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sábado, 3 de janeiro de 2026

Acontecimentos imponderáveis apressam mudanças



Refeição Cultural

03/01/26


Opinião

Ao acordar, soube que os Estados Unidos bombardearam a Venezuela e sumiram com o presidente do país sul-americano, Nicolás Maduro. O objetivo do ataque dos norte-americanos é roubar o petróleo e as riquezas minerais do país. 

Anos antes, no Brasil das reservas petrolíferas do pré-sal, um golpe de Estado era executado no país para roubar o nosso petróleo. Os agentes norte-americanos tinham os lacaios necessários por aqui para executar o golpe "com o Supremo, com tudo".

Não foi preciso bombardear e matar brasileiros, pois temos a maior quantidade de traidores da pátria por metro quadrado no mundo. A operação Lava Jato e a casa-grande entregaram tudo, tudo, em troca de uns passeios na Disney.

O presente e o futuro imediato do Brasil, das Américas do Sul e Central e Caribe são incertos em todas as medidas, em todas as dimensões da vida. O imponderável foi causado pelos nossos inimigos de classe como estratégia para a mudança de cenário. 

Este blogueiro terá que ter muito foco e disciplina para levar adiante algumas tarefas que definiu para si. Escrever o que sabe será prioritário quando fazer volume em eventos políticos competir com a tarefa.

A sistematização e encadernação de seus milhares de textos produzidos nas últimas duas décadas deve ser sua prioridade. As big techs serão parte central nas guerras do momento. E as guerras são contra nós. 

Escrever o livro de memórias da CASSI também deve ser parte de seu cotidiano em 2026. Memórias só permanecem no mundo se estiverem registradas e preservadas em meios duráveis. Só nas minhas células não durarão muito. 

William Mendes


Post Scriptum

Horas antes, às 8h56, havia postado a seguinte declaração em meu perfil do Facebook:

SOLIDARIEDADE A VENEZUELA E SEU POVO, NOSSOS IRMÃOS SUL-AMERICANOS

O IMPONDERÁVEL (aquilo que está fora de nosso controle e que pode ser uma ação de nosso inimigo para mudar uma situação ou contexto, mudando um futuro possível e vislumbrado)

O ataque infame sofrido hoje pela Venezuela exige unidade da esquerda, pois nosso futuro está sob ameaça. Hoje Venezuela é bombardeada e recebe a morte através das armas do imperialismo, amanhã seremos nós.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

90 de 100 dias



ELEIÇÕES MUNICIPAIS 

Opinião

90. Ouvi nesta semana algumas avaliações políticas que me deixaram pensativo. Desde que me politizei com os bancários da CUT, passei a manter a mente aberta às argumentações das pessoas. Estar aberto a ideias diferentes das minhas quer dizer aceitar a possibilidade de ser convencido a mudar de opinião e incorporar a proposição do outro.

Ao ouvir o jurista Pedro Serrano desenvolver suas opiniões sobre mais ou menos interferência do poder judiciário na política, enquanto princípio, concordei com ele. Ele acha que sujeitos como esses bolsonaristas extremistas deveriam ser derrotados na política, nas ruas. 

Ele respondia a jornalistas sobre aquele desqualificado que está disputando as eleições paulistanas e que comete barbaridades o tempo inteiro como ato estratégico de campanha para capturar a atenção das pessoas pelo grotesco e bizarro.

O "coach" vem crescendo nas pesquisas com seu jeito criminoso de fazer campanha. Pelo que se sabe até agora, pela imprensa progressista, o cara não poderia seguir candidato pelas ilegalidades que já cometeu. Vamos ver o que vai dar. 

Mas, enquanto princípio, concordo com Pedro Serrano que a esquerda e os movimentos populares deveriam apostar mais nas ruas e não no poder da justiça burguesa, que é conservadora e reacionária. Mudanças sociais só se darão pela participação popular, pela pressão das ruas. E a esquerda, está chamando o povo para as ruas?

Aliás, multipliquem esse caso de destaque, o "coach" que indicava vítimas para serem roubadas - candidatura com visibilidade grande por se tratar da gigante cidade de São Paulo - por centenas de casos semelhantes Brasil afora. Como parar isso? Como chamar isso de "democracia"? 

Já se demonstram nas notícias os esquemas de abuso de poder econômico na candidatura do cara. Democracia ou plutocracia? Onde está a igualdade de condições?

A esquerda deveria estar politizando os trabalhadores, explicando e pautando, defendendo que eleições não podem ter nenhum recurso financeiro e econômico além do conhecimento que as pessoas tenham em suas comunidades por alguma referência que elas sejam. Se tiver financiamento, que seja 100% público e isonômico a todas as candidaturas. (e com suspensão das plataformas digitais no período eleitoral: 99% dos que se destacam é pelo poder do dinheiro)

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A "ESQUERDA" DEVE VOLTAR A SER DE ESQUERDA 

Nosso campo político está burocratizado, perdeu a referência histórica de nosso papel em relação ao mundo que queremos, que defendemos, um mundo socialista ou comunista. Sem recuperar nossa postura, nada de relevante vai mudar na sociedade humana. 

Se nosso campo seguir defendendo o capitalismo, o neoliberalismo, a balela de "humanizar" o capitalismo!, as instituições do Estado capitalista e neoliberal, o povo que está se ferrando com o capitalismo e o neoliberalismo não voltará a dar atenção para nós que nos denominamos de "esquerda". Esquerda defendendo o "sistema"? Acordem! Temos que ser antissistema!

Isso está claro no mundo todo. 

Eu quero o fim do capitalismo e do neoliberalismo. Mas quem quer isso hoje no nosso campo da "esquerda"?

Se quer, por que não fala e defende isso abertamente?

Na luta contra o imperialismo estadunidense, estou com Cuba, com o chavismo, estou com os palestinos! Caramba, isso é básico pra alguém de esquerda!

Assim como esses três exemplos acima, muitos outros não deveriam dividir a "esquerda" nessa quadra da história! O direito ao aborto, políticas de cotas, ser antirracista e anticolonialista etc.

É isso! Estamos em período eleitoral. Em São Paulo, precisamos eleger dezenas de vereadoras e vereadores de esquerda. E Boulos prefeito! O mesmo em todas as cidades brasileiras, companheirada!

Peço voto e apoio a Luna Zarattini 13131.

William Mendes 


sábado, 13 de julho de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 13 de julho de 2024. Sábado.


DE GAULLE - A FRANÇA NO MUNDO

Na sexta-feira não consegui ver um episódio da série "Grandes dias do século XX". Ao ver este sobre Charles De Gaulle e a história da França no século passado, eu fiquei pensando o quanto a gente não sabe nada de história. 

Essa nossa ignorância sobre a história do mundo facilita muito a vida da extrema-direita fascista, que atua para desinformar as pessoas e recontar a história com narrativas mentirosas e absurdas. No Brasil, somos todos em geral vítimas de sistemas de educação feitos para não educar as pessoas.

Ao me politizar e me tornar representante eleito da classe trabalhadora no início dos anos dois mil, fui percebendo que uma das minhas tarefas enquanto liderança de um segmento de pessoas era estudar muito sobre a história do Brasil e da classe trabalhadora, sobre quem nós éramos e atuar diariamente para dar noções sobre as coisas para os meus colegas de classe. Noções.

Vivemos num mundo de pessoas sem noções. Não é por maldade ou vontade delas. Ao se mudar a cultura estabelecendo um novo aculturamento sem referências, sem limites, numa total anomia na vida social, as pessoas passam a não ter noção de nada. Vivemos uma desordem social e mundial.

A realidade material e a vida cotidiana impõem às massas uma agenda de consumo de temas focados em prazeres físicos e psicológicos imediatos. Coisas para capturar os desejos das pessoas. No capitalismo isso se intensificou de forma extraordinária. 

Por isso a imprensa tradicional era chamada de 4º poder (talvez fosse o 1º) e por isso as empresas de plataformas digitais conhecidas como big techs são as donas dos desejos e das almas dos bilhões de humanos hoje.

A vida em sociedade é dominada por quem define a pauta e a agenda da comunidade. Já era assim localmente sem a tecnologia de comunicação global (internet), imaginem agora que plataformas como o Google, o Facebook ou o Instagram conseguem invisibilizar um tema importante para a classe trabalhadora e colocar na agenda uma nulidade qualquer que pautará o que todos vão se interessar por horas ou dias ininterruptamente... 

Com essa realidade atual, tenho a impressão que a história (como ciência) e a cultura estão num momento ruim da história humana. Com a pós-verdade, o que será verdade no presente e futuro?  

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Sinopse:

Depois de liderar a resistência francesa contra os invasores nazistas na Segunda Guerra Mundial, Charles De Gaulle desponta como líder do governo provisório com grande popularidade. Era o primeiro passo da trajetória política do homem que se tornaria um dos grandes estadistas do século XX. Com uma gestão forte, nacionalista e conservadora, ele reergueu a economia de seu país e restabeleceu o poder político da França na Europa. Seu legado permanece vivo e sua história se tornou patrimônio do pensamento político contemporâneo.

Este episódio está dividido nos seguintes capítulos: "A trajetória de Charles de Gaulle", "A tragédia argelina", "Europa" e "O direito dos povos".

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SERÁ QUE A FRANÇA DE DE GAULLE NÃO TERIA VERGONHA DA FRANÇA DE MACRON

O episódio sobre a França e De Gaulle foi de descobertas e curiosidades, foi de preencher lacunas culturais, um verdadeiro momento de "refeição cultural" como se pretende o blog.

Apesar de ter noções de história geral, do Brasil, e da classe trabalhadora brasileira, o episódio foi de muitas informações novas.

Conferência de Yalta (Crimeia)

Muito interessante: o episódio começa com cenas da Conferência de Yalta com Churchill, Roosevelt e Stálin, representantes do Reino Unido, Estados Unidos e União Soviética, respectivamente. 

O narrador diz que o insulto jamais será esquecido. De Gaulle (França) não foi convidado para a conferência que poria fim à 2ª Guerra Mundial.

Fatos históricos importantes são citados no episódio: criação da OTAN; Pacto de Varsóvia; a data de referência do documentário é 1° de junho de 1958, De Gaulle volta ao cenário político da França após anos de retiro e silêncio; De Gaulle vira o 1° presidente da Quinta República. 

Descolonização 

Após os conflitos na Argélia, De Gaulle teve de lidar com as lutas de emancipação das colônias francesas. Político experiente, a solução menos sangrenta foi realizar disputas ideológicas através de referendos. 

Enfim, muito conhecimento novo. O documentário serviu para me lembrar da questão das noções. Percebi que não sei quase nada. Só um estudo dedicado me faria conhecer melhor a história da França. 

Hoje, aos 55 anos de idade, tenho algumas noções sobre a França e os franceses. Tenho algumas noções de história e geografia. Noções. 

Fico pensando se os franceses da geração de De Gaulle não teriam vergonha desse golpe mequetrefe que Macron aplicou no povo francês nesta semana que passou, ao não reconhecer sua derrota e de seu partido Juntos nas eleições legislativas nas quais as forças reunidas na agremiação de forças progressistas Nova Frente Popular fizeram a maioria de 182 cadeiras no parlamento, vencendo a extrema-direita de Marine Le Pen. Macron foi um cara de pau ao não reconhecer a derrota e acatar o voto popular.

Sigamos tentando aprender algo novo todos os dias. 

William 


quarta-feira, 10 de julho de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 10 de julho de 2024. Noite de quarta-feira.


GANDHI - FIM DE UM IMPÉRIO

Vendo o 8º episódio da série "Grandes dias do século XX", da Coleção História Viva, fiquei pensando o quanto não sabemos nada do mundo, o quanto somos ignorantes a respeito de quase tudo. Não sabemos nada! E, mesmo assim, somos a espécie mais arrogante do planeta (talvez do universo, se houver vida lá fora).

A cada DVD com imagens de época, da primeira metade do século XX, mais admirado fico da qualidade e importância desse material audiovisual que tenho em casa. Se tivéssemos milhares de pessoas interessadas em conhecer a história igual temos milhões de pessoas interessadas em nonadas, poderíamos salvar a humanidade.

Que sei eu dos chineses e dos indianos? Que sabemos nós aqui do Brasil e das Américas sobre os mais de 4 bilhões de seres humanos que vivem na Índia e na China? Não sabemos nada sobre a metade da população mundial que habita esses dois espaços geográficos do nosso único e velho mundo. Não sabemos nada!

E quando vejo um documentário de pouco mais de cinquenta minutos e percebo o quanto sou ignorante sobre a Índia e seu povo, fico imaginando as demais pessoas do meu mundo, o Brasil, o quanto devem saber sobre esse povo e país... Eu não me considero um total ignorante, pois me esforço para ler e estudar história e geografia há décadas e, mesmo assim, vi que não sei nada. 

Imaginem vocês a enorme massa de gente que não sabe, não quer saber e que tem raiva de quem sabe alguma coisa sobre história e ciência... como se percebe na realidade material do mundo atual no qual se chega mais desinformação (fake news) do que informação para as pessoas e um mundo no qual se incentiva a total alienação e onde predomina a cultura da ignorância.

Sei não, acho que estamos lascados...

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Sinopse:

No começo do século XX, a Índia, uma das colônias britânicas mais relevantes para sua majestade, vivia uma fase de crescente insatisfação com a arrogante presença inglesa no país. Em meio a essa efervescência surgiu Mohandas Karamchand Gandhi ou, como seria imortalizado posteriormente, Mahatma Gandhi, um homem franzino que desafiou um império com desobediência civil e não-cooperação pacífica. Foram anos de jejuns, marchas e manifestações desconcertantes. O mundo nunca tinha visto um movimento assim...

O documentário se divide nos seguintes capítulos: "Império Britânico", "Boicote", "Paquistão" e "A independência".

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Gandhi venceu um império, mas
não venceu a violência.

UM PACIFISTA QUE VENCEU UM IMPÉRIO, MAS NÃO VENCEU A GUERRA E A VIOLÊNCIA

Pelo documentário sobre Gandhi, vi uma parte da história do mundo dos últimos séculos para cá. A Índia foi colônia do império britânico por mais de trezentos anos. Estamos falando de séculos de dominação europeia sobre a maior parte do mundo: continentes americano, asiático e africano.

O episódio 8 da Coleção foi um dos mais complicados de se ver até agora porque eu não conhecia muitas das informações histórias que havia ali a respeito da Índia. E olha que eu sempre gostei de história.

Em resumo, temos o seguinte: sua majestade estava levando a vida numa boa, explorando sua maior colônia. Os ingleses levavam as matérias-primas, tipo algodão, e especiarias para a Inglaterra e vendiam para o povo indiano as mercadorias manufaturadas na metrópole e umas 100 vezes mais caras do que a matéria-prima.

A Índia era um mundo milenar e de cultura muito diversa se pensarmos a cultura europeia. Havia cerca de 170 línguas e centenas de dialetos, um sistema com 5 castas e milhares de subcastas e centenas de reinados locais com marajás poderosos em cada um deles e milhões de pessoas miseráveis divididas pelas crenças: uma maioria de religião hindu (uns 80%), uma parte de religião islâmica (uns 15%), e uma parte menor de cristãos e outras matrizes.

BOICOTE - Gandhi liderou duas campanhas importantes pela independência do país. Conduziu seu povo a não comprar as roupas manufaturas na Inglaterra, incentivando o povo a fazer seu próprio tecido, o símbolo dessa luta era a roda de fiar. E fez o mesmo em relação ao sal, ensinando o povo a fabricar seu próprio sal. É famosa a Marcha do Sal.

Gandhi foi preso várias vezes pelo governo inglês, chegando a ficar mais de 6 anos na prisão. E é muito conhecido por fazer greves de fome como forma de protesto e luta.

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INDEPENDÊNCIA DA ÍNDIA E GUERRA CIVIL

Após décadas de lutas pela independência de seu país, Gandhi viu seu povo se matar em uma sangrenta guerra civil opondo hindus e muçulmanos, e o povo indiano se dividiu, ficando os hindus no território indiano e os muçulmanos no Paquistão.

Gandhi foi assassinado em 30 de janeiro de 1948 por um hindu insatisfeito com a política liderada por ele.

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COMENTÁRIO FINAL

As cenas finais do documentário, do povo indiano se matando numa sangrenta guerra civil, por ódio e intolerância entre hindus e muçulmanos me deixou deprimido.

O ontem e o hoje têm a mesma característica do que nós somos, um bando de animais ferozes e nada racionais. O ódio vem prevalecendo há anos, há séculos... há milênios.

Se me perguntarem qual a tendência de prevalência neste momento da história humana, dia 10 de julho de 2024 do século XXI, é evidente que a resposta que gostaria de dar seria de prevalência da paz e da solução pacífica das controvérsias.

Mas não é essa a resposta da leitura a partir da razão. Está prevalecendo a violência, a intolerância e a eliminação da alteridade como solução das controvérsias.

Acho que estamos lascados...

William


quarta-feira, 3 de julho de 2024

39 de 100 dias



39. Uma das coisas que tenho observado ao ler os materiais de línguas estrangeiras, o de inglês, por exemplo, é o quanto o conteúdo é ideologizado, é o puro suco capitalista, imperialista e colonial. 

É um conteúdo de brancos do norte para adestrar não brancos das periferias do capitalismo. Incrível e nojento isso!

As histórias são binárias, há sempre mocinhos e bandidos. Os mocinhos têm autorização para matar (do tipo James Bond).

Os materiais vendem a ideia de um mundo perfeito, lindo, limpo, fraterno entre as pessoas de posses e bem-comportadas socialmente. 

Os "desajustados", os miseráveis, se não estão presos, estão em vias de serem presos. 

Que dureza isso!

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A PROCURA DA FELICIDADE (NÃO SENTIR DOR)

Dando seguimento à procura de diagnósticos para minhas dores crônicas, retornei ao especialista de quadril e o ortopedista me explicou os desgastes todos que tenho na região... tenho que conviver com isso... (um dia, talvez, terei que operar)

É fundamental tentar recuperar um pouco a estrutura muscular da região... algo que sei que é bem difícil. Ainda mais depois dos 55 anos...

Enfim, é a vida! Somos natureza. Como já sei, cada ser envelhece do seu jeito, de acordo com seu percurso existencial e a genética que carrega dentro de si.

O fato concreto é que as dores estão aumentando. Que treco chato!

Seguimos fazendo o que está ao meu alcance para estar no mundo com as pessoas. E para tentar aprender algo novo e passar adiante. 

William 


quinta-feira, 6 de junho de 2024

12 de 100 dias



12. A cada dia de avanço dos bárbaros e suas formas diversas de violência e autoritarismo, aumenta a responsabilidade da parcela humanista e civilizada de resistir ao mal e defender os direitos criados pelos homo sapiens ao longo de milhares de anos de evolução da espécie. 

Como disse o professor e jurista Pedro Serrano em artigo em uma edição de CartaCapital (comentário aqui), o direito não é algo natural, é uma criação humana, e se não defendermos os direitos da pessoa humana - direitos civis, políticos e sociais - os bárbaros da extrema-direita vão eliminar direitos civilizatórios que conquistamos em séculos e milênios. 

Entenderam o que quero dizer?

O que vem ocorrendo nos parlamentos brasileiros, principalmente na Câmara dos Deputados e no Senado Federal - o fim do diálogo e do decoro parlamentar por parte do bolsonarismo et caterva -, tudo sob os olhares complacentes dos presidentes daquelas casas legislativas, é projeto, tem método. O nazismo e o fascismo fizeram isso para vencerem a civilização daquela época, as primeiras décadas do século vinte.

O experimento ("case") de tomada à força das terras da Palestina, eliminando dois milhões de seres humanos daquele "espaço vital" para os sionistas é projeto, tem método (não é mera coincidência com a questão nazista de "espaço vital" de um século antes).

A normalização da violência extremada (sempre contra grupos marginalizados no capitalismo) e naturalização da barbárie e dos atos e ideias da extrema-direita bolsonarista no Brasil por parte da mesma mídia empresarial dos donos do poder (P.I.G.) que envenenaram o povo brasileiro até tornar-se "normal" carros circularem com a imagem da presidenta do Brasil de pernas abertas em bocais de tanque de gasolina dos veículos é projeto, tem método. 

Estou retirado do movimento sindical ao qual fiz parte por ao menos duas décadas. Não sei o que as lideranças da classe trabalhadora estão debatendo. Não sei. Nunca mais fui convidado a participar de fóruns nos quais contribuí por décadas.

Se estivesse nos debates como dirigente, pautaria debater novas formas e estratégias de enfrentamento aos nossos inimigos. Inimigos! Com o fim da política de diálogo e conciliação e da democracia "liberal" como nós aprendemos nas últimas décadas, é responsabilidade das lideranças da classe trabalhadora propor estratégias de enfrentamento aos inimigos. Sem isso, seremos presas fáceis no presente e futuro próximo. 

Na gravidade da atual conjuntura brasileira e mundial, não se pode seguir fazendo o mesmo que se fazia no passado, pois isso seria alienar a classe trabalhadora representada pelos movimentos sindicais e partidários da esquerda. 

É o que penso sendo cidadão do presente cenário mundial.

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EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO POLÍTICA

No momento, avalio que escrever seja uma forma de compartilhar o que leio, estudo e reflito sobre o nosso mundo e a nossa sociedade humana. 

O que possibilitou a nossa espécie chegar até o ponto extraordinário no qual chegamos em relação às ciências diversas foi a educação, a transmissão dos saberes acumulados. 

Nossos inimigos objetivam destruir a educação porque ela pode mudar as pessoas e as pessoas podem agir e mudar o mundo. Quanto mais ignorância, miséria, medo e raiva, mais fácil a manipulação das massas humanas.

Por enquanto, seguirei estudando, lendo, refletindo e escrevendo para as pessoas que tenham interesse em manter a tecnologia milenar da educação, ferramenta que desenvolvemos para trocar conhecimentos, experiências e ideias para mudar as realidades naturais e não naturais nas quais nos vemos envolvidos: as comunidades humanas.

William Mendes 


domingo, 21 de maio de 2023

Diário e reflexões (21/05/23)



Refeição Cultural

Osasco, domingão de 21 de maio de 2023.


A leitura de cada frase do livro da professora Maria Leite - Cuba insurgente: identidade e educação (2023) -, sobre a pedagogia em Cuba, sobre José Martí, me faz parar e pensar o Brasil, Lula, nós povo brasileiro, o PT, a CUT, a Articulação Sindical, esse mundo complexo que as religiões e as mentiras simplificam... 

Estudar determinados temas e conhecer a cada dia do viver a nossa ignorância geral e a nossa dificuldade em alterar a realidade material é obrigação de alguém politizado. Mesmo sentindo certa impotência por não conseguir no tempo de uma vida humana alterar significativamente o rumo da sociedade, sei pela razão que devemos seguir todos os dias com certa ética que nos formou como seres humanos humanistas.

Abaixo, alguns excertos que me puseram a pensar, extraídos do item "Martí e a insurgência como princípio educativo", do livro da professora Maria Leite:

Martí sobre a liberdade:

- "El mundo tiene dos campos: todos los que aborrecen la libertad, porque sólo la quieren para sí, están en uno; los que aman la libertad, y la quieren para todos, están en otro. (José Martí)"

Martí e sua reflexão após ver o julgamento dos anarquistas de Chicago, em 1886:

- "Uma vez reconhecido o mal, o ânimo generoso sai a buscar remédio. Uma vez esgotado o recurso pacífico, o ânimo generoso recorre ao remédio violento." (me lembrei de Mandela ao chegar à mesma conclusão na luta contra a violência do regime Apartheid)

Martí após questionar o mito do eurocentrismo e da picaretagem de dizer que o colonialismo incluiu as Américas na História:

- "A inteligência americana estava no penacho indígena e quando se paralisou ao índio, se paralisou a América." (Acosta)

Martí e as bases da criação do conceito de Nuestra América:

- "(...) ele então projeta um horizonte humanista para a região que denominou Nuestra América. A originalidade desta proposta é a autoctonia, com suas raízes políticas e culturais próprias, sintonizadas com a identidade latino-americana."

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IMPULSOS ELÉTRICOS NO CÉREBRO

- O homem José Martí era originário de um país colonizado por povos imperialistas da época. Espanha na época de suas lutas e suas ideias libertárias, depois Estados Unidos, após sua morte e entrado o século seguinte. Martí já sabia que os EUA iriam tomar o lugar da Espanha no imperialismo e colonialismo... Décadas depois, Fidel Castro, um martiano, liderou o povo cubano na libertação do país das garras da águia do Norte. Desde então, o império atua para matar de fome o povo que escolheu a liberdade... e os homens do mundo, do tipo G7, aceitam numa boa esse genocídio.

- Lula falou ontem em Hiroshima (Japão) sobre paz no encontro do G7, uma sigla para lembrar do imperialismo desta época. O homem Lula foi um preso político do imperialismo para que a ex-colônia Brasil voltasse a ser colônia do imperialismo atual. Os animais humanos são tão cínicos que os homens do G7 se reuniram na cidade destruída pela bomba atômica para organizar nova guerra total contra a Rússia e a China... e o cristão do Lula querendo paz entre os povos...

- Após conhecer Cuba - por poucos dias, é verdade - só aumentou a minha perplexidade em saber que até hoje, até este momento, o povo cubano e seu regime político - uma república socialista - resiste aos ataques violentos e perversos do imperialismo para derrubar o governo e fazer de Cuba um Haiti "capitalista". O bloqueio norte-americano a Cuba é genocida. Minha suspeita é que a resistência do povo cubano até agora é por causa da educação dada desde a mais tenra idade e desde 1959. Na verdade, desde antes, já que a pedagogia cubana vem de Martí e outros educadores desde meados do século XIX...

- No Brasil capitalista não temos uma educação cubana. Cada povo e cada cultura é uma experiência única, mesmo num mundo globalizado. Após uns 40 anos lendo e estudando alguma coisa dentro das possibilidades às pessoas de minha origem, fora da classe dominante, fica fácil entender como se dão as coisas no Brasil. A casa-grande e os banqueiros e coronéis do Agro deram o golpe, entregaram tudo de valor ao império, e fizeram as reformas trabalhista, sindical, previdenciária e da educação. O novo ensino médio, que o Lula não quer peitar, é para nunca termos aqui um povo cubano...

São tantos impulsos elétricos em meu cérebro, essa máquina de 86 bilhões de neurônios, como nos ensina o neurocientista Miguel Nicolelis, tantos impulsos que dá até preguiça para seguir escrevendo... pra quê?

Paro aqui e vou pedalar um pouco pelas ruas de Osasco e Butantã, meu mundo colonizado.

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EI, QUAL A CONCLUSÃO DO TEXTO?

Espera aí, meu! Pra quê você citou os excertos sobre Martí se não alinhavou nada de seus impulsos elétricos com os conceitos ali contidos?

Verdade, tenho que alinhavar o texto: 

Acho que não adianta estar do lado daquele grupo que defende a liberdade pra todos se não soubermos utilizar essa liberdade para libertar a mente das pessoas. Os governos do PT, o Lulismo, não libertaram a mente de nosso povo pobre e trabalhador. Não deu tempo ou não era estratégico peitar a casa-grande e libertar a mente de nossa classe através da educação. 

Durante os 13 anos deixamos a formação de nossa gente ser a formação colonizadora dos donos do poder... óbvio que a inclusão pelo consumo sem mudar as ideias daria no que deu. Nos tiraram do poder sem guerra e sem resistência. 

Enfim... vamos repetir isso? Me respondam vocês que estão dentro do NOSSO governo, porque estou de fora e não sei quais são as estratégias para não repetirmos a história de nosso fracasso após a experiência positiva de estarmos no governo por 3 mandatos em mais de 5 séculos de dominação deles.

Qual a nossa estratégia em relação ao povo que precisamos para nos apoiar no enfrentamento aos nossos inimigos de classe?

William


Bibliografia:

LEITE, Maria do Carmo Luiz Caldas. Cuba insurgente: identidade e Educação. Editora CRV, Curitiba, 2023.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

231220 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Quarta-feira, 23 de dezembro do ano da pandemia do novo coronavírus. Que fatos, sentimentos e reflexões registrar nesta página pública da rede mundial de computadores?

(já tive centenas de leitores diários quando meu lugar de fala era de representação da classe trabalhadora, até meados de 2018. Este blog e o blog para falar da categoria bancária tiveram sua importância. Hoje a página é um meio de registro de opiniões, reflexões e às vezes conhecimentos gerais que se quer compartilhar)

A pandemia mundial de Covid-19 estragou o ano que se encerra e ela seguirá firme e forte em 2021, não é uma boa notícia. Empresas privadas do mundo capitalista e governos de todos os matizes ideológicos fizeram um esforço acelerado para descobrir e disponibilizar vacinas contra o vírus Sars-Cov-2, que tem algumas cepas ou variações genéticas, ou seja, pelo que se sabe não é só um tipo genético e por isso se descobrem reinfecções por Covid-19. Países chamados de primeiro mundo ou desenvolvidos já estão vacinando seus cidadãos ou estão com calendário para tal. (Nós não! Aqui é Bolsonaro!)

Outra merda desse vírus e dessa pandemia é o fato de cada pessoa reagir de forma diferente quando infectada por essa peste. Morre-se todo tipo de gente, mas é evidente que os maiores índices de mortandade estão entre os mais pobres e com menos acesso aos direitos humanos e de cidadania. E as sequelas nas pessoas infectadas são impressionantes, algumas pessoas ficam mal por meses, e o vírus ataca quase que todos os órgãos do corpo.

Os ricos se deram muito melhor no enfrentamento mundial ao novo coronavírus. Por quê? Porque eles não trabalham, são rentistas (estou sendo direto e reto na afirmação). São donos dos meios de produção e exploram a mais-valia dos trabalhadores. Então, eles exigem que os pobres desgraçados trabalhem, mesmo com o risco de morte por Covid-19 e ficam em seus palacetes e casas confortáveis falando de isolamento social.

Os ricos e os povos dos países que são metrópoles imperialistas que invadiram, colonizaram e exploraram os nossos países subdesenvolvidos por séculos e ainda hoje o fazem, eles terão vacina. Nós não! Só lá no futuro, e olhe lá, se não tiverem outros bolsonaros por aí. 

Só para se ter uma ideia, independente de nós brasileiros jabuticabas termos nos fodido por termos Bolsonaro e os trogloditas que o seguem e apoiam e sermos os últimos da fila mundial para tomar vacinas contra a peste, os países que vacinarão primeiro seus cidadãos são os países do Norte, Europa, Canadá, Estados Unidos, China, Rússia, países asiáticos etc. O resto do planeta, uns 4 bilhões de humanos, que esperem por algum milagre, imunidade de rebanho ou que o vírus desapareça por um tempo. (Aqui é Bolsonaro!)

Mas aqui é jabuticaba... somos caso único no mundo e sempre tem espaço pra piorar. Agora uns desgraçados desgraçados, duas vezes, querem dar carteirada e furar fila para receber vacina antes dos outros, porque eles são especiais, ricos, cheirosos, maquiados, e têm títulos de nobreza, então entendem que devem passar na frente da plebe, dos fedidos, fodidos, da gentalha.

Iria falar de outras coisas, mas já me estendi na questão do cotidiano desgraçado que virou a nossa vida sob pandemia e sob a tragédia humanitária de estarmos sob Bolsonaro por causa da casa-grande e dos canalhas que efetuaram um golpe de Estado para interromper os avanços históricos para a classe trabalhadora durante os governos do Partido dos Trabalhadores, Lula e Dilma. O país gigante Brasil está se desfazendo para sempre, para sempre.

Segundo a Johns Hopkins University, hoje temos contabilizados 1.727.672 mortos por Covid-19. São 78,5 milhões de infectados e continua crescendo o número. Como aqui é Bolsonaro, tudo que se faz no país é o inverso do restante do mundo, dos duzentos países. Aqui o governo é contra a vacina, contra o isolamento social, uso de máscara e a peste do coronavírus é estratégica para o regime fascista e infernal. Já morreram oficialmente 189.220 pessoas (mas aqui não se testa, não se deixa registrar morte por Covid-19 etc). 

O governo central quer tudo aberto e funcionando, os governos locais idem, mas dizem o contrário junto com suas imprensas parceiras e todo mundo finge que está se cuidando. Temos 7,3 milhões de infectados. Mas... com as festas e beijos e abraços e aglomerações de Natal, Ano Novo e férias de janeiro, a MORTE pode ser que visite toda casa e leve alguém como aquela história das pragas da Bíblia...

Fica até sem sentido terminar esse registro falando das minhas tentativas de sobreviver às doenças crônicas que estão nos matando a todos, os milhões de miseráveis que não têm recursos e precisam se arriscar o tempo todo e isso afeta a saúde como uma bomba relógio e os brasileiros e brasileiras conscientes e tristes que sofrem com toda essa barbárie medieval em que nos enfiaram (mesmo quando têm acesso aos direitos humanos básicos e podem se isolar neste período). Com tanta desgraça junta, pressão sobe, depressões aparecem, síndromes diversas fazem as pessoas aumentarem peso, terem compulsões ruins, beberem, usarem drogas, os sistemas imunológicos se desregulam e as condições básicas de saúde vão pro espaço.

Como sou um dos duzentos milhões de brasileiros que estão adoecendo e acelerando o processo de morte morrida, aquela que dizem que foi Deus que quis assim, estou lutando contra o processo de morte morrida, advinda de doenças crônicas evitáveis em sua maioria: colesterol alto, pressão alta, diabetes, sobrepeso e obesidade e os efeitos dessas merdas aí, como risco de infarto, AVC, aneurisma, degeneração de sistemas internos vascularizados, fígado, rins, pâncreas, olhos, cérebro e sistema nervoso, sistemas circulatório, respiratório e digestório etc.

Correr... o que posso fazer é correr para tentar frear o processo de morte morrida do meu ser. Tô correndo pra cacete! E lido com as dores que já apareceram nos quadris, pernas e pés, nervo ciático. Corri 13 Km hoje e tenho corrido boas distâncias nessas últimas semanas. E pensar que a qualquer minuto posso morrer de Covid-19 e ou pegar e transmitir para outras pessoas... que merda! E pensar que o desgraçado no poder e seus idiotas apoiadores não contribuem para termos logo uma vacina... que merda! E isso não vai mudar com a passagem do ano... 2020 não acaba! Isso é duro, mas temos que lidar com isso e perseverar também. Eu quero viver para ver esses genocidas julgados, condenados e presos.

Chega!

William


quarta-feira, 6 de março de 2019

Literatura Hispano-Americana: Conquista e Colônia (II)




Refeição Cultural

"En una primera aproximación, el restringido ámbito de la 'literatura' en su dimensión de 'bellas letras' resulta ampliamente desbordado por la pluralidad de las práticas discursivas orales y escritas que se pueden observar en el Nuevo Mundo en la doble línea de tradiciones en donde se inscriben: por un lado la oralidad, la plasmación pictográfica, ideográfica e incipientemente fonética, por otro la literatura escrita y en lenguas europeas; por un lado la gestualidade, el códice, la memoria, por el otro la letra, el libro, la lectura; por una parte la pluralidad lingüística y cultural en diversos grados de complejidad, por otra las lenguas europeas apuntando a la homogeneización; por una parte las 'palabras pronunciadas con el corazón caliente', 'la flor y el canto', por el otro la literatura; por un lado los poetas, por el otro los dueños del decir. En ambas tradiciones culturales habrá una reorganización de funciones a partir de 1492, que dará cuenta de su nueva situación: la de literaturas en relación. Es el momento en que surge para el investigador la posibilidad  del análisis comparado en los términos de nuestros intereses actuales; surgen las nuevas fronteras culturales, que delinean el rostro del continente hoy." (Ana Pizarro, in: "Palabra, literatura y cultura en las formaciones discursivas coloniales", na introdução ao livro)


Na aula anterior (ler AQUI), falamos sobre a forma violenta com que se deu o encontro de culturas, sobre as civilizações e as culturas que existiam aqui nas Américas antes da chegada dos europeus e das mudanças radicais advindas da colonização.

Nos foi indicada a leitura de dois capítulos do livro "América Latina - Palavra, Literatura e Cultura, livro organizado por Ana Pizarro. O volume 1 trata da situação colonial. A sugestão é ler o primeiro e o segundo capítulo do livro, textos de Martin Lienhard e Gordon Brotherston.

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(Texto 1 - leitura e destaques ou lembretes - 21 páginas)

A produção textual ameríndia

1. Los comienzos de la literatura "latinoamericana": monólogos y diálogos de conquistadores y conquistados

Martin Lienhard


Marginalización de las literaturas orales


"El continente cuyos habitantes se ven convidados a 'descubrir' a los europeos a partir de 1492 no es, desde luego, ningún vacío sociocultural...".

O autor nos informa nos primeiros momentos do texto que os europeus encontram aqui nas Américas culturas organizadas, principalmente com práticas discursivas orais que poderiam ser chamadas de "literatura" ou "arte verbal".

E mais: "Los 'textos' verbales producidos, a menudo poco 'autónomos', se suelen insertar en unos 'discursos' complejos que combinan los más variados sistemas semióticos: discurso verbal, música, ritmo, expresión facial y corpórea, coreografía, artes plásticas".

Destaca que as transcrições dos textos verbais têm mais um caráter auxiliar, um roteiro a ser preenchido com a performance oral.

"Los textos verbales 'transcritos', en efectivo, exigen la actualización o performance oral - frente a un auditorio colectivo o selecto - para pasar del estado latente a una presencia social concreta".

Já os textos ou discursos dos europeus são o oposto. Qualquer um que saiba ler pode reproduzir aquilo que está registrado, e isso ao longo do tempo, sem sofrer as atualizações e modificações constantes das línguas vivas. Com os textos, vêm as tradições.

E uma das tradições (ideológicas) é sobre a superioridade dos europeus em relação ao resto do mundo: "(...) contienen, en efecto, los fundamentos ideológicos de la pretendida superioridad de los europeos respecto de los demás pueblos del mundo".

Estabelece-se então o predomínio do escrito sobre o oral e isso não se perderá na América Latina mesmo após as independências em relação aos antigos colonizadores.

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Comentário do blog: eu não consigo esquecer, ao ler sobre isso, que a partida final de futebol do principal torneio das Américas, em 2018, cujo nome é "Libertadores da América", ocorreu lá na antiga metrópole colonizadora, a Espanha! É deprimente, é humilhante...
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Una literatura "oficial"

Lienhard nos diz que durante as primeiras décadas da chegada dos europeus nas Américas, os principais textos serão documentos como cartas de navegação, relatos de viagens etc. Quando surge algo literário propriamente, com autores daqui, serão com base em modelos da metrópole, como o poema épico histórico. Mas os relatos de viagem e cartas ainda serão mais marcantes em seus conteúdos.

Teremos dois tipos de estratégias discursivas, uma centrada no "eu" do narrador e uma outra voltada ao diálogo com o "outro". 

Um dos exemplos de documentos marcantes são os diários de viagem de Cristóvão Colombo, entre 1492-1493. Até a chegada à América, o texto segue o rito normal, depois ele vira um relato com imagens literárias tradicionais europeias, inclusive relacionadas com a bíblia, em relação ao paraíso, à inocência humana antes do pecado original etc.

Vejamos um exemplo de relato que Lienhard nos mostra em seu ensaio, sobre Cabeza de Vaca, em meados do século XVI:

"Naufragios (1542), texto sorprendente de Alvar Núñes Cabeza de Vaca, ejemplifica la transformación de un relato de conquista en una novela autobiográfica avant la lettre. En este relato, escrito a raíz de una campaña de calumnias contra su autor, Cabeza de Vaca, uno de los pocos sobrevivientes de una fallida expedición a la Florida (la de Pánfilo de Narváez), trata de justificar, a varios años de distancia, su actuación en los momentos cruciales de la conquista y posterior odisea. Aquí, el conquistador fracasado se autoevoca en tanto que conciencia humana que atraviesa, a menudo solo, una región inhóspita y pobre, poblada por indios que resultan ser sus iguales. A partir del molde 'relato de conquista', Cabeza de Vaca inaugura, en español, la novela autobiográfica moderna con su héroe subjetivo y trágico."

O ensaísta nos chama a atenção para um tipo de texto que vai ocorrer ao longo desse período secular, os relatos seriam supostamente "documentais", mas acabam trazendo traços de modelos de novelas, romances e estilos da época na Europa: "Si la novela, en tanto que género declarado, no aparece en la América colonial sino mucho más tarde, lo novelesco se introduce en muchas crónicas de viaje supuestamente 'documentales'...".

Ao fim desta parte do ensaio, o subtítulo sobre as literaturas "oficiais", Lienhard comenta sobre dois documentos não hispânicos que teriam uma característica distinta daqueles textos castelhanos de relatos, ainda que Lienhard fale mais em uma "etnografia" do que em uma suposta "literatura latino-americana".

"Algunos de los textos que 'informan' acerca de las exploraciones y conquistas americanas no caben en el marco que acabamos de diseñar. Es el caso, por ejemplo, de dos textos 'brasileños'; la carta de Pero Vaz de Caminha (1500) que anuncia al rey portugués el 'descubrimiento' - bien involuntario - de la costa de Brasil, y la Histoire d'un voyage fait en la terre du Brésil (1578) de Jean de Léry, emisario de la Ginebra calvinista. A diferencia de los textos españoles, muy 'comprometidos' con grandes proyectos de expansión colonial (y eclesiástica), estos parecen inaugurar una etnografía moderna más 'desinteresada' o 'autónoma'...".

E termina dizendo:

"(...) estos textos, testimonios del impacto de la experiencia americana en la cultura europea, no inauguran ninguna 'literatura latinoamericana', sino una etnografía europea de índolo más moderna.".


Las literaturas "alternativas"

"(...) El gesto histórico del pobre ermitaño, por imperfecta que sea su realización, inauguró no sólo, como a menudo se afirma, la etnografía americana, sino una nueva práctica literaria que podemos llamar, por un conjunto de razones, 'alternativa'. Ella ofrece, en efecto, un discurso 'nuevo' sobre América (tendencialmente el de las mayorías), una escritura nueva (transcripción o recreación del discurso oral) y un público nuevo (el lector bicultural de un continente multicultural). En un principio, la literatura 'alternativa' se desarrollará a partir de las necesidades muy concretas que impone a los españoles la organización de la colonia...".

Uma das estratégias que os conquistadores vão utilizar para imporem sua cultura é a de se aproximarem de lideranças dos povos a serem conquistados, ensinar a elas a sua língua e tradições e fazer dessas lideranças intermediárias entre os povos americanos e os da metrópole.

"La reorganización y asimilación de la aristocracia autóctona y, especialmente, los trabajos de recopilación suponían un diálogo, una colaboración estrecha entre los funcionarios coloniales y sus 'protegidos' indígenas...".

Essas assimilações dos povos americanos tiveram mais sucesso em algumas regiões do que em outras. Os espanhóis tiveram dificuldades para convencer lideranças dos Incas a fazerem esse papel: 

"(...) Distinto fue el caso del Perú. La larga resistencia indígena, las interminables guerras civiles entre caudillos militares españoles, la ausencia de un poder estable y operativo así como la distancia excesiva que separaba la capital indígena (Cuzco) de la de los españoles (Lima), todos estos factores impedían que se crearan condiciones favorables para una formación a la vez eficiente y centralizada de letrados indígenas 'asimilados'. Estas diferencias entre los contextos mesoamericano y andino explican sin duda las características bastante divergentes de la producción literaria 'indígena' en las áreas mencionadas".

POPOL VUH Y CHILAM BALAM

Lienhard coloca obras importantes da região central das Américas como exemplos de recompilações ao espanhol de histórias e memórias dos povos pré-hispânicos.

"(...) En la mayoría de las entidades 'autónomas' existe - como los tlacuilos o 'caligrafistas' de la época prehispánica - un secretario encargado de transcribir la memoria de la colectividade. Al trabajo de tales especialistas de la escritura se deben, por ejemplo, las grandes recopilaciones como el Popol Vuh o los libros de Chilam Balam, verdaderas enciclopedias del pensamiento mítico-histórico, calendárico, cosmológico, ritual, etc de dos pueblos mayanes..."

O texto termina citando alguns autores que, para ele, vão no futuro fazerem um esforço para criar uma escritura equivalente ao caos social e cultural gestado a partir da colonização das Américas

"(...) Un yo que no acepta pero asume, sin mayores nostalgias, la situación creada por la conquista. En este sentido, Guaman Poma es el antepasado más radical de los escritores contemporáneos más 'radicales' que se esfuerzan - o se han esforzado - por crear una escritura que sea un equivalente del caos (mundo en gestación) cultural y social del subcontinente: J. M. Arguedas, Roa Bastos, Rulfo, Guimarães Rosa, E. Zepeda, Z. Zorrilla.".


Leitura feita. Melhorou minha percepção para os textos que serão analisados na disciplina sobre esse período de nossa história latino-americana.

William
Um leitor


Post Scriptum:

Depois fiz também a leitura do segundo texto sugerido, o texto de Gordon Brotherston, "La visión americana de la conquista" (20 páginas).

sexta-feira, 1 de março de 2019

Literatura Hispano-Americana: Conquista e Colônia (I)



Popol Vuh - Wikipedia.
(atualizado em 9/04/19)

Refeição Cultural

Um dos objetivos do blog Refeitório Cultural é compartilhar os ensinamentos do curso de Letras da Universidade de São Paulo (USP), por se tratar de uma universidade pública e por querer retransmitir para todos os cidadãos interessados aquilo que tive a oportunidade de aprender através dos recursos do povo.

Com o passar dos anos na graduação em Português-Espanhol, e com a participação em cada uma das disciplinas que fiz, foi ficando impossível postar as aulas, inclusive porque escrevê-las demanda um trabalho imenso de revisão das anotações para não postar coisas sem sentido.

Após muitos anos de conclusão da grade obrigatória das duas disciplinas, Português e Espanhol, descobri que havia faltado uma matéria (2 créditos) para completar a grade de Português. Para não colar grau só em Espanhol, fiz o pedido de reingresso à graduação e fui aceito. Estou estudando novamente e terei que fazer mais de 30 créditos para adequar minha pontuação à grade curricular atual. 

Esta disciplina é sobre o período pré-hispânico nas Américas e sobre o período colonial e vai até os séculos XVIII e XIX, período em que ocorreram os processos de independência das metrópoles europeias, Espanha e Portugal. Mas o foco não é o Brasil e sim os países de matriz espanhola.

Vou postar o que for possível, e sempre com a minha visão e interpretação das anotações da matéria, isentando os professores de qualquer responsabilidade pelo que escrevo aqui. Esta matéria de literatura estou fazendo com a professora Laura.

A parte relativa aos objetivos, programa resumido e programa é uma reprodução do oferecimento da matéria e é de domínio público.

Lembro aqui que o interesse deste blog é partilhar conhecimento, sem nenhum objetivo econômico-financeiro. Postamos conteúdo aqui com base no conceito de copyleft e wiki (what i Know is).

Abraços aos leitores que se interessarem pelo tema.

William


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Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP)

Literatura Hispano-Americana: Conquista e Colônia

Objetivos:

1. Estudar as manifestações literárias barrocas e suas implicações na construção de uma forma hispano-americana. 2. Desenvolver a capacidade crítica do aluno pela análise dos aspectos estéticos e ideológicos dos textos mais representativos, relacionando-os com a atualidade. 3. Discutir problemas básicos da formação cultural da América hispânica através de abordagens teóricas contemporâneas sobre os discursos mais representativos do período pré-hispânico e as narrativas do período da conquista, até 1600. 4. Oferecer uma visão histórica do período, embora sempre privilegiando as possíveis abordagens literárias, desenvolvendo a capacidade crítica do aluno pela análise de aspectos estéticos e ideológicos.

Programa Resumido:



Esta disciplina estuda problemas básicos da formação cultural da América hispânica através de abordagens teóricas contemporâneas sobre os discursos mais representativos do período pré-hispânico, da conquista e da sociedade colonial, até 1700. Pretende-se oferecer uma visão histórica do período, privilegiando as possíveis abordagens literárias dos discursos das culturas originárias e da conquista e o estudo das manifestações estéticas barrocas e suas implicações na construção de uma forma hispano-americana. A disciplina visa a desenvolver a capacidade crítica do aluno pela análise dos aspectos estéticos e ideológicos dos textos mais representativos desse período de formação da cultura e da literatura hispano-americana, relacionando-os com a atualidade. O curso contempla, dessa forma, instrumentalizar os futuros profissionais da área no sentido de suas práticas de análise literária e ensino da literatura.

Programa:

1. Palavra, gesto, memória: a literatura pré-colombiana e critérios de configuração de uma literatura hispano-americana: Códices, Poesia Nahuatl, Popol Vuh e os Chilam Balam. 2. História e imaginação: os discursos da conquista, as crônicas e a construção de um novo universo: Cristóbal Colón; Hernán Cortés, Bernal Díaz del Castillo, Bartolomé de Las Casas, Alvar Núñez Cabeza de Vaca; Alonso de Ercilla. 3. Sujeitos mestiços e sociedades vice-reinais: Inca Garcilaso de la Vega, Huamán Poma de Ayala, Juan Rodríguez Freyle. 4. O Barroco e sociedades vice-reinais: Sor Juana Inés de la Cruz; A poesia de Bernardo de Balbuena, Sigüenza y Góngora, Domínguez Camargo, Caviedes. 5. O teatro de Juan Ruiz de Alarcón. 6. Ficção e história: a conquista e a colônia na literatura do século XX, Juan José Saer, Antonio Di Benedetto, Alejo Carpentier, Carlos Fuentes, Miguel Angel Asturias. 7. Releituras do barroco: neobarroco e neobarroso; Lezama Lima, Virgilio Piñera, Severo Sarduy, Néstor Perlongher.


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(anotações das aulas em língua espanhola e em português. As incorreções no texto são de minha responsabilidade, pois meu espanhol não é de falante fluente)

Literatura hispanoamericana: Conquista y Colonia

FLM0631

Clase 1

27 de febrero de 2019.



Temas debatidos y referenciales para la disciplina:

- encuentro muy violento de culturas y de discursos;

- el término “conquista” tiene la mirada de allá, el punto de vista de los europeos;

- “el continente vacío” es lo que decían los europeos sobre nuestra América;

- hay en los discursos una cuestión de los malos versus los buenos;

- los científicos europeos tenían dudas si los indígenas eran humanos;

- lenguas dominantes acá: Nahuatl (Aztecas), Quiché (Mayas), Quechua (Incas), además de otras;

- lo que existe hoy de la historia de los pueblos prehispánicos fue una traducción de las lenguas e historias orales para el castellano, pero es necesario acordarse de que “traducir es traicionar”;

- sincretismo cultural, cuando hay una mezcla de culturas, pero es común una cultura ser la dominante sobre la otra. El cristianismo fue determinante en las versiones de las historias de los pueblos precolombinos o prehispánicos.


POPOL VUH

- el “libro de los consejos” o “libro de la comunidad”;

- a pesar de traer trazos del cristianismo, Popol Vuh trae una idea de lo que era acá la cultura anterior. Los frailes, siglos después, introducen trazos de los textos bíblicos, mezclas con pasajes de la biblia (las culturas poderosas son poderosas de verdad…);

- él fue descubierto en el siglo XIX y producido a mediados del siglo XVI. La confección de él es posterior a la llegada de los españoles;

- perpetuación de la cultura oral del pueblo maya en una lengua extranjera. Alguien le puso en una lengua que iba a seguir adelante;

- cultura transmitida por dibujos, jeroglíficos y otros materiales

- los mayas eran pueblos nómades;

- el sincretismo va a ocurrir en todos los textos traducidos de los pueblos precolombinos al español, el cristianismo va a impregnar los textos de las culturas anteriores a la conquista;

- sugestión de lectura: "Serpentes e caveiras" in “Palomar”, de Ítalo Calvino. Para reflexionar sobre la cuestión de como es posible otras posibilidades de lectura y traducción cuando la temática es culturas distintas; (*o texto está nesta postagem, ao final)

- fíjense: no se olviden de que estamos conversando con sujetos de otros tiempos. Muy importante se acordar de eso.

- cuidado con todas las idealizaciones y con todas las demonizaciones que se hacen;

- hay distintas traducciones del Popol Vuh, es decir, versiones del original encontrado en el siglo XIX.

- para reflexionar: “descubrir” es peor que “conquistar”. Descubrir sería para algo que ni siquiera existe. Es una cuestión ideológica;

- versiones del Popol Vuh: años treinta, de Asturias, Guatemala. Años cincuenta, de Emílio Abreu Gomes; y hay otras más;

- los hombres hechos de maíz (Asturias);

- la cultura de los mayas - de los pueblos de América -, no es como la nuestra occidental, ella no es linear, entonces hay otra propuesta del “génesis”, otra cosmogonía; son formas condensadas y no lineares de lectura e interpretación;


CÓDICES

- los primeros “libros” de acá, hechos en cáscaras de árboles. No se olvide de la "contaminación" del sincretismo con los occidentales, sobre todo con los cristianos;

- la traducción para el castellano fue una forma de resistencia, de sobrevivencia de la cultura de ellos porque si no hubieran hecho versiones escritas, su cultura no habría llegado hasta nuestros días;

- por muchos años, siglos, la visión dominante era preconcebida como siendo la cultura de acá inferior, menor que la europea, hasta que empieza a cambiar con Garcilaso, en el siglo XVII.

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* 3.1.2 Serpentes e caveiras, do livro Palomar, de Ítalo Calvino. Tradução de João Reis.


Excerto da nota explicativa no livro: "(...) último livro publicado em vida por Calvino. É uma obra feita de momentos, fragmentos, deslumbramentos, interrogações intermináveis, e que leva à criação de uma personagem, Palomar, que é ao mesmo tempo a ingenuidade em estado puro e a paixão do pensamento ilimitado."


Serpentes e Caveiras

Em viagem pelo México, o senhor Palomar visita as ruínas de Tula, antiga capital dos Toltecas. É acompanhado por um amigo mexicano, conhecedor apaixonado e eloquente das civilizações pré-colombianas, que lhe vai contando as belíssimas lendas de Quetzalcoatl.


Antes de se tornar um deus, Quetzalcoatl foi um rei que teve em Tula a sua corte; dela restam ainda uma série de colunas truncadas, em torno de um implúvio, um pouco à moda dos palácios da Roma antiga.

O templo da Estrela da Manhã é uma pirâmide em degraus. No alto elevam-se quatro cariátides cilíndricas, ditas "atlantes", que representam o deus Quetzalcoatl como Estrela da Manhã (por causa de uma borboleta que trazem nas costas, símbolo da estrela) e quatro colunas esculpidas, que representam a Serpente Emplumada, ou seja, sempre o mesmo deus, sob a forma de animal.

Tudo isto deve ser tido por verdadeiro sem quaisquer provas; por outro lado, seria difícil demonstrar o contrário. Na arqueologia mexicana, cada estátua, cada objecto, cada baixo-relevo, significam alguma coisa que significa alguma coisa que por sua vez significa alguma coisa. Um animal ou, um deus que significa uma estrela que significa um elemento ou uma qualidade humana e assim sucessivamente. Estamos no mundo da escrita pictográfica, os antigos Mexicanos, para escreverem, desenhavam figuras e, mesmo quando desenhavam, era como se escrevessem: cada figura apresenta-se como um enigma a decifrar. Até mesmo os frisos mais abstratos e geométricos que se encontrem na parede de um templo podem ser interpretados como setas se neles se puder ver um motivo de linhas partidas, ou como uma sucessão numérica, de acordo com a maneira como esses mesmos frisos se sucedem. Aqui em Tula os baixos-relevos repetem figuras animais estilizadas: jaguares, coiotes. O amigo mexicano detém-se em cada pedra, transformando-a em relato cósmico, em alegoria, em reflexo moral.

Uma turma de estudantes desfila entre as ruínas: rapazotes com feições de índio, provavelmente descendentes dos construtores daqueles templos, vestidos com uma simples farda branca tipo boy-scout, com lenços azuis. Os rapazes são guiados por um professor que não é muito mais alto do que eles e pouco mais adulto, que apresenta a mesma cara morena, redonda e imóvel. Sobem os altos degraus da pirâmide, detêm-se sob as colunas, o professor diz a que civilização pertencem, a que século, em que pedra estão esculpidas e em seguida conclui: "Não se sabe o que querem dizer" e o grupo de alunos desce atrás dele. Ao pé de cada estátua, ao pé de cada figura esculpida sobre um baixo-relevo ou sobre uma coluna, o professor fornece alguns dados factuais e acrescenta invariavelmente: "Não se sabe o que querem dizer."

Encontram agora um chac-mool, tipo de estátua bastante comum: uma figura humana semiprostrada segura um tabuleiro; era sobre aquele tabuleiro, dizem unânimes os peritos, que eram apresentados os corações ensanguentados das vítimas dos sacrifícios humanos. Estas estátuas, por si só, poderiam igualmente ser vistas como bonacheirões e atarracados bonecos; mas o senhor Palomar, cada vez que vê uma delas, não consegue deixar de sentir calafrios.

Passa a fila dos estudantes. E o professor: Esto es un chac-mool. No se sabe lo que quiere decir. E passa à frente.

O senhor Palomar, apesar de seguir as explicações do amigo que o guia, acaba sempre por se cruzar com os estudantes e ouvir as palavras do professor. Fica fascinado pela riqueza das referências mitológicas do amigo: o jogo do interpretar, a leitura alegórica, sempre lhe pareceu um soberano exercício da mente. Mas sente-se igualmente atraído pela atitude oposta do mestre-escola: aquilo que lhe parecera no início uma expedita falta de interesse vai-se revelando aos seus olhos como uma postura científica e pedagógica, uma opção metodológica deste jovem grave e consciencioso, uma regra a que não quer renunciar. Uma pedra, uma figura, um sinal, uma palavra, que nos chegam isolados do seu contexto, são apenas aquela pedra, aquela figura, aquele sinal ou palavra: podemos tentar defini-los, descrevê-los enquanto tais, e basta; se, para além da face que nos apresentam, têm também uma face escondida, não nos é dado sabê-lo. A recusa de conceber mais do que aquilo que estas pedras nos mostram é talvez o único modo possível de demonstrar respeito pelo seu segredo; tentar adivinhar é presunção, uma traição àquele autêntico significado perdido.

Atrás da pirâmide passa um corredor, uma espécie de trincheira de ligação entre dois muros, um de terra batida, outro de pedra esculpida: o Muro das Serpentes. É talvez a mais bela peça de Tula: no friso em relevo sucedem-se as serpentes, cada uma das quais tem uma caveira nas mandíbulas abertas, como se estivesse para a devorar.

Passam os rapazes. E o professor: "Este é o muro das serpentes. Cada serpente tem na boca uma caveira. Não se sabe o que significam."

O amigo de Palomar não se contém: "Ai isso é que sabe! É a continuidade da vida e da morte, as serpentes são a vida, as caveiras são a morte; a vida que é vida porque traz consigo a morte e a morte é morte porque sem morte não há vida..."

Os rapazotes ouvem de boca aberta, os olhos negros brilham atônitos. O senhor Palomar pensa que toda a tradução requer uma outra tradução e assim sucessivamente. Pergunta a si mesmo: "Que significa morte, vida, continuidade, passagem, para os antigos Toltecas? E que pode querer dizer para estes jovens? E para mim?" E no entanto sabe que nunca poderá sufocar em si a vontade de traduzir, de passar de uma linguagem para outra, de figuras concretas para palavras abstractas, de símbolos abstractos para experiências concretas, de tecer e retecer uma rede de analogias. Não interpretar é impossível, tal como é impossível impedir-se de pensar.

Assim que os estudantes desaparecem atrás de uma esquina, a voz obstinada do pequeno professor faz-se ouvir de novo: "No es verdad, não é verdade aquilo que vos disse aquele señor. Não se sabe o que significam."

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