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quinta-feira, 20 de junho de 2019

Marx explica o dinheiro em 'O Capital'





Refeição Cultural

Confesso que sempre que abro o livro O Capital e começo a leitura neste momento da minha vida, da história do Brasil e da história do mundo, fico me perguntando qual o sentido disso, sendo que os livros clássicos da literatura mundial continuam me esperando, e o meu tempo de existência vai passando sem que eu leia mais alguns clássicos que marcaram a história das artes literárias.

Eu não sei ao certo por que não aproveito cada minuto que ainda tenho e foco em ler o que desejo há décadas. Talvez esteja comprometido para sempre com o engajamento político que tive nas últimas duas décadas com o movimento sindical, social e político nas lutas por um mundo mais justo e solidário, e isso me force a estar sempre engajado em algo, nem que seja leituras políticas que nos façam compreender por que as coisas são como são, por que deu tudo errado no Brasil, por que o povo decidiu pelo suicídio coletivo ao escolher degenerados e lesas-pátrias para governar o país após tantos avanços com os governos democráticos e progressistas do Partido dos Trabalhadores.

Eu tenho consciência que estou perdido, que estou sem rumo, que as coisas perderam o sentido para mim. O pior é ter perdido a esperança em ver o povo deixar de ser besta, alienado e tomar consciência de seu lugar e seu papel numa eventual mudança de rumo para o país, que neste momento se desfaz, enquanto o povo miserável e a ficar mais miserável ainda continua com a cara nas telas das redes sociais rolando as memes imbecilizantes tela acima, curtindo e replicando elas quando dizem o que cada um sente e pensa, independente da meme ser verdade ou não. Os humanos se perderam. O homo sapiens sapiens será extinto.

Enfim, feito o desabafo, vamos às explicações de Karl Marx sobre o dinheiro, pois são bem interessantes. Lembro aos leitores que procuro citar as falas dele mesmo, e emitir pouca opinião, ao molde de fichamento de leitura.


III. O DINHEIRO OU A CIRCULAÇÃO DAS MERCADORIAS (P. 119)

1. MEDIDA DE VALORES

Marx começa o capítulo combinando com o leitor que usará o ouro como mercadoria dinheiro para simplificar as explicações.

O ouro exercerá a função de medida universal dos valores e só por meio desta função, a mercadoria equivalente específica, se torna dinheiro.

Abaixo, citamos uma síntese básica do que isso significa, lembrando a questão central de que as mercadorias trazem em si o valor do trabalho humano.

"Não é através do dinheiro que as mercadorias se tornam comensuráveis. Ao contrário. Sendo as mercadorias, como valores, encarnação de trabalho humano e, por isso, entre si comensuráveis, podem elas, em comum, medir seus valores por intermédio da mesma mercadoria específica, transformando esta em sua medida universal do valor, ou seja, em dinheiro. O dinheiro, como medida do valor, é a forma necessária de manifestar-se a medida imanente do valor das mercadorias, o tempo de trabalho."

Depois Marx nos explica que "como forma do valor, o preço ou a forma dinheiro das mercadorias se distingue da sua forma corpórea, real e tangível. O preço é uma forma puramente ideal ou mental...".

No fundo, o trabalho humano está sempre presente no valor das mercadorias.

"O valor, ou seja, a quantidade de trabalho humano contida, por exemplo, numa tonelada de ferro, é expresso numa quantidade imaginária da mercadoria ouro, que encerra quantidade igual de trabalho."

DUAS FUNÇÕES DO DINHEIRO, SEGUNDO MARX

"Medida dos valores e estalão dos preços são duas funções inteiramente diversas desempenhadas pelo dinheiro. É medida dos valores por ser a encarnação social do trabalho humano; é estalão dos preços, por ser um peso fixo de metal. Como medida de valor, serve para converter os valores das diferentes mercadorias em preços, em quantidades imaginárias de ouro; como estalão dos preços, mede essas quantidades de ouro. A medida dos valores mensura as mercadorias como valores; o estalão dos preços, ao contrário, mede as quantidades de ouro segundo uma quantidade fixa de ouro, não o valor de uma quantidade de ouro segundo o peso de outra."

Estalão quer dizer padrão, medida (standard of value). Medida dos valores é measure of value.

Marx explica que uma variação no valor do ouro não traz nenhum prejuízo à sua função de estalão dos preços: "Por mais que varie o valor do ouro, quantidades determinadas de ouro mantêm entre si a mesma proporção de valor".

Uma onça de ouro terá sempre o mesmo peso, independente do valor do ouro. O mesmo ocorre como medida de valor das mercadorias, se sobe ou desce o valor do ouro, o efeito será sobre todas as mercadorias.

O filósofo segue explicando no capítulo os usos históricos da mercadoria dinheiro citando casos desde a antiga Roma até chegar ao padrão ouro.

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NOMES MONETÁRIOS - "Os preços, ou as quantidades de ouro em que se transformam, idealmente, os valores das mercadorias, são agora expressos nos nomes de moedas, ou seja, nos nomes legalmente válidos do padrão ouro. Em vez de dizer que uma quarta de trigo é igual a uma onça de ouro, diremos, na Inglaterra, que é igual a 3 libras esterlinas, 17 xelins e 10 e 1/2 pence. Assim, as mercadorias expressam com nomes monetários, o que valem, e o dinheiro serve de dinheiro de conta quando é mister fixar o valor de uma coisa em sua forma dinheiro."
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Marx vai finalizando essa parte do capítulo deixando claro que não adianta os governos quererem aumentar a riqueza de seus estados com artimanhas contábeis dizendo que seus capitais, suas moedas, valem mais do que valem.

"O nome de uma coisa é extrínseco às suas propriedades. Nada sei de um homem por saber apenas que se chama Jacó. Do mesmo modo, todo vestígio de relação de valor desaparece dos nomes das moedas libra, táler, franco, ducado etc. A confusão que decorre do sentido misterioso atribuído a esses símbolos cabalísticos torna-se maior por expressarem os nomes das moedas valor e, ao mesmo tempo, partes alíquotas de um peso de metal, de acordo com o padrão monetário..."

Nas notas explicativas, Marx ainda cita um autor do século XVII, Petty, ao fazer ironia sobre governos que querem enganar credores e o povo alterando artificialmente o valor de suas moedas: "Se a riqueza de uma nação pudesse ser decuplicada por ato governamental, seria de estranhar que os nossos governos não tivessem, há muito tempo, decretado atos com esse objetivo".

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Lembre-se: "O preço é a designação monetária do trabalho corporificado na mercadoria".
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PREÇO

Marx faz uma longa explicação sobre a questão do preço nas mercadorias.

"Se o preço, ao revelar a magnitude do valor da mercadoria, revela a relação de troca da mercadoria com o dinheiro, não decorre daí necessariamente a recíproca de que o preço, ao revelar a relação de troca da mercadoria com o dinheiro, revele a magnitude do valor da mercadoria"

Isso porque, por exemplo, "Trabalho socialmente necessário de igual grandeza cristaliza-se em 1 quarta de trigo e em 2 libras esterlinas (cerca de meia onça de ouro). As duas libras esterlinas são a expressão monetária da magnitude de valor de 1 quarta de trigo, ou seu preço. Admitamos que as circunstâncias elevem sua cotação a 3 libras esterlinas, ou compilam-na a cair a 1 libra; então, 1 libra esterlina é uma expressão demasiadamente baixa da magnitude do valor do trigo, e 3 libras, uma expressão alta demais, mas, apesar disso, são os preços do trigo, pois, primeiro, são sua forma de valor e, segundo, indicam sua relação de troca com o dinheiro. Não se alterando as condições de produção, em outras palavras, não se modificando a força produtiva do trabalho, deve-se continuar despendendo para a reprodução de uma quarta de trigo o mesmo tempo de trabalho social. Esta circunstância não depende da vontade do produtor do trigo, nem da dos outros donos de mercadorias. A magnitude do valor da mercadoria expressa uma relação necessária entre ela e o tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la, relação que é imanente ao processo de produção de mercadorias..."

Essa parte é importante para a compreensão do que Marx explica sobre a relação preço e valor das mercadorias. Por isso, é necessário citar o trecho todo. Segue:

"Com a transformação da magnitude do valor em preço, manifesta-se essa relação necessária através da relação de troca de uma mercadoria com a mercadoria dinheiro, de existência extrínseca à mercadoria com que se permuta. Nessa relação, pode o preço expressar tanto a magnitude do valor da mercadoria quanto essa magnitude deformada para mais ou para menos, de acordo com as circunstâncias. A possibilidade de divergência quantitativa entre preço e magnitude de valor, ou do afastamento do preço da magnitude de valor é, assim, inerente à própria forma preço. Isto não constitui um defeito dela, mas torna-a a forma adequada a um modo de produção em que a regra só se pode impor através de média que se realiza, irresistivelmente, através da irregularidade aparente."

HONRA E CONSCIÊNCIA TÊM PREÇO?

No fim, Marx fala até de coisas que, no modo de produção capitalista, podem receber preço, mesmo não tendo valor quantificável, como honra, consciência etc.

A questão vem bem a calhar para o momento em que vivemos.

É isso! Abraços aos leitores e leitoras.

William

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Post Scriptum: postagens anteriores sobre 'O Capital' estão aqui em ordem da mais recente para as mais antigas.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O Capital - Ainda o processo de troca (Marx)




Refeição Cultural


Na postagem anterior (ler AQUI) anotei alguns excertos do capítulo sobre o processo de troca. 

A leitura deste clássico O Capital está sendo feita na medida de minhas possibilidades e não tenho pressa em sua conclusão. É uma leitura de curiosidade pessoal. Não vou prestar contas a ninguém nem represento mais pessoas e meu blog tem hoje o papel inicial de compartilhar conhecimentos e opiniões com quem vier a visitá-lo.

Marx segue explicando a diferença do valor de uso e do valor das mercadorias no processo de troca: "Um objeto útil só poder se tornar valor de troca depois de existir como não valor de uso, e isto ocorre quando a quantidade do objeto útil ultrapassa as necessidades diretas do seu possuidor".

Para se trocar, alienar coisas, é necessário independência. Aquele que aliena coisas precisa ser proprietário delas, de forma independente em relação às coisas da comunidade em que está.

"As coisas são extrínsecas ao homem e, assim, por ele alienáveis. Para a alienação ser recíproca, é mister que os homens se confrontem, reconhecendo, tacitamente, a respectiva posição de proprietários particulares dessas coisas alienáveis e, em consequência, a de pessoas independentes entre si. Essa condição de independência recíproca não existe entre os membros de uma comunidade primitiva, tenha ela a forma de uma família patriarcal, de uma velha comunidade indiana ou de um estado inca etc. A troca de mercadorias começa nas fronteiras da comunidade primitiva, nos seus pontos de contato com outras comunidades ou com membros de outras comunidades..." (p.112)

Com o passar do tempo, começa-se a produzir as coisas para além da necessidade de seus valores de uso e com objetivo de troca.

"Na troca direta de produtos, cada mercadoria é, para seu possuidor, meio de troca; para seu não possuidor, equivalente, mas só enquanto for, para ele, valor de uso."

Conforme vão se avolumando a quantidade de produtores e de mercadorias a serem trocadas, gera-se a necessidade de uma mercadoria com equivalência geral naquele ambiente de trocas.

"Um intercâmbio em que os possuidores de mercadorias trocam seus artigos por outros diferentes, comparando-os, não poderia jamais funcionar se nele não houvesse determinada mercadoria eleita, pela qual se trocam as diferentes mercadorias de diferentes possuidores e com a qual se comparam como valores. Essa mercadoria especial, tornando-se o equivalente de outras mercadorias diferentes, recebe imediatamente, embora dentro de estreitos limites, a forma de equivalente geral ou social..."

A forma de equivalência geral vai ser determinada de acordo com cada ambiência social, poderia ser uma mercadoria destacada na comunidade como, por exemplo, gado.

Com o desenvolvimento das trocas de mercadorias, uma em especial se fixou nesse papel de equivalente geral: a forma dinheiro.

"Os povos nômades são os primeiros a desenvolver a forma dinheiro, porque toda a sua fortuna é formada por bens móveis, diretamente alienáveis, e seu gênero de vida os põe constantemente em contato com comunidades estrangeiras, induzindo-os à troca dos produtos."

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"Os homens, frequentes vezes, fizeram de seu semelhante, na figura do escravo, a primitiva forma dinheiro, mas nunca utilizaram terras para esse fim. Essa ideia só podia aparecer numa sociedade burguesa já desenvolvida."
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Ao final do capítulo, temos explicações sobre as propriedades naturais e as funções monetárias nos metais preciosos ouro e prata, que farão o papel de mercadoria na forma dinheiro.

"'Embora ouro e prata não sejam, por natureza, dinheiro, dinheiro, por natureza, é ouro e prata', conforme demonstra a coincidência entre suas propriedades naturais e suas funções monetárias".

DINHEIRO, MERCADORIA UNIVERSAL

"Sendo todas as mercadorias meros equivalentes particulares do dinheiro, e o dinheiro o equivalente universal delas, comportam-se elas em relação ao dinheiro, como mercadorias especiais em relação à mercadoria universal".

Mas Marx problematiza a seguir a questão do próprio valor da mercadoria na forma dinheiro.

"Sabe-se que ouro é dinheiro, sendo, portanto, permutável com todas as outras mercadorias, mas nem por isso se sabe quanto valem, por exemplo, 10 quilos de ouro. Como qualquer mercadoria, o dinheiro só pode exprimir sua magnitude de valor de modo relativo em outras mercadorias. Seu próprio valor é determinado pelo tempo de trabalho exigido para sua produção e expressa-se na quantidade (que cristalize o mesmo tempo de trabalho) de qualquer outra mercadoria."

O próximo capítulo vai seguir nas questões sobre o dinheiro e a circulação de mercadorias.

Para ler as postagens anteriores sobre O Capital é só clicar AQUI. A ordem será da mais recente para a mais antiga postagem.

Abraços aos leitores que leram esta postagem.

William

domingo, 5 de maio de 2019

O Capital - O processo de troca (Karl Marx)




Refeição Cultural

"O dinheiro é um cristal gerado necessariamente pelo processo de troca, e que serve, de fato, para equiparar os diferentes produtos do trabalho e, portanto, para convertê-los em mercadorias. O desenvolvimento histórico da troca desdobra a oposição, latente na natureza das mercadorias, entre valor de uso e valor..." (P. 111, O Capital)


Retomando a leitura de Marx, agora do capítulo dois de O Capital, que trata na primeira parte da mercadoria e dinheiro, vamos nos acostumando com o estilo do filósofo, que por vezes é bastante irônico ao descrever fatos e apresentar ideias. Ele chega a dar vida e voz às mercadorias em seus textos como se fossem personagens de um romance.

"Não é com seus pés que as mercadorias vão ao mercado, nem se trocam por decisão própria. Temos, portanto, que procurar seus responsáveis, seus donos..."

Marx nos lembra que as mercadorias são coisas; coisas com valores de uso e valores. Como mercadorias serão trocadas, alienadas mediante consentimento e vontade de seus proprietários, gerando relações econômicas e jurídicas.

"Os papéis econômicos desempenhados pelas pessoas constituem apenas personificação das relações econômicas que elas representam, ao se confrontarem."

Para o proprietário, sua mercadoria não tem valor de uso direto; ele a leva ao mercado e lá ela é valor de uso para o comprador. O valor de uso para o proprietário é o fato de sua mercadoria ser depositária de valor, meio de troca.

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"Todas as mercadorias são não valores de uso para os proprietários, e valores de uso, para os não proprietários."
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Mas como as mercadorias têm de mudar de mãos, elas têm de realizar-se como valores, antes de poderem realizar-se como valores de uso.

E também tem a questão do trabalho humano inserido no valor das mercadorias:

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"Só através da troca se pode provar que o trabalho é útil aos outros, que seu produto satisfaz necessidades alheias."
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Em relação à questão que já lemos no capítulo anterior, sobre valor relativo e valor equivalente, temos que:

"Todo possuidor de mercadoria considera cada mercadoria alheia equivalente particular da sua, e sua mercadoria, portanto, equivalente geral de todas as outras mercadorias."

Mas todos pensam assim, aí está o problema. Depois nos é explicado que "apenas a ação social pode fazer de determinada mercadoria equivalente geral".


ANTROPOMORFISMO - Marx brinca com características e aspectos humanos nas descrições sobre a mercadoria.

"Igualitária e cínica de nascença, está sempre pronta a trocar corpo e alma com qualquer outra mercadoria, mesmo que esta seja mais repulsiva do que Maritornes."

E aqui vemos quão culto era Karl Marx, ao citar cientistas, filósofos, economistas, escritores e personagens de obras clássicas. Ele cita uma personagem de Cervantes, do Dom Quixote de La Mancha.

Segundo a Wikipedia, Maritornes é uma personagem da obra que era "...ancha de cara, llana de cogote, de nariz roma, del un ojo tuerta y del otro no muy sana. Verdad es que la gallardía del cuerpo suplía las demás faltas: no tenía siete palmos de los pies a la cabeza, y las espaldas, que algún tanto le cargaban, la hacían mirar al suelo más de lo que ella quisiera."

Por fim, ao explicar a questão da equivalência, Marx explica o papel do dinheiro que citamos no epigrama que começa a postagem. Ele diz que os produtos do trabalho se convertem em mercadorias no mesmo ritmo em que determinada mercadoria se transforma em dinheiro.

Paro a postagem por aqui e retomamos depois. Para ler as anteriores, clique AQUI.

Abraços, 

William
Um leitor


sábado, 20 de abril de 2019

O Capital - Ainda o fetichismo da mercadoria no modo de produção capitalista



Refeição Cultural

"O reflexo religioso do mundo real só pode desaparecer quando as condições práticas das atividades cotidianas do homem representem, normalmente, relações racionais claras entre os homens e entre estes e a natureza. A estrutura do processo vital da sociedade, isto é, do processo da produção material, só pode desprender-se do seu véu nebuloso e místico no dia em que for obra de homens livremente associados, submetida a seu controle consciente e planejado. Para isso, precisa a sociedade de uma base material ou de uma série de condições materiais de existência, que, por sua vez, só podem ser o resultado natural de um longo e penoso processo de desenvolvimento." (Pág. 101, O Capital, Karl Marx, 1867 - o sublinhado é do blog)



Ao reler as quinze páginas da parte d'O Capital em que Marx fala do fetiche da mercadoria - "O fetichismo da mercadoria, seu segredo" -, a gente fica refletindo sobre um monte de coisas. (postagem anterior AQUI)


Outro dia, um colega de leituras me contou que na faculdade a turma dele estudou o ano todo O Capital e o professor disse aos alunos que entender a questão do fetichismo da mercadoria era algo importante. Me deu um certo alivio saber que o tema é espinhoso mesmo.


Os exemplos que Marx nos dá das diversas formas de produção material em determinadas sociedades ou comunidades baseadas na divisão social do trabalho, além da forma atual predominante, a do modo de produção capitalista, em que o objetivo da produção material é a produção de mercadorias, nos faz refletir que certos objetivos que perseguimos ao longo de nossa vida de representação e organização social da classe trabalhadora não são objetivos impossíveis, irreais ou utópicos; pelo contrário, são factíveis.


É possível nos organizarmos enquanto sociedade e enquanto seres livres de formas associativas e ou cooperativas para a produção material de tudo que necessitamos para nossa vida e respeitando a individualidade de cada participante daquele sistema social. É possível. Já foi prática comum de diversos povos e coletividades ao longo da história humana.


Num dos exemplos, a divisão social do trabalho se dá numa indústria patriarcal rural:


"Constitui um exemplo próximo a indústria patriarcal rural de uma família camponesa, que produz, para as próprias necessidades, trigo, gado, fio, tela de linho, peças de roupa etc. Essas coisas diversas são, para a família, produtos diversos do seu trabalho, mas não se confrontam entre si como mercadorias. As diferentes espécies de trabalho que dão origem a esses produtos - lavoura, pecuária, fiação, tecelagem, costura etc. - são, na sua forma concreta, funções sociais, por serem funções da família, que tem, como a produção de mercadorias, sua própria e espontânea divisão do trabalho. Diferenças de sexo e de idade e as condições naturais do trabalho, variáveis com as estações do ano, regulam sua distribuição dentro da família e o tempo que deve durar o trabalho de cada um de seus membros." (p. 99)


Noutro exemplo, Marx cita associativismo e cooperativismo de homens livres:

"Suponhamos, finalmente, para variar, uma sociedade de homens livres, que trabalham com meios de produção comuns e empregam suas múltiplas forças individuais de trabalho, conscientemente, como força de trabalho social. Reproduzem-se aqui todas as características do trabalho de Robinson (personagem Robinson Cruzoé, citado antes), com uma diferença: passam a ser sociais, ao invés de individuais. Todos os produtos de Robinson procediam de seu trabalho pessoal, exclusivo, e, por isso, eram, para ele, objetos diretamente úteis. Em nossa associação, o produto total é um produto social.  Uma parte desse produto é utilizada como novo meio de produção. Continua sendo social. A outra parte é consumida pelos membros da comunidade. Tem, portanto, de ser distribuída entre eles. O modo dessa distribuição variará com a organização produtiva da sociedade e com o correspondente nível de desenvolvimento histórico dos produtores..." (Pág. 100)


Reflexões

Vejam, amig@s leitores, tanto nesta citação acima, quanto na primeira que fiz como epígrafe da postagem, temos uma referência à palavra "desenvolvimento". Lembrei-me de nosso lema no movimento dos trabalhadores brasileiros durante os governos democráticos e populares de Lula e o 1º de Dilma, pouco tempo atrás, quando defendíamos o "desenvolvimento com distribuição de renda".

Níveis de desenvolvimento e condições de produção material de uma determinada sociedade são fatores importantes para a definição de que tipo de sociedade humana queremos para nós. 

Na epigrafe que citei, Marx fala em "relações racionais entre homens", inclusive racional em relação à natureza (pensem na questão contemporânea da sustentabilidade!); ele chama o processo de produção material de "vital"; ainda em relação ao processo da produção material Marx nos lembra da necessidade da livre associação entre os homens para tal; por fim, afirma a necessidade de um processo de desenvolvimento para se alcançar uma base material satisfatória.

Profundo, não?

A condição de produção material de uma sociedade tem influência sobre as diversas dimensões sociais dessa mesma sociedade. A situação de momento dos componentes de uma sociedade humana não é algo regido por leis naturais; as coisas não são como são porque têm que ser assim (por exemplo: má distribuição de bens e renda). A condição de momento dos componentes de uma sociedade não é como a lei da gravidade ou qualquer outra das ciências físicas, químicas e da natureza.

Nós somos o reflexo do mundo em que vivemos. Mas nós podemos alterar o mundo em que vivemos para sermos novamente reflexo daquele mundo novo em que vivemos.

As produções materiais das sociedades humanas ao longo da história da humanidade não tiveram como objetivo serem mercadorias como no modelo de produção capitalista, dentro do que Marx explica como valores de uso e valores de troca.

Com o avançar da leitura de O Capital, espero que vá ficando cada vez mais claro aquilo que já aprendi ao longo da existência como algo que não favorece a nossa vida de trabalhadores: os bens da nossa produção humana serem tratados como mercadorias.

Não é correto saúde ser tratada como mercadoria; educação ser tratada como mercadoria; direitos elementares à existência dos seres humanos serem tratados como mercadorias. Isso não é correto!


Síntese da reflexão

A produção material e a divisão social do trabalho em uma coletividade humana (com laços comuns como uma determinada nação, um Estado, uma sociedade) não precisam estar organizadas na forma capitalista de produção de mercadorias para suprir as necessidades humanas.

É isso, por enquanto!

William
Um leitor


Post Scriptum:

As postagens anteriores sobre a leitura de O Capital podem ser acessadas AQUI.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Marx - O fetichismo da mercadoria




Refeição Cultural

Com este tema do fetichismo da mercadoria, estou fechando a leitura do primeiro capítulo do volume I de O Capital, Crítica da Economia Política (1867). 

A minha leitura deste clássico não é apressada e o importante é o esforço para compreender o ensinamento de Marx. Não à toa, peguei o livro nestes dias e reli as 90 páginas que já havia lido.

Por curiosidade, assisti também ao filme O jovem Karl Marx (2017), com direção de Raoul Peck. Gostei do filme. Vale a pena ver.

Enfim, hoje sei um pouco mais sobre Marx e O Capital do que sabia meses atrás. Minha compreensão dos conceitos de valor de uso, valor de troca e mercadoria no modo de produção capitalista é melhor do que antes. Então, estou menos ignorante no tema. Isso é bom.

Vejam, vendo pelo índice, ainda me falta mais de uma centena de páginas para chegar ao tema da mais-valia. É mole? Após estudar sobre a "Mercadoria", agora vem "O processo de troca", depois vários tópicos sobre "Dinheiro"; a segunda parte vai falar da transformação do dinheiro em capital e só na terceira parte virá o tema da mais-valia.

Repito o que já disse em outras postagens sobre esta leitura de O Capital: não posso dizer que sou marxista, pois não tenho embasamento para isso. As postagens são como fichamentos de leitura, eu transcrevo trechos do próprio autor, faço as citações. É para estudo e releituras rápidas. O que não me impediu de ler quase 100 páginas de novo.

Amig@s leitores, posso dizer que vale a pena comprar o livro, é barato, e compensa sair do mundo das fake news e ler algumas horas por semana obras clássicas como essa. No mínimo não se perde nada e, por outro lado, pode-se ganhar muito com o conhecimento novo.

Isso sim seria uma forma de saber algo para não ser um idiota, parafraseando um sujeito que se diz astrólogo e filósofo, e que faz sucesso por escrever bobagens sem pé nem cabeça e enganar zilhões de desavisados por aí.

Leiam as obras clássicas, obras que influenciaram o pensamento mundial ao longo do desenvolvimento das sociedades. É o que penso.

William
Um leitor


O FETICHISMO DA MERCADORIA: SEU SEGREDO

Segundo Marx, a mercadoria tem um caráter misterioso. Em O Capital, já encontrei passagens descritas por ele de forma irônica, é bem interessante. Vejam essa, quando ele explica que uma mesa, após ser criada a partir da madeira, com trabalho humano, continua sendo de madeira:

"Mas, logo que se revela mercadoria, transforma-se em algo ao mesmo tempo perceptível e impalpável. Além de estar com os pés no chão, firma sua posição perante as outras mercadorias e expande as ideias fixas de sua cabeça de madeira, fenômeno mais fantástico do que se dançasse por iniciativa própria." (p. 93)

Em seguida, Marx reforça que não importa o tipo de mercadoria nem a habilidade humana que a produziu (tecelão, alfaiate etc), importa que as mercadorias são feitas por força de trabalho humano. E "Por fim, desde que os homens, não importa o modo, trabalhem uns para os outros, adquire o trabalho uma forma social".

Seguimos com o mistério das mercadorias: "A mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir as características sociais do próprio trabalho dos homens, apresentando-as como características materiais e propriedades sociais inerentes aos produtos do trabalho; por ocultar, portanto, a relação social entre os trabalhos individuais dos produtores e o trabalho total, ao refleti-la como relação social existente, à margem deles, entre os produtos do seu próprio trabalho". (p. 94)

O filósofo faz uma analogia entre a visão do olho e o que vemos, para nos mostrar que o olho reflete a imagem externa das coisas que vê para o nosso cérebro. E continua:

"Há uma relação física entre coisas físicas. Mas a forma mercadoria e a relação de valor entre os produtos do trabalho, a qual caracteriza essa forma, nada têm a ver com a natureza física desses produtos nem com as relações materiais dela decorrentes."

Marx nos explica que o produto do trabalho humano - mercadoria no modo de produção capitalista -, ganha uma espécie de autonomia que não lhe caberia porque as relações deveriam ser entre os homens e não entre as coisas:

"Uma relação social definida, estabelecida entre os homens, assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas. Para encontrar um símile, temos de recorrer à região nebulosa da crença. Aí, os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria, figuras autônomas que mantêm relações entre si e com os seres humanos. É o que ocorre com os produtos da mão humana, no mundo das mercadorias. Chamo a isso de fetichismo, que está sempre grudado aos produtos do trabalho, quando são gerados como mercadorias. É inseparável da produção de mercadorias." (p. 94)

O filósofo nos informa que o conjunto dos trabalhos particulares forma a totalidade do trabalho social. "Em outras palavras, os trabalhos privados atuam como partes componentes do conjunto do trabalho social, apenas através das relações que a troca estabelece entre os produtos do trabalho e, por meio destes, entre os produtores".

Nesse modelo de produção para troca temos: "relações materiais entre pessoas e relações sociais entre coisas, e não como relações sociais diretas entre indivíduos em seus trabalhos".

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"A igualdade completa de diferentes trabalhos só pode assentar numa abstração que põe de lado a desigualdade existente entre eles e os reduz ao seu caráter comum de dispêndio de força humana de trabalho, de trabalho humano abstrato." (p. 95)
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Marx escreve no século XIX, numa época em que várias áreas das ciências sequer existiam. Mesmo assim, ele é muito assertivo em suas afirmações. Vejam essa que ele faz a respeito da linguagem, muito antes das concepções da linguística:

"O valor não traz escrito na fronte o que ele é. Longe disso, o valor transforma cada produto do trabalho num hieróglifo social. Mais tarde, os homens procuram decifrar o significado do hieróglifo, descobrir o segredo de sua própria criação social, pois a conversão dos objetos úteis em valores é, como a linguagem, um produto social dos homens." (p. 96)


SEGREDO OCULTO

Marx segue analisando a mercadoria, o valor da mercadoria e as relações de troca.

"Nas eventuais e flutuantes proporções de troca dos produtos desses trabalhos particulares, impõe-se o tempo de trabalho socialmente necessário à sua produção, que é a lei natural reguladora (...) A determinação da quantidade do valor pelo tempo do trabalho é, por isso, um segredo oculto sob os movimentos visíveis dos valores relativos das mercadorias."


DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO NÃO É CRIAÇÃO DO CAPITALISMO

No início do livro O Capital, Marx já havia dito que a divisão social do trabalho não era uma criação do capitalismo, que, no entanto, precisa dela para a produção das mercadorias.

"No conjunto formado pelos valores de uso diferentes ou pelas mercadorias materialmente distintas, manifesta-se um conjunto correspondente dos trabalhos úteis diversos - classificáveis por ordem, gênero, espécie, subespécie e variedade -, a divisão social do trabalho. Ela é condição para que exista a produção de mercadorias, embora, reciprocamente, a produção de mercadorias não seja condição necessária para a existência da divisão social do trabalho." (p. 64, sublinhado meu)

Naquele momento, citou uma comunidade indiana como exemplo.

Nesta parte de considerações finais do capítulo I que trata da "Mercadoria" ele retoma vários conceitos. Aqui está falando a respeito de propriedades coletivas e trabalhos coletivos ou em comum.

"Constitui um exemplo próximo a indústria patriarcal rural de uma família camponesa, que produz, para as próprias necessidades, trigo, gado, fio, tela de linho, peças de roupa etc. Essas coisas diversas são, para a família, produtos diversos do seu trabalho, mas não se confrontam entre si como mercadorias. As diferentes espécies de trabalho que dão origem a esses produtos - lavoura, pecuária, fiação, tecelagem, costura etc. - são, na sua forma concreta, funções sociais, por serem funções da família, que tem, como a produção de mercadorias, sua própria e espontânea divisão do trabalho. Diferenças de sexo e de idade e as condições naturais do trabalho, variáveis com as estações do ano, regulam sua distribuição dentro da família e o tempo que deve durar o trabalho de cada um de seus membros." (p. 99)


PARA OS BURGUESES SÓ HÁ UM MODO CORRETO DE PRODUÇÃO: O DELES

Ainda nestas páginas finais do capítulo, em que Marx faz avaliações diversas - econômicas, políticas, históricas etc -, gostei desta nota que cito abaixo, tirada de sua obra de resposta à obra de Proudhon:

"Os economistas têm uma maneira de proceder singular. Para eles só há duas espécies de instituições, as artificiais e as naturais. As do feudalismo são instituições artificiais; as da burguesia, naturais. Equiparam-se, assim, aos teólogos, que classificam as religiões em duas espécies. Toda religião que não for a sua é uma invenção dos homens; a sua é uma revelação de Deus - Desse modo, havia história, mas, agora, não há mais." (nota 33, p. 103)


COM A PALAVRA, AS MERCADORIAS

O capítulo termina com as mercadorias dando a opinião delas, diante de tantas questões que Marx coloca para serem respondidas por burgueses e seus economistas e seguidores.

O filósofo fecha assim a questão do fetichismo da mercadoria:

"Sem maior avanço nesta análise, limitamo-nos a ilustrar com mais alguns elementos o fetichismo da mercadoria. Se as mercadorias pudessem falar, diriam: 'Nosso valor de uso pode interessar aos homens. Não é nosso atributo material. O que nos pertence como nosso atributo material é nosso valor. Isto é o que demonstra nosso intercâmbio como coisas mercantis. Só como valores de troca estabelecemos relações umas com as outras'." (p. 104)


Post Scriptum:

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sexta-feira, 5 de abril de 2019

A honestidade de Marx em O Capital




Refeição Cultural

"13 'Todos os fenômenos do universo, provocados pela mão do homem ou pelas leis gerais da física, não constituem, na realidade, criações novas, mas apenas transformação da matéria. Associação e dissociação são os únicos elementos que o espírito humano acha ao analisar a ideia de produção; o mesmo ocorre com a produção do valor' (valor de uso, embora o próprio Verri, nessa polêmica com os fisiocratas, não saiba claramente de que valor está falando) 'e da riqueza, quando a terra, o ar e a água transformam-se, nos campos, em trigo, ou quando, pela intervenção do homem, a secreção de um inseto se transforma em seda, ou diversas peças de metal se ordenam para formar um despertador.' (Pietro Verri, Meditazioni sulla economia política, impresso, primeiro, em 1771, na edição dos economistas italianos, de Custodi, parte moderna, v. XV, pp. 21 e 22)"

(Exemplo de exatidão com que Marx faz citações e dá aos autores citados o devido crédito, e de como ele faz a crítica técnica e científica - na citação acima entre parênteses - em relação a eventual juízo de valor que faça da citação, se for o caso)


Estou lendo o volume 1 da obra máxima de Karl Marx, O Capital. Por diversas questões em minha existência de trabalhador, só agora aos 50 anos de idade pude encarar com atenção a leitura desse clássico.

Já li alguns clássicos da produção humana ao longo de minha vida, a maior parte deles pertencentes a área da literatura. Livros como Ulisses, de James Joyce, Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes, A Montanha Mágica, de Thomas Mann, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e outros mais.

O mundo em que vivo - o Brasil no ano 2019 - passa por um momento dramático em sua história. Talvez o mundo que conhecemos há décadas ou séculos (pela leitura da História) nunca mais seja o mesmo depois do momento em que vivemos. O planeta Terra também vive momentos dramáticos e definidores sobre o futuro da vida humana.

A realidade passou a ser definida ou a ter grande influência da pós-verdade. Estamos numa época em que as versões sobre as coisas, a partir de pessoas ou setores com capacidade operativa, superam os fatos objetivos; a mentira passou a se sobrepor à verdade por força das ferramentas tecnológicas da atualidade.

As também chamadas fake news, mentiras divulgadas como informação verdadeira, passaram a ter efeito por causa de uma certa robotização dos seres humanos, transformados em seres interconectados por aparelhos pessoais que permitem a manipulação de grande massa de humanos até por sistemas robotizados de produção de mentiras. 

O comportamento humano é manipulável a partir de agora - manipulável em escala. Os limites e alcance disso ainda são desconhecidos, mas são incalculáveis os riscos para a existência humana em sociedade.


MARX: UM ESCRITOR ATENTO À LINGUAGEM E ÀS REFERÊNCIAS

É nesse contexto de pós-verdade do século XXI que leio com surpresa Karl Marx, que escreveu por décadas ao longo do século XIX, falecendo em 1883. Ele já publicava textos profundos nos anos quarenta daquele século e publicou O Capital em 1867, com edições revistas e melhoradas, publicadas na Alemanha, França, e depois Inglaterra e Estados Unidos (já sob responsabilidade de Engels). 

Impressiona nos prefácios às edições de 1867, 1873, 1883 e 1890 (em alemão), e na edição francesa entre 1872 e 1875, e ainda na edição de 1886 em inglês, e também pelas cem páginas que já li, o quanto Marx é cuidadoso em seu compromisso com a verdade, com a citação de fatos que descreve (com as devidas fontes) e com as opiniões que emite a partir de seus estudos; vemos o quanto é fiel nas citações de temas e seus autores originais. Sua honestidade intelectual é cativante ao leitor destes tempos de mentiras.

Quando ele critica um autor, ele é claro nisso, quando enaltece outro, o faz da mesma forma. E ainda buscou melhorar a linguagem discursiva nas edições posteriores num esforço de seu trabalho científico e extremamente técnico se tornar acessível aos trabalhadores comuns.

De onde brota tanto ódio e desinformação a respeito deste filósofo e cientista político e sua obra? As pessoas são influenciadas a odiarem Karl Marx ou a se dizerem marxistas ou antimarxistas sem nunca terem lido uma linha de suas obras.

Por fim, dá certo desânimo pensar objetivamente no alcance obtido por grandes autores de ontem e de hoje, em relação ao público leitor ou ouvinte. Quantas pessoas liam as obras dos séculos passados? Quantas leem hoje? Machado de Assis, por exemplo, escrevia no Rio de Janeiro para um possível público leitor de alguns milhares no final do século passado. 

Grandes pensadores e escritores da atualidade conseguem algumas dezenas de milhares de receptores (leitores e espectadores), enquanto alguns vídeos com cem por cento de fake news atingem dezenas de milhões de receptores.

É com isso que lidamos hoje!

William


Post Scriptum:

Publicações sobre minha leitura de O Capital - clicar AQUI.

domingo, 31 de março de 2019

Marx: a forma geral do valor das mercadorias




Refeição Cultural

"As mercadorias só encarnam valor, na medida em que são expressão de uma mesma substância social, o trabalho humano." (Karl Marx, O Capital)


A) A FORMA SIMPLES, SINGULAR OU FORTUITA DO VALOR

x da mercadoria A = y da mercadoria B, ou

x da mercadoria A vale y da mercadoria B

20 metros de linho = 1 casaco, ou

20 metros de linho valem 1 casaco


B) FORMA TOTAL OU EXTENSIVA DO VALOR

z da mercadoria A = u da mercadoria B, ou = v da mercadoria C, ou = w da mercadoria D, ou = x da mercadoria E, ou = etc.

(20 metros de linho = 1 casaco, ou = 10 quilos de chá, ou = 40 quilos de café, ou = 1 quarta de trigo, ou = 2 onças de ouro, ou = 1/2 tonelada de ferro, ou = etc.)


A forma extensiva do valor relativo

"O valor de uma mercadoria, do linho, por exemplo, está agora expresso em inúmeros outros elementos do mundo das mercadorias. O corpo de qualquer outra mercadoria torna-se o espelho onde se reflete o valor do linho."

Marx nos explica que desse modo se revela a massa de trabalho humano homogêneo e que por isso não importa a forma corpórea assumida pelo trabalho, seja ela qual for, casaco, trigo, ferro, ouro etc.

E completa dizendo que "ao valor não importa a forma específica do valor de uso em que se manifesta".

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"Não é a troca que regula a magnitude do valor da mercadoria, mas, ao contrário, é a magnitude do valor da mercadoria que regula as relações de troca."
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A forma de equivalente particular

Cada mercadoria, casaco, chá, trigo, ferro etc, é considerada equivalente na expressão do valor do linho e, portanto, encarnação de valor, afirma Marx.

Além disso, as variadas espécies de trabalho contidas nas mercadorias são trabalho humano em geral.


Defeitos da forma total ou extensiva do valor

A cadeia de equivalência não terminaria nunca porque sempre vai haver uma nova mercadoria. Falta uma forma unitária de manifestação do trabalho humano. Marx cita outros defeitos dessa forma.


A forma geral do valor

1 casaco                       =   |
10 quilos de chá           =   |
40 quilos de café          =   |
1 quarta de trigo          =   |
2 onças de ouro            =   |   20 metros de linho
1/2 tonelada de ferro   =   |
x de mercadoria A         =   |
etc. mercadoria             =   |


Mudança do caráter da forma do valor na expressão acima:

Marx nos explica que diferente das formas anteriores, as mercadorias expressam, agora, seus valores (1) de maneira simples, isto é, numa única mercadoria e (2) de igual modo, isto é, na mesma mercadoria. É uma forma de valor simples, comum a todas as mercadorias, portanto, geral.

VALORES DE TROCA

"(...) o valor de cada mercadoria, igualado ao linho, se distingue não só do valor de uso dela mas de qualquer valor de uso, e justamente por isso se exprime de maneira comum a todas as mercadorias. Daí ser esta a forma que primeiro relaciona as mercadorias como valores, umas com as outras, fazendo-as revelarem-se, reciprocamente, valores de troca."

O filósofo nos mostra que "a realidade do valor das mercadorias só pode ser expressa pela totalidade de suas relações sociais, pois essa realidade nada mais é que a 'existência social' delas, tendo a forma do valor, portanto, de possuir validade social reconhecida".

EQUIVALÊNCIA GERAL

A forma geral do valor relativo do mundo das mercadorias imprime à mercadoria eleita equivalente, o linho, o caráter de equivalente geral. No exemplo que Marx nos dá fica bem claro isso.

10 quilos de chá = 20 metros de linho
40 quilos de café = 20 metros de linho
logo
10 quilos de chá = 40 quilos de café
1 quilo de café = 1/4 da substância do valor, o trabalho, contida em 1 quilo de chá

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"Considera-se sua forma corpórea (o linho) a encarnação visível, a imagem comum, social, de todo trabalho humano. O trabalho têxtil, o trabalho privado que produz linho, ostenta, simultaneamente, forma social, a forma de igualdade com todos os outros trabalhos. As inumeráveis equações em que consiste a forma geral de valor equiparam, sucessivamente, ao trabalho contido no linho qualquer trabalho encerrado em outra mercadoria e convertem, portanto, esse trabalho têxtil em forma geral de manifestação do trabalho humano sem mais qualificações."
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Para finalizar essa parte da explicação acima, vem o complemento da lição de Marx em suas palavras:

"Assim, o trabalho objetivado no valor da mercadoria é representado não só sob o aspecto negativo em que se põem de lado todas as formas concretas e propriedades úteis dos trabalhos reais; ressalta-se, agora, sua própria natureza positiva. Ele é, agora, a redução de todos os trabalhos reais a sua condição comum de trabalho humano, de dispêndio de força humana de trabalho."

A conclusão deste ponto é que a forma geral do valor, que torna os produtos do trabalho mera massa de trabalho humano sem diferenciações, mostra, através de sua própria estrutura, que é a expressão social do mundo das mercadorias. 


Desenvolvimento mútuo da forma relativa do valor e da forma de equivalente

Marx explica cada uma das formas acima e as limitações delas. A terceira forma, proporciona ao mundo das mercadorias forma relativa generalizada e social do valor, por estarem e enquanto estiverem excluídas todas as mercadorias, com exceção de uma única, da forma equivalente geral.


Transição da forma geral do valor para a forma dinheiro

Estando uma mercadoria na forma de equivalente geral (forma C acima, o linho) ela pode ser considerada como mercadoria-dinheiro.

"Então, mercadoria determinada, com cuja forma natural se identifica socialmente a forma equivalente, torna-se mercadoria-dinheiro, funciona como dinheiro. Desempenhar o papel de equivalente universal torna-se sua função social específica, seu monopólio social, no mundo das mercadorias."

Terminando essa parte C da forma geral do valor das mercadorias, Marx vai entrar na próxima parte D, na forma dinheiro de valor, que fica para a próxima postagem.

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COMENTÁRIO FINAL

Estou terminando a parte I que trata da "Mercadoria" para entrar em seguida da parte II que trata de "O processo de troca".

Aos poucos, estamos vencendo a primeira centena de páginas dos estudos de Marx sobre O Capital.

Volto a dizer que estou postando literalmente trechos da obra de Marx para não incorrer em interpretações equivocadas de seus ensinamentos. Não sou marxista, não sou estudioso de Marx, no momento sou leitor da obra O Capital.

Mergulhar em leituras e estudos tem sido uma forma de buscar manter a sanidade num mundo de trumps e bolsonaros. Não podemos deixar a perplexidade e a tristeza nos levar para o buraco. Temos que resistir, e estudar é uma forma de resistência.

Leitura é uma forma de resistência! Por isso passei horas deste domingo 31 de março com a atenção nos ensinamentos de Marx.

É isso.

William
Um leitor


Post Scriptum:

A postagem anterior está AQUI e dela se vai para as anteriores.


sexta-feira, 22 de março de 2019

Marx: a forma relativa do valor da mercadoria e a forma equivalente




Refeição Cultural

"É curioso o que sucede com essas conceituações reflexas. Um homem, por exemplo, é rei porque outros com ele se comportam como súditos. Esses outros acreditam que são súditos, porque ele é rei." (Marx, em "O Capital")


Comprei semanas atrás o primeiro volume do livro O Capital - Crítica da Economia Política, de Karl Marx. Penso que teria sido mais proveitoso estudar esta obra clássica do pensamento humano em outra época, enquanto era um representante do meio social em que vivia. Agora, a leitura é mais por curiosidade.

Nesta obra, nos é informado no sumário que vamos ler sobre o "processo de produção do capital". A primeira parte do volume 1 nos apresenta o tema "Mercadoria e Dinheiro". Estou lendo sobre a mercadoria. 

Para mim, a leitura está sendo trabalhosa, talvez por dificuldade intelectual de minha parte. Além disso, leio várias coisas ao mesmo tempo, de maneira que estudo numa sentada algumas páginas de Marx e volto ao livro dias depois. 

No entanto, é inevitável perguntar a mim mesmo neste momento de minha existência: ler ou não ler Marx? Para não desanimar, fico com a lembrança de um texto que estudei no passado sobre ler ou não ler os clássicos e a resposta do autor para a questão era: é melhor ler do que não ler os clássicos.

Foi baseado nesse estímulo acima, que passei algumas horas com Marx neste dia.


A FORMA DO VALOR OU O VALOR DE TROCA

"As mercadorias vêm ao mundo sob a forma de valores de uso, de objetos materiais, como ferro, linho, trigo etc. É a sua forma natural, prosaica. Todavia, só são mercadorias por sua duplicidade, por serem ao mesmo tempo objetos úteis e veículos de valor. Por isso, patenteiam-se como mercadorias, assumem a feição de mercadoria, apenas na medida em que possuam dupla forma, aquela forma natural e a de valor."

E Marx nos recorda que as mercadorias só encarnam valor na medida em que são expressões de uma mesma substância social, o trabalho humano. Ele nos fala sobre um certo valor escondido: "Partimos do valor de troca ou da relação de troca das mercadorias, para chegar ao valor aí escondido".

Os estudos dessa temática vão elucidar a gênese da forma dinheiro do valor.

Todo o trecho que li faz as explanações baseado na fórmula abaixo:


A FORMA SIMPLES, SINGULAR OU FORTUITA DO VALOR

x da mercadoria A = y da mercadoria B, ou

x da mercadoria A vale y da mercadoria B

20 metros de linho = 1 casaco, ou

20 metros de linho valem 1 casaco


OS DOIS POLOS DA EXPRESSÃO DO VALOR: A FORMA RELATIVA DO VALOR E A FORMA DE EQUIVALENTE

"O valor da primeira mercadoria apresenta-se como valor relativo; ela se encontra sob a forma relativa do valor. A segunda mercadoria tem a função de equivalente ou se acha sob a forma de equivalente."

O valor do linho só pode ser expresso relativamente, em outra mercadoria.

Mais adiante o autor nos explica como identificar em que forma a mercadoria se encontra:

"Para saber se uma mercadoria se encontra sob a forma relativa do valor ou sob a forma oposta, a de equivalente, basta reparar a posição que ocasionalmente ocupa na expressão do valor, se é a mercadoria cujo valor é expresso ou se é mercadoria através da qual se expressa o valor."


A FORMA RELATIVA DO VALOR

O filósofo nos lembra que para comparar quantitativamente duas coisas diferentes é preciso convertê-las antes em uma mesma coisa: somente como expressões de uma mesma substância são grandezas homogêneas, por isso, comensuráveis.

"(...) é necessário admitir, simultaneamente, que linho e casacos, como grandezas de valor, são expressões de uma mesma coisa, ou coisas da mesma natureza. Linho = casaco é o fundamento da equação."

E segue:

"Nessa relação, o casaco representa a forma de existência do valor, é a figura do valor, pois somente nessa qualidade é idêntico ao linho..."


TRABALHO HUMANO CRISTALIZADO

"Ao dizermos que, como valores, as mercadorias são trabalho humano cristalizado, nossa análise as reduz a uma abstração, a valor, mas não lhes dá forma para esse valor, distinta de sua forma física."

No valor das mercadorias está contida a força humana de trabalho, tanto do tecelão do linho quanto do alfaiate dos casacos, neste sob a forma concreta e naquele sob a forma abstrata de trabalho humano (na equação 20 metros de linho = 1 casaco).

Duas citações deixam isso evidente para nós:

- "Só a expressão da equivalência de mercadorias distintas põe à mostra a condição específica do trabalho criador de valor, porque ela realmente reduz à substância comum, a trabalho humano, simplesmente, os trabalhos diferentes incorporados em mercadorias diferentes."

- "A força humana de trabalho em ação ou o trabalho humano cria valor, mas não é valor. Vem a ser valor, torna-se valor, quando se se cristaliza na forma de um objeto. Para expressar o valor do linho como massa de trabalho humano, temos de expressá-la como algo que tem existência material diversa da do próprio linho e, ao mesmo tempo, é comum a ele e a todas as outras mercadorias."

Marx nos diz que o valor da mercadoria linho está expresso pelo corpo da mercadoria casaco, o valor de uma mercadoria pelo valor de uso da outra.

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"Por meio da relação de valor, a forma natural da mercadoria B torna-se a forma do valor da mercadoria A, ou o corpo da mercadoria B transforma-se no espelho do valor da mercadoria A. Ao relacionar-se com a mercadoria B como figura do valor, materialização de trabalho humano, a mercadoria A faz do valor de uso B o material de sua própria expressão de valor. O valor da mercadoria A, ao ser expresso pelo valor de uso da mercadoria B, assume a forma relativa."
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Antes de entrar no ponto da forma equivalente, as páginas seguintes discorreram sobre a questão dos efeitos da produtividade na confecção das mercadorias.


A FORMA EQUIVALENTE

"Já vimos que a mercadoria A (o linho) ao exprimir seu valor por meio do valor de uso de mercadoria diferente, a mercadoria B (o casaco), imprime a esta última forma de valor peculiar, a forma de equivalente. O linho revela sua condição de valor, ao igualar-se ao casaco, sem que este adote uma forma de valor diferente de sua forma corpórea. Na realidade, o linho expressa sua própria condição de valor por ser o casaco por ele diretamente permutável. Assim, a mercadoria assume a forma de equivalente, por ser diretamente permutável por outra."

Na forma de equivalente, o valor de uso se torna a forma de manifestação do seu contrário, ou seja, do valor.

Marx explica que não podendo a mercadoria transformar seu próprio corpo em expressão de seu próprio valor, tem ela de relacionar-se com outra mercadoria, considerada equivalente, ou seja, fazer da figura física de outra mercadoria sua própria forma de valor.

E nos fala sobre o valor de troca: "(...) Em outras palavras, o valor de uma mercadoria assume expressão fora dela, ao manifestar-se como valor de troca".

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"Examinando mais de perto a expressão do valor da mercadoria A, contida na sua relação de valor com a mercadoria B, vimos que, dentro do seu domínio, se considera a forma natural da mercadoria A figura de valor de uso, e a forma natural de mercadoria B apenas forma de valor. A contradição interna, oculta na mercadoria, entre valor de uso e valor, patenteia-se, portanto, por meio de uma oposição externa, isto é, através da relação de duas mercadorias, em que uma, aquela cujo valor tem de ser expresso, figura apenas como valor de uso, e a outra, aquela na qual o valor é expresso, é considerada mero valor de troca. A forma simples do valor de uma mercadoria é, por conseguinte, a forma elementar de manifestar-se a oposição nela existente, entre valor de uso e valor."
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ALÉM DA DÚVIDA DO LER OU NÃO LER, A DO ESCREVER OU NÃO

A próxima parte da leitura, vai abordar ainda a forma total ou extensiva do valor, a forma de equivalente particular, defeitos da forma total ou extensiva do valor, forma geral do valor, até chegar na transição da forma geral do valor para a forma dinheiro do valor.

Além da dúvida deste leitor que vos fala, sobre ler ou não ler Marx, ainda fica outra dúvida tão difícil quanto a primeira: escrever ou não escrever a respeito do que leio? 

Escrevi por mais de uma década no blog. O ato de escrever exige muita disciplina e esforço. Por outro lado, o esforço ao escrever gera aprendizagem e memorização por reflexão naquele que escreve.

Talvez por isso ainda escreva alguma coisa aqui no blog nesta altura dos acontecimentos e mudanças sociais no meu mundo.

Abraços aos leitores que por aqui passarem.

William


Post Scriptum:

As demais postagens sobre O Capital estão disponíveis a partir da anterior (AQUI).