Mostrando postagens com marcador Ficção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ficção. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Instantes (16h20)



Refeição Cultural

LEITURAS


Enquanto tentava ler no vagão do trem, um sujeito falava ao celular com uma garota. Tinha menos de trinta anos. Contou algumas vantagens sobre si a ela, a convidou pra jantar e dormir na casa dele, e para quebrar a resistência dela em aceitar, disse, então, que só jantassem. Disse que da outra vez a culpa foi dela, por ter trocado de roupa na casa dele. O tipo era desses que começou dizendo que foi orar pela manhã. Ao sair do trem, escolheu um senhor idoso perto dele, que também ouviu sua conversa, e lhe disse rindo que "a garota deu porque quis, né?".

Já em casa, concluí que foi inútil levar meu livro na mão, pensando em ler um pouco no transporte público. Li poucas páginas e ainda se estraga um pouco a capa com o suor da mão. Minha edição do romance Yargo, de Jacqueline Susann, é do Círculo do Livro, do início dos anos oitenta: bem velhinha pra um livro. Ganhei a edição de meu primo Jorge Luiz, de Uberlândia. Li o livro antes dos 17 anos. Enfim, multipliquem esse caso do sujeito que estava xavecando uma garota pelo celular por inúmeras conversas do tipo ao mesmo tempo em um vagão e concluam se é possível ler um livro no trem. Já era!

Quando fechei o livro, fiquei observando as pessoas no trem, depois nas ruas da Barra Funda, por onde andei. Depois no trem novamente. Estar entre o povo, observar a realidade ao nosso redor, é uma oportunidade de reflexão e tentativa de compreensão sobre nós mesmos, nossa espécie, nosso ambiente cultural, e também uma forma de pensar sobre o passado, presente e futuro. Somos isso que está aí... todos nós, vocês e eu.

No romance, na parte em que estou, os yargonianos não querem mandar Janet Cooper de volta à Terra por considerarem ela uma pessoa comum de nossa espécie, mediana, medíocre, sem capacidade de transmitir a questão complexa envolvida na trama e por ela não ter representatividade junto às comunidades humanas. A ideia era ter levado a Yargo o Einstein ou outro cientista de renome nos anos cinquenta. O começo do romance, guardadas as devidas diferenças, não deixa de ser um pouco como a cena de costume que vi no trem. Janet estava em seus dias de preparo para o casamento, um dos papéis atribuídos às mulheres naquela sociedade norte-americana àquela época, meados do século passado.

Pensando o povo no trem, nas ruas, nos dias de hoje, a Janet Cooper do romance, eu nos dias de hoje, o leitor e sujeito que fui nos anos oitenta, senti uma espécie de pessimismo (não fatalismo), mas uma consciência clara da dificuldade que temos para superar o projeto das elites econômicas de idiotizar a espécie humana, tornar nossa gente ignorante e, pior ainda, orgulhosa de não saber de quase nada que todos já deveríamos saber no atual estágio de desenvolvimento. 

Os acasos e veredas que me fizeram ter um pouco de consciência política hoje, eventos que moldaram meu caráter e definiram minha vida, em caminho diverso em relação aos meus pares no ambiente de onde vim, estão mais raros hoje. Se eu estivesse começando minha jornada, vindo de onde vim, dificilmente seria essa pessoa que sou: um homem com valores da esquerda. 

William 

03/08/26

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Jornada nas Estrelas (Star Trek) - 2ª temporada (1967-1968)

 


Refeição Cultural

Após assistir aos episódios da primeira temporada da série original de Star Trek (comentário aqui), iniciei os episódios da segunda temporada. Fui vendo as aventuras da tripulação da USS Enterprise de forma esporádica e lentamente ao longo do ano de 2025.

O acesso atual a filmes, séries, documentários e programas culturais diversos através de plataformas de grandes empresas tem o inconveniente da "indisponibilidade" a qualquer momento. Foi isso que ocorreu com as 3 temporadas da série clássica de 1966/69 de Jornada nas Estrelas na Netflix.

Dias atrás, soube que a plataforma retiraria do ar as 3 temporadas. Fiquei p. da vida. Para não deixar pela metade a temporada que estava assistindo, dei uma acelerada e vi um monte de episódios em poucos dias. Foi cansativo e o fato tirou um pouco do prazer de assistir tranquilamente a série.

Enfim, agora conheço as duas primeiras temporadas da série clássica de ficção científica Star Trek. Desta vez, foram 26 episódios e alguns muito bons.

---

EPISÓDIOS


E1. Tempo de loucura ("Amok Time")

SINOPSE: No auge do período de acasalamento de Pon Farr, Spock precisa voltar ao Vulcão (Planeta Vulcano) para encontrar sua futura esposa, prometida desde a infância.

COMENTÁRIO: Os episódios da icônica série de ficção científica foram lançados no auge da guerra fria, final dos anos sessenta. Ao longo da primeira temporada, vi episódios com muitas questões políticas da época. Neste, especificamente, o roteiro me pareceu mais voltado para a antologia da série, para falar um pouco da natureza e da história de Spock. E, finalmente, vi a clássica imagem da mão aberta com os dedos separados em V, um cumprimento dos vulcanos.

---


E2. Lamento por Adônis ("Who Mourns for Adonais?")

SINOPSE: Um ser poderoso que diz ser o deus grego Apollo aparece e exige que a tripulação desembarque em seu planeta para adorá-lo.

COMENTÁRIO: Muito bom o episódio, que também poderia ser traduzido por "Quem vai chorar pelos deuses?". A teoria discutida pelos personagens do enredo me fez lembrar do clássico "Eram os deuses astronautas?" (1968), de Erich Von Däniken. Após ter a USS Enterprise retida por uma mão gigante de energia, o capitão Kirk e sua tripulação têm que se submeter ao deus Apolo, que quer ser adorado como os humanos faziam milênios antes. A temporada começou bem!

---


E3. Nômade ("The Changeling")

SINOPSE: Uma sonda com inteligência artificial e um sistema assassino vem à USS Enterprise e confunde o capitão Kirk com seu criador.

COMENTÁRIO: É sempre interessante ver ainda nos anos sessenta a questão da IA - burra de forma incorrigível - se contrapondo e desobedecendo seu criador, a espécie humana, essa sim com capacidade de ser inteligente, apesar de boa parte das pessoas não desenvolverem esta habilidade do cérebro do homo sapiens. A inteligência do criador precisou fazer a diferença para que a máquina "inteligente" não destruísse a Enterprise.

---


E4. O reflexo no espelho ("Mirror, Mirror")

SINOPSE: Kirk, McCoy, Scotty e Uhura estão em um universo-espelho em uma Enterprise paralela dominada por bárbaros cruéis.

COMENTÁRIO: Essa ideia de um mundo em espelho ao nosso mundo real sempre foi algo imaginado e talvez sonhado pelos seres humanos. É daí a invenção de que poderíamos viajar no tempo, uma abstração da mente humana muito antiga. Estamos viajando ao espaço, é fato. Viajar no tempo, não é possível. Só através da imaginação mesmo.

---


E5. Fruto proibido (The Apple)

SINOPSE: Kirk e uma equipe de aterrissagem descem para um planeta de aparência ideal e paradisíaca.

COMENTÁRIO: A tripulação da USS Enterprise encontra um paraíso um pouco diferente da descrição clássica. Os habitantes são inocentes como o casal Adão e Eva era antes da desobediência a Deus, tentados pela serpente a comer o fruto proibido. Apesar de bonitas, as plantas são perigosas e podem matar. O deus local, Vaal (um monumento gigante com cara de serpente), é alimentado pelos habitantes, que vivem quase na escravidão, pois devem obediência cega a Vaal. Akuta, o sacerdote local com quem Vaal se comunica é o líder dos habitantes. O capitão Kirk e sua tripulação farão um pouco do papel do diabo, "desencaminhando" os inocentes habitantes do planeta Gamma Trianguli VI. Quem vai ganhar essa guerra entre o céu e o inferno, Vaal e habitantes ou Kirk e companhia?

---


E6. A máquina da destruição (The Doomsday Machine)

SINOPSE: A Enterprise encontra a combalida Constellation, cujo capitão - Matt Decker -, transtornado, está determinado a parar a nave gigante que matou sua tripulação. A máquina destruidora é uma super-arma destruidora de planetas e se não for parada pode destruir o sistema solar dos humanos.

COMENTÁRIO: Este episódio foi um dos melhores que assisti até agora! A roteiro é muito bem construído. Além da verossimilhança na estória, uma máquina programada para destruir planetas gerando assim sua própria energia a partir da síntese dos elementos do planeta destruído, temos a questão das idiossincrasias dos humanos e seus comportamentos contraditórios (com exceção do vulcano Spock, lógico!). Foi tensão até o último minuto do episódio. Fiquei até com bronca da tripulação da Enterprise por ser tão certinha e aceitar receber ordens do capitão Matt Decker. Spock obedeceu a alguém acima dele na hierarquia por ser lógico, mas fiquei p. da vida! Eu não respeitaria o sujeito nem f...

---


E7. O Dia das Bruxas ("Catspaw)

SINOPSE: Quando Kirk e sua equipe de aterrissagem chegam ao planeta, são recebidos por neblinas estranhas, um castelo sombrio, bruxas, goblins e um gato preto.

COMENTÁRIO: No episódio, um ser na forma de mulher ou gato - Sylvia -, ameaça o capitão Kirk e sua tripulação com mágicas letais como, por exemplo, "vudu", para dominá-los. A mulher domina a mente dos amigos de Kirk.

---


E8. Eu, Mudd ("I, Mudd")

SINOPSE: Harry Mudd volta com um plano para tomar a Enterprise. Ele é rei em um planeta habitado por androides comandados por ele.

COMENTÁRIO: Episódio muito bom! Ver em 2025 um debate sobre IA na forma de robôs com aparência humana em 1968 e os problemas que isso poderia causar aos humanos, e causou décadas depois, é algo espetacular! Seriam várias dimensões para se avaliar, muitas camadas. Fica claro, porém, que não existe Inteligência Artificial, como nos explica hoje o neurocientista Miguel Nicolelis, inteligência é um atributo humano. Sempre há humanos por trás dessas máquinas que são vendidas como IA. Sempre há e haverá o risco à própria humanidade em sentido geral por causa de uns poucos humanos gananciosos que só pensam em si e dane-se todos e o mundo.

---


E9. Metamorfose ("Metamorphosis")

SINOPSE: A tripulação da Enterprise encontra uma misteriosa nuvem de energia que os atrai para o planeta Gamma Canaris N.

COMENTÁRIO: Achei o episódio interessante. A entidade inteligente que atraiu o Cap. Kirk, Spock e seus amigos fez o que fez para diminuir a solidão do único humano no planeta, o famoso Zefram Cochrane, inventor do motor de dobra e que já deveria estar morto há muitos anos. Kirk terá que ser um bom ator para lidar com a força alienígena.

---


E10. A caminho de Babel ("Journey to Babel")

SINOPSE: A Enterprise recebe diversos diplomatas em conflito - e, dentre eles, o pai de Spock - mas alguém a bordo planeja um assassinato.

COMENTÁRIO:

"- Dê uma razão? Qual o nosso lucro em ferir o Capitão?
- Eu não sei. Não há lógica no ataque de Thelev ao Capitão. Não há lógica no assassinato de Gav.
- Talvez tenha que esquecer a lógica. Pense nas motivações... de paixões ou vantagens. Essas são razões para assassinatos...
"

Esse diálogo entre Spock e um andoriano é a tônica do episódio de Jornada nas Estrelas, um dos melhores desta temporada. No enredo, vemos pai e mãe de Spock, risco sério de morte de personagens importantes da tripulação da Enterprise e excelentes debates sobre a lógica vulcana e a diferença humana nos sentimentos que nos definem para além da lógica. Muito bom!

---


E11. O Sucessor ("Friday's Child")

SINOPSE: A Federação está concorrendo com os klingons por uma aliança com os habitantes de Capela IV, uma tribo guerreira.

COMENTÁRIO: Chamou a minha atenção o episódio produzido no final da década de sessenta tratar de disputa de minerais por parte de duas raças, os humanos e os klingons. O mineral de terras raras, como se diz hoje, estava no planeta Capela IV, e seus habitantes estavam sendo disputados para o acordo comercial. O ponto negativo do enredo foi a violência praticada contra uma mulher, um tapa na cara, a agressão partiu de um membro da tripulação da USS Enterprise.

---


E12. Os anos mortais ("The Deadly Years")

SINOPSE: Uma equipe de aterrissagem da Enterprise é exposta a uma forma estranha de radiação que acelera o envelhecimento.

COMENTÁRIO: Interessante o enredo. O episódio abordou uma discussão sobre os efeitos do envelhecimento nas pessoas, o efeito individual em cada um. O capitão Kirk, no auge de seus 34 anos, teve que lidar com esquecimentos e outros fatores de eventuais doenças da idade avançada, como artrite.

---


E13. Obsessão ("Obsession")

SINOPSE: O Cap. Kirk caça obsessivamente uma criatura em forma de nuvem que encontrou na juventude.

COMENTÁRIO: O enredo vai abordar uma característica humana que os vulcanos não têm: a hesitação. Será que uma hesitação do Capitão James T. Kirk, 11 anos antes, pode ter sido responsável pela morte de uma tripulação de outra nave estelar por uma criatura enfrentada no presente momento?

---


E14. Um lobo entre os cordeiros ("Wolf in the Fold")

SINOPSE: Scotty é o principal suspeito da morte de várias mulheres no planeta Angelius II. Entretanto, uma força mais sinistra pode fazer a conexão entre esses assassinatos e outros pela galáxia, incluindo alguns na Terra no final do século XIX.

COMENTÁRIO: Gostei no enredo da questão da fé que os homens depositavam nas máquinas já nos anos sessenta. O computador central da USS Enterprise é utilizado por Kirk e Spock nos interrogatórios para saber quem mente e quem fala a verdade. Se já eram fascinados com essa porcaria do passado, imaginem a ilusão cega que têm hoje nessas IA, nem inteligentes nem artificiais. 

(Como sempre, lamentável a forma como se tratam as mulheres, é um desrespeito absurdo)

---


E15. Problemas aos pingos ("The Trouble with Tribbles")

SINOPSE: Kirk precisa lidar com burocratas da Federação, uma nave de batalha klingon e um camelô que vende criaturinhas peludas e famintas como animais de estimação.

COMENTÁRIO: Episódio com tom de humor, de descontração. A USS Enterprise viveu uma superpopulação de pingos, bolinhas peludas vivas.

---


E16. Os senhores de Triskelion ("The Gamesters of Triskelion")

SINOPSE: Kirk, Uhura e Chekhov são capturados e escravizados em um planeta distante, onde são treinados para entreter alienígenas entediados.

COMENTÁRIO: Foi dureza assistir ao episódio dos "bons mocinhos" da USS Enterprise no dia que os EUA invadiram e sequestraram o presidente da Venezuela para roubar o petróleo do país (03/01/25). O Cap. Kirk, sempre sem camisa e conquistador de mulheres, é o típico representante desse país imperialista desgraçado.

---


E17. Um pedaço da ação ("A Piece of the Action")

SINOPSE: Kirk, Spock e McCoy descem a uma cultura similar às gangues terráqueas dos anos de 1920.

COMENTÁRIO:

"- Um livro sobre as gangues de Chicago fez tudo isso. Incrível. 

- Eles evidentemente tomaram o livro como um projeto de sociedade. 

- Como a Bíblia."

Muito interessante essa conclusão de McCoy...

Qual será a solução para pacificar as gangues no planeta dos iotianos?

---


E18. A síndrome da imunidade ("The Immunity Syndrome")

SINOPSE: A Enterprise encontra um organismo gigantesco, sugador de energia, que ameaça a galáxia.

COMENTÁRIO: A tripulação da USS Enterprise estava a caminho das férias quando recebe uma ordem de verificar um evento ocorrido em uma região do espaço. Uma nave com tripulação de vulcanos teve destino trágico e os 400 mortos nos fazem ver um Spock sensibilizado, algo raro num vulcano. 

(Senti o mesmo cansaço que a tripulação do Cap. Kirk ao assistir de forma acelerada os episódios desta temporada já que a plataforma vai tirar a série do ar em alguns dias... que merda, isso!)

---


E19. Uma guerra particular ("A Private Little War")

SINOPSE: Kirk volta ao planeta Neural, onde passou algum tempo 13 anos antes. Um amigo da visita anterior hoje é líder de seu povo.

COMENTÁRIO: Numa disputa entre a Federação (representada pela USS Enterprise) e os klingons, as vítimas são os habitantes primitivos do planeta Neural. Era para os habitantes evoluírem lentamente do arco e flecha para armas de fogo, mas os klingons armaram um dos grupos e Kirk precisa decidir se arma o outro lado, interferindo e criando um "balanço de forças", ou não. 

---


E20. Volta ao amanhã (Return to Tomorrow")

SINOPSE: Os três últimos membros de uma raça antiga, bem mais avançada que os humanos, querem emprestar os corpos de Kirk, Spock e dra. Mulhall.

COMENTÁRIO: Se pudéssemos manter nossa essência, nossa identidade, existindo após o fim de nosso corpo físico, seria um avanço imenso para os seres humanos. Seria uma questão prática e material de mantermos o nosso "espírito". O episódio tem o enredo baseado nessa ideia de uma inteligência que se mantém após o fim de seu corpo físico. Interessante.

---


E21. Padrões de força ("Patterns of Fource")

SINOPSE: Procurando por um observador cultural da Federação desaparecido, Kirk e Spock encontram-se em um planeta cuja cultura segue os moldes do Partido Nazista.

COMENTÁRIO: Episódio sinistro. O nazismo voltou num planeta com duas populações estabelecidas e uma decide unificar seu povo utilizando a ferramenta do ódio ao outro povo, os zeons. A tripulação da USS Enterprise tentará evitar a solução final naquele planeta.

---


E22. Por qualquer outro nome ("By Any Other Name")

SINOPSE: Kirk, Spock, McCoy e um par de camisas vermelhas descem para a superfície de um planeta, atendendo a um chamado de emergência falso. 

COMENTÁRIO: Episódio muito bom, tema que nos faz refletir. A raça humana foi totalmente subjugada pela superioridade da raça conquistadora. Os humanos não desistiram de pensar uma solução, usando a inteligência. O final é surpreendente.

---


E23. A glória de ômega ("The Omega Glory")

SINOPSE: Kirk encontra Cap. Trace, da USS Exeter, infringindo a diretiva principal e interferindo em uma guerra entre os yangs e os kohms.

COMENTÁRIO: Era o que faltava para começar a fechar o ano da temporada, em pleno período de Guerra Fria: a guerra entre ianques (yangs) e comunistas (kolms) sai do planeta Terra e vai parar em Ômega... os mocinhos são aqueles da bandeira vermelha, azul e branca cheia de estrelinhas...

---


E24. O computador supremo ("The Ultimate Computer")

SINOPSE: A Enterprise é escolhida para ser a nave de testes do novo sistema computacional multitrônico M-5, projetado para fazer a nave funcionar sem ajuda humana.

COMENTÁRIO: 

"Os humanos devem continuar fazendo certas coisas para continuarem humanos". 

Bem atual esta frase do Cap. Kirk ao saber que uma IA iria assumir o controle da USS Enterprise sem precisar de ninguém da tripulação de 400 pessoas a partir daquele momento. O episódio foi um dos melhores da temporada. Ele antecipou o clássico HAL 9000 de "2001 Uma odisseia no espaço".

---


E25. Pão e circo ("Bread and Circuses")

SINOPSE: A Enterprise descobre um planeta onde o governo opressor é uma versão para o século XX do Império Romano da Terra.

COMENTÁRIO: No episódio, as arenas estão de volta, e as lutas do estilo MMA do século XXI terminam com a morte do derrotado. E tudo em nome da audiência. Com a sede de violência saciada através dos espetáculos de mortes cotidianas, aquela sociedade com um único governante já evitou guerras nos últimos 400 anos.

---


E26. Missão: Terra ("Assignment Earth")

SINOPSE: A Enterprise deve observar a história da Terra em 1968.

COMENTÁRIO: Episódio tenso para fechar a temporada da série. São tempos de Guerra Fria e existe uma ameaça de 3ª Guerra Mundial com a detonação de uma bomba nuclear que pode começar o fim da humanidade. 

---

AVALIAÇÃO GERAL DA SEGUNDA TEMPORADA

Assim como disse na avaliação sobre a primeira temporada da série clássica de Jornada nas Estrelas, repito aqui o esforço que tento fazer em imaginar o efeito que a série teve em seu tempo e espaço, os Estados Unidos da segunda metade da década de sessenta do século vinte.

Os pontos altos da temporada ficam com os episódios que abordaram Inteligência Artificial (que não é inteligente) substituindo os seres humanos (E3, E8, E14 e E24), e alguns dilemas filosóficos abordados nos episódios como, por exemplo, no "E6 A máquina da destruição" no qual a tripulação da Enterprise quase é levada à morte por obedecer a ordens estúpidas de um superior fora de si e cheio de desejo de vingança.

Alguns episódios abordam temas, meio século antes, que são muito atuais como a questão da disputa dos recursos energéticos e terras raras. Na ficção, humanos disputam com outras raças e outros seres os recursos de determinados planetas. Na atualidade, os Estados Unidos decidiram acabar com as instituições diplomáticas do mundo, tipo ONU, e partir para a invasão e domínio pela força de outras terras e povos, são os klingons da ficção.

Não é difícil perceber o efeito ideológico e no imaginário dos telespectadores norte-americanos que cada episódio causava após sua exibição. O Capitão James T. Kirk e sua tripulação multiétnica eram os desbravadores de mundos e símbolos da ordem e dos bons exemplos que os terráqueos estavam levando às demais formas de vida no espaço.

O efeito de buscar coesão na população estadunidense ao se verem como os mocinhos salvadores do mundo repleto de gente bárbara, inferior e má deve ter tido algum sucesso, pelo menos por algum tempo. Não estou desconsiderando o prazer em si do entretenimento, óbvio. Mas não sejamos inocentes!

Enquanto os episódios pautavam o bom comportamento dos humanos da Federação Unida de Planetas (a ONU e a OTAN), os bons mocinhos dos EUA financiavam golpes de Estado e ditaduras sanguinárias no "seu quintal", os países da América Latina e Caribe.

E aí, chegamos ao século XXI da vida real, neste exato momento de transição do 1º para o 2º quarto do século, com os Estados Unidos invadindo e bombardeando países soberanos, roubando petróleo e recursos minerais dos outros, tanto nos mares - piratas modernos -, como por terra e pelos ares.

Valeu a pena conhecer um pouco mais da série clássica e original do icônico Star Trek, de Gene Roddenberry e sua refinada equipe de atores e atrizes.

William Mendes

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Livro: Deuses humanos - H. G. Wells



Refeição Cultural

"Isso é o que fazemos agora habitualmente neste mundo. Pensamos diretamente uns para os outros. Determinamos transmitir o pensamento e é transmitido imediatamente, contanto que a distância não seja grande demais. Agora usamos sons neste mundo apenas para poesia e para o prazer e nos momentos de emoção ou para gritar de longe, ou com animais, não para a transmissão de ideias da mente humana para outra mente irmã. Quando eu penso para você, o pensamento é refletido em sua mente, desde que encontre ideias correspondentes e palavras adequadas em sua mente. Meu pensamento se reveste de palavras em sua mente, palavras que vocês parecem ouvir - e naturalmente em sua própria língua e com suas frases habituais. Muito provavelmente, os membros de seu grupo estão ouvindo o que estou dizendo a você cada um com suas próprias diferenças de vocabulário e sintaxe." (p. 50)


O livro de Herbert George Wells, Deuses humanos, veio até mim de forma casual, o vi numa banquinha de livros num shopping center. Paguei por ele quinze reais.

Pelo que pesquisei, o livro não é daqueles mais conhecidos do autor inglês como Guerra dos mundos, A ilha do Dr. Moreau, O homem invisível, A máquina do tempo e outros. 


LIVRO 1 - A IRRUPÇÃO DOS TERRÁQUEOS 

No enredo, o senhor Barnstaple, um trabalhador do periódico Liberal - um subeditor e um faz-tudo -, reflete sobre a necessidade de férias, ele está esgotado pela rotina no trabalho e também em casa. Quer férias até da família. 

Sendo assim, ele pega o carro e sai escondido por uns dias. Dirige a esmo e numa derrapada se vê em outro mundo. Começa aí sua experiência em "Outro Lugar", um lugar chamado Utopia.

Outro carro com um grupo eclético, incluindo um político do partido Conservador inglês, foi parar naquele mundo também. Personagens: sr. Cecil Burleigh, líder Conservador; sr. Rupert Catskill, secretário de Estado para a Guerra; temos ainda o chofer, Lady Stella, Freddy Mush (secretário de Rupert) e o padre Amerton.

O senhor Barnstaple é um liberal, mas:

"De fato, o sr. Barnstaple estava deixando de ter esperanças, e para tipos como ele, esperança é o solvente essencial sem o qual a vida não pode ser digerida. Sua esperança sempre havia sido o liberalismo e o generoso esforço liberal, mas ele começava a achar que o liberalismo jamais faria nada além de se sentar curvado com as mãos no bolso, resmungando e implicando com as atividades de homens mais vulgares, porém mais enérgicos, cujas atividades iriam, inevitavelmente, acabar com o mundo." (p. 12/13)

O senhor Barnstaple tem um pequeno automóvel:

"Era um carro de dois lugares. Era conhecido na família como Banheirinha, Mostarda Colman e Perigo Amarelo. Como esses nomes sugerem, era um carro baixo, conversível, de uma cor amarela clara. O sr. Barnstaple o usava para ir de Sydenham ao escritório, porque fazia cinquenta quilômetros por galão e era muito mais barato do que uma passagem de temporada." (p. 15)

Uma ideia é destaque na saída furtiva do senhor Barnstaple de casa para descansar uns dias:

"(...) Mas não importava muito. Qualquer caminho levava para Outro Lugar, e ele podia seguir para o norte depois." (p. 18)

Localização temporal

"O dia era um desses dias de sol claro característicos da grande seca de 1921 (...) enquanto estivesse dando as costas para Sydenham e o escritório do Liberal, não importaria para qual direção seguiria." (p. 18)

Outro Lugar

O grupo de terráqueos estabelece uma troca de informações e conhecimentos com os indivíduos daquele mundo e assim segue o enredo do romance ficcional. 

Serviço Universal

A base da organização social em Utopia é um novo método de cooperação econômica: o serviço universal para o bem comum.

O novo modelo social surgiu lentamente após a última Era de Confusão. Não houve revolução. Foram séculos de educação e ciência. 

Personagens utopianos até esta parte da leitura (livro um): sr. Serpentine, sr. Urthred, Lion, Lychnis.

Mais personagens

Mais adiante, aparecem novos personagens: Lorde Barralonga, o chofer Ridley, a srta. Greta Grey, Hunker - o rei do cinema -, o francês Emile Dupont e Penk. O bando chegou atropelando e matando um cidadão de Utopia. 

---


LIVRO 2 - A QUARENTENA

A segunda parte do romance começa anunciando uma epidemia na população de Utopia causada pelos germes trazidos pelos estrangeiros terráqueos. 

Os utopianos eram como os povos originários das terras invadidas pelos homens brancos europeus em meados do segundo milênio da chamada era cristã. 

De forma sintética, resumiria que o grupo de terráqueos foi isolado num castelo no alto de uma montanha. Os doze humanos discutem sobre o que fazer, sendo o sr. Barnstaple o único divergente na proposta do grupo.

O subeditor do Liberal não vê sentido na ideia do grupo de se contrapor aos utopianos e fazer de Utopia o que seria a sociedade humana naquele momento em 1921. Os utopianos estavam séculos à frente em avanços sociais, pensava o sr. Barnstaple. 

---


LIVRO 3 - UM NOVATO EM UTOPIA

"- Aqui - disse ela - não há descanso. Todos os dias homens e mulheres acordam e dizem: 'Que coisa nova faremos hoje? O que vamos mudar?'.

- Eles transformaram um planeta selvagem, com doenças e desordem, numa esfera de beleza e segurança. Fizeram a selva das motivações humanas conter união, conhecimento e poder." (p. 192)


Nesta parte da história veremos o desfecho da aventura do sr. Barnstaple. 

Para mim, como leitor, foram esclarecidas várias dúvidas em relação ao enredo do romance de H. G. Wells.

Certas afirmações pejorativas feitas pelos utopianos sobre a raça humana me deixaram perplexo, no sentido de que poderiam ser ditas hoje, um século depois do enunciado, e não como ficção, mas como descrição do que somos.

---

COMENTÁRIO FINAL 

"Em Utopia, assim como na Terra, houvera pessoas escuras e morenas, e permaneciam distintas. As várias raças interagiam socialmente, mas não procriavam muito entre elas; em vez disso, purificavam e intensificavam suas belezas e dons raciais (...) Houvera uma certa eliminação deliberada de tipos feios, malignos, estreitos, estúpidos e soturnos durante os doze anos anteriores." (p. 197)


Esse enunciado é de um século atrás. Chocante, não? Porém, as ideias contidas no texto fazem parte de um romance ficcional. 

No entanto, ideias semelhantes foram ditas faz poucos anos, já no século XXI, por um deputado federal à época para uma entrevistadora negra. Bolsonaro disse para Preta Gil que seus filhos não tinham risco de namorar negras porque foram bem-educados...

Preta Gil processou o sujeito por racismo e teve ganho de causa. Infelizmente, a cantora faleceu ontem. (Preta Gil, presente!)

O livro de H. G. Wells, de 1923, traz uma temática absurdamente atual um século depois. 

A ficção traz de volta o tema da existência de um não lugar, um lugar nenhum idealizado, assim como fez Thomas More em 1516, com sua célebre obra "Utopia".

Nessas idealizações de mundos imaginários entram de tudo: socialismo ou comunismo, eugenia, tecnologias impossíveis etc.

Quando peguei o livro na banca de promoções de livros baratos não imaginava do que se tratava o enredo. Foi sorte minha, li um livro muito bom!

Recomendo a leitura dessa obra posterior ao período mais notabilizado do autor, entre 1895 e 1905, quando saíram seus grandes clássicos de ficção. Dessa fase eu li "A guerra dos mundos" (1898) e achei o enredo fascinante (comentário aqui). 

Seguimos lendo porque a leitura é uma das maravilhas da espécie animal homo sapiens. Como diz Paulo Freire, só se educa gente! Leitura educa as pessoas.

William Mendes


Bibliografia:

WELLS, H. G. Deuses humanos (Men like Gods). Tradução de Santiago Nazarian e Thelma Nóbrega. Barueri, SP: Amoler, 2022.

terça-feira, 15 de julho de 2025

Instantes (12h49)



Refeição Cultural

No romance, estou numa parte na qual parece ser o fim para o senhor Barnstaple, ele está numa reentrância na rocha em um penhasco. Abaixo, o desfiladeiro, acima, rochas por onde escorregou até ali, fugindo de seus pares terráqueos. Ele avalia que as opções nessa situação são duas: esperar a morte por inanição ou se jogar para a morte.

Estou com as palavras do professor Domenico de Masi circulando pelas sinapses de meu cérebro criador de tudo. Vi uma aula dele sobre o tema "O ócio criativo" (no ICL). Ele explica sobre o trabalho, seu objeto de análise e estudos por décadas. 

Nas minhas reflexões, me lembrei do sofrimento que o trabalho significou em minha vida. Vejo a trabalhadora limpando a piscina, trabalhando, e me lembro do meu primeiro dia como ajudante de encanador antes dos dezesseis anos... depois me lembro daquelas latas de palmito podres que tinha que abrir pra jogar fora... Temos que trabalhar para sobreviver.

De Masi nos conta que por milênios, o trabalho não tinha essa interpretação recente de "dignificar" o homem (mulher nem era considerada em relação aos direitos nos mundos dos homens). Trabalhar era castigo divino, era para escravizados. Dignificar os homens era através da filosofia, da arte, do belo, dos esportes e da gestão da Pólis

Esse papo de trabalhar dignifica o homem veio dos últimos dois séculos, da era industrial. Locke, Smith e Marx mudaram o olhar sobre o trabalho. Segundo De Masi, desde sempre (milhares de anos de homo sapiens), nosso objetivo foi trabalhar pouco ou não trabalhar. 

Isso me parece ter todo o sentido!

Agora temos máquinas e tecnologias para livrar a espécie humana da maior parte do trabalho ruim, insalubre, de risco e humilhante. E também de trabalhos mais considerados pelas sociedades. Poderíamos viver para o belo, para estudar e criar, para a cultura. Mas 99% estão no "corre" por um trabalho qualquer, até por um prato de comida, e 1% acumula tudo.

Pior: isso é normalizado!

---

Confesso que estou tão cansado quanto meu corpo, que cansou de sobreviver dez anos a mil.

Por consciência, busco sentidos. Mas confesso que está difícil encontrar sentidos. 

Me despeço amanhã do paraíso, da singela colônia de férias dos professores na Praia Grande. 

Voltarei para o caos.

Will i am 

15/07/25

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Livro: Nada mais será como antes - Miguel Nicolelis



Refeição Cultural

"(...) Contra todas as predições feitas pelos evangelistas fanáticos da inteligência artificial, que não seria de fato capaz de reproduzir como o cérebro humano funciona e, mesmo a longo prazo, não poderia nos substituir como sistemas digitais, o uso de IA causou danos tremendos e devastadores para o nosso modo natural de vida, obliterando as características puramente analógicas do nosso cérebro, como a inteligência, criatividade, intuição e o pensamento inovador fora da caixa. Neste processo, a imersão digital em tempo integral transformou quase a humanidade numa massa amorfa e semiconsciente, sem nenhuma perspectiva futura de se livrar dos grilhões desta escravidão digital." (p. 469)


Ao finalizar a leitura de mais um grande livro, a primeira reflexão que me vem à mente é aquela sobre a caminhada ser mais importante que a chegada. 

Quando comecei a ler a ficção do neurocientista escritor Miguel Nicolelis já sabia que a leitura seria demorada (ler aqui). 

Por acompanhar as entrevistas e postagens do professor, tinha noção do que seria tema no enredo do romance: as questões de IA e big techs etc. Então, curti a jornada sem a pressa da chegada.

Ao longo das 500 páginas do romance, fiquei reflexivo inúmeras vezes ao me deparar com o cenário daquele mundo de 2036. São muito provocativas as situações apresentadas na sociedade dos humanos autointitulados "homens sábios".

Desemprego global na casa dos 80%, por exemplo. A ideia não é de todo absurda de se imaginar num mundo onde as máquinas fazem tudo em benefício de aumentar a acumulação de riqueza na mão de pouquíssimos humanos. 

Não cito outros cenários da ficção para não dar spoiler de nada. Sugiro a leitura deste e de outros livros de Nicolelis. A obra científica "O verdadeiro criador de tudo", de 2020 (ler comentário aqui), impactou minha visão de mundo para sempre. 

Ao longo da leitura, fiz quinze postagens pequenas com comentários sobre algo que me instigou uma reflexão. No link da primeira postagem (aqui), pode-se ler as seguintes.

O final do romance é bem ficção científica mesmo (risos). Interessante!

Nada mais será como antes...

William


Bibliografia:

NICOLELIS, Miguel. Nada mais será como antes. São Paulo: Planeta do Brasil, 2024.


terça-feira, 24 de junho de 2025

Nada mais será como antes - Miguel Nicolelis (15)



Refeição Cultural

"(...) Cosmologia Cérebro-cêntrica. Em primeiro lugar, o nascimento da civilização dependeu da habilidade única do cérebro humano de gerar abstrações, coisas como religião, mitos, deuses, ideologias políticas, sistemas econômicos, arte, ciência, dinheiro, classes sociais, nações e suas fronteiras, ética, moral, leis, para citar alguns itens apenas. Tais abstrações se tornaram tão poderosas e influentes que, eventualmente, elas ficaram mais importantes do que o nosso instinto de sobrevivência coletivo..." (p. 412)


O capítulo 28 da ficção científica de Miguel Nicolelis "Nada mais será como antes" faz uma excelente síntese da teoria do Universo Humano desenvolvida pelo neurocientista em 40 anos de estudos e pesquisas. 

Por sermos animais com alta capacidade de criação de abstrações mentais, invenções imaginárias que unificam grupos de humanos através dessas abstrações (crenças), chegamos até aqui neste mundo natural desafiador: a Terra e o universo.

Mas sermos como somos tem consequências: as abstrações e crenças que inventamos são tão poderosas que podemos destruir o mundo por causa delas, elas superaram em muito nosso instinto de sobrevivência. 

É o que vejo muito melhor depois que passei a ler Miguel Nicolelis. Até o momento, o mundo tá fodido...

Sei que podemos reverter o caminho para o fim, porque somos inteligentes, mas sei que está difícil reverter a tendência do fim. Nos faltam coragem e disciplina. 

Não vejo vontade de ruptura com as abstrações "religião", "capitalismo" e "mito da tecnologia", nem nos grupos chamados de progressistas ou apelidos do tipo.

Nos faltam coragem e disciplina... 

William

24/06/25


Post Scriptum: o comentário final pode ser lido aqui.


quarta-feira, 4 de junho de 2025

Nada mais será como antes - Miguel Nicolelis (14)



Refeição Cultural

"(...) Todos os dados estocados na chamada 'nuvem digital', mantida nos servidores das grandes empresas de tecnologia, subitamente foram deletados; a nuvem digital simplesmente se dissipou como uma corrente de ar quente analógica. Todas as formas de mídia social ficaram mudas instantaneamente..." (Nada mais será como antes, Miguel Nicolelis, p.337)


Nesta semana estou focado em avançar no romance de ficção científica do neurocientista Nicolelis. 

Eu compartilho a preocupação de certos intelectuais e pensadores a respeito do poder incomensurável das big techs e seus donos. Eles armazenam hoje boa parte do conhecimento da humanidade em seus computadores.

O risco que todos nós corremos ao não criarmos as nossas plataformas nas dezenas de países que se pretendem soberanos é claro para qualquer pessoa minimamente inteligente, que dirá se essa pessoa se apresenta como líder e representante de gente ou movimentos.

Eu tenho outras hipóteses a respeito do efeito do mundo somente digital na vida da espécie homo sapiens: não seremos mais essa espécie, seremos outra coisa, talvez menos inteligente, a seguirmos abandonando a vida natural e analógica. 

É isso. O romance caminha para seu desfecho... nada mais será como antes...

William 

04/06/25


Post Scriptum: leia o comentário seguinte aqui.


sábado, 31 de maio de 2025

Vendo filmes (XXIX)



Refeição Cultural

Os robôs e nós (ou as máquinas, ou ainda a IA e nós)


"Durante décadas tive receio em relação à Inteligência Artificial. Era uma das pessoas que temia que as máquinas adquiririam vida própria e colocariam sob ameaça as outras espécies animais, sobretudo a humana. Nicolelis me explicou a falácia da 'Inteligência Artificial', algo impossível de se realizar. 

A inteligência é animal, uma máquina não pode ser inteligente no sentido da criação humana. Só nós somos inteligentes, por enquanto (pode ser que fiquemos limitados como as máquinas se não mudarmos o rumo das coisas)." (William Mendes, Blog Refeitório Cultural, 01/07/21 - ler aqui)


Antes da leitura do livro O verdadeiro criador de tudo (2020), do neurocientista Miguel Nicolelis, eu via e compreendia o mundo humano de uma forma e depois da leitura passei a ver e compreender a humanidade e suas criações no planeta Terra de outra forma, bem mais consciente agora.

Até 2021, eu realmente achava ser possível a realização da ideia central de boa parte da ficção científica e das literaturas ficcionais da possibilidade de máquinas se tornarem inteligentes ao ponto de se rebelarem contra a espécie que a criou - os humanos - e tomarem o mundo para si nos eliminando ou nos fazendo de escravos à sua disposição. 

Eu achava possível isso porque não tinha a compreensão de que só seres vivos podem ser inteligentes, já que a inteligência é analógica e não digital. Só organismos vivos podem desenvolver inteligência e criatividade. Máquinas, não.

A ficção a respeito das máquinas é bem antiga. Em relação a filmes já no século XX, o clássico de Stanley Kubrick virou a referência para tudo que veio depois de 1968. O filme WALL-E, por exemplo, é um diálogo com 2001 e seu computador central HAL 9000.

Dos filmes de robôs e IA, a série que mais me deixou pensativo por muito tempo foi a do Exterminador do Futuro e o domínio da Terra pelos robôs da Skynet. 

Só o professor Nicolelis conseguiu me convencer de que isso jamais acontecerá, pois as máquinas não são inteligentes e não têm vida própria. Tem sempre um animal humano por trás delas, pode ser um lunático fdp, mas estamos lidando com programação.

O assunto é complexo e não se esgota num comentário sobre filmes de ficção científica, é claro!

No entanto, fica registrado que esses filmes que revi e comento abaixo são filmes que avalio serem muito visionários e que ainda valem pelo que representam. 

As pessoas com cara na tela, que vimos no WALL-E quase duas décadas atrás, foi uma cena premonitória demais! Hoje as pessoas morrem atropeladas ao atravessar a rua porque não olham para a frente.

A questão da imposição do novo por parte das corporações capitalistas e a transformação de sucata e obsolescência de tudo que vemos no filme Robôs é mais atual que nunca!

E sobre IA e corporações e o risco de dominação dos seres humanos por parte das máquinas, que já está acontecendo, o filme Eu, robô nos traz reflexões pertinentes. Não porque uma IA vai se rebelar contra nós, como a Viki, ou a IA do 2001 ou do WALL-E, mas porque tem uns fdp por trás delas levando ao limite o capitalismo exploratório e predatório em benefício de alguns e prejuízo de bilhões de seres humanos e espécies de vidas.

---

FILMES


WALL-E (2008) - Direção: Andrew Stanton.

SINOPSE (DVD):

O aclamado diretor de Procurando Nemo e os criadores de Carros e Ratatouille transportam você para uma galáxia não muito distante dessa aventura interplanetária sobre um robô muito determinado chamado WALL-E. Depois de milhares de solitários anos fazendo o que ele foi construído para fazer, o curioso e adorável WALL-E encontra uma nova razão para viver quando conhece uma robô de busca de alto design chamada EVA. Junte-se ao casal e ao divertido elenco de personagens nessa fantástica viagem pelo Universo.

COMENTÁRIO:

Durante anos, tive no filme WALL-E a referência de acerto visionário a respeito do futuro da humanidade, um filme que apontou para onde estávamos caminhando. As redes sociais e os aparelhos celulares que viriam a capturar os seres humanos estavam em seu começo e o enredo apontava para o que viria a ser a geração cara na tela.

A destruição do planeta Terra pela poluição do consumo capitalista e as pessoas que não olhavam mais para a frente e só viam o mundo através da tela em sua cara foram as cenas do filme que nunca mais me esqueci. E aqui estamos nós, dezessete anos depois, nessas condições de destruição do planeta e robotização e desumanização dos humanos por essas máquinas e seus algoritmos.

Ao rever o filme, pude captar muito mais coisas! Que obra extraordinária!

Além do diálogo com o antológico filme de Stanley Kubrick, "2001 - Uma odisseia no espaço" (1968), o filme provoca reflexões sobre amor, amizade, diversidade, o sentido da vida, as consequências da voracidade do capitalismo, e a questão da sustentabilidade. 

O filme é tão incrível que já aponta duas décadas atrás o que os bons neurocientistas como Miguel Nicolelis alertam a respeito da IA, que não é nem inteligente nem artificial.

Se o filme de Kubrick acende o farol vermelho ao apontar que máquina é máquina, que máquina não é inteligente, ela só é programada por mentes humanas, e que o perigo está justamente no fato de não ser possível esperar uma decisão de abortar uma missão porque máquina é máquina, é burra, e nem se os humanos decidirem algo contra o programa, a máquina vai obedecer, WALL-E mostra outra vertente dessas máquinas programadas por nós mesmos.

Por trás da destruição do planeta Terra por falência das condições de abrigo à vida, já que os humanos transformaram nosso mundo num amontoado de lixo proveniente das futilidades do mercado consumidor capitalista, continua na nave Axiom o predomínio do mesmo modus operandi que causou o abandono do planeta: compre, compre, consuma, consuma...

Em 1968, a era do boom espacial, a máquina HAL 9000 decide eliminar a tripulação porque não aceita comandos que abortem a missão a Júpiter. Quarenta anos depois, a IA da nave Axiom desacata o capitão ao se negar a voltar à Terra após os sinais de condições de vida terem sido detectados pelo robô EVA (Examinadora de Vegetação Alienígena). Por trás da IA sempre há um programador, um comando... vimos isso em WALL-E.

Entra década, sai década capitalista, o que está em jogo não é a importância da vida e suas possibilidades infinitas, o que está em jogo é não mudar o rumo das coisas, é deixar tudo como está, já que o mundo e tudo nele contido deve ser apenas um espaço de exploração para os poucos donos dos meios, os capitalistas. Dane-se o planeta, os bilhões de humanos e a infinidade de vida dos ambientes terrestres!

Lógico, o filme tem toda a maravilha dos contos ficcionais, está contratado com os espectadores todas as possibilidades de amor, amizade, humor, drama, tensão e os demais temperos da sétima arte.

Amig@s, vejo esse filme mil vezes!

---


ROBÔS (2005) - Direção: Chris Wedge. Roteiro: William Joyce.

SINOPSE (DVD):

Dos criadores de A Era do GeloRobôs é uma nova aventura que irá maravilhar a todos com sua animação computadorizada de última geração. Robôs conta a história de Rodney Lataria, um aspirante a inventor, que viaja para Robópolis para conhecer seu ídolo, o Grande Soldador. Pelo caminho, ele faz muitos amigos e juntos acabam encontrando o malvado Dom Aço. Sob a orientação de sua mãe, Don Aço tomou a empresa do Grande Soldador e decidiu negar acesso aos outros robôs a peças necessárias para sua manutenção. Será que Rodney é feito daquilo que se faz necessário para salvar a todos?

COMENTÁRIO:

O começo da história já é espetacular! Numa comunidade de robôs bem classe trabalhadora, um robô adulto sai gritando pelas ruas que vai ser pai, numa alegria contagiante. Ao voltar para casa, sua companheira diz que ele chegou tarde... já entregaram a encomenda... mas tranquilizou o marido em seguida, lembrando-lhe que o melhor é fazer o bebê juntos! Os dois começam então a montar as peças vindas na caixa e depois de um tempo temos a linda criança robô, batizada pelos pais como Rodney.

O garoto vai crescendo e tomando consciência de seu lugar e de sua família naquela sociedade. Eles são pobres, só usam coisas de segunda mão e seu pai é sempre humilhado pelo patrão em seu emprego de lavador de pratos. O pequeno Rodney é criativo e quer ser inventor. Criou até um robozinho para ajudar seu pai no trabalho. Com o tempo, o jovem se despede da família para ir tentar realizar seu sonho de ser um inventor e poder ajudar as pessoas e a comunidade.

Como anunciado na sinopse, na cidade grande Rodney compreende melhor o mecanismo do sistema capitalista, a criação de necessidades por parte dos capitalistas e o quanto o povão é descartável para os donos do poder.

O filme tem muitas camadas, é muito bem-feito. Tem aventura e graça ao mergulharmos numa cidade com mecanismos incríveis conectados de forma a tudo funcionar perfeitamente como, por exemplo, no transporte público. Tem o aspecto lúdico da luta de classes e dos interesses antagônicos entre os que mandam nos meios de produção e os que dependem dos bens e direitos para sobreviverem.

Olha, amig@s, o filme poderia estrear hoje nos cinemas que seria atualíssimo para pensarmos o mundo e a vida. Incrível um roteiro que tenha envelhecido tão bem quanto esse do filme Robôs.

---


EU, ROBÔ (2004) - Direção: Alex Proyas. Inspirado em contos de Isaac Asimov. Com Will Smith, Brigdet Moynahan, Bruce Greenwood, Chi McBride, James Cromwell.

SINOPSE (DVD):

O superastro Will Smith declara guerra às máquinas neste inesquecível suspense de ficção científica que se desenrola em meio à ação alucinante! Quando um importante cientista é encontrado morto, o detetive Del Spooner (Smith), que odeia robôs, desconfia que um avançado modelo de robô é o culpado pelo assassinato. No entanto, de acordo com as Três Leis da Robótica, um robô é incapaz de machucar um humano... mas algumas regras foram feitas para serem quebradas! Brigdet Moynahan co-estreia esta história futurística de suspense que nos leva a questionar se a tecnologia levará o ser humano à salvação... ou à extinção.

COMENTÁRIO:

Duas cenas no filme são bem interessantes para reflexão:

Numa delas, o protagonista - detetive Del Spooner - relembra um episódio doloroso do passado no qual ele ordenou a um robô que salvasse uma garota em um acidente no qual ele também estava envolvido. O robô seguiu a "lógica" e salvou a pessoa que tinha 45% de chances de sobreviver, enquanto a outra tinha 11%. A "lógica" prevalece porque a máquina não pensa, não tem sentimentos, não tem coração. Ela é só um programa.

Na outra cena, o detetive Spooner faz uma pergunta ao robô que se autodenominou Sonny em um interrogatório se ele seria capaz de criar uma música clássica ou de fazer um desenho criado por si, na tentativa de humilhar ou reduzir Sonny à sua condição de máquina e Sonny simplesmente devolve a pergunta a Spooner, deixando ele desconcertado: - você é capaz de fazer uma música clássica ou um desenho?

Daí vemos a importância de se saber fazer as perguntas certas para as mais diversas situações. Pergunta e resposta certa é um dos enigmas que o holograma do Dr. Alfred Lanning, cientista morto, deixa ao seu amigo Spooner.

Sobre perguntas e respostas, nunca me esqueci da lição do professor de química Glicério, quando eu tinha uns doze ou treze anos, na qual ele dizia que os alunos deveriam ler as perguntas com atenção, mais de uma vez, porque muitas vezes a resposta já está indicada na pergunta. Se a pergunta diz qual, quem, o que, como, quando, onde etc, o aluno não vai escolher uma alternativa que não tenha relação com esse pronome interrogativo. Tem uma lógica nisso.

Voltando ao filme, o enredo é uma boa oportunidade ainda hoje, duas décadas depois, para refletirmos sobre a questão da Inteligência Artificial (IA), que evoluiu drasticamente no preenchimento do cotidiano do mundo em 2025. E até um filme como esse é capaz de apontar aquilo que os neurocientistas sérios nos alertam: que IA não é nem inteligente, nem artificial, são programas baseados em dados e velocidade de processamento.

Foi bom rever o filme. Ele tem umas pegadas (sacadas) bem legais!

---

COMENTÁRIO FINAL

Esses filmes são bons demais para seres revistos e abrir reflexões sobre o passado, o presente e o futuro da espécie humana e do planeta Terra. Valem a pena!

Para ler outras postagens sobre filmes, é só clicar aqui e ver a anterior desta série.

William