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sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Uma prova de Literatura Portuguesa
Refeição Cultural
Se me perguntassem se estou preparado para a prova de Literatura Portuguesa de hoje, teria que dizer que sim e que não.
Não estou com o conteúdo da matéria lido e absorvido. É fato. Perdi várias aulas por causa do meu trabalho sindical; não consegui fôlego e tempo para ler vários textos críticos; pior, não li um dos livros obrigatórios, o de Lobo Antunes - Os cus de Judas (1979).
Mas mesmo faltando tanto conteúdo, aprendi alguns conceitos interessantes nesta semana. No mínimo, o estudo aguçou minha curiosidade e interesse em vários temas e autores: Neo-Realismo Português, Fernando Pessoa, António Lobo Antunes, Maria Alzira Seixo, Carlos Reis, a fascinante Literatura Portuguesa, a história de Portugal e, por paixão já sentida, a obra e a vida de José Saramago.
Mas o que é uma prova? É um misto de postar conteúdos com uma boa escrita e reflexão acerca do pedido temático feito. É alinhavar coisas.
Pode ser que eu não me saia bem nisso hoje, mas tudo bem! É como venho refletindo já faz tempo. Entrei na faculdade de Letras e acabei indo ser sindicalista. Infelizmente, passei pelo curso. Não fiz o curso. Concluir ou não concluir já não faz diferença alguma para mim.
Lembrei-me de uma frase de Joana Carda, do romance A jangada de pedra de José Saramago, que fica martelando em minha cabeça, e já faz muito tempo!: "O que tem de ser, tem de ser, e tem muita força, não se pode resistir-lhe, mil vezes o ouvi à gente mais velha, Acredita na fatalidade, Acredito no que tem de ser".
É isso! O que tiver de ser, será.
Leitura de "A jangada de Pedra" - José Saramago
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| José Saramago |
Clássico de Literatura Portuguesa
- COMOVIDO, DECLARO MEU AMOR À LITERATURA!
Terminei neste instante, na madrugada de sexta-feira, a leitura d'A jangada de pedra.
O livro é surpreendente! A estória é fantástica! O autor é um gênio!
Quedei paralisado ao final do livro. Um turbilhão de excitação mental impera no momento.
Ao mesmo tempo que fico pensando nas possibilidades aludidas na ficção criada, fico pensando no meu mundo. Por que não fui lidar com a literatura como profissão? Por que não vou em busca de ler as dezenas de obras que sonho em conhecer (muitas delas descansam nas minhas estantes)? Por que não faço isso que tanto me muda, tanto me ensina, tanto me faz refletir acerca do mundo, da vida e do sentido de tudo?
Por que nunca fui o condutor deste veículo Vida? Devido às casualidades, aos acasos que atravessam os nossos caminhos todos os dias. Devido às coincidências...
O MUNDO TODO É DE COINCIDÊNCIAS
Se parasse para refletir sobre algumas citações deste narrador fabuloso do "relato" ocorrido com a Península Ibérica, poderia crer em sua mensagem: as coincidências movem o mundo, explicam o mundo, ou melhor, o mundo é feito de coincidências.
"E a simultaneidade dos factos também não deveria surpreender ninguém, foi apenas mais uma dessas coincidências que fazem a vida organizada do mundo, bom é que algumas possam ser claramente identificadas, uma vez por outra, para ilustração dos cépticos" p.266
Aproveitando as reflexões do narrador desta aventura ibérica, vejo a minha aventura ao longo do tempo.
Quando entrei na USP querendo ser professor, entrei depois no movimento sindical. Senti o peso da responsabilidade da representação e nunca mais consegui ter um olhar de prioridade para o desafio das Letras.
Quando me preparava para sair por aí no mundo em busca de algo, entrei em um emprego "estável" na época. Era a minha aprovação em um concurso público nos anos noventa. Quem diria que passaria tanto tempo sendo bancário!?
Quando achei que estava em um curso superior, que entrei por casualidade, mas que passei a adorar, e seria um excelente profissional da educação física, tive que abandoná-lo na metade do percurso por falta de recursos financeiros. É uma das maiores frustrações que carrego até hoje.
Quando disse que não iria mais estudar ao terminar o segundo colegial, um colega me convenceu a fazer faculdade de Ciências Contábeis. Acabei completando o curso e durante o percurso virei bancário de banco público.
Quando menos esperei, acabei virando pai.
Eu que nunca quis entrar em dívida imobiliária, quando vi - e agradeço - fui convencido a comprar um apartamento em cooperativa e hoje tenho onde morar.
O narrador da aventura ibérica deve ter razão. A vida é organizada por sequências de coincidências a cada segundo, em milhões e milhões de eventos no universo e, algumas vezes, notamos algumas delas.
Que mais poderia ser a vida, o mundo, senão um amontoado de casualidades e coincidências em que nós humanos acabamos por meter nomes e inventar deuses e metafísicas em tudo?
E amanhã? Eventos vários virão, e você não está salvo deles! (ou diria que eles lhe salvarão?)
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
FLC0383 Literatura Portuguesa IV - autores estudados
Carlos de Oliveira
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Carlos de Oliveira (Belém do Pará, 10 de Agosto de 1921 — Lisboa, 1 de Julho de 1981) foi um escritor português.
Nascido no Brasil,[1] filho de imigrantes portugueses, veio aos dois anos para Portugal. Fixou-se em Cantanhede, mais precisamente na vila de Febres, onde o pai exercia Medicina. Em 1933 muda-se para Coimbra, onde permanece durante quinze anos, a fim de concluir os estudos liceais e universitários. Ingressa na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 1941, onde estabelece amizade, convívio intelectual e solidariedade ideológica e política com outros jovens, entre os quais Joaquim Namorado, João Cochofel ou Fernando Namora. Termina a licenciatura em Ciências Histórico-Filosófias em 1947, instalando-se definitivamente em Lisboa, no ano seguinte. Periodicamente volta a Coimbra e à Gândara. Em 1949 casa-se com Ângela, jovem madeirense que conhecera na Faculdade, que será sua companheira e colaboradora permanente.
Data de 1942 o seu primeiro livro de poemas, Turismo, que contava com ilustrações de Fernando Namora, e surge integrado na colecção Novo Cancioneiro. Em 1943 publicou o seu primeiro romance, Casa na Duna. Em 1944, o romance Alcateia, será apreendido, lançando nesse mesmo ano a segunda edição de Casa na Duna.
Em 1945 publica um novo livro de poesias, Mãe Pobre. Os anos 1945 e seguintes serão, para Carlos de Oliveira, bem profícuos quanto à integração e afirmação no grupo que veicula e auspera por um "novo humanismo", com a participação nas revistas Seara Nova e Vértice e a colaboração no livro de Fernando Lopes Graça - Marchas, Danças e Canções – colectânea de poesias de vários poetas, musicadas por aquele, canções que vieram a ser conhecidas por "heróicas".
Em 1953 publica Uma Abelha na Chuva, o seu quarto romance e, unanimemente reconhecido como uma das mais importantes obras da literatura portuguesa, estando integrado nos conteúdos programáticos da disciplina de português no ensino secundário.
Em 1957 organiza, com José Gomes Ferreira, numa abordagem do imaginário popular os dois volumes de Contos Tradicionais Portugueses, alguns deles posteriormente adaptados ao cinema por João César Monteiro.
Em 1968 publica dois novos livros de poesia, Sobre o Lado Esquerdo e Micropaisagem e colabora com Fernando Lopes no filme por este realizado e terminado em 1971, Uma Abelha na Chuva, a partir da obra homónima. Publica em 1971 O Aprendiz de Feiticeiro, colectânea de crónicas e artigos, e Entre Duas Memórias, livro de poemas, pelo qual lhe é atribuído no ano seguinte o Prémio de Imprensa. Em 1976 reúne toda a sua poesia em Trabalho Poético, dois volumes, apresentando os livros anteriores, revistos, e os poemas inéditos de Pastoral, livro que será publicado autonomamente no ano seguinte. Publica em 1978 o seu último romance Finisterra, paisagem povoada de inspiração gandaresa, obra que lhe proporciona a atribuição do Prémio Cidade de Lisboa, no ano seguinte.
Morre na sua casa em Lisboa a 1 de Julho de 1981, com 60 anos incompletos.
Obras
Poesia
Turismo (1942);
Mãe Pobre (1945);
Colheita Perdida (1948);
Descida aos Infernos (1949);
Terra de Harmonia (1950);
Cantata (1960);
Micropaisagem (1968, 1969);
Sobre o Lado Esquerdo, o Lado do Coração (1968, 1969);
Entre Duas Memórias (1971);
Pastoral (1977).
Romance
Casa na Duna (1943; 2000);
Alcateia (1944; 1945);
Pequenos Burgueses (1948; 2000);
Uma Abelha na Chuva (1953; 2003);
Finisterra: paisagem e povoamento (1978; 2003).
Crónicas
O Aprendiz de Feiticeiro (1971, 1979).
Antologia
Poesias (1945-1960) (1962);
Trabalho Poético (1976; 2003).
Referências
1. ↑ Portal da Literatura. Página visitada em 14 de maio de 2009.(em português)
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Carlos de Oliveira (Belém do Pará, 10 de Agosto de 1921 — Lisboa, 1 de Julho de 1981) foi um escritor português.
Nascido no Brasil,[1] filho de imigrantes portugueses, veio aos dois anos para Portugal. Fixou-se em Cantanhede, mais precisamente na vila de Febres, onde o pai exercia Medicina. Em 1933 muda-se para Coimbra, onde permanece durante quinze anos, a fim de concluir os estudos liceais e universitários. Ingressa na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 1941, onde estabelece amizade, convívio intelectual e solidariedade ideológica e política com outros jovens, entre os quais Joaquim Namorado, João Cochofel ou Fernando Namora. Termina a licenciatura em Ciências Histórico-Filosófias em 1947, instalando-se definitivamente em Lisboa, no ano seguinte. Periodicamente volta a Coimbra e à Gândara. Em 1949 casa-se com Ângela, jovem madeirense que conhecera na Faculdade, que será sua companheira e colaboradora permanente.
Data de 1942 o seu primeiro livro de poemas, Turismo, que contava com ilustrações de Fernando Namora, e surge integrado na colecção Novo Cancioneiro. Em 1943 publicou o seu primeiro romance, Casa na Duna. Em 1944, o romance Alcateia, será apreendido, lançando nesse mesmo ano a segunda edição de Casa na Duna.
Em 1945 publica um novo livro de poesias, Mãe Pobre. Os anos 1945 e seguintes serão, para Carlos de Oliveira, bem profícuos quanto à integração e afirmação no grupo que veicula e auspera por um "novo humanismo", com a participação nas revistas Seara Nova e Vértice e a colaboração no livro de Fernando Lopes Graça - Marchas, Danças e Canções – colectânea de poesias de vários poetas, musicadas por aquele, canções que vieram a ser conhecidas por "heróicas".
Em 1953 publica Uma Abelha na Chuva, o seu quarto romance e, unanimemente reconhecido como uma das mais importantes obras da literatura portuguesa, estando integrado nos conteúdos programáticos da disciplina de português no ensino secundário.
Em 1957 organiza, com José Gomes Ferreira, numa abordagem do imaginário popular os dois volumes de Contos Tradicionais Portugueses, alguns deles posteriormente adaptados ao cinema por João César Monteiro.
Em 1968 publica dois novos livros de poesia, Sobre o Lado Esquerdo e Micropaisagem e colabora com Fernando Lopes no filme por este realizado e terminado em 1971, Uma Abelha na Chuva, a partir da obra homónima. Publica em 1971 O Aprendiz de Feiticeiro, colectânea de crónicas e artigos, e Entre Duas Memórias, livro de poemas, pelo qual lhe é atribuído no ano seguinte o Prémio de Imprensa. Em 1976 reúne toda a sua poesia em Trabalho Poético, dois volumes, apresentando os livros anteriores, revistos, e os poemas inéditos de Pastoral, livro que será publicado autonomamente no ano seguinte. Publica em 1978 o seu último romance Finisterra, paisagem povoada de inspiração gandaresa, obra que lhe proporciona a atribuição do Prémio Cidade de Lisboa, no ano seguinte.
Morre na sua casa em Lisboa a 1 de Julho de 1981, com 60 anos incompletos.
Obras
Poesia
Turismo (1942);
Mãe Pobre (1945);
Colheita Perdida (1948);
Descida aos Infernos (1949);
Terra de Harmonia (1950);
Cantata (1960);
Micropaisagem (1968, 1969);
Sobre o Lado Esquerdo, o Lado do Coração (1968, 1969);
Entre Duas Memórias (1971);
Pastoral (1977).
Romance
Casa na Duna (1943; 2000);
Alcateia (1944; 1945);
Pequenos Burgueses (1948; 2000);
Uma Abelha na Chuva (1953; 2003);
Finisterra: paisagem e povoamento (1978; 2003).
Crónicas
O Aprendiz de Feiticeiro (1971, 1979).
Antologia
Poesias (1945-1960) (1962);
Trabalho Poético (1976; 2003).
Referências
1. ↑ Portal da Literatura. Página visitada em 14 de maio de 2009.(em português)
Refeição Cultural 62 - Leituras aceleradas pela pressão do tempo
Ontem, li mais de cem páginas da "Jangada" de Saramago. O livro é fascinante. O autor é fascinante. Porém, ler com essa pressão do tempo é muito ruim. Fiquei mais de 5 horas em pé, pois só assim conseguia ler sem dormir.
Amanhã, tenho prova de literatura portuguesa e o livro de Saramago é só um item do programa. Acabei não lendo nem os livros todos nem todos os textos críticos. Caso não vá bem na prova, lembrei-me há pouco que poderei fazer uma segunda prova de recuperação (se tirar nota mínima). Espero não precisar.
Terminado esse esforço concentrado para essa matéria, terei outra prova daqui a dez dias - de literatura espanhola do século XVI. Também tenho muitos textos e autores a estudar.
Sinceramente, passados nove anos em que comecei meu curso de letras na Usp e não ver o resultado desse esforço ter sido encaminhado para eu ser professor universitário é muito frustrante. Fui ser sindicalista. Não consegui ser um intelectual e viver disso.
É pena!
Amanhã, tenho prova de literatura portuguesa e o livro de Saramago é só um item do programa. Acabei não lendo nem os livros todos nem todos os textos críticos. Caso não vá bem na prova, lembrei-me há pouco que poderei fazer uma segunda prova de recuperação (se tirar nota mínima). Espero não precisar.
Terminado esse esforço concentrado para essa matéria, terei outra prova daqui a dez dias - de literatura espanhola do século XVI. Também tenho muitos textos e autores a estudar.
Sinceramente, passados nove anos em que comecei meu curso de letras na Usp e não ver o resultado desse esforço ter sido encaminhado para eu ser professor universitário é muito frustrante. Fui ser sindicalista. Não consegui ser um intelectual e viver disso.
É pena!
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
FLC0383 Literatura Portuguesa IV Bloco I
(aula do professor Helder - uma colega de classe me emprestou as anotações)
MENSAGEM - FERNANDO PESSOA
O livro "Mensagem" de Fernando Pessoa trata de um IDEAL DE NAÇÃO.
Qual seria o diálogo do livro com o projeto colonial português?
A passagem do século XIX para o XX é complicada para Portugal e muitos processos alí ocorridos nos permitem embasar a leitura de Mensagem.
EUROPA: a partir do meio do século XIX começam a surgir movimentos político-sociais. Utopias e ideais revolucionários tomam conta do imaginário popular.
Também é neste século que ocorre a perda da colônia brasileira, prejudicando a indústria portuguesa. A situação econômica do país se agrava sobremaneira.
Em 1880 há comemorações sobre a morte de Camões, na tentativa de revitalizar o espaço cultural português, além de estimular o imaginário do povo.
Este exercício de melhorar a imagem de Portugal perante os portugueses falhou quando a Inglaterra deu o Ultimato Britânico de 1890.
O evento foi uma humilhação para os portugueses.
Em 1908 morre o rei e dois anos depois proclamam a república (uma nação que desde o século XII era uma monarquia). Isso gerou forte impacto no país.
A dúvida interna no momento era de como seria a estrutura dessa república. O período seguinte foi de grande tensão e em 20 anos o país teve 10 presidentes. A economia também ficou prejudicada durante todo esse período.
Na década de 30 começa a ditadura de António de Oliveira Salazar. O modela da ditadura era "republicano" porém só ele ganhava a eleição. A ditadura durou até a Revolução dos Cravos em 1974.
Este é o contexto no qual o livro Mensagem é escrito por Fernando Pessoa.
O Movimento da Renascença criado em Portugal queria salvar a cultura portuguesa. Teixeira de Pascoaes cria o movimento chamado Saudosismo, que é uma filosofia estética. Também é neste contexto que Pessoa escreve seu livro.
O Saudosismo é o traço identitário do percurso da nação portuguesa. Há um vínculo estreito com o passado, de como os portugueses lidam com a própria história.
O período dos descobrimentos é o grande período português e a coletividade via no século XVI a grandeza da nação portuguesa.
O Saudosismo usa esse mecanismo, de olhar para o passado, para recuperar a glória no presente. É uma forma de compensar a realidade caótica vivida pelo país no presente vivido.
CONTEXTO POLÍTICO E ECONÔMICO CAÓTICO + SAUDOSISMO = MENSAGEM
O Saudosismo traz à tona o Mito Sebastianista, que é de certa forma elitista porque apenas D. Sebastião seria capaz de salvar o país, a população receberia a "salvação" e não participaria do processo de salvação.
FERNANDO PESSOA (1888-1935)
- o livro Mensagem é de 1935 (o único livro publicado em vida)
- em 1915 cria a Revista Orpheu
- cria também a Portugal Futurista
- participa da Revista Presença (mais ligada à questão estética)
Sua poesia está muito calcada no simbolismo, tenta criar alguns "ismos", onde predominam o obscuro, o opaco, o não delineado.
Ao deixar no subjetivo os sentidos, você os delimita melhor, pois cada pessoa sente de uma forma particular.
Mito fundador de Lisboa: poema Ulisses, da primeira parte do Mensagem.
Ulisses
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.
O poema se constrói de uma charada, não é muito claro. O poema polissemiza as possibilidades. O poema sugere muitas coisas e não delimita nada.
MENSAGEM
1a parte:
Brasão
-Os campos
-Os castelos
-As quinas
-A coroa
-O timbre
2a parte:
O mar português
(com 12 poemas)
3a parte:
O Encoberto
-Os símbolos
-Os avisos
-Os tempos
A primeira parte, que é sobre o Brasão, conta a história de Portugal até o descobrimento (o que também faz Camões). É algo bem didático. Narra a história até 1510 (viagem até Goa). Os portugueses tomam Goa dos árabes em 1510.
A segunda parte é de Portugal já império marítimo. Traz a ideia da ambiguidade do mar nessa conquista e das dores sofridas e das alegrias trazidas.
A terceira parte é o mito do Encoberto e o futuro de Portugal e o sebastianismo. É a figura que vem, é o caminho para o Quinto Império.
MENSAGEM - FERNANDO PESSOA
O livro "Mensagem" de Fernando Pessoa trata de um IDEAL DE NAÇÃO.
Qual seria o diálogo do livro com o projeto colonial português?
A passagem do século XIX para o XX é complicada para Portugal e muitos processos alí ocorridos nos permitem embasar a leitura de Mensagem.
EUROPA: a partir do meio do século XIX começam a surgir movimentos político-sociais. Utopias e ideais revolucionários tomam conta do imaginário popular.
Também é neste século que ocorre a perda da colônia brasileira, prejudicando a indústria portuguesa. A situação econômica do país se agrava sobremaneira.
Em 1880 há comemorações sobre a morte de Camões, na tentativa de revitalizar o espaço cultural português, além de estimular o imaginário do povo.
Este exercício de melhorar a imagem de Portugal perante os portugueses falhou quando a Inglaterra deu o Ultimato Britânico de 1890.
O evento foi uma humilhação para os portugueses.
Em 1908 morre o rei e dois anos depois proclamam a república (uma nação que desde o século XII era uma monarquia). Isso gerou forte impacto no país.
A dúvida interna no momento era de como seria a estrutura dessa república. O período seguinte foi de grande tensão e em 20 anos o país teve 10 presidentes. A economia também ficou prejudicada durante todo esse período.
Na década de 30 começa a ditadura de António de Oliveira Salazar. O modela da ditadura era "republicano" porém só ele ganhava a eleição. A ditadura durou até a Revolução dos Cravos em 1974.
Este é o contexto no qual o livro Mensagem é escrito por Fernando Pessoa.
O Movimento da Renascença criado em Portugal queria salvar a cultura portuguesa. Teixeira de Pascoaes cria o movimento chamado Saudosismo, que é uma filosofia estética. Também é neste contexto que Pessoa escreve seu livro.
O Saudosismo é o traço identitário do percurso da nação portuguesa. Há um vínculo estreito com o passado, de como os portugueses lidam com a própria história.
O período dos descobrimentos é o grande período português e a coletividade via no século XVI a grandeza da nação portuguesa.
O Saudosismo usa esse mecanismo, de olhar para o passado, para recuperar a glória no presente. É uma forma de compensar a realidade caótica vivida pelo país no presente vivido.
CONTEXTO POLÍTICO E ECONÔMICO CAÓTICO + SAUDOSISMO = MENSAGEM
O Saudosismo traz à tona o Mito Sebastianista, que é de certa forma elitista porque apenas D. Sebastião seria capaz de salvar o país, a população receberia a "salvação" e não participaria do processo de salvação.
FERNANDO PESSOA (1888-1935)
- o livro Mensagem é de 1935 (o único livro publicado em vida)
- em 1915 cria a Revista Orpheu
- cria também a Portugal Futurista
- participa da Revista Presença (mais ligada à questão estética)
Sua poesia está muito calcada no simbolismo, tenta criar alguns "ismos", onde predominam o obscuro, o opaco, o não delineado.
Ao deixar no subjetivo os sentidos, você os delimita melhor, pois cada pessoa sente de uma forma particular.
Mito fundador de Lisboa: poema Ulisses, da primeira parte do Mensagem.
Ulisses
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.
O poema se constrói de uma charada, não é muito claro. O poema polissemiza as possibilidades. O poema sugere muitas coisas e não delimita nada.
MENSAGEM
1a parte:
Brasão
-Os campos
-Os castelos
-As quinas
-A coroa
-O timbre
2a parte:
O mar português
(com 12 poemas)
3a parte:
O Encoberto
-Os símbolos
-Os avisos
-Os tempos
A primeira parte, que é sobre o Brasão, conta a história de Portugal até o descobrimento (o que também faz Camões). É algo bem didático. Narra a história até 1510 (viagem até Goa). Os portugueses tomam Goa dos árabes em 1510.
A segunda parte é de Portugal já império marítimo. Traz a ideia da ambiguidade do mar nessa conquista e das dores sofridas e das alegrias trazidas.
A terceira parte é o mito do Encoberto e o futuro de Portugal e o sebastianismo. É a figura que vem, é o caminho para o Quinto Império.
Sebastianismo - Estudos de Literatura Portuguesa
(atualizado em 8/11/15)
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| Bandeira Portuguesa |
FLC0383 - Literatura Portuguesa IV - Bloco I do programa
- Mensagem - de Fernando Pessoa
- Do sebastianismo ao socialismo - de Joel Serrão
- A nau de Ícaro - de Eduardo Lourenço
JOEL SERRÃO
O sebastianismo - origem e metamorfoses do mito
"É fácil de persuadir ao coração a aquelas coisas que deseja" (D. Francisco Manuel de Melo, Alterações de Évora, 1637)
1. O sebastianismo como objecto de reflexão histórica
Joel Serrão começa o texto enaltecendo alguns autores que muito refletiram acerca do sebastianismo ou messianismo, tão arraigados à ideia de patriotismo português. Cita Oliveira Martins com sua "História de Portugal" de 1879, Sampaio Bruno em "O Encoberto" de 1904 e outros autores do início do século XX.
Certo autor, Antonio Sérgio, afirma que esse fenômeno do sebastianismo teria relação com uma sociologia cultural e que seria fruto de dadas condições bem concretas na história: a iminência da perda da independência nacional e a morte de D. Sebastião (1578).
Diz Antonio Sérgio: “o messianismo terá vida (ou poderá tê-la) enquanto se impuser a este povo, a contrapor à sua fictícia e tão efêmera grandeza, o espetáculo persistente da sua lúgubre decadência”.
Quando chega a virada do século XIX e pelas primeiras décadas do XX, os poetas portugueses remoçam a ideia do sebastianismo. Fernando Pessoa prega confessadamente o “nacionalismo místico, sebastianismo racional”.
Conclusão interessante podemos ver na fala do historiador João Lúcio de Azevedo sobre o sebastianismo: “nascido da dor, nutrindo-se da esperança, é na história o que é na poesia a saudade, uma feição inseparável da alma portuguesa”.
O desfecho de Joel Serrão a esta introdução ao sebastianismo e messianismo nos mostra a importância que ele dá ao tema para a análise da história de Portugal:
“Cremos, na verdade, que de poucos problemas como este dependerá, na esfera das motivações ideológicas, a compreensão do nosso presente, assim como a legitimidade ou a inanidade das esperanças postas no porvir de todos nós”.
Viu só a afirmação?!
2. Sobre as origens e as metamorfoses do mito
As origens desses mitos são antigas. Temos como exemplos Nostradamus (1503-66), temos Sto. Isidoro de Sevilha (século VII) e temos o sapateiro de Trancoso, ou seja, Bandarra e suas Trovas (1530-40).
Causas que poderiam ajudar na fixação desses mitos, aqui no caso português: “Simplesmente, as circunstâncias nacionais, a partir dos meados do século – a viragem da estrutura (1545-52), a morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir (1578) e a anexação de Portugal por Filipe II (1580) -, soprariam cinzas, não de todo apagadas, em que jazia a esperança mística da revelação do Encoberto. É que o Encoberto seria, afinal, o jovem rei, pretensamente sumido nas plagas marroquinas! Mais ou menos popularizadas, as Trovas, com a sua linguagem de teor anfibológico, adaptavam-se à maravilha aos anseios de todos quantos desejavam travar acontecimentos que, de outra forma, se diriam, logicamente, inelutáveis”.
Depois, as trovas de Bandarra foram dando vazão a outras interpretações. Em 1640, os portugueses associaram a restauração do reino com D. João IV às Trovas de Bandarra.
Para ajudar, o jesuíta P. Antônio Vieira seguiu pregando a ideia messiânica do Quinto Império, que não veio com D. João IV, que morreu antes.
Mas, “E, falecido o rei (1656) sem que o sonho imperial principiasse a tomar corpo, a intermerata dialéctica do jesuíta não se sentiu peada nos seus voos: é que D. João IV ressuscitaria!”.
“O profetismo e o messianismo lusitanos de Antônio Vieira assinalam o momento mais alto da metamorfose da crença sebástica que em torno da Restauração se articulou e se desenrolou”.
O Sebastianismo poderia ser uma estratégia que envolveria o populacho na tese da Restauração, de natureza evidentemente aristocrática.
Lá pelo século XVIII, essas teses messiânicas não tiveram muita vez não, pois o poderoso Marquês de Pombal, como esclarecido, não permitia isso.
O que poderia ser o fim do sebastianismo, com a internação em manicômios no século XIX dos sebastianistas remanescentes, acaba não sendo, pois os literatos acabariam por ressuscitar o fenômeno.
Vários autores poetas viriam a modular tons diversos do tema: “Que El-Rei Menino não tarda a surgir”.
Tivemos entre 1912/16 a Renascença Portuguesa, que “buscou, mediante o saudosismo, uma fundamentação poético-religioso-filosofante da lusitanidade republicana”.
Fernando Pessoa seria a própria encarnação de El-Rei regressado à Pátria quando escreve em primeira pessoa do singular quando a D. Sebastião se refere:
Terceira Parte:
O Encoberto
PAX IN EXCELSIS
I. Os Símbolos
D. Sebastião
’Sperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
(aulas seguintes...)
3. O sebastianismo, fenômeno sociocultural
4. Em jeito de conclusão provisória
FLC0383 - Literatura Portuguesa IV - A jangada de pedra
A JANGADA DE PEDRA – JOSÉ SARAMAGO
Aula do professor Helder 5/11/10
Questões de metalinguagem e Iberismo
Questões sobre a vida de Saramago (ver mais detalhes no texto de Maria Alzira Seixo)
Diferente de Lobo Antunes, José Saramago não era acadêmico. Ele nasceu em 1922, ou seja, na madurez literária foi contemporâneo de Lobo Antunes – mas este esteve um tempo na África.
Saramago sempre esteve envolvido com o meio comunista.
Em 1975, após a Revolução dos Cravos, Saramago vai trabalhar na imprensa. Ele ataca muito Mário Soares, chefe do primeiro governo constitucional de Portugal. Um pouco depois toda a equipe do jornal é demitida.
O cidadão Saramago é bastante polemista, tanto com a política e o poder como com a igreja. Recentemente, anos 2000, ele também falou muito sobre os ataques de Israel ao Líbano, chegando a comparar os israelenses aos nazistas.
Saramago escreve “Terra do pecado” em 1947 e nem gosta muito de citar essa obra em sua bibliografia.
Na década de 60, ele retoma a atividade literária com livros de poemas.
Saramago e Lobo Antunes têm um trato refinado com a palavra, mesmo quando não estão fazendo poesia.
Nos anos 70, Saramago publica quatro livros de crônicas.
A ideia da crônica é uma constante em Saramago. Mesmo em "A jangada de pedra" (1986) o narrador e personagens assumem um papel meio característico do jornalismo. Entretanto, em seguida às descrições jornalísticas e factuais, ele passam a sonhar e viajar ao estilo de crônicas com reflexões e ficções.
Ainda nos anos 70 Saramago publica um livro de contos.
A década de 80 vai marcar a entrada definitiva de Saramago no mundo da literatura com uma poética e um estilo todo próprio como, por exemplo, sua forma peculiar de pontuar, ou seja, não pontuar.
• Levantado do Chão, 1980
• Memorial do Convento, 1982
• O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984
• A Jangada de Pedra, 1986
• História do Cerco de Lisboa, 1989
Nesse núcleo de sua obra nos anos 80, há um diálogo com a ideia de império português. "A jangada de pedra" discute o futuro de Portugal.
Os personagens principais dessas obras são, em geral, da classe proletária. Ele recria a história de Portugal com alguns personagens reais misturados a histórias alucinantes e alucinadas de reinvenções do país.
Mensagem:
COMO O DOM DA PALAVRA PODE MUDAR E RECONTAR O PASSADO E POR CONSEGUINTE O FUTURO.
O livro "A jangada de pedra" é uma proposta ibérica.
Com várias citações do livro em sala de aula, ficou a questão levantada: ser ibérico ou não? Europeu ou ibérico? (lembrar que na época da publicação da obra, Portugal estava se filiando a CEE)
ALEGORIA DA OBRA:
IDENTIDADE IBÉRICA X IDENTIDADE EUROPEIA
Aula do professor Helder 5/11/10
Questões de metalinguagem e Iberismo
Questões sobre a vida de Saramago (ver mais detalhes no texto de Maria Alzira Seixo)
Diferente de Lobo Antunes, José Saramago não era acadêmico. Ele nasceu em 1922, ou seja, na madurez literária foi contemporâneo de Lobo Antunes – mas este esteve um tempo na África.
Saramago sempre esteve envolvido com o meio comunista.
Em 1975, após a Revolução dos Cravos, Saramago vai trabalhar na imprensa. Ele ataca muito Mário Soares, chefe do primeiro governo constitucional de Portugal. Um pouco depois toda a equipe do jornal é demitida.
O cidadão Saramago é bastante polemista, tanto com a política e o poder como com a igreja. Recentemente, anos 2000, ele também falou muito sobre os ataques de Israel ao Líbano, chegando a comparar os israelenses aos nazistas.
Saramago escreve “Terra do pecado” em 1947 e nem gosta muito de citar essa obra em sua bibliografia.
Na década de 60, ele retoma a atividade literária com livros de poemas.
Saramago e Lobo Antunes têm um trato refinado com a palavra, mesmo quando não estão fazendo poesia.
Nos anos 70, Saramago publica quatro livros de crônicas.
A ideia da crônica é uma constante em Saramago. Mesmo em "A jangada de pedra" (1986) o narrador e personagens assumem um papel meio característico do jornalismo. Entretanto, em seguida às descrições jornalísticas e factuais, ele passam a sonhar e viajar ao estilo de crônicas com reflexões e ficções.
Ainda nos anos 70 Saramago publica um livro de contos.
A década de 80 vai marcar a entrada definitiva de Saramago no mundo da literatura com uma poética e um estilo todo próprio como, por exemplo, sua forma peculiar de pontuar, ou seja, não pontuar.
• Levantado do Chão, 1980
• Memorial do Convento, 1982
• O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984
• A Jangada de Pedra, 1986
• História do Cerco de Lisboa, 1989
Nesse núcleo de sua obra nos anos 80, há um diálogo com a ideia de império português. "A jangada de pedra" discute o futuro de Portugal.
Os personagens principais dessas obras são, em geral, da classe proletária. Ele recria a história de Portugal com alguns personagens reais misturados a histórias alucinantes e alucinadas de reinvenções do país.
Mensagem:
COMO O DOM DA PALAVRA PODE MUDAR E RECONTAR O PASSADO E POR CONSEGUINTE O FUTURO.
O livro "A jangada de pedra" é uma proposta ibérica.
Com várias citações do livro em sala de aula, ficou a questão levantada: ser ibérico ou não? Europeu ou ibérico? (lembrar que na época da publicação da obra, Portugal estava se filiando a CEE)
ALEGORIA DA OBRA:
IDENTIDADE IBÉRICA X IDENTIDADE EUROPEIA
terça-feira, 16 de novembro de 2010
FLC0383 - Literatura Portuguesa IV - A jangada de pedra
FRAGMENTO 4
(passagens e frases interessantes)
"ESTA OLIVEIRA É CORDOVIL, ou cordovesa, ou cordovia, tanto faz, que estes três nomes lhe dão, sem diferença, na terra portuguesa..."
"[...] muito mais importaria falar destes três homens que debaixo da oliveira estão sentados, um que é Pedro Orce, outro Joaquim Sassa, o terceiro José Anaiço, acasos prodigiosos ou deliberadas manipulações os terão reunido neste lugar."
PEDRO ORCE VEM DE... PEDRO ORCE
"Por trás destas encostas, mas não visível daqui, há uma aldeia onde Pedro Orce tem vivido, e por um acaso, primeiro deles, se o é, têm ele e ela o mesmo nome, o que não retira nem acrescenta verosimilhança ao conto...
A EUROPA FICA PARA TRÁS RAPIDAMENTE...
"De acordo com as últimas medições, a velocidade de deslocação da península estabilizou-se à roda dos setecentos e cinquenta metros por hora, mais ou menos dezoito quilómetros por dia..."
QUEM SÃO OS TRÊS PERSONAGENS?
"[...] Sabemos a três minutos que Pedro Orce vive na aldeia que está escondida por trás destes acidentes, sabíamos desde o princípio que Joaquim Sassa veio duma praia do norte de Portugal, e José Anaiço, agora o ficámos a saber de ciência certa, pelos campos do Ribatejo andava a passear quando encontrou os estorninhos, e tê-lo-íamos logo sabido se tivéssemos dado atenção suficiente aos pormenores da paisagem."
JOAQUIM SASSA
"Meteu-se ao caminho (saiu de uma praia do norte de Portugal), no Dois Cavalos velho (carro), não se despediu da família, doridamente, pois família não tem..."
QUESTÕES DE GIBRALTAR
Os britânicos afirmam que não importa a distância que fique Gibraltar, ela seguirá sendo britânica...
CARACTERÍSTICAS DE JOAQUIM SASSA
"[...] mas Joaquim Sassa quem é, um homem ainda novo, tem os seus trinta e tal anos, mais perto dos quarenta que dos trinta, vem um dia em que não se pode evitar, as sobrancelhas são pretas, os olhos castanhos à portuguesa, nítida a cana do nariz, são feições realmente comuns, saberemos mais dele quando se voltar par nós"
"[...] Sassa, não Souza, e o que significava, ficou a saber que era uma árvore corpulenta da Núbia, lindo nome, de mulher, Núbia, lá para os lados do Sudão, África Oriental..."
"[...] o rosto de Joaquim Sassa aparece completo, de algumas feições falámos antes, o resto está conforme, cabelos castanho-escuros, lisos, as faces magras, o nariz realmente comum, os lábios parecem cheios apenas quando falam..."
ENCONTRO DE JOAQUIM SASSA E JOSÉ ANAIÇO
"De dentro de casa uma voz de homem perguntou, Quem é, e Joaquim Sassa respondeu, Faz favor, mágicas palavras que substituem identificação formal, a linguagem está cheia destes e outros mais difíceis enigmas"
Bibliografia:
SARAMAGO, José. A jangada de pedra. Companhia de Bolso. Edição 2010. (livro de 1986)
(passagens e frases interessantes)
"ESTA OLIVEIRA É CORDOVIL, ou cordovesa, ou cordovia, tanto faz, que estes três nomes lhe dão, sem diferença, na terra portuguesa..."
"[...] muito mais importaria falar destes três homens que debaixo da oliveira estão sentados, um que é Pedro Orce, outro Joaquim Sassa, o terceiro José Anaiço, acasos prodigiosos ou deliberadas manipulações os terão reunido neste lugar."
PEDRO ORCE VEM DE... PEDRO ORCE
"Por trás destas encostas, mas não visível daqui, há uma aldeia onde Pedro Orce tem vivido, e por um acaso, primeiro deles, se o é, têm ele e ela o mesmo nome, o que não retira nem acrescenta verosimilhança ao conto...
A EUROPA FICA PARA TRÁS RAPIDAMENTE...
"De acordo com as últimas medições, a velocidade de deslocação da península estabilizou-se à roda dos setecentos e cinquenta metros por hora, mais ou menos dezoito quilómetros por dia..."
QUEM SÃO OS TRÊS PERSONAGENS?
"[...] Sabemos a três minutos que Pedro Orce vive na aldeia que está escondida por trás destes acidentes, sabíamos desde o princípio que Joaquim Sassa veio duma praia do norte de Portugal, e José Anaiço, agora o ficámos a saber de ciência certa, pelos campos do Ribatejo andava a passear quando encontrou os estorninhos, e tê-lo-íamos logo sabido se tivéssemos dado atenção suficiente aos pormenores da paisagem."
JOAQUIM SASSA
"Meteu-se ao caminho (saiu de uma praia do norte de Portugal), no Dois Cavalos velho (carro), não se despediu da família, doridamente, pois família não tem..."
QUESTÕES DE GIBRALTAR
Os britânicos afirmam que não importa a distância que fique Gibraltar, ela seguirá sendo britânica...
CARACTERÍSTICAS DE JOAQUIM SASSA
"[...] mas Joaquim Sassa quem é, um homem ainda novo, tem os seus trinta e tal anos, mais perto dos quarenta que dos trinta, vem um dia em que não se pode evitar, as sobrancelhas são pretas, os olhos castanhos à portuguesa, nítida a cana do nariz, são feições realmente comuns, saberemos mais dele quando se voltar par nós"
"[...] Sassa, não Souza, e o que significava, ficou a saber que era uma árvore corpulenta da Núbia, lindo nome, de mulher, Núbia, lá para os lados do Sudão, África Oriental..."
"[...] o rosto de Joaquim Sassa aparece completo, de algumas feições falámos antes, o resto está conforme, cabelos castanho-escuros, lisos, as faces magras, o nariz realmente comum, os lábios parecem cheios apenas quando falam..."
ENCONTRO DE JOAQUIM SASSA E JOSÉ ANAIÇO
"De dentro de casa uma voz de homem perguntou, Quem é, e Joaquim Sassa respondeu, Faz favor, mágicas palavras que substituem identificação formal, a linguagem está cheia destes e outros mais difíceis enigmas"
Bibliografia:
SARAMAGO, José. A jangada de pedra. Companhia de Bolso. Edição 2010. (livro de 1986)
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
FLC0383 - Literatura Portuguesa IV - "Mensagem" de Fernando Pessoa
Achei muito interessante a informação gratuita disponível no wikipédia sobre o livro Mensagem.
Criação
O título original do livro era Portugal. Influenciado por um amigo, Pessoa considera "Mensagem" um título mais apropriado, pelo nome "Portugal" se encontrar "prostituído" no mais comum dos produtos. Pessoa constrói a palavra "mensagem" a partir da expressão latina: Mens agitat molem, isto é, "A mente move a matéria", frase da história de Eneida, de Virgílio, dita pela personagem Anquises quando explica a Enéias o sistema do Universo. Pessoa não utiliza o sentido original da frase, que denotava a existência de um princípio universal de onde emanavam todos os seres.
Segundo uma carta datada de 13 de Janeiro de 1935 a Adolfo Casais Monteiro, Mensagem foi o primeiro livro que o poeta conseguiu completar. Pessoa mesmo explica que esse fato demonstra o porquê de não ter publicado outro livro como a prosa de um de seus heterônimos ou a poesia em seu próprio nome.
Numa carta de 1932 de Pessoa a João Gaspar Simões, seu primeiro biógrafo, vemos que a intenção do poeta era publicar primeiramente a Mensagem para somente mais tarde divulgar outras obras como o Livro do Desassossego, do semi-heterônimo Bernardo Soares, e a poesia dos heterônimos.
Foi publicado primeiramente em Dezembro de 1934, com edição da Parceria António Maria Pereira, em Lisboa. A segunda edição, de 1941, possui correções feitas por Pessoa à primeira edição e foi editada pela Agência Geral das Colônias.
Um mês após a sua primeira publicação, ganhou o prêmio na segunda categoria do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) que o premiou com o mesmo valor em dinheiro da primeira categoria.
MENSAGEM
Primeira Parte:
Brasão
BELLUM SINE BELLO
I. Os Campos
O dos Castelos
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar ’sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
O das Quinas
Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!
Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.
II. Os Castelos
Ulisses
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.
Viriato
Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.
Nação porque reincarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste —
Assim se Portugal formou.
Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.
O Conde D. Henrique
Todo começo é involuntário.
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.
À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
“Que farei eu com esta espada?”
Ergueste-a, e fez-se.
D. Tareja
As nações todas são mistérios.
Cada uma é todo o mundo a sós.
Ó mãe de reis e avó de impérios,
Vela por nós!
Teu seio augusto amamentou
Com bruta e natural certeza
O que, imprevisto, Deus fadou.
Por ele reza!
Dê tua prece outro destino
A quem fadou o instinto teu!
O homem que foi o teu menino
Envelheceu.
Mas todo vivo é eterno infante
Onde estás e não há o dia.
No antigo seio, vigilante,
De novo o cria!
D. Afonso Henriques
Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!
Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!
D. Dinis
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.
D. João, o Primeiro
O homem e a hora são um só
Quando Deus faz e a história é feita.
O mais é carne, cujo pó
A terra espreita.
Mestre, sem o saber, do Templo
Que Portugal foi feito ser,
Que houveste a glória e deste o exemplo
De o defender.
Teu nome, eleito em sua fama,
É, na ara da nossa alma interna,
A que repele, eterna chama,
A sombra eterna.
D. Filipa de Lencastre
Que enigma havia em teu seio
Que só génios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?
Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Graal,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!
III. As Quinas
D. Duarte, Rei de Portugal
Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
A regra de ser Rei almou meu ser,
Em dia e letra escrupuloso e fundo.
Firme em minha tristeza, tal vivi.
Cumpri contra o Destino o meu dever.
Inutilmente? Não, porque o cumpri.
D. Fernando, Infante de Portugal
Deu-me Deus o seu gládio, por que eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.
Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são Seu nome
Dentro em mim a vibrar.
E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.
D. Pedro, Regente de Portugal
Claro em pensar, e claro no sentir,
É claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser —
Não me podia a Sorte dar guarida
Por eu não ser dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à ideia tida.
Tudo mais é com Deus!
D. João, Infante de Portugal
Não fui alguém. Minha alma estava estreita
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;
Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —
O todo, ou o seu nada.
D. Sebastião, Rei de Portugal
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
IV. A Coroa
Nun’Álvares Pereira
Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.
Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.
’Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!
V. O Timbre
A cabeça do grifo:
O infante D. Henrique
Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.
Uma asa do grifo:
D. João, O Segundo
Braços cruzados, fita além do mar.
Parece em promontório uma alta serra —
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra.
Seu formidável vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.
A outra asa do grifo:
Afonso de Albuquerque
De pé, sobre os países conquistados
Desce os olhos cansados
De ver o mundo e a injustiça e a sorte.
Não pensa em vida ou morte,
Tão poderoso que não quer o quanto
Pode, que o querer tanto
Calcara mais do que o submisso mundo
Sob o seu passo fundo.
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha.
Criou-os como quem desdenha.
(O texto está muito bem apresentado no endereço abaixo)
Fonte: http://www.pessoa-mensagem.blogspot.com/
Criação
O título original do livro era Portugal. Influenciado por um amigo, Pessoa considera "Mensagem" um título mais apropriado, pelo nome "Portugal" se encontrar "prostituído" no mais comum dos produtos. Pessoa constrói a palavra "mensagem" a partir da expressão latina: Mens agitat molem, isto é, "A mente move a matéria", frase da história de Eneida, de Virgílio, dita pela personagem Anquises quando explica a Enéias o sistema do Universo. Pessoa não utiliza o sentido original da frase, que denotava a existência de um princípio universal de onde emanavam todos os seres.
Segundo uma carta datada de 13 de Janeiro de 1935 a Adolfo Casais Monteiro, Mensagem foi o primeiro livro que o poeta conseguiu completar. Pessoa mesmo explica que esse fato demonstra o porquê de não ter publicado outro livro como a prosa de um de seus heterônimos ou a poesia em seu próprio nome.
Numa carta de 1932 de Pessoa a João Gaspar Simões, seu primeiro biógrafo, vemos que a intenção do poeta era publicar primeiramente a Mensagem para somente mais tarde divulgar outras obras como o Livro do Desassossego, do semi-heterônimo Bernardo Soares, e a poesia dos heterônimos.
Foi publicado primeiramente em Dezembro de 1934, com edição da Parceria António Maria Pereira, em Lisboa. A segunda edição, de 1941, possui correções feitas por Pessoa à primeira edição e foi editada pela Agência Geral das Colônias.
Um mês após a sua primeira publicação, ganhou o prêmio na segunda categoria do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) que o premiou com o mesmo valor em dinheiro da primeira categoria.
MENSAGEM
Primeira Parte:
Brasão
BELLUM SINE BELLO
I. Os Campos
O dos Castelos
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar ’sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
O das Quinas
Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!
Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.
II. Os Castelos
Ulisses
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.
Viriato
Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.
Nação porque reincarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste —
Assim se Portugal formou.
Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.
O Conde D. Henrique
Todo começo é involuntário.
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.
À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
“Que farei eu com esta espada?”
Ergueste-a, e fez-se.
D. Tareja
As nações todas são mistérios.
Cada uma é todo o mundo a sós.
Ó mãe de reis e avó de impérios,
Vela por nós!
Teu seio augusto amamentou
Com bruta e natural certeza
O que, imprevisto, Deus fadou.
Por ele reza!
Dê tua prece outro destino
A quem fadou o instinto teu!
O homem que foi o teu menino
Envelheceu.
Mas todo vivo é eterno infante
Onde estás e não há o dia.
No antigo seio, vigilante,
De novo o cria!
D. Afonso Henriques
Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!
Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!
D. Dinis
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.
D. João, o Primeiro
O homem e a hora são um só
Quando Deus faz e a história é feita.
O mais é carne, cujo pó
A terra espreita.
Mestre, sem o saber, do Templo
Que Portugal foi feito ser,
Que houveste a glória e deste o exemplo
De o defender.
Teu nome, eleito em sua fama,
É, na ara da nossa alma interna,
A que repele, eterna chama,
A sombra eterna.
D. Filipa de Lencastre
Que enigma havia em teu seio
Que só génios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?
Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Graal,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!
III. As Quinas
D. Duarte, Rei de Portugal
Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
A regra de ser Rei almou meu ser,
Em dia e letra escrupuloso e fundo.
Firme em minha tristeza, tal vivi.
Cumpri contra o Destino o meu dever.
Inutilmente? Não, porque o cumpri.
D. Fernando, Infante de Portugal
Deu-me Deus o seu gládio, por que eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.
Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são Seu nome
Dentro em mim a vibrar.
E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.
D. Pedro, Regente de Portugal
Claro em pensar, e claro no sentir,
É claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser —
Não me podia a Sorte dar guarida
Por eu não ser dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à ideia tida.
Tudo mais é com Deus!
D. João, Infante de Portugal
Não fui alguém. Minha alma estava estreita
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;
Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —
O todo, ou o seu nada.
D. Sebastião, Rei de Portugal
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
IV. A Coroa
Nun’Álvares Pereira
Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.
Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.
’Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!
V. O Timbre
A cabeça do grifo:
O infante D. Henrique
Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.
Uma asa do grifo:
D. João, O Segundo
Braços cruzados, fita além do mar.
Parece em promontório uma alta serra —
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra.
Seu formidável vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.
A outra asa do grifo:
Afonso de Albuquerque
De pé, sobre os países conquistados
Desce os olhos cansados
De ver o mundo e a injustiça e a sorte.
Não pensa em vida ou morte,
Tão poderoso que não quer o quanto
Pode, que o querer tanto
Calcara mais do que o submisso mundo
Sob o seu passo fundo.
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha.
Criou-os como quem desdenha.
(O texto está muito bem apresentado no endereço abaixo)
Fonte: http://www.pessoa-mensagem.blogspot.com/
FLC0383 - Literatura Portuguesa IV - "Mensagem" de Fernando Pessoa
Esta explicação gratuita da Wikipédia é muito boa. Sou admirador da ideia What I Know Is... (é o que tento fazer neste blog de refeições culturais)
Estrutura
Trata-se de um livro que revisita e, em boa parte, cria, uma mitologia do passado heróico de Portugal, repleta de símbolos, sebastianista, e que foi depois em grande parte incorporada na ideologia oficial da ditadura Salazarista.
Está dividido em três partes, com uma nota preliminar antecedendo-as. Todas elas, incluindo a nota preliminar, possuem epígrafes em latim.
A primeira, Brasão, utiliza os diversos componentes das armas de Portugal para revisitar algumas personagens da história do país.
A segunda, Mar Português, debruça-se sobre a época das grandes navegações, batendo à porta de figuras como o Infante D. Henrique, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães, mas não se limitando a elas.
A terceira, O Encoberto, é a parte mais marcadamente simbólica e sebastianista, voltando, ainda a falar de outras figuras da história de Portugal. O termo "O Encoberto" é uma designação ao antigo rei de Portugal D. Sebastião I, o que demonstra sebastianismo. Sendo também uma desintegração, mas também toda ela é cheia de avisos, fortes pressentimentos, de forças latentes prestes a virem à luz: depois da noite e tormenta, vem a calma e a ante-manhã (estes são os tempos).
Estes 44 poemas agrupados em 3 partes, representam as três etapas do Império Português: nascimento, realização e morte, seguida de um renascimento.
Brasão - informações sobre a formação da nacionalidade, heróis lendários e históricos.
Mar Português - descobertas, aventura marítima, conquista do império, (Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce: Tudo vale a pena quando a alma não é pequena) ânsia do desconhecido e esforço heróico da luta com o mar.
O Encoberto - morte das energias de Portugal simbolizada pelo nevoeiro. Afirmação do Sebastianismo. País na estagnação à espera do ressurgir, do aparecer da Nova Luz (Quinto Império).
MENSAGEM
Segunda Parte:
Mar Português
POSSESSIO MARIS
I. O Infante
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
II. Horizonte
Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
’Splendia sobre as naus da iniciação.
Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp’rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.
III. Padrão
O esforço é grande e o homem é pequeno
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.
E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.
IV. O mostrengo
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?”
E o homem do leme disse, tremendo:
“El-Rei D. João Segundo!”
“De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?”
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
“Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?”
E o homem do leme tremeu, e disse:
“El-Rei D. João Segundo!”
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!”
V. Epitáfio de Bartolomeu Dias
Jaz aqui, na pequena praia extrema,
O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,
O mar é o mesmo: já ninguém o tema!
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.
VI. Os Colombos
Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.
Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.
VII. Ocidente
Com duas mãos — o Acto e o Destino —
Desvendámos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o fecho trémulo e divino
E a outra afasta o véu.
Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Ocidente o véu rasgou,
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.
Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.
VIII. Fernão de Magalhães
No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.
De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto —
Cingi-lo, dos homens, o primeiro —,
Na praia ao longe por fim sepulto.
Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.
Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.
IX. Ascensão de Vasco da Gama
Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.
Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões,
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.
X. Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
XI. A Última Nau
Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ânsia e de pressago
Mistério.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.
Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou ’spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.
Não sei a hora, mas sei que há a hora,
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda
Do Império.
XII. Prece
Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.
Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!
(O texto está muito bem apresentado no endereço abaixo)
Fonte: http://www.pessoa-mensagem.blogspot.com/
Estrutura
Trata-se de um livro que revisita e, em boa parte, cria, uma mitologia do passado heróico de Portugal, repleta de símbolos, sebastianista, e que foi depois em grande parte incorporada na ideologia oficial da ditadura Salazarista.
Está dividido em três partes, com uma nota preliminar antecedendo-as. Todas elas, incluindo a nota preliminar, possuem epígrafes em latim.
A primeira, Brasão, utiliza os diversos componentes das armas de Portugal para revisitar algumas personagens da história do país.
A segunda, Mar Português, debruça-se sobre a época das grandes navegações, batendo à porta de figuras como o Infante D. Henrique, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães, mas não se limitando a elas.
A terceira, O Encoberto, é a parte mais marcadamente simbólica e sebastianista, voltando, ainda a falar de outras figuras da história de Portugal. O termo "O Encoberto" é uma designação ao antigo rei de Portugal D. Sebastião I, o que demonstra sebastianismo. Sendo também uma desintegração, mas também toda ela é cheia de avisos, fortes pressentimentos, de forças latentes prestes a virem à luz: depois da noite e tormenta, vem a calma e a ante-manhã (estes são os tempos).
Estes 44 poemas agrupados em 3 partes, representam as três etapas do Império Português: nascimento, realização e morte, seguida de um renascimento.
Brasão - informações sobre a formação da nacionalidade, heróis lendários e históricos.
Mar Português - descobertas, aventura marítima, conquista do império, (Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce: Tudo vale a pena quando a alma não é pequena) ânsia do desconhecido e esforço heróico da luta com o mar.
O Encoberto - morte das energias de Portugal simbolizada pelo nevoeiro. Afirmação do Sebastianismo. País na estagnação à espera do ressurgir, do aparecer da Nova Luz (Quinto Império).
MENSAGEM
Segunda Parte:
Mar Português
POSSESSIO MARIS
I. O Infante
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
II. Horizonte
Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
’Splendia sobre as naus da iniciação.
Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp’rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.
III. Padrão
O esforço é grande e o homem é pequeno
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.
E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.
IV. O mostrengo
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?”
E o homem do leme disse, tremendo:
“El-Rei D. João Segundo!”
“De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?”
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
“Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?”
E o homem do leme tremeu, e disse:
“El-Rei D. João Segundo!”
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!”
V. Epitáfio de Bartolomeu Dias
Jaz aqui, na pequena praia extrema,
O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,
O mar é o mesmo: já ninguém o tema!
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.
VI. Os Colombos
Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.
Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.
VII. Ocidente
Com duas mãos — o Acto e o Destino —
Desvendámos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o fecho trémulo e divino
E a outra afasta o véu.
Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Ocidente o véu rasgou,
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.
Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.
VIII. Fernão de Magalhães
No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.
De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto —
Cingi-lo, dos homens, o primeiro —,
Na praia ao longe por fim sepulto.
Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.
Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.
IX. Ascensão de Vasco da Gama
Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.
Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões,
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.
X. Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
XI. A Última Nau
Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ânsia e de pressago
Mistério.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.
Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou ’spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.
Não sei a hora, mas sei que há a hora,
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda
Do Império.
XII. Prece
Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.
Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!
(O texto está muito bem apresentado no endereço abaixo)
Fonte: http://www.pessoa-mensagem.blogspot.com/
FLC0383 - Literatura Portuguesa IV - "Mensagem" de Fernando Pessoa
Terceira Parte:
O Encoberto
PAX IN EXCELSIS
I. Os Símbolos
D. Sebastião
’Sperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
O Quinto Império
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz —
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa — os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
O Desejado
Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!
Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia Nova.
Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Graal!
As Ilhas Afortunadas
Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar.
E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.
São ilhas afortunadas
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando
Cala a voz, e há só o mar.
O Encoberto
Que símbolo fecundo
Vem na aurora ansiosa?
Na Cruz morta do Mundo
A Vida, que é a Rosa.
Que símbolo divino
Traz o dia já visto?
Na Cruz, que é o Destino,
A Rosa, que é o Cristo.
Que símbolo final
Mostra o sol já desperto?
Na Cruz morta e fatal
A Rosa do Encoberto.
II. Os Avisos
O Bandarra
Sonhava, anónimo e disperso,
O Império por Deus mesmo visto,
Confuso como o Universo
E plebeu como Jesus Cristo.
Não foi nem santo nem herói,
Mas Deus sagrou com Seu sinal
Este, cujo coração foi
Não português mas Portugal.
António Vieira
O céu ’strela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e à glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.
No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.
Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.
’Screvo meu livro à beira-mágoa.
’Screvo meu livro à beira-mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.
Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?
Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?
Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?
Ah, quando quererás, voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?
III. Os Tempos
Noite
A nau de um deles tinha-se perdido
No mar indefinido.
O segundo pediu licença ao Rei
De, na fé e na lei
Da descoberta, ir em procura
Do irmão no mar sem fim e a névoa escura.
Tempo foi. Nem primeiro nem segundo
Volveu do fim profundo
Do mar ignoto à pátria por quem dera
O enigma que fizera.
Então o terceiro a El-Rei rogou
Licença de os buscar, e El-Rei negou.
*
Como a um cativo, o ouvem a passar
Os servos do solar.
E, quando o vêem, vêem a figura
Da febre e da amargura,
Com fixos olhos rasos de ânsia
Fitando a proibida azul distância.
*
Senhor, os dois irmãos do nosso Nome —
O Poder e o Renome —
Ambos se foram pelo mar da idade
À tua eternidade;
E com eles de nós se foi
O que faz a alma poder ser de herói.
Queremos ir buscá-los, desta vil
Nossa prisão servil:
É a busca de quem somos, na distância
De nós; e, em febre de ânsia,
A Deus as mãos alçamos.
Mas Deus não dá licença que partamos.
Tormenta
Que jaz no abismo sob o mar que se ergue?
Nós, Portugal, o poder ser.
Que inquietação do fundo nos soergue?
O desejar poder querer.
Isto, e o mistério de que a noite é o fausto...
Mas súbito, onde o vento ruge,
O relâmpago, farol de Deus, um hausto
Brilha e o mar ’scuro ’struge.
Calma
Que costa é que as ondas contam
E se não pode encontrar
Por mais naus que haja no mar?
O que é que as ondas encontram
E nunca se vê surgindo?
Este som de o mar praiar
Onde é que está existindo?
Ilha próxima e remota,
Que nos ouvidos persiste,
Para a vista não existe.
Que nau, que armada, que frota
Pode encontrar o caminho
À praia onde o mar insiste,
Se à vista o mar é sozinho?
Haverá rasgões no espaço
Que dêem para outro lado,
E que, um deles encontrado,
Aqui, onde há só sargaço,
Surja uma ilha velada,
O país afortunado
Que guarda o Rei desterrado
Em sua vida encantada?
Antemanhã
O mostrengo que está no fim do mar
Veio das trevas a procurar
A madrugada do novo dia,
Do novo dia sem acabar;
E disse: “Quem é que dorme a lembrar
Que desvendou o Segundo Mundo,
Nem o Terceiro quer desvendar?”
E o som na treva de ele a rodar
Faz mau o sono, triste o sonhar.
Rodou e foi-se o mostrengo servo
Que seu senhor veio aqui buscar.
Que veio aqui seu senhor chamar —
Chamar Aquele que está dormindo
E foi outrora Senhor do Mar.
Nevoeiro
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!
Valete, Fratres.
(O texto está muito bem apresentado no endereço abaixo)
Fonte: http://www.pessoa-mensagem.blogspot.com/
O Encoberto
PAX IN EXCELSIS
I. Os Símbolos
D. Sebastião
’Sperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
O Quinto Império
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz —
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa — os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
O Desejado
Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!
Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia Nova.
Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Graal!
As Ilhas Afortunadas
Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar.
E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.
São ilhas afortunadas
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando
Cala a voz, e há só o mar.
O Encoberto
Que símbolo fecundo
Vem na aurora ansiosa?
Na Cruz morta do Mundo
A Vida, que é a Rosa.
Que símbolo divino
Traz o dia já visto?
Na Cruz, que é o Destino,
A Rosa, que é o Cristo.
Que símbolo final
Mostra o sol já desperto?
Na Cruz morta e fatal
A Rosa do Encoberto.
II. Os Avisos
O Bandarra
Sonhava, anónimo e disperso,
O Império por Deus mesmo visto,
Confuso como o Universo
E plebeu como Jesus Cristo.
Não foi nem santo nem herói,
Mas Deus sagrou com Seu sinal
Este, cujo coração foi
Não português mas Portugal.
António Vieira
O céu ’strela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e à glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.
No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.
Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.
’Screvo meu livro à beira-mágoa.
’Screvo meu livro à beira-mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.
Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?
Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?
Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?
Ah, quando quererás, voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?
III. Os Tempos
Noite
A nau de um deles tinha-se perdido
No mar indefinido.
O segundo pediu licença ao Rei
De, na fé e na lei
Da descoberta, ir em procura
Do irmão no mar sem fim e a névoa escura.
Tempo foi. Nem primeiro nem segundo
Volveu do fim profundo
Do mar ignoto à pátria por quem dera
O enigma que fizera.
Então o terceiro a El-Rei rogou
Licença de os buscar, e El-Rei negou.
*
Como a um cativo, o ouvem a passar
Os servos do solar.
E, quando o vêem, vêem a figura
Da febre e da amargura,
Com fixos olhos rasos de ânsia
Fitando a proibida azul distância.
*
Senhor, os dois irmãos do nosso Nome —
O Poder e o Renome —
Ambos se foram pelo mar da idade
À tua eternidade;
E com eles de nós se foi
O que faz a alma poder ser de herói.
Queremos ir buscá-los, desta vil
Nossa prisão servil:
É a busca de quem somos, na distância
De nós; e, em febre de ânsia,
A Deus as mãos alçamos.
Mas Deus não dá licença que partamos.
Tormenta
Que jaz no abismo sob o mar que se ergue?
Nós, Portugal, o poder ser.
Que inquietação do fundo nos soergue?
O desejar poder querer.
Isto, e o mistério de que a noite é o fausto...
Mas súbito, onde o vento ruge,
O relâmpago, farol de Deus, um hausto
Brilha e o mar ’scuro ’struge.
Calma
Que costa é que as ondas contam
E se não pode encontrar
Por mais naus que haja no mar?
O que é que as ondas encontram
E nunca se vê surgindo?
Este som de o mar praiar
Onde é que está existindo?
Ilha próxima e remota,
Que nos ouvidos persiste,
Para a vista não existe.
Que nau, que armada, que frota
Pode encontrar o caminho
À praia onde o mar insiste,
Se à vista o mar é sozinho?
Haverá rasgões no espaço
Que dêem para outro lado,
E que, um deles encontrado,
Aqui, onde há só sargaço,
Surja uma ilha velada,
O país afortunado
Que guarda o Rei desterrado
Em sua vida encantada?
Antemanhã
O mostrengo que está no fim do mar
Veio das trevas a procurar
A madrugada do novo dia,
Do novo dia sem acabar;
E disse: “Quem é que dorme a lembrar
Que desvendou o Segundo Mundo,
Nem o Terceiro quer desvendar?”
E o som na treva de ele a rodar
Faz mau o sono, triste o sonhar.
Rodou e foi-se o mostrengo servo
Que seu senhor veio aqui buscar.
Que veio aqui seu senhor chamar —
Chamar Aquele que está dormindo
E foi outrora Senhor do Mar.
Nevoeiro
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!
Valete, Fratres.
(O texto está muito bem apresentado no endereço abaixo)
Fonte: http://www.pessoa-mensagem.blogspot.com/
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
FLC0383 - Literatura Portuguesa IV - A Jangada de Pedra, Saramago
FRAGMENTO 3
"MÃE AMOROSA, a Europa afligiu-se com a sorte das suas terras extremas, a ocidente..."
A IBÉRIA PARTIU-SE COMO UMA ROMÃ MADURA
"Não podia a força humana nada a favor duma cordilheira que se abria como uma romã, sem dor aparente, e apenas, quem somos nós para o saber, porque amadurecera e chegara o seu tempo..."
NARRADOR AFIRMA VERACIDADE DO QUE NARRA
"Aqui teria cabimento a lamentação primeira de não ser libreto de ópera este verídico relato, que se o fosse faríamos avançar à boca de cena um concertante como nunca se ouviu..."
E A PENÍNSULA IBÉRICA FOI EMBORA
"[...] chegou o momento de dizer, agora chegou, que a Península Ibérica se afastou de repente, toda por inteiro e por igual, dez súbitos metros, quem me acreditará, abriram-se os Pirenéus de cima a baixo como se um machado invisível tivesse descido das alturas, introduzindo-se nas fendas profundas.."
A PRIMEIRA VÍTIMA DO EVENTO - UM LOBO
"[...] e assim soubemos que todos os cabos de alta tensão entre França e Espanha tinham rebentado, algumas torres caíram... Felizmente o fogo-de-artifício dos curto-circuitos não causou vítimas, maneira de dizer assaz egoísta, porque se é verdade que não morreram pessoas, um lobo, pelo menos, não escapou à fulminação, tornado carvão fumegante."
FRASE MUITO CONVENIENTE
"[...] em geral, as pessoas demoram a perceber e aceitar a gravidade das situações..."
A BABEL DAS EXPLICAÇÕES VAZIAS
"[...] e depois, para acalmação dos ânimos inquietos, apareceram também o rei de lá e o presidente de cá, Friends, Romans, countrymen, lend me your ear, disseram eles, e os portugueses e espanhóis, reunidos nos seus fóruns, responderam a uma só voz, Pois sim, pois sim, words, words, nada mais que words..."
HIPOCRISIAS DIPLOMÁTICAS
"Durante a reunião, como fora combinado previamente, a Comunidade Económica Europeia [...] o deslocamento dos países ibéricos para ocidente não poria em causa os acordos em vigor [...] Esta declaração, objectivamente clara, foi o que resultou de um aceso debate no seio da comissão, em que alguns países membros chegaram a manifestar um certo desprendimento, palavra sobre todas exacta, indo ao ponto de insinuar que se a Península Ibérica se queria ir embora, então que fosse, o erro foi tê-la deixado entrar."
E FECHANDO O CAPÍTULO
"Então, a Península Ibérica moveu-se um pouco mais, um metro, dois metros, a experimentar as forças. As cordas que serviam de testemunhos, lançadas de bordo a bordo, tal qual os bombeiros fazem nas paredes que apresentam rachas e ameaçam desabar, rebentaram como simples cordéis, algumas mais sólidas arrancaram pela raiz as árvores e os postes a que estavam atadas. Houve depois uma pausa, sentiu-se passar nos ares um grande sopro, como a primeira respiração profunda de quem acorda, e a massa de pedra e terra, coberta de cidades, aldeias, rios, bosques, fábricas, matos bravios, campos cultivados, com a sua gente e os seus animais, começou a mover-se, barca que se afasta do porto e aponta ao mar outra vez desconhecido." (que frase bela e poética!)
Bibliografia:
SARAMAGO, José. A jangada de pedra. Companhia de Bolso. Edição 2010. (livro de 1986)
"MÃE AMOROSA, a Europa afligiu-se com a sorte das suas terras extremas, a ocidente..."
A IBÉRIA PARTIU-SE COMO UMA ROMÃ MADURA
"Não podia a força humana nada a favor duma cordilheira que se abria como uma romã, sem dor aparente, e apenas, quem somos nós para o saber, porque amadurecera e chegara o seu tempo..."
NARRADOR AFIRMA VERACIDADE DO QUE NARRA
"Aqui teria cabimento a lamentação primeira de não ser libreto de ópera este verídico relato, que se o fosse faríamos avançar à boca de cena um concertante como nunca se ouviu..."
E A PENÍNSULA IBÉRICA FOI EMBORA
"[...] chegou o momento de dizer, agora chegou, que a Península Ibérica se afastou de repente, toda por inteiro e por igual, dez súbitos metros, quem me acreditará, abriram-se os Pirenéus de cima a baixo como se um machado invisível tivesse descido das alturas, introduzindo-se nas fendas profundas.."
A PRIMEIRA VÍTIMA DO EVENTO - UM LOBO
"[...] e assim soubemos que todos os cabos de alta tensão entre França e Espanha tinham rebentado, algumas torres caíram... Felizmente o fogo-de-artifício dos curto-circuitos não causou vítimas, maneira de dizer assaz egoísta, porque se é verdade que não morreram pessoas, um lobo, pelo menos, não escapou à fulminação, tornado carvão fumegante."
FRASE MUITO CONVENIENTE
"[...] em geral, as pessoas demoram a perceber e aceitar a gravidade das situações..."
A BABEL DAS EXPLICAÇÕES VAZIAS
"[...] e depois, para acalmação dos ânimos inquietos, apareceram também o rei de lá e o presidente de cá, Friends, Romans, countrymen, lend me your ear, disseram eles, e os portugueses e espanhóis, reunidos nos seus fóruns, responderam a uma só voz, Pois sim, pois sim, words, words, nada mais que words..."
HIPOCRISIAS DIPLOMÁTICAS
"Durante a reunião, como fora combinado previamente, a Comunidade Económica Europeia [...] o deslocamento dos países ibéricos para ocidente não poria em causa os acordos em vigor [...] Esta declaração, objectivamente clara, foi o que resultou de um aceso debate no seio da comissão, em que alguns países membros chegaram a manifestar um certo desprendimento, palavra sobre todas exacta, indo ao ponto de insinuar que se a Península Ibérica se queria ir embora, então que fosse, o erro foi tê-la deixado entrar."
E FECHANDO O CAPÍTULO
"Então, a Península Ibérica moveu-se um pouco mais, um metro, dois metros, a experimentar as forças. As cordas que serviam de testemunhos, lançadas de bordo a bordo, tal qual os bombeiros fazem nas paredes que apresentam rachas e ameaçam desabar, rebentaram como simples cordéis, algumas mais sólidas arrancaram pela raiz as árvores e os postes a que estavam atadas. Houve depois uma pausa, sentiu-se passar nos ares um grande sopro, como a primeira respiração profunda de quem acorda, e a massa de pedra e terra, coberta de cidades, aldeias, rios, bosques, fábricas, matos bravios, campos cultivados, com a sua gente e os seus animais, começou a mover-se, barca que se afasta do porto e aponta ao mar outra vez desconhecido." (que frase bela e poética!)
Bibliografia:
SARAMAGO, José. A jangada de pedra. Companhia de Bolso. Edição 2010. (livro de 1986)
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
FLC0383 - Literatura Portuguesa IV - A jangada de pedra
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| Revoada de estorninhos - imagem do Daily Mirror |
Alguns trechos interessantes do capítulo segundo do livro.
FRAGMENTO 2 – A JANGADA DE PEDRA
“A primeira fenda apareceu numa grande laje natural... e por onde agora vagueiam os mal-aventurados cães de Cerbère... um desses cães, de seu nome Ardent, graças ao finíssimo ouvido de que está dotada a espécie, terá percebido o estalar da pedra...”
E a fenda ganha tamanho em distância e lonjura. O cão preferiu a Espanha...
“O cão Ardent rondava, inquieto, mas não podia fugir, atraído por aquela serpente de que já não se via nem a cabeça nem a cauda, e subitamente perdido, sem saber de que lado ficar, se em França, onde estava, se em Espanha, já distante três palmos... de um salto, galgou o abismo, com o perdão do evidente exagero vocabular, e achou-se do lado de aquém, preferiu as regiões infernais...”
A segunda fenda apareceu em Roncesvales. Rios secam e cascatas aparecem entre Espanha e França.
“A expedição partiu no dia seguinte, ainda antes do nascer do sol, caminho da fronteira, sempre ao lado ou à vista do rio seco, e quando os fatigados inspectores lá chegaram compreenderam que nunca mais tornaria a haver Irati. Por uma fenda que não teria mais de uns três metros de largura, as águas precipitavam-se para o interior da terra, rugindo como um pequeno Niágara...”
Interessante a classificação do narrador aqui:
“Um jornalista francês, Michel e cínico, dizia a um seu colega espanhol, sério e Miguel...”
O diferente é a fenda e não a cascata (mas Miguel, o sério, não se lembrou de dizer ao cínico, Michel, que):
“Não se lembrou Miguel de responder-lhe que do lado espanhol dos Pirinéus também não faltam quedas-d’água, e das mui belas e altas, mas que a questão ali era outra, uma cascata a céu aberto não é mistério nenhum, sempre igual, à vista de toda a gente, ao passo que a fenda do Irati, vê-se-lhe o princípio, não se lhe conhece o fim, é como a vida...” (esta observação é do narrador, que o veremos a seguir)
Aqui , o narrador aparece no próprio texto, de forma bem peculiar: só ele ouviu alguém da história falando algo.
“Porém, foi outro jornalista, aliás galego e de passagem, como a galegos acontece tantas vezes, quem lançou a pergunta que ainda faltava fazer, Para onde vai esta água. Era então o tempo em que discutiam, com ciência brusca e seca, os geólogos de ambas as partes, e a pergunta, como de criança tímida, apenas foi ouvida por quem agora a regista.” (BÁRBARO!)
Critica de um português a Portugal:
“A racha tinha então meio palmo de largura, uns quatro metros de comprimento, se tanto. O homem, que era português, de nome Sousa, e viajava com a mulher e os sogros, voltou para o carro e disse, Até parece que já entramos em Portugal, imagina, uma vala enorme, podia amolgar-me as jantes, partir um semieixo.”
METALINGUAGEM: e o narrador fala novamente das técnicas da fala e do discurso:
“não era vala, nem era enorme, mas as palavras, assim nós as fizemos, têm muito de bom, ajudam, só porque as dizemos exageradas logo aliviam os sustos e as emoções, porquê, porque os dramatizam”
Novamente, referência a Portugal destacando sua pequeneza:
“[...] os locutores da televisão, nervosos, liam o último comunicado e davam as suas próprias opiniões, enaltecendo a luta titânica, a gesta colectiva, a solidariedade internacional em acção, até de Portugal, esse pequeno país, saiu um comboio de dez betoneiras, estrada fora, têm à sua frente uma longa viagem, mais de mil e quinhentos quilômetros, esforço extraordinário, não vai ser preciso o betão que trazem, mas a história registará o simbólico gesto”
ESTAVA ESCRITO...
“Pela primeira vez um arrepio de medo perpassou na península e na próxima Europa. Em Cerbère, bem perto dali, as pessoas, correndo para a rua premonitoriamente como o tinham feitos seus cães, diziam umas para as outras, Estava escrito, quando eles ladrassem acabava-se o mundo, e não era precisamente assim, escrito nunca estivera, mas nos grandes momentos precisamos sempre de grandes frases, e esta, Estava escrito, não sabemos que prestígio tem que ocupa o primeiro lugar nos prontuários do estilo fatal.”
E fechando o capítulo:
“De efeitos e causas muito aqui se tem falado, sempre com extremos de ponderação, observando a lógica, respeitando o bom senso, reservando o juízo, pois a todos é patente que de uma betesga ninguém seria capaz de retirar um rossio. Aceitar-se-á, portanto, como natural e legítima, a dúvida de ter sido aquele risco no chão, feito por Joana Carda com a vara de negrilho, causa directa de se estarem rachando os Pirinéus, que é o que tem vindo a ser insinuado desde o princípio. Mas não se rejeite este outro facto, e inteira verdade, que foi partir Joaquim Sassa à procura de Pedro Orce por dele ter ouvido falar nas notícias da noite, e o que disse”
Bibliografia:
SARAMAGO, José. A jangada de pedra. Companhia de Bolso. Edição 2010. (livro de 1986)
FLC0383 - Literatura Portuguesa IV - A jangada de pedra
O primeiro capítulo deste livro é muito importante para a compreensão da obra. Em geral, leio várias vezes o primeiro capítulo. Aqui, separo algumas informações para consulta rápida como, por exemplo, nome das personagens, qual acontecimento está relacionado a cada uma delas, onde estão etc.
FRAGMENTO 1 - A JANGADA DE PEDRA
Personagens:
“Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar...”
Joana está em Portugal e os cães que começam a ladrar estão na França.
“Por estes mesmos dias, talvez antes, talvez depois de ter Joana Carda riscado o chão com a vara de negrilho, andava um homem a passear na praia... e esse homem, que mais tarde dirá chamar-se Joaquim Sassa, ia caminhando acima da linha da maré que distingue as areias secas da areia molhada... Joaquim Sassa atirou a pedra...”
Ao mesmo tempo em que Joaquim Sassa estava atirando a pedra ao mar, Pedro Orce pisava o chão na Espanha...
“Diria Pedro Orce, se tanto ousasse, que a causa de tremer a terra foi ter batido com os pés no chão quando se levantou da cadeira, forte presunção a sua, se não nossa, que levianamente estamos duvidando, se cada pessoa deixa no mundo ao menos um sinal, este poderia ser o de Pedro Orce, por isso, declara, Pus os pés no chão e a terra tremeu...”
“No dia seguinte, um homem atravessava uma planície inculta, de mato e ervaçais alagadiços... este homem não poderia ter escolhido maior solidão e mais subido céu, e por cima dele, voando com inaudito estrépito, acompanhava-o um bando de estorninhos, tantos que faziam uma nuvem escura e enorme, como de tempestade... Recomeçava a andar José Anaiço, era este o seu nome, e os estorninhos levantavam-se de rompão, todos ao mesmo tempo, vruuuuuuuuuu.”
Quem são os personagens?
“E também não perguntemos já a José Anaiço quem é e o que faz na vida, donde veio e para onde vai, o que dele houver de saber-se só por ele se saberá, e esta discrição, esta parcimônia informativa, deverão igualmente contemplar Joana Carda e a sua vara de negrilho, Joaquim Sassa e a pedra que atirou ao mar, Pedro Orce e a cadeira donde se levantou, as vidas não começam quando as pessoas nascem, se assim fosse, cada dia era um dia ganho, as vidas principiam mais tarde, quantas vezes tarde de mais, para não falar daquelas que mal tendo começado já se acabaram, por isso é que o outro gritou, Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido.”
“E agora esta mulher, Maria Guavaira lhe chamam... que subiu ao sótão da casa e encontrou um pé-de-meia velho... e achando-o vazio pôs-se a desfazer-lhe as malhas, por desfastio de quem não tem outra coisa em que ocupar as mãos. Passou uma hora e outra e outra, e o longo fio de lã azul não pára de cair, porém o pé-de-meia parece não diminuir de tamanho, não bastavam os quatro enigmas já falados, este nos demonstra que, ao menos uma vez, o conteúdo pôde ser maior que o continente. A esta casa silenciosa não chega o rumor das ondas do mar, de passarem aves a sombra não escurece a janela, cães haverá mas não ladram, a terra, se tremeu, não treme. Aos pés da desenredadeira o fio é a montanha que vai crescendo. Maria Guavaira não se chama Ariadne, com este fio não sairemos do labirinto, acaso com ele conseguiremos enfim perder-nos. A ponta, onde está.
Bibliografia
SARAMAGO, José. A jangada de pedra. Companhia de Bolso. Edição 2010. (livro de 1986)
FRAGMENTO 1 - A JANGADA DE PEDRA
Personagens:
“Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar...”
Joana está em Portugal e os cães que começam a ladrar estão na França.
“Por estes mesmos dias, talvez antes, talvez depois de ter Joana Carda riscado o chão com a vara de negrilho, andava um homem a passear na praia... e esse homem, que mais tarde dirá chamar-se Joaquim Sassa, ia caminhando acima da linha da maré que distingue as areias secas da areia molhada... Joaquim Sassa atirou a pedra...”
Ao mesmo tempo em que Joaquim Sassa estava atirando a pedra ao mar, Pedro Orce pisava o chão na Espanha...
“Diria Pedro Orce, se tanto ousasse, que a causa de tremer a terra foi ter batido com os pés no chão quando se levantou da cadeira, forte presunção a sua, se não nossa, que levianamente estamos duvidando, se cada pessoa deixa no mundo ao menos um sinal, este poderia ser o de Pedro Orce, por isso, declara, Pus os pés no chão e a terra tremeu...”
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| Estorninho - fonte wikipédia |
“No dia seguinte, um homem atravessava uma planície inculta, de mato e ervaçais alagadiços... este homem não poderia ter escolhido maior solidão e mais subido céu, e por cima dele, voando com inaudito estrépito, acompanhava-o um bando de estorninhos, tantos que faziam uma nuvem escura e enorme, como de tempestade... Recomeçava a andar José Anaiço, era este o seu nome, e os estorninhos levantavam-se de rompão, todos ao mesmo tempo, vruuuuuuuuuu.”
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| Revoada de estorninhos - foto do Daily Mirror |
Quem são os personagens?
“E também não perguntemos já a José Anaiço quem é e o que faz na vida, donde veio e para onde vai, o que dele houver de saber-se só por ele se saberá, e esta discrição, esta parcimônia informativa, deverão igualmente contemplar Joana Carda e a sua vara de negrilho, Joaquim Sassa e a pedra que atirou ao mar, Pedro Orce e a cadeira donde se levantou, as vidas não começam quando as pessoas nascem, se assim fosse, cada dia era um dia ganho, as vidas principiam mais tarde, quantas vezes tarde de mais, para não falar daquelas que mal tendo começado já se acabaram, por isso é que o outro gritou, Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido.”
“E agora esta mulher, Maria Guavaira lhe chamam... que subiu ao sótão da casa e encontrou um pé-de-meia velho... e achando-o vazio pôs-se a desfazer-lhe as malhas, por desfastio de quem não tem outra coisa em que ocupar as mãos. Passou uma hora e outra e outra, e o longo fio de lã azul não pára de cair, porém o pé-de-meia parece não diminuir de tamanho, não bastavam os quatro enigmas já falados, este nos demonstra que, ao menos uma vez, o conteúdo pôde ser maior que o continente. A esta casa silenciosa não chega o rumor das ondas do mar, de passarem aves a sombra não escurece a janela, cães haverá mas não ladram, a terra, se tremeu, não treme. Aos pés da desenredadeira o fio é a montanha que vai crescendo. Maria Guavaira não se chama Ariadne, com este fio não sairemos do labirinto, acaso com ele conseguiremos enfim perder-nos. A ponta, onde está.
Bibliografia
SARAMAGO, José. A jangada de pedra. Companhia de Bolso. Edição 2010. (livro de 1986)
domingo, 7 de novembro de 2010
FLC0383 - Literatura Portuguesa IV - Neo-realismo Português
Cara, estou com meu cérebro bloqueado. E tenho prova daqui a duas semanas da matéria e não sei o que faço para desbloquear a minha mente. Meu ritmo mental durante a greve dos bancários e a eleição presidencial chegou a níveis de excitação alucinantes e até agora a mente está ligada 24 horas em política e mundo.
(Fragmentos do livro "Textos teóricos do neo-realismo português")
Leitura de texto "Apresentação Crítica" de Carlos Reis:
Capítulo 1 - DO REALISMO AO NEO-REALISMO
(com possíveis comentários, se algo vier em mente, ou letras maiores na forma de marcação minha daquilo que acho interessante)
Falar do neo-realismo português em termos globais implica a referência a uma dupla problemática: por um lado, às motivações históricas e socioculturais subjacentes ao movimento em questão; por outro lado, a uma dinâmica de inovação literária obviamente própria de um fenômeno artístico que se apresenta como novo.
Neste segundo aspecto, o movimento neo-realista não constitui apenas uma alternativa a práticas literárias imediatamente anteriores (a literatura presencista, cuja contestação não pode desligar-se, como veremos, das motivações acima mencionadas), mas também no que toca ao próprio realismo oitocentista.
Com efeito, só de forma muito genérica e pouco rigorosa pode dizer-se que o neo-realismo é um prolongamento ou uma simples reedição do realismo, tal como o praticaram autores como Balzac, Flaubert e Eça de Queirós, entre outros.
Se o intuito de representar o real se manifesta em ambos, o certo é que são profundamente diversas as raízes ideológicas, as preferências temáticas e as próprias técnicas literárias utilizadas (1)
1-Note-se que a consciência desta diversidade era assumida já na época da implantação do neo-realismo por um dos seus teóricos mais destacados: "Para o realismo e para o naturalismo a arte deve dar as características naturais das coisas e das pessoas. Para o neo-realismo, a arte deve dar da realidade uma visão social, quer dizer, uma visão em que as características 'naturais' das coisas sejam explicadas pela vida social, pela prática, pelas lutas de interesses, etc" (Rodrigo Soares, Por um Novo Humanismo, Porto, Portugália, s/d., pp. 173/174)
Segue texto...
Deste modo, pode dizer-se, antes de mais, que o neo-realismo procurará superar o que na óptica dos seus cultores, eram duas deficiências básicas: o posicionamento paternalista do escritor que observava a realidade, de certo modo numa perspectiva de intelectual não participante, e os excessos subjectivos da representação realista que (não obstante os esforços despendidos em prol de uma objectividade quase científica) (2) acabavam por aflorar à superfície do discurso.
2-A este propósito, são sintomáticas as seguintes palavras de Flaubert: "Não me reconheço no direito de acusar ninguém. Nem sequer penso que o romancista deva expressar a sua própria opinião acerca das coisas deste mundo. Pode comunicá-la, mas não gosto que a expresse. (Isto faz parte da minha própria doutrina estética particular.)" (Apud Miriam Allott, Los novelistas y la novela, Barcelona, Seix Barral, 1966, p.123)
COMENTÁRIO: neste blog, postei um dos contos mais chocantes que já li: "Dois amigos" de Guy de Maupassant, discípulo de Flaubert. Maupassant tem a capacidade de unir as grandes descrições com uma temática que evidencia o horror da guerra, e dessa forma, acaba ponto o dedo na ferida como escritor.
EU, PARTICULARMENTE, NÃO ME ENCANTO COM ESTA POSTURA FRIA E DISTANTE DO ESCRITOR EM RELAÇÃO AO SEU TEMPO E SEU MUNDO. ACHO MUITO CÔMODO AGIR ASSIM. Por exemplo: durante uma guerra civil ou grande polêmica que envolva vidas humanas, ficar-se usando como temática a descrição das flores e o efeito delas na vida das pessoas. Ou algo do gênero.
Segue o texto...
Se a atitude de compromisso literário abertamente assumida como princípio irrevogável da estética neo-realista conseguiu, em boa parte, eliminar o paternalismo referido, já o mesmo se não pode dizer da eliminação da subjectividade. De facto, a escrita totalmente neutra constituía não só, em certa medida, uma limitação da militância pressuposta no citado empenhamento literário, como sobretudo a expressão verbal do fenômeno literário inviabilizava, desde logo, um discurso desprovido de subjectividade (3). Isto sem esquecer que também a necessária mediação estética inerente à utilização de códigos técnico-literários (da simples figura de retórica à estruturação da narrativa) implica uma considerável intervenção subjectiva e, por conseguinte, a inviabilidade de um puro reflexo do real.
3-Sobre este assunto, ver E. Benveniste, "Da subjectividade na linguagem", in O Homem na Linguagem, Lisboa, Arcádia, 1976, 00. 57-65.
Segue texto...
Mas o domínio em que as distâncias entre realismo e neo-realismo mais pronunciadamente se cavam é o das referências ideológicas (4). Assim, se o realismo oitocentista se ligava, em termos globais, a um pensamento de tipo materialista (positivista, no caso do naturalismo, que foi a sua extensão literária) ou genericamente, anti-idealista, o neo-realismo baseia-se numa concepção marxista do fenômeno literário. Daí que o escritor comece por afirmar a sua condição de entidade socialmente posicionada e, por isso, sintonizada com os problemas sociais, políticos e econômicos do seu tempo;
4-As diferenças ideológicas entre a Geração de 70 e a neo-realista, sobretudo no que respeita à concepção do socialismo e aos seus fundamentos filosóficos, foram sinteticamente analisadas por A. Pinheiro Torres em O Neo-Realismo Literário Português, Lisboa, Moraes Editores, 1977, 00. 9-16, e em Portugal na Sua Primeira Fase, Lisboa, Instituto de Cultura Portuguesa, 1977, 00. 20 e ss.
segue texto...
assim, encarando a literatura como uma forma de consciência social, o neo-realismo valoriza a dimensão ideológica da criação literária, bem como a sua capacidade de intervenção sociopolítica, à luz dos princípios fundamentais do materialismo histórico. Com base nestas coordenadas, à literatura cabe fundamentalmente uma missão desmistificadora de contradições de natureza socioeconômica, sobretudo concretizada pela sua possibilidade de, articulando-se com a história, reflectir essas realidades normalmente deprimentes (5).
5-Tanto a problemática do reflexo como a da capacidade de intervenção política da obra literária têm sido objecto de correcções e clarificações tendentes a esvaziá-las do cunho imediatista e especular que, à primeira vista, revelam: "Do mesmo modo, o dogmatismo estético manifesta-se ainda na afirmação de um elo rectilíneo entre a arte e a política. Para ele, o elemento político e o aspecto artístico coexistem na obra como dois princípios autônomos, e é o primeiro que determina o valor do segundo. [...] As concepções vulgares e dogmáticas das relações entre a arte e a política são profundamente estranhas à estética marxista-leninista. É absurdo querer substituir a representação fiel e multiforme da realidade por uma ilustração didáctica das directrizes políticas, já que isso reduz inevitavelmente a força de persuasão da arte e, consequentemente, a sua eficácia social. É a representação fiel e verídica do real, a acentuação das principais tendências da vida social, que determinam o alcance social e político da arte progressista." (Avner Ziss, Éléments d'esthétique marxiste, Moscou, Les Editions du Progrès, 1977, 00. 58-59)
segue texto...
São estes fundamentos ideológicos que explicam as opções temáticas mais significativas do neo-realismo. Factor de primacial importância na concretização do programa sociocultural inerente à literatura neo-realista, a temática constitui um dos domínios fundamentais de toda a obra literária de feição comprometida e interventora, já que é no seu domínio que se insinuam as grandes coordenadas semânticas determinadas pela ideologia que lhes está subjacente; por isso, também neste aspecto é possível ver com clareza as linhas de clivagem que separam o neo-realismo dos interesses temáticos do realismo, os quais diziam respeito fundamentalmente ao modo de vida e às preocupações da burguesia: usura, adultério, educação, ambição, etc.
Por seu turno, ao longo do percurso literário neo-realista, os temas mais visados serão aqueles que se ligam ao proletariado e à sua condição econômica: conflito social, alienação e consciência de classe, posse da terra, opressão, decadência dos estratos dominantes, etc.
Se os elementos descritos deixam perceber que, quase cem anos depois do realismo, o neo-realismo procurou trilhar uma via própria e bem individualizada, eles não são, todavia, suficientes para apreendermos os obstáculos que se levantaram ao movimento em análise, na sua fase de afirmação. Para melhor captarmos as motivações histórico-culturais que presidiram à constituição do neo-realismo, importa, pois, ter em conta a dinâmica de evolução literária imediatamente anterior às primeiras experiências neo-realistas.
Bibliografia:
REIS, Carlos. Textos teóricos do neo-realismo português. Seara Nova, Editorial Comunicação, 1981.
(Fragmentos do livro "Textos teóricos do neo-realismo português")
Leitura de texto "Apresentação Crítica" de Carlos Reis:
Capítulo 1 - DO REALISMO AO NEO-REALISMO
(com possíveis comentários, se algo vier em mente, ou letras maiores na forma de marcação minha daquilo que acho interessante)
Falar do neo-realismo português em termos globais implica a referência a uma dupla problemática: por um lado, às motivações históricas e socioculturais subjacentes ao movimento em questão; por outro lado, a uma dinâmica de inovação literária obviamente própria de um fenômeno artístico que se apresenta como novo.
Neste segundo aspecto, o movimento neo-realista não constitui apenas uma alternativa a práticas literárias imediatamente anteriores (a literatura presencista, cuja contestação não pode desligar-se, como veremos, das motivações acima mencionadas), mas também no que toca ao próprio realismo oitocentista.
Com efeito, só de forma muito genérica e pouco rigorosa pode dizer-se que o neo-realismo é um prolongamento ou uma simples reedição do realismo, tal como o praticaram autores como Balzac, Flaubert e Eça de Queirós, entre outros.
Se o intuito de representar o real se manifesta em ambos, o certo é que são profundamente diversas as raízes ideológicas, as preferências temáticas e as próprias técnicas literárias utilizadas (1)
1-Note-se que a consciência desta diversidade era assumida já na época da implantação do neo-realismo por um dos seus teóricos mais destacados: "Para o realismo e para o naturalismo a arte deve dar as características naturais das coisas e das pessoas. Para o neo-realismo, a arte deve dar da realidade uma visão social, quer dizer, uma visão em que as características 'naturais' das coisas sejam explicadas pela vida social, pela prática, pelas lutas de interesses, etc" (Rodrigo Soares, Por um Novo Humanismo, Porto, Portugália, s/d., pp. 173/174)
Segue texto...
Deste modo, pode dizer-se, antes de mais, que o neo-realismo procurará superar o que na óptica dos seus cultores, eram duas deficiências básicas: o posicionamento paternalista do escritor que observava a realidade, de certo modo numa perspectiva de intelectual não participante, e os excessos subjectivos da representação realista que (não obstante os esforços despendidos em prol de uma objectividade quase científica) (2) acabavam por aflorar à superfície do discurso.
2-A este propósito, são sintomáticas as seguintes palavras de Flaubert: "Não me reconheço no direito de acusar ninguém. Nem sequer penso que o romancista deva expressar a sua própria opinião acerca das coisas deste mundo. Pode comunicá-la, mas não gosto que a expresse. (Isto faz parte da minha própria doutrina estética particular.)" (Apud Miriam Allott, Los novelistas y la novela, Barcelona, Seix Barral, 1966, p.123)
COMENTÁRIO: neste blog, postei um dos contos mais chocantes que já li: "Dois amigos" de Guy de Maupassant, discípulo de Flaubert. Maupassant tem a capacidade de unir as grandes descrições com uma temática que evidencia o horror da guerra, e dessa forma, acaba ponto o dedo na ferida como escritor.
EU, PARTICULARMENTE, NÃO ME ENCANTO COM ESTA POSTURA FRIA E DISTANTE DO ESCRITOR EM RELAÇÃO AO SEU TEMPO E SEU MUNDO. ACHO MUITO CÔMODO AGIR ASSIM. Por exemplo: durante uma guerra civil ou grande polêmica que envolva vidas humanas, ficar-se usando como temática a descrição das flores e o efeito delas na vida das pessoas. Ou algo do gênero.
Segue o texto...
Se a atitude de compromisso literário abertamente assumida como princípio irrevogável da estética neo-realista conseguiu, em boa parte, eliminar o paternalismo referido, já o mesmo se não pode dizer da eliminação da subjectividade. De facto, a escrita totalmente neutra constituía não só, em certa medida, uma limitação da militância pressuposta no citado empenhamento literário, como sobretudo a expressão verbal do fenômeno literário inviabilizava, desde logo, um discurso desprovido de subjectividade (3). Isto sem esquecer que também a necessária mediação estética inerente à utilização de códigos técnico-literários (da simples figura de retórica à estruturação da narrativa) implica uma considerável intervenção subjectiva e, por conseguinte, a inviabilidade de um puro reflexo do real.
3-Sobre este assunto, ver E. Benveniste, "Da subjectividade na linguagem", in O Homem na Linguagem, Lisboa, Arcádia, 1976, 00. 57-65.
Segue texto...
Mas o domínio em que as distâncias entre realismo e neo-realismo mais pronunciadamente se cavam é o das referências ideológicas (4). Assim, se o realismo oitocentista se ligava, em termos globais, a um pensamento de tipo materialista (positivista, no caso do naturalismo, que foi a sua extensão literária) ou genericamente, anti-idealista, o neo-realismo baseia-se numa concepção marxista do fenômeno literário. Daí que o escritor comece por afirmar a sua condição de entidade socialmente posicionada e, por isso, sintonizada com os problemas sociais, políticos e econômicos do seu tempo;
4-As diferenças ideológicas entre a Geração de 70 e a neo-realista, sobretudo no que respeita à concepção do socialismo e aos seus fundamentos filosóficos, foram sinteticamente analisadas por A. Pinheiro Torres em O Neo-Realismo Literário Português, Lisboa, Moraes Editores, 1977, 00. 9-16, e em Portugal na Sua Primeira Fase, Lisboa, Instituto de Cultura Portuguesa, 1977, 00. 20 e ss.
segue texto...
assim, encarando a literatura como uma forma de consciência social, o neo-realismo valoriza a dimensão ideológica da criação literária, bem como a sua capacidade de intervenção sociopolítica, à luz dos princípios fundamentais do materialismo histórico. Com base nestas coordenadas, à literatura cabe fundamentalmente uma missão desmistificadora de contradições de natureza socioeconômica, sobretudo concretizada pela sua possibilidade de, articulando-se com a história, reflectir essas realidades normalmente deprimentes (5).
5-Tanto a problemática do reflexo como a da capacidade de intervenção política da obra literária têm sido objecto de correcções e clarificações tendentes a esvaziá-las do cunho imediatista e especular que, à primeira vista, revelam: "Do mesmo modo, o dogmatismo estético manifesta-se ainda na afirmação de um elo rectilíneo entre a arte e a política. Para ele, o elemento político e o aspecto artístico coexistem na obra como dois princípios autônomos, e é o primeiro que determina o valor do segundo. [...] As concepções vulgares e dogmáticas das relações entre a arte e a política são profundamente estranhas à estética marxista-leninista. É absurdo querer substituir a representação fiel e multiforme da realidade por uma ilustração didáctica das directrizes políticas, já que isso reduz inevitavelmente a força de persuasão da arte e, consequentemente, a sua eficácia social. É a representação fiel e verídica do real, a acentuação das principais tendências da vida social, que determinam o alcance social e político da arte progressista." (Avner Ziss, Éléments d'esthétique marxiste, Moscou, Les Editions du Progrès, 1977, 00. 58-59)
segue texto...
São estes fundamentos ideológicos que explicam as opções temáticas mais significativas do neo-realismo. Factor de primacial importância na concretização do programa sociocultural inerente à literatura neo-realista, a temática constitui um dos domínios fundamentais de toda a obra literária de feição comprometida e interventora, já que é no seu domínio que se insinuam as grandes coordenadas semânticas determinadas pela ideologia que lhes está subjacente; por isso, também neste aspecto é possível ver com clareza as linhas de clivagem que separam o neo-realismo dos interesses temáticos do realismo, os quais diziam respeito fundamentalmente ao modo de vida e às preocupações da burguesia: usura, adultério, educação, ambição, etc.
Por seu turno, ao longo do percurso literário neo-realista, os temas mais visados serão aqueles que se ligam ao proletariado e à sua condição econômica: conflito social, alienação e consciência de classe, posse da terra, opressão, decadência dos estratos dominantes, etc.
Se os elementos descritos deixam perceber que, quase cem anos depois do realismo, o neo-realismo procurou trilhar uma via própria e bem individualizada, eles não são, todavia, suficientes para apreendermos os obstáculos que se levantaram ao movimento em análise, na sua fase de afirmação. Para melhor captarmos as motivações histórico-culturais que presidiram à constituição do neo-realismo, importa, pois, ter em conta a dinâmica de evolução literária imediatamente anterior às primeiras experiências neo-realistas.
Bibliografia:
REIS, Carlos. Textos teóricos do neo-realismo português. Seara Nova, Editorial Comunicação, 1981.
sábado, 6 de novembro de 2010
FLC0383 - Literatura Portuguesa IV - A jangada de pedra
Muito interessante este trecho da obra onde o narrador nos fala da dificuldade em descrever a simultaneidade temporal de acontecimentos vários em relação a narração ou escrita.
A JANGADA DE PEDRA – JOSÉ SARAMAGO
A QUESTÃO DA METALINGUAGEM
“Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores, basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias, o passado como se tivesse sido agora, o presente como um contínuo sem princípio nem fim, mas, por muito que se esforcem os autores, uma habilidade não podem cometer, pôr por escrito, no mesmo tempo, dois casos no mesmo tempo acontecidos. Há quem julgue que a dificuldade fica resolvida dividindo a página em duas colunas, lado a lado, mas o ardil é ingênuo, porque primeiro se escreveu uma e só depois a outra, sem esquecer que o leitor terá de ler primeiro esta e depois aquela, ou vice-versa, quem está bem são os cantores de ópera, cada um com a sua parte nos concertantes, três quatro cinco seis entre tenores baixos sopranos e barítonos, todos a cantar palavras diferentes, por exemplo, o cínico escarnecendo, a ingênua suplicando, o galã tardo em acudir, ao espectador o que lhe interessa é a música, já o leitor não é assim, quer tudo explicado, sílaba por sílaba e uma após outra, como aqui se mostram” p.11
Bibliografia
SARAMAGO, José. A jangada de pedra. Companhia de Bolso. Edição 2010. (livro de 1986)
A JANGADA DE PEDRA – JOSÉ SARAMAGO
A QUESTÃO DA METALINGUAGEM
“Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores, basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias, o passado como se tivesse sido agora, o presente como um contínuo sem princípio nem fim, mas, por muito que se esforcem os autores, uma habilidade não podem cometer, pôr por escrito, no mesmo tempo, dois casos no mesmo tempo acontecidos. Há quem julgue que a dificuldade fica resolvida dividindo a página em duas colunas, lado a lado, mas o ardil é ingênuo, porque primeiro se escreveu uma e só depois a outra, sem esquecer que o leitor terá de ler primeiro esta e depois aquela, ou vice-versa, quem está bem são os cantores de ópera, cada um com a sua parte nos concertantes, três quatro cinco seis entre tenores baixos sopranos e barítonos, todos a cantar palavras diferentes, por exemplo, o cínico escarnecendo, a ingênua suplicando, o galã tardo em acudir, ao espectador o que lhe interessa é a música, já o leitor não é assim, quer tudo explicado, sílaba por sílaba e uma após outra, como aqui se mostram” p.11
Bibliografia
SARAMAGO, José. A jangada de pedra. Companhia de Bolso. Edição 2010. (livro de 1986)
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
FLC0383 - Literatura Portuguesa IV - Mário Cláudio e a Peregrinação...
Programa do 2o semestre de 2010 - prof. Helder Garmes
O ROMANCE E OS SENTIDOS DO IMPÉRIO PORTUGUÊS NO SÉCULO XX
O curso pretende estudar quatro romances tendo no horizonte o imaginário acerca do colonialismo português, partindo do livro de poemas Mensagem (1934), de Fernando Pessoa.
Os romances estudados são:
-Uma abelha na chuva (1953) de Carlos Oliveira,
-Os cus de Judas (1979) de Antonio Lobo Antunes,
-Jangada de pedra (1986) de José Saramago e
-Peregrinação de Barnabé das Índias (1998) de Mário Cláudio.
Privilegiando a relação entre literatura e história cultural de Portugal, realiza-se um percurso que parte da utopia de base sebastianista presente no livro de poemas de Pessoa (referência paradigmática desse projeto), segue pelo período da ditadura de Salazar e chega até as ressignificações do império no período pós-colonial.
Nesse percurso, será privilegiada a análise do foco narrativo, ainda que outros aspectos formais do romance sejam também contemplados.
PEREGRINAÇÃO DE BARNABÉ DAS ÍNDIAS - MÁRIO CLÁUDIO
AULAS:
-Maria Alzira Seixo, Literatura e história: poética da descoincidência em As peregrinações de Barnabé das Índias, de Mário Cláudio, p.231-241
-Foco narrativo em As peregrinações de Barnabé das Índias, Mário Cláudio
Biografia do autor:
Mário Cláudio, pseudónimo de Rui Manuel Pinto Barbot Costa, nasceu no Porto em 1941. Frequentou o curso de Direito em Lisboa, tendo-o terminado na Universidade de Coimbra. Frequentou a Universidade de Londres, graduando-se como Master of Arts. De regresso a Portugal, tem exercido funções como técnico do Museu Nacional de Literatura e como professor universitário. Ganhou o prémio APE de Romance e Novela em 1984 com a obra Amadeo. É considerado um dos mais importantes autores portugueses das últimas duas décadas. Embora se tenha dedicado à poesia, ao teatro e ao ensaio, é no romance que Mário Cláudio mais se tem destacado. Em 2004 foi agraciado com o Prémio Fernando Pessoa.
Fonte: http://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=73#ixzz14PVQCznZ
Resenha do romance:
Mário Cláudio
È um romance que tem por base as viagens realizadas por Vasco da Gama que está encerrado nas quase 300 páginas deste livro. Descritivo, minucioso e, acima de tudo, realista, Mário Cláudio apresenta uma obra de extrema importância no que respeita à história de Portugal.
Um trabalho que começou por ser esboçado no livro Itinerários, onde o escritor nortenho cria o Barnabé. Personagem central deste livro. Barnabé aparece agora na Peregrinação como mestre cozinheiro de uma nau que parte rumo ao Brasil. Nascido no concelho de Lamego, judeu de raiz e cristão forçado, este marinheiro acaba por ser um retracto das personagens que povoavam aqueles barcos que tinham um destino incerto. Mário Claúdio acaba por cruzar os destinos de Barnabé com os de Vasco da Gama e reúne neste livro “uma oculta viagem que deve ser relatada aos que possuírem ouvidos para ouvir”.
Nesta viagem alucinante, por mares repletos de perigos e incertezas, tão depressa as personagens revelam o que lhes vai na alma, como se fecham e debatem entre si e com o mar, o enorme mar que parece nunca ter fim. Mário Cláudio reúne nesta obra diversas interpretações de diferentes textos históricos sem conferir as precisões factuais a que estes estão obrigados, dando assim uma visão diferente dos feitos portugueses.
Fonte: http://www.urbi.ubi.pt/060523/edicao/_slivro.html
PEREGRINAÇÃO DE BARNABÉ DAS ÍNDIAS – MÁRIO CLÁUDIO (1998)
LEITURA DO TEXTO DE MARIA ALZIRA SEIXO (comentário: o texto é bastante complexo!)
Poética da descoincidência em Peregrinação de Barnabé das Índias, de Mário Cláudio. (In: Literatura e História)
O TEXTO ABAIXO É COMPOSTO DE CITAÇÕES DO TEXTO ORIGINAL. É UM RESUMO PARA MEUS ESTUDOS
Relações tecidas entre Literatura e História e perspectivas de trabalho:
1. através da História Literária – ao modo dos formalistas russos: captação do sentido evolutivo dos modos de escrever, ler, ensinar e difundir a literatura; ideia de determinação de uma qualidade estética, perspectiva encontrada no “romance histórico” (no sentido de Lukács).
2. através da interdisciplinaridade – aqui entendendo os Estudos Literários. Um estudo deste tipo é o que mais diretamente pede um livro como Guerra e Paz, de articulação efabulativa a convocar o conhecimento da história europeia e dos estudos sobre a guerra.
3. através do estudo da História entendida em sentido corrente, isto é, como memória de um passado humano coletivo, que é passível de ser reconstituído através de várias formulações verbais (ficcional, memorialística, científica, etc), e desse modo pode ser encarada nos Estudos Literários enquanto tema, assunto ou motivo de textualização.
4. através da acepção de história como movimento accional de um texto, como intricado de problemas e atuações, como “plot”, intriga, fabula, e consequente efabulação, como quando se diz que um romance, ou um poema, “contam uma história”.
Contar uma história é remeter para situações idênticas, porque se reportam a um mundo “real” (circunstancial) ou imaginário ou da memória, e muitas vezes da memória comum, por onde vamos ter à História outra vez, e nomeadamente à História Literária.
Estudar, desta perspectiva, Os Lusíadas e a reescrita da História de Portugal, e dos documentos escritos que lhe dão azo, pode ser um modo privilegiado de continuar a entender estas relações.
ARTICULAÇÃO DA VISÃO DO COTIDIANO E DOS SEUS EVENTOS COM O PROCESSO TEMPORAL
Poderemos encarar ainda um tipo de reflexão muito fecundo, neste campo, para a literatura contemporânea, muito embora tenha as suas raízes no período seiscentista europeu e conheça o seu aperfeiçoamento com o romance realista-naturalista, que é o que articula a visão do quotidiano e dos seus eventos com o processo temporal que lhes dá corpo, determinado por uma subjetivação experienciada e questionadora. O discurso do texto que organiza os romances de José Saramago, de Mário Cláudio e de Antônio Lobo Antunes é um dos que mais proveito poderemos para tal utilizar.
O ROMANCE E OS SENTIDOS DO IMPÉRIO PORTUGUÊS NO SÉCULO XX
O curso pretende estudar quatro romances tendo no horizonte o imaginário acerca do colonialismo português, partindo do livro de poemas Mensagem (1934), de Fernando Pessoa.
Os romances estudados são:
-Uma abelha na chuva (1953) de Carlos Oliveira,
-Os cus de Judas (1979) de Antonio Lobo Antunes,
-Jangada de pedra (1986) de José Saramago e
-Peregrinação de Barnabé das Índias (1998) de Mário Cláudio.
Privilegiando a relação entre literatura e história cultural de Portugal, realiza-se um percurso que parte da utopia de base sebastianista presente no livro de poemas de Pessoa (referência paradigmática desse projeto), segue pelo período da ditadura de Salazar e chega até as ressignificações do império no período pós-colonial.
Nesse percurso, será privilegiada a análise do foco narrativo, ainda que outros aspectos formais do romance sejam também contemplados.
PEREGRINAÇÃO DE BARNABÉ DAS ÍNDIAS - MÁRIO CLÁUDIO
AULAS:
-Maria Alzira Seixo, Literatura e história: poética da descoincidência em As peregrinações de Barnabé das Índias, de Mário Cláudio, p.231-241
-Foco narrativo em As peregrinações de Barnabé das Índias, Mário Cláudio
Biografia do autor:
Mário Cláudio, pseudónimo de Rui Manuel Pinto Barbot Costa, nasceu no Porto em 1941. Frequentou o curso de Direito em Lisboa, tendo-o terminado na Universidade de Coimbra. Frequentou a Universidade de Londres, graduando-se como Master of Arts. De regresso a Portugal, tem exercido funções como técnico do Museu Nacional de Literatura e como professor universitário. Ganhou o prémio APE de Romance e Novela em 1984 com a obra Amadeo. É considerado um dos mais importantes autores portugueses das últimas duas décadas. Embora se tenha dedicado à poesia, ao teatro e ao ensaio, é no romance que Mário Cláudio mais se tem destacado. Em 2004 foi agraciado com o Prémio Fernando Pessoa.
Fonte: http://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=73#ixzz14PVQCznZ
Resenha do romance:
Mário Cláudio
È um romance que tem por base as viagens realizadas por Vasco da Gama que está encerrado nas quase 300 páginas deste livro. Descritivo, minucioso e, acima de tudo, realista, Mário Cláudio apresenta uma obra de extrema importância no que respeita à história de Portugal.
Um trabalho que começou por ser esboçado no livro Itinerários, onde o escritor nortenho cria o Barnabé. Personagem central deste livro. Barnabé aparece agora na Peregrinação como mestre cozinheiro de uma nau que parte rumo ao Brasil. Nascido no concelho de Lamego, judeu de raiz e cristão forçado, este marinheiro acaba por ser um retracto das personagens que povoavam aqueles barcos que tinham um destino incerto. Mário Claúdio acaba por cruzar os destinos de Barnabé com os de Vasco da Gama e reúne neste livro “uma oculta viagem que deve ser relatada aos que possuírem ouvidos para ouvir”.
Nesta viagem alucinante, por mares repletos de perigos e incertezas, tão depressa as personagens revelam o que lhes vai na alma, como se fecham e debatem entre si e com o mar, o enorme mar que parece nunca ter fim. Mário Cláudio reúne nesta obra diversas interpretações de diferentes textos históricos sem conferir as precisões factuais a que estes estão obrigados, dando assim uma visão diferente dos feitos portugueses.
Fonte: http://www.urbi.ubi.pt/060523/edicao/_slivro.html
PEREGRINAÇÃO DE BARNABÉ DAS ÍNDIAS – MÁRIO CLÁUDIO (1998)
LEITURA DO TEXTO DE MARIA ALZIRA SEIXO (comentário: o texto é bastante complexo!)
Poética da descoincidência em Peregrinação de Barnabé das Índias, de Mário Cláudio. (In: Literatura e História)
O TEXTO ABAIXO É COMPOSTO DE CITAÇÕES DO TEXTO ORIGINAL. É UM RESUMO PARA MEUS ESTUDOS
Relações tecidas entre Literatura e História e perspectivas de trabalho:
1. através da História Literária – ao modo dos formalistas russos: captação do sentido evolutivo dos modos de escrever, ler, ensinar e difundir a literatura; ideia de determinação de uma qualidade estética, perspectiva encontrada no “romance histórico” (no sentido de Lukács).
2. através da interdisciplinaridade – aqui entendendo os Estudos Literários. Um estudo deste tipo é o que mais diretamente pede um livro como Guerra e Paz, de articulação efabulativa a convocar o conhecimento da história europeia e dos estudos sobre a guerra.
3. através do estudo da História entendida em sentido corrente, isto é, como memória de um passado humano coletivo, que é passível de ser reconstituído através de várias formulações verbais (ficcional, memorialística, científica, etc), e desse modo pode ser encarada nos Estudos Literários enquanto tema, assunto ou motivo de textualização.
4. através da acepção de história como movimento accional de um texto, como intricado de problemas e atuações, como “plot”, intriga, fabula, e consequente efabulação, como quando se diz que um romance, ou um poema, “contam uma história”.
Contar uma história é remeter para situações idênticas, porque se reportam a um mundo “real” (circunstancial) ou imaginário ou da memória, e muitas vezes da memória comum, por onde vamos ter à História outra vez, e nomeadamente à História Literária.
Estudar, desta perspectiva, Os Lusíadas e a reescrita da História de Portugal, e dos documentos escritos que lhe dão azo, pode ser um modo privilegiado de continuar a entender estas relações.
ARTICULAÇÃO DA VISÃO DO COTIDIANO E DOS SEUS EVENTOS COM O PROCESSO TEMPORAL
Poderemos encarar ainda um tipo de reflexão muito fecundo, neste campo, para a literatura contemporânea, muito embora tenha as suas raízes no período seiscentista europeu e conheça o seu aperfeiçoamento com o romance realista-naturalista, que é o que articula a visão do quotidiano e dos seus eventos com o processo temporal que lhes dá corpo, determinado por uma subjetivação experienciada e questionadora. O discurso do texto que organiza os romances de José Saramago, de Mário Cláudio e de Antônio Lobo Antunes é um dos que mais proveito poderemos para tal utilizar.
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