.


sexta-feira, 28 de junho de 2024

Natais - 1975



Refeição Cultural 

Estamos no final do primeiro semestre de 2024. Na próxima semana, estaremos no semestre do Natal. 

Neste momento, não sei onde vou passar a data, se em São Paulo ou em Uberlândia. A dificuldade será reunir as pessoas mais próximas de nosso núcleo familiar. A data tem essa simbologia de reunião e confraternização.

A sociedade humana está num momento complexo. Imaginar como o mundo estará daqui a seis meses tem se tornado um exercício mais de adivinhação e desejo do que uma leitura de cenário e conjuntura política e econômica como usávamos fazer em outras épocas da humanidade.

Peguemos como exemplo de distopia da sociedade humana as eleições dos Estados Unidos da América, a nação com mais de quatro mil ogivas nucleares e que se mantém como império devido às suas intervenções violentas nos duzentos países que existem no Planeta. Concorrem neste momento dois sujeitos amorais e senis, mentirosos, e provocadores de misérias a milhões de pessoas como presidentes daquele país.

No Brasil, temos uma figura humana extraordinária, o presidente Lula, que é uma voz solitária no globo terrestre falando em paz, em saciar a fome das pessoas, em distribuir riquezas de forma equânime e preocupado com a destruição do meio ambiente. Lula acredita no diálogo e na política, na democracia, num mundo onde a democracia acabou, um mundo onde não há mais espaço para a solução pacífica das controvérsias, como reza nossa Constituição Federal.

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come... já ouviram esse ditado popular? É assim que estamos neste momento no qual termina um semestre e começa o semestre do Natal.

A impressão que tenho é que 25 de dezembro será uma data um pouco triste em nossas vidas. Torço para que as coisas melhorem, mas esperanças sem ações concretas para que mudanças ocorram são esperanças vãs. 

Não vejo ações e movimentos em nossas vidas privadas e nas comunidades humanas em estágio falimentar que me permitam alimentar esperanças concretas de dias melhores nos próximos meses do mundo.

No entanto, sigo envidando esforços atomizados para que nossa família esteja reunida no Natal e para que eu possa contribuir de alguma forma para que as pessoas tenham oportunidade de adquirir conhecimento que incentive elas a melhorarem o mundo. Faço isso escrevendo.

Cada texto que faço penso nisso - compartilhar conhecimento de forma gratuita -, inclusive os textos de cunho pessoal como tenho feito no blog. Eu me exponho como um cidadão comum, com suas fragilidades e potências para humanizar a minha relação com leitoras e leitores.

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NATAL DE 1975

Como será que passamos a data em família? Não sei. 

No Brasil, o regime ditatorial havia transformado a vida do povo pobre e trabalhador num inferno. 

Naquele ano, uma das vítimas do regime foi o jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado nas dependências do DOI-CODI. A imprensa da casa-grande era, em sua maioria, parceira do regime. Simularam o suicídio de Vlado na cela. A cena ficou marcada para sempre, denunciando a podridão da ditadura. 

O ditador da vez era Geisel. 

Politizados ou não, a vida de meus pais e da família toda de tios, tias e avós deveria estar bem difícil por causa da carestia. 

Se eu não me engano, com essa idade a gente já tinha o Leique, o nosso cachorro pequinês. Foi o único cachorro que tive na vida. Ele morreria lá em Uberlândia nos anos 80, quando a gente morava na casa-barracão no terreno de minha avó. 

Me lembro que ele estava bem velhinho, poucos dentes e cego. Ele sofreu nos últimos dias. Tenho uma foto com ele sentado na escada do sobradinho em São Paulo (ver aqui).

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Na foto acima, estou na porta de casa, na Rua Dr. Sérgio Ruiz de Albuquerque. Lá no fim da rua é a padaria Cinco Quinas, que está lá até hoje, na Av. Rio Pequeno. O molequinho deve ter uns cinco anos, pouco mais ou menos.

William 


Post Scriptum: o texto anterior desta série pode ser lido aqui.


domingo, 16 de junho de 2024

Natais - 1974



Refeição Cultural 

Estou em Uberlândia, cidade onde moram meus pais, irmã e sobrinhos, onde moram diversos familiares, cidade onde passei minha adolescência complicada. 

Entendi que preciso vir com mais frequência à cidade, para estar com a família daqui.

Nesta série de textos sobre os natais de minha família, venho refletindo sobre nossa história familiar e, de forma simples, abordando algum contexto geral da época, local e ou internacional, para situar aquela gente simples em meio à multidão humana. 

Comecei pelo ano de 1968, quando meus pais ficaram grávidos de mim. Meus pais já tinham a Telma, com um ano e meio de idade. Aquele foi o ano do recrudescimento da ditadura brasileira, pois em 13 de dezembro o ditador Artur da Costa e Silva emitiu o Ato Institucional n° 5 (AI5).

De certa forma, nos seis primeiros textos, expressei minha leitura da sociedade humana atual e anotei preocupações sobre o presente e o futuro da humanidade. 

Por fim, também tenho refletido sobre as mudanças em nossa família, reflexo das mudanças no comportamento humano em geral, na minha opinião, e pelo que posso observar da sociedade ocidental da qual faço parte. 

Nós todos estamos mudando rapidamente, sendo mudados na verdade, e a cada dia será um desafio maior a manutenção de qualquer relação baseada em laços de família, amor e amizade. 

Essas relações dificilmente resistirão a qualquer divergência de ideias e opiniões. As relações humanas serão cada dia mais episódicas e utilitárias. É o que avalio.

Dito isso, sigamos refletindo e olhando para o passado, lutando pelo presente e tentando alterar as tendências de fim das relações humanas que não estejam vinculadas a interesses egoístas, de valores materiais e de poder.

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NATAL DE 1974

No Natal, eu já estava com quase seis anos de idade. Como será que foi o nosso Natal em família?

Naquele ano, um incêndio de grandes proporções atingiu o Edifício Joelma em São Paulo, matando 189 pessoas e ferindo 293. Crescemos ouvindo o pai falar sobre essa tragédia. 

No mundo, tivemos em abril uma vitória popular importante: A Revolução dos Cravos, em Portugal, depôs a ditadura do Estado Novo que já durava décadas. As colônias portuguesas estavam em luta aberta por suas independências também. 

Por aqui, eu morava naquele sobradinho alugado no Rio Pequeno e não me lembro de nada em específico daquele período. 

Conversando com minha mãe, ela me contou como eles se viravam para pagar as contas e criar os dois filhos. Meu pai era taxista e minha mãe era uma costureira de mão cheia, como se dizia. E mesmo assim, com duas rendas, a vida deles era difícil. A ditadura era boa para a elite, os ricos.

Quanto a mim, o menino de cinco para seis anos, era quase um "privilegiado", pois só brincava.

Tenho em casa carrinhos de ferro em miniaturas fabricados no ano de 1974. Talvez tenha ganhado eles nesse ano ou pouco depois, quiçá no Natal. 

São da marca Matchbox, da série Superfast: um Mustang amarelo e um Renaut laranja. Eu brincava com eles no tapete da sala e na frente do sobrado onde morávamos. Tenho os carrinhos na estante até hoje.

Brasil afora, muitas crianças da minha idade não tinham o que comer e, ao invés de brincarem, trabalhavam... 

Só fui conhecer essa realidade de trabalhar com uns onze anos de idade, quando saímos de São Paulo e fomos para Minas Gerais...

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Na foto da postagem, apresento três carrinhos que alegraram a minha infância. Na época, as crianças de nossa geração tinham habilidades manuais. Não era um mundo digital.  Alterávamos e criávamos coisas com cinco, seis, sete anos de idade. Antes dos dez, eu fazia pipas, cerol, carrinho de rolimã etc.

William 


domingo, 14 de abril de 2024

Natais - 1973



Refeição Cultural

Estamos no mês de abril de 2024. Noite de sábado para domingo. Estou em Uberlândia. 

Um silêncio entristecedor predomina na casa de meus pais. Digo isso sendo uma pessoa que gosta de silêncio. São os sinais que entristecem a gente. Os acontecimentos apontam para onde as coisas caminham.

Como imaginei no último Natal, as relações entre as pessoas estão cindidas, esgarçadas, estão se diluindo. Os laços que ligaram grupos de humanos por milênios, que criaram aquilo que Benedict Arderson chama de "Comunidades Imaginadas", estão se desfazendo. As relações humanas estão cada dia mais utilitárias, só permanecem enquanto há alguma utilidade naquilo.

Tenho avaliado o comportamento humano nos últimos anos. Entendo que os seres humanos estão inseridos numa espécie de experiência a partir das big techs e suas técnicas de manipulação de massas (corporações globais que dominam os meios de comunicação), manipulação que já era tentada pelos grandes veículos de informação, mas que ganhou uma dimensão extraordinária com os algoritmos das redes sociais.

Estamos nos tornando seres antissociais, impacientes e sem vontade de lidar com qualquer pessoa que pense diferente ou emita uma palavra que a outra pessoa não goste. Relações familiares, de amor, amizade, se desfazem como se desfazem as relações virtuais, com um clique/cancelamento.

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E as guerras? Quem vai pará-las? 

Os contextos são diferentes dos contextos anteriores nos quais a espécie humana conseguiu evitar o lançamento de diversas bombas atômicas ao mesmo tempo, convencendo lideranças de grandes comunidades humanas que aquelas ações exterminariam a própria espécie. Estou falando de poucas décadas atrás. Anos de Guerra Fria.

Neste momento, com esses humanos ao nosso redor, com essas redes sociais que manipulam dezenas e centenas de milhões de humanos, com esses sociopatas por trás de corporações globais que cagam para os países e as pessoas, nós não temos perspectivas muito boas para evitar que as guerras que estão pipocando por aí avancem até o "The End", guerras em geral provocadas diretamente ou por procuração pela potência nuclear e império decadente Estados Unidos, que deixa claro que vai cair atirando contra as novas potências que estão surgindo, como a China, por exemplo.

Olhando desde abril lá para dezembro de 2024, é bem difícil saber se só a minha família terá dificuldades para se reunir no Natal ou milhões e milhões de famílias terão dificuldades diversas de reunião para confraternização...

Tempos sombrios, tempos desafiadores. 

(e pensar que a educação poderia mudar tudo isso, seria só educar as pessoas para um outro mundo possível. No entanto, sob o capitalismo e sob a governança de sociopatas, a salvação do mundo e da humanidade está cada dia mais distante)

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NATAL DE 1973 

Naquele ano, vivi com a família o meu quinto Natal. 

Nasci no Brasil, um dos países mais católicos do mundo à época. Fui batizado e recebi as bençãos divinas. 

Não me lembro das comemorações da data natalina, mas sei que com uns quatro anos de idade, eu já estava sendo aculturado como uma pessoa que vivia no ambiente das crenças religiosas do país, um misticismo resultante de todo o sincretismo religioso originário da mistura do catolicismo dos invasores europeus, com as visões de mundo dos povos indígenas e as religiões de matriz africana, vindas com os povos sequestrados e escravizados nesta terra, colônia de exploração. 

Ainda recebemos no último século e meio, povos vindos da Ásia e Oriente e suas crenças se somaram às que já existiam aqui. 

CONTEXTO NO MUNDO

Naquele ano, o World Trade Center foi inaugurado na cidade de Nova York, em 4 de abril. As torres gêmeas viraram o símbolo do poderio capitalista dos EUA. 

Dois 11/9 a registrar: 

11/9/73: no Chile, um golpe de Estado depõe Salvador Allende, que morre no Palácio La Moneda. Pinochet começa a ditadura sanguinária. 

11/9/01: muitos anos depois, a data é marcada no mundo pela queda das torres gêmeas inauguradas em 1973. Aviões se chocam contra elas, em Nova York, e o mundo seria diferente depois disso. 

EM NOME DE DEUS

Tudo que aconteceu foi em nome de Deus: nosso Natal, a invasão do Brasil no passado e a ditadura daquele momento, a vinda dos escravizados africanos, o capitalismo americano e a ditadura de Pinochet. 

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Na foto da postagem, sou o único menino entre as meninas. A foto foi tirada no casamento de meus tios em São Paulo, em maio de 1973. As duas meninas do meu lado direito são a Ione, minha companheira, e a Telma, minha irmã.

William


Post Scriptum: a postagem anterior desta série pode ser lida aqui.

domingo, 31 de março de 2024

Natais - 1972


Dilma Rousseff: mulher guerreira, lutou
para que os natais do povo fossem melhores.

Refeição Cultural

"Em 1970, Dilma foi presa e submetida a torturas em São Paulo (Oban e DOPS), no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. As torturas aplicadas foram o pau de arara, a palmatória, choques e socos, que causaram problemas em sua arcada dentária. No total, foi condenada a seis anos e um mês de prisão, além de ter os direitos políticos cassados por dez anos. No entanto, conseguiu redução da pena junto ao Superior Tribunal Militar (STM) e saiu da prisão no final de 1972." (Site Memórias da Ditatura


31 DE MARÇO DE 2024

Nesta série de textos sobre os natais que fizeram parte de minha vida, e os contextos que fizeram parte daqueles natais, me deu vontade de citar a grande mulher brasileira Dilma Rousseff, tanto por ela ter sido uma mulher que enfrentou a violência do regime de exceção e do mundo machista naqueles primeiros anos de recrudescimento da ditadura brasileira, quanto por hoje ser um dia de rememorar essas lutas que fazem parte de nossa história brasileira. 

Não podemos jamais apagar a trágica história do golpe de Estado em 1964. Pelo contrário, temos que relembrar, cobrar punição aos golpistas e agentes do Estado que violentaram o povo e nossa democracia.

Nesses 60 anos do golpe, temos que dizer de maneira firme: - Ditadura nunca mais! Sem anistia para os golpistas do passado e do presente!

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Meus pais no início dos anos setenta.

NATAL DE 1972

Naquele Natal eu tinha uns três anos e nove meses e minha irmã um pouco mais. Não sei como foi o Natal da família. Não me lembro porque era muito novo. 

O que sei é que a gente morava no bairro Rio Pequeno, Butantã, região Oeste da Grande São Paulo.  

Uma coisa que era muito comum no verão, de dezembro a março, era chuva, muita chuva, e enchentes, muitas enchentes. Nossa rua tinha enchente constantemente por causa do córrego do Rio Pequeno, hoje canalizado em parte e conhecido como Avenida Politécnica, que vai até a Raposo Tavares. 

Talvez o Natal da gente tenha sido sob enchente, vai saber.

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TEMPOS DE VIOLÊNCIAS E GUERRAS

Os tempos eram tempos de violência. Imagino meus pais, pessoas simples, ao verem os noticiários naquele ano. 

No Brasil, a ditadura havia decidido eliminar qualquer grupo de pessoas que lutasse pela volta da democracia. A ordem naquele momento era executar os opositores ao regime. Vi dias atrás uma entrevista emocionante do José Genoino a Hildegard Angel falando sobre essa época.

OLIMPÍADAS DE MUNIQUE - Naqueles meses finais de 1972 o mundo havia acompanhado o atentado terrorista nas Olimpíadas de Munique, no dia 5 de setembro. Palestinos do grupo Setembro Negro invadiram os aposentos da delegação israelense e o desfecho foi a morte de diversos atletas e treinadores. 

REGIME SIONISTA DE ISRAEL E A CAUSA PALESTINA - A questão árabe-palestina havia recrudescido desde 1967, quando o governo sionista de Israel atacou de surpresa Egito, Síria e Jordânia entre os dias 5 e 10 de junho (Guerra dos seis dias), conquistando de forma ilegal a Faixa de Gaza, a Península do Sinai, Jerusalém Oriental, a Cisjordânia e as Colinas de Golã, matando milhares de árabes-palestinos e destruindo as forças militares daqueles países.

MÍDIA MANIPULADORA HÁ DÉCADAS - Se considerarmos a mídia canalha que temos hoje (2024), a mesma daquela época (os mesmos grupos), imaginem como as notícias chegavam para os meus pais e o povo brasileiro... neste momento de genocídio do povo palestino, com a Faixa de Gaza destruída e mais de 40 mil crianças, mulheres e civis palestinos mortos, não sai na imprensa empresarial uma linha contra Israel. 

Resumindo, faz mais de 50 anos que meus pais veem a mesma manipulação informativa por parte da imprensa canalha brasileira.

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ACIDENTE NOS ANDES - Outro evento que ficou conhecido no mundo em 1972 foi a queda na Cordilheira dos Andes do avião que levava jogadores de rugby do Chile. Semanas depois, alguns sobreviventes foram encontrados. Para sobreviver, tiveram que comer carne humana. 

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UNIR A FAMÍLIA - Neste 31 de março de 2024, vivo um momento de incerteza quanto ao Natal deste ano. Sinto que será difícil reunir nosso núcleo familiar mais próximo como fizemos nos últimos anos. Farei o que estiver ao meu alcance para que estejamos todos juntos nesta data de confraternização.

William


Post Scriptum: o texto anterior desta série, o ano de 1971, pode ser lido aqui. Para ler o texto seguinte, clicar aqui.

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Natais - 1971



Refeição Cultural

Neste momento da história, início do ano de 2024, a sociedade humana vive os seus dilemas como deve ter vivido no início da década de setenta do século passado. 

Estamos cozinhando num mundo superaquecido e nossas crianças e adultos não olham mais para o horizonte, nem precisaríamos mais de visão ocular curvada para perceber o mundo ao redor. Hoje, bastaria uma visão plana para ver uma tela na frente do rosto. Com isso, você pode morrer atropelado mesmo sendo a pessoa mais atenta e cuidadosa do mundo. Mesmo que você olhe, outro não vai olhar e bum... Ninguém olha mais pra frente... até os cachorros vira-latas são mais espertos que boa parte dos humanos andando nos ambientes do mundo.

Se naquela época o mundo vivia sob uma abstração chamada "guerra fria", e o mundo polarizava duas formas de sociedades humanas se organizarem, através de modelos de Estado capitalistas ou socialistas, seja lá o que isso quisesse sugerir à época, hoje o capitalismo venceu o socialismo e temos alguns humanos de carne e osso com riquezas maiores que a soma das misérias de bilhões de humanos no planeta todo. Detalhe: isso é considerado "normal", é normalizado, isso não escandaliza meu vizinho, meu familiar e sequer altera a gana de alguém que se diz de "esquerda" para se engajar mais para mudar essa realidade da sociedade humana. É a minha impressão de observador.

As crianças de nossa sociedade ocidental (acho que no mundo todo) estão sendo aculturadas nos primeiros anos de vida a terem o desejo de serem youtubers ou "influenciadoras", seja lá o que isso queira dizer, e não mais cientistas, professoras, engenheiras, médicas, historiadoras. A ciência não parou de avançar em diversas áreas da sociedade humana. A tecnologia segue sendo alterada. Tudo está cada dia mais rápido no processamento, menor no tamanho, mais automático e instantâneo, e tudo tem contribuído para o ser humano se transformar em outra coisa, em relação às abstrações que nos fazem humanos. Não somos galinhas, jacarés, moscas, pombas, leões, gafanhotos por termos desenvolvido cérebros que nos transformaram em homo sapiens.

Tenho dúvida se seguiremos sendo sábios e se seguiremos existindo nas próximas décadas. Décadas mesmo! Não ousaria especular se estaremos no planeta daqui a alguns séculos, como estivemos séculos atrás.

Pelo que tenho lido e estudado, o ser humano está regredindo rapidamente em suas características mais definidoras daquilo que nos fez seres humanos ao longo da evolução de nossa espécie.

Não sou determinista nem acredito em hipotéticos futuros determinados e definidos. No entanto, toda mudança de rota precisa de um momento de virada de tendência. Ainda não vejo sinais de mudança no horizonte humano.

Teríamos que mudar muita coisa a partir de hoje. 

Quem está a fim de mudança da realidade política, social e econômica do mundo? No passado, tanto capitalismo quanto socialismo tinham visões de uso do planeta como se a natureza fosse inesgotável. Um sistema venceu, outro virou palavrão. Mas a forma de uso do planeta segue a mesma. Consumir até acabar.

É uma reflexão. Talvez tenhamos produzido em uma semana de festas e comemorações de fim de ano em 2023 mais lixo e destruição do que todo o ano de 1971, quando eu tinha meus dois aninhos e pouco de idade. Mesmo considerando as guerras de lá e as guerras de hoje.

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NATAL DE 1971

Como terá sido o Natal de nossa família? Eu não tenho a menor ideia também. 

Sei que o mundo recebia estarrecido as imagens da Guerra do Vietnã. Sei que a classe trabalhadora se fodia no Brasil. O regime autoritário era aliado da elite para enriquecê-la, sugando os recursos do Estado e do povo em benefício de poucos. 

A ditadura brasileira promovida pela elite vira-lata arrepiava pra cima das organizações de resistência e a regra desde o AI5 era sequestrar, torturar e assassinar a militância que lutava para recuperar a democracia no Brasil. 

Uma das vítimas da ditadura foi a nossa querida presidenta Dilma Rousseff. Nessa época, a jovem militante estava presa e sofria tortura... mas resistiu bravamente! Que mulher extraordinária! Ela seria no futuro presidenta do Brasil e sofreria novamente a violência de um país machista, misógino e antipovo.

O militante de esquerda e combatente contra a ditadura, Carlos Lamarca, foi pego pelo regime em uma emboscada em setembro daquele ano, foi fuzilado sem dó.

A imprensa empresarial, boa parte dela, lambia as botas dos milicos e falava mentiras contra a resistência democrática o tempo inteiro. 

Será que meus pais caíam na lorota dos meios de comunicação de massa? Avalio que o poder midiático das imagens e versões narrativas com efeito de "verdade" por parte dos meios televisivos e jornalísticos era muito forte, quase irresistível. Só quem tinha acesso a outras visões de mundo tinha chance de questionar os meios midiáticos do poder político e econômico do país.

Quando me tornei adulto soube que meu pai era brizolista, ufa! Bom sinal! Brizola e Lula eram lideranças da classe trabalhadora que enfrentavam a ditadura financiada pela elite vira-lata tupiniquim. Nosso metalúrgico sindicalista, Lula, iria trilhar uma história única nas décadas seguintes neste canto de mundo chamado Brasil.

Fiquei feliz ao saber que as duas vezes nas quais meu pai foi candidato a vereador, uma em São Paulo, quando era taxista, e outra em Uberlândia, quando era radialista, foram pelo PDT. Ao fuçar nos papéis velhos da família, vi os panfletinhos do Palmério. 

É isso! O Natal de 1971 talvez tenha sido em Uberlândia ou em Goiânia, pelo que pude especular com minha mãe. Na foto, vemos meu tio Jorge, eu no colo da vovó Cornélia, mamãe, e tia Alice com a Telma no colo. Pelo que minha mãe explicou, a cena se passa em MG.

William


Post Scriptum: o texto anterior desta série pode ser lido aqui. O texto seguinte pode ser lido aqui.


quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Natais - 1970



Refeição Cultural

Passamos o Natal de 2023 em Uberlândia, Minas Gerais. Conseguimos repetir a reunião familiar do ano anterior, o Natal de 2022, o primeiro após o auge da pandemia mundial. 

Quase repetimos a reunião da ceia natalina anterior, "quase" porque meu cunhado passou com a família dele neste 2023 e nem sequer nos vimos. Mas tivemos também neste Natal familiares do marido de minha sobrinha. 

Os Natais em família vêm mudando ano a ano. Eu tenho consciência de que tudo muda, pois somos natureza e somos seres históricos. A história humana segue seu curso, seguimos fazendo história, percebamos ou não isso. A mudança é uma das certezas que temos no mundo natural. 

A cada reunião familiar, fica em alguns de nós uma sensação estranha de que talvez aquela confraternização tenha sido a última. Não sei se muitas pessoas têm sentido a mesma coisa, mas comigo tem sido assim. 

Apesar da consciência a respeito das mudanças constantes de tudo na vida e nos ambientes do mundo onde vivemos, algumas mudanças são resultado de transformações pelas quais os seres humanos estão passando e não são mudanças boas, na minha avaliação. Vejo com preocupação para onde vamos enquanto espécie humana.

Tenho elaborado reflexões aqui no blog sobre o risco que a sociedade humana enfrenta neste momento da história. 

Me pergunto se os seres humanos serão ainda passíveis de serem educados, e me pergunto também se seremos no próximo período seres sociáveis. Pode ser que nosso nível de alteração desde a tenra idade nos faça seres frios, insensíveis, autômatos como máquinas e sem as características essenciais dos seres humanos.

Enfim, eu me esforcei para contribuir para que tudo corresse bem neste Natal em família... nunca se sabe se teremos outro. Fiz o que esteve ao meu alcance para reunir as pessoas que amamos, para pôr juntas pessoas que não se dão mais como antigamente e coisas do tipo.

Entendo que o momento pelo qual passa a humanidade nos cobra um esforço consciente para reunir pessoas, uma boa vontade de cada um de nós para tentar restabelecer a comunhão entre as pessoas, a solidariedade, o perdão, a tolerância à alteridade, precisamos resgatar os laços humanos de amor e amizade.

Neste Natal, viajei de coração aberto, busquei energias positivas para o ato desafiador de viver num mundo em desfazimento, num mundo cuja agenda permanente pautada em nossas vidas humanas pelas mídias sociais é a aparência, os extremismos, os ódios e medos, os cancelamentos de pessoas, a guerra.

Em Uberlândia, busquei renascer em mim mesmo nos momentos nos quais estive sozinho no Parque do Sabiá, aquele paraíso. E também busquei a compreensão das coisas nas relações com as pessoas. 

Precisamos encontrar maneiras de unir pessoas em prol de agendas que foquem o bem comum, a paz interior e a paz nas relações sociais. Essa não é a agenda dos donos momentâneos do poder econômico... Mas deve ser a nossa, pessoas de boa vontade. 

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NATAL DE 1970

Como terá sido o nosso Natal de 1970? Onde será que estávamos, o nosso núcleo familiar? Meu pai, minha mãe, minha irmã e eu?

Nas conversas com minha mãe, tentei especular essas coisas do passado, mas as memórias já vão ficando distantes e de difícil organização. Vendo fotos antigas, vi que os lugares eram diferentes do nosso lar.

Minha mãe me disse que quando era possível, a família viajava para a casa de alguns familiares. Goiás ou Minas Gerais eram destinos possíveis em um final de ano. Nós vivíamos em São Paulo à época.

Hoje, com a formação política e a experiência de vida que tenho, e sendo alguém que gosta de estudar a nossa história enquanto classe trabalhadora e povo brasileiro, consigo imaginar bem melhor a vida de meus pais e familiares nos anos sessenta, setenta e oitenta.

Para ilustrar o clima e o cenário nos quais meus pais viviam as nossas histórias, como estou fazendo nesta série, destaco alguns eventos que fizeram parte do contexto brasileiro e mundial naquele ano de 1970, que chegava ao fim no Natal e naqueles dias de Ano Novo.

No Brasil, a ditadura civil-militar estava num período muito violento para os dissidentes e adversários do regime de extrema-direita, bancado pela elite do país e pelos Estados Unidos da América.

COPA DO MUNDO DE FUTEBOL

O Brasil se tornou tricampeão de futebol no México, em junho. Pelé brilhou e a seleção da Copa de 1970 talvez tenha sido uma das melhores de todos os tempos (assim como a de 1982, imagino eu). Vencemos a Itália por 4x1 no Estádio Azteca, na Cidade do México. 

O regime ditatorial usou de todas as formas a conquista da seleção canarinho para fazer política favorável ao governo. Perguntei aos meus pais sobre a Copa do Mundo de 1970 e eles se lembraram daquela onda positiva no dia a dia do país.

MORREM JIMI HENDRIX E JANIS JOPLIN

Na postagem sobre o ano de 1969, falei sobre o evento cultural que marcou o mundo em agosto daquele ano, o Festival de Woodstock. O ano em que nasci... Hendrix e Joplin estavam no auge de suas carreiras no mundo do Rock and Roll.

Pois é! Eles morreram antes do Natal de 1970. Hendrix em setembro e Joplin em outubro, ambos com 27 anos de idade. Foram perdas terríveis para o rock mundial. Eu não sei se isso afetou meus pais proletários no Brasil. Talvez não.

Os Beatles também já não existiam mais naquele Natal, uma das maiores bandas de rock de todos os tempos formalizou o fim do grupo naquele ano de 1970, após rompimentos internos desde 1969.

O SOCIALISTA SALVADOR ALLENDE É ELEITO NO CHILE

Só para finalizar a contextualização da véspera do Natal de nossa família e do Brasil e do mundo em 1970, nosso vizinho sul-americano, o Chile, terminava aquele ano com um presidente marxista eleito pelo povo numa eleição disputadíssima em setembro. Salvador Allende obteve 36,2% dos votos, à frente do candidato da direita com 34,9% e do terceiro colocado da democracia cristã com 27,8%. O congresso referendou o resultado e a América do Sul tinha naquele momento um presidente eleito defendendo o socialismo.

Provavelmente meus pais, como milhões de brasileiras e brasileiros, estavam focados em sobreviver diariamente na labuta de seus dias.

É isso! Aquele garotinho da foto que abre a postagem sou eu, ainda experimentando os momentos iniciais da vida naquele final da década de sessenta.

William


Post Scriptum: o capítulo anterior dessa série pode ser lido aqui. E o capítulo seguinte pode ser lido aqui.

Post Scriptum II: as informações sobre o ano de 1970 que incluí no texto foram pesquisadas na enciclopédia livre, Wikipedia.